16/11
16:26

Meninos, eu vi!

"O certo é que as modernas 'deusas TV' e 'Rede Social' confiscaram as prerrogativas do depoimento da veracidade dos fatos vividos ou escondidos do olhar, sendo invocadas quando duvidam das palavras espalhadas por seus seguidores"

O poeta maranhense Gonçalves Dias, patrono da cadeira 15, da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Olavo Bilac, é daqueles personagens históricos que, simultaneamente, imortalizou-se e fez imortal a palavra. Indigenista de cocar cheio, fez da poesia I-juca-pirama, um dos mais belos escritos sobre as coisas nativas do Brasil.

Nessa sua inesquecível peça, contou-nos que “Juca Pirama”, um velho Timbira, coberto de glória, guardou a memória do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, dizia prudente: – Meninos, eu vi!”

Naqueles tão distantes tempos, televisões, rádios, internet, satélites, redes sociais, telefones e celulares eram expressões estranhas entre as pessoas, até porque sequer imaginados como futuras invenções. Não se poderia pensar que as informações chegariam dentro das casas por ondas invisíveis ao olhar, estabelecendo formas de pensar, padrões culturais, manias sociais ou condutas morais vinculadas e monopolizadas por mãos marionetistas bem conhecidas.

Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Machado de Assis, Luiz Gama e tantos outros que viveram na plenitude da monarquia brasileira tinham na tradição da palavra, escrita ou verbal, o melhor dos meios de comunicação. E para eles, quando duvidavam da palavra exposta, bastava-se dizer: – Meninos, eu vi!

Hoje o povo timbira e milhões de outros nativos brasileiros não têm no velho Tupi ou no seu Deus Tupã os avaliadores das palavras que serão ditas. Tampouco invocam os testemunhos dos deuses e deusas Açutí (escrita), Arapé (dança), Aruanã (alegria), Caramuru (trovão), Caupé (beleza), Curupira (mata), Graçaí (eloquência), Guaipira (história), Guaraci (sol), Jaci (lua), Parajás (honra e justiça), Picê (poesia), Piná (simpatia), Polo (mensageiro de Tupã), Rudá (amor) e Yara (lagos).

Alguns dizem, entretanto, que apenas sobreviveram os cultos de adoração à sacralidade de Anhangá (trevas), de Pirarucu (mal), das Tiriricas (deusas do ódio, da raiva e da maldade) e de Xandoré (ódio), pois são os incontáveis testemunhos de pessoas que, vítimas doutras tantas, gritam, diariamente: – Meninos, eu vi!

O certo é que as modernas “deusas TV” e “Rede Social” confiscaram as prerrogativas do depoimento da veracidade dos fatos vividos ou escondidos do olhar, sendo invocadas quando duvidam das palavras espalhadas por seus seguidores. É que especialistas indicam que a maioria da população brasileira obtém as informações através dos canais televisivos e, mais recentemente, via mensagens virtuais. Estas informações são colhidas com ares de veracidade e repassadas no mesmo tom de autenticidade, mesmo quando visivelmente falsas.

Não sem razão as notícias falsas foram decisivas no processo eleitoral que apontou a vitória do candidato Jair Bolsonaro, sempre repassadas por fiéis seguidores como se dissessem: – Meninos, eu vi!

As deidades da pós-modernidade têm no Poder Judiciário um concorrente informativo de peso considerável, pois aquinhoado do poder constitucional da imparcialidade. Certamente por isso a notícia que dele brota, mesmo que emitida por pessoas compreensivelmente falíveis, ideologizadas e portadoras de conceitos e preconceitos típicos dos que convivem em sociedade, tem o mesmo poder de convencimento que o povo timbira atribuía a todos os deuses já reverenciados em terras tupiniquins.

Diante de uma decisão judicial os contadores de causos e causas, quando desafiados por seus interlocutores, logo dizem para aceite de todos: – Meninos, eu vi!

E viram, incrédulos, que um magistrado goiano, amigo dos inimigos da democracia, tinha orquestrado uma armação para impedir que as eleições de outubro ocorressem, somente frustrado no seu intento ilegal de mandar o Exército recolher as urnas por ação do CNJ.

E viram, ainda descrentes, que outros magistrados, coletivamente articulados, atacaram a liberdade de cátedra, de reunião e de opinião das universidades brasileiras, em gesto eleitoral apontado pelo STF como autoritário, desprezível e inconstitucional.

