04/07
09:08

Fila bem indiana

Geraldo Duarte*
Advogado
 
Testemunha de acontecimento curioso, presenciado no aeroporto de Toronto, Canadá, busquei a origem e o porquê da expressão fila indiana.

A uns, essa organização de pessoas, uma seguida de outra e em linha, principiou com nossos indígenas, conforme os colonizadores portugueses. Diziam que, à época do Descobrimento, silvícolas visando maior mobilidade na floresta, deslocavam-se em filas, também evitando isolarem-se do grupo e melhor defenderem-se.

A outros, o perfilhamento surgiu em tribos norte-americanas, tendo objetivo bélico. Os guerreiros seguiam em coluna, pisando sobre as pegadas do da frente, destruindo-as ou as deformando e enganando o inimigo. Servia, ainda, para se abrigarem próximos, atrás de troncos de árvores ou pedras.

Na Guerra da Independência (1775-1783), o exército dos USA utilizou a tática dos índios, atacando e vencendo os soldados ingleses que agiam em blocos e mais se expunham.

A “indiana” da fila, assim, não se relacionaria ao país Índia.

Voltando à chegada a Toronto. No início da grande fila da aduana, parecendo labirinto, via-se um senhor alto, usando colorido turbante, enorme bigode de pontas modeladas, longo dhoti sobre a vestimenta comum e segurando vários passaportes.

Chamado, convidou seus acompanhantes e, quando liberados, arrumaram-se enfileiradamente e saíram.

Na retirada das bagagens, reencontro-os. Somavam dez, malas à mão e mesmo ordenamento. O do turbante, disse algo ao imediato e a fala repetiu-se até o último. Deste, voltou a aquele que, com notado aceno, deu-se em caminhada e foram-se.

Ali, verdadeira fila e, sem dúvida, totalmente indiana...
 
*Dicionarista  


Colunas
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/07
07:51

É a hora do grande teste da democracia representativa

Cezar Britto - É advogado e escritor, autor de livros jurídicos, romances e crônicas. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e da União dos Advogados da Língua Portuguesa. É membro vitalício do Conselho Federal da OAB e da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.


No mundo que se diz democrático não há espaço para o isolamento decisório. Nesta moderna forma de administrar a coisa pública, o governante não é mais o senhor absoluto das decisões, tampouco o único interprete autorizado a decifrar o pensamento dos seus administrados. O governante que se diz moderno é obrigado a compartilhar os seus poderes, pudores e quereres.

Neste sentido, a consulta aos cidadãos e suas organizações não é uma mera faculdade, mas uma obrigação fundamental e definitiva para situar o grau de Democracia aplicado. Mas a participação do cidadão e suas organizações não se resume ao processo eleitoral ou à consulta popular via plebiscito, leis de iniciativa popular e referendo.  Não poderia mesmo a Democracia ser reduzida a instrumentos que são utilizados de forma pontual e periódica, ainda que a democracia participativa seja considerada a mais eficaz.

O vácuo provocado pelo lapso de tempo é preenchido com a chamada democracia representativa, onde o cidadão e suas organizações escolhem aqueles que representarão os seus interesses, perspectivas, projetos, sonhos e até esperanças. Com a democracia representativa, complementando a participação direta dos cidadãos, estaria fechado o círculo de compartilhamento decisório a que está obrigado o governante.Assim, para a consolidação da Democracia, espera-se que o representante seja o espelho dos cidadãos e organizações que o designou, o receptor mais autorizado para escutar as suas lamúrias e o porta-voz mais legítimo para tornar reais as suas expectativas. Como oriundo de um processo eleitoral de escolha democrática, deve ser fiel às promessas assumidas durante a campanha e, sobretudo, aos compromissos éticos, legais e políticos inerentes ao exercício da função delegada pelo representado.

É escrever em outras palavras: o representante de uma organização, comunidade ou segmento social, deve observar o pensamento da entidade, sociedade ou agrupamento que está a representar. E como representante destes cidadãos e organizações, mesmo quando legalmente livre para agir e votar segundo suas próprias concepções, não pode esquecer as motivações de sua escolha. Afinal, afastar-se dos compromissos da representação equivale à perda da condição ética da própria representação. E sem a ética não há que se falar na manutenção da representação, pois é negada a sua legitimidade e a razão da existência democrática.

