09/06
21:12

No tempo do Onça

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

De onde se originou a expressão No tempo do Onça? De 1725 a 1732, o Rio de Janeiro foi administrado por Luís Vahia Monteiro, um capitão-geral extremamente severo com os gastos públicos. A lei, na sua época, era rigorosamente cumprida e não tinha esse negócio de para os amigos tudo e para os inimigos a lei. Ele exigia o seu cumprimento por todos os munícipes. Pois, justamente, pela forma como a cidade era gerida, a população passou a admirar o seu trabalho e o apelidou de “Onça”. As expressões mais ouvidas na época eram: “cuidado, o ‘Onça’ tá de olho”; “faça besteira que o ‘Onça’ lhe pega’; ‘’com ‘Onça’ no governo, propina nunca mais”; “o ‘Onça’ vem aí pra fazer uma devassa”. Era um homem truculento com aqueles que não gostavam de agir com decência. Cioso da sua honestidade, chegou ao ponto de fazer uma carta ao Rei de Portugal, Dom João VI, dizendo que “nesta terra todos roubam, menos eu”. Os saudosistas, sempre que detectam um gestor incompetente, corrupto, sem compromisso com a administração, frouxo nas atitudes, desleixados com os problemas, dizem logo: “Vocês precisavam conhecer o que era gestão pública! No tempo do ‘Onça’ não era brincadeira”.  A sua popularidade ultrapassou os séculos. Em 1944, o cantor da Era do Rádio, Carlos Galhardo, gravou uma valsa carnavalesca com o título “No tempo do Onça”, que dizia mais ou menos o seguinte: “Oh! Que saudades que eu tenho / Daquelas valsas, do tempo do Onça / Valsas que tinham alegria / Dançadas ao som de uma gerigonça”. Certa vez, referindo-se a fatos históricos passados, mais precisamente aos dias que antecederam o golpe militar de 1964, o saudoso colunista da Folha de São Paulo, Carlos Heitor Cony, escreveu “Segredos do tempo do Onça”, onde narra episódios revelados por documentos secretos do governo dos Estados Unidos sobre a política da América Latina e que, então, provocou injustificáveis preocupações.

Infelizmente, exemplos como os que foram deixados por Luís Vahia Monteiro, o Onça, não se constituem em regra de comportamento no mundo da política e da sociedade. O ministro Carlos Ayres Britto disse, certa vez, num evento em Salvador que “A nossa história é ruinzinha; o nosso DNA coletivo não é dos melhores. Enquanto nos Estados Unidos a sociedade civil chegou antes do Estado, aqui, no Brasil, o Estado chegou antes da sociedade civil. Somos sequelados política e juridicamente por causa desta chegada do Estado em primeiro lugar, assumindo a estrutura de todo o processo colonizador e civilizatório. Temos resquícios de um Estado imperial, como a prepotência, a arrogância, a confusão entre tomar posse no cargo e tomar posse do cargo”. Britto tem razão. A corrupção tem sido um câncer na história brasileira desde seus primórdios, no século XVI, período da nossa colonização. Alguns funcionários públicos, responsáveis pela fiscalização do contrabando e outros ilícitos contra a coroa portuguesa, eram os primeiros a praticar o comércio ilegal de produtos brasileiros, negociando, por debaixo do pano, diamantes, pau brasil, ouro e todo tipo de mercadoria que deveriam zelar em função dos cargos que exerciam. Os traficantes de escravos nos séculos XVI a XIX agiram à vontade durante os períodos colonial e império, sendo inclusive estimulados por altas autoridades políticas que compravam esses escravos, sendo tolerantes e coniventes com tais infratores, apesar das denúncias de entidades e governos internacionais que proibiam o tráfico. Aliás, poucos sabem o que foi a carnificina escravocrata em nosso país, campeão mundial da escravidão moderna, chegando ao ponto de em 1820 - dois anos antes da Independência - ter uma população com dois terços de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no Rio de Janeiro 700 mil africanos. 

