02/04
13:40

Quem estava na mira do SNI

Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS

Começamos nossa investigação sobre o SNI em Sergipe há algum tempo e não temos nenhuma ilusão de que, com esse pequeno texto, tenhamos encontrado todas as respostas que nos formulamos à largada. Ainda assim, mesmo com tantas lacunas e omissões involuntárias,  decidimos compartilhar nossas reflexões com o leitor. Infelizmente, não conseguimos entrevistar nenhum James Bond sergipano para compreender melhor essa instituição fundamental ao funcionamento da ditadura militar em Sergipe.

Para início de conversa, é preciso informar que o Serviço Nacional de Informação (SNI) foi uma criação do regime militar (1964-1985) pouco tempo depois do golpe de Estado que lhe deu origem. Nasceu como um verdadeiro ministério de agentes secretos e de espionagem. Não entraremos na discussão sobre as agências precursoras do SNI, porque isso pode ser encontrado em qualquer livro tratando do assunto, mas lembraremos que o processo de criação foi comandado por coronel Golbery do Couto e Silva. Acrescentaremos que o SNI nunca foi o único serviço secreto do Brasil do regime castrense e que as Forças Armadas (CIEX, CENIMAR e CISA) possuíam seus secretos, bem como as forças estaduais de segurança pública. Isso que acabamos de afirmar também é válido para Sergipe, embora nada tenhamos conseguido apurar sobre os serviços secretos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em terras sergipanas. Sobre o secreto da SSP foi possível levantar informações que são públicas e podem ser encontradas no Arquivo do Estado de Sergipe.

Uma pergunta que não conseguimos responder foi a seguinte: quando começaram as atividades do SNI em Sergipe? Os nossos amigos da Comissão da Verdade afirmam que o ano do início das operações dessa comunidade de informações é 1964. Pode ser, mas precisam apresentar provas, que nós não encontramos. Não era tarefa fácil estruturar um serviço de informações num país continental da noite para o dia. Precisavam de quadros de agentes para operações de rua, quadros de analistas de informações e quadros administrativos tout court. Não é à-toa  que nasceu, viveu e morreu militarizado, ou seja, os seus primeiros quadros foram compostos de militares improvisados e transferidos para a nova instituição. O mesmo pode ter acontecido com os agentes secretos civis: treinamento intensivo e improvisado de quadros simpatizantes do regime militar, etc.As atividades dos agentes do SNI em Sergipe, supostamente começadas ainda 1964, teriam sido realizadas por agentes baianos desse serviço secreto? É possível que sim. Para Sergipe, um grupo podia se dirigir, alugar uma casa e, contando o apoio logístico de instituições acima mencionadas, fazer o trabalho, voltar para Salvador e depois soltar um informe ou um relatório. Também pode ter acontecido de o SNI sergipano ter funcionado em alguma casa ou em alguma sala de edifício comercial  até a sua instalação definitiva no prédio central do BANESE no centro velho de Aracaju, onde permanece até hoje transformado na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

Pelo que podemos levantar, o SNI em Sergipe funcionou como escritório, representação e finalmente superintendência, mas não podemos precisar os períodos históricos de cada uma dessas suas condições administrativas. Aparentemente, nas suas diversas formas administrativas, a sede do SNI sergipano parecia funcionar como um órgão de coordenação das atividades mais amplas da instituição. Expliquemos isso melhor. O SNI era a parte mais importante  do Sistema Nacional de Informações(SISNI que incluía, além dessa instituições, outras agências ligadas às Forças Armadas. No topo da hierarquia do SNI, ministério vinculado diretamente ao general-presidente, estava o seu chefe ( todos eles foram militares, dois quais presidentes da República), abaixo do qual vinham as Divisões de Serviços de Informações (DSIs), ligadas e à frente de todos os ministérios de então, à exceção daqueles das Forças Armadas. Em nível dos Estados federados, estavam as Assessorias de Segurança e Informação (ASI), também chamadas de Assessorias Especiais de Segurança e Informação (AESI). Essas agências estavam presentes em todas as repartições federais e empresas públicas federais e estaduais, como a UFS, a Escola Técnica, a Petrobrás, os Correios, a antiga Energipe, a DESO, e assim por diante. A depender da necessidade, nessas instituições trabalhavam poucos ou diversos agentes do SNI.