Assim entendendo, não posso deixar de concluir que o presidente plantonista Michel Temer, flagrado em circunstâncias nada republicanas, perdera a condição ética de mandatário dos cidadãos brasileiros. Ainda que empossado em circunstâncias históricas nebulosas, estava obrigado a manter intacto o elo que deve unir o querer do representado ao agir do seu representante. O golpe parlamentar que lhe outorgara o mandato não tinha o poder autorizativo de um habeas corpus preventivo para livre violentar a Constituição Federal.

O mesmo defeito que atinge o deputado Rodrigo Maia, seu aliado político e cúmplice na manobra parlamentar que evita instaurar, via processo de impeachment, a necessária investigação dos atos ilícitos atribuídos ao chefe provisório do Executivo. Aliás, como demonstram todas as pesquisas divulgadas imprensa afora pelos institutos especializados, não apenas em razão de questões éticas a completa ausência de sintonia entre o povo e os seus representantes, estão rejeitados os governantes e as políticas restritivas de direitos que praticam.

Agora, pela primeira vez na História do Brasil, o presidente da República é denunciado criminalmente perante o Supremo Tribunal Federal. A Constituição Federal condiciona o prosseguimento da ação à prévia autorização dos deputados federais. Caberá à chamada Casa do Povo, decidir se o Poder Judiciário pode ou não cumprir a sua missão constitucional de instruir e julgar os atos praticados pelo cidadão residente no Palácio Jaburu. Este será, certamente, o grande teste para confirmar a aposta constitucional na democracia representativa, fundada na ideia de que o representante deve permanente satisfação ao representado, assim como deve proteger a coisa pública daquele que a compreende como patrimônio privado.



Colunas
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
26/06
17:01

Amigo da Prova ou Amigo da Onça, eis a manchete!

Cezar Britto
Advogado

Eu me propus escrever sobre um tema que, acredito, tem provocado intenso e interminável debate no mundo jurídico e no universo da vida virtual. Queria dissertar especificamente sobre a importância da paridade de armas entre acusação e defesa. Rebelde ao querer do voluntarioso articulista, entretanto, o meu pensamento teimava em pousar na minha infância em Propriá (SE). Recusava-se a escrever sobre o valor jurídico do power point como fundamento acusatório, ou mesmo sobre a imprescindibilidade da prova como requisito de validade da sentença penal. Não queria, sequer, escrever a perigosa transformação do “falar nos autos” em “vazar para os outros”. Não fosse advogado, teria condenado minha própria mente pelo “crime de pensamento disperso”, tão comum nas salas de aula.

Concedi, então, um habeas corpus ao meu livre pensar. E ele me conduziu direto a memória propriaense, quando o meu pai chegava a nossa casa, depois do trabalho em Aracaju, portando as revistas O Cruzeiro e Manchete. Logo eu as folheava em busca das páginas que atraiam a minha atenção de pré-adolescente. A primeira, a charge do Amigo da Onça, o irônico, falso, satírico e crítico personagem criado por Péricles de Andrade Maranhão. A segunda, na Manchete, a coluna Criança diz cada uma, criada pelo dramaturgo, médico e escritor Pedro Bloch, em que narrava casos engraçados e surpreendentes de crianças, quase sempre enviados pelas mães corujas.

Eureka! Disse-me a mente em assumido plágio ao grego Arquimedes. Mostrava-me, de supetão, que não cometera nenhum crime ao lembrar-me da inspiradora Propriá. A mente era inocente do crime que falsamente a acusei. Em verdade, ela queria que eu explicasse o tema sob a ótica de meu sobrinho e afilhado Davi, em versão contada por sua mãe Rosa Helena, no bom e velho estilo Criança diz cada uma. O fato ocorrera quando a minha irmã, mãe de quatro filhos, voltando de uma viagem ao Chile, não encontrou na geladeira um dos ovos de chocolate que presentearia na Páscoa. Imediatamente chamou o filho caçula e personagem-autor na narrativa:

“— Davi! – gritou Rosa em tom acusador.

— Já vou, mãe – disse Davi, defensivamente, correndo ao encontro da voz.