Documentos demonstram que a “Cidade Maravilhosa” foi a maior escravista do mundo desde a Roma antiga. E para arrematar: De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade levada para América do Norte. A corrupção, nesse ínterim, correu solta às custas do horror e das atrocidades praticadas contra os irmãos africanos. Outras formas de ilícitos contra o poder público foram se aperfeiçoando através dos tempos, sempre com a complacência do aparelho estatal. A concessão de obras públicas sempre foi um grande filão do pagamento de altas propinas a agentes do governo, desde a época imperial. O Visconde de Mauá, que obteve licença do governo para exploração de cabo submarino, por exemplo, o que fez? Por uma gorda indenização transferiu os seus direitos de exploração para uma empresa inglesa, passando, logo depois, a ser o diretor da multinacional. Um fato semelhante ocorreu com os serviços de exploração da iluminação a gás da cidade do Rio de Janeiro. Um empresário, que recebeu do imperador o direito de concessão para explorar a atividade, a transferiu por 120 mil libras para uma companhia inglesa. Escândalos envolvendo atos de corrupção eram práticas recorrentes durante o império, como no caso do alistamento de eleitores, através de uma comissão, que escolhia os mesmos ao seu próprio talante. Ou seja, só se tornava eleitor quem ela aprovasse e, para tanto, usava a extorsão como instrumento de persuasão na    liberação da listagem. E muitos políticos pagavam para ter os seus empregados, apaniguados e dependentes registrados em tais listas. Esse tipo de comportamento veio influenciar, já na República, o chamado voto de cabresto e a era do chamado coronelismo, tão bem explorado no clássico da literatura política brasileira, “Coronelismo, Enxada e Voto”, de Victor Nunes Leal, citado hoje por todos os estudos sociopolíticos do mundo.

Outra forma de corrupção é o assaque ao sistema democrático através de golpes e contragolpes perpetrados sempre contra a vontade popular. Descoberto no início do século XVI (1500), o Brasil foi colônia de Portugal durante três séculos, exatos 322 anos (1500 a 1822). Durante 77 anos (1822 a 1899), embora independente, viveu sob a forma monárquica, governada por Dom Pedro I e II. De 1899 a 1930, exatos 31 anos, já sob a forma republicana, no período cognominado de Primeira República. Foi uma etapa da vida brasileira muito tumultuada, onde as forças dominantes, civis e militares, eram bastante heterogêneas e onde a cultura do golpe campeava. Veio, em seguida, a Segunda República, de 1930 a 1937, com o cargo sendo ocupado por Getúlio Vargas após a renúncia imposta ao Presidente Washington Luís, com a interferência do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme. Foi uma fase bastante conturbada da vida brasileira, dominada pelos extremismos de direita e de esquerda que se polarizavam, influenciados pelos acontecimentos que ocorriam na Europa com o nazismo, fascismo e comunismo. Redundou tudo isso numa das ditaduras mais violentas das Américas, de 1937 a 1945, o chamado Estado Novo, onde, depois de 7 anos no poder, Getúlio Vargas abiscoitava mais oito anos como o ditador que mais vivenciou o poder no Brasil, em exatos 15 anos. Veio a redemocratização em 1945 e permaneceu até 1964, durando 19 anos. Mais uma vez, o Brasil não encontrou o seu caminho. Golpes e contragolpes eram tramados diuturnamente, sendo a fase mais radical das facções políticas existentes. Getúlio, Kubistchek, Jânio e Jango tiveram dificuldades em assumir o cargo de presidente, apesar de terem sido eleitos pelo povo.  Veio a ditadura militar, de 1964 a 1985, vivendo 21 anos entre nós. Mais uma vez o Brasil parava no tempo e no espaço, sem vivenciar o estado de direito democrático.