Abramos aqui um parêntesis. É equivocada a associação feita sobre agentes do SNI como gentes secretos... secretos! Longe disso. Muitos membros dessa comunidade de informações eram conhecidos dos sergipanos, pois tinham seus escritórios nos locais de trabalho que eram repartições e empresas públicas. Eram agentes do SNI públicos. Relatos correm em Aracaju de agentes dessa instituição que circulavam por muitos lugares como bares, restaurantes, redações de jornais, reuniões familiares e de amigos, tendo como amigos muitos comunistas e opositores do regime. Dá para acreditar? É tudo verdade, leitor, confirmada por vários depoimentos por nós coletados. Refletindo sobre isso, lembramos de frase de escritor franco-pernambucano de que seria impossível instaurar no Brasil um regime totalitário. Mas é claro que havia agentes secretos de verdade: desconhecidos, circulando de estado em estado, fazendo trabalho secreto sigiloso.

Durante a  passagem do general Médici pelo SNI e depois pela presidência da República, essa instituição se estruturou consideravelmente. Os seus agentes  passaram fazer cursos de formação profissional na Escola Nacional de Informação (ESNI), em Brasília. Ali eram disponibilizados três tipos de treinamento, isto é, cursos para chefia, cursos para analistas de informações e cursos para agentes de rua. Nessa escola de agentes secretos, eram ensinadas todas aquelas práticas que o leitor viu em filmes de espionagem do tempo da Guerra Fria e das ações do FBI no longo "reinado" de Edgar Hoover. Na documentação disponível no Arquivo Nacional a que qualquer pessoa pode ter acesso aparecem nomes de alguns cidadãos sergipanos.

A questão dos colaboradores dos agentes do SNI é uma das interessantes, mas sobre as quais temos menos informações. No meio da esquerda sergipana, justa e injustamente, muita gente foi apontada alcaguete, sem ter sido mostrada uma evidência qualquer. O certo é que nos grupos ou instituições do interesse do SNI, sempre podia haver agente infiltrado ou um colaborador a seu serviço. De onde vinham tais colaboradores até hoje documentalmente desconhecidos? Chegamos a algumas "conclusões" a esse respeito. Existiam os colaboradores voluntários, aqueles que agiam por  motivos diversos ( inveja, rixas, querer passar à frente de alguém numa promoção, apagar um passado de militância comunista ou de esquerda, etc.) procuravam gente do SNI público ( ou das Forças Armadas) para passar informações falsas ou verdadeiras. Os outros colaboradores eram procurados pelos agentes do SNI. Como os colaboradores eram selecionados nos círculos sobre os quais os agentes do SNI tinham interesse, não podemos afirmar mas acreditamos que potenciais colaboradores podiam ser encontrados junto a quadros treinados pela ESG e pela ADESG, pois nesses grupos estavam pessoas  leais ao regime autoritário e distribuídas nas mais diversas atividades econômicas, políticas, sociais, culturais e administrativas imagináveis. Afora esse grande grupo de elite, composto de pessoas muito bem informadas, outro grupo de colaboradores pode ser buscado nos mesmos setores mencionados mas através de indivíduos sem passagem por aquelas duas instituições. Nessa área parece haver um código moral e profissional que impede qualquer vazamento dos nomes dos colaboradores.

Os agentes do SNI trabalhavam dentro e fora da legalidade autoritária. Existem informações que podem ser buscadas em cartórios, justiça, secretária de segurança pública, junta comercial, em jornais (esses agentes eram grandes leitores de jornais), as quais podiam ser obtidas sem muita preocupação com a legalidade das ações. Muitas outras eram realizadas na ilegalidade mesmo - o que também acontece em estados com tradição democráticos ou em períodos democráticos desses estados nacionais. Para conseguir as informações procuradas, agentes atuaram contra a lei, qualquer que seja ela, sem preocupação com autorizações judiciais e coisas do tipo. Nesse caso, funcionou a regra dos fins justificando os meios pura e simplesmente. Casos escandalosos ( chantagem, presença de ex-torturadores nos quadros da agência, empreguismo de parentes e amigos, etc.)  foram registrados na literatura nacional sobre o assunto. Até agora não encontramos evidências de coisas parecidas em Sergipe.

