20/01
13:00

Muvuca no Ferryboat

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

No dia 30 de dezembro de 2018, encontrava-me com minha esposa em Salvador. Tinha recebido um convite de um colega conselheirodo TCE/BA, Inaldo Paixão,para comer uma moqueca de pescada amarela em Caixa Prego, bem no fim da ilha de Itaparica, ou Vera Cruz (a ilhotahoje é formada pelos dois municípios). Inaldo é um dos homens do sistema Tribunal de Contas com quem mais me identifiquei e, se é verdade que etnia, idioma e similitude de propósitos são os três ingredientes que imantam as pessoas- irmanando-as e fazendo delas emergir uma mesma frequência que capta a sonoridade do mundo, ou o modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida- então está explicada essa afinidade. Interessante é que a primeira vez que o vi foi em Buenos Aires. Estávamos, ambos, no mesmo propósito de representaro sistema de controle externo brasileiro num evento que tratava do assunto com colegas argentinos e espanhóis. Falamos o mesmo idioma, aquele que é expressadopelos excluídos dos bairros pobres da velha Salvador. E temos a mesma etnia, pois somos filhos da antiga Estrada das Boiadas que, com a Independência da Bahia, por ali passando o exército libertador, tornou-se Estrada da Liberdade ou Rua Lima e Silva, que se estende da Soledade até o Largo do Tanque. Esse itinerário é cortado por vários guetos, com suas diversas nações: Soledade, Lapinha, Sieiro, Cine Brasil, Ladeira do Inferno, Pero Vaz, Central, Queimadinho, Estica, Gengibirra, São Lourenço, Sete de Abril, Bairro Guarany, Rua São Cristóvão, San Martin, Alto do Peru, Alto do Pará, Japão, Curuzu, Ladeira de Pedra, Graciosa, Largo do Tanque e tantas outras. Inaldo é da nação do Corta Braço, hoje Pero Vaz e antiga roça de Chico Mãozinha, invadida na década de 1940.Eu sou da Liberdade, o bairro mais negro da Bahia, mas, segundo o IBGE, este título pertence hoje à Fazenda Coutos.Vivemos sob os batuques do Ilê Aiyê e do Muzenza, dois blocos afro que orgulham aquelas comunidades. A Liberdade e o Corta Braçoderama mim e a Inaldo a régua. O compasso fomos buscar nos caminhos da vida.

Nosso propósito ideológico, ademais, é o mesmo: construir uma sociedade mais justa, onde a força do trabalho supere a exploração do sangue e do suor do operário. Vejam, pois, que eu e Inaldo compartilhamos da etnia, do idioma e dos propósitos, daí o entrosamento existente. Resolvi, então, ir em direção a Caixa Prego. Deixei o meu veículo no hotel e fui para o ferry de Uber. Acertei com minha filha para nos pegar em Bom Despacho (ela estava veraneando em Aratuba, a quatro quilômetros de Caixa Prego), já que nós íamos como passageiros. A fila de veículos estava tranquila, contudo a dos passageiros estava enorme, saindo do ferry em direção à feira de Água de Meninos.Enfrentamos a fila para compra dos ingressos e até que não demorou muito. Entretanto, durante o trajeto para a bilheteria, vivenciei a amizade de algumas figuras interessantes e a alma do povo baiano, sempre bem-humorado apesar dos atropelos do dia-a-dia. Após essa primeira etapa, demos o segundo passo e entramos na antessala da sala de embarque, onde os passageiros esperavam a abertura do portão.  Pois bem.Fomos os últimos a adentrar no espaço, que já estava entupido de gente.Não dava para ninguém se mexer do lugar. Eram homens, mulheres, crianças, cachorros, gatos,e vários utensílios, como geladeira, ventiladores e caixões carregados com cerveja, muitos desses objetos meticulosamente encachados nas cabeças de algumas pessoas. Aliado a esse tumulto e desconforto, pasmem, o calor a cada minuto que se passava aumentava ainda mais. Minha mulher, por seu turno, começava a reclamar das pisadas, bafos, empurrões e se preocupava com o fato de tê-la colocado naquela situação. E repetia a toda hora a insensatez da direção do ferry em permitir aquilo; que pela demora achava difícil o embarque;que não sabia como o povo aguentava aquele sofrimento; que era um crime o que se fazia com as crianças naquele calor medonho.Ela estava com a matraca solta.

Para mim, tudo era emoção e um filme passava pela minha cabeça. Imagens da minha infância, com meus pais e irmãos atravessando a Baía de Todos os Santos em direção a Itaparica,  desfilavam pela minha mente. Quase não ouvia a angústia da minha mulher. O suor corria pelas minhas pernas. Repentinamente, tudo mudou no ambiente e começaram as reclamações com a demora em encaminhar os passageiros para a sala de embarque: - Abra esta porta, filho da puta!gritou um passageiro aovisualizaruma espécie de segurança na parte de dentrodo Ferry. Como ele era careca, outro gritou: - Abra esse caralho, seu Cabeça de Pica, ninguém está aguentando o calor! Duas moças, que se encontravam no final da aglomeração, começaram a se aproximar da porta de embarque, falando que estavam se mijando. O público, percebendo a aflição das moças, abriram alas para que pudessem transitar. Ocorre que, já no portão de embarque, elas se acalmaram e não procuraram atender às suas necessidades fisiológicas, o que levou a multidão a se rebelar. Passou-se, então, a chamá-las de mijonas: - Ou mijonas, não vão mijar mais não? Um grito, que veio lá do fundo, berrava com eco: - Mijoooooonass!!! E o tempo passando! À proporção que funcionários do ferry surgiam na sala de embarque, gritos começaram a ecoar no recinto, saídos de todos os lados: - Xibungo, abra essa porta; - Cala a boca corno; - Abre a porta Mariquinhas; - Maria Bonita;- Sapatona; - Veada; - Tô me cagando, porra, abra essa porta!; - Filho de uma égua, tá um fedor de rabo que ninguém aguenta, etc. Nisso, abre-se uma sinfonia aterradora, com crianças chorando, cães latindo, gatos miando, e um sorveteiro gritando no seu ouvido: - É sorvete, sorvete, sorvete, coco, mangaba e cajá, um é três reais e dois são cinco. Tudo isso e toda essa algazarra ao mesmo tempo, o que levava a uma agonia geral. Sinceramente, eu vibrava com tudo aquilo. Há muito tempo não vivia aquela realidade. Minha mulher estava pasma com a minha reação.