— Por que você pegou um dos ovos da geladeira? – seguiu a mãe na sua lógica acusadora.

— Não foi eu mãe – replicou, calmamente, o pequeno.

— Claro que foi você! – repetiu, braba, a mãe. — Os seus irmãos não fariam isso...

— Puxa, mãe! – argumentou, ofendido. — A senhora parece até o Ministério Público! Tem convicção, mas não tem prova.

— !!! – calou-se a mãe, advogada, diante do certeiro argumento.”

A reação do Davi acusado diante da golias acusação materna é daquelas instintivas, sem explicação lógica e que brota em nossa mente como verdade absoluta. O filósofo grego Plotino, fundador do neoplatonismo, a descreve como decorrente de um modelo prévio para todas as coisas, razão porque ensinou: “Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no universo”. Santo Agostinho confessaria mais tarde que, na verdade, estas ideias decorrem do que recebemos da mente de Deus. Carl Jung a resumiu como arquétipo, uma espécie de “imagem primordial” que se origina de uma constante repetição de uma mesma experiência, durante muitas gerações, guardadas no inconsciente coletivo.

De Aracaju a Curitiba, ou em qualquer lugar do Brasil ou do planeta, “até as pedras sabem” que nenhuma pessoa, instituição ou aparelho estatal foram aquinhoados com o “dom da verdade” e o “poder da infalibilidade”. Fincada em nosso inconsciente coletivo, está a certeza já vivenciada de que convicções, moralismos e fundamentalismos são palavras que simbolizam injustiças, intransigências e perseguições. Allegatio et non probatio quasi non allegatio (Alegar e não provar é quase não alegar) é, de fato, um dos arquétipos mais repetidos no avançar da humanidade, pois fruto da luta da cidadania contra o todo poderoso Leviatã. Ele está na base de todo regime democrático, pois serve de controle à tentação absolutista dos que confundem autoridade com autoritarismo. Ele é o coração que mantém vivo e pulsante o próprio processo penal.

O Ministério Público é parte, pensa como parte, age como parte e, por ser parte, não pode sentenciar. A ele — e somente a ele — cabe provar nos autos o que alega, esquecendo as opiniões pessoais, os comentários jornalísticos ou as notícias vazadas das páginas ausentes no processo. E assim também o juiz que, como integrante do aparelho estatal, não pode dispensar a prova produzida nos autos, goste ou não daquele a quem vai julgar. No processo judicial a longa manus do Estado, como já incorporamos no dicionário da vida, “pode muito, mas não pode tudo”. A única manchete admissível é a de que cada um deles — acusador ou julgador — deve ser o Amigo da Prova, jamais o Amigo da Onça.

*Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil


Colunas
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
18/06
05:35

A UFS e o TRT

Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

Ao longo de nossa gestão à frente da Universidade Federal de Sergipe, estando há menos de um ano do segundo mandato, como nos fora confiado pela comunidade acadêmica, temos procurado manter várias parcerias com entidades e órgãos públicos, os mais diversos. Do mesmo modo, temos procurado o apoio de agentes públicos e políticos, nos Poderes Executivo e Legislativo. Sobre isso, aliás, já publicamos, aqui, no JORNAL DA CIDADE, alguns artigos.

Entendemos que a prática administrativa deve nos levar à busca de soluções compartilhadas sempre que isso for possível e viável. Não podemos conceber que o gestor público se feche numa redoma como se fora um caramujo. É preciso correr atrás de tudo que possa favorecer ao bom andamento das atividades. Sair da zona de conforto, empreender gestões junto a autoridades, eis o que temos que fazer, especialmente em momentos de dificuldades econômico-financeiras. Já diziam os antigos que “o maná nem sempre cai do céu”. É preciso correr atrás, lutar, jamais desanimar, embora, às vezes, o fardo pareça pesar mais e mais. Todavia, diz também a sabedoria popular que “quem está na chuva, é para se molhar”. Tocar a vida, eis o que temos que fazer. 