E viram, seguindo agnósticos, que um juiz, famoso por morar em sua ação judicial um indisfarçado ativismo político, trocara a toga pelo cargo ministerial oferecido por quem ajudara a eleger, especialmente quando afastou da disputa o favorito do povo e, após confessada visita eleitoral, divulgou peças processuais sigilosas com a intensão de interferir nas eleições presidenciais. Estes, apesar do que viram, quando escutam que setores da magistratura não foram neutros e interferiram no resultado das urnas, preferem acreditar nas divas informativas e delas retirarem a defesa, orgulhosamente proclamando o auto-de-fé: – Meninos, eu vi!

Entre vistos e não vistos, divindades e pessoas, a vida segue no Brasil pós-eleitoral! Arautos do apocalipse anunciam que teremos escolas sem história e saber, livros travestidos em armas mortais, imprensa escrevendo o nada, trabalhadores sem partidos ou ministérios, magistraturas extintas no dever de decidir, legislações desconstituídas na missão de proteger, negócios que plantam a destruição da natureza, democracia embrulhada em papel descartável e outros sacrilégios não disfarçados nas promessas eleitorais.

Outras vozes, entretanto, apregoam que a resistência será a tônica do amanhã desperto, pois da vida e da trintenária Constituição Federal poderemos extrair que “ninguém solta a mão de ninguém”, já que todas e todos são partes indivisíveis de um mundo plural, livre, igualitário, solidário, democrático e que acredita, invocando Gonzaguinha, ser possível asseverar: – Meninos, eu vi o povo nas ruas, querendo dar à luz para quem quisesse ver, para quem quisesse ganhar o brilho da luz... bebi com eles a coragem das cores, na avenida Brasil, aprender a colorir.

Autor: Cezar Britto
Foto: Reprodução
 


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Por Redação
24/10
15:00

Museu a céu aberto

Pode-se, assim, classificar a “Fanshawe Pioneer Village”, rememorativo povoado nascido no século XIX, na colonização de London, região de Ontário, Canadá.

Em espaçosa área, localizam-se construções erigidas naquele tempo, além de outras remontadas e conservadas com esmero, narrando o período de existência citadino entre 1820 e 1920.

Fundada em 1818 por Hamilton Hartley Kilally, originário da localidade de Fanshwave, na Irlanda - daí a origem da palavra denominativa do lugar - que obteve apoio de compatrícios antes fixados na parte alta do rio Thames.

Edifícios residenciais e de atividades laborais, educacionais, religiosas e sociais foram construídos pelos rurícolas.

Alguns dos prédios têm recepcionistas, trajados à moda da época, conhecedores da história e que interagem com os visitantes de forma coloquial sobre costumes e fatos de então.

Nos vários imóveis é permitida a visitação interna para observação detalhada das dependências e objetos.

Percorrendo-se a Vila Pioneira de Fanshawe, ante aos cenários expostos, tem-se a sensação de ingresso no passado.

Arruados, por onde trafegaram pessoas, coches e carroças, serviram de caminhos para a formação e movimentação comunitária.

Na entrada, acha-se uma habitação tosca de colono, de único e pequeno cômodo que abrigou um casal, dez filhos e utensílios caseiros.

Seguindo-se pelas ruelas, encontra-se celeiro, escola, Loja Blacksmit, Igreja Presbiteriana, Taberna Corbett, Abrigo de Carruagens Shed, Loja Maçônica Monte Moriah, casa da antiga fazenda com estábulo e marcenaria, tribunal, morada do artista Paul Peel, lar, clínica e celeiro do Dr. Jones, coreto, Igreja Trinity, jornal e gráfica, armazém de produtos gerais, curtume, Cervejaria Brewery, Serraria Harmer e mais edificações.

Mesmo distante, sonhei a Casa de José Alencar encravada num recriado sítio Alagadiço Novo, da velha Messejana.

Autor: Geraldo Duarte; advogado, administrador e dicionarista.