E então a porta de embarque começa a abrir e uma confusão se forma com todos querendo adentrar ao mesmo tempo. Um jovem cotó, com apenas uma perna, começou a discutir com outros passageiros e foi empurrado abruptamente por um segurança contra o portão. Todos se revoltaram com o guarda, mas os ânimos foram acalmados. Com a situação regularizada, todos acomodados no catamarã, seguimos viagem pela Baía de Todos os Santos. Nisso, um casal gay começa a dançar ao som de músicas baianas. A coreografia encenada pelos dançarinos divertia os passageiros. Estava conversando com o jovem Cotó quando esse me disse: - Quer ver as bibas “endoidar”? Aproximou-se do som, conversou com o dono e entregou-lhe um pen drive. Começa a tocar I Will Survive, na voz de Glória Gaynor. O casal começa a dançar loucamente, agora ao lado da maioria dos passageiros, numa junção de movimento corporal e passos que invejaria as dançarinas do Faustão. Durante o trajeto, a música tocou umas 20 vezes. É umacanção muito bonita, com uma letra que fala de superação, de que é preciso ir para a frente, lutando para transformar o mundo num local único, homogêneo, leve, igual pelo respeito das diferenças. A verdade é que eu estava num bom lugar, ao lado de gente simples, alegre, com extraordinário senso de humor, humilde, esquecida pelas políticas públicas. Todo aquele sofrimento, com grande número de pessoas enjauladas, sem poder sair e nem entrar, é uma afronta à dignidade da pessoa humana. O ferry é uma concessão pública. É inadmissível que o Estado assista de camarote o péssimo serviço que é prestado pela empresa exploradora da concessão. Bom, finalmente cheguei em Caixa Prego. A me esperar, com um sorriso do tamanho de um caminhão, o meu amigo Inaldo, sua mulher e seus sogros. Esplêndida a moqueca de pescada amarela, o siri catado com feijão divinamente temperado, arroz branco e cerveja gelada. Mas fiquei retadocomigo. É que quis ser educado e não repeti o prato. 

Pois é, foi um dia de arromba! Confesso que é nas pequenas coisas que a gente descobre momentos de felicidade. Na volta, sem mais os problemas enfrentados, vim cantarolando um samba de terreiro, “nessa minha caminhada/ sou água de cachoeira/ Ninguém pode me amarrar/Piso firme na corrente/ Que caminha para o mar/Em água de se perder/ eu não me deixo levar”.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
20/01
12:55

Nuvens no cenário externo

Ricardo Lacerda
Professor da UFS

Depois de um período, entre 2017 e parte de 2018, de aceleração e de sincronização de crescimento entre as maiores economias mundiais, o ano de 2018 se encerrou com moderação e assincronia no ritmo de crescimento entre os países líderes, limitando a retomada da atividade econômica nos mercados emergentes e países em desenvolvimento.

Em 2019, China, Estados Unidos e Zona Europeia deverão registrar reduções na taxa de incremento do PIB, enquanto o Japão deverá manter o desempenho já rebaixado de 2018. A moderação no crescimento nas grandes economias, novas rodadas de elevação nos juros básicos nos Estados Unidos e o recrudescimento das disputas comerciais são as principais ameaças à retomada do crescimento das economias em desenvolvimento, notadamenteentre os exportadores de commodities, como são os casos dos países latino-americanos.

Exportadores de commodities
A edição de janeiro de 2019 do relatório Perspectivas Econômicas Globais, do Banco Mundial, aponta o aparecimento de horizonte nublado no cenário econômico em 2019, como resultado da combinação de certa moderação no ritmo de crescimento e condições financeiras menos favoráveis no cenário internacional. Os riscos afetariam especialmente Mercados Emergentes e Economias em Desenvolvimento (EMDEs, na sigla em inglês).

Alguns dos principais EMDEs já estariam se ressentindo de substanciais pressões do mercado financeiro. A situação externa menos favorável vem afetando o crescimento dessas economias, retirando impulso na retomada do crescimento dos países exportadores de commodities, enquanto as economias emergentes importadoras desses bens apresentam desaceleração nos seus ritmos de crescimento. O relatório do Banco Mundial é seco nas suas conclusões sobre as perspectivas da economia mundial: o céu está escurecendo e a retomada dos Mercados Emergentes e das Economias em Desenvolvimento simplesmente parou.

O PIB argentino, depois de crescer 2,9%, em 2017, deve ter recuado 2,8%, em 2018 e, em 2019, deverá apresentar nova forte retração, projetada em 1,7%. No caso do Brasil, o relatório reviu para metade a projeção feita no meio do ano, de crescimento de 2,4% para 2018; a nova estimativa de crescimento para 2018 é de 1,2%, adição de apenas de 0,1 ponto percentual em relação ao PIB de 2017 (Ver Quadro).


Ameaças
Dois tipos de ameaças podem ter maiores impactos sobre as economias dos países em desenvolvimento: o acirramento e a difusão das disputas comerciais e o fim do impulso causado pelo miniciclo de valorização das commodities, sem que os EMDEstenham aproveitado o período favorável para sanear a situação fiscal de suas economias e realizarem esforços para torná-las mais competitivas. A desaceleração no crescimento de algumas maiores economias do mundo já se reflete nos preços das commodities, fechando uma janela de oportunidade para osEMDEs. Em outras palavras, a moderação no crescimento global restringe a retomada no crescimento desses países.

O relatório destaca que o aperto mais acentuado do que esperado anteriormente nas condições de financiamento poderá impactar desfavoravelmente a atividade econômica dos EMDEs e assinala que a escalada das tensões comerciais é outro grande risco negativo para a perspectiva global. O gráficoapresenta a evolução do PIB de algumas das principais economias emergentes entre 2016 e 2018 e as projeções do Banco Mundial para 2019 e 2020.





Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
20/01
12:50

Síntese da homilia na posse do governador do estado

Dom João José Costa
Arcebispo Metropolitano de Aracaju

Felizes as pessoas que, diante de Deus, sabem render ação de graças. Felizes as pessoas que, ao render ação de graças a Deus, têm em mente ser solidárias com todas as outras pessoas, especialmente com as mais necessitadas. 

Felizes os que recebem poderes do povo, para lhes conduzir em busca dos fins do estado, que, em síntese, revestem-se do bem comum. E no bem comum está a justiça social.Nesta tarde, quando o sol se prepara para nos deixar envolver pelos véus da noite, que nós possamos esperar da nova gestão do governo estadual muito trabalho para vencer a crise que se arrasta na vida pública, tangida pelo descompasso entre a economia, a política e a moral administrativa, que, infelizmente, se abateu sobre o país. 

As dificuldades para a gestão pública, em 2019, ainda devem ser grandes, pelo que se antevê através dos prognósticos apontados pelos especialistas. Não tem sido fácil a ação dos governos, nos últimos anos. Não tem sido fácil a vida de milhões de brasileiros, que sofrem com a desigualdade na distribuição de renda, no acúmulo desproporcional da riqueza e no desemprego. 
Às vezes, podemos enxergar em boa parcela da população a situação que Jesus Cristo constatou ao ver as multidões, quando Ele proferiu o sermão da montanha: Jesus se compadeceu daquela gente porque viu ali um rebanho como que sem pastor. Um povo sofrido, espoliado pela prepotência do Império Romano, pela indiferença dos líderes religiosos do Templo de Jerusalém e das sinagogas. O povo pobre abandonado à sua própria sorte, esperando apenas pela misericórdia de Deus.

Há ainda, meus irmãos e minhas irmãs, no seio do povo brasileiro, muita gente sofrida, para quem falta segurança, saúde, educação, moradia, transporte público de qualidade, dignidade e o exercício pleno da cidadania, que são fundamentos da República Federativa do Brasil, como afirma o art. 1º da Constituição Federal.

Precisamos de políticas públicas que possam atender ao clamor do povo pela justiça social. Que possam contribuir de forma decisiva para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, erradicando a pobreza e a marginalização e, ainda, reduzindo as desigualdades sociais, como apregoa o art. 3º da Magna Carta. 

A história administrativa de Sergipe, quer como província imperial, quer como estado-membro, na era republicana, quase sempre foi cercada de problemas que, muitas vezes, angustiaram os governantes e os governados. Mas, ao longo dos tempos, a altivez do povo e a sua luta no trabalho árduo deram suporte aos que nos governaram para poder encontrar caminhos por entre as pedras, que levassem à estabilidade administrativa. 

Nos dias de hoje, em que muitos governantes estaduais têm encontrado dificuldades financeiras para suprir as necessidades básicas da máquina administrativa, é preciso exercer o múnus público com a devida atenção a esta exortação de Santo Tomás de Aquino:“Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir”. 

Que, Vossa Excelência, senhor governador, possa se inspirar nessas palavras do Doutor Angélico. Que saiba escolher bem os seus auxiliares para que, sob o seu comando seguro, encontrem em suas respectivas pastas os meios de propiciar benefícios para todos.

Que as ações do governo, neste novo começar, sejam igualitárias e equânimes, mas, de uma igualdade que iguale os iguais, na medida em que se igualam, e desiguale os desiguais na medida em que se desigualam. Nesse sentido, poderá ser alcançada a justiça social, que tanto aspiramos. 

Voltemo-nos, agora, para a liturgia deste primeiro dia do ano. Civilmente, é o dia da Confraternização Universal. Dia da paz. Liturgicamente, é o dia consagrado a Maria de Nazaré, a Mãe de Deus, que na pessoa do seu Filho Jesus Cristo revelou-se a nós, por amor.Na leitura do livro dos Números foi dito que Deus falou a Moisés para que os sacerdotes assim o dissessem, abençoando o povo:“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz”!

Esta bênção nós a proferimos, nesta santa celebração, para todos os fiéis, e, muito especialmente, para o senhor governador e sua equipe de cooperadores diretos, a fim de que possam trabalhar sem descanso para o bem do povo sergipano. Que encontrem em Deus forças necessárias, para que jamais vacilem no cumprimento do dever, assegurando os direitos e garantias fundamentais que constam do art. 3º da Constituição Estadual. 

Na segunda leitura de hoje, da carta de São Paulo aos Gálatas, o apóstolo dos gentios afirma com precisão que “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva”. 
Maria, como todos nós sabemos, era uma jovem, filha de uma família piedosa, uma família pobre, que morava numa pequena e esquecida povoação da Galileia, região nunca bem vista pelos judeus de Jerusalém. Porém, foi àquela jovem que Deus enviou o seu Anjo, para lhe anunciar que seria a Mãe do Salvador. Hoje, a Igreja Católica celebra exatamente a Mãe de Deus, do Deus Filho, que, vindo do ventre bendito de Maria, cresceu em graça, estatura e sabedoria, para nos resgatar de todo mal, de todo pecado e das sombras da morte. Maria é a nossa Mãe, que como tal nos foi dada pelo próprio Jesus, quando, do alto da cruz, a entregou aos cuidados de João, o mais jovem dos apóstolos, dizendo-lhe: “Eis a tua Mãe”. Entregando Maria como Mãe de João, Ele a entregava como Mãe de todos nós. 
E do Evangelho de São Lucas, que hoje se proclama, temos que “os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, José e o recém-nascido deitado na manjedoura”. 

A primeira reflexão que devemos fazer é sobre quem inicialmente foi ao encontro da Sagrada Família. Foram os pastores, ou seja, foram pessoas pobres, que lutavam para vencer os desafios da vida. E é para pessoas assim, sobretudo, que os governantes devem voltar o seu olhar e as suas ações.A segunda reflexão é sobre o lugar onde os pastores foram encontrar o Santo Menino: numa manjedoura.