A normalização institucional só veio a partir de 1985 com a redemocratização. Somos, como se vê, ainda imberbes em democracia. Essa influência histórica contribui bastante para que nossos interesses egoísticos impeçam que o Estado concretize o bem comum. Como diz Chico Buarque, ele, o Estado, dorme tão distraído sem perceber que é subtraído vergonhosamente em inúmeras e intermináveis tenebrosas transações. Raymundo Faoro, na sua obra, “Os donos do poder”, aborda as relações de poder sob duas óticas, uma de natureza do estamento, outra de ordem patrimonialista. Para ele, acima das classes sociais e do interesse público, está o estamento burocrático que se apropria da coisa pública, a fim de sustentar os seus privilégios. Os escândalos no campo do assaque ao erário são tão grandes que o tempo se encarrega de esquecê-los: O lema do político paulista Adhemar de Barros era o de “Rouba, mas faz!”; as famosas “caixinhas” feitas por bicheiros, fornecedores, empresários e empreiteiros como forma de angariar recursos para os políticos em troca de favores; o caso Capemi (Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios), que envolveu militares de alta patente durante a ditadura militar; o caso Coroa-Brastel, também durante a ditadura; o esquema de corrupção montado na era Collor de Mello; e as diversas operações de combate à corrupção que detonaram a máfia dos políticos, empresários e doleiros, descobertas através dos recentes trabalhos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Ainda prevalece em nosso país a ideia de que a coisa pública, por ser de todos, não é de ninguém. Na verdade, cada vez mais se torna real a profecia de Lévi-Strauss na qual o Brasil passaria da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Mas, quem sabe, não custa acreditar que os brasileiros, um dia, vão voltar a dar o devido valor à honestidade e à decência, aquelas “do tempo do Onça”. 

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
09/06
19:07

50 anos da UFS - Alunos de Teatro fazem homenagem dia 14 no TTB

Os alunos do curso de Teatro da Universidade Federal de Sergipe realizam a apresentação de dois espetáculos em homenagem aos 50 da UFS – “Os Tambores de Brecht” (poesias e textos de Bertolt Brechet) e Beijo no Asfalto (de Nelson Rodrigues) no próximo dia 14, às 19h, no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju (SE). A entrada é gratuita.



Variedades
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Por Eugênio Nascimento
09/06
13:37

Vacinação: Sergipe não atinge meta programada

 O Estado de Sergipe ainda não alcançou a meta de cobertura vacinal da campanha contra o vírus da gripe, o H1N1, iniciada no dia 23 de abril. Ao contrário, o índice apurado pela Gerência do Núcleo de Imunização da Secretaria de Estado da Saúde revela uma baixa cobertura, com 390 mil doses aplicadas, o equivalente a 76% da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde que é de 90% do público-alvo. A imunização insatisfatória faz vítimas fatais. Este ano, três pessoas morreram pelo vírus H1N1, um adulto e dois bebês.

Dos 75 municípios, apenas 14 alcançaram os 90% de cobertura vacinal. “Reconhecemos o esforço dos gestores de Arauá, Boquim, Feira Nova, General Maynard, Macambira, Nossa Senhora de Lourdes, Pirambu, Poço Redondo, Poço Verde, Ribeirópolis, Simão Dias, Telha, Malhada dos Bois e Monte Alegre, que não pouparam esforços para garantir a imunização a todos dos grupos prioritários”, exaltou a gerente do Núcleo de imunização, Sândala Teles.

Entretanto, municípios de maior densidade populacional como Aracaju e Nossa Senhora do Socorro estão bem aquém da meta vacinal: 70% e 60%, respectivamente. “Alertamos os municípios que não alcançaram a cobertura de 90% que continuem se esforçando para atingi-la, que desenvolvam estratégias como a busca ativa para assegurar o direito à vacina de todos dos grupos prioritários”, orienta Sândala, espelhada nas ações do município de Nossa Senhora do Socorro.

Com 86% de cobertura vacinal, o município de Glória desenvolveu estratégias eficazes para atingir a meta do Ministério da Saúde, segundo garante o coordenador de Imunização e de Vigilância Epidemiológica, Francisco Edilson de Souza. “Para garantir que até o fim da campanha a gente alcance os 90% estamos fazendo a vacinação nos domicílios. Para isso, solicitamos aos agentes comunitários que realizassem um levantamento junto ao público-alvo e a partir daí detectamos aqueles que ainda não tinham tomado a vacina e fomos aos seus domicílios para imuniza-los. Antes, vacinamos alunos e professores nas escolas”, informou o coordenador.



Variedades
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Por Eugênio Nascimento
09/06
13:29

Emília Corrêa : Mulheres são maioria invisível na política

A defensora pública, vereadora e pré-candidata ao Senado, Emília Corrêa (Patriota),  destacou, em pronunciamento,  a importância da mulher na política defendendo a sua participação na humanização da sociedade.


Segundo Emília, o acolhimento, a gratuidade, a compaixão, a ternura, a firmeza e a paciência, são alguns dos valores presentes nas mulheres e indispensáveis para vida pública.