Os grupos sergipanos que estavam na mira dos agentes secretos do SNI eram os seguintes: a) o conjunto da classe política e os partidos políticos; b) o empresariado sergipano (agricultura, indústria, comércio e serviços), especialmente aqueles indivíduos que tinham transação com o estado federal e com o estado federado; c) pessoas ligadas a organizações clandestinas, suspeitos de subversão reais e imaginários; d) as igrejas, mídia ( emissoras de rádio e de TV, jornais ), organizações docentes, estudantis e sindicais. Todos esses setores eram classificados em "amigos" e "inimigos", cabendo sutilezas no meio dos extremos. Monitorando a movimentação das lideranças e dos grupos, produziam informações que eram repassadas aos responsáveis diretos por tomadas de decisões - o que lhes davam uma vantagem considerável sobre os opositores do regime. Essas informações podiam ser enviadas a reitores, diretores de empresas públicas,  repartições etc. Ou então dirigidas à DSI respectiva em Brasília e desta para a cúpula do SNI. Também remetiam para outros órgãos da comunidade de informações em Sergipe e fora daqui - da mesma forma que podiam receber informações de outros órgãos de espionagem e de comandos militares.

Da leitura da documentação colhida no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro não deixa de ser interessante observar que essa espionagem recaía ao mesmo tempo sobre aliados e opositores políticos nacionais e estaduais. Nada lhes escapava. Embora se deva ter algum cuidado em relação às informações contidas nas fichas biográficas e nos relatórios do SNI, os perfis construídos eram meticulosos e detalhados. Membros da classe política sergipana, aliados de primeira hora do regime militar, ficariam impressionados ao saber o que era dito sobre eles. Se, ainda assim, os militares aceitavam eleger certos desses membros como interlocutores ou indicar os seus nomes para determinados postos políticos diretos e indiretos. Isso mostra um grande pragmatismo da parte dos militares, admitindo que as suas práticas políticas fossem as mais abonadoras em relação àquelas dos políticos civis. Raciocinavam mais ou menos assim: "Se isso é o que temos, vamos com isso mesmo". Em suma, seguiam a tradição política brasileira. 

*Coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Estado e a Democracia


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 1
Por Kleber Santos
02/04
13:32

Ovo de galo

José Lima Santana*
Professor da UFS

Do Matão de Dentro, povoado escondido por trás da Serra Azul, um maciço onde, no passado, negros escravos se refugiaram, formando um quilombo, saiu o galo que botaria um ovo. Dito galo saiu da casa de Dona Tininha de Mané Fuxico. Dona Tininha era filha de Maria D’Angola, uma negra forra que para ali se mudara tão logo o seu amo, o Capitão Batista Flores lhe dera a carta de alforria, dois anos antes da Abolição. Ela fora em busca de encontrar o negro João Makuleke, escravo de um fazendeiro vizinho de terras do Capitão Batista, por quem a preta forra se derretia qual manteiga ao sol. Ajuntaram-se e tiveram dezoito filhos, dos quais cinco morreram em tenra idade. 

Maria D’Angola era sabida nos encantamentos da religião dos seus antepassados, da religião de pura raiz africana sem mistura com os torés dos nossos índios. Na casa de Maria D’Angola aquela mistura não existia. Nem sincretismo com os santos católicos. Era religião das terras africanas. Sem mistura. Não somente na Serra Azul, no Matão de Dentro, mas em redor de umas doze ou quinze léguas, era voz corrente que Maria D’Angola se envultava, isto é, desaparecia das vistas de todos em plena luz do dia. Trabalhos para o bem ela os realizava. Não trabalhava para o mal, às esquerdas. Maria D’Angola morreria aos cento e tantos anos. Nos dias antes de morrer, ainda comia uma boa feijoada ou um sarapatel apimentado. Nunca lhe doeu um dente sequer. Negra fornida e sadia, até a velhice. A filha caçula, Tininha, herdara um pouco dos saberes da mãe. Mantinha o barracão de Maria D’Angola com todos os seus apetrechos, atabaques e tudo o mais. Porém, quem conheceu a mãe, dizia que a filha não lhe chegava aos pés, nos misteres dos encantamentos. De qualquer forma, ela também tinha certa fama. 

