17/01
09:17

Chico esperto

Geraldo Duarte*
Advogado

Nas estadas anteriores em Portugal ouvira falar em Chico esperto, mas em nenhuma havia dado importância à expressão.

Em viagem recente, por duas vezes, uma amiga brasileira ali radicada usou e, durante a conversação, repetiu tal dito. Isso me chamou à atenção, fazendo relembrar as ouvidas antecedentes e provocando a indagação do significado, porquanto desconhecida no Brasil.

“O mesmo que ludibriador, espertalhão, aproveitador. Aquele que se julga o mais inteligente de todas as pessoas do mundo. O enrolão em nossa gíria” – esclareceu.

Afirmou, ainda, a titulação como Chico espertice, Chico da Ronda e, no feminino, Chica esperta. E, ao escutar “armar-se em Chico esperto” é preparar-se, de imediato, evitando ser enganado, passado para trás.

A curiosice fez-me pesquisar a origem e o porquê da terminologia, chegando a uma historieta lusa muito antiga, difundida na forma de causo.

Chico, criador de ovelhas, pagou 200 réis na compra de uma égua. Quando foi receber, o vendedor alegou a morte da besta e haver gasto o dinheiro.

O pecuarista exigiu o animal morto. O outro disse impossível, pois já o enterrara. Depois de discutirem, o negócio foi desfeito com devolução de 100 réis.

Ante ao prejuízo, o perdedor decidiu rifar o inexistente bicho. Vendeu 500 bilhetes, a 2 réis cada. Apurou, assim, 1000 réis. Procurado pelo feliz ganhador, visando apossar-se do prêmio, Chico o informou do falecimento do equino, fingiu lamentar grandemente e devolveu o valor da cautela.

Tão logo a falcatrua tornou-se pública, o ardiloso passou a ter a alcunha de Chico esperto e todos se armavam contra suas astúcias.

*Administrador e dicionarista


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Por Kleber Santos
12/01
07:43

A renúncia que não valeu e o acordo que não houve

Antonio Carlos Valadares - Senador da República (PSB-SE)



Incomodados com a minha posição de somente tratar sobre candidaturas a partir de março ou abril, alguns possíveis concorrentes tentam interferir na minha decisão, espalhando na imprensa local, e nas redes sociais, notas dando conta de que fiz um acordo para não mais disputar o mandato de senador.

Na verdade nunca houve da minha parte, qualquer acordo nesse sentido. O que houve foi uma declaração espontânea, numa postagem do meu Twitter, em 12 de março de 2016, em retribuição ao gesto que considerei muito corajoso do deputado Fábio Mitidieri de ter encabeçado um movimento de apoio à candidatura de Valadares Filho, mesmo antes de uma decisão do governo e de seus aliados.

A minha declaração foi postada em data muito anterior à aliança feita com o PSC & Cia.

Foi uma atitude voluntária, que nunca fora fruto de acordo, que tomei levando em conta também que o deputado Mitidieri havia manifestado interesse em se candidatar ao Senado em 2018. Eu não lhe criaria embaraços caso esse fosse o seu desejo. Portanto quando eu dei aquela declaração (12 de março de 2016), até então, prevalecia um entendimento político, unicamente com o PSD do deputado Fábio Mitidieri. Entendimento que não prosperou, me desobrigando também de qualquer gesto nesse sentido.

O entendimento com o PSC, do Senador Eduardo Amorim e do deputado André Moura, com vistas ao apoio destes a Valadares Filho, somente foi iniciado em meados de julho de 2016, provocando a retirada no deputado Mitidieri no apoio a Valadares Filho.

No dia 24 de julho, ao tomar conhecimento de uma aliança conduzida por Valadares Filho com o PSC, o deputado Mitidieri retirou o seu apoio, encaminhando ao Nenotícias a seguinte declaração:
“Gilmar, boa noite.    Eu sempre fui muito claro quanto a meu apoio a VF. Tenho uma aliança com JB e somos corretos em tudo que fazemos. A chegada do grupo Amorim inviabiliza a nossa permanência pois ao indicarem o vice, nós estaríamos apoiando a chapa da oposição.”

Assim, com a retirada do apoio do PSD do deputado Mitidiere a Valadares Filho, cessava o meu compromisso voluntário de não mais participar da chapa majoritária como candidato a Senador em 2018.

Ocorre que, aquela postagem que fora feita  em outra época, em outra conjuntura, e em atenção exclusivamente ao gesto do deputado Mitidiere está sendo divulgada hoje como um compromisso que eu quebrei com uma aliança que aconteceu muito tempo depois, e com a qual nenhum acordo celebrei em separado prometendo não concorrer a uma disputa para o Senado, sem o conhecimento do meu partido, e da população sergipana. Essa é a verdade cristalina.

No mais, como um dos membros da oposição, confiante na responsabilidade que cabe a cada um de nós, sugiro que não nos dispersemos quaisquer que sejam as diferenças de opinião. O projeto maior é Sergipe. A nossa luta só tem futuro se marcharmos unidos, com o pensamento voltado unicamente para a melhoria das condições de vida do nosso povo.



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Por Eugênio Nascimento
07/01
20:28

Eléctrico 28

Geraldo Duarte*

Por mais que se visite Lisboa, percorrer novamente o itinerário e, até os mesmo conhecidos locais de tráfego do “Amarelo”, é sempre prazeroso.

Passeio nos antigos Eléctricos (como os lusitanos denominam seus bondinhos) importados dos USA, em 1901, substituindo os puxados a cavalo, faz-se emocionante e agradável.

Em especial, a linha do Eléctrico 28, que sobe e desce as colinas da cidade, num trajeto de aproximados 70 quilômetros.

Transporte público não somente utilizado por turistas, mas também de uso frequente dos moradores das áreas do percurso.

O “28” inicia viagem na Praça Martin Moniz, avança entre vielas da Alfama, passa nas Catedral da Sé e Igreja de Santo Antônio, Rua Augusta, Praça do Comércio, Elevador de Santa Justa e Graça. Aqui, visitar o Miradouro e avistar o Castelo de São Vicente é ideal. Em seguida, rumar para o Castelo de São Jorge.

No regresso, deixar o olhar espalhar-se nas paragens da “Lisboa de outras eras...” e prestar tributo a ele.

A ele? Ah! O passageiro diário daquele veículo no século passado.

Residente do Largo de São Carlos, no Chiado, todas as manhãs ia ao centro. E, nos finais de tarde, depois de entreter-se no Café e Restaurante Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, retornava a casa.

“Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é o meu costume, em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. Entonteço. Os bancos do eléctrico levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em vidas, realidades, tudo. Saio do eléctrico exausto e sonâmbulo.”, grafou Fernando Pessoa.
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
19/12
09:23

Malas do Brasil

Geraldo Duarte*
Advogado

No distante 1854, em lugarejo entre França e Suíça, morava um incógnito artesão chamado Louis. Desconhecido, paupérrimo e desvalido.

Em Paris, num colossal palácio, reinava o país um monarca de nome Napoleão III. Célebre, rico e poderoso.

Em ambos, à época, uma ideia hoje considerada comum os fez identificados.

Um objeto, inicialmente denominado baú, depois mala e com serventia para transportar roupas, invento do primeiro, caiu nas graças e no uso do segundo.

Assim, um simples homem, trabalhador manual, acrescentou Vuitton ao Louis.

Virou marca famosa no mundo inteiro, afamada até os tempos atuais. Começou baú, passou à mala, maleta, valise, bolsa e pasta.

Em 1970, o norte americano Bernard D. Sadow, ao retorno das férias com a mulher, de Aruba, e cansado de movimentar as malas, inovou adicionando as “rolling luggage”. Isto mesmo! Aquelas santas rodinhas que nos poupa esforços e evita idas aos traumatologistas.

Para maior conforto, Robert Plath, piloto da Northwest Airlines, USA, melhorou o bem-estar dos viandantes: criou as alças longas e retráteis.

No Brasil, as invenções têm recebido fins outros e causado transtornos. Políticos transformando-as em cofres de fortunas caseiras ou velozes conduções pelas ruas. Empresários enchendo-as e presenteando-as a parlamentares e executivos. 

Nos aeroportos, pesadas e medidas, milimetricamente, nas companhias aéreas, secando bolsos dos viajantes.

Enquanto isso, governo e ANAC, dizem que as exorbitantes cobranças de bagagem objetivam diminuir o preço das passagens! Gozadores...

Já tínhamos os “malas sem alça”. Agora, os “malas governamentais”!
 
*É administrador e dicionarista.   


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Por Kleber Santos
15/12
19:49

“Por que esse povo safado quer reduzir a idade penal?”

Cezar BrittoAdvogado e escritor, autor de livros jurídicos, romances e crônicas. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e da União dos Advogados da Língua Portuguesa. É membro vitalício do Conselho Federal da OAB e da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

Eu estava em uma festa comemorativa do encerramento do ano letivo de meu filho caçula, quando, repentinamente, fui interrompido por uma voz bêbada, deselegante e incrivelmente alta. Chamava-me, insistentemente, de “presidente”. Confesso que fico desconfortável quando sou identificado por este apelido substitutivo de meu real nome, especialmente em uma ambiência informal e sem qualquer relação com a advocacia. Este nome apenas perde em termo de razoabilidade para a alcunha “doutor”, esta somente “justificável” quando pronunciada em razão do trabalho e apenas durante este lapso temporal. Mas vá explicar a um ébrio esta regra de etiqueta tão pessoal de um pai que, como qualquer outro, queria apenas curtir o sucesso do bruguelo.


Percebendo o meu silêncio em relação ao “chamado presidencial”, cuidou o bêbado de explicar a razão de sua insistência, agora formulando a pergunta título desta crônica: “Presidente, o senhor sabe por que esse povo safado quer reduzir a idade penal?” Reconheço que o tema atraiu a minha atenção, pois frequentemente voltamos à fase jornalística de “milicianíssimo” apelo popular, principalmente quando um novo crime ganha repercussão. Nestes momentos de puro sensacionalismo, aponta-se que a “solução” para se combater a violência estaria no quarteto punitivo: 1) pena de morte; 2) redução da maioridade penal; 3) aumento do rol dos crimes tidos como hediondos; 4) criminalização do direito de defesa. Mas preferi não dar seguimento ao insistente bêbado, pois é arriscado alimentar uma boa conversa quando o precioso líquido, paradoxalmente, provoca uma espécie de jejum de responsabilidade argumentativa. E naquele ambiente escolar, não seria prudente alimentar um assunto sólido com um personagem de responsabilidade fluida.


Esqueci, entretanto, de “combinar com os russos” ou, escrevendo através de outro gole vocabular, nada acertei com o instigante personagem embriagado. E ele seguia a perguntar: “Presidente, o senhor sabe por que esse povo safado quer reduzir a idade penal?” E foi assim na fila da pipoca, dos brinquedos, da entrega dos diplomas e até mesmo do banheiro. Percebi então que a única forma segura de sair impune daquela forçada peleja era justamente ouvir a revelação da “safadeza política anunciada”. Cuidei, antes, de procurar um lugar reservado para receber a valorosa resposta insistentemente ofertada. E ela se fez de forma surpreendente. Disse-me ele:


– Esses políticos safados querem reduzir a maioridade penal para poderem, impunemente, “comer” as nossas filhinhas.


Confesso que fiquei confuso com sua inusitada conclusão. Eu nunca havia escutado tão esdrúxulo diagnóstico. É que o debate sobre a redução penal tem como foco a figura “cruel e irrecuperável do adolescente agressor”, geralmente exposto nos discursos fundamentalistas dos amantes do moralismo capenga, nas sensacionalistas antenas televisivas, nos programas policialescos que lucram com os dramas alheios, nas sanguinolentas páginas de folhetins impressos com as tintas do escárnio ou nas promessas eleitoreiras dos justiceiros de ocasião. Não é incomum, também, arrostarem-se argumentos que apontam que são irrecuperáveis e, por isso mesmo, merecem ser executados ou perpetuados em cárcere os “champinhas”, os “lambrosianos”, os papas-figos e todos aqueles que substituíram os livros pelas armas.


Ultrapassada a fase do espanto pela novidade argumentativa, percebi que bêbado estava o personagem desta crônica, mas jamais o seu certeiro raciocínio. Eu sempre apontei que implantar para valer a proposta inscrita no Estatuto da Criança e do Adolescente era uma das melhores ideias sobre o tema, pois a educação é instrumento mais eficaz do que a prisão. Nunca descartei a hipótese de que a sociedade, ainda que egoisticamente pensando, estaria mais segura em seu futuro quando, no dia da soltura do seu aprisionado “inimigo”, não recebesse em seu protegido seio patrimonial mais um afinado e recrutado aluno da Escola Carcerária do Crime que funciona, livremente, nos presídios e penitenciárias do Brasil.


Mas o sóbrio debatedor, ao retirar o adolescente tido como agressor do foco de sua análise, desprezando o tema relacionado à plausibilidade de sua reinserção social, apontou um dos graves e nunca discutido efeito colateral que será provocado pela redução da idade penal. Os crimes de estupro (art. 213 § 1), violação sexual mediante fraude (art. 215), assédio sexual (art. 216-A, § 2), favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração de criança ou adolescente ou de vulnerável (art. 218-B, caput), prática de conjunção carnal ou outro ato libidinoso com adolescente (art. 218-B, § 2), mediação para servir a lascívia de outrem (art. 227, § 1) e rufianismo (art. 230, § 1), todos do Código Penal, sofreriam profundas modificações, não mais se aplicando aos adolescentes, independentemente do gênero, com idade igual ou superior a 16 anos. Da mesma forma não estaria em vigor a agravante do art. 149-A, § 1, do Código Penal, que, a pretexto de estabelecer uma política de “prevenção e repressão ao tráfico interno e internacional de pessoas” (Lei 13.344/16, art. 13), aumentou em um terço a pena daquele que agenciar, aliciar, recrutar, transportar, comprar, alojar ou acolher pessoa, para fins de remover órgãos, tecidos ou parte do corpo, submeter à condição de escravo ou servidão, adoção ilegal ou exploração sexual de adolescente com idade igual ou superior a 16 anos.


É que, aplicando-se a “lógica punitiva” dos que pretendem reduzir a idade da maioridade penal, o adolescente ou a adolescente, podendo ser alvo de ação penal por compreender integralmente o caráter delituoso do ato praticado, saberia, conscientemente, resistir aos crimes cometidos pelo agressor ou agressora que frequenta o lar, a família, a vizinhança, a escola ou a ambiência política brasileira. A modificação da idade penal seria, portanto, o passe livre para tornar impune a “turba safada” que se alimenta de crimes praticados contra a adolescência brasileira. Assim, eles se envergonhariam do relatório publicado pela Unicef no dia 31 de outubro de 2017, intitulado Um Rosto Familiar, pois, retirando das estatísticas penais os crimes cometidos contra adolescente, o Brasil deixaria de ocupar o desonroso posto de sétimo país mais perigoso e mortal do mundo para crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, ganhando até para o Afeganistão: a cada 7 minutos, uma criança ou um adolescente morre em nosso país vítima da violência.


Que desolador saber que, infelizmente, o lúcido homem era detentor de uma razão não bêbada!



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Por Eugênio Nascimento
06/12
12:15

Era da Cognição

Geraldo Duarte*
Advogado

A cada momento nos surpreende a evolução tecnológica. Não bastasse a infinita quantidade de informações do mundo atual, inacessível a quase 80% dos dados, estes se multiplicam progressivamente. Big data. Inteligência artificial.  Algoritmo. Pílula inteligente. E outras expressões atordoantes para o nosso cérebro leigo, ante a um universo subjetivo, porém de realidade objetiva da informática.

Faz-se impressionante como o cientista físico inglês Stephen Hawking e o visionário sul-africano Elon Reeve Musk defendem que as máquinas, utilizando a IA, terão o poder de dominação da humanidade.

Assim, formam-se defensores de suas teses em oposição ao avanço do progresso de uma “racionalidade mental robótica”.

Em contraste a tais princípios, insurge-se a especialista em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação Virginia Marie "Ginni" Rometty, hoje consagrada autoridade internacional.
CEO da IBM e há trinta anos funcionária da empresa, justifica tecnicamente as pesquisas e as aplicações da inteligência artificial, inclusive, com a denominação de Era da Cognição.

“O termo ‘artificial’ gera temores infundados.” explicita e também afirma: “Temos um estudo que revelou que um terço das escolhas humanas é acertado, enquanto outro terço engloba as medianas, e o outro acaba em erros brutais.”.

Conta mais de vinte anos a IA, entretanto, preocupante torna-se presentemente, supondo as tomadas de decisões em várias situações reais. Aqui, dúvidas surgem inerentes ao uso da internet das coisas, a não consciência moral e ética de um computador e, até mesmo, o descontrole de superinteligências digitais.

*Administrador e dicionarista


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Por Kleber Santos
29/11
23:47

Chifrudo dobrado

Geraldo Duarte
Advogado

Conhecido bodegueiro da Avenida Carneiro Mendonça, bairro Demócrito Rocha, ganhou fama nos anos sessenta e setenta do século passado.

Não somente pelo sortimento de produtos, crescentes vendas, localização do ponto comercial e converseiro com os fregueses. Em particular, aqueles do grupo de cachaceiros que se postava, diariamente, no reservado especial para os papudinhos.

O merceeiro incumbia o despachar de gêneros alimentícios e de armarinho a um auxiliar e dedicava-se, quase exclusivamente, à mercancia de bebidas alcoólicas. Cerveja e cachaça as mais solicitadas. Ingeridas e complementadas por goles do santo, caretas e cusparadas tradicionais ao pé do balcão.

Assuntos destacados faziam-se os da vida alheia. Fofocas acerca de moradores. Mudanças madrugadoras de pessoal da caderneta do fiado. Entretanto, os campeões imbatíveis, mostravam-se os casos de cornos e cornagens.

Preferidos pelo mercante, habitual incentivador, comentando casos da área.

Os fregueses admiravam-se de sua desenvoltura na temática, pois o sabiam chifrudo. Desconheceria as peripécias da esposa? Houve quem dissesse até cego enxergar.
Sempre acontece “um belo dia” em histórias e, nesta, existiu. Um, do tipo “convencido”, soube ter o comerciante o citado como tal e foi tomar satisfações.
Deram-se acalorados insultos e ameaças mútuas de lavagem da honra com sangue. A turma do “deixa disso” interveio e acalmou os galhudos.

Parecia tudo sanado, quando o acusado gritou: “Posso ser corno, mas não sou corno dobrado!”.

Curiosice total. Corno dobrado? Explicação deu-se: o negociante era traído com homens e com mulheres...
 
*Administrador e dicionarista.    


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Por Kleber Santos
20/11
22:42

A Consciência Negra tem dia, história e luta: 20 de novembro

Cezar Britto 
Ex-presidente da OAB

A História tem revelado que a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, foi aprovada em razão da luta abolicionista e da vitoriosa e crescente “desobediência civil” praticada por escravos rebelados. Basta que se observe que, na época, apenas 5% dos descendentes de africanos eram fisicamente livres, embora, como agora, ainda aprisionados pelo preconceito racial e a desigualdade sócio-econômica. O “apenas” está escrito por força da gramática, pois basta um homem ser escravo para que permaneça o grave crime praticado contra a humanidade.

O que se afirma atualmente é que, ao contrário do chancelado em vários livros escolares, a redução ou a eliminação oficial da escravatura não se deu apenas em função do “humanismo comercial dos ingleses”, da piedade de algum senhorio ou mesmo da atuação caridosa do imperador Pedro II e sua filha Isabel. Ela se deu, sobretudo, em função de complexos fatos e atos diversos, isolados ou não. E não poderia ser diferente, pois a semente escravista estava enraizada na sociedade brasileira, especialmente nos resistentes e poderosos barões do café do Vale do Paraíba (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Mesmo antes da abolição oficial, outras medidas legais reduziram a presença de escravos, a exemplo da Lei Eusébio de Queiroz, que proibiu o tráfico de escravos, ainda que tenha ele permanecido ativo e oficiosamente por vários anos. A Lei do Ventre Livre, que determinou a liberdade para os nascidos a partir do dia 28 de setembro de 1871, também contribuiu para a redução do número de escravos, embora, na prática, a liberdade só ocorreria com os vinte e um anos de idade, pois o “nascido-livre” tinha que “indenizar” o senhorio pela liberdade e alimentação. Embora em menor proporção, a Lei Saraiva-Cotegipe ou dos Sexagenários de 1885 teve papel importante, vez que libertou os escravos com mais de 60 anos, ainda assim quando completasse mais cinco anos de “trabalho indenizatório”.

A resistência quilombola é um dos maiores exemplos de luta pela liberdade e redução do número de escravos, pois não podiam aceitar a insana lógica da escravidão, em que uns são melhores do que os outros em função da cor. Ganga Zumba, Zumbi, Diogo, Ramil, James, Cornélio e João Mulungu são alguns dos homens-livres que contribuíram para o estimulo à “desobediência civil” e o nascimento de cidades-livres como Palmares (Alagoas), Jabaquara (Santos) e Leblon (Rio de Janeiro). Revoltas e rebeliões, a exemplo da Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, foram decisivas nas lutas de libertação, além de servirem para alimentar a resistência dos que sonhavam com um Brasil igual.

A Guerra do Paraguai também foi responsável por grande número de libertos, pois seriam considerados livres todos aqueles que voluntariamente ingressassem no Exército Brasileiro, inclusive aqueles que foram compulsoriamente convocados em substituição ao proprietário branco. Eram tantos os negros e pardos “convocados” que os soldados brasileiros passaram a ser chamados de macaquitos pelos aliados argentinos e de los cambás (os negros, em guarani) pelos “inimigos” paraguaios. O próprio conde d’Eu, quando assumiu o Governo Provisório do ocupado Paraguai, reconhecendo o valor dos escravos para a vitória, determinou que seria “igualmente livre todo o indivíduo, qualquer que seja a sua condição anterior, pelo único fato de ter pisado o território paraguaio.”

O Brasil, em função da Guerra do Paraguai, se viu também obrigado a reconhecer que, no bom dizer do príncipe d. Obá II, seria “justo que a pátria escute a voz do defensor da pátria como soldado”, pois, concluía ele, “será que os negros e miscigenados, no Brasil, só servem para cornetas e soldados?” Aliás, d. Obá II é um personagem fantástico, fruto da própria Guerra, mesmo porque dela saiu como oficial honorário do Exército, por bravura. Seu título de nobreza advinha do fato de ser neto do rei africano Alafin Abiodun, unificador do império ioruba, nascido no Brasil em razão de seu pai ter sido vitima do tráfico.

Não se pode esquecer, ainda, que contribuíram para a posterior abolição, dentre outras, as ideias liberais e republicanas que esquentavam o Império, a exemplo da correta bandeira de luta: “igualdade entre todas as cores”. Eram portadores destas idéias, por exemplo, a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, a Confederação Abolicionista e Caixa Emancipaora Luiz Gama, além de humanistas como Joaquim Nabuco, Castro Alves, André Rebouças, José do Patrocínio, Luiz Gama e Francisco de Paula Brito, sendo os quatro últimos filhos de mulheres negras. Jornais como a Gazeta de Noticias, Gazeta da Tarde, O Cabrito, O mulato e O homem de cor foram igualmente importantes nas lutas de libertação.

Assim, embora admirável como documento e marco legal do princípio da igualdade racial no Brasil, não se pode afirmar que a abolição dos escravos foi um áureo presente imperial, como bem registrou a professora Hebe Maria Mattos (in Das cores do silêncio: significados da liberdade no Sudeste escravista). O Brasil-escravista oficialmente deixou de existir a partir de 13 de maio de 1888, mas não se pode, jamais, negar que a liberdade fora conquistada com luta, sangue, coragem e dor. O Brasil-desigual continua em pleno vigor com demonstrações de ódio e intolerância a navegar nas redes sociais. Este Brasil continua a esperar dos governantes brasileiros e de todos que aqui habitam, a contínua luta pela efetiva igualdade. E é assim que devemos entender este dia 20 de novembro, dedicado nacionalmente à Consciência Negra.


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Por Eugênio Nascimento
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