Na última segunda-feira, dia 12, estivemos no Tribunal Regional do Trabalho da 20ª Região, para a assinatura de um termo com o presidente daquele Órgão judicante, Desembargador Tenisson Santana Dória. Dito termo tem como objeto a doação de equipamentos de informática por parte daquele Tribunal ao Departamento de Direito/DDI, da UFS, no momento coordenado pelo professor Arnaldo Machado. São computadores e impressoras multifuncionais, que beneficiarão ainda mais os alunos e os assistidos pelo Núcleo de Prática Jurídica, que funciona no Fórum da Justiça estadual, localizado no Campus de São Cristóvão. 

Vale ressaltar o papel que o Departamento de Direito, a exemplo de tantos outros, exerce na estrutura acadêmica da UFS. Apenas para citar um fato, dos cinco Selos “OAB RECOMENDA”, concedidos pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o nosso curso de Direito foi contemplado com todos os cinco, Selos, posicionando os nossos alunos dentre os melhores do país. É evidente que isso é motivo de orgulho para todos nós da UFS. Nenhum outro curso de Direito em Sergipe jamais recebeu o Selo citado. Somente a UFS. 

Por outro lado, o presidente do TRT, Des. Tenisson Dória demonstrou a sua satisfação em firmar o referido termo de doação, uma vez que o mesmo é egresso do nosso curso de Direito, bacharelando-se na segunda metade da década de 1980. Além disso, o presidente do TRT tem consciência do papel que os órgãos públicos, dos diversos Poderes e das diversas instâncias, têm em estreitar as relações interorgânicas.

O Tribunal Regional do Trabalho sediado neste estado tem colaborado com entidades e órgãos públicos, além de entidades sociais. 

Temos procurado dar a devida assistência a todos os nossos Departamentos, às atividades desenvolvidas nas três áreas que compõem o processo educacional: ensino, extensão e pesquisa. Os recursos financeiros contidos pelo governo federal diante das dificuldades que o país ainda enfrenta, deixam a desejar, diante da expansão empreendida na UFS, nos últimos anos. Compreendemos a situação. Não curvamos a cabeça, contudo. Não ficamos pelos cantos a nos lamentar. Vamos em frente. Contar com a colaboração de quem pode nos ajudar, há de ser sempre uma atitude a levar em consideração.

Agradecemos ao TRT e ao seu presidente. Enfim, a todos que ali prestam os seus serviços. 


Colunas
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/06
14:31

O admirável mundo que não queremos

Cezar Britto  - Ex-presidente do Conselho  Federal da OAB



A nossa geração, influenciada pela visão futurista do cineasta Stanley Kubrick, acreditava que o ano de 2001 significaria o triunfo da raça humana, o início da conquista do infinito. Acreditávamos que o ser humano, sem as costumeiras pressões terráqueas, não mais teria tempo para as guerras ou para as disputas por um poder sempre sedento de mais poder. Predizíamos que a Era da Opressão não encontraria moradia no futuro, pois o Universo era grande demais para justificar as picuinhas e as futricas que impediam uma justa distribuição das riquezas, das terras e da felicidade. A corrida espacial seria o novo e definitivo sonho dourado de conquista, como comparavam animadamente os entusiasmados amantes dos faroestes italiano-estadunidenses, também em moda nas animadas rodas de proveitosas divagações.

Lembrei-me, confesso, dessa viagem geracional inacabada quando li o PL 6.442/2016, de autoria do deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), o mesmo parlamentar escalado para relatar a CPI da Funai/Incra. Exatamente aquela comissão que criminalizou a reforma agrária e retroagiu a questão indígena ao tempo da morte autorizada em “caça santa”, entendido como revogado por alvará de 1755, subscrito pelo rei José I, “o Reformador”, quando o Brasil ainda era colônia do Reino de Portugal e Algarves. Acredita-se, tal era a sanha punitiva da CPI, que o soberano português só não foi incluído no extenso rol de indiciados pelo “grave crime de compreender o índio como pessoa humana portadora de direitos inalienáveis”, por ter morrido em 24 de fevereiro de 1777 e já ter havido a independência brasileira em 07 de setembro de 1822. É que constava do alvará assinado pelo rei que flertava com a modernidade pombalina a premissa de que “os índios são iguais a seus descendentes e colonos”, não podendo ser escravizados.



