01/04
14:37

Balanço dos estaduais: Timão vence clássico e Fla perde


A hora das decisões ainda está distante, mas, quando há clássicos, sempre aparecem histórias para contar. Foi o que aconteceu em São Paulo e em Pernambuco, onde os torcedores de Corinthians e Santa Cruz passaram um domingo de Páscoa especialmente feliz, com vitórias sobre seus arquirrivais. Resumimos alguns dos principais resultados do final de semana nos estaduais:

Campeonato Paulista:
A liderança não estava exatamente em jogo e, no fundo, São Paulo e Corinthians tinham bons motivos para estarem mais preocupados com os confrontos importantes que têm no meio da semana pela Copa Libertadores. Mas, afinal de contas, era um São Paulo x Corinthians, um clássico, e isso bastou para um jogo que, além de tecnicamente interessante, teve tensão, polêmica e uma emocionante vitória dos corintianos por 2 a 1, graças a um gol de pênalti de Alexandre Pato – após ele próprio sofrer a falta, do goleiro Rogério Ceni – aos 37 minutos do segundo tempo.

Líder com 35 pontos e um jogo a menos, o São Paulo pensa em minimizar o efeito moral da derrota para o arquirrival, sobretudo pela maneira como veio: num pênalti no final, que nasceu de um erro defensivo e que, pior, ainda provocou uma lesão no pé de Rogério Ceni, o que faz dele dúvida para o duelo fundamental contra o The Strongest na quinta-feira.

O domingo se encerrou com o Santos visitando o Oeste e assistindo à recuperação de Neymar, que vinha de ser criticado pela própria torcida: ele criou jogadas individuais e marcou um belo gol para abrir o placar em Itápolis. Os santistas ainda levaram um susto, mas terminaram vencendo por 2 a 1 graças a um gol de Cícero. A equipe está em terceiro lugar com 32 pontos, dois a menos da vice-líder Ponte Preta.

Campeonato Pernambucano:
Também foi dia de clássico no Recife, e esse foi de fato marcante. Não apenas porque o Santa Cruz tirou a liderança das mãos do Náutico, mas porque o fez com uma vitória por 2 a 0 que foi a primeira da equipe nos Aflitos num período de mais de sete anos. Natan e Dênis Marques marcaram os gols tricolores para levar o time à primeira posição do returno com 19 pontos, um a mais do que os arquirrivais Náutico e Sport.

Campeonato Carioca:
A Taca Rio não começou lá muito animadora para a maioria dos grandes do Rio de Janeiro. No Grupo A, em que Botafogo e Vasco têm penado, as duas equipes não entraram em campo no final de semana, mas o B viu mais uma zebra: em Moça Bonita, o Flamengo levou um gol aos 46 minutos do segundo tempo e caiu por 2 a 1 diante do Audax. Após quatro rodadas, o Flamengo é o quarto colocado da chave, com quatro pontos, enquanto o Fluminense fez 2 a 0 no Boavista no sábado e é o segundo com dez, dois atrás do Resende.

Campeonato Mineiro:
A situação no Rio é bem diferente daquela de Minas Gerais, onde os líderes Cruzeiro e Atlético Mineiro seguem tranquilos na frente dos rivais. A Raposa marcou 4 a 2 no Villa Nova no sábado e, no dia seguinte, Diego Tardelli, Jô e Ronaldinho brilharam nos 4 a 1 do Galo sobre o Tupi. Os cruzeirenses têm 22 pontos, contra 21 dos atleticanos – seis à frente do terceiro colocado Villa Nova.


Esportes
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Por Kleber Santos
01/04
14:35

Os brasileiros pelo mundo


O final de semana dos brasileiros mundo afora teve algumas atuações de destaque, de Philipe Coutinho em fase cada vez melhor no Liverpool até o início primoroso de três atacantes – Elkeson, Kieza e Edu – no futebol chinês. Veja um resumo do que rolou com eles no final de semana:

Inglaterra: Foi mais uma bela jornada da curta, mas já destacada campanha de Philipe Coutinho com o Liverpool. Na vitória por 2 a 1 sobre o Aston Villa, o brasileiro se entendeu bem com o uruguaio Luís Suárez e deu uma bela assistência para o gol de empate, o que lhe valeu um elogio do técnico Brendan Rodgers. “O passe dele para o gol de (Jordan) Henderson foi sensacional.” Os Reds ocupam agora a 7ª colocação com 31 pontos. Na ponta, o Manchester United segue disparado com 77 pontos depois de bater o Sunderland fora de casa por 1 a 0. O segundo colocado Manchester City goleou o Newcastle por 4 a 0 e foi a 62, enquanto o Chelsea foi responsável pela surpresa da rodada: perdeu por 2 a 1 para o Southampton e caiu para 4º lugar, atrás do Tottenham.

Espanha: O grande jogo da rodada para os brasileiros foi a vitória de sábado do Málaga, fora de casa, por 3 a 1 sobre o Rayo Vallecano: o capitão Weligton abriu o placar e, após o empate da equipe de Madri, Júlio Baptista fez o segundo. Os malaguenhos chegam embalados para a disputa inédita das quartas de final da UEFA Champions League, na quarta-feira, quando encaram o Borussia Dortmund. Outro brasileiro que marcou foi Jonas, no empate em 1 a 1 do Valencia contra o Atlético de Madri. A liderança, como há tanto tempo, é do Barcelona com 75 pontos, contra 62 do Real Madrid. Ambos empataram como visitantes: o Madrid em 1 a 1 com o Zaragoza e o Barça, em 2 a 2 com o Celta de Vigo, graças a Lionel Messi, que entrou no 2º tempo e marcou um gol pela 19ª rodada seguida, ou seja, contra cada um dos outros times da liga. De forma consecutiva. Uau.

Alemanha: O meia cearense Raffael, que fez toda sua carreira na Europa – começando na Suíça e partindo para Ucrânia – fez seu primeiro gol na Bundesliga na vitória do Schalke 04 por 3 a 0 sobre o Hoffenheim. Pelo Wolfsburg, Diego abriu o placar no empate em 2 a 2 diante do Nuremberg. Mas está difícil falar de algo no país que não seja o Bayern de Munique, agora líderes com 20 pontos a mais do que o Dortmund após emplacar, vejam só, absurdos 9 a 2 no Hamburgo, com direito a quatro gols do peruano Claudio Pizarro.

Itália: Outro brasileiro obscuro em seu próprio país anotou gol na Serie A: o atacante carioca Paulo Vítor Barreto, camisa 10 do Torino, fez o primeiro na derrota por 5 a 3 para o Napoli. Entre os conhecidos, Hernanes foi titular da Lazio nos 2 a 1 sobre o Catania, assim como Robinho, na dura vitória do Milan como visitante diante do Chievo por 1 a 0. A Juventus venceu por 2 a 1 o clássico contra a Inter de Milão e manteve a diferença de nove pontos sobre o Napoli: 69 a 58 pontos.

França: Não há lugar onde o centroavante Brandão se sinta mais em casa do que na França. Jogando sua quinta temporada no país, primeira pelo Saint-Étienne, ele fez o gol de empate em 2 a 2 da equipe contra o Troyes, seu 10º na Ligue 1. O líder Paris Saint-Germain – com Thiago Silva, Alex e Maxwell como titulares na defesa, mas ainda sem o lesionado Lucas – teve rodada perfeita: venceu o Montpellier por 1 a 0 e ainda viu o Lyon perder em casa para o Sochaux e cair para o terceiro lugar, atrás do Olympique de Marselha. A vantagem de parisienses sobre marselheses é de sete pontos.


Esportes
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Por Kleber Santos
01/04
10:31

Resumão do esporte desse final de semana


TÊNIS
O fim de semana foi de viradas nas decisões femininas e masculina do ATP 1000 de Miami. No sábado, Maria Sharapova parecia disposta a acabar com o reinado de Serena Williams ao vencer o primeiro set por 6/4 e ter 3/2 e o saque no segundo set. Porém, a russa teve uma apagão, perdeu dez games seguidos e o título, com 6/3 e 6/0 para a líder do ranking.
No domingo foi a vez de Andy Murray (foto) e David Ferrer medirem forças. E o espanhol até teve a chance de erguer a bonita taça. Fez 6/2 no primeiro set e depois de perder o segundo por 6/4, teve um match point no terceiro, quando o placar marcava 6/5 para ele.
O título poderia ter vindo num desafio. Mas o seu pedido foi frustrado já que a bola do escocês beliscou a risca. Murray confirmou o game e foi implacável no tie-breaker, com 7 a 1 para assumir o segundo lugar no ranking da ATP, superando o suíço Roger Federer.

BASQUETE
O sábado foi dia de jogo decisivo da LBF entre Sport e a atual campeã, Americana, no interior do estado. Partida equilibrada, com vitória das pernambucanas por 54 a 44 e grande passo ao título, já que os dois jogos agora da série melhor de três serão no Recife.
O dia também foi de recorde para Kobe Bryant na NBA. O astro dos Lakers fez 19 pontos na vitória sobre o Sacramento Kings e se tornou o quarto maior cestinha da história. Kobe superou nada menos que o lendário Wilt Chamberlain, agora com 31.434 contra 31.419.
No domingo, numa prévia do que pode ser a decisão da NBA, o Mimai Heat provou o quanto está favorito ao bicampeonato. Mesmo sem Dwayne Wade e LeBron James, poupados, ganhou dos Spurs, em San Antonio, por 88 a 86.

VÔLEI
Em sua reta final, a Superliga Masculina de Vôlei definiu seu primeiro finalista após dois jogos no sábado. É o atual campeão Cruzeiro, que se aproveitou de lesão nas costas do líbero Serginho, do Sesi, para vencer na Vila Leopoldina. Triunfo por 3 a 0, parciais de 25/22, 25/23 e 36/34.
Os mineiros terão de aguardar o terceiro jogo entre Minas e RJX, sexta-feira. Isso pelo fato de os conterrâneos terem atropelado os cariocas, por 3 a 0, parciais de 25/21, 27/25 e 25/20. A final acontece no dia 14, no Maracanãzinho.


Esportes
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Por Kleber Santos
01/04
05:10

Como era ser pobre em Sergipe

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS


O leitor já teve a oportunidade de encontrar pessoas indignadas com a concessão da bolsa-família para algum miserável sergipano? Pois é, essas pessoas existem e estão sempre armadas com bons argumentos contra aqueles que dizem que a bolsa fomenta a preguiça, "vicia o cidadão" ( como na música de Luiz Gonzaga), etc. De vez em quando, porque esses comentários são frequentes, eu pergunto a essas pessoas se elas têm ideia do que recebem os pobres dos países europeus com o seu estado-providência. Então eu lhes digo que na Europa rica as pessoas, além dos seus salários em situação ordinária ou de seus generosos seguros-desempregos, ganham escola, transporte, saúde ( com direito a retorno com gastos com médicos e remédios) de qualidade, ajuda com aluguel, boas aposentadorias e muitas outras alocações em relação aos filhos, à maternidade, etc.

Apesar da ameaça de destruição do estado de bem-estar social, esses europeus "pobretões" fretam aviões e vêm passear em países como o Brasil como se fossem "ricos". Aí eu não posso deixar de dizer como somos mesquinhos fazendo questão com a ninharia da bolsa-família ( pouco mais de cem reais) que custa outra micharia ( em torno de quinze bilhões ) no orçamento da União. Naturalmente, por aquelas bandas não existe o estardalhaço dessa política social que termina por transformar os seus beneficiários em uma gigantesca clientela eleitoral - o que é uma coisa muito lastimável.

Eu sou um ex-pobre. Eu e minha família fizemos parte da questão social do Brasil. Por isso, sinto-me à vontade para escrever com experiência e reflexão sobre o assunto. É preciso dizer, para início de conversa, que a pobreza pode ser e que pode não ser uma condição ontológica. Trocando em miúdos, existe a diferença entre ser pobre e estar pobre. Aquelas pessoas que são pobres a vida inteira, vivem na pobreza e a pobreza moram nelas. As duas coisas se confudem. Porém, quando pessoas mudam de sua condição material, aparentemente a probreza descola delas. No meu caso, a pobreza não morou em mim.

Avançando no assunto, afinal, o que é a pobreza? A pobreza tem uma dimensão objetiva. Com efeito, ela está sempre associada à privação de bens materiais e culturais. As pessoas consideradas pobres moram em bairros periféricos, (quando têm) têm baixa renda, muitos filhos (às vezes, não), o seu consumo de bens materiais e culturais é de qualidade baixa, etc. Levam uma vida material e cultural que as impedem de terem uma completa dignidade humana. São pessoas normais, como quaisquer outras, que têm desejos materiais, mas não conseguem satisfazê-los. Existe nesse sentido uma conexão entre necessidades e frustrações na definição de pobreza.

E a dimensão subjetiva da pobreza? Geralmente, os pobres são sempre frustados ou revoltados - a menos que sublimem essas necessidades com outros bens. No caso brasileiro, com nossa pouca tradição de rebeldia, os pobres estão sempre se colocando como vítimas num mundo social para o qual não tem solução. Mas quase nunca se revoltam. Quando morei nos Estados Unidos, li um livro que me impressionou muito sobre a pobreza de lá ( "The hidden injuries of class" ou "As feridas escondidas de classe", de Richard Sennett e Jonathan Cobb) para o qual os autores entrevistaram americanos pobres sobre o seu "inferno" subjetivo. Guardei que muitos reclamavam que a economia de mercado americana não cumpria as promessas divulgadas no país, que dizia oferecer oportunidades para todos. Aí eu pensava no Brasil, um país que não pode dizer que dava ou dá oportunidades a todos, como fica isso?

Deixe-me falar um pouco sobre minha experiência de quando eu era pobre. Dentro das camadas de pobres sergipanos, a minha família moradora do Aribé não era das mais pobres, porque meu pai foi ferroviário público federal a vida inteira, a gente podia comprar fiado em muitos lugares ( bodegas, mercado, etc.) porque meu pai nunca ficou desempregado e a minha família tinha casa própria, não precisando pagar aluguel - e eu nunca trabalhei como criança ou adolescente. Mas era só o salário de meu pai para alimentar quatorze bocas ( pai, mãe, dez irmãos e dois meio-irmãos). Além disso, meu pai possuía um terreno no Bairro Santos Dumont onde tinha plantação de abóbora, melancía, etc. Família de famintos? Claro que não, mas minha mãe, não poucas vezes, preparava deliciosos pratos como leite em pó da Aliança para o Progresso, café açucarado com farinha, caranguejo ou guaiamum para o almoço, vários tipos de tripas, pilombetas,etc. A mortalidade infantil não chegou a ser um problema para nossa família, porque nos mudamos de Salgado para Aracaju - onde existiam ( ainda que precários ) serviços médicos públicos na LBA do Bairro Siqueira Campos), e onde pessoas como eu tiveram a sorte de estudar em escola pública com problemas mas num tempo em que ainda não existia educação de baixa qualidade para massas.

O meu problema começou quando eu estava terminando a escola secundária. O que fazer para ganhar a vida? A minha avó materna insistia para que meus pais me colocassem numa oficina mecânica para eu aprender um ofício ( no caso de mecânico). Já o meu pai e a minha mãe, sempre altivos mesmo com suas limitações culturais e sem possuírem bons relacionamentos ou contatos, tinham outros planos para mim: entrar para a Escola Agro-Técnica do Quissamã no interior de Sergipe ou ir para o Exército (Academia Militar de Agulhas Negras), no estado do Rio de Janeiro. Parece um típico itinerário para um filho de família trabalhadora? No mesmo período em que isso tinha lugar, eu me preparava para fazer o exame vestibular da UFS, depois de ter estudado no Colégio Costa e Silva ( onde tinha professores que eram geralmente estudantes universitários ) e estudava no Colégio de Aplicação, uma escola-laboratório da UFS, para a qual entrara depois de fazer exame ( parte da política educacional da ditadura militar), a qual tinha excelente quadro de professores efetivos e que ajudou a melhorar e a aumentar a minha bagagem de conhecimentos.

O leitor me desculpe por fazer todo esse relato biográfico, mas o seu objetivo não é estragar o seu domingo falando de miséria, pobreza, etc, nem passar dica sobre como escapar da pobreza. Embora eu não desse tanta importância de ter um diploma universitário ( na Europa rica não existe tanto essa obessão brasileira do diploma universitário, mas eles fornecem educação de qualidade para todos ), eu tinha consciência de que a minha sorte estava lançada, em qualquer direção, naquele processo seletivo, visto que, ainda que eu me considerasse um grande jogador de futebol, ninguém mais pensava como eu. Era muito azar! Ademais, como afrodescendente não tinha talentos artísticos para cantar ou dançar - e a criminalidade econômica nunca fora considerada como alternativa. Assim, ou passava no exame vestibular ou ia ser classe trabalhadora como meus pais, meus avós, etc, reproduzindo uma tradição de muitas gerações.

