01/09
15:18

Sergipe avançará com trabalho

Edvaldo Nogueira
Prefeito de Aracaju


Já afirmei várias vezes, desde o início do meu atual mandato, que minha intenção, ao decidir pelo retorno à disputa eleitoral e, com o aval da população, ao comando da Prefeitura de Aracaju, foi transformar a realidade da cidade, através de uma nova forma de fazer política. Assim tenho agido em todos os momentos. Por isso, não seria diferente agora quando declaro o meu apoio a Belivaldo Chagas para o governo estadual.


Entendo que o quadro político atual local e nacional exige de nós um posicionamento muito claro, sem subterfúgios. Lógico que diante do trabalho que venho realizando na cidade, dos avanços que já são sentidos por todos, eu, que ainda tenho dois anos e quatro meses de mandato, poderia me abster de participar do pleito e esperar o resultado final. Mas este não é o meu perfil.

Sempre me posicionei claramente. E o fiz desde que comecei a minha militância política no PCdoB, na década de 1980. Na eleição deste ano, não poderia ser diferente, porque entendo que o projeto iniciado por Marcelo Déda e que agora está nas mãos de Belivaldo Chagas, trouxe progresso para Sergipe, mas o ciclo de desenvolvimento que ele representou se encerrará em dezembro deste ano.

É preciso agora que este projeto passe por uma atualização, para enfrentar as dificuldades do presente e preparar o Estado para o futuro. Sergipe precisa se abrir para um novo ciclo, com uma nova matriz de desenvolvimento econômico, com novas estratégias, mais inclusão social, mais geração de emprego, racionalização da máquina pública, um severo programa de redução de despesas e foco no investimento que atenda as necessidades do cidadão.

Por isso, na última quinta-feira, 30, no ato que realizamos no Iate Clube, com a presença de mais de 3 mil pessoas, oficializei o que já havia verbalizado em declarações diversas: meu apoio integral ao projeto que está em curso em Sergipe. Mas não foi uma simples adesão. Naquele evento, apresentei ao candidato a Carta de Aracaju, documento que reuniu os pleitos principais do município à futura administração estadual.

Aracaju é o motor do desenvolvimento de Sergipe, por isso deve ser ouvida pela gestão estadual para a construção das políticas públicas. E mais do que isso: deve ser incluída nas definições das ações do futuro governo em áreas estratégicas, como Segurança, Saúde, Educação, Desenvolvimento Urbano e Turismo. Como capital e concentrando as principais atividades da vida econômica, política, social e cultural, Aracaju desempenha papel decisivo para os novos rumos e caminhos futuros.

Diante desta realidade, decidi que era preciso pactuar com Belivaldo uma pauta conjunta de ações, em favor do nosso povo. Ele concordou e se comprometeu com aquilo que expus na Carta. Assim, Aracaju ocupará o lugar que merece na agenda do futuro governador. Assim como fizemos na capital, ao assumir a administração em 2017, é preciso, de maneira arrojada e pensando fora da caixa, encontrar novas soluções para os velhos problemas do nosso Estado.

Enfrentei, ao lado de uma equipe muito competente e focada, todas as dificuldades da etapa da reconstrução da cidade, priorizando a regularização dos salários dos servidores e garantindo o funcionamento dos serviços públicos essenciais, como a limpeza, a educação e a saúde, além de iniciar um programa ousado de retomada de obras. Agora, num novo momento de avanços, temos trabalhado firme no projeto de construção de uma Aracaju inteligente, Humana e Criativa.

Não há receita pronta, mas é preciso disposição e planejamento para que Sergipe supere este momento de dificuldades e volte a crescer. Belivaldo possui a melhor plataforma de gestão para Sergipe e é capaz de levar o Estado novamente ao desenvolvimento. Para isso, Sergipe tem que descobrir sua vocação, encontrar seus caminhos e com a participação da sociedade organizada, da iniciativa privada, das universidades, enfim de toda a população, iniciar um novo ciclo de crescimento econômico, progresso social e distribuição de renda. Como escreveu Fernando Pessoa, navegar é preciso.



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Por Eugênio Nascimento
05/08
14:56

Um ganho coletivo

Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

No decorrer da semana que se finda, a imprensa e as redes sociais deram ênfase à história de um aluno do curso de Medicina da Universidade Federal de Sergipe, no Campus de Lagarto, que chegou à conclusão da etapa do ensino superior. Prepara-se, pois, para a colação de grau. Trata-se de João Santos Costa, cuja história comoveu quem dela teve conhecimento. João é negro, natural do interior de Simão Dias, vem de uma família pobre e recentemente fez uso da internet para contar a sua história e tudo que enfrentou até chegar ao término do curso, cuja formatura dar-se-á no mês de setembro. Aplausos para João e votos de muito sucesso na vida profissional que se avizinha. Bravos, João! Bravos, Doutor! 

A história de João Santos Costa repete-se por centenas ou milhares de histórias. Muitos jovens pobres, rapazes e moças, podem contar uma história parecida com a do João. Nos mais diversos cursos e nos vários Campi da UFS. Eles vêm das chamadas cotas reservadas para os alunos das escolas públicas e para determinadas minorias ou camadas sociais até bem pouco tempo excluídas do ensino superior. Por exemplo: quantos egressos da escola pública conseguiam lograr êxito nos vestibulares realizados pela Universidade Federal de Sergipe? Quantos negros, pardos, índios ou portadores de necessidades especiais o conseguiam? E quantos adentravam nos cursos de mais procura ou mais cortejados pela sociedade, como Medicina, Direito, Engenharias etc.? As estatísticas mostravam números residuais. E assim o era nas demais Universidades federais ou noutras públicas, como as estaduais, onde elas existem. 

As famílias mais pobres, que não podiam pagar escolas mais qualificadas para os seus filhos e filhas estudarem, não conseguiam vê-los (as) portando facilmente um diploma do ensino superior. A exclusão era grande e absolutamente injusta. Afinal, as escolas públicas de ensino superior são custeadas pelos recursos públicos que advêm dos tributos que todo o povo paga. Mas, nem todas as camadas da população, no geral, viam os seus jovens nas universidades públicas. Todos pagavam e pagam tributos, mas, nem todos podiam deles usufruir em termos de educação superior. 