 Nascido pobre, simples e humilde, ali, naquela gruta de Belém, estava, todavia, a Divindade, a Onipotência de Deus. O Pai Eterno nos mostra, assim, a necessidade de sermos simples e humildes, como foi o nascimento do Salvador da humanidade. 

Quem exerce o poder, por mandato popular, que, originalmente, é do povo, deve fazê-lo sem prepotência e sem autoritarismo, mas, sim, com autoridade e simplicidade. O exercício do poder tem prazo certo, ou seja, ele é efêmero. O poder só é bem exercido quando se volta para satisfazer as necessidades e as utilidades a serem usufruídas pelo povo. 


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/01
12:49

Zé Toicinho

José Lima Santana*
Padre e professor da UFS

Não sei, e disso preciso certificar-me, se os doutores Netônio Bezerra Machado e José Hamilton Maciel, diletos amigos deste sofrível escrevinhador, conheceram, em Pão de Açúcar, nas Alagoas, pois de lá eles dois são filhos, o famoso rezador Zé Toicinho. Aliás, em Aracaju há uma verdadeira “República” do Pão de Açúcar. Na capital sergipana tem mais gente do Pão de Açúcar do que cearenses como garçons em São Paulo. Pois bem.

Zé Toicinho era o vulgo de José Augusto Bernardes da Fonseca Ribeiro, nome de ministro do Supremo para cima. Interessante, não sei como, no ano passado, ou melhor, no ano antepassado, 2017, veio à minha lembrança o nome de Zé Toicinho. É que eu ainda não me acostumei com 2019. Penso que ainda estou em 2018. Também com tanta coisa acontecendo no Brasil e mexendo com a cabeça da gente, inclusive com um capitão como presidente e um general como vice, que, se fosse nos tempos de coronel Fulgêncio Argolo, o Argolão, cabra matador como poucos em qualquer lugar do mundo, isso seria motivo para se tirar a coisa a limpo. Um capitão ser maior do que um general? “Só no Brasil, nesta terra de caiporas e sacis-pererês”, haveria de dizer o citado coronel, cuspindo longe uma cagada de pato, escura, arrancada dos pulmões consumidos pelo fumo de rolo dos cigarros pés-duros, que ele fumava a três por dois. 

Eu conheci Zé Toicinho, exatamente em Pão de Açúcar, na beira do rio São Francisco, quando, num começo de tarde de sábado, eu consumia, deliciosos pitus, iguaria muito melhor do que lagosta, comidinha de grã-finos, que só tem preço. Mas, algum enxerido há de ter a petulância de dizer: “Você só diz isso porque é pobre e não pode pagar um prato de lagostas na manteiga de ervas”. Ah, infeliz! Era o que eu haveria de responder. 

Voltemos ao Zé Toicinho. Antes, porém, eu preciso dizer que um lombo de frigideira, como minha mãe costumava fazer, recheado com toicinho, bem marinado, para se comer dentro de alguns dias, velho, bem curtido, era uma delícia dos céus. Agora, por conta do diabetes, nem pensar em carne de porco. Porém, pensando bem, será que carne de porco faz mal a um diabético? Hei de consultar o Dr. Darcy Tavares, outro que veio das bandas do Pão de Açúcar. Menino, se olhar bem, talvez tenha mais gente do Pão de Açúcar do que sergipanos, no Aracaju. Ai já não será mais uma “República”, e, sim, uma “Confederação”. Deixe para lá! Afinal, é tudo gente boa, gente da gente. Vai aqui outra enrolação: banha de porco, toicinho, torresmo e carne de porco salgada, tudo isso, era comprado na casa de Barroso da finada Odília, lá no meu subúrbio, nas Dores. Todavia, carne fresca de porco era comprada a Arnaldo Pafó, no Talho de Carnes, construído em 1918, pelo intendente Álvaro de Souza Brito.

Agora, sim, vamos ao Zé Toicinho. Não haverá mais desvios. Eu prometo. É que tem uns leitores exigentes demais e querem que eu dê logo conta do serviço. Pois bem. E este é o segundo “pois bem”. Zé Toicinho tornou-se rezador nos sertões das Alagoas. Com o tempo, ele veio descendo pelas ribanceiras do Velho Chico e bateu em Pão de Açúcar. Eu duvido que o Dr. Netônio e o Dr. Zé Hamilton não o tenham conhecido. Estava ali um sujeito que não gostava de trapicolas. Com ele, era tudo na chincha. Arrochado. O pai de Zé Toicinho tinha sido um grandola da política da região de Maravilha e Ouro Branco. Prefeito algumas vezes, gastador, pôs tudo que tinha a perder, para eleger sujeitos da capital aos cargos de deputado, senador e governador. Quando se viu de esmola, Antônio Felício da Fonseca Ribeiro entregou o pescoço a uma corda de caroá. Pobre homem! A família não encontrou guarida da parte de nenhum dos políticos para os quais Antônio Felício carreara votos em seguidas eleições. 

Um ano depois da morte do pai de Zé Toicinho, Dona Eleonora jogou-se no mundo com sete filhos, dois homens e cinco mulheres. O mais velho era José Augusto, que tinha dezoito anos. Nas barrancas do São Francisco, bem mais acima de Pão de Açúcar, onde a família fez pousada, um celerado desonrou Maria Rosa, que tinha quinze anos. Perdida, a mocinha lançou-se nas águas barrentas do rio, numa manhã invernosa. Foi, então, que José Augusto teve que se fazer nas armas. Enfiou um punhal enferrujado na goela do deflorador, que, segundo se dizia, era useiro e vezeiro em fazer aquilo, ou seja, em colher a preciosa flor de mocinhas pobres. José Augusto foi dar com o bandido numa bodega de pé de pau. De acordo com testemunhas, ele se achegou para o futuro defunto e gritou: “Tu tá morto, cabra”! Pegou o sujeito de supetão, mas não pelas costas. Foi de frente. O aço entrou na goela, atravessando-a, e o sangue espirrou no peito do matador. Serviço feito, José Augusto benzeu-se e balbuciou uma reza. Depois, saiu como se nada tivesse acontecido. 