Para minha surpresa, não fui reprovado. E é isso que me dá autoridade para falar que, numa sociedade como a sergipana que não dá oportunidade ao viveiro de talentos ( este não é bem o meu caso, pois não passo de um professor ordinário ) existentes no interior da população de baixa renda, ser pobre em Sergipe era e é não ter perspectiva de uma vida melhor - exceções postas de lado. E o sergipano pobre sofre o pior e o mais naturalizado dos preconceitos sociais: o de classe social.Eu sei que a educação não resolve tudo, mas tenho certeza que garantir escola pública de qualidade é um bom começo para sacudir o passado colonial e "republicano" dos sergipanos de injustiça econômica, social e cultural. Para além disso, não perco a esperança de que os sergipanos possam ter um dia um Museu da Pobreza, como fez a Noruega não tem muito tempo, para lembrar as suas novas gerações como era ser pobre por lá. Enquanto isso, por aqui, ainda somos um quase-museu da pobreza a céu aberto.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 2
Por Eugênio Nascimento
01/04
05:00

A crise de referências da esquerda

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS


A passagem recente da dissidente política cubana Yaoni Sanchez pelo Brasil forneceu uma ótima chance para, quem quis ver, observar um espetáculo lamentável. Com efeito, de um lado, estava a direita brasileira se divertindo, a pedir que ela falasse, ou seja, que ela criticasse a velha ditadura do Caribe, e, de outro, membros da esquerda a hostilizar a bloguera sem graça, chegando até a impedi-la de participar de evento em Feira de Santana, na Bahia. No fim das contas, até onde tive paciência para acompanhar as demonstrações patéticas de besteirol político, ela não criticou o regime de seu país, fazendo, como era de esperar, elogios à democracia brasileira. Mas a coisa não ficou nisso: pessoas apresentaram, na internet, números positivos de indicadores sociais como forma de justificar o totalitarismo tropical cubano. Em seguida ocorreu a morte do presidente Hugo Chávez da Venezuela. A estória também se repetiu nesse caso. De fato, a direita brasileira fazendo o seu melhor para falar o pior do ditador ou do caudilho "bolivariano" e do seu legado, enquanto a esquerda, por sua vez, apresentava outros números também positivos de indicadores sociais para legitimar o regime quase ditatorial venezuelano.

Que reflexões fazer desses dois episódios em relação à esquerda? A primeira delas é que a esquerda não é sincera quando diz que, depois das experiências totalitárias na Rússia, na China e da Albânia (só para ficar com alguns exemplos), converteu-se incondicionalmente à democracia. Isso mesmo. Em nome de alguma espécie de igualitarismo, ela parece estar disposta ainda a defender ditaduras completas e incompletas. Qual seria a atitude correta de uma esquerda de fato democrática? Seria o comportamento político que tiveram forças políticas de países do Leste Europeu, depois do fim totalitarismo, de defender a preservação de seus direitos sociais e bater-se pela gestão democrática da sociedade. O que isso significa dizer? Isso quer dizer colocar no mesmo patamar valores como a igualdade e a liberdade. Não pode haver confusão: o valor igualdade é tão importante quanto o de liberdade. Embora seja possível chegar a alguma forma de igualdade pelo autoritarismo, é melhor que isso aconteça pela via democrática. A democracia é fim, e não meio como pensava antigamente (e pelo visto ainda hoje) pensava a esquerda.

No caso de Cuba, ela é uma ditadura completa em fase de definhamento definitivo. O seu "modelo" de sociedade tornou-se insustentável e, com um pouco de liberdade, quebra-se totalmente. As pessoas podem acusar o embargo norte-americano como o responsável pelo fracasso econômico cubano, mas isso não basta. Cuba foi o mais importante peão da Guerra Fria nas Américas e durante muito tempo sobreviveu por conta da cooperação econômica e dos subsídios da antiga URSS. Depois que esta deixou de existir, a situação cubana se tornou inviável. Para sua sorte, todavia, Hugo Chávez passou a ajudar Cuba com petróleo da mesma forma que apoiava a Nicarágua de Daniel Ortega. Hoje em dia o problema de Cuba é tão difícil hoje que, se não ocorrer uma abertura mais rápida na direção da democracia, os cubanos terminarão por fazer outra revolução (neste caso, democrática) contra a revolução de Fidel e de Guevara. Mais ainda: dependendo de como seja conduzido esse processo de abertura, a ilha do Caribe poderá conhecer uma migração em massa de cubanos com competências técnicas aproveitáveis noutras partes do mundo, reproduzindo de forma alargada os "boat people" de tempos atrás.

No caso da Venezuela, a situação é diferente. Ali o que está em jogo é um retrocesso político muito grande, que pode levar a uma ditadura de direita. Os problemas de governantes populistas são dois: enfraquecimento das instituições democráticas existentes, por cima das quais os populistas navegam para governar diretamente com as massas populares. Pois bem. Muito antes da morte biológica de Chávez (a sua morte política é para mais tarde, não se sabe quando), eu sempre me colocava, só para argumentar, a questão: estará ele construindo fortes instituições democráticas para resistir à ofensiva que virá da direita daquele país? Depois de sua morte, quando vi na TV as demonstrações de apoio ao regime chavista pelo chefe das forças armadas, de punho erguido, e da presidente da suprema corte daquele país vizinho e grande parceiro comercial brasileiro, não pude deixar de concluir: a Venezuela, com as duras lutas políticas que virão, ou tenderá para uma ditadura de direita ou para uma ditadura de esquerda. O caminho para a democracia não me parece evidente em virtude da forte polarização daquela sociedade.

A segunda reflexão diz respeito à crise de referências da esquerda brasileira. Essa crise tem três aspectos: crise de referências em termos de autores e livros que a esquerda lia e lê; crise de referências quanto às experiências históricas concretas que orientam seguidores da esquerda; e crise de referências quanto ao próprio exercício do poder pela esquerda brasileira. Pelo que sei de minha aproximação com militantes de esquerda, pela leitura de documentos públicos e por falas em eventos públicos, os autores e livros consultados são os de sempre: o brilhante e arrogante intelectual Marx, o ditador e intelectual Lênin, o lunático Trotsky, etc. Nada mudou. Só tentativas - às vezes nem isso - de interpretação de velhos cânones muito empoeirados.

Quanto às experiências históricas concretas, saudosistas ainda mencionam a imperialista Rússia. Outros mencionam as altas taxas de crescimento econômico da China, esquecendo-se de que esse país pede para ser chamado de economia de mercado e que pratica uma nova forma de capitalismo selvagem no mundo. Envergonhados, alguns nem mais citam a abominável ditadura albanesa. Todavia, a referência maior parece continuar sendo Cuba. Muitas pessoas dão a impressão de terem parado no tempo, depois de lerem o famoso livrinho do comunista Fernando Morais ("A Ilha") nos anos 1970 ou após terem feito alguma visita àquele país e terem conhecido a boa música cubana (a turma do Buena Vista Social Club, Pablo Milanês, Sílvio Rodriguez, etc.). Em que o país caribenho pode servir de modelo para forças políticas que se querem democráticas? O mesmo diga-se em relação aos irmãos Castro. Indo além, também vale perguntar: em que o espalhafatoso coronel Hugo Chávez podia e pode ser fonte de inspiração para a esquerda brasileira que se quer democrática? Difícil imaginar algo.

Quanto às práticas políticas da esquerda no poder, em nome de uma real politik ou de um pragmatismo político (supostamente sinônimo de maturidade política), os costumes políticos brasileiros não têm sido melhorados: nepotismo em larga escala (com direito a citação de decisão do STF), mensalões, práticas clientelistas e assistencialistas, etc. Não chegou a hora de repensar esse conjunto de referências da esquerda brasileira? O que fazer? Por onde recomeçar? Considero que o melhor caminho é abandonar completamente a ideia de que existe ditadura boa. Nenhuma ditadura presta. Em seguida, o negócio é estudar a literatura contemporânea sobre a democracia e mergulhar na história social e politica brasileira esvaziada do ranço das narrativas da velha guarda.

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Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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