Marcinho de Juarez do Barro Alto fez, numa cachaçada na bodega de Alípio de Zé Mourinho, uma aposta com Maneco de Sá Lurdinha do finado Antônio Martins. Ele dizia que tinha um galo que punha ovos. Apostaram uma novilha contra outra novilha. Dizia o dono do galo que o dito estava na casa de sua sogra, no Matão de Dentro, distante dali, cerca de cinco léguas ou um pouco mais. Ali no alto sertão tudo era distante mesmo. Os povoados, mais das vezes, distavam léguas e léguas. Ficou o primeiro apostador de buscar o galo dali a duas semanas. Foi um alvoroço danado na bodega de Alípio. Todo mundo queria ver o galo que punha ovos. “Um galo que bota ovo, não é galo. É galinha disfarçada. Assim como tem gente que faz de conta que é uma coisa, mas num é, também tem bicho deformado”, disse o velho Saturnino Capador, o mais afamado castrador de animais de toda a região. Bicho capado por Saturnino não morria de sangramento. Outras apostas paralelas foram feitas. Uns confiavam no taco de Marcinho de Juarez, enquanto outros ficavam do lado de Maneco. Assim por alto, as apostas em dinheiro somavam para mais de dois contos de réis. Afora apostas em bens, como bichos de criação e outras tralhas como selas, cangalhas e carroças. Povinho apostador danado era aquele dali. 

Apostas feitas, todas apalavradas, que todos se conheciam e confiavam uns nos outros, sem necessidade de casar os bens apostados, Marcinho de Juarez tratou de arranjar um galo que botasse ovos. Aliás, um ovo só que fosse. A aposta era que o galo botaria um ovo. No povoado e nas redondezas, o sujeito mais ladino, mais esperto em criar situações inusitadas era o Índio. Este se tratava de João Pataxó, que se dizia filho de uma índia da Bahia com um sargento da Força Baiana. A sugestão do índio era arranjar uma “galinha machiada, ou seja, metida a galo e fazer-lhe uma adaptação, costurando nela uma crista de galo, esporões e penas de galo no traseiro”. Foi o que ele sugeriu. Para isso, ele precisaria de uns dois meses, até as operações sararem e se verificar se tudo correria bem. Ora, ora! A aposta estava limitada, no cumprimento do apostado, ao tempo de duas semanas. Nada mais. “Peça uma mêxa”, ponderou o índio. Pedir uma mêxa era pedir uma prorrogação. A quem? Ao Maneco de Sá Lourdinha? Nem pensar. Tava ali um sujeito encrenqueiro, gosmento, engrangujado. E todas aquelas operações numa galinha para que pudesse passar por galo, não haveria de dar certo. Outra solução teria que ser pensada. E foi aí que o próprio Marcinho de Juarez intuiu de procurar os préstimos de Dona Tininha de Mané Fuxico, filha de Maria D’Angola e vizinha de sua sogra, lá no Matão de Dentro. Se fosse a própria Maria D’Angola, Marcinho de Juarez sabia que a sua aposta estaria salva. A preta velha, sabida por demais nos encantamentos, seria capaz de lhe dar um galo que botasse ovos. Um ovo que fosse. Mas, já a filha... Marcinho de Juarez desconfiava, porém, era o que lhe restava. 