Zé Toicinho, isto é, José Augusto, aos dezoito anos de idade aboletou-se no mundo. A família ficou sob a proteção do coronel Tancredo, desafeto da família do morto. Uns meses depois, o coronel mandou dar conta de José Augusto. Botou advogado e o livrou no júri formado por pessoas da sua intimidade. E foi então que José Augusto passou a fazer uns “servicinhos” para o coronel Tancredo. Fez um, fez dois, fez três... e foi fazendo. Após cada serviço, ele costumava benzer-se e rezar. Daí veio a fama de rezador. 

Passou o tempo, José Augusto bandeou-se para São Paulo. Largou a vida antiga, após ser preso e comer cadeia por doze anos. Àquela altura, era um homem de trinta e poucos anos. Constituiu família. Com sessenta e alguns anos de idade, aposentado como motorista de ônibus, ele retornou para Alagoas. Fixou-se no Pão de Açúcar, por volta dos anos 1970. Ele e a esposa. Os filhos e netos ficaram em São Paulo. No Velho Chico, Zé Toicinho tornou-se pescador. Eu o conheci vendendo pitus salgados, já na década de 1980. Ele devia beirar os oitenta anos. Mas, ainda era forte, estava bem para a idade. E pelas saudações recebidas de várias pessoas, ele parecia ser bem quisto. 

Conversa vai, conversa vem, eu fiquei sabendo um pouco de sua vida. Não por ele, mas por um primo, que era dono do bar onde eu comi uma moqueca de pitus, no sábado em que o conheci. Aliás, dele eu comprei dois quilos de pitus salgados. 

Só uma coisa eu não soube: de onde veio o apelido de Zé Toicinho. 

Puxa vida! Mas, será que o Dr. Netônio e o Dr. Zé Hamilton não conheceram Zé Toicinho? Hei de tirar isso a limpo. Quem sabe se eles não sabem de onde veio o apelido? 

* Advogado e membro da ASL. da ASLJ e do IHGS


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
17/01
22:51

Sinpol/SE apresenta nova direção sindical para gestão 2019-2020

O Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol/SE) realizou um animado café da manhã com o objetivo de marcar simbolicamente a posse da nova diretoria sindical gestão 2019-2022, cujo presidente é o agente de Polícia Civil Adriano Bandeira.

"Não tenho dúvida de que hoje inauguramos um novo modelo de gestão, havendo transparência em nossas ações com a própria categoria e possibilitando, na medida do possível, o diálogo com gestores. Temos grandes desafios e pautas desafiadoras à frente da categoria mas tenho certeza que com o profissionalismo e dedicação dos nossos diretores alcançaremos nossos objetivos", destacou Adriano.

Durante o café da manhã, as datas de todas as assembleias ordinárias de 2019 foram divulgadas, tendo em vista a necessidade de unir a categoria para discutir demandas de âmbito local, regional e nacional. A primeira Assembleia Ordinária do Sinpol/SE será no dia 12 de fevereiro, às 17h, no auditório da Academia de Polícia Civil (Acadepol). Depois, ocorrerão em 14 de maio, 13 de agosto e 12 de novembro.

Como benefícios imediatos, a nova diretoria destaca a assessoria jurídica ao filiado de segunda à quinta-feira, das 14 às 17h, que está ocorrendo de forma presencial na sede do Sinpol/SE. Além da Assessoria Contábil através do responsável técnico, Josevaldo Mota, que nos meses de março e abril estará à frente da equipe que realiza a elaboração e entrega das Declarações de Imposto de Renda Pessoas Físicas para os associados, além de diversos convênios existentes.

"O Sinpol está de parabéns iniciando o ano com esse belíssimo café da manhã oferecido aos associados e a imprensa sergipana juntamente com a posse da diretoria do sindicato", disse Josevaldo Mota, que é também presidente da Sociedade Brasileira de Contabilidade.

Gestão sindical 2019/2022

Presidente: Adriano Machado Bandeira
Vice-Presidente: Robenilde Gonçalves de Oliveira
Diretor Financeiro: Luciano Rodrigues de Melo
Diretor Administrativo: Leonardo Mota Ramos
Diretor de Comunicação: Geraldo Moura Santos
Diretor de Assuntos Jurídicos: Ênio Nascimento Santos
Diretor de Políticas Associativas e Sindicais: Rafael Almeida de Oliveira
Diretor de Assuntos dos Aposentados: Jorge Aglaelson Gomes
Diretora de Esporte e Lazer: Sandra Lis Batista de Oliveira
Diretor de Assuntos Parlamentares: Jefferson Silva Santos
Conselheiro Fiscal: Adilton Menezes da Paz
Conselheiro Fiscal: Emanuel Ricardo Gonçalves Góes
Conselheiro Fiscal: Yuri Tavares Rocha


Variedades
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Por Kleber Santos
13/01
12:52

Elites médicas e política

Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS

Certa vez, em entrevista ao jornalista Osmário Santos, o ex-deputado estadual Leopoldo Souza declarou que pensou em estudar Medicina para fazer a carreira de político. Essa era compreensão que se tinha/se tem da profissão médica, para aqueles que fazem o clientelismo político. Com efeito, nas sociedades em que predomina a política clientelística, o exercício da Medicina permite que médicos transformem redes de pacientes em redes de clientes ou de eleitores. Imagine você médico trabalhando por anos, a serviço da Secretaria Estadual da Saúde e de prefeituras, atendendo a pacientes que são economicamente de baixa ou nenhuma renda e de baixa escolaridade.

Essas atividades médicas geram laços pessoais de dívida pessoal dos pacientes para com profissionais da Medicina, mesmo que se trate de serviço público. Ou ainda reflita o leitor sobre médico que trabalha para empresas privadas e sindicatos com grande número de empregados e filiados. Nos dois casos, esses pacientes podem não ter ideia do que é ter direitos, entendendo a prestação de serviço médico como um favor - coisa que é, sutilmente ou não, reforçada por prefeitos, empregadores e lideranças sindicais de um modo geral. Era nisso que pensava o político mencionado acima. Não é demais lembrar que até hoje políticos contratam médicos para a prestar serviços médicos a seus eleitores, quando não usam a própria máquina pública para fins eleitorais. Mesmo que essa prática médica não seja bastante para conquistar um mandato eletivo, nem exclusividade de Sergipe, ela serve para o candidato dizer que tem um “serviço social” para mostrar. Evidentemente, esse não é o único caminho trilhado por médicos que fazem política partidária e nem todos os médicos da esfera pública e privada recorrem a essa estratégia para ingressar e permanecer na política.