Colunas
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
13/06
10:16

E o senador assassinou o Barão

Cezar Britto
Ex-presidente do Conselho Federal da OAB

Calma! Não vou lançar uma nova versão do divertido jogo “Detetive”. Não estou, portanto, plagiando o advogado inglês Anthony Pratt que, em 1949, criou o jogo de tabuleiro por onde desfilavam os suspeitíssimos Sr. Marinho, Prof. Black e Cel. Mostarda, acompanhados das imperdíveis Dona Violeta, Srta. Rosa e Dona Branca. Não estou afirmando que um ferraço é mais eficiente como instrumento mortífero do que o castiçal, cano, chave inglesa, corda, revólver ou faca. Tampouco que o Senado tem uma ambiência propícia para que crimes sejam ali praticados, notadamente em seus gabinetes, salas de reunião, chapelaria, plenário, biblioteca, restaurante, comissões ou sala de cafezinho.

Esclareco, assim, que este artigo não tem como finalidade refletir sobre o jogo da Waddingtons, mesmo porque criado para inocente e coletivo entretenimento. E mesmo que o título possa assim insinuar, não discutirá qualquer morte havida no Senado, como a do senador José Kairala (PSD-AC), vitimado pelo disparo que brotara da ira do senador Arnon de Mello (PDC-AL), na sessão parlamentar de 04 de dezembro de 1963. Até mesmo a saga do filósofo-político francês Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu, não será aqui narrada, ainda mais quando o iluminista que abalou o absolutismo da Idade Moderna e serviu de farol para a Revolução Francesa, morreu de febre no distante 10 de fevereiro de 1755.

O assassinato em que se interroga no título é de outra monta, especificamente o delito anunciado na sala da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, no dia 30 de maio de 2017, quando da leitura do relatório da chamada Reforma Trabalhista (PLC 38/2017). O ato preparatório do crime apalavrado foi descrito por seu próprio autor, o senador Ricardo Ferraço, quando apontou graves lesões à classe trabalhadora no projeto originário da Câmara dos Deputados, dentre elas o trabalho de gestante e lactante em ambiente insalubre; os serviços extraordinários da mulher; a possibilidade de acordo individual para jornada 12x36; as questões referentes ao trabalho intermitente; a representação de empregados e a negociação do intervalo intrajornada. O crime que revelou querer praticar, confessando-o, é o de lesa-república, tipificado na proposta do Congresso de renunciar à sua função constitucional de legislar (arts. 48 e 59, CF), transferindo esta missão ao Executivo que, em prévio exame de corpus delicti, patrocina a própria lesão.

A inédita proposta de renúncia ao dever de legislar fere cláusula pétrea da Constituição Federal (art. 60, § 4º, III), causando grave ferimento ao princípio da separação dos poderes, imodificável até por emenda constitucional. Ao apontar que determinados temas do PCL 38/2017 continham ilegalidades ou injustiças, sabendo-se bicameral o parlamento brasileiro (art. 44, CF), deveria rejeitar o projeto com arquivamento (art. 65, caput, CF) ou devolvê-lo para que a Câmara dos Deputados exerça o seu direito de correção ou ratificação da proposta originária. Nunca encaminhar para sanção presidencial o projeto de lei que confessou ser merecedor de rejeição ou, mais grave, pedindo o próprio parlamento que seja ele vetado ou corrigido via medida provisória.

O senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), naquele fatídico dia, ao ferir de morte o princípio da separação dos poderes, disparou contra Montesquieu. E ao atingir o criador do princípio da separação dos poderes, o senador brasileiro recolocou o célebre “Do Espírito das Leis", outra vez, no índice dos livros proibidos - o Index Librorum Prohibitorum. Retirando de circulação o espírito que ilumina o poder de legislar do Congresso Nacional, na mesma tentativa, atingiu-se o coração republicano da Constituição Federal.

É bem verdade que o plenário do Senado ainda pode rejeitar a proposta parlamentar em que o Congresso se autolesiona, arquivando ou devolvendo para a Câmara dos Deputados a proposta que fará a legislação laboral receber a alcunha de Consolidação das Lesões Trabalhistas. Ou mesmo poderá o senador Ricardo Ferraço externar o arrependimento eficaz, desistindo, voluntariamente, de matar o espírito de Montesquieu, sendo absolvido pela tentativa de eliminar a Constituição Federal. O que se espera dos senadores brasileiros é que também sejam detetives encarregados da prevenção de crimes constitucionais, afinal, como ensinou o iluminista francês: “Uma coisa não é justa porque é lei, mas deve ser lei porque é justa”.


