25/01
12:44

O emprego formal em 2014

Ricardo Lacerda

A estagnação da economia brasileira fez com que a criação de emprego formal em 2014 tenha se apresentado bem menos intensa do que em anos anteriores. Desde que se iniciou o ciclo de inclusão social em 2004 o Brasil manteve a notável marca de mais de um milhão de empregos formais gerados por ano, mesmo depois que a crise financeira mundial se instalou no final de 2008.

2014 foi o ano em que a crise econômica ameaçou a continuidade da melhoria do mercado de trabalho, no sentido de que a criação de emprego com carteira assinada deverá ter crescido, depois de muitos anos, à taxa similar a do incremento da PEA- População Economicamente Ativa, interrompendo o longo ciclo de formalização do mercado de trabalho. Depois dos dois milhões de empregos formais criados em 2011, foram gerados 1,37 milhão em 2012, e 1,1 milhão, em 2013, frente a uma geração de empregos bem menos intensa em 2014, de 397 mil, equivalentes a taxa de crescimento de 0,98% (ver Gráfico 1).
r

Setorial


A geração de quase 400 mil postos de trabalho em um ano de crescimento próximo a zero do PIB não chega a ser um resultado desastroso, comparado ao que aconteceu nas economias centrais depois de 2008, mas, além de ter sido um recuo muito grande em relação ao que vinha ocorrendo nos anos anteriores, ele foi especiamente duro em alguns setores de atividade.

Foram os desempenhos negativos do setor industrial e da construção civil que mais contribuíram para a menor geração do emprego em 2014 (ver Gráfico 2). A indústria de transformação, mesmo enfrentando dificuldades há alguns anos, ainda gerou 122 mil empregos em 2013. Em 2014 a situação se agravou muito. Foram destruídos simplesmente 163 mil postos de trabalho na atividade industrial.

Ainda que grande parte dos empregos perdidos no setor industrial tenha se concentrado no subsetor metal-mecânico, reflexo do recuo da produção automobilística, todos os subsetores da indústria, com a exceção de alimentos e bebidas, desempregaram em 2014.
Além do complexo automobilístico, as atividades em alguns ramos de bens não duráveis intensivos em trabalho, como calçado e têxteis-confecções dispensaram grandes contingentes de trabalhadores. Na construção civil, foram fechados 106 mil postos de trabalho.

O comércio e o setor de serviços, que vêm sustentando o crescimento econômico desde que a atividade industrial estagnou em 2008, abriram um grande número de vagas em 2014, mas em quantidades bem inferiores às do ano anterior, sintoma de que a perda de dinamicidade vem se disseminando nos vários segmentos econômicos. Em comparação ao ano de 2013, a geração de emprego de 2014 foi menor em todos os setores de atividade (a exceção foi o setor agrícola, mas ele já havia reduzido o emprego em 2013, apenas cortou menos postos de trabalho em 2014).


Regional
 
Em termos regionais, a desaceleração na geração de emprego em 2014 foi mais acentuada nas regiões em que a atividade industrial pesam mais no emprego total, o Sudeste e o Norte, mas todas as regiões criaram menos emprego do que no ano anterior. Alguns estados das regiões Norte e Nordeste ainda mantiveram taxas de elevação do emprego formal acima de 3%. No caso do Nordeste, além de Sergipe (3,01%), Piauí, Ceará e Paraíba. Em Sergipe foram criados quase nove mil (8.913) novos empregos formais em 2014. Os setores que mais criaram emprego na economia sergipana em 2014 foram o comércio, o turismo, a atividade sucroalcooleira, devido a retomada parcial depois da estiagem, o setor de saúde e a  atividade de call center, que continuou se expandindo.
 