Foi pensando nessas práticas médicas que nós lemos o dicionário biográfico de médicos sergipanos organizado por Antônio Samarone de Santana, Lúcio Antônio Prado Dias e Petrônio Andrade Gomes, publicado em 2009 (SANTANA, Antônio Samarone et al.  Dicionário biográfico de médicos de Sergipe. Aracaju: Academia Sergipana de Medicina, 2009). O livro tem duzentas e cinquenta e cinco páginas e é todo de luxo (capa, contracapa e páginas). Os três organizadores são médicos e, salvo engano de nossa parte, apenas o professor universitário e servidor público do Ministério do Trabalho Antônio Samarone de Santana tem tido militância na política sergipana.

O livro está estruturado da seguinte forma: a) pequenos textos usados como apresentação do livro (Débora Pimentel: “Apresentação”; Luiz Antônio Barreto: “Dicionário Biográfico de Médicos”; Antônio Samarone de Santana: “Os Médicos Sergipanos”; Lúcio Antônio Prado Dias: “Lembranças que não fenecem”; Petrônio Andrade Gomes: “Dr. Augusto Leite na Medicina de Sergipe”); b) quatrocentos e vinte e um (421) verbetes biográficos de médicos, c) e mais quarenta (40) verbetes biográficos de médicos pertencentes à Academia Sergipana de Medicina, entre os quais estão os organizadores do livro. Como o leitor pode imaginar, os quatrocentos e vinte e um verbetes biográficos são a parte principal e mais importante do livro. Na construção dos verbetes biográficos os organizadores utilizaram três critérios, isto é, médicos vivos, falecidos e membros da Academia Sergipana de Medicina. Entre vivos e mortos, o livro contém verbetes biográficos de médicos sergipanos que aqui praticaram a Medicina, médicos sergipanos que se radicaram em outros estados e médicos de outros estados que em Sergipe se instalaram. O lapso temporal coberto pelo livro vai do século XIX ao XX e começos da atual centúria.

Esse é tipicamente um livro que serve como fonte para pesquisas acadêmicas. Certamente, o objetivo de seus organizadores foi aquele de resgatar a memória de um grande número de médicos sergipanos, fazendo-lhes uma homenagem em forma de livro. O livro traz em seu bojo dois tipos de fontes: fotos de pessoas, fotos de hospitais, médicos da Faculdade Medicina da Bahia, fotos de salas de cirurgia, foto de aula de anatomia e de eventos importantes na Medicina, e,  verbetes biográficos apresentados em ordem alfabética. Quanto a esses verbetes biográficos, têm um problema: ninguém fica sabendo quem escreveu os tais verbetes. É verdade que, na parte chamada de “bibliografia”, fontes bibliográficas são citadas, além dos arquivos do Conselho Regional de Medicina do Estado de Sergipe, sindicato semelhante à OAB dos advogados. Temos a impressão de que as principais fontes utilizadas foram o dicionário biobibliográfico de Armindo Guaraná e as fichas com dados pessoais e profissionais existentes no sindicato referido.

O dicionário biográfico de médicos sergipanos traz muitas informações interessantes mesmo para quem não pertence à poderosa corporação médica. Ficamos sabendo, por exemplo, da participação de médicos sergipanos na Guerra do Paraguai. No dicionário, são referidos alguns desses médicos: Antônio Pancrácio de Lima Vasconcelos, Eugênio Guimarães Rebello, Eusébio Góes, José Ignácio Pimentel, Manuel Baptista Valadão, Manuel Lobo etc. Quando submarinos alemães torpedearam, em 1942, navios brasileiros e corpos foram trazidos pelas águas à Praia do Mosqueiro, em Aracaju, médicos sergipanos (Carlos Moraes de Menezes, Jessé Fontes, Pedro Soares, etc.) tiveram uma atuação importante no seu resgate e depois no acompanhamento da construção do Cemitério dos Náufragos, local ainda à espera de um memorial.

Uma vez que a Faculdade de Medicina da UFS foi inaugurada em 1961, não é difícil concluir que os médicos das famílias geralmente abastadas sergipanas eram treinados, principalmente, na conservadora Faculdade de Medicina da Bahia – exatamente como aconteceu com os bacharéis em Direito, depois de a Bahia ter criado sua faculdade de Direito com o fim do Império, mas com a diferença de a Faculdade de Medicina ter sido fundada em 1808. Como foram muitos os médicos formados na Bahia e que aqui não tinham o que fazer, muitos desses profissionais sergipanos se transferiram para outros estados, sobretudo São Paulo. Na história da Medicina em Sergipe, muitos médicos vieram da Bahia, de Alagoas etc. e aqui fincaram raízes.

O que contém cada verbete biográfico? Basicamente, dados pessoais e profissionais como data e local de nascimento, pertencimento a instituições sociais, locais de estudos e especializações, empregos principais, livros publicados etc. As informações são desiguais, ou seja, em alguns casos são bem pequenos perfis biográficos e em outros maiores. Vistos em conjunto, todos os perfis não são grandes. Existem também informações sobre aqueles que exerceram cargos políticos, obtidos por nomeação política e através de eleições. É isso que nos interessa nesse livro.