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Por Redação
24/10
14:22

Pink Floyd, a turnê brasileira e o fascismo nosso de cada dia

Conheci o rock progressivo de Pink Floyd através do álbum The Wall, lançado em 1979. Eu pertencia à jovem geração universitária que combatia a ditadura civil-militar instalada em nosso país e sonhava com uma sociedade livre, que fugisse da lógica autoritária fascista: excludente e violenta. Não sem razão, em tom de rebelde e alegre protesto, cantávamos a versão Pink Floyd da cantiga popular "Atirei o pau no gato", pedindo que dona Chica deixasse o gato em paz, pois ele era bom demais. O fascismo, estatal ou não, era o adversário a ser vencido e contra ele caminhávamos, “sem lenço e sem documento”, acreditando “nas flores vencendo o canhão”.

No dia 1º de abril de 2012, realizei o velho sonho de assistir ao show The Wall, comandado pelo incansável Roger Waters. Eu era uma das 70 mil pessoas que lotavam o Estádio do Morumbi cantando, dentre outras, as antifascistas músicas Another Brick in the Wall e Comfortably Numb. E, confesso, a minha emoção se tornou mais forte quando, projetado no enorme muro de 424 tijolos, apareceu o nome a imagem de Jean Charles de Menezes, a quem Roger Waters dedicou a sua apoteótica apresentação, que fora assassinado pelo preconceito da polícia estatal inglesa. Nesta mesma sintonia de protesto, sobre nós desfilava o enorme porco-balão que, na versão brasileira, levava o nome do recém-aprovado Código Florestal.

Ao sairmos do show, comentávamos que o muro de 137 metros de largura, 11 metros de altura e 5,5 de profundidade, ainda guardava a mesma energia de resistência daquele que, no lugar ocupado pelo injustificável Muro de Berlim, fora assistido, em 1990, por mais de 350 mil pessoas. Desde então o álbum The Wall toca, diariamente, em meu carro. Um acertadíssimo presente que ganhei de minha nora Bia. Ele me serve de conselheiro ao ensinar que devemos combater todas as formas de autoritarismo, inclusive aquelas que, camufladas, habitam em nossas mentes.

O que esperar, então, do show de Roger Waters em sua nova rodada pelo Brasil? Como estar surpreso quando ele exerce o seu direito de protestar contra o estadunidense Donald Trump, o húngaro Viktor Orbán, a francesa Marine Le Pen, o austríaco Sebastian Kurz, o britânico Nigel Farage, o polonês Jaroslaw Kaczynski, o russo Vladimir Putin e o brasileiro Jair Bolsonaro? Como acreditar que ele deixaria de fazer o seu tradicional protesto contra o nazismo que matara sua família e milhões? Como ele não reagiria ao fascismo que se apresenta diante de nosso olhar? Como impedir que ele e todas as pessoas que amam o seu semelhante cantem, falem e protestem?

Talvez possamos encontrar as respostas na música Blowin'In The Wind, de Bob Dylan e seu atemporal rock de protesto. Afinal, "quantos anos algumas pessoas podem existir até que permitam ser livres? Sim, e quantas mortes ele causará até saber que outras demais morreram? E quantas vezes um homem pode virar a sua cabeça e fingir que ele simplesmente não vê?" Roger Waters, em sua turnê pelo Brasil, no velho estilo Bob Dylan, nos diz que "a resposta, meu amigo, está soprando ao vento. A resposta está soprando ao vento".

E o vento nos sopra que combater o nazismo, o fascismo e toda forma de violência ainda é preciso, urgente e imprescindível, pois a paz ainda não venceu a guerra. A cada instante, em todo lugar do mundo, surgem propostas que transformam a violência, o racismo, a misoginia, o preconceito, a homofobia e outras formas de ódio em votos eleitorais depositados em urnas que espelham o que cada eleitor guarda na urna secreta do seu próprio coração.

Roger Waters, com o seu rock rebelde, sopra para a nossa consciência e nos pergunta, corajoso, desafiador e confortavelmente entorpecido: “Olá, tem alguém aí? Apenas acene se puder me ouvir. Tem alguém em casa?” E ao falar para o “eu” escondido em cada um de nós, faz um alerta: “Nós não precisamos de nenhuma lavagem cerebral”, pois, “em suma, tudo era apenas tijolos no muro. Em suma, todos vocês eram apenas tijolos no muro”. O muro que cada um constrói ou destrói a partir do primeiro “eu-tijolo”.

Autor: Cezar Britto, ex presidente do Conselho Federal da OAB
Foto: Reprodução


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Por Redação
18/10
17:54

Sobre eleições, corporações, tiranos e a placa de Auschwitz: “O trabalho libertará”

Cezar Britto – Ex-presidente do Conselho Federal da OAB

Impressionou-me a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho contra a empresa Havan, aquela que assume em sua fachada a Estátua da Liberdade estadunidense e tem sua sede em Santa Catarina. Acusava-se a empresa da prática de assédio moral e conduta abusiva, por obrigar seus empregados e empregadas a votarem no candidato Jair Bolsonaro. O juiz da 7ª Vara do Trabalho acatou o pedido ministerial, fixou uma multa de R$ 500 mil e determinou que a empresa infratora publicasse o conteúdo da decisão que reconheceu a gravidade da prática ilícita.

Noticia-se que a Havan não agiu de forma isolada. Assim como ela, várias empresas cometeram assédio moral contra seus empregados e empregadas, ameaçando-os de punições, demissões ou com prêmios caso votassem no candidato do PSL. Certamente esse inusitado, violento e coletivo gesto tinha como razão o compartilhar das ideias dos infratores com aquelas defendidas pelo presidenciável escolhido como porta-voz dos interesses patronais em debate.

Ou, escrevendo em outras palavras, os assediadores queriam eleito um candidato que tem um histórico de defesa dos interesses patronais. Como noticiado ao votar no Parlamento contra os direitos dos empregados domésticos e, depois, seu voto favorável à nefasta “deforma” trabalhista que transformou a CLT na Consolidação das Lesões Trabalhistas – e, em razão dela, os trabalhadores em “coisas” a serem apropriadas pelo menor preço imposto pela ganância do “mercado”.

E não só! Queriam o candidato que prometeu aprofundar a exploração, extinguindo a Justiça do Trabalho e ampliasse a política de restrições a direitos, como o fim da gratificação de férias e do 13º salário.

Mas não é a primeira vez na história em que empregadores, banqueiros, industriais e grandes empresários apoiam governantes que prometem destruir direitos trabalhistas, organizações sindicais e escravizar a classe trabalhadora. Não é a primeira vez, também, que financiam projetos que, sabidamente, sabiam exploradores, criminosos e atentatórios à dignidade da pessoa humana. Tampouco é a primeira vez que buscam o lucro fácil às custas das tragédias sociais que seus dinheiros financiam. Todos, evidentemente, disfarçados em despretensiosos interesses moralistas, religiosos, anticorruptos e patrióticos.

A historiadora Patrícia Agosto, em seu livro El Nazismo: La otra cara del capitalismo, afirma que foi exatamente assim o relacionamento aberto da classe patronal com o nazismo de Hitler. A IBM, por exemplo, ajudou, via holerite, a cruzar dados, nomes, direções, genealogias e contas bancárias para identificar os adversários do nazismo e, assim, terem seus bens confiscados, deportados ou condenados à morte em guetos e campos de concentração. E, devido a esse “feito”, o fundador da IBM recebeu, em 1937, a Cruz do Mérito da Alma Germana.

Condecoração nazista também recebida por Henri Ford, admirado por Hitler – que, aliás, tinha na sua sala de despacho uma foto do ídolo estadunidense. A subsidiária alemã da Ford era a fornecedora dos motores dos aviões de guerra da Luftwaffe, utilizando, para aumentar seus lucros, a mão de obra escravizada dos prisioneiros do ódio nazista.

Lucrar com o governo nazista era regra geral para o ambicioso poder econômico, pouco importando a tragédia humanitária anunciada, sem disfarce, por Hitler e seus asseclas. Os bancos Union Banking Corporation, Brown Brother Arriman (dirigindo pela família Bush), Chase Manhattan Bank (da família Rockfeller), Dresdner Bank (principal acionista da empresa encarregada de fazer os fornos onde se queimavam os cadáveres), Reichsbank, os bancos suíços, a companhia de seguro Allianz e tantas outras instituições financeiras lucraram com o nazismo e, vários deles, com o confisco das propriedades judias e as vendas forçadas para os próprios alemães. A indústria química I.G. Farben, a poderosa empresa de comunicação ITT, a German Steel Trust confessaram que sabiam e lucraram com o holocausto nazista.

Da mesma forma a Texaco, a Standard Oil of New Jersey, a General Motors, a Volks e infinitas empresas que investiam no ódio nazista aos comunistas e sindicatos para, destruindo direitos, ampliarem seus lucros. A anglo-holandesa Shell, inclusive seu diretor Henry Deterding, patrocinava as publicações nazistas e emprestou altas fortunas diretamente a Hitler, com a promessa de receber, quando eleito, o monopólio do petróleo das áreas alemãs e anexadas.

Estima-se que os campos de extermínios, os trens da morte, os guetos e as balas nazistas mataram milhões de judeus, cristãos, comunistas, ciganos, negros, homossexuais e outros tantos que se opuseram ou estavam na mira dos ódios nazistas. Sabe-se que grande parte da classe empresarial financiou, lucrou e utilizou mão de obra escrava dos campos de concentração.

Essa parcela do poder econômico concordara e fora cúmplice das ideias nazistas que “coisificavam” a pessoa humana. Certamente por isso não se chocava quando, ao adentrar o genocida campo de concentração de Auschwitz, lia a irônica placa pendurada na sua porta de entrada: “O TRABALHO LIBERTA”



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Por Eugênio Nascimento
14/10
15:09

Universidade pública: um bem de todos

Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

Somos um país que precisa acertar alguns passos. Governos após governos, a educação ainda deixa muito a desejar, especialmente no que diz respeito à educação pública. E, mais de perto, à educação pública superior. Tivemos alguns avanços, mas, é preciso avançar muito mais. Não poderíamos conceber uma educação universitária que acabasse servindo, sobretudo, às classes mais abastadas. Uma espécie de reserva de mercado para quem poderia pagar as boas escolas do ensino básico e, assim, ocupar majoritariamente as vagas nas instituições públicas de ensino superior, ou pagar os melhores cursos superiores nas melhores instituições privadas. O que seria, então, dos menos favorecidos? Seriam condenados, por maioria, a encerrar os estudos no ensino médio? Talvez num curso médio profissionalizante? Isto não seria isonômico. Não seria constitucional. Não seria republicano. 

A Constituição Federal assegura a igualdade de todos perante a lei. A lei, por seu turno, aponta direitos iguais quando se trata de buscar o amparo do estado para a prestação de serviços públicos. E que devem ser prestados de forma adequada, como acentua a Lei Maior. Não é preciso ser da área jurídica para saber disto. Aliás, todos o devem saber. 

A luta para que a Universidade pública continue pública deve ser de todos. Pública e com ensino de reconhecida qualidade. A Universidade pública tem sido responsável pela maioria das pesquisas acadêmicas. Pelo volume maior de projetos de extensão. Por uma diversificação inigualável de cursos, inclusive fora do chamado “eixão” de cursos que dão dinheiro fácil e vitrine a muitas Instituições de Ensino Superior da área privada. No Nordeste, especialmente, a Universidade Pública congrega a maioria esmagadora dos projetos de pesquisa e de extensão. E como o Nordeste precisa disso!

Ninguém venha, aqui, falar que nós da área educacional pública, estamos sendo corporativistas e estamos defendendo nossos cargos, aliás, conquistados por meio de concursos públicos, nossos vencimentos e, mais tarde, nossos proventos como futuros aposentados, no tempo devido e de acordo com as regras alusivas à matéria. Não é nada disso. O que estamos falando deve ser devidamente interpretado: nós lutamos ao longo de décadas para que o ensino superior público crescesse em quantidade e em qualidade. Para que todas as pessoas, de qualquer classe econômico-social, tivessem acesso ao ensino superior gratuito. O que conquistamos não deve ser relegado, mas, sim, melhorado e avançado, quem quer que seja o presidente eleito. É o que esperamos. 

O conservadorismo político, embalado pelo neoliberalismo mais avassalador, mais dogmático, estende os seus tentáculos sobre tudo que possa significar redução do estado, a fim de que se chegue ao estado mais acentuadamente mínimo possível. Dizem que é uma imposição das forças mais conservadoras do capitalismo internacional. A razão? Há dinheiro sobrando no mundo dito desenvolvido à espera de oportunidades no mundo dito em desenvolvimento. E, inicialmente, a educação superior passou a ser vista como um dos filões a ser explorado pelo capital internacional. Agora, alguns fundos de investimento norte-americanos e europeus miram também no ensino básico, inclusive em Aracaju, cujo colégio mais tradicional já foi adquirido por um desses grupos econômicos. 

Manter a estrutura educacional superior pública é imprescindível para que o país avance em todos os setores e para que o povo se afirme em sua dignidade. Não há progresso nem desenvolvimento sem educação e esta não pode simplesmente virar simples mercadoria. 

Há situações que precisam ser corrigidas nas Universidades Públicas? Nós temos clareza de que sim. Não somos dos tipos que se acomodam numa tal zona de conforto e ficam cegos. Queremos que a sociedade lute por um direito que a democracia consagrou: a igualdade de todos na luta pelo bem comum. Entendemos que a justiça social deve ser implementada passo a passo, pela conjugação de esforços dos governantes e dos governados. 

Não há bem comum mais precioso do que a educação em todos os níveis. A educação superior pública não deve deixar de ser pública. Esta deve ser a luta de todos que formam as comunidades acadêmicas. E o compromisso de quem nos deverá governar. A quem assim não puder entender, os nossos pêsames. 

Neste momento em que estamos na iminência de escolher o próximo mandatário da Nação, e em que a disputa recai entre um candidato à direita e outro à esquerda, o importante é que quem se eleger, quem merecer a aprovação popular, seja um ou outro, com este ou aquele plano de governo, com este ou aquele modo de governar, tenha a sabedoria de governar para o bem do povo, e não para corporações ou para atender caprichos ideológicos, quaisquer que sejam.

O Brasil precisa avançar muito mais nos âmbitos político, social e econômico. Avançar em sustentabilidade. Avançar nos modos de gestão. Aprimorar a democracia tão duramente conquistada. Quem quer que seja eleito presidente em 28 de outubro deverá ter o compromisso firme, acima de tudo, com a ética. A sociedade precisa estar vigilante. Mudanças foram imprimidas pelos eleitores no primeiro turno das eleições, sobretudo, na composição do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas. Os eleitores vão querer outras mudanças. E, com certeza, não saberão perdoar a volta dos deslizes tão cruelmente cometidos ao longo dos tempos por tantos mandatários que traíram a sua confiança. 

A Universidade pública é um bem de todos. Que seja aprimorada, mas que continue pública para que todos tenham oportunidade de disputar em condições de igualdade, e de acordo com o mérito de cada um, os mercados de trabalho, as oportunidades profissionais e, essencialmente, de ter como lutar cada vez mais e melhor pela afirmação da cidadania e da dignidade da pessoa humana, como tão bem apregoa a Constituição Federal. 


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Por Kleber Santos
08/10
14:55

Sereia de US$ 1 milhão

Um milhão de dólares americanos, quase quatro milhões de reais, a quem se habilitar. Quer melhor em superação de crise? Vamos ao “como” ganhar.

No nascer da navegação, já os marujos noticiavam visões imaginárias e míticas de entes e monstros marinhos. A tradição vocalizada da realidade desses seres viajava pelos mares e portos.

Os babilônicos, em 2000 a.C, idolatravam o deus Ea, representação hibrida de homem e peixe.

Homero (século XVII a.C.), na Odisséia, narra que Odisseu tamponou com cera os ouvidos dos marinheiros e amarrou-se no mastro do navio, para ouvir o cântico das sereias, sem poder delas se aproximar. O poeta, no poema, as referia mulheres dos grandes dragões marinos.


Na mitologia grega, eram filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore e habitavam entre a ilha de Capri e a costa da Itália.


No século I, Caio Plínio Segundo, mais conhecido por Plínio, o Velho (23-79), dedicou literatura sobre as nereidas, ninfas viventes e adoradas dos oceanos.


Lenda da ilha de Guam conta que a mãe de inda jovem amaldiçoou-a a virar peixe. Por intervenção da avó, só a metade do mal ocorreu, a moça tornou-se
protetora dos navegantes e tratada por sirene, espécie de sereia.


O “peixe-mulher”, da Guiné, descrito com “cara de besta feia e disforme” e “corpo de mulher” é mito tradicional dos marítimos.


Aborígenes australianos, além de crerem existentes, afirmavam belos e hipnóticos seus cantos.


Cristovão Colombo (1451-1506), navegador italiano, no Haiti em 1493, garantiu ter visto sereias e destacou três formas femininas deparadas nas Caraíbas. E relatou: “Elas não eram tão bonitas como pareciam ser nas pinturas, embora até certo ponto, tinham uma aparência humana na cara.”.


Ulisse Aldrovandi ou Aldrovandus (1522-1605), naturalista italiano, em tomos de história, destinou privilegiado espaço às sereias.


O aventureiro mercante Sir Richard Whitburne (1561-1635), ao descobrir a Terra Nova, em 1610, registrou a visão de uma. E, novamente em 1620, na beira da
baia de St. John, outra. Descreveu-a de bonito rosto, “com listras azuis no lugar do cabelo” e cauda “como uma flecha de farpas largas”.


Os documentários “Sereias – A maior evidência de sua existência” e “As Sereias – A nova evidência”, divulgados no Discovery Channel e Animal Planet,
exibindo cenas e sons de humanóides aquáticos, feitas por cientistas nos estudos em águas profundas, trazem discussões relativas à temática.


“... uma imagem extremamente convincente da existência das sereias, aparência que têm e por que permaneceram ocultas... até agora.” – registra o primeiro canal.


Há sereiologistas asseverando as evoluções a partir da árvore genealógica humana primitiva.


Submetido o assunto à Administração Nacional dos Oceanos e Atmosfera (NOAA), em face dos vídeos mostrados no site do Serviço Nacional Oceanográfico (NOS), houve negativa quanto à existência de sereias.


Ao pensar dos órgãos, as “lendárias criaturas fazem parte da cultura marinha oral desde tempos imemoráveis”, sendo “questão para historiadores, filósofos e
antropológicos”.


Ah! Voltemos ao início do artigo, oferecendo dica aos ledores interessados a embolsar a grana.


Na cidade costeira israelense Kiryat Yam, várias pessoas informaram avistar a “mulher-peixe” no mar, atraindo curiosos.


A emissora TV Sky News divulga e o jornal Israel Nation News, edição de 5/6/2013, publica: “a cidade de Kiryat Yam está oferecendo um prêmio de um
milhão de dólares para quem conseguir obter uma imagem da sereia.”.


Ninguém recebeu o desejado prêmio, portanto...


Via: Jornal da Cidade
Autor: Geraldo Duarte / Advogado, administrador e dicionarista



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Por Redação
03/10
15:46

Irreverente Tio Pio

Irreverente, boêmio, poeta satírico, chistoso, tropeiro, delegado, merceeiro, tabaquista, bebedor de tragos e causoeiro. Assim viveu Pio Carvalho Brito, tio-avô do coronel da Polícia Militar, professor da UECE e escritor Ronald Brito.

Em livreto dedicado ao ancestral, narra suas peripécias de viagens por nossa terra e paragens outras.

Sendo homem da lei, nunca prendeu ninguém. Na bodega sempre lotada, não de fregueses, mas de desocupados, citava feitos.

Perto de quem come e longe de quem labora, parecia-lhe lema. Carvalhinho, seu genitor, admoestou-o no sentido de trabalhar, recebendo resposta que se tornou realidade: “Deixe estar, meu pai! Eu vou-me casar para não precisar trabalhar.”. Casou-se com moça rica e prendada.

Abriu farmácia em Bodocó, onde além de vender, preparava fórmulas.

Um senhor se queixou de sentir um “bolo no estambo”. Pio desconfiou ser gases e preparou um “xarope espumante”: limonada e bicarbonato de sódio. Entregou a manipulação, usando a denominação popular de flato e garantiu: “que ele sai ou tora pelo meio!”.

Vindo do sítio, descavalgou num boteco da vila, objetivando “queimar o dente” e deu-se a contar causos. Passou da medida e, na hora de montar, risada geral. “Meu tio, está montando ao contrário!” – disse alguém e logo ouviu: “Por isso eu estava achando este diabo enfreado!”.

Em andanças no Sudeste, assistiu aos desentendimentos políticos entre estados. Ao retornar, perguntado pela situação lá, respostou: “Uma ‘greve’ de santo danada. São Paulo se revoltou contra Santa Catarina e para resolver a ‘coisa’ foi preciso à intervenção do Espírito Santo!”.

Autor: Geraldo Nascimento; Advogado e administrador 



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Por Redação
29/09
12:30

A Europa foi Hitler e Mussolini. E o Brasil?

 Muitos livros têm o péssimo hábito de nominar, elogiar ou responsabilizar uma única pessoa por acontecimentos históricos, mesmo quando eles são praticados coletivamente ou por meio de um emaranhado de infindáveis atos e múltiplas ações. É como se toda a complexidade da vida em sociedade pudesse ser definida por uma só pena escritora, independentemente da criação coletiva que inspira, motiva, ensina ou colabora com o artista eleito condutor da narrativa anotada. Assim, apontam Hitler e Mussolini como escritores exclusivos das páginas mais violentas, genocidas, intolerantes, racistas e obscuras da história contemporânea.

Esses personagens são registrados no “túnel do tempo” como desprezíveis espécimes que impuseram o nazifascismo no dicionário político internacional. Indica-se que eles, por exclusivos predicados individuais, conquistaram o cobiçado “Cinturão do Terror”, especialmente por terem promovido, em suas respectivas categorias, o extermínio, o assassinato, a perseguição, a intolerância e a propaganda da supremacia racial à milhões de judeus, comunistas, trabalhadores, religiosos, negros, gays e opositores às suas ideias. Além de terem patrocinado a Segunda Guerra Mundial.

A pessoalidade pela conquista do repugnante título, entretanto, não encontra amparo na leitura mais aprofundada dessas mesmas páginas. No mundo coletivizado alemão e italiano, Hitler e Mussolini conquistaram aliados, reuniram conluiados dos mesmos pensamentos, arrebanharam ódios comuns, arremataram a paixão de milhões e milhões de eleitores, motivando-os a também entrarem no ringue do desprezo à pessoa humana tida como diferente.

Esses cúmplices, não raro, transformaram os seus punhos e garras sem qualquer pudor ou remorso, em armas postas à disposição dos ditadores que tanto amavam. E amavam porque também professavam os mesmos quereres, os ódios propagandeados e a supremacia racial declamada em versos e prosas.

O Brasil, repentinamente, como no prelúdio da tragédia europeia, se vê inundado por mensagens de ódio, machismo, racismo, homofobia, misoginia, preconceitos regionais e toda forma de intolerância para com aqueles ou aquelas que consideramos “diferentes”. Inimigos imaginários são criados e mentiras são repetidas como verdades, fazendo ruborizar até mesmo Joseph Goebbels, o ministro da propaganda nazista.

Essas mensagens são criadas ou repassadas por vários moralistas assumidos, religiosos ativistas, pessoas comuns tidas de bem, membros de famílias respeitáveis, parte da classe trabalhadora e desempregados, fardados e não fardados, profissionais que integram a advocacia, medicina, engenharia, economia e diversos outros ramos, enfim, grande parcela da população brasileira. Não raro, a essas mensagens são acrescidos comentários pessoais, concordantes ou até estimuladores de mais ódio.

Hoje, o povo alemão reconhece que Hitler não implantou o nazismo sozinho, assim como os italianos compreendem que Mussolini não espalhou o fascismo pelo mundo comandando um exército em que era simultaneamente o único oficial-soldado. Sabem que todos eles foram eleitos, apoiados e estimulados pela maioria dos homens e mulheres de seus países. Aceitam que, embora os livros, diplomaticamente, escrevam sobre a culpabilidade dos dois vilões pelos graves crimes cometidos contra a humanidade, o nazismo e o fascismo não teriam prosperado se não tivessem habitado os corações de milhões e milhões de congregados nazifascistas. Conhecem, sabem, compreendem, aceitam e lutam para que a tragédia humanitária nunca mais se repita.

Agora o que nazismo e o fascismo voltam a bater em suas portas, os europeus os têm enfrentado, relembrando o holocausto, denunciando os saudosistas e não hesitando em promover frentes de resistência democráticas. Eles não mais aceitam a teoria da “delegação da responsabilidade pelo crime” ao líder autoritário e dizem, sem pestanejar, que os novos nazifascistas são e serão responsáveis pelos atos praticados pelo “escolhido”. Não querem mais sofrer, em consequência da permissividade ou omissão, qualquer complexo ou sentimento de culpa por terem escolhido mal.

Tampouco querem ser outra vez lembrados por terem apoiado ou concordado com o governante enquanto a “prosperidade” sorria para cada um deles, mesmo quando sabiam ou suspeitavam de que outros morriam, sofriam ou eram agredidos para que fossem “felizes”.

E o Brasil?

Artigo originalmente publicado em: https://congressoemfoco.uol.com.br/



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Por Eugênio Nascimento
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