Não foram poucos os economistas ortodoxos que atribuíram à baixa taxa de desocupação a maior parte dos nossos desequilíbrios macroeconômicos. Em uma perspectiva invertida em relação aos objetivos da política econômica, infelizmente muito disseminada, a intensa geração de emprego foi vista como um mal. Argumentavam tais especialistas que a ocupação próxima ao pleno emprego pressionava os salários para cima, colocando-os em patamar superior ao da produtividade do trabalho, o que seria a raiz dos todos os nossos males, desde a relutância da inflação em retornar ao centro da meta até a perda de competitividade do nosso setor industrial.
 
Nesta perspectiva, o real valorizado e o cenário de crise prolongada da economia internacional deveriam ser tomados como meros dados da realidade em relação aos quais nada haveria a fazer; o ajuste deveria vir pelo mercado de trabalho, em forma de destruição de postos de trabalho a fim de alinhar os reajustes salariais ao incremento da produtividade. O ano de 2015 está apenas começando. Para quem não compartilha de crenças tão maquiavélicas, a evolução do mercado de trabalho será o termômetro mais sensível para acompanhar o desenrolar da economia ao longo dos próximos meses.

Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/





Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
25/01
09:14

Coluna Primeira Mão

Medidas do governo do Estado ainda não foram bem entendidas

Parcela do funcionalismo e da população aparentemente não compreendeu a extensão e abrangência das medidas administrativas que estão sendo tomadas pelo governo estadual desde o final do ano passado. Não se trata apenas de um ajuste com a finalidade de adequar as despesas de pessoal aos limites da LRF ou de uma contenção de despesa para fazer frente a uma situação de caixa com pouco dinheiro. Esses são aspectos importantes para que possam ser cumpridas as obrigações financeiras que se repetem mês a mês, mas as medidas visam mais do que isso.

 

O objetivo principal é buscar a readequação da estrutura do estado para torna-lo mais eficiente na prestação de serviços à população. O governo almeja desenhar uma estrutura de estado mais enxuta e mais eficiente, promover uma modernização administrativa para que a população possa receber serviços de saúde melhores, para que a educação supra suas enormes deficiências de qualidade. Da mesma forma, para que o estado realize os investimentos em infraestrutura que são imprescindíveis ao desenvolvimento.

 

A redução do número de secretarias e a supressão de cargos comissionados foram os primeiros passos. Outros mais importantes estão por vir, como a extinção de empresas e a readequação de suas estruturas às necessidades atuais e futuras, porque muitas foram criadas há muitas décadas quando as necessidades eram bem outras.

Mas há insatisfações e elas são justas. Ninguém está disposto a abrir mão de direitos, principalmente quando se trata de vantagens salariais.

 

Pelo fim da subvenção na Assembleia Legislativa


A deputada estadual Ana Lúcia (PT) foi a única, entre os 24 deputados em exercício de mandato, entre os novatos e os reeleitos em outubro de 2014, que se dispôs a abrir mão da subvenção a que tem direito para que isso possa, pelo menos, contribuir para melhorar a imagem do Poder Legislativo. A iniciativa solitária da parlamentar não motivou nenhum dos outros se quer a se manifestarem sobre a questão. Todos calaram, dando a entender que estão de olho nos R$ 1,5 milhão a que têm direito como subvenção e que muitas das vezes eles mesmos recebem de volta e compram apartamentos em áreas nobres de Aracaju, casas de praias e até propriedades rurais. Neste ano, as subvenções vão consumir R$ 36 milhões dos recursos pagos pela população à título de impostos e que servirão para alimentar a indústria da politicagem e da pregação da ilusão aos inocentes eleitores. Ainda assim, o desafio continua em aberto. Quais são os deputados estaduais que vão defender o fim da subvenção no Poder Legislativo de Sergipe? Que se manifestem.