As camadas mais abastadas da população, que podiam pagar as melhores escolas para os seus filhos, viam-nos acabarem ocupando a maioria esmagadora das vagas nos cursos superiores mais concorridos. “Aos melhores, o melhor”.  Esse era o jargão. Melhores, não. Mais preparados pelas boas escolas do ensino básico, fundamental e médio. 

As cotas causam urticária em muitas pessoas. Estas requerem as vagas das cotas para os seus filhos que estudam nos colégios “top” de linha. Os que nasceram em berços de ouro ou de parta, que têm tudo, ou quase tudo, do bom e do melhor, seriam os legítimos ocupantes das vagas nos cursos mais conceituados ou mais procurados. Porém, de onde brotaria essa legitimidade? Do poder econômico? Da condição social mais acalentada? 

Anos de exclusão dos mais pobres, por exemplo, não causavam a menor compreensão dessa dura realidade por parte dos mais favorecidos. Uma sociedade desigual em que os desiguais de cima não conseguiam enxergar os desiguais de baixo, mesmo que os olhassem com lupas. 

As cotas nas escolas superiores públicas ensejaram a inclusão de muitos e muitas jovens, que se arrastavam nas periferias, nos subúrbios das pequenas cidades, nos povoados mais distantes, sem que pudessem vislumbrar oportunidades de terem uma vida digna através do trabalho profissional qualificado. 

Numa democracia, a luta pela igualdade, e, mais ainda, pela igualdade proporcional, deve ser uma finalidade do estado. É isso que se pode chamar de justiça social. Dar mais é quem menos tem e dar menos a quem mais tem. E assim, aos poucos, a sociedade vai se ajustando, isto é, vai-se tornando mais justa. Quão triste é vier numa sociedade injusta!

No país inteiro são milhões de jovens, rapazes e mocas, que percorrem os corredores das Universidades públicas, que adentram em suas salas de aula, para se lançarem na busca do conhecimento, da afirmação da dignidade humana, da cidadania e da oportunidade de enfrentar o mercado de trabalho em condições de disputar com todos os outros. 

A história comovente, sim, do jovem João Santos Costa, negro, quilombola, disposto, lutador, digno de sua conquista, é a história de muitos jovens dos dois sexos, parecidos com ele. Que muitos outros tenham a coragem e a firmeza de mostrar a sua face, de mostrar o seu valor. A belíssima vitória de João não é um ganho individual. É, deveras, um ganho coletivo. São muitos os Joãos. São muitas as Marias. Parabéns ao João de Simão Dias. Parabéns aos outros e às outras que ainda estão no anonimato. O ganho é coletivo. É de toda a sociedade sergipana. 


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Por Kleber Santos
24/07
07:39

No fio da navalha

Geraldo Duarte*
Advogado

Necessitei de rápido conserto no carro e busquei a SidCar, oficina do velho amigo Sidney Gomes. E quando nos encontramos, mil e tantas conversas não cessam.

No prosear, disse-lhe que iria à barbearia. Daí, surgiu o mote deste artiguete.

Contou-me que, há mais de vinte anos, não aceita que lhe tirem a barba, nem façam o pé do cabelo usando navalha. Mesmo as modernas adaptadas para lâminas de barbear. A meu provocar, explicou o porquê.

Dezembro de 1995. A sobrinha Bárbara concluíra o Curso Normal e exigia-lhe que fosse o padrinho de formatura e com ela dançasse a valsa da festa comemorativa.

Sexta-feira, véspera do evento. Preparou a mala e, depois do expediente, dirigiu-se à estação rodoviária. Embarcou em ônibus destinando-se a Piripiri, Piauí, onde a concludente residia.

Viagem tranquila. Amanheceu na cidade, sendo recebido pelos familiares.

Após as boas-vindas e de instalar-se, solicitou ao sobrinho Paulo Henrique que o levasse a uma barbearia, pois necessitava preparar-se visando à solenidade. Cortados cabelo, barba, bigode e unhas pagou e saíram. Passando em frente ao mercado público, resolveu conhecê-lo.

Ao parar numa banca de artesanatos, ouviu lancinantes gritos de um homem em desabalada carreira, quase nele esbarrando.

“Aquele não é o barbeiro?” – perguntou ao sobrinho, que confirmou. “E você me levou para ficar sob o fio da navalha dele?”.

A explicação foi de ser o melhor profissional do lugar, ter de tempos em tempos igual ataque, mas nunca feriu ninguém. Tudo devido à mulher o haver trocado por um caminhoneiro.

Ao final, indagou-me: “Tenho ou não razão de evitar navalha?”.
 
*Administrador e dicionarista


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Por Kleber Santos
21/07
09:54

Nordestinos que incomodam

*Eleomar Marques, nordestino de Porto da Folha/SE



O Brasil é um país que, ao longo da sua colonização pelos portugueses, apresentou *ciclos econômicos: o pau-brasil, o açúcar, o minério, a borracha e o café. O Nordeste foi o centro de produção desses dois primeiros, inclusive Sergipe se destacou na produção açucareira por volta do século XIX. Pois bem, a partir daí o Sudeste foi palco dos últimos ciclos econômicos. Salvador, primeira capital, perdeu seu status para o Rio de Janeiro. Essa mudança histórico-econômica provocou uma migração de nordestinos para a região Sudeste. O motivo é simples, na região Nordeste, sobretudo no seu interior, a estiagem predomina e o abandono estatal perdura há décadas. Vale salientar que, nessa região, há grande concentração de renda nas mãos dos latifundiários.

 

 

Os “paraíbas” ou “nortistas” deslocaram-se para ocupar a mão-de-obra ociosa das grandes indústrias que, infelizmente, eram implantadas no sudeste apenas. Até porque era lá que os “donos do poder” estavam. Quem não se lembra da velha política “café-com-leite”, em que paulistas e mineiros se revezavam no poder da República Velha? E o nordeste? Este de grande produtor de açúcar passou a coadjuvante ou mesmo apêndice dessa política rasteira e corrupta.

 

 

A verdade é que o Estado não deu oportunidade aos nordestinos de produzir no seu próprio lar. Fora-lhe tirado o direito de conviver com sua família, isso não teria ocorrido se os estadistas não virassem as costas para a região ou fizesse da mesma a famosa “indústria da seca”. Fábrica de fazer “voto de cabresto” e de assistencialismo. Resumindo, um povo que, além de contribuir de forma relevante para o crescimento do país, poderia muito bem ser independente economicamente, mas infelizmente se transformou no que muitos entendem como “prejuízo para a nação.”

 

Mas, como o carioca Euclides da Cunha (1866-1909) deixou cravado na mente brasileira quando expressou durante a cobertura do massacre a Canudos: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, sem perder o sentido, podemos muito bem substituir, nos dias atuais, o termo “sertanejo” por “nordestino”. Somos tão fortes que nos destacamos no cenário nacional, mesmo com a grande dificuldade já mencionada e o preconceito que ora vem à tona.

 

 

As mãos que ergueram a grande São Paulo, agora são perfuradas com espinhos da ingratidão e ignorância sudestinas. Contudo, se passarmos um olhar panorâmico a bordo de uma nave espacial pelo Brasil chegaremos à conclusão de que os adjetivos pejorativos e ignorantes direcionados aos nordestinos não passam de falácias e preconceitos contra um povo que, em vez de exaltar o país, prefere a apartheid social.

 

 

Ao sobrevoar o país a bordo de uma nave que oscila entre passado e presente, com intuito de observar as ações humanas no Brasil, um curioso verificou que milhões de trabalhadores oriundos do Nordeste, desde os anos 50 do século XX constroem os luxuosos prédios na cidade de São Paulo. Porém, aqueles seres não se resumiram a esse tipo  de labuta.

 

 

Chegando a nave aos anos 80, o curioso constatou que o povo, através da televisão brasileira, se entreteu com as buzinadas do velho guerreiro Abelardo Barbosa, o eterno Chacrinha (1917-1988), nas tardes de domingo. Nesses mesmos dias, o país parava para gargalhar com o trapalhão Renato Aragão, o Didi. Na mesma linha e época, com genialidade ímpar, Chico Anysio (1931-2012), revestido de vários personagens, ganhava lugar de destaque nas noites televisivas globais, mostrando seu talento. Recuando na história para o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), lá o curioso descobriu o grande responsável pela propaganda do estadonovista, um rapaz de origem sergipana conhecido pelo nome de Lourival Fontes (1899-1967). Ele praticamente construiu a imagem do ditador gaúcho.

 

 

Avançando alguns anos nessa jornada para atingir um momento crucial e obscuro da nossa história, a Ditadura Militar (1964-85), o grande curioso acompanhou a ação de dois homens estadistas que se levantaram contra a violenta repressão daquela época.

 

 

 Mesmo sob a mira das baionetas eles optaram pelo nacionalismo e a democracia. Os referidos homens eram os governadores Seixas Dória (1917-2012) e Miguel Arraes (1916-2005), de Sergipe e Pernambuco, respectivamente, aliás, dos governadores foram apenas ambos os que resistiram a tal golpe.

 

 

Ainda no campo político, a nave chega aos dias atuais para presenciar a vitória do pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva que, tornou-se presidente da República com o aval da maioria absoluta dos brasileiros. Inclusive com a participação efetiva do eleitorado de São Paulo. Conquanto, o curioso da nave ficou pasmo com a grande vitória do palhaço cearense José Everardo, o Tiririca. Esse cidadão foi eleito deputado federal com expressiva votação pelos paulistas. Sim, pasmo porque, além de palhaço, nordestino.

 

 

Falando em ditadura, a nave capta imagens da época na área cultural. Foi durante esse período que um grupo de jovens baiano sacudiu o Brasil com um movimento conhecido como Tropicália. Liderados por Caetano Veloso e Gilberto Gil, a Tropicália, levou os jovens a uma maneira diferente de protestar contra um regime autoritário. Era como se a nave retratasse as cenas de outrora que estão inseridas na história do país.

 

 

Ainda observando as músicas, o curioso notou a ação de cantores que embalaram o Brasil, não com funk, mas com músicas que retratam as coisas do coração e as do Brasil. O rei do baião, Luiz Gonzaga (1912-1989), levou os costumes nordestinos para o sul do país, Raimundo Fagner ganhou destaque com suas canções passionais às quais o Brasil se rendeu. No retorno ao tempo, o espectador da nave ainda se deparou com artistas como Patativa do Assaré (1909-2002) e Jackson do Pandeiro (1919-1982), que influenciaram gerações de todo o Brasil.

 

 

A nave se voltou para o carnaval nordestino, que não é tão luxuoso e não promovelugares restritos, mas realizado a céu aberto. Um exemplo dessa manifestação cultural é a cidade de Olinda  em Pernambuco. De quebra, ainda há os criadores do pau elétrico e do famoso trio elétrico, Dodô (1914-1978) e Osmar (1920-1997), nordestinos que se tornaram conhecidos no Brasil inteiro por causa dessas invenções.

 

 

Na área jurídica, o piloto da nave se depara com os sergipanos Tobias Barreto (1839- 1889) e Sílvio Romero (1851-1914). Eles fizeram escola em Recife e na Alemanha, além de pertencerem à Academia Brasileira de Letras, aliás, na referida área das ciências jurídicas o destaque nordestino é do também sergipano, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres de Brito.

 

 

Na literatura, o curioso da nave fica maravilhado ao adentrar nesse mundo, observou que Gregório de Matos (1636-1695) denunciava os atos irregulares da sua época. Percebeu também que o poeta dos escravos, Castro Alves (1847-1871), mobilizou o Brasil contra a vergonhosa escravidão através de sua poesia engajada. Conheceu um pouco da cultura local de Alagoas com Graciliano Ramos (1892-1953) e o sul baiano com Jorge Amado (1912-2001), que popularizou seu nome com o romance “Gabriela, Cravo e Canela”, dentre outras obras. Esses escritores levaram o Brasil para o Brasil e para o mundo.

 

 

No Rio de Janeiro, o viajante espectador notou que tiveram destaque através de séries exibidas na televisão os contos de Nelson Rodrigues (1912-1980) e os filmes irreverentes de Ariano Suassuna (1927-2014). O curioso envereda pela contribuição educacional e encontra com Paulo Freire (1921-1997) e Anísio Teixeira (1900-1971), ambos deixaram correntes pedagógicas a serem seguidas até nossos dias. O curioso ficou totalmente surpreso ao saber que um dos malandros da favela carioca que conquistou os bambas do Rio de Janeiro, o Bezerra da Silva (1927-2005), era genuinamente nordestino de Pernambuco. Esse nordestino fez escola no subúrbio carioca.

 

 

Numa viagem ao cinema brasileiro, descobriu o cinema novo, um jeito diferente demostrar a realidade brasileira. Essa missão coube ao baiano Glauber Rocha (1939- 1981). Ele revolucionou o cinema, por isso, está inserido na história da arte brasileira. Um voo rasteiro aos folguedos possibilitou ao viajante observador perceber rapidamente que a riqueza do nordeste é imensurável, o maracatu, a taieira e o reisado são exemplos dessa grandeza.

 

 

A nossa eficiente nave detectou um insano que partiu de Sergipe para o Rio de Janeiro, onde foi internado como louco, mas que na verdade era uma lenda da arte futurista. Artur Bispo do Rosário (1909-1989), até nossos dias é um orgulho para o local onde morreu (Rio de Janeiro) e para os sergipanos.

 

 

Ainda no Rio de Janeiro, a nossa nave descobriu um colossal estádio de futebol com onome de um nordestino singular, Mário Filho (1908-1966), por ser amante do esporte brasileiro e ter contribuído com este, cedeu seu nome ao Maracanã. Aliás, o esporte brasileiro deve muito ao alagoano, o velho Lobo, Zagallo. Ele é o único brasileiro que detém o titulo de pentacampeão mundial de futebol, isso sem comentar da sua conterrânea Marta, eleita por duas vezes a melhor jogadora de futebol feminino do mundo.

 

 

Na área religiosa e social, o condutor da nave detectou várias obras de caridade na Bahia. Assim como madre Teresa de Calcutá na Índia (1910-1997), a nossa Irmã Dulce (1914-1992) deixou um exemplo de amor ao próximo e de grande solidariedade.

 

 

Ao lançar um olhar sobre fatos recentes relativos à educação, o curioso da nave  localizou uma universidade federal que se destacou na prova da OAB, superando inclusive universidades renomadas como USP (Universidade de São Paulo) e UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). A Universidade Federal de Sergipe (UFS), por alguns anos ocupou o primeiro lugar no Brasil na avaliação da Ordem dos Advogados do Brasil. Com certeza a futura advogada paulista, aquela que postou no seu twitter a seguinte frase: “Nordestino não é gente, faço um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado”, essa moça iria querer afogar todos os bacharéis sergipanos. Não adianta, é como se comparar o Tietê com o São Francisco, o funk com o forró, pois, enquanto falamos das cabras através da interpretação do cantor baiano Elomar, no Rio de Janeiro eles cantam “as cachorras”. A divergência é nítida, sem querer desmerecer os aspectos positivos sudestinos, os nossos não seriam inferiores.

 

 

O curioso da nave a que nos reportamos é um sociólogo. Ele percebe que não é maioria os preconceituosos, mesmo porque, se assim o fosse, esses nordestinos não seriam tão destacados. A incompetência da minoria sudestina se incomoda com o lugar de destaque que conquistaram esses nordestinos. Portanto, se o curioso que estava a bordo da nave fosse a estudante de Direito, Mayara Petruso ou qualquer grupo de preconceituosos, com certeza não mandaria afogar um desses nordestinos. Afinal, subtrair uma figura importante para o país não seria interessante, mesmo porque outros viriam, mas o Brasil conviveria com um gênio  a menos. Além disso, se não fôssemos gente, como salientou Petruso, quem teria construído e contribuído para o desenvolvimento de São Paulo em todas as áreas?

 

 

Dizem que não escolhemos o lugar em que nascemos e sim o aquele em que vivemos, porém, se ainda assim, desse para escolher, escolheria o nordeste para nascer, viver e morrer.

 

 

*Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe e acadêmico de Direito pela mesma universidade. Professor da rede estadual de ensino e da rede municipal de Porto da Folha/SE. Radialista DRT 8703/ DF. Ocupa a cadeira 25 da ALAS (Academia Literária do Amplo Sertão).

 


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Por Eugênio Nascimento
07/07
11:51

Síndrome de jabuticaba

Cezar Britto - Ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil


Certa vez, ao conceder uma entrevista a uma emissora nacional, perguntou-me o âncora do programa jornalístico se não era uma “jabuticaba” a tese que eu defendera na tribuna do STF, na qualidade de representante do Movimento de Combate à Corrupção (MCCE). Referia-se ele ao julgamento da 
ADI 4650, ajuizada pela OAB para declarar a inconstitucionalidade dos dispositivos legais que autorizavam as contribuições de pessoas jurídicas às campanhas eleitorais. Antes de responder sobre a importância de se impedir o financiamento (investimento) privado das eleições, perguntei a ele a razão do preconceito contra a jabuticaba, uma das especiais frutas nativas da Mata Atlântica. Disse-lhe que eu adorava jabuticaba, mas se ele gostava de peras, morangos, maçãs, pêssegos e outras frutas estrangeiras eu respeitaria. Mas que não concordava com a premissa de que as coisas do Brasil não mereciam ser respeitadas.

O grave é que esse desprezo pela jabuticaba (leia-se: coisas do Brasil) tem se espalhado como um mantra impressionante. Escuto-o a todo tempo ou lugar. Até mesmo no onisciente STF a fruta brasileira já constou como elemento depreciativo de um texto constitucional, dizendo-se que deveria ele ser reinterpretado por ser fruto do “pecado original” cometido pelo constituinte tupiniquim. Tenho a impressão de que, caso pudessem, eles receitariam o “jejum de jabuticaba” como caminho ideal para a conquista do nirvana brasileiro. Ou, recitando o mantra com outras palavras, diriam eles que o Brasil somente melhoraria se copiasse o modelo trilhado pelo nobre padrão europeu ou pelo "arrojado" sistema democrático estadunidense.