E foi assim que no dia seguinte à conversa com João Pataxó, Marcinho de Juarez bateu-se para a casa de Dona Tininha, no Matão de Dentro, lugarejo escondido por trás da Serra Azul, como já se disse. Tendo saído ainda madrugadinha com o orvalho salpicando a copa do chapéu de couro, em dantes passou na casa da sogra para tomar um bom café com cuscuz de milho ralado, coberto com ovos estrelados e manteiga da boa, da bem amarelinha, e carne de sol assada na brasa. Feito isso, botou-se para a casa de Dona Tininha. Contou-lhe sobre a aposta. Ela mediu Marcinho de Juarez de cima a baixo, olhou para o chão de terra batido e tornou a encarar o apostador. Disse umas palavras numa língua estranha. E, afinal, emendou: “O senhor tá mais enrolado do que pé de fava em pé de milho seco. Onde já se viu galo botar ovo, mizifi?”.  Marcinho de Juarez maneou a cabeça. Dona Tininha, porém, deu-lhe um consolo: “Vou ver o que posso fazer, pra lhe tirar desse embeleco. Fique aqui!”. Ela saiu. Marcinho de Juarez coçou a cabeça. Tinha lá com ele uma alegria nas pernas. 

Dona Tininha entrou no quarto que servia de peji, o altar dos orixás. Lá, ela permaneceu por uns vinte minutos e de lá voltou com um galo vermelho de olhos esbugalhados, malamanhado. Era o galo de Exu. Ela assim o disse. “Este galo vai botar um ovo, quando você soprar no ouvido dele e disser: galo de encruzilhada / galo de crista e esporão / tu que ‘vem’ da Gamboa encantada / ‘bote’ um ovo na minha mão”. Disse mais: “Solte o galo imediatamente ou coisa feia pode acontecer. Quanto ao ovo, você traz pra mim, sem demora”. 

Marcinho de Juarez voltou confiante. No dia aprazado, na hora ajustada, eis que ele, diante de uma ruma de gente, cochichou no ouvido do galo como Dona Tininha tinha lhe ensinado. E, para espanto de Maneco, o outro apostador, e de todos que ali estavam o galo de olhos esbugalhados pôs um ovo na mão de Marcinho de Juarez. Um ovo taludo, bem avermelhado. Marcinho, feliz da vida, apertou o galo debaixo do sovaco. Não o soltou imediatamente, como fora recomendado por Dona Tininha. Naquilo, o galo escapou do sovaco de Marcinho, pulou do chão para um galho e explodiu, antes, porém, fazendo ecoar uma gargalhada infernal. O cheiro de enxofre cobriu o povoado. E passou muitas semanas recendendo no ar. Foi no que deu o ovo do galo de Exu. As apostas foram pagas. Ninguém chiou. E o ovo vermelho, Marcinho de Juarez o levou para Dona Tininha, como haviam combinado. Coube ao padre Fonsequinha celebrar uma Missa para afastar do povoado o cheiro de enxofre. 

* Padre, advogado, membro da ASL, da ASLJ e do IHGSE


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
01/04
13:24

Cabra Marcado para Morrer

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Sabemos que as histórias são conduzidas pela memória. E a memória tem esse papel revolucionário de desbravar os acontecimentos retidos, mostrando para o presente tempos distantes, muitas vezes com problemáticas atuais. Trago, hoje, para compartilhar com vocês, alguns casos que passaram pela minha vida e que estavam repousados no recôndito das minhas lembranças. Recentemente, ao ler uma matéria sobre o cineasta Eduardo Coutinho, recordei-me dos momentos que vivenciamos em vários eventos ligados ao cinema, na década de 1970 do século passado, principalmente como jurados em diversos festivais de super-8 realizados em Recife. Interessei-me sobre um seu projeto cinematográfico que foi interrompido pelo golpe militar de 1964. Tratava-se do filme–documentário Cabra Marcado para Morrer, que contava a história do líder da Liga Camponesa de Sapé, Paraíba, João Pedro Teixeira, assassinado em 1962 por ordem de latifundiários. Coutinho começou as filmagens em 1964 no Engenho da Galileia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, mas a locação foi invadida pelas forças militares, sendo parte da equipe presa sob a acusação de comunismo.

Perdi o contato com Coutinho. Tinha voltado a minha curiosidade para a profissão de advogado e abandonado completamente a militância na sétima arte. No fim da década de 1980, soube que o projeto do filme tinha sido retomado pelo próprio Coutinho e muita gente ligada à crítica cinematográfica estava elogiando o documentário. Vi o filme na década de 1990 e saí do cinema encantado pela forma abordada, principalmente com a força de uma mulher, a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, cujos dez filhos foram dispersados por força da perseguição sofrida após o assassinato de seu marido. Mas também me identifiquei com a história que é a mesma de muitos brasileiros que, diuturnamente, procuram melhores condições de vida. Depois, via aqui e ali entrevistas e matérias com Eduardo Coutinho. Em 2014 fiquei consternado com a sua morte, aos 80 anos, assassinado a facadas pelo próprio filho, que sofria de problemas mentais. A memória me remetia às conversas que tive com Coutinho nos bares de Recife, um homem inteligente e com um belo senso de humor. Ele tinha uma frase que eu gostava: “Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo”.

Era uma noite chuvosa em Aracaju. Estávamos em meados da década de 1980. Residia no Conjunto Alvorada, bandas do Bairro Grageru. Repentinamente, um estouro de grande proporção tomou conta da minha residência. Eu, minha mulher e meus filhos acordamos espavoridos com o barulho causado. Ao me aproximar da janela da frente do imóvel, estava ela totalmente destruída pelo petardo lançado. Ninguém viu nada. Um amigo policial informou que teria sido um tiro de escopeta. O quarto era o do casal, contudo, meses antes, havia construído um compartimento no fundo da casa onde dormia com minha família. Passei dois anos da minha vida determinado a descobrir a autoria. Frequentei os mais diversos ambientes, fiz amizades e inimizades e descobri um mundo, ou um submundo, que desconhecia. Numa tarde de sábado, levei um “amigo” que conheci no bas-fond de Aracaju para um restaurante de um posto de gasolina fora da capital. Depois de algumas cervejas, falei para ele: - Eu sei quem deu aquela escopetada em minha casa! Ele parou e pasmo perguntou: - Quem? Respondi: - Foi você, a mando de fulano! A palidez tomou conta de sua face.

Depois de um silêncio de dois a três minutos, ele admitiu a autoria e o mandante. Levantou-se e pediu-me que o levasse para casa. No caminho da sua morada, nada comentou. Ao sair do veículo, balbuciou: - Estou envergonhado! Um mês depois ele me procurou. Disse-me que um coronel da Polícia Militar, muito conhecido, determinou que ele me acompanhasse numa audiência criminal num município do interior, pois tudo indicava que ia haver problema. Respondi que não precisava e que eu cuidaria de mim tranquilamente. – Nem Deus pedindo eu deixo o senhor ir sozinho. O padrinho de seus clientes é muito perigoso e ele vai armar para o advogado Evaldo Campos, assistente de acusação. Fiquei com uma pulga atrás da orelha. Como ele sabia dos dados da audiência, dia, local, partes e advogados? Realmente, era uma audiência com oito ou nove réus. Eu era advogado de três ou quatro acusados, enquanto os demais tinham outros colegas como patrono. O padrinho dos meus clientes era o prefeito da cidade, que tinha fama de truculento, traiçoeiro e matador. Ainda muito desconfiado, concordei com a sua companhia e, pela manhã, logo cedo, rumamos para o interior do Estado.
Deixei o carro numa cidade circunvizinha e fomos em outro veículo acompanhados dos clientes. Não deu outra! A audiência era para ouvir as testemunhas de defesa. Começou pela manhã e foi tarde a dentro. Já anoitecendo, começou uma confusão com uma testemunha. Ela passou a detratar o advogado Evaldo Campos, taxando-o de vagabundo, fofoqueiro e todo tipo de despautério. Era a senha para um crime anunciado. Evaldo reagiu firmemente e pediu a prisão da testemunha. Todos ficaram nervosos e a juíza sem saber o que fazer. Recebo um recado do meu acompanhante. - A ordem aqui fora é matar o Dr. Evaldo! Saí imediatamente do recinto da audiência, que era no cartório da cidade, numa sala acanhada que mal dava os presentes. Disse para ele: - Se Evaldo morrer vai morrer aqui muita gente. Fala para o Prefeito com firmeza! Voltei para o cartório e uma discussão acirrada era travada entre Evaldo Campos e a juíza. Percebi a gravidade da situação quando notei que a maioria dos réus estava armada. Fora da audiência, o povo estava inflamado. Abracei a juíza dizendo-lhe: - Suspenda, pelo amor de Deus, esta audiência. Pode haver morte!

A juíza tentou, ainda, ponderar. Eu disse: - A Senhora sabe que os réus estão armados? Ela ficou atônita, chamou a promotora e suspendeu os trabalhos. A praça estava cheia de gente. Acalmei Evaldo e disse para ele espalhar que iria jantar na casa do seu cliente, entretanto que ele seguisse viagem imediatamente para Aracaju. Marcamos encontro num Posto da Polícia Rodoviária Federal, o que ocorreu. Após este fato, antes do autor do disparo à minha casa morrer nos anos de 1990, só o vi por duas vezes, ambas no hospital onde ele se tratava de uma enfermidade grave. O mandante, por sua vez, tinha morrido anos antes num acidente de carro. E a memória continua evocando acontecimentos que poderiam mudar completamente a minha história de vida. Fim do ano de 1989 e começo de 1990. Era, então, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Sergipe. Um esquadrão da morte instalou-se no aparelho policial do Estado. Num período curto da nossa história, mais de cento e vinte crianças foram assassinadas com requintes de perversidade. Normalmente, eram meninos de rua que sobreviviam de pequenos furtos no centro da cidade.

Os fatos eram justificados como uma certa “guerra da maconha”, como se as próprias crianças estivessem se matando. Semanalmente, cinco a sete crianças assassinadas, sempre com características idênticas. Com ajuda de alguns colegas e do jornalista Cesar Gama, então editor do semanário Cinform, iniciamos um processo de investigação, ao tempo em que cobrávamos ações enérgicas do governador para acabar de vez com essas mortes. Chegamos ao ponto de responsabilizar o próprio aparelho policial, através de um grupo de extermínio, pela autoria. Por causa disso, fomos processados e contestados violentamente através da imprensa, com denúncias espúrias e ameaças de morte. Nesse ínterim, recebo a visita do advogado Gutemberg Chagas Ramos na sede da OAB. Ele sacou de um revólver 38 e disse-me: - Comprei agora. Soube que vão lhe matar. Por favor, tome cuidado. É seu! Eu disse para ele que agradecia a preocupação, mas não queria a arma, pois sequer sabia atirar. Ele retirou-se espavorido, deixando a arma na minha mesa de despachos. Nesse ínterim, ocorrem duas chacinas de menores, uma com três, outra com quatro.

Nesta última, as vítimas deveriam ser seis crianças, mas duas conseguiram sobreviver, fugindo do local e indo para o jornal Cinform. Tomamos o depoimento dos dois menores e eles apontaram os policiais que estavam por trás da chacina. Procuramos o Juiz de Menores, o Governador, o Secretário de Segurança, o Procurador Geral de Justiça e todos nos deram as costas, sob a alegação de que seria uma vindita nossa contra os ataques que estávamos sofrendo dos jornalistas de aluguel contratados para denegrir a nossa imagem. O Jornal Cinform havia recebido vários tiros de escopeta na sua sede, à época na Rua Laranjeiras. Não tinha como recuar! Convoquei uma coletiva com a imprensa na sede da OAB. Anunciei que todas as denúncias feitas sobre a existência de um esquadrão da morte no aparelho policial do Estado foram confirmadas e que eu iria elencar os policiais envolvidos. Neste mesmo dia que convidei a imprensa, uma operação foi montada pela polícia civil e todos os envolvidos foram presos e depois julgados. Um dos policiais acusados, preso, disse que quando saísse da prisão iria matar um advogado, Dr. Clóvis, e um delegado de polícia, responsável pelas prisões.
Poderia dissecar mais dois casos dessa minha vida atribulada, mas deixo para outro momento. Alguns poucos falam que sou um herói, outros que sou pusilânime. Nada disso! Apenas sou inteiro em tudo o que faço! Não tenho tempo para ódio pessoal contra quem quer que seja. Ou, como diria a escritora e jornalista Clarice Lispector, “Até onde posso, vou deixando o melhor de mim... Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração”.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 1
Por Kleber Santos
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