 


Luciano Bispo é a opção dos governistas


Está cada vez bem mais visível - até nas porradas frequentes na mídia e nos comentários da oposição - que o deputado estadual Luciano Bispo (PMDB) é a real opção do PMDB para a Presidência da Assembleia Legislativa de Sergipe. Entre as opções existentes, parece ser ele a única com disposição para desmontar os esquemas existentes na Casa. E é justamente isso que tem induzido os opositores a ‘bater’ nele com gosto. Pessoas próximas ao parlamentar afirmam que hoje ele teria 16 ou 17 dos 24 votos. A eleição da mesa e a posse acontecerão no dia 01 de fevereiro e no dia 15 serão retomadas as atividades do parlamento estadual.


Mudanças na PMA –
Auxiliares do prefeito de Aracaju, João Alves Filho (DEM), comentaram com o blog que “ele não está dando nenhum encaminhamento à propalada reforma da equipe”. João não revelou se ainda pretende promover as mudanças ou se deixará tudo como está. Ele estaria propenso a fazer as mudanças para dar agilidade à suas administração.

 


Crise na Saúde motiva enfrentamento entre João, Rogério e Batalha


O prefeito de Aracaju, João Alves Filho (DEM), acusou o deputado federal Rogério Carvalho (PT) de ter destruído a Saúde em Aracaju, no Estado, nas fundações e no Hospital de Cirurgia. João fez a afirmação ao falar sobre a dívida da Prefeitura, algo em torno de R$ 5 milhões, com o Hospital de Cirurgia. Rogério concedeu entrevista e disse ver no prefeito da capital “o exterminador da Saúde” e estar usando discurso fugidio, lhe acusando para “fugir de seus problemas administrativos”. A briga discursiva rendeu e o secretário de Comunicação de Aracaju, jornalista Carlos Batalha e o deputado Rogério Carvalho bateram boca no rádio de forma bastante agressiva um com o outro.

 


Não é justo barrar as festas populares por causa de maus gestores


Embora pareça uma iniciativa simpática para os opositores dos prefeitos e até para os eleitores de maior senso crítico, o blog não corrobora com o ideário de proibir as festas populares nas cidades onde as prefeituras estão, aparentemente, sem dinheiro ou com salários em atraso. Os moradores dessas cidades, principalmente os mais pobres, levam a vida a trabalhar e, claro, todos desejam ter momentos de lazer. E é justamente isso que essas festas garantem. O Ministério Público e o Judiciário agiriam de forma mais dura se suspendessem os salários dos prefeitos, seus vices, secretários e demais ocupantes da cargos comissionados para efetuar o pagamento dos salários e poderiam afastar os maus gestores de suas atividades. Suspendendo as festas, parece ter buscado uma punição para a população, que, na verdade, foi “engabelada” pelos espertalhões da politicagem. Que as festas aconteçam e que os gastos sejam mínimos.


Mandato relâmpago -
O deputado estadual Zé Franco fica na Presidência da Assembleia Legislativa por nove dias. Deixará o cargo no dia 1º de fevereiro e ganhará uma foto na galeria dos ex-presidentes do Poder. Lá está um outro Franco, o ex-deputado, ex-desembargador e ex-governador Fernando, primo de Zé.


PSC reelegerá André seu líder na Câmara Federal e irá para a oposição

 


O PSC, dos irmãos Edivan e Eduardo Amorim, vai para a oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff. Isso vai ficar claro a partir do discurso que fará o deputado federal André Moura (PSC/SE), que será reeleito para a liderança na Câmara, no dia 2 de fevereiro. O partido terá como principais focos de ‘porradas ‘ em Dilma e no governador de Sergipe, Jackson Barreto, a educação, a saúde, a segurança pública e a cobrança de transparência.