Colunas
Com.: 0
Por Kleber Santos
08/06
09:24

Por que Nordeste?

Geraldo Duarte*
Advogado

Notabilizado por suas obras O Poder das Amarras (1997); No Rastro do Boi: Conquistas, Lendas e Mitos (2000); A Fagulha da Abolição (2004); O Homem e seu Tempo - 1722-1797: Capitão-mor José de Xerex Furna Uchoa - O Introdutor do Café no Ceará (2008) e Vozes sem Eco: a Angustia dos Miseráveis e a Revolta da Natureza (2012) o estimado amigo, consagrado escritor e historiador Ésio de Souza volta a enobrecer a gente cearense.

O Conselho Editorial do Senado Federal coloca-o entre os autores de distinguido valor histórico e erudito da Nação, publicando seu novo livro O Nordeste Brasileiro: Invenção, Espaço e Dinâmica.

De 1574 até 1919, o Brasil dividia-se somente em duas regiões: Norte e Sul, tendo a Bahia por divisória. O governo de Epitácio Pessoa fez oficializar o termo Nordeste para identificar geográfica, política e culturalmente a realidade de nossa terra. A decorrência de tão longo período, sem definição, deveu-se ao temor de aspectos separativos.

No início do século XX, com a determinação do Polígono das Secas, a criação da IOCS, em 1909, depois IFOCS, o presidente Epitácio decretou a denominação.

O ineditismo da temática reside nas análises dos momentos conflituosos, das injunções bairristas e dos enfoques climáticos. Precipuamente, a tríade homem-terra-secas.

Esio, nascido e vivido no semiárido, nele permaneceu 25 anos, migrando para a zona da mata. Nesta, laborou, como técnico e diretor da Sudene, assenhorando-se das condições dos dois ecossistemas. 
A cada produção, mais cativa o ledor, dado o estilo preciso, a realidade vivencial e o trato tecnológico de forma coloquial. 

*administrador e dicionarista.
 


Colunas
Com.: 0
Por Kleber Santos
31/05
08:13

Empréstimo rural II

Geraldo Duarte*
Advogado

No artiguete passado, citamos alguns pareceres de fiscais bancários, fornecidos por amigo e classificados como “pérolas rurais”. Hoje complementamos.

“Imóvel de difícil acesso. O mato tomou conta de tudo, deixando passagem só para animal rasteiro. A próxima vistoria deve ser feita por fiscal baixinho.”.

“A máquina elétrica financiada é toda manual e velha. O fazendeiro financiou a máquina elétrica, mas fez todo o trabalho braçalmente e animalmente.”.

“Encontrei o financiado sentado com um rosário na mão. Quando me viu, chamou de seu padre e começou a chorar. Não é caso de vistoria e sim de médico.”.
 
“O gado está gordo e forte, mas não é financiado e sim emprestado somente para fins de vistoria. O filho do fazendeiro está passando férias na Disney.”.

“Trajeto feito a pé porque não havia animal por perto, só o burro do fazendeiro. Despesa de locomoção grátis.”.

“O contrato está na mesma situação da vistoria anterior, isto é, faltando fazer as cercas que não ficaram prontas.”.

"O mutuário adquiriu aparelhagem para inseminação artificial, mas um dos touros holandeses morreu. Sugerimos treinamento de uma pessoa para tal função.”.

“O tempo castigou a região. O sol acabou com a farinha e a chuva com o feijão. Dá pena e dó à situação.”.

“As garantias permanecem em perfeito estado de abandono. O cliente vive devidamente bêbado e devendo aos bares e a Deus e ao mundo.”.

“A euforbiácea foi substituída pela musácea sem o consentimento e autorização de nosso querido banco.”.

“O ruralista fez curral, estábulo, plantou capim e não comprou o gado. Agora quer arrendar a propriedade.”.

Que pérolas...
 
*Administrador e dicionarista.



Colunas
Com.: 0
Por Kleber Santos
Primeira « Anterior « 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos