28/05
13:47

A vergonha de ser Honesto

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Dia 1° de fevereiro de 1992. Naquela data, estava assumindo pela segunda vez o cargo de presidente da OAB-SE. No auditório do Centro de Interesse Comunitário, proferi um discurso que, pela sua atualidade, permito-me transcrevê-lo em parte. Após mostrar o aprofundamento da crise social que arrasava o país, com milhões de menores abandonados, com a violência urbana aterrorizante, com o sucateamento da educação pública, da saúde e dos bolsões de miséria que cada vez mais aumentavam, disse: Tem que ser um compromisso de cada um de nós reverter esse quadro assustador que assola o país. O nosso comportamento, portanto, passa pela cobrança às autoridades constituídas de que somente podemos admitir, na gestão da coisa pública, o respeito aos princípios constitucionais da legalidade, moralidade, publicidade e da impessoalidade, e que o Estado esteja voltado para a consecução do seu objetivo maior, o bem de todos, indiscriminadamente, através da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, da garantia do desenvolvimento nacional, da erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais. A corrupção não pode continuar sendo a regra e a decência a exceção, quadro que contribui com a desigualdade social e envereda para o caminho da violência urbana, onde cada um de nós pode ser a próxima vítima. A decência, portanto, é que deve ser a regra e a corrupção a exceção. Há 25 anos, como se observa, o quadro era parecido com os dias atuais. Lamentavelmente, a corrupção continuou, no Brasil, como regra. A decência, por sua vez, continuou sendo a exceção. A cada dia que passa, descobrem-se novos escândalos que sempre têm como vítima o erário ou o povo, este o principal responsável pela manutenção do sistema através dos seus impostos. E o interessante é que a própria sociedade também dá a sua contribuição ao processo corruptivo quando busca privilégios à custa do dinheiro público.

Há um pacto de mediocridade firmado entre os diversos atores sociais, sejam de origem pública ou privada. Agentes públicos servem de despachantes para os interesses privados que, por seu turno, engordam as contas particulares daqueles servidores em ilhas fiscais espalhadas pelo mundo. Com a Operação Lava Jato, um segmento empresarial que sempre desfilou à margem dos grandes escândalos começa a ser desmascarado: as empreiteiras. A sua participação na corrupção não é coisa nova em nosso país. O jornalista Samuel Wainer, na sua obra autobiográfica Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter, já alertava a sociedade brasileira sobre a promiscuidade existente entre as construtoras e o poder público: Nos anos 50, os barões do café foram substituídos pelos grandes empreiteiros. (...) Com a cumplicidade da imprensa, seria sempre mais fácil, também, receber do governo – um mau pagador crônico – o dinheiro a que tinham direito pelas obras executadas. Feitas tais constatações, logo se forjaram sociedades semiclandestinas bastante rentáveis. (...) O esquema era simples. Quando se anunciava alguma obra pública, o que valia não era a concorrência. Todas as concorrências vinham com cartas marcadas, funcionavam como mera fachada. Valiam, isto sim, entendimentos prévios entre o governo e os empreiteiros, dos quais saía o nome da empresa que deveria ser contemplada na concorrência. Feito o acerto, os próprios empreiteiros forjavam a proposta que deveria ser apresentada pelo escolhido. Era sempre uma boa proposta. Os demais apresentavam propostas cujas cifras estavam muito acima do desejável, e tudo chegava a bom termo. Naturalmente, as empresas beneficiadas retribuíam a boa vontade do governo com generosas doações, sempre clandestinas. Apesar de ainda engatinhar no processo de criação de mecanismos que tenham como objetivo frear a corrupção dessas atividades empresariais, o Brasil, através das suas instituições de controle, tem buscado mudar esse quadro.

Nos EUA, desde 1977, há uma legislação dura, o chamado FCPA – Foreign Corrupt Practices Act, onde se tenta moralizar as práticas comerciais das empresas norte-americanas. A grande constatação foi a de que a debilidade das fiscalizações por parte das instituições de controle era a grande responsável pelo aumento das práticas de atos ilícitos. O FCPA começou a atuar e grandes empresas americanas e multinacionais foram punidas severamente pela prática de corrupção desenfreada dentro dos EUA e em outros países. Alguns casos são emblemáticos. Foi descoberto, por exemplo, que a poderosa Siemens mantinha uma “contabilidade paralela”, com a qual se pagava, em vários países, subornos de bilhões de dólares para obtenção de benefícios para a empresa. A partir do momento em que a Siemens passou a ter ações na Bolsa de Nova York, automaticamente ficou subordinada à legislação americana. Daí veio o processo e a decisão, onde a empresa alemã teve que pagar uma multa de 395 milhões de euros ao Ministério Público de Munique, uma multa de 450 milhões de dólares ao Departamento de Justiça (DOJ) e um confisco de 350 milhões de dólares dos seus lucros à SEC – Securities and Exchange Comission, ambos dos EUA. Uma curiosidade é que o direito federal norte-americano prevê, nas chamadas Sentencing Guidelines, duas atenuantes para a criminalidade corporativa: uma, é o “confessar” e “cooperar” com as investigações levadas a efeito pelas autoridades; outra, é a de ter programa de compliance no momento em que foram praticados os fatos delituosos, ou seja, um conjunto de regras estabelecidas no âmbito interno das empresas para prevenir o cometimento de ilícitos ligados à corrupção. A Johnnie Walker, assim como outras empresas, foi incursa no FCPA pelo pagamento de altas propinas a funcionários dos governos da Índia, Tailândia e Coréia do Sul, através das suas subsidiárias, para obter vantagens lucrativas. O resultado é que teve de pagar mais de 16 milhões de dólares em multas. 

No Brasil, a legislação anticorrupção vem cada vez mais se aprimorando, combinada com a vontade de uma militância briosa e combatente de jovens juízes, promotores de Justiça, Delegados das Polícias Federal e Estaduais e procuradores da República. No direito brasileiro, as estratégias de prevenção e repressão da criminalidade empresarial têm sido incrementadas a partir do avanço das legislações sobre a matéria, algumas permitindo atenuações de penas e até mesmo extinção da punibilidade ou perdão judicial, quando ocorrer colaboração premiada. Se a corrupção utiliza-se de elementos cada vez mais sofisticados na consecução dos seus fins ilícitos, é natural que a sociedade procure também utilizar-se de mecanismos modernos e cada vez mais ágeis em defesa do erário. No caso da Operação Lava Jato, a sua atuação tem contribuído para a descoberta de um dos maiores escândalos de corrupção da história do país, envolvendo empreiteiras, servidores de alto escalão da Petrobrás e políticos. E o grande mérito desse momento histórico que vive o país é, justamente, o fato de a justiça criminal brasileira, como bem diz o professor Luiz Flávio Gomes, sair do modelo conflitivo para entrar no modelo consensual. E o uso da Teoria dos Jogos é o instrumento capaz de incentivar a delação, pois quem assim o faz tem muito a ganhar. E ganha também a sociedade e o erário com a possibilidade de punições e de ressarcimento das quantias desviadas. Os instrumentos que estão revolucionando a justiça criminal brasileira estão principalmente em duas legislações: a Lei n° 12.850, de 2013, que define organização criminosa e dispõe sobre a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal; e a Lei n° 9.807, de 1999, que estabelece normas para a organização e a manutenção de programas especiais de proteção a vítimas, a testemunhas ameaçadas, e a acusados ou condenados que tenham voluntariamente prestado efetiva colaboração. 

Abro um parêntese: Há 128 anos, em 1889, com a implantação da República, Dom Pedro II era obrigado a deixar o Brasil. Ele imperou de 1841 a 1889, exatos 48 anos. Nesse período, jamais permitiu que aumentassem o seu salário. Era com este dinheiro que sustentava a si próprio e à sua família e dava-se ao luxo de pagar os estudos de brasileiros no exterior, como o músico Carlos Gomes e o pintor Pedro Américo. Com recursos próprios financiou as suas viagens oficiais aos EUA, Europa e Oriente Médio, com comitivas de apenas quatro ou cinco pessoas. Numa nova viagem a esses países, teve que tomar dinheiro emprestado. Era um gestor austero. Em vez de criar impostos, cortava despesas. Seu palácio imperial, em São Cristóvão, era tido como o mais desmobiliado do planeta. Seus trajes oficiais eram puídos de fazer dó. Ao ser deposto pelos militares e ter de ir embora em 24 horas, Dom Pedro II recusou o dinheiro que o governo da República lhe ofereceu para seu exílio em Paris. E ainda passou uma descompostura nos militares por estarem dispondo de recursos que não lhes pertenciam, mas ao povo brasileiro. Poucos dos sucessores republicanos de Dom Pedro II seguiram o seu exemplo de austeridade. Prevaleceu na República a ideia de que a coisa pública, por ser de todos, não é de ninguém. Oxalá que esse momento histórico sirva para reverter o quadro de indecência que vive o país. E que os componentes da honestidade, como conceituado por Cícero, se insiram em todos os brasileiros, mormente os administradores públicos, eleitos ou concursados: sabedoria, magnanimidade, justiça e decoro. Rui, em discurso no Senado Federal, disse que De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. Esse é o nosso grande desafio, fazer da decência a regra. (Republicado, a pedido).

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
30/04
15:28

O Segredo de Brokeback Mountain

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Hasan é iraquiano. Está com 30 anos. É gay assumido e vive em Bagdá. Mora isolado em sua casa com medo de ser mais uma vítima do insano e criminoso comportamento das autoridades daquele país. Vários de seus amigos, inclusive aqueles ligados à cultura “emo”, cuja maior representação é a música americana “emotional hardcore” (onde os seus adeptos usam quase sempre cabelos compridos e calças jeans justas com as cuecas à mostra), têm sido perseguidos e assassinados pela polícia e grupos paramilitares. O terrorismo contra os homossexuais iraquianos chegou ao ponto de um pai, ao descobrir a relação do seu filho com outro homem, matá-lo com um tiro na cabeça. E tudo isso se deve à insensatez do governo iraquiano que, ao invés de combater o massacre dessas minorias, incita a violência. O Ministério do Interior do Iraque chegou ao cúmulo de veicular um comunicado, anos atrás, afirmando que os “emos” são “adoradores do demônio”, estimulando, desse modo, a polícia a “eliminar” esses jovens. O anúncio foi retirado do ar, no entanto o texto influenciou o aparecimento de vários corpos pelas cidades. 

O ódio homofóbico não é um sentimento somente do Iraque, mas do mundo inteiro. No ano de 2011, um relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia revelava que 140 gays, 110 travestis e 10 lésbicas foram assassinadas no Brasil no ano de 2010. Por faixa etária, 46% das vítimas tinha menos de 30 anos. A mais jovem tinha tão somente 14 anos; era um travesti, morto com 14 tiros em Maceió. A mais velha tinha 78 anos; era um aposentado, que foi morto com golpes de facão na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Desses homossexuais, 43% foram assassinados a tiros; 27% morreram com golpes de faca; 18% foram apedrejados ou espancados e 12% sufocados ou enforcados. Ainda no ano de 2011, a polícia civil do Estado de São Paulo identificou 200 integrantes de grupos extremistas, conhecidos como “skinheads”, entre 16 e 28 anos, que foram investigados por “crimes de ódio”, praticados contra gays e negros. Esses jovens estão sempre usando coturnos com biqueiras de aço ou tênis de cano alto, jeans e camisetas coladas ao peito. Cultuam o líder nazista austríaco Adolf Hitler e se cumprimentam com o grito “Heil Hitler”.

Consoante dados da ONU, em mais de 70 países leis criminalizam o homossexualismo, expondo milhões ao risco de detenção, prisão e, em alguns casos, execução. É lamentável! Essas normas anormais, a rigor, violam um dos princípios fundamentais que regem a nossa crença na dignidade e no valor de cada pessoa, sem distinções com base em raça, cor, sexo, idioma, religião, propriedade, nascimento ou outras quaisquer. Havendo o consentimento, toda forma de amor é válida. A história está cheia de exemplos de relacionamentos homoafetivos, como a de Gertrude Stein e Alice B. Toklas. Stein era formada em psicologia pela Radcliffe College. Viveu em Paris, onde chegou no início do século XX, e se tornou uma espécie de abelha rainha naquela época efervescente da capital francesa. Uma leva de artistas, ainda no início de carreira, fez da cidade o seu lar. Foi ela quem rotulou todos eles como a “geração perdida”. A sua obra mais importante é “A autobiografia de Alice B. Toklas”, sua amante, lançada em Paris em 1933, livro que a celebrizou na literatura norte-americana nos primeiros cinquenta anos do século XX.   

Ali, ela penetra nos ambientes parisienses na fase anterior à segunda Guerra Mundial, “onde reinavam a flexibilização dos costumes e a radicalização das ideias”. Influenciou toda essa geração de intelectuais, que passou por Paris a partir de 1903. Outra grande pioneira nessa época foi a poetisa e dramaturga Natalie Clifford Barney, uma ricaça de Ohio que foi a Paris para estudar. Depois de Eugene Stein, tornou-se a segunda mulher mais badalada daquele mundo cultural, recebendo em sua casa intelectuais da envergadura de Marcel Proust, Apollinaire, André Gide, James Joyce, Sherwood Anderson e T. S. Eliot. Suas orgias com mulheres foram cantadas e decantadas tal qual um mantra da época. Federico Garcia Lorca é um dos maiores poetas de língua espanhola. Na madrugada de 18 ou 19 de agosto de 1936, aos 38 anos, foi fuzilado a mando da ditadura franquista em plena guerra civil espanhola. Lorca era então odiado pelo seu entusiasmo na luta pela República. A sua condição de homossexual foi explorada pela direita espanhola como responsável pela sua morte, versão repelida pela história.

Como homem das letras, travou relações com as mais importantes figuras vanguardistas do seu tempo, como o pintor Salvador Dali, com quem mantivera um romance sempre negado por este, que chegou a afirmar que Lorca era pederasta, como se sabe, y estaba locamente enamorado de mi. Trató dos veces de ... lo que me perturbó muchisimo, porque yo no era pederasta y no estaba dispuesto a ceder. O sea que no passo nada. Todos os biógrafos de Lorca e do próprio Dali, contudo, colocam em dúvida a veracidade dessas afirmativas. Há uma extensa correspondência entre ambos, onde se verificam vários trechos insinuantes, os quais demonstrariam o amor existente entre eles. Há, a propósito, um poema esparso de Lorca, que é dedicado a Salvador Dali, com o título “Ode a Salvador Dali”. Ainda no mundo cultural, um grande romance, embora conturbado, foi vivido pelos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Os defensores do primeiro alegam que ele nunca fora homossexual; o segundo, sim! A realidade é que essa relação chegou ao ponto de, após uma briga que tiveram em Londres, Verlaine ir embora para Bruxelas. 

Quatro dias depois, Rimbaud chegou a Bruxelas e, após nova briga, Verlaine deu um tiro no seu amante, que foi hospitalizado para extração do projétil. No julgamento de Verlaine, sob juramento, ambos negaram qualquer ligação homossexual, o que, segundo Verlaine, seria uma invenção de sua mulher para lhe prejudicar. Logo após a morte de Rimbaud, aos 45 anos de idade, em 1895, Paul Verlaine escreveu um texto, que denominou “Novas notas sobre Arthur Rimbaud”, onde elogiou o seu talento e festejou a amizade vivenciada entre ambos. Culminou com um poema, dedicado ao seu amante: A Arthur Rimbaud -  Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud, teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio; tu, que um bobo escritor um dia esculhambou, te achando um debochado imberbe, um verme, boêmio. As espirais de incenso e os acordes do alaúde saúdam tua chegada ao templo da memória, onde teu nome esplêndido soará em glória, pois me amava, se preciso, até a plenitude. Serás para as mulheres, sempre, belo e forte, de uma beleza assim, agreste e sedutora, tão cobiçada quanto desvanecedora. 

Concluindo, Verlaine arrematou: E a história te erguerá triunfante da morte, para que, apesar de toda a lama, o mundo veja teus pés intactos sobre a cabeça da inveja. É... Furtando as palavras de Verlaine, o problema está aí, na lama que jogam no amor homossexual para torná-lo sujo quando, com efeito, todo amor se faz limpo, exatamente porque é amor. Essa lama tem matado no Iraque. Tem matado no Brasil. Tem tornado limpos skinheads, manchados com o sangue de quem apenas queria amar. Penso, por conseguinte, que, se a sociedade respeitasse a diversidade do amor, vendo nele uma forma de contemplação sublime, superaríamos o vilipêndio dos assassinatos covardes e construiríamos um mundo único, homogêneo, leve e igual, pelo respeito divino às diferenças.


Post Scriptum
Madonna
A rainha das ruas de Ará

Ele perambulava pelas ruas de Aracaju, vivendo de pequenos biscates e da boa vontade das pessoas. Homossexual assumido, defendia, com unhas e dentes, a sua opção sexual. Bom de briga e no uso da faca, esteve várias vezes preso pela prática do crime de lesão corporal, pois não admitia atos homofóbicos contra ele. Por duas vezes o tirei da prisão. Ninguém o conhecia pelo seu nome de batismo, Amós Lima Chagas, mas pelo seu apelido: Madonna, um dos tipos mais populares e conhecidos de Aracaju. Era uma pessoa prestativa e muito solidária com quem ela gostava. Eu, particularmente, adorava o seu senso de humor. Lembro-me que certa vez estava conversando com um amigo comerciante da Rua 24 horas, num estacionamento da Rua Laranjeiras, esquina da Rua Capela. Repentinamente chega Madonna e fala para este meu amigo: - Gordinho gostoso! Vim buscar a minha mesada! Irritado com a petulância, ele retrucou: - Não tem mesada porra nenhuma, me respeite viado safado! Madonna botou as mãos nos quartos e foi logo replicando: - Ah, é?!  Agora sou viado safado?! Quando você me comia eu não era! Pois vou espalhar na Rua 24 horas que você me botava pra lhe chupar dentro da loja! Foi um Deus nos acuda para o meu amigo, que espavorido disse: - Não! Não! Por favor, tome aqui 20 reais. Mas houve um momento histórico na vida de Madonna. O casal Marivaldo e Jandira, proprietários de uma gráfica no centro da cidade, gostava muito dele e resolveu mudar a sua vida. Depois de muitos conselhos e ponderações, conseguiu persuadi-lo a dar uma reviravolta no seu dia-a-dia. Aquilo, para o casal, não era vida de gente. E não é que o quadro mudou completamente para Madonna? Com carteira assinada, calça comprida e camisa social, todos os dias ele chegava e saía religiosamente no horário comercial da gráfica. Ajudava na oficina, limpava as máquinas, fazia pagamentos bancários. Era um autêntico “faz-tudo” no seu emprego. Abandonou os trejeitos femininos, deixou a droga e até estava mais tolerante com os moleques que mexiam com ele, engolindo vários tipos de sapos. Estavam todos admirados. Seus vizinhos do Bairro Industrial estavam atônitos com a mudança radical operada em sua vida. Estava até almoçando em restaurantes. O Bar da Finha, na Rua Laranjeiras, era o preferido nas sextas-feiras por causa da feijoada. Mas três meses depois, talvez pelos maus tratos e preconceitos dos transeuntes, Madonna causou o maior furor na Rua Laranjeiras. Tirou a gravata, rasgou a camisa, despiu-se da calça, meia e sapato e saiu de cuecas aos gritos lancinantes: - Chega! Não quero mais ser homem! Nasci para ser mulher! E correu em direção ao calçadão da Rua João Pessoa. Bem disse Araripe Coutinho numa crônica para Madonna: Não mais corre atrás de ninguém, não mais grita, não mais rouba, nem se arruma de salto alto, nem pede roupa velha aos travestis, nem mais dorme sobre o colchão de pregos, nem mais ilumina o bairro Industrial, nem mais chora, nem mais eu, nem mais nada. Na madrugada de uma sexta-feira, ano de 2012, ele foi encontrado totalmente ensanguentado atingido por golpes de paralelepípedos no centro de Aracaju. Quatro dias depois morreria de traumatismo craniano.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
16/04
11:09

Ao Vencedor, as Batatas

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

A guerra, que coisa intrigante! Uns morrem nela, outros vivem dela! O escandaloso, contudo, é que, no fim, tudo acaba em paz. Se por rendição ou eliminação de quem perde, não importa. Relevante é que a guerra não dura para sempre, pelo menos quando é travada literalmente no campo de batalha. Ali onde ela se concebe enquanto embate político, porém, pode até perpetuar-se. Nesse ponto, deve-se concordar com Churchill. “Política e guerra são igualmente excitantes e perigosas. Acontece que, na guerra, morremos uma única vez, enquanto que, na política, morremos inúmeras”, ensinava o estadista. Com efeito, esse é o inevitável problema da batalha política: saber morrer. Churchill soube, ainda quando foi vítima de uma medonha injustiça. Isso, a rigor, é o que notavelmente distingue os fracos dos fortes. Estes aceitam a derrota, mesmo que injusta; aqueles não a querem, mesmo quando a merecem. Não fosse Churchill, ao invés de o estandarte de uma democracia, a suástica teria sido fincada na lua em 1969. Ou antes. Ou nunca. Mas a terra certamente vestiria uma suástica. Todavia, Churchill venceu a guerra. Pegou o bonde andando em 1940, quando sucedeu Chamberlain, em cujas mãos a Grã-Bretanha e o mundo corriam o risco de soçobrar. Após iniciais baixas, a Inglaterra, pela habilidosa batuta de Churchill, trouxe os EUA para o front. Pois bem. Com a derrota da Alemanha em 1945, o planeta retomou seu curso normal e Churchill, vitorioso, candidatou-se à recondução como premiê, na certeza de que o parlamento inglês reconheceria sua grandeza e o elegeria novamente. Coisa nenhuma. Sobreviveu à grande guerra, mas morreu (temporariamente) na política, perdendo o pleito para o trabalhista Clemente Attlee. O que fez Churchill? Xingou Attlee? Fez oposição radical? Não! Digeriu a derrota e recolheu-se.
 
Resultado? Churchill concentrou-se na conclusão de sua monumental obra (Memórias da 2ª Guerra Mundial), que lhe renderia o Nobel de literatura em 1953. Em suma, como soube perder, Churchill também saiu vencedor. Tanto que, em 1951, já com 76 anos, Churchill retomou o cargo de primeiro-ministro. É assim que as coisas funcionam na política. Morrem-se inúmeras vezes, mas também se ressuscita diversas outras, salvo quando a estupidez não autoriza. Estúpidos não sabem sequer administrar vitórias. Se, ao invés de ter sido o maior guerreiro de todos os tempos, Alexandre, o Grande, fosse um estúpido, a batalha de Issus poderia ter tomado itinerário diverso. Após derrotar Dario III, em 333 a.C., Alexandre, cujo exército capturara entes queridos do derrotado, deu-lhes tratamento não de reféns, mas de hóspedes. Ele não tinha em Dario um inimigo, mas um adversário. Saiu duplamente fortalecido. 

Eis o arquétipo do político ideal: aquele que detém a magia de transformar derrotas em vitórias e vitórias em conquistas ainda mais memoráveis. Eis o arquétipo do político estúpido: aquele cuja débil ossatura só é capaz de projetar a engenharia do caos. Quando vencedor, transforma a vitória em derrota; quando derrotado, transforma a perda em sepultamento. O estúpido, na política, não morre inúmeras vezes. Morre apenas uma. A morte política, entretanto, depende mais da perspectiva do derrotado, do que do tratamento que lhe é conferido pelo vencedor. Daí, a necessidade de encarar cada batalha apenas como uma fase do longo processo que é a biografia política. Veja-se, por exemplo, a biografia política do jovem Marcelo Déda, falecido em 2013. Perdeu algumas batalhas? Sim. Mas por que transpirava um como que de invencibilidade? Porque digeriu as derrotas, capitalizando-as, a fim de, mais tarde, lucrar com elas. 

Aqui, vem a calhar uma breve referência a um dos mais imponentes romances de Machado de Assis: Quincas Borba. Nessa obra, Machado introduz uma filosofia de cunho escatológico, à qual dá o nome de humanitismo. No humanitismo de Quincas Borba, há situações em que a própria vida lança seus alicerces à morte de outrem. Esse ponto-de-vista é ilustrado com a seguinte estória: imaginem-se duas tribos rivais famintas diante das quais há uma plantação de batatas. As batatas mostram-se suficientes para alimentar só uma das tribos. Se elas fizerem a paz, no sentido de comerem juntas as batatas, todos morrerão de inanição. Solução? A guerra. A morte de uma tribo viabilizará a vida da outra. Morte, nesse caso, é vida. Ao derrotado, o extermínio; ao vencedor, as batatas. O emprego irônico das batatas para recompensar o êxito demonstra o menoscabo de Machado por quem despreza a vida e a dignidade alheias. 

Em suma, quem vê no extermínio do adversário a única saída para a sua vitória, merece como prêmio um punhado de batatas. Quando perdia, Déda atribuía a si próprio a razão da perda. Quando vencedor, Déda atribuía ao povo a razão das vitórias. E, mais importante, não humilhava o derrotado. Por isso, não lucrava tão-somente batatas nas vitórias que galgava. Comemorava e vibrava com elas. Estupidamente, um dos seus derrotados, num dos pleitos em que ele venceu, garantiu que Déda comemorou em demasia a vitória, arrotando que ele só fez isso porque bebeu uma cervejinha além da conta. Interessante, Alexandre comemorava suas vitórias com vinho. Churchill, com whisky. Obviamente, uma cervejinha acompanhou a vitória esmagadora de Déda. Uma coisa é certa. Embora Quincas Borba assegure que batatas ficam para o vencedor, aqui o troféu foi outro. Ao vencedor, a cerveja; ao perdedor, as batatas. 

POST-SCRIPTUM
O Plano de Saúde

O sonho de Leonor, uma octagenária do bairro Santo Antônio, era ter um plano de saúde. Vivia de uma parca aposentadoria do governo do Estado de Sergipe. Para complicar, criava uma neta de treze anos. As despesas eram incompatíveis com os seus proventos, o que a levava a ter uma vida muito difícil. Ficava com uma inveja danada de Gertrudes, uma senhora vizinha, que falava da limpeza do apartamento, sempre com lençóis limpos e cheirosos, da atenção dos médicos e das enfermeiras, da alimentação e da lhaneza de como era atendida quando se internava nos hospitais São Lucas e Primavera. – Dá vontade de não sair mais do hospital, Leonor. É igual a um hotel 5 estrelas. Gertrude se orgulhava do seu plano de saúde, pago por uma filha funcionária da Petrobrás. Fazia questão de mostrar o cartão: - Basta mostrar o cartão que não pago nada. É tudo de graça!, dizia ela com ares de soberba. Interiormente, Leonor sofria bastante com o desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade de sua vizinha, mas procurava controlar esse seu sentimento com um provérbio que aprendeu na Bíblia, sempre precedido por três tapinhas que batia levemente na boca: - O coração tranquilo é a vida da carne; a inveja, porém, é a podridão dos ossos. Leonor tinha problemas de hipertensão arterial. A sua pressão era sempre superior a 15 por 10, o que aumentava o risco de doenças graves, como infarto, derrame ou implicação renal. Além disso, era dependente da insulina injetável que deveria ser aplicada diariamente. A sua diabetes era a do tipo 1. O tratamento vez por outra era suspenso pelo fato de o posto de saúde do bairro nem sempre ter no seu estoque a insulina. Isto fazia com que se internasse sempre em hospitais públicos. Nos últimos dois anos, a ambulância do SAMU esteve em sua casa para transportá-la para o hospital umas 15 vezes, ora por problema da diabetes, ora pela pressão alta. Já não aguentava mais ficar nos nosocômios de Aracaju. Além de sofrer com a sua doença, tinha que suportar a dor e o enchimento de saco dos outros pacientes. – É um verdadeiro circo de horror!, dizia para si mesma. Eis que, de repente, a sua filha que morava ilegalmente em Miami, EUA, mãe da sua neta, começou a mandar para ela, mensalmente, mil dólares, o correspondente a R$ 3.300,00 (três mil e trezentos reais), aproximadamente. Adivinhe qual a primeira coisa que Leonor fez? Exatamente! Procurou Gertrudes e fez um plano de saúde igual ao dela num estabelecimento bancário de credibilidade. Ao receber o cartão, ficou feliz. Agora, era esperar a doença para se internar num hospital particular. A mala sempre estava arrumada. Meses e meses se passaram e nada de doença, até porque atualizou o uso da insulina e do remédio de pressão. Qualquer dorzinha que sentia, seja na cabeça ou no dedo mindinho, corria para o médico e implorava uma internação hospitalar. Mas nunca os profissionais atenderam sua súplica. Nos últimos meses de vida a amargura tomou conta de Leonor. Reclamava de tudo e com todos, afastou-se da vizinhança e ensimesmou-se em sua casa. Passados três anos sem nunca conseguir se internar no hospital, numa manhã de domingo de céu cinzento, Leonor viria a falecer após sofrer um infarto fulminante. Os médicos disseram que foi por conta da hipertensão, mas na desconfiança geral da família o motivo foi outro. Ela não conseguiu realizar o seu sonho: internar-se num hospital particular!
 
 Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.  


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Por Kleber Santos
01/04
13:24

Cabra Marcado para Morrer

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Sabemos que as histórias são conduzidas pela memória. E a memória tem esse papel revolucionário de desbravar os acontecimentos retidos, mostrando para o presente tempos distantes, muitas vezes com problemáticas atuais. Trago, hoje, para compartilhar com vocês, alguns casos que passaram pela minha vida e que estavam repousados no recôndito das minhas lembranças. Recentemente, ao ler uma matéria sobre o cineasta Eduardo Coutinho, recordei-me dos momentos que vivenciamos em vários eventos ligados ao cinema, na década de 1970 do século passado, principalmente como jurados em diversos festivais de super-8 realizados em Recife. Interessei-me sobre um seu projeto cinematográfico que foi interrompido pelo golpe militar de 1964. Tratava-se do filme–documentário Cabra Marcado para Morrer, que contava a história do líder da Liga Camponesa de Sapé, Paraíba, João Pedro Teixeira, assassinado em 1962 por ordem de latifundiários. Coutinho começou as filmagens em 1964 no Engenho da Galileia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, mas a locação foi invadida pelas forças militares, sendo parte da equipe presa sob a acusação de comunismo.

Perdi o contato com Coutinho. Tinha voltado a minha curiosidade para a profissão de advogado e abandonado completamente a militância na sétima arte. No fim da década de 1980, soube que o projeto do filme tinha sido retomado pelo próprio Coutinho e muita gente ligada à crítica cinematográfica estava elogiando o documentário. Vi o filme na década de 1990 e saí do cinema encantado pela forma abordada, principalmente com a força de uma mulher, a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, cujos dez filhos foram dispersados por força da perseguição sofrida após o assassinato de seu marido. Mas também me identifiquei com a história que é a mesma de muitos brasileiros que, diuturnamente, procuram melhores condições de vida. Depois, via aqui e ali entrevistas e matérias com Eduardo Coutinho. Em 2014 fiquei consternado com a sua morte, aos 80 anos, assassinado a facadas pelo próprio filho, que sofria de problemas mentais. A memória me remetia às conversas que tive com Coutinho nos bares de Recife, um homem inteligente e com um belo senso de humor. Ele tinha uma frase que eu gostava: “Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo”.

Era uma noite chuvosa em Aracaju. Estávamos em meados da década de 1980. Residia no Conjunto Alvorada, bandas do Bairro Grageru. Repentinamente, um estouro de grande proporção tomou conta da minha residência. Eu, minha mulher e meus filhos acordamos espavoridos com o barulho causado. Ao me aproximar da janela da frente do imóvel, estava ela totalmente destruída pelo petardo lançado. Ninguém viu nada. Um amigo policial informou que teria sido um tiro de escopeta. O quarto era o do casal, contudo, meses antes, havia construído um compartimento no fundo da casa onde dormia com minha família. Passei dois anos da minha vida determinado a descobrir a autoria. Frequentei os mais diversos ambientes, fiz amizades e inimizades e descobri um mundo, ou um submundo, que desconhecia. Numa tarde de sábado, levei um “amigo” que conheci no bas-fond de Aracaju para um restaurante de um posto de gasolina fora da capital. Depois de algumas cervejas, falei para ele: - Eu sei quem deu aquela escopetada em minha casa! Ele parou e pasmo perguntou: - Quem? Respondi: - Foi você, a mando de fulano! A palidez tomou conta de sua face.

Depois de um silêncio de dois a três minutos, ele admitiu a autoria e o mandante. Levantou-se e pediu-me que o levasse para casa. No caminho da sua morada, nada comentou. Ao sair do veículo, balbuciou: - Estou envergonhado! Um mês depois ele me procurou. Disse-me que um coronel da Polícia Militar, muito conhecido, determinou que ele me acompanhasse numa audiência criminal num município do interior, pois tudo indicava que ia haver problema. Respondi que não precisava e que eu cuidaria de mim tranquilamente. – Nem Deus pedindo eu deixo o senhor ir sozinho. O padrinho de seus clientes é muito perigoso e ele vai armar para o advogado Evaldo Campos, assistente de acusação. Fiquei com uma pulga atrás da orelha. Como ele sabia dos dados da audiência, dia, local, partes e advogados? Realmente, era uma audiência com oito ou nove réus. Eu era advogado de três ou quatro acusados, enquanto os demais tinham outros colegas como patrono. O padrinho dos meus clientes era o prefeito da cidade, que tinha fama de truculento, traiçoeiro e matador. Ainda muito desconfiado, concordei com a sua companhia e, pela manhã, logo cedo, rumamos para o interior do Estado.
Deixei o carro numa cidade circunvizinha e fomos em outro veículo acompanhados dos clientes. Não deu outra! A audiência era para ouvir as testemunhas de defesa. Começou pela manhã e foi tarde a dentro. Já anoitecendo, começou uma confusão com uma testemunha. Ela passou a detratar o advogado Evaldo Campos, taxando-o de vagabundo, fofoqueiro e todo tipo de despautério. Era a senha para um crime anunciado. Evaldo reagiu firmemente e pediu a prisão da testemunha. Todos ficaram nervosos e a juíza sem saber o que fazer. Recebo um recado do meu acompanhante. - A ordem aqui fora é matar o Dr. Evaldo! Saí imediatamente do recinto da audiência, que era no cartório da cidade, numa sala acanhada que mal dava os presentes. Disse para ele: - Se Evaldo morrer vai morrer aqui muita gente. Fala para o Prefeito com firmeza! Voltei para o cartório e uma discussão acirrada era travada entre Evaldo Campos e a juíza. Percebi a gravidade da situação quando notei que a maioria dos réus estava armada. Fora da audiência, o povo estava inflamado. Abracei a juíza dizendo-lhe: - Suspenda, pelo amor de Deus, esta audiência. Pode haver morte!

A juíza tentou, ainda, ponderar. Eu disse: - A Senhora sabe que os réus estão armados? Ela ficou atônita, chamou a promotora e suspendeu os trabalhos. A praça estava cheia de gente. Acalmei Evaldo e disse para ele espalhar que iria jantar na casa do seu cliente, entretanto que ele seguisse viagem imediatamente para Aracaju. Marcamos encontro num Posto da Polícia Rodoviária Federal, o que ocorreu. Após este fato, antes do autor do disparo à minha casa morrer nos anos de 1990, só o vi por duas vezes, ambas no hospital onde ele se tratava de uma enfermidade grave. O mandante, por sua vez, tinha morrido anos antes num acidente de carro. E a memória continua evocando acontecimentos que poderiam mudar completamente a minha história de vida. Fim do ano de 1989 e começo de 1990. Era, então, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Sergipe. Um esquadrão da morte instalou-se no aparelho policial do Estado. Num período curto da nossa história, mais de cento e vinte crianças foram assassinadas com requintes de perversidade. Normalmente, eram meninos de rua que sobreviviam de pequenos furtos no centro da cidade.

Os fatos eram justificados como uma certa “guerra da maconha”, como se as próprias crianças estivessem se matando. Semanalmente, cinco a sete crianças assassinadas, sempre com características idênticas. Com ajuda de alguns colegas e do jornalista Cesar Gama, então editor do semanário Cinform, iniciamos um processo de investigação, ao tempo em que cobrávamos ações enérgicas do governador para acabar de vez com essas mortes. Chegamos ao ponto de responsabilizar o próprio aparelho policial, através de um grupo de extermínio, pela autoria. Por causa disso, fomos processados e contestados violentamente através da imprensa, com denúncias espúrias e ameaças de morte. Nesse ínterim, recebo a visita do advogado Gutemberg Chagas Ramos na sede da OAB. Ele sacou de um revólver 38 e disse-me: - Comprei agora. Soube que vão lhe matar. Por favor, tome cuidado. É seu! Eu disse para ele que agradecia a preocupação, mas não queria a arma, pois sequer sabia atirar. Ele retirou-se espavorido, deixando a arma na minha mesa de despachos. Nesse ínterim, ocorrem duas chacinas de menores, uma com três, outra com quatro.

Nesta última, as vítimas deveriam ser seis crianças, mas duas conseguiram sobreviver, fugindo do local e indo para o jornal Cinform. Tomamos o depoimento dos dois menores e eles apontaram os policiais que estavam por trás da chacina. Procuramos o Juiz de Menores, o Governador, o Secretário de Segurança, o Procurador Geral de Justiça e todos nos deram as costas, sob a alegação de que seria uma vindita nossa contra os ataques que estávamos sofrendo dos jornalistas de aluguel contratados para denegrir a nossa imagem. O Jornal Cinform havia recebido vários tiros de escopeta na sua sede, à época na Rua Laranjeiras. Não tinha como recuar! Convoquei uma coletiva com a imprensa na sede da OAB. Anunciei que todas as denúncias feitas sobre a existência de um esquadrão da morte no aparelho policial do Estado foram confirmadas e que eu iria elencar os policiais envolvidos. Neste mesmo dia que convidei a imprensa, uma operação foi montada pela polícia civil e todos os envolvidos foram presos e depois julgados. Um dos policiais acusados, preso, disse que quando saísse da prisão iria matar um advogado, Dr. Clóvis, e um delegado de polícia, responsável pelas prisões.
Poderia dissecar mais dois casos dessa minha vida atribulada, mas deixo para outro momento. Alguns poucos falam que sou um herói, outros que sou pusilânime. Nada disso! Apenas sou inteiro em tudo o que faço! Não tenho tempo para ódio pessoal contra quem quer que seja. Ou, como diria a escritora e jornalista Clarice Lispector, “Até onde posso, vou deixando o melhor de mim... Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração”.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


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Por Kleber Santos
13/03
18:36

Conversa de Comadres à Espera da Morte

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Duas razões fazem com que de uma interpretação não advenham resultados razoáveis. Em primeiro lugar, a má-fé do intérprete; em segundo, a sua insipiência. Quando a interpretação chega ao local errado propositadamente, vê-se que o intérprete é um fanfarrão. Ao invés de valer-se de elementos dialéticos, ele procura asfixiar o auditório ao qual se reporta com a liturgia do sofisma. Por outro lado, quando o intérprete não tem sucesso porque sua visão é apoplética, deve-se outorgar-lhe o beneplácito da tolerância, explicando-lhe o porquê do equívoco na leitura que fez. Ambos os casos são testemunhados em face das várias interpretações que, aqui e acolá, parlamentares fazem da Constituição Federal: ora, alguns se fazem de beócios para ludibriar os que são mais beócios do que eles; ora, não alcançam mesmo o real sentido da norma e afundam num areal de esquisitices interpretativas.

E por falar em interpretação, mais ou menos em 2007, a então senadora Serys Slhessarenko apresentou um projeto de lei complementar, com o propósito de acrescentar mais duas letras ao inciso I do art. 1º da LC 64/90, criando, de um lado, um novo prazo de desincompatibilização para os profissionais de imprensa que desejassem galgar um mandato eletivo (para 1 ano) e, de outro, especificando uma nova situação de inelegibilidade, consubstanciada na situação daquele que, tendo sido eleito, continuasse desenvolvendo a profissão de jornalista, radialista, etc. Sucede que Serys Slhessarenko não agiu com má-fé. Seu objetivo foi nobre. Só para que se tenha uma idéia da galhardia dessa senadora, ela também apresentou projeto de lei, reforçando a proibição de que homens e mulheres dividam o mesmo compartimento prisional, ali onde cometam crimes e sejam encarcerados. Algo tautológico, mas feito com boa-fé.

Assim, só resta a hipótese da leitura errada que a ilustre senadora fez da Constituição Federal. E a leitura está errada mesmo. Para demonstrar tal ponto-de-vista não será necessário um esforço hercúleo. Lançar-se-á mão apenas e tão somente de dialética pura e simples. Em primeiro lugar, atente-se para o seguinte: a Constituição foi arquitetada de tal forma que sua divisão se dá em nove títulos. O Título I cuida dos Princípios Fundamentais; já o Título II, dos Direitos e Garantias Fundamentais. Dentro do Título I, mais precisamente no art. 1º, IV e V, a Carta afirma que são fundamentos da república os valores sociais do trabalho e o pluralismo político. Ou seja, assegura tanto o direito de trabalhar, como o de que pessoas das mais diversificadas formações alcancem os cargos políticos, seja no executivo ou no legislativo: advogados, engenheiros, jornalistas, médicos, policiais, radialistas, etc.

Pluralismo político significa que o stablishement parlamentar deve ser preenchido por pessoas oriundas de todos os estamentos sociais. O conceito de estamento é sociológico. Ele é mais fechado do que uma classe, porém mais aberto do que uma casta. Daí, por exemplo, analfabetos serem inelegíveis. Eles integram uma classe, mas não o estamento exigido pela CF. E isso tem um sentido. Afinal de contas, como um analfabeto vai integrar o debate legislativo, se ele não tem controle sobre sua matéria prima: a linguagem escrita? Todavia, a partir do momento em que se quer proscrever que um profissional de imprensa integre o stablishement, abandona-se a ideia de estamento, passando-se ao critério eugênico de casta. Em síntese, jornalistas e radialistas não são bem vindos ao parlamento. Isso colide com a performance pluralista que a constituição quer atribuir à ossatura republicana deste país.

Ademais, o Título II da CF, que dá corpo aos direitos fundamentais, pretexta, no art. 5°, XIII, que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. Logo, é inconstitucional um projeto de lei que restringe o acesso aos cargos públicos, proibindo que eles sejam almejados por profissionais de imprensa, os quais teriam que abandonar sua profissão natural para poder contribuir com a política nacional, reforçando a idéia do pluralismo, cuja acepção é ontologicamente ideológica, ou seja, quanto mais perspectivas houver no parlamento, melhor para o povo. Por que, então, privar o titular do poder de ter, como representantes, indivíduos que militam na seara da liberdade de imprensa? Isso, a rigor, constitui um óbice à liberdade de profissão. Algo semelhante seria exigir que advogados largassem a beca para poder chegar ao legislativo.

O argumento de Serys Slhessarenko, no entanto, é sedutor. Segundo ela, os profissionais de imprensa teriam um plus em relação aos demais candidatos, já que seus programas lhes permitiriam fazer constante propaganda eleitoral, tornando os pleitos desiguais. Com efeito, a senadora precisaria entender que há estamentos mais fortes do que outros. A imprensa, de fato, é forte. Não foi à toa que, em 1997, a cinematografia a ela referiu-se como o “quarto poder”, valendo-se do inquestionável talento de Dustin Hoffman, no papel de um jornalista inescrupuloso que fazia uma cobertura aética para não perder o emprego na emissora para a qual presta serviços. Mas esse foi um caso isolado. Em verdade, inelegibilidade só pode ser tratada em dois campos. Ou na Constituição, ou através de lei complementar. Mas não é só a forma que vai garantir o êxito da implantação de um novo caso de inelegibilidade.

É que a Constituição, no art. 14, § 9°, diz que lei complementar poderá trazer outros casos de inelegibilidade. Porém, esses “outros casos” deverão, obrigatoriamente, estar afeitos a situações de improbidade, vida pregressa imoral do candidato e anormalidade das eleições, decorrente de influência do poder econômico ou abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta. Pois bem. Além do fato de que influência do poder econômico ou abuso no exercício de função, cargo ou emprego, não podem ser presumidos, devendo ser constatados em concreto, essa influência e esse abuso precisam dar-se no âmbito da administração direta (união, estados, distrito federal e municípios) ou indireta (autarquias, fundações autárquicas, empresas públicas e sociedades de economia mista). Logo, a lei complementar não poderá abarcar abusos no âmbito de concessionárias ou permissionárias.

 É o caso das emissoras de rádio e de televisão. Elas não integram a administração direta. Tampouco, integram a indireta. Portanto, uma lei complementar que traga tal situação de inelegibilidade será materialmente inconstitucional. Certamente, a senadora não atentou para esse espectro. Ela também não atentou para o que já foi decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, quando a Corte arrematou que “o direito abomina o excesso, seu uso desviado das finalidades” (Recurso Especial 330.677/RS). O direito também concretiza a sua autopoiese com base no princípio da razoabilidade. Além do mais, a interpretação do art. 14, §9°, da CF, não pode ser ampliada para capturar concessionárias e permissionárias, pois é princípio geral do direito que “interpretam-se as proibições estritissimamente” (exceptiones sunt strictissimo e interpretationis). Ir além disso, daria cobro a algo desarrazoado.

Evidente que os projetos de Slhessarenko foram rejeitados. Esse episódio lembra um conto de Guido Fidelis, “Conversa de comadres à espera da morte”, onde se narra a agonia de dona Encarnação. Diante do quadro, umas doze velhinhas se reúnem na casa da comadre para rezar, até que dona Terezinha diz dominar uma técnica, aprendida com sua mãe, para acelerar a chegada da morte. Seria um ato de caridade: dona Encarnação precisa descansar. Coisa nenhuma! Como a moribunda é só, as comadres ficarão com seus pertences. Por detrás de um ato de boa-fé, escondia-se o desejo de “ocupar” a propriedade da futura defunta. Querer a morte política de jornalistas é a mesma coisa. Algo aparentemente feito para “proteger” a democracia, mas que, afinal, protege apenas o interesse dos que “ocuparão”o espaço deixado pelos novos inelegíveis.

Democracia é isso. Como diz Mencken, ela “é a arte e a ciência de administrar um circo a partir da jaula dos macacos”.


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Por Kleber Santos
26/02
21:25

O “Ó do Borogodó”

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

O Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, é, talvez, um dos mais preparados juristas do país. À margem disso, é dado a decisões e depoimentos polêmicos. Quem não se recorda do habeas corpus concedido ao banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity, investigado e preso por crimes financeiros e tentativa de suborno durante a Operação Satiagraha da Polícia Federal?! Sua postura foi criticada pela opinião pública, tendo sido acusado pelo Ministério Público de ter “suprimido instâncias judiciais”. Mendes atacou na época o juiz Fausto D’Sanctis, responsável pelos decretos de prisão preventiva, e a Polícia Federal, por estarem tentando consolidar no Brasil um “estado policialesco”. Os bate-bocas com colegas da Corte têm sido usuais, principalmente aqueles considerados mais graves, como os que foram travados com Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e Luiz Fux. Quando ocupava o cargo de presidente da Casa, discutiu com o ministro Joaquim Barbosa. Durante um julgamento ambos divergiram. Irritado com Barbosa, Gilmar disse que o ministro não tem condições de dar lição a ninguém. Barbosa, por sua vez, respondeu: Vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso.

Mendes não esconde e faz questão de revelar as suas preferências político-partidárias. Nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, demonstrava certa ojeriza ao governo do PT. No começo da Operação Lava Jato, quando os canhões apontavam para os governos Lula/Dilma e para a cúpula do partido, foi bastante mordaz: o que se instalou no País nesses últimos anos está sendo revelado na Operação Lava Jato. É um modelo de governança corrupta, algo que merece o nome de cleptocracia. Em 2015, foi um dos três ministros do STF a votar contra o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Chegou a afirmar na época que a medida somente beneficiaria o PT, pois, segundo ele, não precisaria mais de doações por já ter acumulado muito dinheiro ao lesar os cofres públicos. Chegou a ser irônico ao enfatizar que o partido que mais leva vantagem na captação das empresas privadas agora, como madre Tereza de Calcutá, defende o fim do financiamento privado. Diz um provérbio português que “o tempo é senhor da razão”. Resultado: os ventos da Operação Lava Jato voltaram-se para figuras políticas abençoadas pelo ministro Gilmar. Os outroras encômios ao trabalho da operação transformaram-se em críticas: os investigadores da Lava Jato precisam calçar as “sandálias da humildade” e não podem se achar o “ó do borogodó”.

Ao ler esta crítica de Gilmar e a citação, voltei aos meus doze anos. Ouvia muito a frase o “ó do borogodó”. – Fulano tem borogodó, coisa que você não tem. Não entendia muito o significado. Na década de 70, assisti a um show numa boate de Ipanema. Osvaldo Sargentelli, “O rei do ziriguidum”, estava se apresentando com as suas belas mulatas. Lá pras tantas, Sargentelli, ao elencar cada uma delas, dizia: as minhas mulatas têm borogodó! Não há uma definição acabada para o termo. Para o Dicionário Michaelis, em sua versão on-line no Uol (http://bit.ly/aslVBX), o verbete  “borogodó” é apresentado como substantivo masculino popular – atrativo físico muito peculiar. Não é somente a beleza. É um algo a mais. Alguma coisa como a forma de olhar, o esmero no tratamento, o jeito encantador de se postar diante de outro, enfim, o “ó do borogodó” é algo ou alguém com alguma coisa a mais, especial. E foi nesse sentido que Gilmar Mendes se posicionou contra os jovens integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal que participam da Operação Lava Jato – eles não podem se achar o “ó do borogodó”. Mas acredito que essa meninada não quer ser o “ó do borogodó”. Eles estarão satisfeitos quando conseguirem mudar esse quadro assustador que ameaça, a cada dia, o tecido social brasileiro, fazendo com que a decência seja a regra de comportamento e a corrupção a exceção. Não o contrário.

A verdade é que o País passa por uma verdadeira lavagem ética e é preciso que haja perseguição aos princípios e valores que deveriam estar no DNA de todo cidadão. Contardo Calligaris, em artigo na Folha de São Paulo, edição do último dia 9/02, ao abordar o tema sobre a vulgaridade do poder, diz que o poder é vulgar de duas formas básicas, que se misturam facilmente. Há a vulgaridade do poder sem cultura e há a vulgaridade do poder sem questões e dilemas morais. Segundo Calligaris, o poder sem cultura é vulgar porque ele só se exibe. Já o poder sem preocupação moral é vulgar porque seu exercício não tem nem sequer “desculpas” e revela imediatamente o gozo de quem o detém. Ou seja, o poderoso sem preocupação moral governa só para gozar de seu próprio poder. Não é por acaso que certos representantes dos poderes constituídos, flagrados na prática de comportamentos criminosos, reagem quase sempre com violência, em linguagem ralé ou grosseira, num tom ameaçador que lembra os tempos dos coronéis da casa-grande vociferando para a senzala. É salutar à ordem pública o conhecimento amplo das acusações baseadas em provas envolvendo funcionários ou agentes do Poder Público. Elas são de interesse geral. O agente público sempre está colocado numa vitrina sujeita a inspeção e controle da sociedade.

Montesquieu, o grande artífice da tripartição dos poderes, dizia que a corrupção de uma administração começa quase sempre com a corrupção dos seus princípios. Tal reflexão deveria ser assimilada pelos que não compreendem o real papel do Estado. O Estado não “é” deles. Tampouco é “para” eles. É para todos. A visão patrimonialista de Estado, onde não há distinção entre os limites do público e do privado, precisa ser erradicada da nossa democracia. Como diz o ministro Ayres Britto, ex-presidente do STF, “o patrimonialismo é o ovo da serpente de toda corrupção enquadrilhada”. Posso me enganar, mas o Brasil precisa dar um salto de qualidade, saindo da barbárie em busca da civilização. Para tanto, concordo plenamente com Britto, ao receber na semana passada o prêmio FGV de Direitos Humanos, concedido pelas escolas de Direito da Fundação Getúlio Vargas: o Brasil deu um tranco na cultura da impunidade de pessoas postadas nos andares de cima da sociedade, e a Lava Jato se constitui numa espécie de patrimônio da coletividade brasileira no sentido de responsabilizar quem comprovadamente tem culpa no cartório. A sociedade precisa abrir os olhos. Dirigir a sua curiosidade para a transformação verdadeira do País. Uma sociedade sem ódios, mas solidária e justa para todos. Punir severamente os desvios de conduta é o início da transformação. Por que não? Seremos o “ó do borogodó”!


POST-SCRIPTUM
Platão popozudo.

- O que você carrega aí, embaixo do braço? Parece bem pesado. - São as obras completas de Valesca Popozuda. Uma edição bilíngue em capa dura. - Valesca o que? De quem se trata? Nunca ouvi falar. É uma escritora russa? - Que russa, que nada. Brasileiríssima. Segundo um professor do Distrito Federal, é uma grande pensadora contemporânea. - O que foi que ela escreveu? Nunca li. - Obras fundamentais para a compreensão do mundo atual. Vou citar apenas algumas: “Pica Mole Style”, “Quero te Dar”, “Hoje eu não Vou Dar” e “Beijinho no Ombro”. Veja esses versos: “Eu fiquei foi peladinha, na hora, bateu neurose/ Além do ‘piru’ pequeno, e aí, ele não sobe?” - Perto disso, o “Lepo-Lepo” parece canção de ninar. E é assim mesmo, ‘piru’, com i? - Sim, por isso a minha edição das obras dela é bilíngue. Muita coisa precisa ser traduzida, não é de fácil compreensão. É como tentar ler Kierkegaard no original. - Mas que história é essa de pensadora contemporânea? - Foi um professor do ensino médio que colocou na prova uma pergunta sobre uma música de Valesca, e a introduziu, ou melhor dizendo, a apresentou, como uma grande pensadora contemporânea. Como tudo hoje, o caso acabou na internet, com muita gente indignada. - Mas o professor falava sério? - Ele disse que era apenas uma brincadeira para atrair a mídia e mostrar que os jornalistas só se interessam por notícias ruins. - Profundo isso, sem duplo sentido. E como é que se chama o professor? - Antônio Kubitschek. - Parente do presidente? - Nada. O pai dele também era um pensador contemporâneo e para homenagear o presidente Juscelino deu o sobrenome ao filho. - Será que se o filho tivesse nascido agora ele teria dado o nome de Antônio Popozudo? - Este é um excelente exemplo de raciocínio lógico de um clássico discípulo do popozudismo. Você tem certeza de que nunca leu nada de Valesca? (Publicado no jornal “A Tarde”, sem autoria, Caderno 2, página 3, edição de segunda-feira, 14/04/2014, Humor, sob o título “Falam por Aí”).

* Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


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Por Kleber Santos
05/02
17:42

Em nome do Pai

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Duas visões poéticas sobre Deus. Uma, do brasileiro nascido no Rio de Janeiro, Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), pertencente à segunda geração da escola romântica. A outra do americano nascido em West Hills, Walt Whitman (1819-1892), considerado o grande poeta da revolução americana. De Abreu: “Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno e brincava na praia; o mar bramia, e, erguendo o dorso altivo, sacudia, a branca espuma para o céu sereno. E eu disse a minha mãe nesse momento: ‘Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver de maior do que o oceano ou que seja mais forte do que o vento?’ Minha mãe a sorrir, olhou pros céus e respondeu: - Um ser que nós não vemos, é maior do que o mar que nós tememos, mais forte que o tufão, meu filho, é Deus”. De Whitman: “Quero fazer os poemas das coisas materiais, pois imagino que esses hão de ser os poemas mais espirituais. E farei os poemas do meu corpo e do que há de mortal. Pois acredito que eles me trarão os poemas da alma e da imortalidade. E à raça humana eu digo: - Não seja curiosa a respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer quanto eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus mesmo eu não entenda nem um pouquinho...”.

Quem tem o privilégio de vivenciar nas manhãs chuvosas de Aracaju o espetáculo oferecido pela natureza, não teria e não terá qualquer dúvida sobre a presença de Deus no nosso cotidiano. As nuvens espessas não permitem o surgimento do sol que, teimoso, procura nas brechas, por menor que sejam, desvirginá-las através dos seus raios, até o momento que surge radiante, imponente, retumbante. Fantástico! Na minha corrida matinal, ao passar pelas árvores que margeiam o rio na Avenida Beira Mar, sinto na pele este cenário grandioso, belo e emocionante. De repente, na direção oeste, do fundo do Parque da Sementeira, surge, altaneiro, vibrantes, multicolorido, um dos maiores fenômenos, óptico e meteorológico, da natureza: o arco-íris. É um espetáculo indescritível. Às vezes penso como alguém pode achar um dia de chuva feio. Nada disso! Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos cumprem o mesmo papel: falar com você, em nome de Deus. As árvores, as flores, o sol, o luar, os montes, o mar, o rio e todos os fenômenos da natureza são as ferramentas criadas para lhe dar a oportunidade de se encontrar, de ser humano, na maior acepção do termo. Aprendi com os anos, depois de muito tempo, que a raiva e o ódio destroem e desagregam a nossa vida e a do outro. A amargura não vale a pena, não traz solução, só dificuldades.

Não se entende o porquê de tantas atrocidades pelo mundo afora e que tanta vergonha já causou à humanidade. Muitas delas praticadas em nome do Pai. Alguns casos são inexplicáveis e mostram a involução dos homens enquanto seres humanos: O assassinato, na Segunda Guerra Mundial, pelos nazistas, liderados por Adolph Hitler, de 6 milhões de judeus entre 1939 e 1945; a matança de 200 mil bósnios, 2 milhões de refugiados e o estupro de 40 mil mulheres pela milícia e exército sérvio durante a queda da antiga Iugoslávia, entre 1992 e 1995; o massacre de Ruanda, em abril de 1994, quando 700 mil tútsis morreram e 200 mil foram refugiados, crime praticado pelas milícias hútus, numa das maiores barbáries praticadas por um grupo étnico contra outro do mesmo País; a morte em massa de 1,5 milhão de armênios e de 500 mil deportados, praticados pelos turcos otomanos; o regime de terror instaurado no Timor Leste, uma  ex-colônia portuguesa situada no sudeste asiático, pela Indonésia, que fez com que 150 mil timorenses fossem assassinados entre 1975 e 1999; o massacre praticado pelo exército do Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, que matou 1,7 milhão de cambojanos sob as ordens de Pol Pot, líder comunista que apoderou-se do poder no Camboja; e o genocídio ocorrido na Ucrânia entre 1932 e 1933, a mando do ditador soviético Joseph Stalin, onde 3 milhões de ucranianos foram vitimados. 

Somos filhos da África. Para aqui vieram os nossos antepassados, como escravos para, com sua força de trabalho, submeter-se a uma exploração do homem pelo homem. Ao chegar ao Brasil, eram açoitados de forma severa para, de logo, acostumarem-se no contexto da opressão institucionalizada. Foram tripudiados, espancados, explorados, animalizados em sua dignidade e autoestima. A chibata era o símbolo do instrumento de tortura a ser aplicada àqueles que não se conformavam com o establishment. Certa vez, um engraçadinho, pelo twitter, ao me solidarizar com a fome na África, me mandou às favas, dizendo que eu deveria era me solidarizar com os pobres e oprimidos daqui e não querer ser um pai de povo que eu sequer conhecia. O que fazer?! A mediocridade e a insensibilidade são irmãs gêmeas, até porque o que a não ficção complica, a ficção elucida com muita clareza. Ou será o contrário? A verdade é que o meu seguidor de twitter desconhece o que foi a carnificina escravocrata em nosso país. Esquece, por exemplo, que o Brasil foi o campeão mundial da escravidão moderna, chegando ao ponto, em 1820, dois anos antes da Independência, de ter uma população onde dois terços eram de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no Rio de Janeiro 700 mil africanos. Documentos demonstram que o Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista do mundo desde a Roma antiga.

E para arrematar: De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade levada para América do Norte. Quem se dedicar a ter uma visão mais aprofundada dos navios negreiros, vai se horrorizar com a forma desumana como eram tratados os africanos nesse meio de transporte. Os escravos sempre somavam um número bem superior que a tripulação. Viajavam com os pés presos, agrilhoados, a fim de evitar fuga. Qualquer tipo de insurreição era combatido com violência, desde a tortura, passando pelo açoite e o pau de arara, e findando na própria morte. Ademais, pelas condições promíscuas da viagem, estavam também sujeitos a todo tipo de doença. A escravidão foi um dos acontecimentos mais tristes da história da humanidade. O pior é que os escravocratas, fidelíssimos cristãos, falavam nos cultos e nas missas em nome do Pai. Quer saber mais? Compre e leia “O Navio Negreiro – Uma História Humana”, de Marcus Rediker, professor de história marítima da Universidade de Pittsburg (EUA), tradução de Luciano Machado, Companhia das Letras, 464 págs. Mas, interessante, gostei do epíteto da vontade que supostamente eu teria de pretender ser o pai do povo somaliano, como dito pelo twitteiro. Quem me dera! Mas estou satisfeito por ser filho da África e, seja ela pai ou mãe, é minha pretensão honrá-la.

A inquisição foi outro acontecimento que envergonhou a humanidade, durante o qual 30 milhões de pessoas foram assassinadas no período mais obscurantista e corrupto da igreja católica. O pior é que esses crimes bárbaros também foram praticados em nome do Pai, contrariamente a todo o seu ensinamento. Não existe em lugar algum das Sagradas Escrituras qualquer ato desse jaez praticado por Jesus Cristo ou determinado aos seus seguidores. Em nenhum momento do Novo Testamento qualquer dos seus Apóstolos deu essa instrução à Igreja. Em Lucas, há uma passagem onde dois discípulos de Jesus, Tiago e João, estavam aborrecidos porque algumas cidades se recusaram a ouvir sua mensagem e indagaram o Senhor sobre a possibilidade da descida de fogo do céu para consumir seus habitantes. Jesus não gostou do que ouviu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o filho do homem não veio para destruir as almas dos homens. Essa dívida impagável tem a igreja católica com a humanidade e com Deus. Durante mais de seis séculos perseguiu e matou milhões de pessoas. Não estamos aqui para manipular a palavra sagrada, mas para, em seu nome, do Filho, e do Espírito Santo, louvar e agradecer, bendizer e adorar. Em Mateus, Jesus anuncia o tipo de “espírito suave” que deixou como exemplo para todos nós: “...Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. E olhando o arco-íris faço da leveza e da suavidade o meu caminhar... Em nome do Pai.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
22/01
15:44

O Último Rei da Escócia

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Sabe aquela sensação que nos faz crer que tal pessoa é boa, sem sê-lo? Pois bem. A estrutura psicanalítica dessa leitura míope da realidade encontra seu arcabouço traçado pela Bíblia. Parece que tudo está no livro sagrado do cristianismo. Surpreendente é que está mesmo. Na segunda carta aos Coríntios, capítulo 11, versículo 14, o apóstolo Paulo diz que não deveríamos nos impressionar com falsos enviados do Messias, ressaltando que a existência desse tipo de gente “não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz”. Ou seja: o diabo às vezes reside na luz. Isso, por exemplo, foi captado pela lente de Kevin MacDonald, diretor do filme “O Último Rei da Escócia”. Nele, MacDonald destrincha a carreira política do ditador de Uganda, Idi Amin Dada, interpretado pelo estonteante Forrest Whitaker, que, por conta do irretocável trabalho, ganhou o Oscar de melhor ator em 2007.

O enredo é sedutor, assim como a luz também o é.  Dizem os anais da história que Idi Amin era um amante da cultura escocesa. Por isso, contratou como seu médico particular um escocês, o doutor Nicholas Garrigan. Sucede que maior do que a paixão de Amin pela Escócia era a abnegação de Garrigan pelo ditador, em parte resultante do carisma que a oratória desse meganha implantava nos corações daqueles que o ouviam discursar. Amin chegou a declarar, em dado momento de sua célere carreira despótica, que se considerava “a figura mais poderosa do mundo”. Ora, lengalengas à parte, o certo é que o doutor Garrigan se viu em maus lençóis, sendo forçado, inclusive, a fugir de Uganda para não morrer nas garras de Amin, que governou de 1971 a 1979, tempo durante o qual chacinou mais de 300 mil ugandenses. Em síntese, um escocês lúcido, médico, acreditou que um assassino seria, digamos, “um anjo de luz”.

Houve quem acreditou, nos idos de 2008, que o STF produziu uma decisão iluminada quando declarou que a Lei de Imprensa não foi recepcionada pela CF de 1988. Mostramos o equívoco desse ponto de vista em artigo publicado ano passado, sob o título A Morte da Lei de Imprensa. Ainda assim, houve quem discordasse da nossa postura, lançando mão de argumentos tipicamente retóricos: “a Lei de Imprensa é um resíduo da ditadura”, “a Lei de Imprensa está na escuridão dos calabouços em que militares torturavam jornalistas” etc. Será mesmo? Procurei dialética nesses postulados. Mas não há. Parece o discurso que Idi Amin Dada usou em 1971, quando depôs o presidente Obote em Uganda. Raciocinemos, portanto (e o STF sinalizou para essa consequência natural): expurgada a Lei de Imprensa, sobejou o que para os jornalistas, em sede de abuso na liberdade de manifestação do pensamento?

Resposta: o restante do ordenamento. Vale dizer, o Código Penal, o Código Civil, a própria Constituição. E algo precisa ser categorizado, com menos poesias e mais prosa: a CF assegura, no art. 5°, inciso IV, que é livre a manifestação do pensamento. Contudo, a mesma CF, no mesmo artigo, desta feita no inciso X, apregoa que a violação da imagem das pessoas gerará direito a indenização pelo dano material ou moral dela decorrente. Por conseguinte, ainda que não haja Lei de Imprensa para “censurar” jornalistas, haverá um Código Penal e um Código Civil, o primeiro recepcionado pela CF e o segundo de constitucionalidade jamais questionada. Daí a indagação: que vantagens os jornalistas tiveram com a eliminação da Lei de Imprensa? Sinceramente, não sei. Mas permitam-me apontar as inúmeras desvantagens, dando especial enfoque ao aspecto penal, certamente o que mais interessa aos jornalistas, radialistas, etc.

(01) Pela Lei de Imprensa, alguém que, supostamente, tenha sido ofendido por um jornalista tinha, no campo penal, três meses para ajuizar queixa-crime ou ofertar representação criminal; pelo Código Penal, o prazo é maior: seis meses. Perde o jornalista com o prazo mais elástico. (02) A prescrição, pela Lei de Imprensa, independentemente da pena a ser aplicada, ocorria em dois anos; pela norma penal, poderá chegar a oito. E nem venham dizer que, como o STF não suspendeu o art. 41 da Lei de Imprensa, embora se aplique o Código Penal, o prazo prescricional continuaria sendo o de dois anos. Nada disso. O Supremo já decidiu que não pode o magistrado misturar o que há de bom em uma lei com o que há de melhor em outra, sob pena de fazer as vezes de legislador. Ou uma lei na íntegra, ou outra, também na íntegra. Sobrou o Código Penal. Quem ganhou com isso? Não sei. Só sei que os jornalistas soçobraram.

(03) Pelo art. 43, § 1º, da Lei de Imprensa, o juiz, antes de decidir se recebe, ou não, a queixa ou denúncia, garantirá ao jornalista uma defesa prévia, grande oportunidade de convencer o magistrado acerca da inexistência de qualquer ilícito, impedindo o desenvolvimento do processo. Extirpada a Lei de Imprensa, não haverá a prerrogativa. (04) Pelo art. 73 da Lei de Imprensa, só há reincidência específica, ou seja, só será considerado reincidente o jornalista que já tiver contra si prolatada, e com trânsito em julgado, sentença condenatória por outro crime de imprensa. Diante disso, pergunto por que os encômios? Paciência. O Dr. Garrigan não venerou Idi Amin Dada? Mas essa conversa de que a Lei de Imprensa foi concebida na ditadura é verborragia. O mentor da Lei de Imprensa, Freitas Nobre, a concebeu anos antes do golpe militar de 1964, tendo sido um dos maiores defensores das liberdades. Aliás, foi perseguido por isso.

Intrigante é que toda essa quizila sobre a Lei de Imprensa foi conduzida à revelia da biografia de Freitas Nobre. Em 25 de outubro de 2005, por ocasião da passagem dos trinta anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura, o nome de Nobre foi lembrado de forma honorífica como defensor da imprensa, essa mesma imprensa que, à época, achava o Código Penal melhor do que a lei que nasceu para protegê-la. Abestalho-me. A norma penal saiu da cabeça de um grande jurista, Nelson Hungria, mas veio à tona em um período eminentemente ditatorial. Hungria foi nomeado Ministro do STF por um ditador, Getúlio Vargas, e manchou sua biografia com um episódio patético, em que rasgou uma decisão judicial, prolatando outra em seu lugar para agradar um sociopata, que fez história na pior fase da imprensa brasileira: Assis Chateaubriand.

Diploma ditatorial por diploma ditatorial fico com a Lei de Imprensa. Fico com Freitas Nobre. Fico com Vladimir Herzog. Fico com a guerrilha de Uganda. Ao mesmo tempo, preocupei-me em 2008 com os jornalistas que aplaudiram o fim da Lei de Imprensa, fazendo-me recordar o jovem médico Nicholas Garrigan, que supunha ver um amigo em Idi Amin Dada. Curioso, venceu o inimigo. O perigo está exatamente aí. Porém, quando os jornalistas descobrirem que a derrocada da Lei de Imprensa interessa mais ao “inimigo” será tarde. E, como ensinava Walter Benjamin, “se o inimigo vence, nem os mortos estão seguros”.


Post Scriptum
O Desgosto


Dia de festa e tristeza na sede da Petrobrás na Rua do Acre, em Aracaju. Era a despedida de Frederico, conhecido como Seu Fredy, depois de quarenta anos de serviços prestados. Muita gente presente. Até José Eduardo Dutra, o presidente da Empresa, o Superintendente Derzen e vários diretores foram lá dar um abraçaço naquele homem que relevantes serviços tinha prestado à empresa petrolífera, tanto em Alagoas como em Sergipe, com passagem em Campos, Rio de Janeiro e Salvador. Era a sua tão esperada aposentadoria. Muito choro e muito discurso. Beta, a vitalina da turma - e que tinha, aqui prá nós, um amor platônico por Seu Fredy - recitou um poema sobre a despedida, culminando com a frase: despedir-se não é dizer adeus, é apoiar e desejar muita felicidade na nova jornada que está começando. Depois de muito lengalenga, veio o discurso do homenageado, dizendo que iria se dedicar ao remo, esporte que abandonou quando entrou na Petrobrás e a viver com a sua querida Lulu. Arrematou, citando Antoine de Saint-Exupery: “Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. Levam um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso. Obrigado por ter compartilhado com vocês tantos e tantos bons momentos. Eu vou ter muita saudade”. Aplausos, abraços, beijos, lágrimas e muita emoção. Fredy era tido como um homem de grande alma. Vivia de casa para o trabalho e do trabalho da casa. Teve quatro filhos, todos já bem encaminhados, somente ele e sua Lulu moravam naquela ampla casa do Mar Azul. Por causa da festa de despedida chegou um pouco mais tarde em casa e sua Lulu estava à sua espera para saber tim-tim por tim-tim do ocorrido. Ainda emocionado, contou tudo, inclusive sobre a presença do presidente da Petrobrás e do Superintendente. No dia seguinte, logo cedo, foi para o Parque dos Cajueiros onde se encontrou com Reni, Geraldo e Chico Oliva no Barracão Náutico do Cotinguiba. Queria saber de um bom barco de remo e onde poderia comprar. De posse das informações, 30 dias depois chegava em sua casa um potente barco. Alegremente, chamou Lulu para conhecer aquele “lindo espetáculo”, vindo da fábrica já plotado com o nome de “Lulu”. Durante a espera, muniu-se de vários livros, do guia do remo e das aulas de Renir e Geraldo. Já sabia tudo sobre segurança, técnica e equipamentos. Lulu, quando viu o barco, gritou: - Mas que porra é isso, Fredy? Como é que você gasta o nosso dinheiro com essa merda? Pronto! A partir desse dia a vida de Fredy virou um inferno. Lulu, a meiga Lulu, se transformou numa bruxa. Era uma ladainha só. Mas no início Fredy não ligou muito, embora todo dia que voltava do remo, era admoestado com as agressões verbais: - é o velho safado querendo ser menino? No dia que me retar, velho rabugento, vou no Parque do Cajueiro e toco fogo naquela porra! A vizinhança não aguentava mais os gritos histéricos de Lulu. E não é que a ameaça se cumpriu?! Lulu, de posse de um balde de gasolina, tocou fogo no barco sob o olhar atônito de Geraldo, que tentou evitar que outros barcos tivessem o mesmo fim. A decepção de Seu Fredy foi grande. Passou a ser um homem taciturno e ensimesmado. Comprou uma bicicleta para andar pelas ruas de Ará, mas esta teve o mesmo fim do barco. Lulu, com raiva, de posse de uma marreta, quebrou-a, deixando-a em pedaços. Um processo galopante de depressão tomou conta de Seu Fredy. Não saía mais de casa e dormia no quintal, até que um dia, ao sair do banheiro, uma dor repentina e violenta tomou conta do seu peito se estendendo até o braço esquerdo. Não teve tempo nem de pedir socorro a Lulu ou, quem sabe, não quis. E partiu ali mesmo, e exatamente cinco meses após a festa de despedida da Petrobrás. Segundo o diagnóstico de uma vizinha fuxiqueira, ele morreu de desgosto.  
 
Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


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