Estudantes da UFS vão escolher direção do DCE 3ª feira


Nos dias 27 e 28 de janeiro será realizada a eleição para o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Sergipe (DCE/UFS). Na disputa, duas chapas. A primeira (chapa 1), sucessora da atual gestão, é presidida pelo movimento Levante Popular da Juventude, com composição do coletivo Quilombo, Ousadia, Juventude da Articulação de Esquerda, além de estudantes independentes, com histórico de lutas estudantis e em favor dos movimentos sociais, com o mote da universidade popular. A segunda (chapa 2), de oposição e menor expressão, é formada por estudantes autointitulados conservadores e apartidários, os quais evidenciam, segundo seus opositores, pautas e práticas de extrema direita, inclusive com seguidores filiados ao DEM (apesar de se dizerem apartidários) e em vias de filiação ao Partido Novo, mais uma sigla na iminência de conclusão do registro eleitoral.

Luiz Mendonça assumirá presidência do TJ dia 5 de fevereiro


O desembargador Luiz Mendonça assumirá no dia 05 de fevereiro, às 17 horas, a Presidência do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (TJSE). Caberá aos desembargadores José dos Anjos e Ricardo Múcio a Vice-Presidência e a Corregedoria, respectivamente. O ato solene em que o desembargador Cláudio Déda passará o comando para Mendonça será no edifício-sede do TJ, na Praça Fausto Cardoso.


Saumíneo Nascimento volta ao BNB


O ex-secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico, Saumíneo Nascimento, assumirá a Superintendência do Banco do Nordeste (BNB) no dia 2 de fevereiro. Ele teve atuação destacada na Sedetec e a pasta a agora será de responsabilidade do advogado e ex-secretário da Agricultura Francisco Dantas. Nascimento é funcionário de carreira do BNB.


Não se engane -
O grande nome da oposição à presidente Dilma Rousseff e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil é a TV Globo, que já perdeu quatro disputas sucessivas e anda desesperada para impor desgastes às imagens de seus dois maiores rivais. Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin são fichinhas.


Estão ‘apagando’ os micos –
Há duas ou três semanas muitos “micos”, popularmente conhecidos como saguis, estão aparecendo mortos na área do conjunto Augusto Franco, Aruana e Atalaia. Os macaquinhos são animais divertidos, que passam brincando pelas fiações da cidade, passeiam pelos muros da casas e fazem malabarismos em árvores, principalmente coqueiros e mangueiras, cujos frutos os alimentam. Quando vêm frutas, ´principalmente bananas em espaços isolados das casas, correm, pegam uma e se mandam para as árvores, onde fazem a farra. Desconheço ações violentas do animal. Por que, então, matá-los envenenados, como suspeitam alguns ecologistas? Trata-se de pura maldade.


Consumo de água em alta -
Somente poderia ocorrer racionamento de água em Sergipe se houver uma queda brusca no volume do rio São Francisco, principal responsável pelo abastecimento do Estado. As adutoras estão funcionando perfeitamente e os reservatórios têm água suficiente para garantir o bem-estar de todos. Ainda bem!


Pré-Cajuzinho –
O Fest Verão, evento que foi criado para substituir o Pré-Caju, levou muita gente para a arena em frente ao shopping Riomar. Não aquela multidão que o Pré-Caju levava a avenida Beira Mar, mas deu para fazer um barulhinho animador.


Aju Folia ‘dançou’ -
A festa Aju Folia, que aconteceria neste domingo, 25, da avenida Barão de Maroim, em frente ao rio Sergipe, até o posto Aracaju, nas proximidades do Iate Clube, não será realizada. Segundo Antônio Leite, um dos organizadores, faltou patrocinador.

Lauro Menezes: “Continuo morando em Sergipe”

“Eu não estou morando em Miami (EUA), como andaram propagando por aí. Fui levar meus filhos para estudar e voltei para Sergipe, terra em que sempre estive. O resto, é boato”. O desabafo é do empresário e suplente de senador, Lauro Menezes (PSC). Ele fez questão de destacar que “o Brasil é meu país e Sergipe o meu Estado. Aqui sempre vivi e viverei. Mas isso não me impede de viajar”.



