06/10
07:56

Guerra de Canudos e Sergipe: indícios de uma relação

Amâncio Cardoso - Professor e pesquisador


Aos Guias de Turismo.


Há 120 anos, no dia 05 de outubro, teve fim uma das mais trágicas guerras civis da história nacional: a Guerra de Canudos. O confronto durou quase um ano e sergipanos participaram tanto do lado dos vencedores - polícia e exército - quanto dos vencidos - seguidores de Antônio Conselheiro ou Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), cearense que fundou no sertão da Bahia, em 1893, um arraial na antiga fazenda Canudos, ou Belo Monte, como ele a denominou.

Conselheiro peregrinou pelos sertões do Nordeste durante 25 anos, arrebanhando adeptos para viverem em seu povoado, sob a orientação de um catolicismo peculiar. O tema, Guerra de Canudos, ainda promove muitas leituras e pesquisas acadêmicas.

Vejamos então algumas marcas da relação de Sergipe com a Guerra de Canudos, materializadas em lugares, monumentos, biografias e instituições cujas informações os guias podem apresentar a visitantes ou turistas.

Comecemos pela praça Siqueira de Menezes. Ela se localiza no bairro Santo Antônio, no alto da Colina, onde geralmente se iniciam passeios turísticos por Aracaju. No centro da praça, há um pedestal com busto do general José Siqueira de Menezes (1852-1931). Nascido em São Cristóvão/SE, ele participou do conflito como engenheiro e então tenente-coronel do Exército. Além disso, Siqueira de Menezes escreveu várias cartas sobre o andamento da guerra para o jornal carioca “O País”, publicadas entre 08 e 26 de setembro de 1897, sob o pseudônimo de “Hoche”.2  A participação do militar sergipano foi imortalizada no “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909), a mais famosa obra sobre o confronto.

 

 
 

Outro espaço que tem direta relação com a grande guerra dos sertões é o rio Vaza-Barris. Esse curso d’água banhava o antigo arraial de Canudos. Em seu leito, corpos mal enterrados, “durante a guerra, desceram até o litoral, na primeira grande enchente, após outubro de 1897”.3

A foz do Vaza-Barris se localiza ao sul de Aracaju, atravessada pela ponte jornalista Joel Silveira, próxima à Orla do Por do Sol, no povoado Mosqueiro, um dos mais aprazíveis atrativos turísticos do estado, a 25 Km do centro da capital.

O terceiro lugar que relaciona Sergipe à Guerra de Canudos é a rua Capitão Salomão, na cidade de Estância, litoral sul do Estado, a 70 Km de Aracaju. Ela é uma das principais vias públicas do município. Nela, encontramos antigos sobrados tombados pelo governo estadual como patrimônios culturais arquitetônicos.

O patrono da rua, o estanciano José Salomão Agostinho da Rocha (1855-1897), liderava a bateria do 2º Regimento de Artilharia, do 7º Batalhão de Infantaria. Numa batalha, em março de 1897, capitão Salomão morreu a golpes de foice desferidos pelos canudenses. Esse episódio foi imortalizado numa página de “Os Sertões”: “O capitão Salomão tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiram-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara”.4

Além dos lugares acima, uma instituição em Aracaju também mantém forte ligação com a Guerra de Canudos: o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). “A Casa de Sergipe”, como é conhecida, foi criada em 1912 com objetivo de zelar pela memória do Estado, coletando documentos, discutindo assuntos culturais e produzindo saber através de sua Revista. Esse periódico contém dois textos que fazem referência a Canudos, escritos pelo professor aracajuano José Calasans Brandão da Silva (1915-2001), o mais importante pesquisador sobre tema Canudos.5  Professor Calasans presidiu o IHGSE entre 1945 e 1947. A partir de 1951 até seu falecimento, dedicou-se ao estudo e revisão da guerra fratricida, como professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Por último, vejamos as igrejas e cemitérios cujas construções, ou reformas, foram atribuídas a Antônio Conselheiro quando peregrinou por Sergipe, em 1874. Essas informações foram levantadas pelo professor José Calasans: Cemitério de Cristinápolis; Igreja de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos, em Tobias Barreto; Igreja e Cemitério do povoado Bonfim (antigo Samba), em Riachão do Dantas, zona onde Conselheiro fez seguidores.6   Essas construções teriam sido obras pias dirigidas pelo Beato de Belo Monte. 

Como vimos, em Sergipe existem vários lugares que nos remetem ao episódio da Guerra de Canudos. Os profissionais que guiam turistas e visitantes, por exemplo, podem estabelecer essa relação inequívoca entre nosso Estado e um dos temas que mais marcaram a Memória e a História do Brasil.

 

1Professor dos cursos de Turismo do IFS-Campus Aracaju e sócio do IHGSE.

2GALVÃO, Walnice Nogueira. No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais, 4ª expedição. São Paulo: Ática, 1974. p. 457-475.

3Informação do pesquisador José Paulino da Silva cedida a FONTES, Oleone Coelho. Sergipe na Guerra de Canudos. Salvador: Ponto & Vírgula, p. 231.

4CUNHA, Euclides da. Salomão da Rocha. In: Os Sertões. 20ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. p. 302.  

5Os textos publicados pelo profº José Calasans na Revista do IHGSE são: “Fávila Nunes: repórter em Canudos. Revista do IHGSE, Aracaju, n. 31, p. 103-112, 1992; e “Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”. Revista do IHGSE. Aracaju, n. 32, p. 97-112, 1999.

6FONTES, Oleone Coelho. Sergipe na Guerra de Canudos. Salvador: Ponto & Vírcula, p. 194.

 

 

 



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Por Eugênio Nascimento
05/10
13:22

Damas de alto valor

Geraldo Duarte*


Rio de Janeiro. Largo da Carioca. Década de cinquenta do século passado. Igual ao hoje, objetos apreendidos pela aduana eram leiloados.

Um pertinaz contrabandista, matreiramente, facilitou que carga de sua propriedade fosse apreendida pela Alfândega. Não pagou os impostos, nem tampouco reclamou a devolução.

Tratava-se de um lote especial, contendo dez mil baralhos luxuosos, de fabricação inglesa.

A mercadoria foi a leilão e conhecida firma da época arrematou-a, a um preço baixíssimo, em relação ao praticado na praça. Irrisórios 10 cruzeiros, moeda vigente naquele tempo, por unidade.

Passados alguns dias, o muambeiro procurou o adquirente e, depois de longas conversas sobre assuntos mercantis outros, passou a comentar acerca do produto adquirido em hasta pública.

Manifestou grande desejo pela compra da totalidade dos jogos de cartas, com pagamento no ato e retirada imediata, desde que a uma quantia justa.

O lojista contente, acreditando conseguir bom lucro, fácil e rápido, de pronto interessou-se e apresentou a oferta de 20 cruzeiros cada.

O ardiloso e fingido comprador meneou a cabeça. Consultou as horas no relógio de algibeira e fez uma contraproposta deveras absurda. “Ofereço a importância de 5 cruzeiros por artigo!”.

Veio o retrucar de forma quase grosseira. “O senhor é louco? Como posso aceitar o seu oferecimento se terei um prejuízo de 50.000 cruzeiros?”.

O espertalhão pediu calma e disse ter nova e, talvez, melhor propositura para o comerciante. “Vendo-lhe 10.000 damas de ouros, ao custo unitário de 10 cruzeiros. Assim, o senhor completa seus baralhos!”.

Damas de alto valor...
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
26/09
07:46

Fenelândia líder

Geraldo Duarte*

1907. Garoto, doze anos de idade, trabalhava diariamente. Pais pobres e seis irmãos careciam desse labor. Com ancoretas, no lombo de jumento, vendia água.

Tempo não houve para a escola. Na cartilha “ABC: Paulina Mastigou Pimenta” iniciou aprendizado. Fez-se autodidata.

Ferroviário, aprendeu o Código Morse e tornou-se telegrafista na Estrada de Ferro Baturité. Depois, instalou armazém de estivas, obtendo êxito.

Ingressou na Loja Maçônica Deus e Liberdade Nº 10, chegando a Venerável. Fundador do Rotary Clube, Escola Técnica de Comércio, Associação Comercial, União Artística, Associação Protetora dos Animais e realizador da Exposição Agropecuária e Industrial citadinos.

Ledor de grandes obras, dominou a língua portuguesa e criou os jornais Gazeta e Tribuna na cidade.

Possuiu indústrias de beneficiamento de algodão e de torrefação de café.

Constituiu e explorou a usina geradora de energia elétrica e de telefonia. Por igual, a Sociedade Anônima de Serviço Telefônico do Crato S.A. – Sertesa. Estas últimas, encampadas pela Teleceará.

Liderou criações de ginásio, colégio e hospital municipal, bem como, as construções dos açudes Orós e Lima Campos e projetos de irrigação.

Também foi possuinte de lojas, padaria, cafeteria e outros estabelecimentos mercantis.

Idealizou, planejou e executou, em terras de sua propriedade, o primeiro Distrito Industrial do Estado, em 1953, doando lote a quem ali se estabelecesse. Denominou-o Fenelândia.
Fenelon Teixeira Lima (1895 – 1978), seu nome. Iguatu, seu torrão natal.

Entre o significado de rio ou água boa, Fenelândia não teria merecimento e expressão maior?
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
20/09
08:01

Casamento e guerra

Geraldo Duarte*

O sargento do exército britânico William Speakman-Pitt ou Bill Speakman, nascido em 21/09/1927, em Altrincham, Cheshire, Inglaterra, é herói inglês e detentor da Victoria Cross Heroes, da Ordem do Mérito Militar e outras elevadas condecorações de batalhas.

Na Coréia, em novembro de 1951, mesmo ferido, comandou seis soldados e utilizando granadas, dizimou uma companhia chinesa completa.

Seus feitos mereceram honrarias prestadas pelo rei George VI e a Cruz da Vitória foi-lhe entregue pela rainha Elizabeth II.

Quase nonagenário, réplicas das comendas e medalhas conquistada estão expostas no Museu da Guerra Nacional da Escócia, no Castelo de Edimburgo, e em Seul, na galeria dos veteranos da Guerra da Coréia.

Hoje, Speakman é pensionista uniformizado do Royal Hospital Chelsea.

Depois deste resumido perfil, o artiguete trata de um fato pouco divulgado.

De volta à pátria, enaltecido grandemente pela mídia, cartazes com fotos e nome afixados como exemplo de civismo e coragem, fizeram-no ídolo nacional.

O temperamento tímido, unido a um comportamento simples e disciplinado, deixou-o atônito ante tantas homenagens, fotografias e microfones. Aonde chegava tornava-se centro das atenções e curiosidade popular.

Nos breves dias de permanência no país, inúmeras foram as manifestações de estimas de jovens conterrâneas. Nada menos de 40 propostas de casamento. Nenhum momento de privacidade possuiu. Aquele sucesso, considerado por outros, lhe era indesejável. Não conseguia tranquilidade e paz - externava.

Buscou sua unidade militar, pediu suspensão de seu direito de licença e retornou ao front.
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
17/09
13:44

Nomes que são. Nomes que deveriam ser

Luiz Eduardo Oliva (*)

O nome, na maioria das vezes, surge de uma imposição. Os apelidos são frutos da espontaneidade, por isso costumam sobrepor-se à imposição.  Localidades, ou recebem o nome por conta de uma tradição, de um fato, de uma história qualquer, ou são “nominadas” por atos oficiais. Mas há nomes que resistem a qualquer “ato” legislativo ou executivo. Estes são os nomes verdadeiros, que caem na boca do povo, e que subsistem até mesmo à sua própria história. Donde ficaria, por exemplo, a Baixa da Égua? Ou a Caixa-Prego? A Baixa da Égua é comumente usada para expressar um local distante, quando se quer reforçar a informação: “É longe, fica lá na Baixa da Égua!”. Seria o mesmo também que dizer “lá, onde o vento faz a curva” ou “onde Judas perdeu as botas”.  Caixa-Prego daria no mesmo se não fosse a existência real de uma praia com esse nome, na Ilha de Itaparica, na Bahia, 

Está-se aqui a referenciar, no entanto, a certos logradouros, ou mesmo símbolos aracajuanos, que persistiram pelo “apelido” que a população lhes deu, ignorando o que é oficial. Aliás, o nome oficial até pega, mas nem sempre é o mais justo. A praia Sarney, por exemplo. Que sentido tem atribuir uma praia tão genuinamente sergipana a um político que mal pisou os pés nas terras Del-Rei? Porque ao acaso do destino caiu-lhe no colo a presidência da fugaz nova república e a bajulação que esse cargo evoca, acabou virando nome de praia, se bem que as pessoas se referem mais aos bares que ali se localizam: o DK1, o Meu Bar, o Paraty... Um bom exemplo da sabedoria popular está na capital de Santa Catarina. Na república velha o alagoano Floriano Peixoto impôs seu nome à Ilha de Nossa Senhora do Desterro sob a alcunha de Florianópolis que seria a “Cidade de Floriano”. Os ilhéus passaram a chamá-la carinhosamente de Floripa e pronto.  É o que ficou. 

É recente a iniciativa do Governo de Sergipe que em boa hora decidiu trocar os nomes de ditadores na época do regime militar por nomes sergipaníssimos, mais adequados à salutar democracia. O Colégio Estadual Costa e Silva, que formou uma belíssima geração, tinha o bom apelido de Costão. O governador Jackson Barreto ao mudar nomes de prédios públicos trocou o do general pelo grande educador João Costa e manteve assim o velho apelido “Costão” que, aliás, já deve ter sido uma forma de não pronunciar o nome do ditador. Veio um nome mais adequado e respeitou-se o apelido: de Costa e Silva para João Costa, o “Costão” permaneceu com a justa homenagem a um dos nossos maiores educadores. 

Assim como foi feito com o inadequado nome de ditadores há logradouros que mereciam, de uma vez por todas, ver revogados os nomes que o formalismo oficial lhes deu. Um deles é a Rua da Frente. Nome mais engenhoso não podia haver. O aracajuano cuidou de por uma frente à sua própria cidade. E viu como frente, aquilo que está de cara com rio, de frente para o mar. Nunca pôs, todavia, em nenhum outro logradouro um nome de “rua de trás”. Por ato oficial o nome é de um general que, no entanto, merece a homenagem: o general Ivo do Prado (Ivo do Prado Pires da Fonseca) que foi  também historiador e escreveu  “A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias”. Ainda assim os aracajuanos chamam muito mais de “Rua da Frente”. 

Sabe-se lá porque chamam uma pequenina praça em forma de  “V” de “Mini Golfe”. Ali, oficialmente, homenageia-se a Getúlio Vargas.   Às favas, com o velho ditador! O que vingou mesmo foi o momento maior daquele logradouro que hoje abriga a sede da OAB no antigo palacete dos Rollemberg. Nos anos 70 do século passado um gaúcho novidadeiro (por ironia um conterrâneo de Getúlio) trouxe para Aracaju uma inovação: montou um bar e uma estrutura para se jogar o golfe, em pequenas canaletas utilizando tacos oficiais. ‘You Don’t Know Me’ de Caetano Veloso era uma das músicas que fazia o fundo musical. E o Minigolfe fez-se o “point” daqueles tempos. Mas, como todo point,  saiu de moda. O bar fechou, as canaletas foram cobertos para dar lugar à praça que depois foi transformada com a chegada da OAB, mas o nome resistiu ao passar dos tempos. Se perguntarem “Onde fica a OAB?” a resposta vem na bucha: “na pracinha do Minigolfe!”. E a maioria nem sabe o porquê do apelido. 

E a “Explosão” quem não sabe onde fica? Se alguém se refere à “Edézio Vieira de Melo”, logo em seguida há de completar com o nome que melhor lhe indica: a Avenida da Explosão. É que nos anos 80 um bombeiro guardava, parece que em baixo de seu colchão, um depósito de fogos. Aracaju teve o seu dia de Oriente Médio. Numa madrugada um estrondo acordou a cidade. E, veja a ironia, a casa do bombeiro explodiu. Foi pelos ares por assim dizer, atingindo janelas e vidraças num raio de uns três quilômetros.  O choque do acontecimento marcou aquele logradouro. Continua “Edézio” nos mapas GPS, no Google, mas na boca do povo o que vale é “Avenida da Explosão”. 

O Edifício Estado de Sergipe, alguém sabe onde fica? Mas quem não sabe dizer, na bucha, onde se situa o Edifício Maria Feliciana? Quando, em seus sonhos megalomaníacos, o então governador Lourival Baptista, no final dos anos 60, construiu aquele que era para ser o maior edifício do Nordeste, curiosamente deu-lhe o nome do menor Estado do Brasil. E a população, em fina ironia, cuidou logo de homenagear aquela que naquela época era considerada a mais alta mulher do mundo, chegando a treinar para jogar basquete e depois foi ser artista circense. Até hoje Maria Feliciana é a referência popular para o nosso maior edifício, ainda que a placa oficial insista em dizer o contrário. Eis aí uma boa sugestão a um deputado: encaminhar a assembleia um projeto de lei tornando de uma vez por todas o nome do Maria Feliciana de Maria Feliciana! E homenagearia ainda em vida a artista. Como nos demais casos prevaleceu a sabedoria popular. Portanto, nomes que são nem sempre são os nomes que deveriam ser. Nos mais variados sentidos. 


(*) Luiz Eduardo Oliva, é advogado, poeta e professor. É ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania.


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Por Kleber Santos
13/09
22:33

Palitômetro

Geraldo Duarte*

Dezembro de 1960. Ingressávamos no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR/10) do Exército. Curso de Infantaria. 

Dois anos de instruções em aulas teóricas, práticas e treinamentos técnico-militares especializados, para formar o oficialato reservista nacional. Ensino didático e metodológico objetivo e comparável ao universitário civil. O quartel-escola situava-se na Avenida Bezerra de Menezes, hoje instalações da SSPDS.

Nossa turma, de cinquenta jovens, recebeu o tradicional trote. Alunos antigos, desejosos do tratamento de “Aspirante”, posto ainda futuro, divertiam-se nas gozações. Por vezes, nós calouros ou “bichos”, mudávamos a troça, invertendo o gozo.

Imobilizar-se qual estátua, imitar animais e pessoas, chorar, rir, aplaudir ou vaiar narrações faziam-se pândegas.

Segurando um palito de fósforo, indagando o que era e obtendo resposta certa, o veterano retrucava: “Não, bicho! Isto é um preciso instrumento de medição denominado ‘Palitômetro’! Segure cuidadosamente o aparelho e meça, em palitos quadrados, a exata área deste pátio!”. A vagareza na ação livrava-nos de piores logros.

Relembrança fez-se curiosice, busca da origem da chacota e a descoberta.

Começou também como trote. Século XVIII. Universidade de Coimbra. Teve nome de “Palito Métrico”, nominando, em 1746, a obra burlesca de António Duarte Serrão, pseudônimo do padre João da Silva Rebello (1710-1790), doutor em Teologia e Cânones.

Contadas onze edições de sarcasmos e o “Dura praxis, sed praxis”, inseriu-se noutra obra maior, a “Macarronea Latino-Portugueza”. Memora o “Dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex”.

*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
10/09
16:29

A Bíblia

Dom João José Costa
Arcebispo Metropolitano de Aracaju

Como os leitores já o sabem, setembro é o mês dedicado à Bíblia, que é a Sagrada Escritura, ou seja, o conjunto de livros do Antigo e do Novo Testamento, que contém as doutrinas que orientam a vida dos cristãos. Para lhes falar, caríssimos leitores, neste fim de semana, sobre a Bíblia, fizemos uma ligeira pesquisa. A palavra vem do grego “biblion”, que significa “livro”. A palavra Testamento (em hebraico “berith”) significa aliança, contrato, pacto. Tem-se preferido, neste caso, usar a palavra aliança. É a aliança feita por Deus com o povo por Ele escolhido. No passado, o povo hebreu. A partir de Jesus Cristo, o Messias, o nosso Salvador, somos todos nós os escolhidos. Para todos Deus enviou o Seu Filho Unigênito, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). 

O Antigo Testamento é a chamada Bíblia hebraica. Ali estão as profecias da vinda de Jesus Cristo. A Bíblia hebraica era conhecida em duas formas pelos cristãos antigos: a original em hebraico e a tradução grega conhecida como Septuaginta.

A Septuaginta, em latim, abreviada LXX, é uma tradução em língua grega da Bíblia hebraica, o Antigo Testamento, que a tradição afirma ter sido feita no Egito por 72 sábios, cerca de dois séculos, ou quase três, antes de Cristo, exatamente em Alexandria, onde existia uma significativa comunidade hebraica. 

Há quem diga, porém, que a tradução foi feita por apenas 5 sábios, ao invés de 70 ou 72. Setenta era, na verdade, o número dos membros do Sinédrio, que aprovou a tradução. De qualquer forma, mesmo sendo difícil comprovar a verdade histórica dessa tradução, não há dúvida que a mesma foi realizada no Egito e era tida como uma boa versão também pelas autoridades religiosas de Jerusalém. Provavelmente, a obra foi feita para que a comunidade judaica no Egito, que falava grego, pudesse ter um texto próprio para usar durante a sua liturgia. É de lembrar que tempo houve em que a língua erudita em certas partes do mundo civilizado de então era o grego. 
No início da era cristã os judeus deixaram de usar a tradução grega da Bíblia. Para os cristãos, ao invés disso, a LXX se tornou a versão principal. Mais tarde, quando São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, a chamada Vulgata, usou, sobretudo, a LXX. Tinha em mãos também o hebraico, que lhe servia apenas como um instrumento para confronto.  

Por conta da versão LXX surgiram as diferenças entre a Bíblia católica e a protestante. Isto por que no texto grego sobre o qual estamos falando existem livros que não aparecem na Bíblia hebraica. Como foi dito, a Bíblia dos Setenta foi traduzida antes de Cristo, ao passo que a lista oficial dos livros da Bíblia hebraica foi definida somente por volta do ano 90 depois de Cristo. Os livros que estão na Bíblia grega dos LXX e que não entraram na hebraica são: Judite, Tobias, Primeiro e Segundo Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. Além disso, os capítulos 13 e 14 de Daniel. Embora não tenham sido considerados pelos judeus como livros inspirados, pois se diz que não foram escritos dentro de Israel, mas, sim, fora daquele país, mas, sabidamente, como se considera, foram escritos por judeus da diáspora (que estavam vivendo fora de Israel), a Igreja os reconheceu como tal e foram incluídos por São Jerônimo na sua tradução em latim como mencionamos acima. 

A versão dos Setenta, todavia, contém também livros que não entraram nem no cânon da Igreja nem no cânon dos judeus. São eles: primeiro livro de Esdras, terceiro e quarto livro dos Macabeus, o salmo 151, odes e oração de Manassés e Salmos de Salomão. Martinho Lutero, durante o período da reforma protestante, decidiu adotar o cânon hebraico. Desse modo ele excluiu da sua Bíblia os livros acima citados e hoje as bíblias protestantes não têm tais livros.

A Bíblia foi escrita em três línguas: hebraico, aramaico e grego. O Antigo Testamento foi escrito majoritariamente em hebraico e algumas poucas partes em aramaico, enquanto o Novo Testamento foi escrito em grego.

O Antigo Testamento é composto pelo Pentateuco, Livros Históricos, Livros Poéticos e Livros Proféticos. O Novo Testamento é formado pelos Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Cartas e o Apocalipse. 

A Bíblia Sagrada é o livro mais vendido de todos os tempos e já foi traduzida para mais de 2.000 idiomas, entre línguas e dialetos. Ela foi escrita em um período de aproximadamente 1600 anos. O livro de Gêneses foi escrito por volta de 1445 AC e o Apocalipse por volta de 90 a 96 DC. 

Na Segunda Carta a Timóteo, diz o apóstolo Paulo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2 Tm 3,16).  

A Bíblia é, sim, a Palavra de Deus, comunicada aos fiéis. Já se disse que é a vontade de Deus escrita para a humanidade. E é assim que entendemos.

Busquemos conhecer mais a Palavra de Deus, pedindo a inspiração do Espírito Santo para compreendê-la e praticá-la em nossas vidas. 

Deus abençoe a todos. 


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Por Kleber Santos
08/09
10:55

Os generais Bush, Trump, Kim e os filhotes da violência

CEZAR BRITTO – EX PRESIDENTE DO CONSELHO FEDERAL DA oab

Quando da invasão estadunidense ao Iraque escrevi aquela época que o maior legado que o general Bush deixaria para a história seria a sua obsessiva ideia de solucionar o conflito mundial através da violência de uma guerra. O general não enxergava, por exemplo, qualquer contradição em invadir o Iraque para exigir o cumprimento de Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que apoiava Israel no seu assumido desrespeito à própria ONU, quando manteve a insana política de massacrar palestinos e de praticar o terrorismo estatal. Não enxergava qualquer ironia no fato de possuir o maior armazém de armas químicas e de destruição em massa da história, mas querer justificar uma guerra porque aquele pequeno e pobre país supostamente possuía um “titica” dessas mesmas armas, outrora fornecidas pelos próprios estadunidenses, quando o inimigo morava no vizinho Irã.

Naquela época de nefasta memória, registrei a hipocrisia do império que sempre apoiou e ainda apoia ditaduras em todo o mundo, inclusive estimulando golpes de Estado, ter retirado o apoio ao seu ex-aliado Saddam Hussein, alegando que, repentinamente, deixara de ser um “bom mocinho”. Pouco importava se as pessoas se convenceram de suas proposições, o que apenas lhe interessava era fazer valer a sua ditatorial vontade, a sua incontrolável arrogância e o seu compromisso com o desenfreado lucro das indústrias bélicas. O tempo mostrou que os seus críticos estavam corretos, bem assim que a sua violência somente serviu para desestabilizar a região, provocando guerras civis, terrorismo em larga escala, genocídios generalizados, países destruídos e multidões de imigrantes vagando sem a esperança de um dia pousar em um porto seguro.

https://t.dynad.net/pc/?dc=5550003220;ord=1504964672974https://t.dynad.net/pc/?dc=5550003219;ord=1504964676812

Os recentes e gravíssimos pronunciamentos dos generais Trump e Kim mostram que ambos foram reprovados em todas as disciplinas que falavam de paz, de humanismo, de amor à vida e de respeito às diferenças entre os povos. Não estudaram as consequências das recentes Guerras do Golfo sobre o planeta e as pessoas, tampouco das guerras mundiais, do Vietnã, da Coréia, Afeganistão e das incontáveis tragédias militarizadas que apenas geraram as mortes de milhões de pessoas, holocaustos, países desfigurados e histórias desaparecidas. Certamente esqueceram do crime contra a humanidade praticado nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, quando os EUA utilizaram, pela primeira vez na história da humanidade, bombasatômicas, sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

No velho estilo Calígula, quando humilhou Roma nomeando seu cavalo Incitatus Cônsul de Roma, os generais Trump e Kim fazem do mundo uma insignificante baia, a abrigar garbosamente suas selas, suas ferraduras, suas esporas e seus domesticados animais. E cada um, como qualquer imperador que acredita ser possuidor do privilegiado e sacro dom da infalibilidade, criando a sua própria cruzada santa, uma guerra contra o eixo do mal ou mesmo uma guerra contra o terror. Não sem ambos, apenas em sotaques e vocábulos diferentes, dizem que as fardas estadunidenses ou norte-coreanas são superiores, impiedosas e indestrutíveis, ou, como dizem em propagandas nacionalistas e twiters incendiários, “quem não está com eles está contra eles”. E nós – os eles nesta história que não promete um final feliz – seguindo a vida sem olhar para o céu atômico ou misseis de hidrogênio que se gabam do poder de destruir toda a humanidade. Diante deles, lembro sempre a certeira frase de La Rochefoucauld: Ninguém deve ser elogiado pela sua bondade quando não tem forças para ser mau.

Trump no avião presidencial, o Air Force One

O pior para a humanidade é que diariamente nascem, dentre outros, vários filhotes e seguidores das ideias de Baby Doc, Batista, Franco, Herodes, Hitler, Idi Amin, Médici, Mussolini, Milosevic, Nero, Pasha, Pinochet e Pol Pot na vida pública, sempre posando de bonzinhos e defensores de valores elevados, até que se revelem no momento em que adquirem o poder, ocasião em que assumem a prepotência e a violência que sempre esconderam. Aliás, todos eles eleitos, idolatrados e seguidos por pessoas que, igualmente disfarçados, têm uma sádica tara pela violência e consideram saudável a superioridade racial, econômica e social. Eles estão, em abundância preocupante, nos governos, nos parlamentos, nas ruas, nos ônibus, nos lares, nas redes sociais e em todas as conversas que fazem da violência o maior de seus argumentos. E é assim que eles, filhotes de ditadores, vencem e derrotam a humanidade, pois, como advertiu Sartre: A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.



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