“A mulher que deseja participar da política deve se somar. É uma caminhada difícil, mas possível e necessária. Desse jeito a política pode ser mais humanizada”, ressaltou.


De acordo com a patriota, existem lacunas no sistema eleitoral para a representatividade feminina. Apesar das mulheres serem 52% do eleitorado, são uma maioria invisível por ocuparem pouco mais de 10 % dos cargos eletivos.


“A falta de representatividade na política evidencia que a legislação atual não é tão eficiente para assegurar a igualdade. Um novo capítulo pode se construir esse ano com a conquista do merecido espaço e a visibilidade da mulher na política. É preciso quebrar essas barreiras”, concluiu.



Política
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Por Eugênio Nascimento
09/06
13:07

CRIME DE LESA CULTURA: Atentado contra a pintura mural da Igreja Matriz de Porto da Folha

Antônio Fernando de Araújo Sá - Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe e Doutor em História Cultural pela Universidade de Brasília

 

No contexto do bicentenário da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (1821-2021), na cidade de Porto da Folha, no sertão de Sergipe, a campanha pela reforma da Igreja Matriz, proposta pelo pároco Melchizedeck de Oliveira Neto, em 2016, desencadeou na comunidade católica uma campanha para a preservação da pintura mural do altar mor, com a criação de um abaixo assinado em 16 de maio de 2018, reivindicando o tombamento da pintura realizada por Frei Juvenal Vieira Bomfim, em 1970.

 

A argumentação de um dos líderes dessa campanha pela arrecadação de fundos para a reforma é que “não podemos deixar que uma história se perca em meio a debates claramente político-ideológicos”. Segundo Glauber Resende, “a pintura, devido a dificuldade de remoção, será reproduzida em outro local da igreja, sem prejuízo para sua parte em nossa história”. Outro defensor da retirada do mural, Luiz Fontenelli argumenta que “nada mais justo que o altar seja reposto da forma em que foi construída [sic], pois é de suma importância resguardar a nossa verdadeira história” (CINFORM. Ideologia X religiosidade (Caderno Municípios). Aracaju, ano 35, ed. 1834, p. 94-98).

 

Esse não é o entendimento de instituições culturais do Estado de Sergipe, como o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que defendem a permanência do afresco, opinião compartilhada pelo professor emérito da Universidade Federal de Sergipe, José Paulino da Silva. Setores da Igreja Católica, como a Comissão Diocesana de CEBs da Diocese de Garanhuns, também apoiam a manutenção do mural na Igreja Matriz.

 

Essas manifestações ecoaram no Conselho Estadual de Cultura, que, em reunião do dia 15 de maio de 2018, deliberou pelo início do processo de tombamento, nomeando o conselheiro Fernando Aguiar como relator. Como medida preventiva, o presidente do Conselho, Antônio Alves do Amaral, oficiou o bispo da Diocese de Propriá, Dom Vítor Agnaldo de Menezes, e o pároco de Porto da Folha, Melchizedeck de Oliveira Neto, sobre o andamento do processo (Ofícios n. 19/2018 e n. 20/2018, respectivamente).

 

A pintura mural da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Porto da Folha, realizada por Frei Juvenal Bomfim, no ano de 1970, é um exemplo da representação artística das ideias do Concílio Vaticano II nos sertões nordestinos. Como outros artistas, como o espanhol Mino Cerezo Barredo, o frade realizou a representação de Cristo rodeado por camponeses e operários como forma de “exprimir o conceito da libertação dentro do campo católico cristão” (FRADE, Gabriel. A arte sacra e a liturgia. Revista de Cultura Teológica. V. 20 - n. 80 - OUT/DEZ 2012, p. 57). Nas suas próprias palavras, o mural representou o “Cristo sertanejo, moreno, repartindo o pão, aves e flores, que lembram a confiança no Pai. Mais ainda: toda a vida do lugar: feira, vaqueiros, agricultores, bordadeiras, professora, e o rio São Francisco” (DIOCESE DE GARANHUNS. Carta aberta da Comissão Diocesana de CEBs. Sítio da Cruz, 25 de maio de 2018).

 

Desse modo, seguindo as diretrizes do Concílio Vaticano II, a pintura dá a predominância e ênfase à figura de Cristo, mas um Cristo sertanejo e moreno, repartindo o pão. Acima dele temos a imagem do Espírito Santo, que pode ser associada ao próprio Deus, parte da Santíssima Trindade, juntamente com Deus Pai e Deus Filho. A simbologia da pomba branca remete a paz e raios de fogo, irradiando sua força sobre todos que habitam as margens do rio São Francisco.

 

A preocupação social da arte brasileira, desde o modernismo, foi marcada tanto pela denúncia social, quanto por temas populares, com tendências figurativas evidentes sob a influência do muralismo mexicano. Para Ana Paula Baptista (BAPTISTA, Anna Paola P. O Eterno ao moderno: arte sacra no Brasil, anos 1940-50. UFRJ/IFCS, 2002 (Tese de outorado), a “arte moderna e a arte sacra têm no mural seu ponto de inflexão”, na medida em que, no período de 1943-1955, se privilegiou pinturas murais em templos católicos com encomendas para artistas modernos, como Candido Portinari e Alfredo Volpi. Portanto, a pintura mural de Frei Juvenal Bomfim não destoava de iniciativas similares patrocinadas pela Igreja Católica, mesmo antes do Concílio Vaticano II.

 

Por outro lado, podemos situá-la no contexto da resistência artística ao autoritarismo vigente e tributário do ar irrespirável do seu tempo (1970), compartilhando, com artistas como Glauber Rocha, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e de Antonio Callado, com Quarup (1967), a busca pela recuperação da cultura popular autêntica, sob a influência do romantismo revolucionário (RIDENTI, Marcelo. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano: O Tempo da Ditadura. V. 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003).

 

Em um momento de aprofundamento da discussão do tombamento da pintura mural da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição no Conselho Estadual da Cultura, fui surpreendido pela ação inescrupulosa de criminosos que destruíram parte da pintura mural, na madrugada do dia 5 de junho de 2018. A esse crime de lesa cultura temos que responder com o tombamento e restauração deste patrimônio histórico da cidade de Porto da Folha por parte do Estado de Sergipe.

 

Essa experiência, por certo traumática para a comunidade local, pode servir como uma importante prerrogativa para que se consolide entre nós a ideia de que o direito ao passado é uma das dimensões fundamentais da plena cidadania. Toda essa mobilização comunitária reitera que o registro da memória social deve ser definido a partir da sociedade e que cabe ao Estado garantir, conjuntamente, a preservação do bem cultural.

Afinal, a arte tem que estar em toda parte.




Política
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Por Eugênio Nascimento
09/06
13:02

TJ suspende efeitos da lei da meia passagem aos domingos por inconstitucionalidade

O Tribunal de Justiça de Sergipe suspendeu, nesta sexta-feira (08), os efeitos da Lei 5024/17 – da meia passagem de ônibus aos domingos. Durante o processo representantes da Prefeitura de Aracaju e da Câmara Municipal de Aracaju prestação considerações, contudo, na decisão o desembargador Osório de Araújo entendeu que a Lei se configura como inconstitucional, por tratar de um âmbito que cabe ao Poder Executivo, já que gera despesa ao Município. Como já havia sido destacado por setor do transporte, a medida estava em desacordo com as orientações da Lei Orgânica do Município e Lei Federal quanto a necessidade de se apontar a fonte de custeio para a concessão de qualquer gratuidade no transporte, isto como forma de não onerar o Município e o próprio passageiro, tendo em vista que toda gratuidade incide na tarifa de ônibus. A ação foi movida pela Federação das Empresas de Transporte da Bahia e de Sergipe, processo nº 201800113255.
 


Política
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Por Eugênio Nascimento
09/06
12:52

Dom Brandão de Castro: do assistencialismo ao engajamento

Afonso Nascimento  -  Professor de Direito da UFS

 

Foi-se o tempo em que brasileiros tinham respeito e admiração por bispos e padres que tomavam partido não retórico contra injustiças sociais e contra situações de opressão que ocorriam no campo e nas cidades do país. Homens de fibra como dom Helder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Evaristo Arns, entre outros, faziam denúncia de violações dos direitos humanos cometidas pelo regime militar, bem como por indivíduos e instituições da sociedade civil. Eram pessoas com compromisso com valores do cristianismo e com as declarações dos direitos humanos. Além dos nomes da lista incompleta acima, incluiremos dom José Brandão de Castro, o primeiro bispo da Diocese de Propriá, o que significa dizer bispo da região do Baixo São Francisco, ontem e hoje o maior bolsão de pobreza de Sergipe.