Coluna Eugênio Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
24/01
22:09

Las Locas de la Plaza de Mayo, Gelman e Akhmátova

José Lima Santana -  É professor do Departamento de Direito da UFS

 

Um dia elas se reuniram na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Eram poucas. Mas o número só fez crescer. Lá estavam elas com seus panos brancos nas cabeças. Este era o lema delas: “La lucha de las Madres de Mayo contra la dictadura militar y a favor de la vida”. Elas exigiam notícias dos seus filhos e filhas desaparecidos por conta da maldita ditadura militar argentina (para mim, toda ditadura de direita ou de esquerda é maldita). No início, eram mães. E depois, eram mães e avós. Alguns as chamavam “Las Locas de Mayo”. Meu Deus! Netos e netas nascidos nos porões da ditadura foram doados ou vendidos a várias famílias, que, claro, não eram as suas. O filme “A História Oficial”, dirigido por Luis Puenzo, que faturou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986, baseia-se na história de um casal, Alicia Marnet de Ibánez e Roberto, que adotou uma dessas crianças. Ele sabia que a menina adotada era filha de uma desaparecida, mas Alicia, não. Desconfiada, ela luta para saber a verdade. O filme é forte. E pode ser encontrado em DVD.

O poeta Juan Gelman, combatente de esquerda desde a juventude, e, na minha modesta opinião, o melhor poeta argentino de sua geração, pouco depois de exilar-se, em 1976, teve seu filho Marcelo e sua nora, a espanhola Claudia García, grávida de 7 meses, sequestrados por militares argentinos. Marcelo tinha 20 anos e Claudia, 19. Marcelo foi torturado e, 13 anos depois, seus restos mortais foram encontrados em um tambor de cimento e areia junto com outros sete companheiros. Claudia foi levada clandestinamente para Montevidéu, capital do Uruguai, onde desapareceu em 1977, após dar à luz uma menina no Hospital Militar. Segundo uma investigação da Comissão para a Paz, criada pelo presidente do Uruguai Jorge Batlle (2000-2005), Claudia foi assassinada depois do parto. E ainda tem quem defenda as ditaduras, de direita ou de esquerda! Eu as abomino. Todas elas.

A neta de Juan Gelman, Macarena, foi criada pela família de um policial uruguaio, que escondeu dela sua verdadeira identidade, mas, em 2000, o considerado "poeta da dor" a localizou e, a partir daí, ambos, avô e neta, lutaram pelo esclarecimento da verdade. Aliás, no filme “A História Oficial”, a menina Gaby, adotada pelo casal acima citado, refere-se à menina Macarena mais de uma vez, como sua coleguinha de escola. É uma homenagem.

A poética de Gelman “é um desafio contra o esquecimento e a perda da memória de seu povo”. O “seu lirismo pessoal é feito de fúria e de ternura”. Ele recebeu vários prêmios literários. Nascido em 1930, Gelman faleceu em 14/01/2014, no México. Abaixo, um poema “dolorido” de Juan Gelman, “Oração de um desocupado”: “Pai, / desce dos céus, esqueci / as orações que me ensinou minha avó, / pobrezinha, ela agora / repousa, / não tem mais que lavar, limpar, não tem mais / que preocupar-se, andando o dia todo, atrás da roupa, / não tem mais que velar de noite, penosamente, / rezar, pedir-Te coisas, resmungando docemente. // Desce dos céus, se estás, desce então, / pois morro de fome nesta esquina, / não sei para que serve haver nascido, / olho as mãos inchadas, / não têm trabalho, não têm, / desce um pouco, contempla / isto que sou, este sapato roto, / esta angústia, este estômago vazio, / esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, / cavando-me a carne, / este dormir assim, / sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. // Te digo que não entendo, Pai, desce, / toca-me a alma, olha-me o coração, / eu não roubei, nem assassinei, fui criança / e em troca me golpeiam e golpeiam, / te digo que não entendo, Pai, desce, / se estás, pois busco / resignação em mim e não tenho e vou / encher-me de raiva e afilar-me / para brigar e vou / gritar até estourar o pescoço de sangue, / porque não posso mais, tenho rins / e sou um homem, / desce! Que fizeram de tua criatura, Pai? / Um animal furioso /que mastiga a pedra da rua?”.

            Eu li esse poema de Gelman, pela primeira vez, no livro “Pai Nosso”, de Leonardo Boff, na década de 1980. Fiquei encantado. Passei a buscar o autor, mas, no tempo anterior à internet, não encontrei nada. Tempos depois, em Buenos Aires, tomei conhecimento de sua obra. E, mais: de sua vida, de sua luta. Quantos pais, como ele, perderam os seus filhos nas garras das ditaduras de direita ou de esquerda pelo mundo afora, incluindo o Brasil? Milhares? Milhões? Vai-se saber!

            E por falar em poesia e em ditadura, lembro-me da poetisa russa Anna Akhmátova, pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko (1889-1966), na verdade nascida em Odessa, na Ucrânia, que as autoridades ditatoriais stalinistas perseguiram e proibiram a publicação de seus livros. Fuzilaram um de seus maridos e mandaram o outro para um campo de concentração, onde ele morreu. Mantiveram seu único filho, Lev Gumilev, na prisão durante muito tempo. Todavia, nada disso quebrou a sua fibra e nem fez com que o público, que sempre a amara, esquecesse a sua poesia. Akhmátova teve a chance de ser exilada, pois o regime teria preferido, em determinado momento, ver-se livre dela, mas ela jamais quis deixar a sua pátria e o seu povo. Assim, no poema “Réquiem”, do livro “Réquiem: um ciclo de poemas”, que reuniu poemas de 1935 a 1940, ela cantou: “Não, não foi sob um céu estrangeiro, / nem ao abrigo de asas estrangeiras – / eu estava bem no meio do meu povo, / lá onde o meu povo infelizmente estava”. O seu povo estava sob o jugo dos expurgos empreendidos por Josef Stalin, em que milhões foram presos em “gulags”, ou mortos, embora boa parte da população soviética aparentemente apoiasse o estado comunista. Forçosamente ou não. Como todos devem saber, os “gulags” eram campos de trabalho forçado da ex-União Soviética (URSS), criados após a Revolução Comunista de 1917 para abrigar criminosos e “inimigos” do Estado. Gulag era uma sigla, em russo, para “Direção Principal (ou Administração) dos Campos de Trabalho Corretivo” (“Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey”) que se espalhavam por todo o país. Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Pode-se recordar o livro “Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970.

            Voltando a Akhmátova, a sua poesia permaneceu tão viva, que, em 1989, ao comemorar-se o centenário de seu nascimento, o seu nome foi dado a uma estrela que tinha acabado de ser descoberta.

            Não posso acolher a ideia de uma ditadura, venha de onde vier, esteja onde estiver. Como não acolho a ideia de uma “democracia” (?) que se deixa turvar pelo capitalismo selvagem, que faz das pessoas mais fragilizadas apenas “coisas”. A “coisificação” das pessoas dói como se fosse um ferro em brasa atravessando a carne de alguém.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 25 e 26 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
24/01
22:05

Um comunista no 28 BC

Afonso Nascimento - Professor de Direito da UFS


Essa é uma história verdadeira. Ela se refere a um irmão nosso que fez o seu serviço militar obrigatório no quartel do 28° BC durante o período de definhamento da ditadura militar em Sergipe, em fins dos anos 1970. Ele teve muitos problemas de integração à rotina da caserna e ali pegou muitas cadeias. Sofreu as conhecidas humilhações porque passam todas as pessoas que recebem o treinamento de soldados reservistas. Por outro lado, lá aprendeu um ofício que determinou o seu destino profissional até hoje.

Pelo que me contou tempos atrás, o treinamento militar consistia em três tipos de atividades que podem ser resumidas da seguinte forma: preparação física, treinamento no uso de diversos tipos de armas de fogo e doutrinação militar. Dessas atividades vamos destacar a doutrinação militar porque esse é um aspecto que nunca encontrei abordado por autores que escreveram sobre a ditadura militar brasileira.

Essa doutrinação é parte do processo de transformar um jovem civil em um jovem militar, fazê-lo pensar como um militar. Nisso reside uma dimensão importante da socialização militar. Com maior ou menor sucesso, trata-se de fazer uma “lavagem cerebral” dos futuros reservistas. Esse processo é particularmente intenso no caso de militares, mas coisa semelhante ou pior acontece na socialização de padres.

No caso da doutrinação para pensar como militar, ela significa fazer alguém pensar diferentemente de um civil. Isso é uma coisa que acontece em qualquer parte do mundo. Todavia, em se tratando de um contexto mundial de Guerra Fria e de uma ditadura militar no Brasil, esse processo adquiriu alguns contornos próprios. Em relação à Guerra Fria, o inimigo escolhido era, naturalmente, o comunista real ou imaginado.

Quanto ao aspecto militar da ditadura, a doutrinação se encarregava de desqualificar os civis, responsabilizados por todos os males que levaram ao golpe militar de 1964 e à ditadura que a ele se seguiu. Passadas várias décadas do fim desse regime autoritário, é de se esperar que as pessoas fazendo o objeto de tal doutrinação tenham sido mudadas. Agora imagine o leitor que isso ocorreu pelos vinte e um anos da ditadura militar sobre milhares de jovens miliares espalhados pelo Brasil afora e que a Guerra Fria começou com o fim da Segunda Guerra Mundial. Deixemos isso para lá e voltemos ao nosso recruta.

Antes de ser convocado para prestar o serviço militar, ele tinha sido persuadido a entrar nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em Aracaju. Estando o partidão na clandestinidade, ele fez um pouco de tudo o que se espera de um recruta comunista: pichou muros, distribuiu jornais, participou de aulas de doutrinação comunista e de reuniões de planejamento de ações em casas e sítios em Aracaju e no interior, etc. Toda essa atividade parou quando, ao completar dezoito anos, começou a prestar o serviço militar.

A sua vida mudou. Os antigos camaradas de partido clandestino procuraram se afastar dele. Fazia sentido. Ele tinha “mudado de lado”. E sabia demais! Enquanto aprendiz de reservista, ele viveu momentos terríveis, de muita ansiedade, quando tinha que ouvir as preleções anticomunistas de seus comandantes. Suava frio, por exemplo, quando seus superiores diziam como deviam ser tratados os comunistas! E o que era pior: pensava em coisas horríveis que poderiam lhe acontecer caso os militares tomassem conhecimento do seu passado comunista. Felizmente, nada disso aconteceu.

Terminado o serviço militar, ele voltou a integrar os quadros do Partido Comunista Brasileiro, mas agora com uma diferença: era um jovem comunista com treinamento militar recebido nas dependências de uma instituição militar, dentro da legalidade da época, sem ter precisado passar uma temporada em Cuba ou em algum lugar ermo do interior do Brasil.

Moral da história: não existe sistema de segurança perfeito.

PS: Nunca entendemos porque os policiais militares sergipanos trabalham por um dia (vinte e quatro horas) e têm folga por três dias (setenta e duas horas). Quem consegue trabalhar por vinte e quatro horas? O que fazem os policiais militares durante esses três dias de folga? Descansam? Se for modificada essa escala, “aumentará” o número de policiais militares, bem como o número de horas que poderão ser usadas na segurança dos sergipanos. Parece, mas não temos certeza, que é muita gordura e ociosidade a ser cortada.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
23/01
20:51

Gualberto será líder do Governo na Assembléia de SE

O deputado estadual Francisco Gualberto (PT) foi convidado pelo governador Jackson Barreto (PMDB) para assumir a liderança do Governo na Assembleia Legislativa de Sergipe e aceitou. Gualberto foi líder do governo Marcelo Déda (PT) na Alese e se destacou na função. Foi líder no primeiro e segundo mandatos do petista Déda.