Certamente, não têm sido poucos os médicos que têm ocupado cargos políticos por nomeação. Como se sabe, existe uma reserva de mercado na máquina estatal para os médicos. Eles ocupam, geralmente, os ministérios e as secretarias da saúde do Estado federal, dos Estados Federados e dos Municípios. Existe uma crença ingênua na população segundo a qual eles sabem como administrar os problemas da saúde em qualquer nível estatal pelo simles fato de serem médicos. “Gestor da saúde tem ser médico”, dizem por aí. Não indicar um médico para a pasta da saúde significa não prestigiar essa corporação profissional. Nesse sentido, muitos foram os secretários da saúde no Estado em Sergipe. Citaremos alguns nomes que nos são mais familiares: Everton de Oliveira, José Machado de Souza, Lauro Augusto do Prado Maia e Lucilo Costa Pinto. Entre os secretários de estado ocupando pastas que não a saúde, eis aqui alguns nomes: Nestor Piva, Walter Cardoso, Iracema Barbosa Carneiro Leão e João Cardoso Nascimento Junior, É preciso acrescentar que muitos médicos têm ocupado cargos políticos que são geralmente ocupados através de eleições mas que, por causa de períodos autoritários da nossa política, foram simplesmente indicados.

A lista de médicos tendo ocupado cargos políticos eletivos não é extensa, se comparação for feita com os bacharéis em Direito. Mesmo assim, entre esses profissionais podem ser apontados governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores. Não é demais lembrar que, visto que os verbetes biográficos também cobrem o período da monarquia, esses mesmos cargos recebem outras denominações – as quais por sua vez, em alguns casos, foram mantidas com a época republicana (presidentes de província, intendentes, etc.) Eis a seguir a lista de muitos desses nomes de médicos que ocuparam postos eletivos por um ou mais mandatos e de médicos que fizeram da política a sua profissão.

Entre os governadores, mencionamos Felisbello Freire (o primeiro governador sergipano), Rodrigues Dória, Eronildes Carvalho, Augusto Franco e Lourival Batista; procurando não repetir os nomes daqueles profissionais que também foram governadores (o que vale para os demais citados adiante), foram senadores os médicos Augusto César Leite, Durval Rodrigues da Cruz, Lauro Dantas Hora,Gilvan Rocha, Francisco Rollemberg etc.; entre os deputados federais: o grande pensador social brasileiro Manuel Bonfim, Joviniano Joaquim de Carvalho (pai de Carvalho Neto) , etc.; entre os deputados estaduais: Marcelo Ribeiro, Airton de Mendonça Teles, Armando Domingues, Octávio Penalva, Edelzio Vieira de Melo, Eraldo Lemos; entre os prefeitos (Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, Carlos Firpo,  etc.; e entre os vereadores (Antônio Garcia Filho, Emerson Ferreira, Gonzaga, e muitos outros).

Voltando ao livro, queremos dizer que esse o tipo de trabalho que não envelhece, a exemplo do famoso trabalho pioneiro de Armindo Guaraná ou, mais recentemente, do livro com memórias de políticos produzido por Osmário Santos que tem tornado possível um considerado número de monografias, dissertações e teses acadêmicas. Apesar dos preconceitos de algumas pessoas, da mesma forma que precisamos conhecer mais os  grupos subalternos sergipanos, também necessitamos saber sobre as suas elites dirigentes.
 


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/01
11:41

Um Santo de Pau Oco

José Lima Santana
Professor da UFS

Naquele ano, ano de mais uma seca horrenda, e que era 1932, o povo do sertão do Poço do Boi a Gruta da Onça, das cabeceiras do Riacho do Alecrim ao encontro deste com as águas sempre barrentas do córrego do Morcego, enfrentou fome e sede. Mais uma vez. Desde os tempos de Dom Pedro II que vinha sendo daquele jeito.

Promessas de acabar com a seca vinham desde que o Coronel Afonso de Brotas e Alencastro se tornou o Barão do Alecrim. Como? Ninguém jamais soube. Deduzia-se que o título de nobreza a ele concedido por favor de sua Majestade foi em razão de o Coronel Afonso ter mandado fazer uma estrada que ligava Borda do Alecrim, cidadezinha enxofrada, de pouca valia, ao Matão de Dentro, esta, sim, uma cidade de peso e nome no sertão. A estrada estendia-se por umas três léguas e meia. Deduzia-se também que o genro do Coronel, deputado à Assembleia da Corte com prestígio junto aos ministros de sua Majestade, teria conseguido o título de nobreza para o sogro, pai de filha única a deixar terras, engenhos, gado e comércio de algodão para engrossar o já grosso patrimônio do genro deputado com carreira política garantida, quem sabe para ser ministro do Império, algum dia. Título de nobreza mais esquisito só mesmo o do Barão da Patioba. Para este é que nunca teve explicação.

A seca de 32 foi mais braba do que a de 1911, a pior desde a de 1872. Era o que se dizia. Os mais velhos, os sertanejos de raiz enterrada na terra como árvore graúda, baraúna e jequitibá, por exemplo, mas, ainda, rijos como pau-ferro, lembravam muito bem daquelas secas celeradas. Porém, ninguém dizia o contrário em relação àquela de 32. A besta fera parecia ter-se soltado nos desvãos do tempo e ali estava ela a atiçar o sol e a esconder as nuvens carregadas de chuva. O sertão pegava fogo, como nunca visto antes. Até urubu, aproveitador de tudo que é tipo de carniça, precisou mudar de ares. Uma calamidade se abateu sobre o sertão. Aquela seca tinha cara de herege, como bem o disse Sá Donana de Teodoro Pena de Brotas, aparentado com o velho Barão do Alecrim, que há muito se mudou para a cidade de pés juntos.

Levas e levas de sertanejos desciam todos os dias para a região do Brejo em busca de, no mínimo, uma cuia de farinha para saciar a fome e uma cabaça de água para matar a sede. As estradas e as veredas enchiam-se de gente magra, que mal caminhava, bamboleando como espantalhos sacudidos pelo vento. As cidades do Brejo não podiam conter tantos retirantes. E estes continuavam a bambolear no rumo da capital. O governo do estado não sabia o que fazer. A oposição lascava o interventor federal, através dos jornais. Enquanto isso, o povo continuava sofrendo com o descaso das autoridades.

Em Caçambinhas, povoado com pretensões de virar cidade, apareceu no início de outubro daquele ano, 32, um sujeito de Bíblia na mão, dizendo-se mensageiro de Deus. Era um tipo magricela, alto, dentuço, vestido num terno preto surrado, sem gravata, cabelos desgrenhados. Voz de trombeta, anunciava o fim do mundo. O mundo, dizia o tipo, seria destruído pelo fogo. O sol aproximar-se-ia da Terra e soltaria labaredas imensas que destruiriam tudo em poucas horas. Mas, segundo a sua pregação, se o povo tivesse fé, se deixasse de lado as maledicências, se dobrasse os joelhos diante de Deus, o mundo poderia ser salvo. E ele, o missionário João Miguel, esse era o seu nome, estava ali enviado por Deus, que escolheu aquele lugar perdido no sertão afogueado para dali mostrar o seu poder e a sua misericórdia para salvar a humanidade.

Às pregações do missionário acorriam magotes de gente. Os desvalidos tentavam agarrar-se ao que lhes vinha à frente. E ali estava o salvador do mundo, o emissário do Senhor, com orações fortes, para desfazer o desmantelo que estava para ocorrer a qualquer momento. Mais que depressa, o missionário João Miguel tornou-se santo. O povo assim o quis. Milagres começaram a ser relatados. Visões do céu se abrindo, e lá nas alturas via-se o missionário ao lado de Jesus, que estava ao lado direito do Pai. Uma velhinha quase morta de fome viu duas rolinhas caldo-de-feijão cair-lhes no colo. Ela as depenou e as assou num espeto improvisado e matou a fome que lhe devorava. As rolinhas caíram após uma oração do missionário. Eram muitos os relatos de milagres creditados ao missionário magricela com voz de trombeta. Se a seca tangia levas de gente do sertão para a região do Brejo, levas ainda maiores começaram a chegar a Caçambinhas.

A fama de santo do missionário João Miguel já se tinha espalhado por todo o estado. Até um deputado com interesse na emancipação de Caçambinhas passou a dar guarida ao santo do sertão. E levou mantimentos, farinha de mandioca e carne seca do Rio Grande, para distribuir com o povo, aglomerado em torno do santo missionário. Era o deputado Leonardo Monteiro, que tinha ali nas redondezas um bom curral eleitoral e esperava emplacar um seu irmão como futuro prefeito da nova cidade.

O missionário convocou o povo para orar no dia 30 de outubro. Era o dia em que Deus ouviria as súplicas dos fiéis, contendo o fim do mundo. O sol haveria de parar no centro da abobada celeste, como ocorreu, em Gabaon, no tempo de Josué, que lutava com os seus valentes contra cinco reis: o rei de Jerusalém, o rei de Hebron, o rei de Jarmut, o rei de Laquis e o rei de Eglon. Assim como Josué, o missionário invocaria o santo nome de Deus, pedindo-lhe que fizesse o sol parar. A partir dali o mundo estaria salvo. As chuvas cairiam abundantemente sobre todo o sertão e nunca mais haveria seca.

No dia aprazado pelo missionário, Caçambinhas mais parecia um formigueiro. Uma romaria imensa, como as águas de um rio caudaloso, tomou conta do povoado e de seus arredores. As estradas e as veredas entulhavam-se de peregrinos. O missionário de cabelos desgrenhados agitava as pessoas com sua voz de alto-falante. A glória de Deus seria manifestada diante do povo. Ao meio-dia, o sol estacionaria sobre o povoado. O mundo estaria salvo. Por volta das onze e meia, as pessoas entraram em frenesi. Aproximava-se o momento em que Deus mostraria o seu poder e a sua misericórdia. O sertão tinha o seu santo.

Meio-dia. Delirando, muita gente viu o sol se deter no céu. “Glórias a Deus” e “Aleluias” irromperam no povoado. Gritos, choros e gemidos. Devotos caíram de joelhos diante do missionário, cujo suor escorria pelo rosto como água de bica. Afinal, a temperatura devia estar na casa dos trinta e tantos graus. Todos suavam em bicas. O tempo passou. Porém, o sol também passou. Não tinha se detido nem por um segundo sequer. A certo momento, alguém gritou: “O sol não parou, não”! Outras pessoas repetiram o grito. O frenesi, este, sim, parou. Zezinho de Zé Geraldo, adversário do deputado Leonardo Monteiro e que, como tal, era contra a emancipação de Caçambinhas, descrente, desde o primeiro instante, das orações do missionário, alardeou: “Esse missionário é um santo de pau oco”.

E foi assim que o missionário João Miguel sumiu de Caçambinhas. Naquele mesmo dia, muita gente desorientada e desiludida retirou-se do povoado. O sol também acabou se retirando para dar lugar a mais uma noite. A seca continuou até junho de 33, quando os primeiros chuviscos começaram a refrescar a terra.


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
07/01
19:13

Primeira inspeção de 2019 no Hospital Municipal Nestor Piva é realizada por fiscais do Coren-SE

Foi constatado no livro de ordens e ocorrências, indícios de que na Observação Masculina havia atrasos na prescrição médica dos pacientes internados

O departamento de fiscalização do Conselho Regional de Enfermagem de Sergipe (Coren-SE) realizou na manhã do último domingo (06/01), uma fiscalização no Hospital Municipal Dr. Nestor Piva, localizado na Zona Norte de Aracaju.

A chefe do departamento de fiscalização, Bárbara Tavares, acompanhada da enfermeira fiscal, Nívia Fabiana da Silva, constataram no livro de ordens e ocorrências, indícios de que na Observação Masculina havia atrasos na prescrição médica dos pacientes internados. Durante a inspeção, também foi verificado que toda equipe de enfermagem estava presente para prestar toda a assistência de enfermagem necessária. O Hospital Nestor Piva está apenas atendendo Urgência e Emergência Adulta e mantendo a assistência dos pacientes internados.

Todos os profissionais de enfermagem que estavam na unidade hospitalar foram orientados acerca da legislação de enfermagem de forma a garantir assistência adequada, com respaldo ético-legal, protegendo tanto a assistência aos usuários quanto aos profissionais do serviço. O Conselho enviará os relatórios das fiscalizações realizadas neste fim de semana à Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju apontando quais adequações devem ser executadas para resguardar eticamente os profissionais de enfermagem.

Fonte: Ascom/Coren-SE


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Por Kleber Santos
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