 

Foi um bispo que chegou a Sergipe em 1962, proveniente de Minas Gerais e que trabalhou com dois arcebispos de Aracaju, a saber, Dom José Vicente Távora e dom Luciano Duarte. O bispo mineiro tinha nascido numa família classe média e nunca escondeu que era anticomunista. Apoiou golpe militar de 1964, celebrou missa e fez marcha para comemorar a ruptura democrática que ocorria no país. 

 

Na sua diocese recém-fundada, fez visitas a diversas cidades e a povoados e concluiu que ali vivia uma população católica mas quase sem nenhuma instrução religiosa. Esse foi o perfil construído por ele. Para poder realizar o seu trabalho, concluiu, tinha um problema principal para resolver: a sua diocese não tinha quadros religiosos com os quais trabalhar junto ao seu rebanho de miseráveis. Além de criar um seminário, buscou na França e na Bélgica padres e freiras que desejassem vir trabalhar em Sergipe como missionários, no grupo dos quais também incluiu católicos leigos dos dois países. Não muito mais tarde, ou quase ao mesmo tempo, também aqui aportaram freiras e padres brasileiros. Foi assim que, com equipe formada, dom Brandão lançou-se ao trabalho de bispo que lhe fora destinado por seus superiores hierárquicos.

 

Para que se tenha uma ideia da grande presença de padres estrangeiros na Diocese, apresentamos aqui alguns de seus nomes: Paul Lebeau, Nestor Mathieu, Guido Michel Dessy, Gérard Olivier, Claude Philippe, Domingo Pulgiz, Jean Sielski, Henri Kuleska, Henri Tomazzewski, etc. Também chegaram à conservadora Propriá as voluntárias estrangeiras como Anita Nissink e Monica Poncin, etc. Essas pessoas do velho continente passaram a viver o cotidiano do povo da região e, de respente, pareciam sertanejos e ribeirinhos pobres que falavam uma língua que não era o francês da Bélgica e da França, mas o sergipanês em conflito com a gramática e o dicionário do Brasil. Seríamos injustos se negássemos a importância dos padres brasileiros nesse trabalho de engajamento político, alguns dos quais mais tarde se tornaram políticos.

 

Dom Brandão não era o que se poderia chamar de um bispo progressista, embora frequentasse encontros nacionais e internacionais de grupos religiosos ligados à Teologia da Libertação. A sua prática era o assistencialismo religioso tão comum ao Brasil de ontem e de hoje - e muito semelhante ao assistencialismo que fazem as secretarias municipais e estaduais de assistência social pelo país afora. Com uma diferença: enquanto o assistencialismo religioso busca o controle sobre as "almas" do rebanho, o assistencialismo político não quer senão o controle dos votos dessa população. E não é raro que os dois assistencialismos se juntem, como foi muito comum na maior parte da história do Brasil.

 

Tradicionalmente, em Propriá e outras cidades da mesma região, os religiosos católicos tinham uma aliança mais do que explícita com os grupos políticos e econômicos dominantes. De acordo com um certo relato, as chaves da casa paroquial, da igreja, entre outras, ficavam sob o controle desses grupos civis. Dada tal imbricação, a igreja não passava de uma extensão dos interesses políticos e econômicos dos mandões da região.Aos poucos, porém, esse quadro vai sendo modificado com a atuação dos times de trabalho de dom Brandão, que se estabeleceram em Comunidades Eclesiais de Base em 1971 e que passaram a incomodar os poderes estabelecidos locais.

 

Em nossa opinião, isso pode ter tido a ver com o fato de os religiosos estrangeiros não terem vínculos com os grupos dominantes locais, bem como, de certa forma, o fato de Dom Brandão também ser um "estrangeiro", ou seja, não sergipano. Começou a haver uma certa autonomia dos religiosos em relação aos poderosos da região e, por conseguinte, com o regime militar em Sergipe. No ano de 1966, dom Brandão foi chamado a depor na Polícia Federal diversas vezes. Como resultado disso, é nesse ano que ocorre um certo distanciamento dos religiosos da Diocese de Propriá com o regime militar. Mas foi no caso da Fazenda Betume que a grande ruptura teve lugar. Segundo as palavras do próprio Dom Brandão, "não resta dúvida que foi o caso do Betume que abriu meus olhos". Depois desse caso, dom Brandão passou abertamente a fazer a sua opção preferencial pelos pobres, abandonando práticas de assistencialismo por aquelas de engajamento religioso ao lado dos trabalhadores rurais. 

