01/05
09:58

Inferno e ideal

 

Carlos Alberto Menezes*

 

Todo idealista é um crente. O crente é aquele sujeito que, mesmo na derrota, transforma-a em portadora de valores, os valores pedagógicos, por exemplo, e, assim, fica encantado com as lições que pode extrair da dor, do sofrimento e do luto. Com efeito, os idealistas são incorrigíveis e, acerca deles, Nietzsche disse que se forem jogados fora do céu, farão do inferno um ideal.  Mas, ao contrário do que imagina o senso comum, não há defeito nisso. O defeito é próprio do falso idealista, aquele que, atingido por uma desilusão qualquer, se corrige a preço de banana. A desilusão, no espírito do genuíno idealista, acaba sendo o alimento de novas empreitadas. Sem esse espírito, uma energia máscula na verdade, o tédio reivindica todos os direitos, tornando-se o Senhor da vida.

Nunca elegi o tédio como meu Senhor. O Senhor que sempre me conduziu foram minhas crenças, não importa se deduzidas de diferentes paradigmas de interpretação do mundo. O que importa mesmo é que todas elas, aplicadas à vida pública, têm em comum e são justificadas pela idéia de que buscam o melhor para o Brasil. Uma dessas crenças é a liberdade. Em nome dela combati seus inimigos, durante os melhores anos da juventude. Outra é a ciência. Por amor e fidelidade a ela, submeti-me a rigores sem os quais ninguém tem acesso e, assim, pode transmitir depois [como faço hoje na UFS], à luz que emancipa. Por último, a crença na justiça. Desde cedo compreendi que a tribuna (no fórum) é o lugar capaz de, na origem, repercutir todas as paixões que somente a justiça pode apaziguar. Assim, resolvi ser advogado. Nessa condição, durante todo o tempo pude ajudar meu povo e durante algum tempo pude ajudar minha categoria [como presidente da OAB/SE].

Pois bem, a categoria que um dia representei, através de seus líderes hoje: Carlos Augusto Monteiro, Henri Clay, Miguel Britto, Valmir Macedo, e, sobretudo, Cezar Britto [um orgulho da advocacia brasileira e cuja atuação política transcende as fronteiras do país], decidiu me convocar para a disputa de uma vaga no STJ. Aceitei. Depois disso, foi um longo e agonizante processo, cujo ritual contemplou etapas, todas elas enfrentadas com os cuidados estratégicos próprios. Em 1º lugar foi a sabatina no CFOAB. Ela ocorreu em setembro passado. Por si mesma, a sabatina decide pouco. Sua tarefa é mais excluir pretendentes visivelmente frágeis (sob o aspecto intelectual). O que decide mesmo é o jogo de forças que está por trás dos pretendentes. Bem, aí foi fácil. Os conselheiros federais de Sergipe (Henri Clay, Miguel Brito e Valmir Macedo) e Cezar Britto resolveram a parada. De qualquer modo, o episódio despertou a atenção de Sergipe.

Depois da OAB veio o STJ. Ninguém tinha dúvida de que o jogo aí seria diferente e difícil. Nele, apesar dos concorrentes, o maior adversário do candidato não era nenhum deles, mas o próprio candidato. Passar por essa prova exigia estratégia e desempenho [habilidade, refinamento, confiança] nos contatos com cada um dos ministros. (Raposas felpudas, todos eles!). A estratégia era simples e implicava um elemento de negação e outro de afirmação. A negação consistiu na recusa em qualquer forma de apoio político. A afirmação consistiu em mostrar para a Corte que minha candidatura era um projeto da advocacia privada (e não da pública), respaldada num currículo credenciado e por setores do pensamento jurídico nacional. Deu certo. Nessa etapa foram decisivas as recomendações (não o pedido!) de Carlos Britto (min. do STF), Castro Meira (min. do STJ e ex-juiz federal em Sergipe), Arnaldo Fonseca, Dirceu de Mello (ex-presidente do TJ/SP, reitor da PUC/SP e orientador da minha tese de doutorado), Alberto Toron (também professor da PUC/SP) e, novamente, de Cezar Britto. (Num outro sentido, foi decisiva também a contribuição pessoal e logística que recebi de Anselmo Oliveira, Bosco Mendonça, Clotilde Cezarina, Ernesto Joaquim, Evânio Moura, Luiz Mendonça, Marcos Brito, Marilza Maynard, Rosenice Machado, Sandro Costa, Wanderson Bastos). A vitória no STJ, mais do que despertar a atenção, mobilizou a sociedade rumo à 3ª etapa, aquela onde o que um dia chamei ‘mãos do destino’ assinaria seu decreto final.

Eu sabia que o avanço para a 3ª etapa implicava num aumento crescente das dificuldades. Desconfiava que um advogado de São Paulo, formado pela FMU (faculdades metropolitanas unidas) e muitíssimo ligado ao PT, era portador de chances especiais. Mas não desanimei. Sobretudo depois que comecei a receber as abundantes manifestações de apoio da comunidade. Elas vinham da mídia [Cláudio Nunes, Eugênio Nascimento, Gilmar Carvalho, Gilvan Manoel e Rita de Oliveira, Jozailto Lima, Luiz Antônio Barreto, Luiz Eduardo Costa], da CUT, do TCE, do TRE, do TRT, de membros do MP e do TJ. Foi na seqüência de todo esse movimento que os líderes da política local se agitaram. Ninguém ficou indiferente. Os deputados, estaduais e federais [dois deles, Laércio oliveira e Márcio Macedo usaram a tribuna da Câmara], os senadores [Eduardo Amorim, Maria do Carmo Alves e Valadares], todos entraram na briga. À frente dela ficaram o presidente nacional do PT, Eduardo Dutra, e o governador Marcelo Déda. Fizeram o que estava ao alcance de cada um. Mas não deu certo. O escolhido foi o outro. Houve uma escolha, no entanto, cujo registro cabe aqui. Foi aquela feita por Dutra e Déda. Eu não sou do PT, mas deram exemplo de superioridade. Dilma, não. Ela mostrou que governa para facções.

 

*Advogado, professor de direito penal na UFS e doutor pela PUC/SP.



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Por Eugênio Nascimento
01/05
09:48

Um Cão Andaluz

Clóvis Barbosa (*)

 

Um Cão Andaluz foi o filme de estréia de Luis Buñuel, que contou com a colaboração do artista Salvador Dali. Lançado em 1928, é um dos marcos da cinematografia mundial, cuja imagem que ainda hoje é lembrada como impactante e pavorosa é o de uma navalha cortando um globo ocular. Lembrei-me desse filme no dia de ontem ao ler a “autobiografia” de Alice B. Toklas, escrita por Gertrude Stein, o grande amor de sua vida. É que Gertrude foi viver em Paris nos anos de 1920 e coube a ela a invenção da expressão “geração perdida”, aplicada aos artistas que viveram naquela década na capital francesa.  Confesso que sou emotivo. Quando visitei recentemente Paris, chorei ao divisar a casa de número 27 da Rue de Fleurus, no complexo Montparnasse. Era uma noite muita fria e poucas pessoas andavam no local. Eu estava sozinho a imaginar Picasso (dizem que foi uma descoberta de Stein), Ernest Hemingway, Matisse, Scott Fitzgerald, Jean Cocteau, Apollinaire e tantos outros entrando naquela casa. Entrei num pequeno bar e pedi um conhaque. Tomei de uma só golada e fui embora, deixando a casa para trás. Eu tinha andado muito. Praticamente caminhei de Alesia até o final de linha onde tinha uma estação de trem ou terminal de ônibus. Depois voltei para Alesia e fui caminhando por toda a Avenue Maine. No retorno, pela mesma avenida, um turbilhão de imagens passou pela minha cabeça. A minha infância pobre no pobre Bairro da Liberdade, em Salvador de Bahia, andando em ruas e trechos com nomes curiosos, como Ladeira de Pedra, Curuzu, Largo da Central, Baixo da Gengibirra, Largo do Tanque, Fim de Linha da Liberdade, etc.

Lembrava-me daquele menino raquítico, que era chamado de amarelo empapuçado, com 13 anos e já trabalhando para ajudar a família de dez irmãos na época; estudava pela tarde e trabalhava pela manhã numa loja na Baixa do Sapateiro; aos sábados à tarde ganhava uns trocados vendendo gibis na porta do cinema Santo Antônio e aos domingos passava cera em sete escritórios no Ed. Rui Barbosa; a minha alegria quando passei no exame de admissão do Instituto Normal Isaias Alves; minhas noites no Instituto Goeth, Teatro Vila Velha, Cine Rio Vermelho, Concha Acústica do Teatro Castro Alves, programas de auditório na Rádio Sociedade da Bahia e Rádio Excelsior, no Clube de Cinema da Bahia, carnaval no Clube Palmeiras da Barra Avenida; tentativas, muitas vezes frustradas, de furar o bloqueio do Fantoches, Iate Clube e Clube Espanhol nos bailes de carnaval; e Aracaju quando aqui cheguei com as suas marinetes e kombis fazendo o transporte coletivo; os meus primeiros amigos, a Jovreu, Editora Jovens Reunidos, o Clube de Cinema de Sergipe, a Faculdade de Direito, a advocacia, a Universidade Federal de Sergipe, a Prefeitura de Aracaju, o Governo do Estado, lugares onde deixei a minha energia pela inteireza da minha dedicação; o saudoso Cacique chá; o cachorro quente de Seu João, vizinho à Catedral; a moqueca de camarão do Bairro Soledade; o churrasco de Carioca na Rua Porto Alegre com Pernambuco, onde cada pedaço de carne ou de osso era disputado com os  olhares tristes dos cães que rodeavam a pequena churrasqueira; a sopa mão de vaca de Luis Ponta de Ouro, no Bairro Santo Antônio.


Eram recordações de dias tristes e felizes. Mas é isso: a felicidade é sempre amarga, como o sol é ilusório. Releio Kafka. A Metamorfose. Pela décima vez? Não sei se mais ou menos. Não quero saber do conceito que Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, de Georg Lukács e de Freud sobre a obra kafkaniana. A Metamorfose e O Veredicto eu estraçalho em um dia. Invado o mundo de Georg Bende (Mann) e Gregor Samsa. Pronto! Falei em contos, lá vem as lembranças: Ezequiel Monteiro. Tudo bem, não precisam ficar nervosos. Eu sei que Luiz Eduardo Costa é brilhante e tantos e tantos outros que desfilam com as suas penas nos jornais de Sergipe. Mas, por favor, não confundam as coisas. Eu sei que não sou crítico literário, mas tenho bom senso. Certa vez tive uma discussão com um professor de teoria literária. Lá pras tantas eu achei de defender a tese de que Chico Buarque e Vinícius de Moraes eram poetas com “p” maiúsculo e que nada ficavam a dever aos grandes poetas brasileiros. Pronto, o mundo desabou sobre mim e a minha ignorância. Isso tem uns quinze anos aproximadamente. Pois bem, hoje, a intelligentsia brasileira já reconhece Vinícius como um grande poeta. Aliás, quando vou ao Rio de Janeiro, quem quiser me encontrar pode ir na Toca do Vinícius, na Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema. Ali eu recebo aulas de Teoria Literária de um professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, que por prazer, toca a Toca. Um dia eu disse a um colega que se diz meu ex-amigo: meu irmão, você já viu o texto de Ezequiel Monteiro no Jornal da Cidade? Esse cara é um louco, ele é kafkaniano.


E continuava enfático defendendo o talento de Ezequiel. Não fui feliz na minha abordagem. Não tinha com quem discutir. Peguei uns quinze artigos de Ezequiel e guardei. Na próxima viagem ao Rio vou levá-los para discutir com meu amigo professor de teoria literária. E o pior é que estou com saudade do seu texto, principalmente dos seus gostosos contos, cheios de mágoas pelos amores perdidos ou impossíveis que faz-nos lembrar a poesia de Florbela Espanca: “Eu sou a que no mundo anda perdida, eu sou a que na vida não tem norte, sou a Irmã do Sonho, e desta sorte sou a crucificada, a dolorida (...). Sou aquela que passa e ninguém vê, sou a que chamam triste sem o ser, sou a que chora sem saber porquê. Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver e que nunca na vida me encontrou”. Jean Vigo, cineasta francês e de curta carreira, ao se reportar sobre a imagem contida no filme de Buñuel, afirmou que “essa imagem é mais pavorosa do que o espetáculo de uma nuvem tapando uma lua cheia”. Um Cão Andaluz, também é retocado por uma coleção de imagens sem qualquer conexão, impactantes e contraditórias. O que dizer de um cavalo morto em um piano? o que falar de formigas saindo da mão de alguém? Bem, a verdade é que este filme é considerado revolucionário na história do cinema, pois
rompe com toda a lógica e linearidade narrativa existente nos filmes daquela época, sendo uma combinação do representativo, do abstrato, do irreal e do inconsciente. Tento, aqui, hoje, fazer uma viagem ao surrealismo. Mas, o da imagem real combinada com as recordações. 
  

 

 (*) É Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe

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