Aconselho aos amantes das frutas importadas que leiam o livro: Pilhagem. Quando o Estado de Direito é Ilegal. Nele, o italiano Ugo Mattei, professor de direito internacional nas universidades da Califórnia, de Hastings e de Turim, em coautoria com a estadunidense Laura Nader, professora de antropologia da Universidade da Califórnia, explicam as consequências deste “encantamento” nada inocente. O livro, escrito ainda na era do general George W. Bush, explica o desmonte das políticas públicas, a privatização das riquezas nacionais, a coisificação da pessoa humana, os retrocessos sociais, o uso dos meios de comunicação, o ativismo judicial e, enfim, o "Reinado do Mercado". Qualquer coincidência com o Brasil não é, portanto, mera coincidência. Eis o que alertam:


“Os subordinados, ou pelo menos parte significativa deles, devem ser convencidos da natureza superior da ordem e da civilização dominante em comparação com a deles. Sem este componente ideológico, a opressão seria um exercício mais dispendioso.”
“Os países periféricos são, assim, intelectualmente humilhados, criando-se as condições psicológicas para a aceitação da hegemonia estrangeira.”

“A ideia da hegemonia revela, por parte do sistema jurídico dominador, de ser “admirado” pela periferia, obtendo, assim, mero consenso junto a nação dominada.”

“Para conseguirem esse resultado final, uma espécie de paraíso neoliberal em que poderosos agentes de mercado podem transformar todas as pessoas do mundo em consumidores e todo trabalhador não especializado em bem de consumo, os programas de desenvolvimento indicam cinco áreas e imperativos principais de reforma: 1- Permitir que os mercados livres determinem os preços. 2 – Diminuir o controle estatal dos preços. 3 – Transferir os recursos mantidos pelo Estado para o setor privado. 4 – Reduzir o orçamento do Estado ao máximo possível. 5 – Reformar as instituições estatais (tribunais e burocracia) a fim de facilitar o setor privado (boa governança e Estado de Direito).

É evidente que os “adoradores das frutas estrangeiras”, em providencial amnésia argumentativa, não apontam que fora o “modelo europeu de democracia” quem produzira Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Dollfuss, Ceau?escu e vários sistemas autoritários, genocidas, racistas e separatistas desprezados pela História. Também esquecem que provocou duas grandes guerras mundiais, usufruiu-se do tráfico de pessoas humanas e ainda elege discursos fundados nos mesmos crimes do passado. Não citam, ainda, que a “liberdade democrática estadunidense” organizou, apoiou, ensinou, torturou e lucrou com Pinochet, Saddam Hussein, Stroessner, Fujimori, Idi Amin Dada, Videla, Fulgêncio, Papa Doc, Noriega Castello, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo e tantos outros ditadores. Não lembram que os EUA não aceitam a jurisdição do Tribunal Penal Internacional, da Corte Interamericana de Direitos Humanos e, mais recentemente, da Comissão de Direitos Humanos da ONU, substituindo-a pela justiça de Guantánamo, Abu Ghraib e do Patriot Act. Não relembram, certamente, a lição já antecipada por Rui Barbosa, quando, resumidamente, ensinou que A tirania muda de amantes.

Evidentemente não rejeito ou desgosto de outras frutas, pessoas, culturas ou histórias. Gosto também dos sabores delas, alimentando-me, diariamente, dos prazeres, das informações e das coisas que derivam de suas exclusivas características. Até porque os sabores e os saberes são plurais, nenhum melhor ou pior do que o outro, apenas diferentes. Erros e acertos integram todas as páginas escritas no evoluir da humanidade. Eles acompanham todos os povos, todas as raças, todos os espaços do tempo. Mas, confesso, não posso aceitar o argumento de inferioridade expresso na acusação de que as coisas do Brasil são desprezíveis e, em razão disso, elas são piores do que os acontecimentos forasteiros.

Na verdade, o que abomino é a Síndrome de Jabuticaba, a doença social em que a vítima nacional aceita e subordina a validade de seu pensamento à aprovação de seu verdugo internacional. Não concordo, portanto, que se reinterprete a Carta de Pero Vaz de Caminha, retirando a jabuticaba do rol das frutas que “em se plantando tudo dá”. Afinal, como alertado pelos professores Ugo Mattei e Laura Nader, o efeito colateral da Síndrome de Jabuticaba é devastador para o Brasil, gostando-se ou não da fruta brasileira. E, com não abro mão da minha jabuticaba, seguirei defendendo-a nas tribunas da vida.



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Por Eugênio Nascimento
16/06
21:12

Memórias de Copas do Mundo

Luciano Oliveira - Professor aposentado da UFPE

 

Chego a mais uma Copa do Mundo na minha vida. A primeira foi no longínquo ano de 1962, em Itabaiana, interior de Sergipe. Brasil bicampeão mundial de futebol. Dela, tenho apenas lembranças muito vagas. Era um menino, e como lá em casa papai não tinha o menor interesse pelo assunto, tudo o que lembro resume-se a um bando de torcedores (feito um “bloco de sujos”) bebendo e soltando fogos na calçada de um armarinho que ficava em frente da “Farmácia de Oliveirinha” – meu pai – onde, naquele tempo, dava expediente nos horários em que não tinha escola. Um rádio instalado do lado de fora do armarinho transmitia não sei que partida. Foi também pelo rádio, na casa de uns e outros, que escutei, no meio dos chiados das “ondas médias, curtas e frequência modulada” da época, a decepção de 1966, na Inglaterra, onde o Brasil chegou como favorito e voltou com o rabo entre as pernas, eliminado já na primeira fase da competição pela seleção portuguesa, a sensação daquela Copa. Depois veio a apoteose de 1970, no México. Era a época da repressão barra-pesada aos grupos (armados ou não) de esquerda, sob a presidência de Médici, e os opositores ao regime se sentiam embaraçados ante o dilema de torcer ou não pela Seleção, cuja vitória seria (como foi) capitalizada pela ditadura militar. “Ninguém segura esse país!”, havia dito o presidente – e realmente ninguém segurou a Canarinho. A defesa era meio fraquinha, mas do meio de campo pra frente (Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé) a seleção brasileira foi o que muitos consideram o melhor time de futebol que já se formou no mundo.

Até onde dou crédito à minha memória, confesso que não me lembro de ter sido presa desse dilema. Eu era ainda um secundarista e torcia pelo Brasil. Era só isso. Morava em Aracaju e, embora a televisão já tivesse chegado por lá, Sergipe ainda não tinha sido integrado pela Embratel à Rede Globo. Tudo o que tínhamos era uma torre retransmissora que captava, disputando com o que chamávamos de “chuva de arroz”, as imagens geradas em Recife pela TV Jornal do Comércio. Em Aracaju, no começo dos anos 70, a “chuva”, estava para o visual assim como o “chiado” estava para o áudio em Itabaiana no começo dos anos 60. Uma emissora local, se bem me lembro, retransmitia, sem “chiado”, a transmissão da Rádio Globo, onde Waldir Amaral e Jorge Cury se alternavam na transmissão do jogo, um irradiando o primeiro tempo, e o outro, o segundo. Aí, a gente ligava a televisão, mas tirava o som, e ligava também o rádio. E assim não lembro direito o que “vi”, pois as lembranças daquela tarde de junho de 1970, um domingo, embaralham-se com o que – aí sim! – vi alguns dias depois da Copa: um especial do inesquecívelCanal 100com os melhores momentos de todas as partidas, exibido nos cinemas. Brasil tricampeão mundial de futebol. Uma lembrança curiosa: na noite daquele domingo, com a cidade toda em festa, fomos eu, meu irmão e um amigo ao Cine Palace de Aracaju, onde assisti pela primeira vez a My Fair Lady. Era junho e chovia. Que me lembre, no cinema só havia nós três perto da tela e, lá atrás, um casal de namorados – provavelmente pouco interessados no que se passava na casa do professor Higgins, tirânico e misógino, enfiando um inglês de Shakespeare à iletrada Eliza Doolittle!

Fazendo as contas, vou para a minha décima-quinta Copa do Mundo. Olhando ao redor, a minha impressão é a de que o evento não desperta mais o interesse que já teve entre nós. Talvez não seja só impressão. Afinal, algumas semanas atrás, a imprensa divulgou uma pesquisa mostrando que 41% dos brasileiros não se interessam por futebol. E isso às vésperas de uma Copa. Como a mesma pesquisa informa que o percentual já foi muito menor, deduzo que muitos dos indiferentes de hoje já se interessaram um dia. Penso no meu caso. Já de algum tempo venho perdendo o afeto que sempre tive pela seleção. Lembro que em 2002 ainda vibrei muito com o time – sobretudo com Rivaldo, para mim o seu maior jogador. Mas, seguidamente, as decepções de 2006 e 2010 nem de longe se compararam à desolação que senti com a derrota daquele time sensacional de 1982. Em 2014, terminei de ver aquela acachapante humilhação de 7 a 1 imposta pela seleção alemã aos risos. Claro que aquilo foi risível, mas acho que não foi só isso. Quando, não faz muito tempo, a Canarinho ganhou dos alemães na casa deles por 1 a 0, nem cheguei a vibrar com o gol do Brasil (segundo uma brincadeira dos jornalistas alemães, agora o placar está 7 a 2…). A que será que devo essa quase indiferença?

Uma Copa do Mundo, hoje em dia, não é mais um campeonato entre seleções dos países e suas diferentes escolas de futebol, mas praticamente um torneio que reúne os melhores jogadores do mundo que jogam em times europeus! Antigamente, nossos craques, jogando aqui, de quatro em quatro anos se preparavam para ir jogar contra aqueles branquelos alemães e ingleses que jogavam lá. (Um amigo meu me advertiu de que havia um racismo [ainda que às avessas] embutido na minha fala, quando lhe disse que bom mesmo era o tempo em que nossos mulatos iam para a Suécia e davam um banho naqueles loiríssimos arianos… Será?) Nesse caso, a “culpa” é da globalização. E da mercantilização sem limites das relações que se dão nesse novo espaço mundial. Nas relações esportivas, onde o público consumidor, via TV, se conta por milhões (pensem num jogo Real Madrid X Barcelona), quiça bilhões (pensem numa final de Copa), as cifras envolvidas são astronômicas. As tentações, também. Um jogador fora de série como Neymar, por exemplo, vive tendo de explicar junto ao fisco espanhol, mas também brasileiro, “jogadas” típicas de sonegador milionário. Dir-se-á: “Ah… mas é todo mundo! Messi também andou encalacrado lá na Espanha”. Ok, tudo bem. Eu responderei que: a) Messi não é brasileiro, e nunca torci pela seleção argentina – assim, seu caso não me compete; b) sonegador ou não, Messi não é um boçal como nosso Neymar – e tenho dificuldades em torcer por boçais mimados por gente como Galvão Bueno… (Aliás, até dizem que Messi é autista. Se for, que bom!) Mas o diabo é que Neymar – independentemente da empresa chamada Neymar Jr.– joga bem pra caralho! Este artigo já estava quase pronto quando, no sábado da semana retrasada (02/06), assisti ao amistoso Brasil X Croácia, preparativo para a Copa. Neymar, depois de uma cirurgia no pé e de três meses no estaleiro, entra no segundo tempo e faz um gol de craque. Quando é ontem, domingo (10/06), último jogo preparativo: Brasil X Áustria. Neymar, que dessa vez atuou quase o jogo inteiro, faz outro gol mágico! Parodiando Zagallo, acho que vou ter de engoli-lo…

Repetindo-me: chego a mais uma Copa do Mundo na minha vida. De 1962 a 2018 (até me assusto!), são cinquenta e seis anos de existência… De lá pra cá já vi tanta coisa! Nunca fui daqueles torcedores de bandeirinha no carro, e não sou um patriota no sentido babaca do termo. Quando o Sargentão Dunga dizia que quem não torcia pela seleção não amava o Brasil, eu fazia um esforço danado para continuar torcendo pela Canarinho. É mais ou menos assim que estou me sentindo nesta véspera de Copa. Não sei qual será meu sentimento quando o juiz apitar o início do jogo do Brasil contra a Suíça domingo próximo – depois de depois de amanhã. Mas, sinceramente, estou torcendo para me emocionar pela décima quinta vez na minha vida.

***

Nílton Santos era lateral esquerdo do Botafogo e da seleção, campeão mundial em 1958, na Suécia, e bicampeão no Chile. Era apelidado de “A Enciclopédia”, porque se dizia que sabia tudo de futebol. Foi uma criatura amável. Dizia que se considerava um sortudo, porque fazia na vida aquilo de que mais gostava: jogar futebol – e ainda lhe pagavam para isso! Da minha infância pra cá, o mundo mudou.



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Por Eugênio Nascimento
04/06
20:44

Homens e Instituições

Angelo Roberto Antoniolli - Reitor da UFS


Não posso renegar o sacrifício de lutar e defender os ideais de toda a minha vida”, disse um dos ícones da imprensa brasileira, Barbosa Lima Sobrinho. Um homem de profundo discernimento em relação à vida e aos diversos fatores que a compõem. Um jornalista ético e assoberbado de dignidade em tudo o que abraçou. Presidente, por três vezes, da Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Um brasileiro respeitado por quem se dá ao respeito. Em qualquer tempo, em qualquer lugar e em qualquer situação.

Assim como o acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, eu também não poderei jamais deixar de lutar e defender os ideais que absorvi e propaguei em toda a minha caminhada, desde os tempos estudantis, sempre na luta em defesa dos princípios democráticos. De São Paulo, onde nasci e galguei os bancos escolares até o doutorado, a Sergipe, terra que escolhi, dentre muitas opções, para viver, constituir família, trabalhar, respeitar as pessoas e esperar delas, no mínimo, o mesmo respeito.

Fiz do magistério a minha opção de vida profissional. Na Universidade Federal de Sergipe, em mais de vinte anos como professor e pesquisador, construí e/ou aprimorei o que eu tenho, o que eu sei e o que eu sou. Com trabalho sério, dedicado, comprometido e com o sentimento de pertencimento em relação à UFS, aos meus colegas e aos meus alunos. Fora da UFS, à minha família, especialmente ao meu filho, a quem amo e a quem tenho procurado legar um exemplo de vida limpa e digna, mas, também, aos meus amigos, que são muitos, e a quem divide comigo os momentos de intimidade familiar.

Ao longo de muitos anos, na gestão do meu Departamento, do meu Centro, como vice-reitor em dois mandatos e, enfim, como reitor, agora, quase nos meados do segundo mandato, graças ao apoio da comunidade acadêmica – professores, técnico-administrativos e alunos – tenho procurado servir à Universidade Federal de Sergipe com a mesma serenidade com que ministro aulas e realizo pesquisas, ou executo projetos de extensão. Jamais me deixei levar por sentimentos que pudessem constranger as pessoas ou constranger-me. Tenho uma vida serena, simples, como a vida de um professor em tempo integral. Ao longo da caminhada, tive a honra de ver e sentir que muitos me seguiram, ajudando-me a servir à comunidade que me acolheu generosamente. A todos, eu hei de ser sempre grato.

Com o apoio decisivo dos meus colegas de trabalho em diversos escalões da hierarquia administrativa, na UFS, e com a colaboração de pessoas externas, a exemplo de autoridades governamentais, no âmbito dos três Poderes, tenho conseguido êxitos na caminhada gerencial. Mesmo nesses últimos anos de crise política, econômica e moral que se abateu sobre o país, não desisti de lutar, de buscar meios para tocar a vida universitária. Não tem sido fácil. A partir de uma gestão participativa, a UFS vem conseguindo equilibrar-se, otimizando gastos no custeio e nos investimentos.

Não tem faltado à UFS o apoio, quando é preciso, do governo estadual, como ocorreu, explicitamente, no caso da abertura do Campus do Sertão, bem como de vários parlamentares federais – senadores e deputados – que, sensibilizados com as carências da Universidade, e que, em última análise, são carências da própria sociedade sergipana, representada na UFS por cerca de trinta mil estudantes, além dos trabalhadores – professores, técnico-administrativos e terceirizados – que convivem em nossos Campi, no dia a dia, não têm medido esforços para ajudar, quer conseguindo liberar recursos do Orçamento Geral da União, especialmente do MEC, quer consignando recursos por meio de emendas parlamentares. A todas essas pessoas, o meu agradecimento já foi registrado em algumas oportunidades, nos artigos que publiquei no Jornal da Cidade, e que continuarei a publicar, quando for preciso, e o espaço me for facultado.

No momento, graças ao trabalho diuturno dos colaboradores, que, com reconhecida competência, comigo dividem os fardos da gestão, e graças aos recursos recebidos com a ajuda de representantes sergipanos no Parlamento Nacional, que atuam em diversas agremiações políticas, muitas obras estão sendo concluídas ou em fase de conclusão para os próximos dias ou meses. Somente entre 2016 e 2018, ou seja, neste segundo mandato como reitor, os investimentos em obras somam R$ 59.030.096,02, com áreas construídas de 97.662,85m². Nesse período, já são vinte (20) obras em termos de construções, reformas significativas ou ampliações. E tudo isso nos diversos Campi da UFS.

Apenas para ilustrar, dentre as obras merecem destaque as seguintes: conclusão da Didática VII, edifício com seis pavimentos e área de 11.295,94m²; construção da moderníssima pista de atletismo com área de 6.300,00m²; reforma da Praça do Campus/sede e construção do Memorial da Democracia com área de 17.900,00m²; reforma do prédio de Engenharia Civil com área de 1.194,09m²; reforma do prédio do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, no Hospital Universitário; implantação do grupo gerador e reforma elétrica do Campus de Itabaiana com área de 19.000,00m²; Centro de Imagem do Hospital Universitário; reforma e acessibilidade do Campus de Itabaiana com área de 20.621,63m²; cercamento do Campus de Lagarto com área de 4.066,00m²; reforma e ampliação das instalações elétricas do Campus Rural; reforma e conclusão do Anexo Hospitalar do HU com área de 2.681,56m²; construção do Centro de Simulações e Práticas do Campus de Lagarto com área de 9.922,74m²; reforma do Campus do Sertão; infraestrutura para instalação de 38 módulos para atender ao Departamento de Letras/Libras com área de 1.022,40m².

Devo registrar a minha gratidão, em nome da UFS, a quem tem emprestado o seu apoio para que essas obras possam ser concluídas, como, realmente, estão sendo. Críticas, eu as recebo, mas, de quem tem dignidade para manifestá-las e de quem as manifesta de forma ética. Do mesmo modo, recebo e sou grato a quem reconhece o trabalho desenvolvido, e a quem se solidariza comigo, como está ocorrendo no decorrer desses últimos dias. Sou grato a todos. Porém, não permitirei que assaquem contra a minha honra. A vida limpa que eu construí ninguém jogará na lama. O destempero de ninguém mudará o rumo da minha vida e do meu trabalho.

Os homens e as instituições devem estar sempre a serviço da vida. E a vida deve servir como processo de aperfeiçoamento.



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Por Eugênio Nascimento
03/06
16:29

A quem pertence a Petrobras?

Cezar Britto
Ex-presidente da OAB

A greve dos caminhoneiros transportou para o mundo real o debate sobre o papel da Petrobras, da compreensão estratégica do petróleo enquanto patrimônio do povo brasileiro e quem deve ser o real destinatário dos serviços gerados pelas empresas estatais. Deste debate, entre placas de “pare e siga” para umas e outras análises, perguntas são ligadas, freadas ou estacionadas em locais não pavimentados por respostas sólidas. Mas todos, com raríssimos derrapes excludentes, assumindo a condição de motorista, passageiro, mecânico ou transeunte assumiram o direito de opinar sobre a nova crise gerada pelo governo plantonista. E eu sigo pela mesma estrada opinativa.

Da imensa carroceria de perguntas que acarreto para o debate, descarrego, de logo, as seguintes: A quem pertence a Petrobras e o petróleo extraído do solo brasileiro? É correto submeter os interesses do povo brasileiro ao apetite insaciável do “Mercado”? Quem lucra com os absurdos preços dos combustíveis praticados no Brasil pelo governo plantonista, ardorosamente defendidos por seu porta-voz Pedro Parente? Qual o sentido de lucro em uma atividade estatal? Qual a relação da crise com a política de desmonte, privatização e entrega do patrimônio nacional aos interesses do capital estrangeiro?

A questão da propriedade brasileira sobre o petróleo parecia ter sido resolvida quando a Petrobras foi criada pela Lei 2004, sancionada por Getúlio Vargas em 03 de outubro de 1953. Vencia-se, ali, a velha batalha do O petróleo é nosso!, iniciada quando descoberta as reservas da?Bahia, no bairro soteropolitano de Lobato, ainda em 1938. A?Campanha do Petróleo, unindo forças da direita e esquerda, apoiada pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, PCdoB, PTB, União Nacional dos Estudantes, militares, trabalhadores, intelectuais e nacionalistas chegara ao fim, inscrevendo que a propriedade do petróleo era um monopólio do povo brasileiro e da sua estatal Petrobras.  Em palavras da época: vencida estava a proposta que pretendia entregar o petróleo aos investidores estadunidenses.

Vencida, mas não derrotada. A ganância internacional sobre o petróleo, patrocinadora de guerras, genocídios e ditaduras, não descansaria enquanto não se apossasse da Petrobras e quebrasse o monopólio conquistado em 1953. Não encontrando aliados nos autores das leis outorgadas de 1967 e 1969, tampouco nos constituintes de 1988, os entreguistas persistiram por décadas. Até que encontraram um forte aliado no então presidente Fernando Henrique Cardoso, que, aceitando a missão estrangeira, mandou esquecer a história que escrevera e, na mesma canetada, rasgou a história do seu pai Leônidas Cardoso e a de seu tio Felicíssimo Cardoso, dois dos generais nacionalistas da Campanha do Petróleo.

Da Era FHC a Emenda Constitucional 9/1995, a Lei do Petróleo n° 9.478/97 e a criação da?Agência Nacional do Petróleo (ANP), todas com o firme propósito de se quebrar o monopólio da Petrobras sobre o petróleo, abrindo-o para a exploração internacional. Daquele tempo, ainda, a tentativa de aniquilar a resistência nacionalista dos petroleiros, utilizando-se do Poder Judiciário, em método depois condenado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), assim resumido pelo então ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, em reportagem da revista Veja, edição 1.394, página 23: “O segredo dessa estratégia é semear o medo da demissão em todo mundo. Numa refinaria todos se conhecem. Se um funcionário exemplar é demitido, quem está em dúvida quanto à determinação do governo vai pensar duas vezes antes de aderir”. Estratégia também exercida, no ano 2000, na frustrada tentativa de mudar o nome da Petrobras para Petrobrax, na vã esperança de que, com um nome estrangeiro, não fosse ela mais defendida pelos brasileiros.

Não é obra do destino o então presidente da Petrobras ter integrado, em ministerial posição de destaque, a equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso. Não é coincidência a repetição da política de desmonte da Petrobras, a venda de seus ativos e entrega do pré-sal ao capital internacional. Não se pode atribui ao acaso o ”acordo” de US$ 2,95 bilhões para encerrar ação coletiva em benefício de “investidores estrangeiros”, que corria em Nova York. Não tem outra causa a atual política de diminuir a produção nacional e aumentar a dependência brasileira através de estranhas importações estadunidenses.  Não é outra a motivação de se aumentar os lucros dos “investidores internacionais” com a precificação volátil dos combustíveis, ainda que tal prática traga como consequência a destruição da economia nacional.

O petróleo deve ser compreendido como uma riqueza do país, para que se possa, com os recursos dele oriundos, retirar os nossos atrasos, os atrasos educacionais, de infraestrutura e os que provocam em muitas Nações alta concentração de renda. Em consequência, o lucro da Petrobras deveria ter como fundamento a lucratividade social do Brasil, e não o aumento das riquezas pessoais que se disfarçam em nomes sem rostos, apelidados de “mercado” e “investidores”.

A Petrobras e o petróleo devem pertencer ao povo brasileiro, como advertira o escritor?Monteiro Lobato, na famosa?Carta a Getúlio, em que afirmava ser um escândalo o Brasil não perfurar e não deixar que perfure. A Petrobras completará 65 anos no dia 03 de outubro de 2018, exatamente no dia em que o Brasil escolherá os seus novos governantes entre candidatos nacionalistas e entreguistas. Como se vê, a estrada ainda é longa e árdua!


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Por Kleber Santos
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