 

Foram esses os principais conflitos - que quase exclusivamente giravam em torno da terra - em que se envolveram dom Brandão e suas equipes:  o caso da ocupação da Cooperativa Camurupim, onde trabalhavam padres belgas, na qual a Polícia Federal fez buscas, sem explicar as razões para isso, apenas revelando tratar-se de problema de segurança nacional no ano de 1973; o caso da agressão ao frei Roberto Eufrásio, que foi agredido fisicamente pelo filho do dono da Fazenda Araticum, em 1974; o caso da Fazenda Betume, comprada pela CODEVASF, empresa federal que não pagou indenização a posseiros e agregados da terra; o caso do povo indígena Xocó em 1978; o caso dos camponeses de Santana dos Frades; o caso dos moradores do povoado Ilha do Ouro em 1980. Por engajar-se nessas lutas do lado dos trabalhadores, o bispo e seus seguidores receberam críticas e ações de solidariedade da parte de religiosos e civis, dentro e fora de Sergipe. Não se pode esquecer que essas batalhas começaram no governo do general Médici e entraram no governo do general Figueiredo e que o uso da violência – até mesmo dentro da Igreja! – não faltou.

 

Por conta de sua ação ao lado de trabalhadores rurais, índios e quilombolas, dom Brandão foi chamado por autoridades federais de "inocente útil", o que significava dizer que ele não era comunista. Enquanto dom José Vicente Távora esteve vivo, ele contou com o apoio do arcebispo de Aracaju. Com a sua morte em prisão domiciliar na Cúria, o posto do religioso cearense passou a ser ocupado por dom Luciano Duarte, aliado dos militares, que lhe retirou suporte e passou a trabalhar, com sucesso, para fazer expurgos dos padres estrangeiros. É aqui que a Polícia Federal começa a colocar dificuldades para a renovação dos vistos de permanência no país dos padres estrangeiros e têm início as pressões para retirar dom Brandão de Sergipe. Então, de "inocente útil", o bispo mineiro que tinha feito sua carreira em solo sergipano, recebeu a alcunha de "comunista", agressão também feita por dom Luciano Duarte.

 

Religiosos que, em diversas ocasiões, dividiram dormitórios improvisados com dom Brandão testemunharam pesadelos do bispo mineiro que gritava "Dom Luciano, eu sou comunista!" Para um anticomunista como ele ser chamado de comunista parecia algo equivalente a ato de tortura moral. Dom Brandão não suportou as pressões de religiosos (Núncio Apostólico no Brasil, dom Luciano Duarte, etc.) e de autoridades do regime militar e, finalmente, em 1987 renunciou ao seu posto na Diocese de Propriá e voltou para as suas Minas Gerais. Com a sua partida, a Igreja Católica sergipana vem se arrastando através do velho assistencialismo e perdendo seguidores no mercado da fé.

____

 

Esse texto está baseado livremente na dissertação de mestrado de Isaias Carlos Nascimento Filho, intitulada “Dom Brandão, o profeta do povo de Deus do Baixo São Francisco”, a qual foi defendida na Universidade Católica de Pernambuco no ano de 2012.



Coluna Afonso Nascimento
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Por Eugênio Nascimento
08/06
17:39

Alckmin virá a SE em pré-campanha para a Presidência 2ª feira

O presidente estadual do Partido da Social Democracia Brasileira de Sergipe (PSDB-SE), pré-candidato ao governo do Estado e senador por Sergipe, Eduardo Amorim, confirmou para as 7h desta  segunda-feira, 11, a entrevista coletiva com o pré-candidato a presidência da República, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que estará visitando o estado de Sergipe para realizar atividades da sua pré-campanha, além de palestra com empresários. O encontro com a imprensa será no Hotel Radisson na orla da praia de Atalaia.



Política
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Por Eugênio Nascimento
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