Francisco Gualberto nasceu em São Cristóvão. Aos 12 anos cortou lenha por metro e chegou a vender manga para se sustentar, já que ficou órfão cedo. Perto de completar 14 anos, conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada. Foi porteiro, locutor de auto-falante e exerceu outras atividades operárias. Em 1983, foi aprovado no concurso para a antiga Nitrofértil, hoje a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Nordeste (Fafen). Trabalhou na empresa durante 12 anos, no setor de materiais. Saiu em 1995, após ter seu contrato de trabalho suspenso pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso em virtude de ser um dos líderes sindicais que comandou a histórica greve naquele ano.

Aos 18 anos, Gualberto já era filiado ao MDB, partido de oposição à Arena, que governava o Brasil. Sempre ligado ao mundo sindical, passou a participar do núcleo dos petroquímicos da Nitrofértil e, junto com os companheiros sindicalistas, começou a discutir a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em Aracaju, em 1980.

Ele foi vereador por Aracaju e segundo suplente de deputado estadual em 2002, vindo a assumir o mandato após o assassinato do deputado Joaldo Barbosa, em janeiro de 2003, e o consequente afastamento do então deputado Antônio Francisco (1º suplente), preso e condenado pela morte do colega parlamentar. Em 2006, Gualberto foi reeleito para a Assembléia Legislativa de Sergipe com 16.700 votos. (com dados da assessoria)



Política
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
21/01
03:09

Prefeito define calendário de ações de infraestrutura em bairros da capital


Na manhã desta terça-feira, 20, o prefeito João Alves Filho reuniu-se com secretários municipais para discutir o andamento de ações realizadas pela Prefeitura de Aracaju. Participaram da reunião os secretários Carlos Batalha (Secom), Luiz Durval (Seminfra), Socorro Cacho (Emurb), Georlize Teles (Semdec), Nelson Felipe (SMTT), Igor Albuquerque (Seplog), Eduardo Matos (Sema), Luciano Paz (Sefaz) e Edson Leal (Emsurb).

O encontro, que aconteceu na sede da Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb), serviu para o acompanhamento e debate de relatórios sobre as visitas iniciadas pelo prefeito aos bairros da capital.

As visitas começaram na semana passada, quando o prefeito, acompanhado de equipe técnica e secretários, percorreu diversos pontos da cidade que apresentam problemas. Esses locais foram diagnosticados após pesquisa de opinião contratada pela Secretaria Municipal de Comunicação Social (Secom), em que 2.960 de 79 localidades foram ouvidas sobre as principais necessidades de cada comunidade.

Durante a reunião de hoje, ficou definido um calendário de ações imediatas. O primeiro bairro a receber, nos próximos dias, um conjunto de ações de diversos órgãos da Prefeitura será o Japãozinho. A comunidade terá asfaltamento em diversas ruas, reparos no calçamento, reforma de praça, ajustes na iluminação pública com substituição de lâmpadas, e urbanismo. O segundo local a receber as ações será o conjunto Maria do Carmo.

Da assessoria
Foto: Ascom/Emurb


Política
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/01
23:56

Eliane Aquino desiste da Inclusão Social e será assessora da Saúde


A ex-primeira dama Eliane Aquino desistiu de assumir a Secretaria de Estado da Inclusão Social. A pasta ficou muito grande quando assumiu as atividades do Trabalho, Direitos Humanos e Mulheres e muita gente que não seria de seu agrado iria para lá.

Eliane acatou convite do governador Jackson Barreto para assumir uma assessoria junto à Secretaria da Saúde para tratar de portadores de necessidades especiais.


Política
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
20/01
00:18

Resultados da Loteca - Concurso 636




Variedades
Com.: 0
Por Kleber Santos
Primeira « Anterior « 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos