25/06
19:11

O homem revoltado


Clóvis Barbosa - Blogueiro e con selheiro do TCE-SE
 

Albert Camus (1913-1960), jornalista, escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo, ex-comunista e filósofo franco-argelino, reconhecido pela Academia Sueca com o Nobel de Literatura de 1957, autor de uma obra vasta onde se destaca O estrangeiro, O Mito de Sísifo, Estado de sítio, A queda e A peste. Ele também escreveu o polêmico livro O homem revoltado que, à época do lançamento, em 1951, recebeu as mais pesadas críticas do mundo intelectual francês, principalmente do romancista e filósofo Jean Paul Sartre, seu amigo até então. O pau quebrou na moleira de Camus, acusado de ser um direitista inveterado, cão nazista, proxeneta do imperialismo e tantos outros adjetivos. Camus não reagiu aos ataques, mas os seus estudiosos justificaram a reação à sua obra pelo momento apaixonante do socialismo. Negar a prática criminosa stalinista naquele momento era ir de encontro à revolução. Mas todos sabem que toda obra de Camus contém as presenças do absurdo e da revolta. Não era nenhuma novidade. Só que, diferentemente de determinadas práticas filosóficas, ele pretendeu discutir e colocar o homem no mesmo patamar de equidade e de respeito mútuo. Qual o sentido da existência humana? Esse é o tema explorado em toda a sua obra, principalmente em O homem revoltado, onde exemplos bíblicos, da literatura e da filosofia, extraídas das obras de André Breton, Hegel, Saint-Just, Marques de Sade, Nietzche, Jean-Jacques Rosseau, Pierre Naville, Dostoiévski, além das escolas do niilismo, surrealismo e existencialismo, são colocados de forma a justificar as suas teses. Esta obra é considerada por muitos como uma das mais importantes do século XX. Dentro dessa perspectiva é que Camus entende que o homem revoltado é aquele que se contrapõe à ordem de quem o oprime e reage quando sente que não deve ser oprimido. Sumaria o seu texto naquele silogismo de René Descartes: “Eu me revolto, logo existimos”. 

 

A propósito dessa reviravolta do povo brasileiro, gritando nas ruas contra o aumento da passagem dos transportes, da classe política, dos sindicalistas, dos gastos com a copa e da melhoria dos serviços nas áreas da educação e saúde, soa como providencial conhecer o pensamento de Camus e do seu homem revoltado: “A revolta é o ato do homem informado, que tem consciência de seus direitos”; “O indivíduo não pode aceitar a história tal como ela ocorre. Ele deve destruir a realidade para afirmar o que ele é, não para colaborar com ela”; “(...) a verdadeira revolta é criadora de valores”; “Se não há natureza humana, a maleabilidade do homem, na verdade, é infinita”; “O escravo, na verdade, não está ligado à sua condição, ele quer mudá-la. Ele pode, portanto, educar-se, ao contrário do senhor; o que se denomina história não é mais que a sequência de seus longos esforços para obter a liberdade real. (...) A história identifica-se, portanto, com a história do trabalhador e da revolta. Não é de admirar que o marxismo-leninismo-stalinismo tenha tirado dessa dialética o ideal contemporâneo do soldado-operário”; “É por isso que o ateísmo e o espírito revolucionário são apenas as duas faces de um mesmo movimento de liberação. Essa é a resposta à pergunta sempre formulada: por que o movimento revolucionário se identificou com o materialismo em vez de se identificar com o idealismo? Porque subjugar Deus, fazer dele um escravo, é o mesmo que destruir a transcendência que mantinha o poder dos antigos senhores, preparando, com a ascensão dos novos, os tempos do homem-rei”. “Um décimo da humanidade terá direito à personalidade e exercerá a autoridade ilimitada sobre os outros nove décimos. Estes perderão a sua personalidade, tornando-se uma espécie de rebanho, restritos à obediência passiva, sendo reconduzidos à inocência primeira, por assim dizer, ao paraíso primitivo, onde, de resto, deverão trabalhar”.

 

As manifestações espontâneas do povo brasileiro que estão ocorrendo em várias cidades brasileiras levam-nos a uma reflexão profunda. Acostumamos a pensar que somente os formadores de opinião são os donos da verdade histórica, isto por serem os detentores do conhecimento. O povo seria um mero espectador, que não pensa não opina. Ele só tem dever, principalmente o de trabalhar para manter os privilégios desse grupo que se apoderou do sistema. O aumento das tarifas do transporte coletivo foi o sinal para sua eclosão. Mas não foi a razão principal. O Brasil é um país cheio de contradições e de ilogicidade. Há um pacto nas elites, aí incluídos os novos donatários do poder, aqueles que só enxergam o própro umbigo, para quem o Estado não é o instrumento para o estabelecimento do bem comum, mas o de manutenção de seus privilégios. Essa explosão social espontânea (não me refiro aos baderneiros, pois, para esses aproveitadores a repressão policial), mas àqueles que estão cansados de serem objeto da história e de assistirem passivamente a impunidade que corrói o tecido social, os gastos astronômicos com obras faraônicas, os empréstimos milionários a países em situação de risco, a corrupção, a roubalheira, a violência, a intolerância, o péssimo transporte público, as obras superfaturadas, a leniência governamental em relação a gestão pública, as concessões inexplicáveis, saúde e educação precárias, o ócio remunerado das greves no serviço público sem respeito à cidadania, a ruim prestação do serviço público e a falta de compromisso da classe política com a ética e o respeito ao mandato que lhe foi outorgado. Aqui pra nós, as elites donatárias do poder estão recebendo um recado claro: o povo nas ruas está cansado de ser enganado. Não aceita mais o discurso do futuro, que é, como bem diz Camus, “a única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos”.

 

O que está acontecendo no Brasil, diferentemente das primaveras estrangeiras em países ditatoriais, é que não há uma estratégia clara ou qualquer comando organizado que vise um fim preciso. Os políticos fracassaram? Nós fracassamos? Fica o grande desafio: o da possibilidade de fazermos uma reflexão, antes que o movimento se transforme numa primavera de verdade.

 



Coluna Clóvis Barbosa
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Por Eugênio Nascimento
09/06
15:42

Colheita Maldita

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE-SE

Já contei aqui neste espaço o ataque que sofri quando no twitter me solidarizei com o povo da Somália (“Honra teu pai”, edição de 25 e 26 de dezembro de 2011, Caderno A, pág. 7). Relembro: irresignei-me com a situação dos refugiados de Badbaado, o maior campo de refugiados de Mogadício, capital da Somália. Viam-se bebês de poucos meses de nascidos, em pele e osso, olhos vidrados, com moscas passeando sobre os seus rostos cansados pela fraqueza causada pela fome, que não lhes davam força, sequer, para chorar. A África possuía 10 milhões de famintos, distribuídos em Djibuti (120 mil), Etiópia (4,6 milhões), Quênia (2,4 milhões) e Somália (2,8 milhões). Os jornais informavam que um cidadão, Iman Abdi Noono, de 60 anos, caminhou com a família por dez dias para escapar da seca que matou todo o seu rebanho garantidor da sua subsistência. Seguiu em direção à capital da Somália em busca de alimentos e na caminhada viu seis dos nove filhos morrerem de fome. “Carreguei o último nas costas e achei que iria salvá-lo. Mas ele morreu pouco depois de chegarmos”. A Somália tinha uma população de 9,9 milhões de habitantes. Está localizada no chifre da África.  A mortalidade infantil atingia, em 2011, 105,6 mortes a cada mil nascidos vivos, o saneamento básico chegava à apenas 23% da população e a renda per capita era de US$ 600. Havia uma insana disputa armada que rachou o país ao meio, de um lado um governo incapaz, de outro o fanatismo da milícia islâmica Al Shabab. Para piorar, os problemas climáticos ligados à seca assolavam o país de norte a sul sem qualquer perspectiva de solução em curto prazo. Pobre África, continente dos nossos antepassados. Passam-se os anos e a situação continua cada vez mais piorando. Pobre planeta onde se prevê para 2020 uma massa de 1 bilhão e 300 milhões de pessoas passando fome. As crianças subnutridas somarão 132 milhões, um pouco abaixo dos 166 milhões de 1997.

O jornalista Philip Gourevitch mora em Nova York. Integra o quadro de escritores da revista The New Yorker e é editor do Paris Review. É dele a obra “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, onde ele conta a história de um dos maiores genocídios ocorrido na humanidade, comparável apenas ao Holocausto. Numa guerra civil insana, patrocinada pelo governo de Ruanda, um país sem costa marítima e situada na região dos Grandes Lagos da África, vizinha de Uganda, Burundi, Congo e Tanzânia, a maioria hutu massacrou a minoria tutsi. Mais de um décimo de sua população foi exterminado; 800 mil pessoas foram mortas em apenas 100 dias do ano de 1994, geralmente cortadas com facão. Fatos como os de Ruanda, um dos episódios mais terríveis de nosso tempo e de tantos outros ocorridos durante a história universal nos leva a uma conclusão terrível: a de que a humanidade faliu. O próprio Gourevitch, quando começou a viajar para Ruanda, a partir de 1995, conheceu um pigmeu com quem manteve um diálogo impressionante. Dizia o pigmeu: - “Existe um romance. O livro é O morro dois ventos uivantes. Está me acompanhando? Esta é minha teoria mais geral, Não interessa se você é branco ou amarelo ou verde ou um negro africano. O conceito é o homo sapiens. O europeu está num estágio tecnológico avançado, e o africano está num estágio mais primitivo de tecnologia. Mas toda a humanidade precisa se unir na luta contra a natureza. Este é o princípio de O morro dos ventos uivantes. Essa é a missão do homo sapiens. Concorda comigo?”. O jornalista respondeu: “estou ouvindo”. E o pigmeu continuou: “A luta da humanidade para subjugar a natureza é a única esperança. É o único caminho para a paz e a reconciliação; toda a humanidade unida contra a natureza”. Retrucou o jornalista: “Mas a humanidade faz parte da natureza, também”. “Exatamente”, disse o pequeno ruandês. “É exatamente esse o problema”.

A gente sabe que a indústria do extermínio teve o seu auge na Alemanha com a ajuda de aliados sinistros que também torciam o nariz para os judeus. A maldade humana ainda predomina. Tudo está perdido? Não, há quem reaja, há quem sonhe. Existem pessoas que dão o melhor de suas vidas em tudo que fazem. Outros vivem, como parasitas, para se aproveitar. Lennon, que fez parte dos Beatles, escreveu uma música que é um hino pela paz de todos os tempos: Imagine. Veja a letra: Imagine que não exista nenhum paraíso. É fácil se você tentar. Nenhum inferno abaixo de nós, sobre nós apenas o firmamento. Imagine todas as pessoas vivendo pelo hoje. Imagine que não exista nenhum país, não é difícil de fazer. Nada porque matar ou porque morrer, nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Imagine nenhuma propriedade, e eu me pergunto se você consegue. Nenhuma necessidade de ganância ou fome, uma fraternidade de homens. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo todo. Você talvez diga que sou um sonhador. Mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você junte-se a nós, e o mundo viverá como um único. Como seria bom que nós sonhássemos este sonho juntos. Não tenho dúvida que o mundo seria bem melhor: Lembre-se de Tiago na sua epístola. “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a nossa vida? Sois, apenas, como a neblina que aparece por instante e logo se dissipa”.  Não precisamos aliciar as nossas crianças para matar os adultos objetivando assegurar uma grande colheita, como no filme que empresta o seu nome ao título deste artigo. Esta será sempre uma colheita maldita. Se for verdade que o ser humano teria uma propensão para o mau, como diz Kant, apesar de uma disposição original para o bem, este, o bem, é que temos de explorar.  Ainda há tempo para mudar, a não ser que queiramos que de cada criança morta, nasça um fuzil com olhos que termine por nos achar o coração.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
27/05
17:49

A carne é fraca

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE-SE
Precisa-se de uma explicação lógica a justificativa que todos têm para os males praticados, principalmente no campo das parafilias sexuais, ou naquilo que chamamos sexo desregrado. Nesse campo, por exemplo, um deputado estadual da Bahia vem causando a maior polêmica. Tido como pastor, responsável pela “Fundação Doutor Jesus”, um centro de reabilitação de drogados, o parlamentar se diz ex-homossexual, ex-drogado e ex-bandido. Afirma, contudo, que foi curado pela fé. Numa entrevista a uma emissora de tevê da Bahia, ele defendeu o seu colega também pastor, deputado federal Marco Feliciano, e ratificou a tese de que os “africanos são descendentes amaldiçoados de Noé”. E explicitou: “a viadagem da África, quando viu dois cabras bons, bonitos, musculosos, saiu atrás” (sic). Ao interpelar uma nota de repúdio contra ele, emitida pelo seu próprio partido, ele creditou a autoria “aos viados e viadas lá dentro” (sic). Diz também o deputado-pastor que não teme represálias do seu partido e explica: “se essas desgraças (partidos) prestassem, eram inteiros”. Mas sobre o seu passado, principalmente o fato de ter sido homosexual, ele vacila e justifica: “O pastor é humano. Claro que eu tenho medo de recaída. Eu não posso ficar junto de um homem muito tempo, porque a carne é fraca”. A carne é fraca? Vejamos outro exemplo: Um pároco da cidade de Niterói foi acusado de manter relações sexuais com uma coroinha desde os sete anos de idade, e também com sua irmã. O padre nega, mas reconhece que quando começou a fazer sexo com uma delas, ela já teria 18 anos de idade. Não interessa aqui se a acusação é verdadeira ou não, mas a justificativa do advogado do padre: “A carne é fraca. O padre também é um ser humano”. Conversa fiada! Desculpar-se de seus atos, utilizando-se da fraqueza da carne não deixa de ser uma fuga que tem como objetivo escapar da responsabilidade. Aliás, se “a carne é fraca” é porque o espírito é pobre.
Júlio Ribeiro faz parte da história da literatura brasileira. Da Escola Naturalista, a sua principal e polêmica obra foi “A Carne”, publicada em 1888, e que aborda temas diversos daqueles enfrentados pela literatura da época. Recebeu fortes críticas, por explorar o amor livre e a figura da mulher libertária. O romance "A carne" conta a história de Lenita, uma jovem que não buscava o fulgor do romantismo, mas a satisfação dos desejos sexuais. Ao ir residir na fazenda de um Coronel, conhece o seu filho, divorciado, e com ele tem uma tórrida relação entremeada por sexo violento. Lenita sente prazer ao assistir um escravo ser açoitado e ter o seu corpo totalmente desfigurado com as feridas. Apesar de o livro terminar numa tragédia, a sua importância está justamente em enfrentar o tema da fraqueza da carne. Ribeiro consegue fazer com que ela triunfe sobre os desenganos da mente. O mais importante ainda é colocar a mulher num papel de vanguarda numa sociedade conservadora e preconceituosa. Se for verdade o que dizia o presidente dos EUA, Abraham Lincoln, segundo o qual pessoas sem vícios não possuem virtudes, a trajetória de Lenita estaria então justificada? Outro caso impressionante foi o do terceiro presidente dos EUA, Thomas Jefferson, autor da Declaração da Independência americana. É dele a seguinte idéia: "A miscigenação de brancos com negros produz uma degradação com a qual nenhum amante de seu país, nenhum amante da excelência no caráter humano, pode inocentemente concordar". Ora, pois não é que se descobriu que Jefferson tinha uma amante, justamente uma escrava, com quem teve vários filhos e viveu com ela durante trinta e oito anos, quatro vezes mais do que com a sua legítima mulher? Afinal, a carne é fraca. Outro presidente dos EUA, Bill Clinton, também se deixou levar pela fraqueza carnal quando foi acusado de usar uma estagiária para a prática de sexo oral, não na casa da Luz Vermelha, mas em plena Casa Branca.
Diz uma música sertaneja que a carne é fraca e o coração é vagabundo. Adhemar de Barros foi um dos políticos mais influentes da política brasileira antes da ditadura militar. Governador de São Paulo por várias vezes, teve uma expressão cunhada que dizia bem do seu comportamento como governante: “O homem que rouba, mas faz”. Casado com Dona Leonor, teve uma amante por vinte anos que mandava e desmandava em seu governo e no seu patrimônio, Ana Gimol Benchimol Capriglione. Era conhecida como “Dr. Rui”. Depois da morte de Adhemar em 1969, Dr. Rui herdou os seus dólares que foram guardados num cofre numa mansão de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. O maior assalto da história da luta armada brasileira durante o período de chumbo foi justamente a ação que terminou com o roubo do cofre do Dr. Rui. Mas o importante aqui é mostrar que Adhemar também se quedou à fraqueza da carne. Nem sempre, todavia, as amantes tiveram papel de destaque na vida política. É o caso de duas mulheres, uma no império romano, outra no século passado: Valéria Messalina e Elena Ceausescu. Messalina foi a terceira esposa de Tibério Cláudio César. Ele com 50 anos; ela, com 15. Apesar dessa diferença de idade, era uma mulher avarenta, devassa, cruel e assassina. A sua participação no governo era tão grande que o seu marido foi obrigado a ordenar a sua execução aos 22 anos de idade. Ela está incluída entre as mulheres mais perversas da história. Já Elena Ceausescu viveu na Romênia e era casada com o ditador Nicolae Ceausescu. Era alcunhada de “Mãe da Pátria”. Ao lado do seu marido dirigiu com mão de ferro os destinos da Romênia durante vinte e quatro anos. Foram acusados de causar a morte de mais de 60 mil pessoas durante o seu reinado. Elena era uma mulher cruel, dominadora (o braço direito do seu marido). Foi fuzilada juntamente com Nicolae, no natal de 1989, encerrando naquele momento o orgulho, a arrogância e o poder.
A literatura biográfica está cheia de exemplos que justificariam a fraqueza da carne. No mundo político, é comum o desempenho das amantes na vida do seu parceiro, participando ativamente da vida profissional do seu amado. O ditado que diz que por trás de todo grande homem há uma grande mulher, ainda mais brilhante, pode ser encontrada muitas vezes por causa justamente da fraqueza da carne. Não é à toa que Cristo disse a Pedro: “vigiai e orai, para não cairdes na tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41).


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
13/05
00:39

Avenida Paulista

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE-SE

Peguei um taxi no aeroporto de Congonhas em direção ao hotel Caesar Business, na Avenida Paulista, próximo à estação metroviária da Consolação. No início da Paulista a via foi interditada. Tinha uma passeata de professores da rede estadual de ensino. Resultado: um trecho que não daria mais de 10 minutos para chegar ao destino, durou duas horas pelas ruas transversais. Reclamações e xingamentos dos mais diversos contra os professores e o governo. Consegui chegar à Consolação, no outro lado da pista do hotel, mas, qual nada, quem disse que os grevistas deixavam fazer o retorno após o túnel. Mais uma vez, o taxi teve de ir em direção das Clínicas para fazer o retorno a uns 8 km. Putz! Conseguimos chegar ao hotel. Mas não é assim hoje? Os grevistas do serviço público estão pouco se lixando para a população. O princípio de que o seu direito termina quando o meu começa foi transformado em conversa pra boi dormir. Também! Pra que é que serve o otário do contribuinte? Não é pra pagar pela farra do assembleísmo e do corporativismo de certas categorias? Eu já fiz greve e a primeira coisa que se fazia era escolher uma comissão de propaganda e relação com a população. Era preciso ganhar o apoio popular antes, no decorrer da greve e depois. Ah! A greve é um direito da classe trabalhadora! Está na Constituição! - Alto lá! É um direito do servidor público e dos empregados das estatais. Alguém já viu categorias da iniciativa privada em greve? Tudo bem, diria-se, a bancária. Sim, mas veja a diferença. Avisam com antecedência, prepara a população e quase sempre angaria simpatia. Se for verdade que a greve é um direito com previsão constitucional, também é verdade que quase 25 anos após a promulgação da Carta de 1988, o direito de greve no serviço público não foi regulamentado. E se não o foi, não é autoaplicável. Na democracia, eu só tenho direito de agir até onde eu não prejudique ninguém e pronto.

O professor Norberto Bobbio escreveu um pequeno opúsculo, chamado “O Futuro da Democracia – Uma defesa das regras do jogo”, onde ele alerta que o respeito às normas e às instituições da democracia é o primeiro e mais importante passo para a renovação progressiva da sociedade, inclusive em direção a uma possível reorganização socialista. O respeito a quem não pensa como nós, a quem não compartilha dos mesmos propósitos, é conditio sine qua non para começar a pensar democraticamente. A democracia não é o progresso de alguns em detrimento a outros, mas o de todos com ajuda de todos. Sabe-se que a democracia é um regime por realizar-se. Não está acabado. Afinal, nós, brasileiros, após a República, não tivemos tempo de emplacar o modelo por muito tempo. Os períodos autoritários representados pelo Estado novo e pela ditadura militar obstaram qualquer possibilidade de avanço. Tudo bem que a democracia, do ponto de vista filosófico, para além de ser uma forma de governo é a procura da vida em comum. Mas, se é assim, é bom saber e entender que nossas atitudes não podem ferir ou ofender o próximo por qualquer motivo. Aliás, já se disse que uma sociedade democrática, paradoxalmente, é “uma sociedade de iguais que são diferentes”. Por outro lado, frise-se, com letras garrafais, que não se quer aqui cercear o direito de greve, mas ele não é incompatível com o respeito ao direito de outrem. Daí porque é interessante conhecer um espaço de quase 3 km que se tornou um dos pontos mais característicos da cidade de São Paulo: a Avenida Paulista. Confesso que adoro percorrê-la de cabo a rabo, indo pelo lado direito e voltando pelo esquerdo. Nas idas e vindas, adentrando as livrarias, a Martins Freitas e a Cultura. Indo ao MASP, passando pelo Parque Trianon: em plena selva de pedra surge uma área verde remanescente da Mata Atlântica, que resplandece, dando um glamour sem igual à artéria.

Sigo adiante. Conjunto Nacional, prédio da FIESP, Instituto Pasteur, Casa das Rosas, Hospital Santa Catarina, bancos, restaurantes, consulados da África do Sul, Argentina, Líbano, Mônaco, Japão, Suíça, República Dominicana, Síria, Itália, França e outros países, hotéis, Colégios, as estações metroviárias da Consolação, do Trianon-MASP, do Brigadeiro Luiz Antônio, e o vai-e-vem constante de pessoas, pelos seus calçadões formatados por um desenho preto e branco. A minha relação com a Avenida Paulista desta vez foi diferente. Quis conhecê-la a noite. O vai-e-vem de pessoas não para e adentra a madrugada. Guetos são formados por toda a avenida. Grupos de rock, cantores de rua, músicos, boêmios, mendigos, garotos de programa, prostitutas, travestis, casais apaixonados, heterossexuais ou homossexuais, os bares sempre cheios. O calçadão do Banco Safra reúne gente de todos os lugares. Faz frio. De repente, preguiçosamente, o dia amanhece e nova paisagem surge. É domingo. Uma feira de antiguidades é montada no vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Os ciclistas começam a surgir pelo canteiro central entre a Bela Cintra e a Rua da Consolação. Pedalam lentamente vivenciando a poesia que encerra o logradouro ícone de um povo. São Paulo é uma cidade fascinante. Qualquer evento, marcado para qualquer hora do dia ou da noite tem público. Lembro-me da presença da nossa Orquestra Sinfônica no espaço da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FIESP, em 2008, em plena Avenida Paulista. O espetáculo estava marcado para o meio-dia de um domingo. Auditório repleto. Ingressos esgotados e muita gente de fora pleiteando uma nova apresentação. A democracia vive extenuamente na Avenida Paulista com todas as tribos perfilando e se respeitando. Os espaços são ocupados sem a necessidade de prejudicar o outro. O fascínio da Avenida Paulista é justamente pela forma plural que recebe a todos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
28/04
16:03

Doña Sara de la Mancha

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE-SE


Interessante, a minha vida foi marcada por etapas. Sempre vivi intensamente esses momentos. Fui inteiro em tudo que fiz. Nada fiz pela metade, mas me dediquei completamente àquilo que propunha fazer e vivenciar. Assim foi com o cinema. Rodei toda Salvador e subúrbios, na década de 1960, do século passado, atrás de um filme em que meus ídolos trabalhavam. Os cinemas do Centro: Guarany (hoje Glauber Rocha), Tamoyo, Art, Excelsior, Liceu, Popular, Santo Antônio, Pax, Aliança, Jandaia, Tupy; os dos bairros: Amparo, no Engenho Velho de Brotas, São Caetano, no Largo do Tanque, Liberdade (depois São Jorge) e Brasil, na Liberdade, Bonfim, na Calçada, Roma, no Largo do mesmo nome, além de cinemas localizados em Plataforma e Periperi. Levado pelo meu irmão mais velho Cristovam, aos 10 anos passei a ser um negociante de gibis. Comecei com 10 revistas e cheguei a ter mais de 600. O meu ponto de troca e venda dessas revistas era o cinema Santo Antônio, na Rua São Francisco, entre a Igreja de São Francisco, no Terreiro, e uma rua estreita que saía da Baixa dos Sapateiros em direção ao viaduto da Sé, onde, aos sábados à tarde, a procura pelos seus filmes era enorme, pois além de exibir os clássicos do western, eram apresentados seriados do Super-Homem, Batman, Roy Rogers, Capitão Marvel. No final de um seriado, numa cena de perigo para o mocinho, o filme era interrompido com a frase “volte na próxima semana”. Tempos bons onde a inocência preponderava e a maldade era uma mera exceção.

Meus ídolos masculinos preferidos eram Burt Lancaster e Tony Curtis. Claro que gostava de outros, mas desses não perdia um filme. De Lancaster, nunca me esqueço de Brutalidade, A filha da pecadora, O homem de bronze, O pirata sangrento, O gavião e a flecha, Pecadora dos mares do sul, A um passo da eternidade, onde ele contracena com Debora Kerr, Vera Cruz, A rosa tatuada, Trapézio, Sem lei e sem alma, e O mar é nosso túmulo, foram alguns dos filmes em que ele atuou e que assisti nessa época. Depois, li que ele era ativista político e participava das marchas de Martins Luther King. A minha admiração por ele aumentou. De Tony Curtis, lembro-me de Spartacus, Trapézio, Quanto mais quente melhor, Acorrentados, O homem que odiava as mulheres, Houdini, o homem miraculoso, Taras Bulba, Só ficou a saudade e tantos outros. Das mulheres, Rita Hayworth (nunca houve uma mulher como ela), que apareceu divina em Gilda e em Quando os deuses amam; Ingrid Bergman, linda sueca que emocionou toda uma geração com a sua beleza e sensualidade. Guardo na minha memória e na minha estante os filmes Casa Blanca e Por quem os sinos dobram. Essa etapa da minha vida tinha passado, contudo, nas minhas recordações, sonhava com esses momentos de iniciação para a vida, onde tudo era mágico e fascinante. Fernando Pessoa dizia mais ou menos que há nos olhos humanos, ainda que litográficos, uma coisa terrível: o aviso inevitável da consciência, o grito clandestino de haver alma. Se for assim, a minha alma guarda com muita saudade esse tempo de sonho e emoção.

Pois bem, estava quieto em meu canto quando, de repente, tomo conhecimento da morte em Madri, no dia 8 deste mês de abril, uma segunda-feira, de Sarita Montiel, cujo nome de batismo era Maria Antônia Alejandra Vicenta Elpidia Isidora Abad Fernández. Pronto, as lembranças do passado retornaram numa velocidade de trem-bala. Sara ou Sarita era de uma beleza ímpar e bastante sensual. Nunca me esqueço de quando assisti umas dez vezes um filme onde ela cantava e seu peito arfava por cima de uma blusa dando a impressão que a qualquer momento o pano se rasgaria e apareceria aos nossos olhos aqueles seios tão desejados. Na minha santa fantasia, achava que a blusa não iria suportar a força do canto daquela música que muito puxava pelo peito. Atriz, tendo conquistado Hollywood através de vários filmes em que participou com os mais destacados atores. Trabalhou ao lado de James Dean, Gary Cooper, Marlon Brando, Burt Lancaster, Maurice Ronet, Charles Bronson, Rod Steiger. Quem não se lembra de Vera Cruz, um clássico do cinema americano, de Robert Aldrich, onde ela tem uma atuação de destaque? Don Quixote de la Mancha, Eu não creio nos homens, Serenata, La Violetera, Carmen de la ronda e Meu último tango, foi alguns de seus filmes que vi. Gravou muitos discos, mas a sua interpretação das músicas Fumando espero, Besame mucho e Contigo aprendi, são inesquecíveis. Dedicou-se, também, ao teatro e vários foram os musicais que encantavam o público. A televisão foi também seu ambiente, tendo feito dois programas de muito sucesso na Espanha.

Um de seus últimos espetáculos foi o musical 'Doña Sara de la Mancha', cuja estréia foi no Teatro Auditorio da cidade onde ela nasceu. Durante a turnê por toda a Espanha, ela registrou a sua satisfação em conectar com a sua gente, através do canto que a consagrou no cinema e na música. Sarita morreu aos 85 anos de idade. É difícil a gente acreditar. Na nossa memória, ela nunca chegou a essa idade. Aliás, como disse Rui Castro numa crônica na FSP, quatro dias após esse infausto acontecimento, “Sarita, 85? Que mentira. Ela nunca passou dos 31, 32 – quando sua beleza siderava as plateias em filmes como “A Última Canção, La Violetera e Carmen de Ronda”.
Post Scriptum. Um mérito parlamentar para um comunista

No próximo dia 6 de maio de 2013, o ex-vereador Marcélio Bonfim vai receber a Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar outorgada pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, por indicação do deputado Garibalde Mendonça. Antes de ser uma homenagem ao velho camarada, isoladamente, que dedicou grande parte de sua vida à luta por uma sociedade justa e igualitária, a comenda é, também, uma homenagem aos comunistas sergipanos, muitos deles já mortos, mas que deram a sua alma pelo socialismo. Conheci Marcélio na minha mocidade quando cheguei a Sergipe e pelas suas mãos ingressei no partidão e no partido dos trabalhadores. Tinha um respeito muito grande pelo “velho”, como carinhosamente era chamado. Admirava a sua capacidade de organização, a sua disciplina e seu amor à causa comunista. Convivemos juntos muito tempo. Ele foi preso várias vezes, torturado e processado pelos órgãos de repressão da ditadura militar, nunca renegando a sua militância e sempre procurando resguardar os seus companheiros das garras da opressão. Ao saber dessa notícia, sinto-me também homenageado e, nesse momento, estou sentindo muito a falta de velhos companheiros. O que mais queria era tirar essas pessoas do sono eterno para abraçá-los.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
15/04
08:07

Retratos da vida

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE-SE

Conta-se que em maio de 1976, o jornalista José Cas¬te¬llo, colaborador de O Globo, recebe a mis¬são de entrevistar a escritora Clarice Lis¬pec-tor, que torcia o bico para esse tipo de pedido. Mas Castello cumpriu a missão. A primeira pergunta que ele fez foi, Por que você escreve? – Vou lhe responder com outra pergunta, disse ela, - Por que você bebe água? - Por que bebo água? Porque tenho sede. Ela redarguiu, concluindo: - Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva. Era assim a nossa Clarice (1920-1977) que, embora nascida Haia Pinkhasovna Lispector, em Tchetchelnik, Ucrânia, tinha orgulho em se declarar brasileira e pernambucana. Ela escrevia para não morrer. A vida é assim. Cada qual com o seu cada qual. Eu, por exemplo, passo a vida fazendo o que gosto, e o faço para me manter, também, vivo. Gosto do meu trabalho, da minha família, dos meus amigos, de correr, caminhar e, como dizem os franceses, de flanar. Reflito, penso, falo sozinho e converso com o mar. Como é bom conversar com o mar! Quantas verdades são atiradas em nossa cara! Toda vez que experimento a dor, lembro-me de uma frase do escritor e ocultista francês Eliphas Lévi (1810-1875): “Um sofrimento é sempre uma advertência, pior para quem não sabe compreendê-la. Quando a natureza puxa a corda, é porque caminhamos ao contrário; quando ela nos castiga, é que o perigo está perto. Desgraçado então de quem não reflete!"

Quando meus pais faleceram, tive uma conversa comigo mesmo e cheguei à conclusão que eles foram o veículo que produziu o meu físico. Comecei a rezar e agradecê-los de forma bastante profunda e respeitosa, como o faço até hoje. Não me deixaram bens materiais, mas me deram como herança um corpo com isenção de doenças que hoje chamamos "males da civilização". Esse foi o grande presente que ele deixou para os seus filhos. É claro que o que sofremos hoje é graças a nós mesmos, que lamentavelmente, os atraímos, muitas vezes irresponsavelmente. Mas, não podemos esquecer que a parte interior (nossa), a alma, é uma bênção de Deus. Aqui estamos para ganhar experiência e aprimorar a nossa personalidade. Portanto, “Decifra-te ou te devoram”, frase lapidar para que você possa lidar com o sentido da vida. As doenças da alma são causadas pela falta de conhecimento daquela pergunta tão necessária no nosso dia-a-dia: o que é e pra que serve a vida? Daí as experiências de história de vida que assistimos todos os dias, onde as pessoas se redescrevem e melhoram para se manterem vivas. Manoel Condez, 60, é pai de Marco Aurélio, 26, que possui seqüelas graves de paralisia cerebral. Durante os últimos quatro anos a sua rotina é dar banho no filho, pentear os seus cabelos, carregá-lo no colo até o carro e levá-lo para a faculdade de jornalismo a 17 km de onde mora. O pai assistiu a todas as aulas, anotou lições e viu o seu filho ser diplomado na semana passada na Universidade São Judas em São Paulo.      

Já contei essa história em outra crônica aqui publicada: Teresa Beatriz Viega era uma quase septuagenária de semblante descaído, pernas inchadas e passos curtos. Uma sacola na mão. Antes, ela virava a madrugada à procura do seu filho pelas ruas de São Paulo. No início conversava com ele, depois deixou de achá-lo. Ele estava preso. Foi acusado de tráfico. A polícia cidadã encontrou o suposto delinqüente com algumas pedras de crack. “Eu saía do serviço e vinha toda noite para cá ver João. Nem sempre o encontrava. Mas que filho não gosta de ver a mãe?” Dona Tereza permaneceu indo à Cracolândia. Não para ver o filho. Mas a barriga de Desirée, sua nora, e sonhar com o neto que estava ali. Grávida de quatro meses, Desirée, 35 anos, também era viciada em crack. “Não sei nem se esse é o nome verdadeiro dela, mas não vou abandoná-la”, sussurrava Tereza Beatriz. Dois jornalistas da Folha de S. Paulo acompanharam a procissão dos aflitos à qual Teresa se somou. Ela andou durante cerca de três horas à busca de Desirée. Achou-a numa pensão, perto da Estação da Luz. Desirée fumava crack desde os 12 anos. Achava difícil largar o vício. Teresa, porém, não perdia a esperança: “Você vai formar uma família comigo. Vai deixar tudo, sim.” Teresa era faxineira e recebia na época uma pensão de R$622 e ganha R$70 por dia de trabalho. Ninguém sabe do desfecho dessa história, mas Teresa deu um sentido à vida e o que ela fazia era para se manter viva. 

Dois outros grandes exemplos vindos de duas mulheres extraordinárias. Uma brasileira, nascida no interior do Paraná e que ficou conhecida como “O anjo de Hamburgo”. Aracy Moebius de Carvalho, nome de solteira, e Aracy Carvalho Guimarães Rosa, de casada. O seu nome está escrito no Jardim dos “Justos entre as Nações”, no Museu do Holocausto (Yad Vashem) em Israel e no de Washington (EUA). Dona Aracy, como era conhecida, trabalhou no Consulado do Brasil em Hamburgo, Alemanha, onde conheceu o escritor Guimarães Rosa e com ele se casou. Salvou judeus na Alemanha nazista, enfrentou as leis antissemitas do Estado Novo e escondeu perseguidos políticos durante a ditadura militar brasileira, como intelectuais, artistas, compositores e músicos. Quando morreu aos 102 anos, em São Paulo, sofria do mal de Alzheimer. Outra era a polaca Irene Sendler, conhecida como “O anjo do Gueto de Varsóvia”, que durante a Segunda Guerra trabalhava no Gueto de Varsóvia como especialista em canalizações. Salvou muitas crianças judias, aproximadamente 2.500, as quais eram transportadas em uma caixa de ferramentas. Descoberta, foi presa pela Gestapo e levada para a prisão de Pawiak, onde teve os ossos dos pés e das pernas quebrados. Embora condenada à morte, ela conseguiu fugir da prisão, ajudada por um soldado alemão. Morreu em 2008. Essas duas mulheres, assim como Oskar Shindler, fizeram da salvação de judeus a razão de suas vidas.

O grande cineasta alemão, Wim Wenders, dizia que muita coisa nos diverte, mas o que vale são as experiências que nos transformam. Todos esses exemplos e milhares de outros foram possíveis porque todos eles fizeram de todos os dias que viveram como o primeiro dia do resto de suas vidas.

Post Scriptum. Ele era sergipano e não sabia
Aos 63 anos, morreu em São Paulo, no dia primeiro deste mês, o jornalista Zoroastro Sant’Anna, que entre 2003 e 2010 viveu intensamente em Sergipe, participando umbilicalmente dos movimentos de vanguarda do jornalismo e da cultura. Zorô, como era carinhosamente chamado, tinha uma paixão frenética por Aracaju. E logo ele que viveu em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Frankfurt, Paris, Londres, Nova York, Los Angeles, Madrid, Lisboa e Roma, não se cansava de dizer que a brisa de Aracaju era única no mundo, porque ela tem o poder de nos acariciar. Interessante é que Zorô frequentou, na sua mocidade, os mesmos lugares que frequentei em Salvador: Instituto Cultural Brasil-Alemanha e Instituto Goeth, no Corredor da Vitória, Teatro Vila Velha no Campo Grande, Clube de Cinema da Bahia e o bar Na tonga da mironga do kabuletê, no Rio Vermelho. Nunca nos bicamos, o que veio somente acontecer aqui em Aracaju a partir de 2006. Antes da sua última vinda a Aracaju, no ano passado, estive com ele várias vezes no Rio de Janeiro, frequentando os lugares que ele tanto amava, como o Tio Sam, um boteco do Leblon. Ele estava fissurado com o seu projeto de realizar um longa-metragem sobre o cangaceiro Lampião. Zorô era um homem de princípios. Morreu pobre. Mas era um homem rico. Sua riqueza e seu legado foram suas idéias, ora contundentes, ora sutis, mas carregada de um senso de humor extraordinário. Zorô deixou saudades!  Era sergipano e não sabia!


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 1
Por Kleber Santos
31/03
14:21

O corsário do rei

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE

A primeira vez que vi Darcy Ribeiro foi numa palestra que ele veio fazer na Universidade Federal de Sergipe, onde eu exercia o cargo de Procurador Federal. Após o término de seu compromisso, ao lado de alguns professores e estudantes, fomos todos a um restaurante na praia de Atalaia. Passamos aproximadamente quatro horas juntos, tempo necessário para ele se apaixonar perdidamente por uma estudante que estava conosco e para o conhecermos como uma figura fascinante. A mim, impressionou seu talento, seu raciocínio rápido e a capacidade de discutir todo e qualquer assunto. Toquei num tema tabu dentro do meio acadêmico de então, que era o livro do filósofo José Arthur Gianotti, publicado alguns anos antes pela Editora Brasiliense, “A Universidade em ritmo de barbárie”. Este ensaio foi uma crítica feroz ao processo de degradação que passava a universidade brasileira, chegando o autor a afirmar que um pacto da mediocridade havia sido firmado na comunidade de ensino superior, onde o professor fingia que ensinava e o aluno fingia que estudava. Gianotti dizia que "Se não se apostar no poder acadêmico, se não se lhe abrir um espaço próprio, a universidade será enervada por suas convulsões. E como o país não pode dispensar institutos de pesquisa que alimentem o desenvolvimento tecnológico, e escolas que formem suas elites, ela será marginalizada e posta em banho-maria, enquanto uma burocracia ilustrada, apoiada no estado, tratará de criar centros de excelência destinados a cumprir as tarefas que a universidade não soube desenvolver. Uma enorme rede de ensino universitário servirá para enganar a demanda das massas, enquanto o verdadeiro conhecimento tomará outros rumos”, profetizava.

Quem esperava que Darcy fosse de encontro às teses de Gianotti quebrou a cara, pois, além de ratificar, em parte, os argumentos, levantava outros, como o pagamento de salário igual aos professores independentemente de sua produtividade, a falta de extensão e pesquisa, o despreparo dos professores, o péssimo percentual de doutores, etc. Darcy falava sem parar, ao tempo que investia com palavras dóceis e poéticas na beleza juvenil que aflorava em uma das estudantes que nos acompanhava. Fui levá-lo no hotel e no caminho ele falava maravilhas da encantadora jovem que acabara de conhecer. Falava da boca gulosa, dos olhos tristes, do sorriso e do seu charme. No dia seguinte fui levá-lo ao aeroporto. Ele não se esquecera da estudante da noite anterior. Queria um telefone, um contato. Prometi que conversaria com ela. Mas não falei. Ela namorava um colega estudante e ambos militavam num partido de esquerda. Depois, tive uns 3 ou 4 contatos pessoais com ele, sempre em reuniões do PDT em Brasília e Rio de Janeiro. Sempre se lembrava de perguntar de sua musa “sergipense”. Era gostoso conversar com Darcy. Ele sempre deixava uma dúvida, uma frase de efeito, uma tese que a gente carregava para reflexão. Era um homem tremendamente preocupado com o Brasil. Por que o Brasil ainda não deu certo? Era a pergunta que ele fazia ao chegar ao exílio, no Uruguai, em abril de 1964. Com essa idéia na cabeça começou a pensar numa forma de responder à pergunta. Trinta anos depois produziu, talvez, a sua maior obra, com o título de “O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil”, que, para ele, foi a melhor forma de influenciar as pessoas que aspiravam ajudar o Brasil a se encontrar como nação. Mas, infelizmente até hoje, sua pergunta continua sem resposta?

Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1997 soube de sua morte em Brasília. Imediatamente segui para o Rio de Janeiro, local do enterro, para lhe dar o meu último adeus. Na viagem e antes de chegar à Academia Brasileira de Letras, no Castelo, onde seu corpo foi velado, um filme passou em minha mente e passei a me lembrar das nossas conversas durante os parcos momentos de convivência. Desde 1995 que ele enfrentava um câncer nos ossos. No nosso último encontro até falamos sobre o assunto e eu falei de alguns amigos que tive e também sofria desse mal. Depois da doença, conheci um Darcy que tinha pressa em terminar alguns projetos, como a fundação que levaria o seu nome e que teria a sede na sua residência, em Copacabana. Lá estava eu, anonimamente, no Salão dos Poetas Românticos da ABL observando as pessoas e autoridades que vieram prestar a última homenagem. O escritor Dias Gomes foi quem melhor traçou o seu perfil: “O Darcy era um homem feito só de amor. Ele não tinha ódio no coração”. Enquanto o som de Bach contribuía para a nossa melancolia, chegava uma coroa de flores mandada por Fidel Castro com a frase “ao eterno amigo”. Era um cenário de tristeza, principalmente quando a presidente da ABL, escritora Nélida Piñon, fez o discurso de despedida. Na hora do enterro, ainda na sede da Academia, um quiproquó foi marcado pela falta de um veículo que levaria o caixão. Foi o que bastou para ataques e xingamentos serem desferidos contra o então governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar. Os ânimos foram acalmados e o enterro saiu da ABL até o Cemitério São João Batista, num trajeto de 7 km, onde no mausoléu dos acadêmicos, já à noite, Darcy foi enterrado.

Sim, mas o que tem a ver Darcy Ribeiro com a peça “O corsário do rei”, texto e direção do teatrólogo Augusto Boal? Em 1982, eleito vice-governador na chapa de Leonel Brizola do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro vivenciou em Paris a experiência do Centro de Teatro do Oprimido da capital francesa e convidou Boal, então exilado, para que aplicasse nas escolas públicas do Rio de Janeiro uma atividade similar, dentro daquela perspectiva revolucionária no âmbito da educação, tendo inclusive sugerido que o mesmo montasse um espetáculo na capital carioca. Depois de 14 anos no exílio, Boal montou a peça que trata das aventuras do corsário francês, Duguay Trouin, que invadiu o Rio com o propósito de ocupá-lo e depois revendê-lo aos portugueses e brasileiros. Para ele, era perder tempo e dinheiro com as meras operações de pirataria. O rei da França autorizou a empreitada. Daí por diante, muita sátira e denúncias da corrupção da administração e do clero, a exploração do capitalismo e todas as mazelas do Brasil de ontem e de hoje. A peça não foi bem recebida pela crítica. Armou-se um “bafafá" no cenário cultural brasileiro, de um lado defensores do talento de Augusto Boal, de outro, um segmento atrasado, provinciano, cujo espírito estaria marcado pelo chamado jequismo. Na verdade, uma postura preconceituosa contra um brasileiro que viveu no exílio. O sarrafo sofrido por Boal respingou em Darcy e impossibilitou as crianças das escolas do Rio viver a experiência do teatro do oprimido, tão bem explorado na Europa e com efeitos positivos.


Darcy disse certa vez: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Perdeu, também, na ânsia de amar um amor juvenil “sergipense”, mas neste caso, o fracasso não significa que ele fracassou; significa que não venceu. Ou, quem sabe, ela é quem perdeu!


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/03
14:51

CLÓVIS BARBOSA - O homem que não fazia perguntas

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe

Volto ao tema já retratado aqui no Jornal da Cidade em A banalidade do mal e O lavador de almas, publicado na edição de 3 de janeiro de 2010. Tinha lido, naquela época, a obra da cientista social judia Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal. Até a leitura daquela obra tinha uma visão distorcida do Tenente-Coronel da SS, Adolf Otto Eichmann (1906-1962). Projetava para ele a figura medonha de um homem sanguinário, violento, de uma fera brutal, desumana, capaz de matar as suas vítimas paulatinamente e com as mais perversas formas. Qual nada, Eichmann era um burocrata especializado no uso do apito, clipe, carimbo e grampeador. O espantoso era que ele se tornou conhecido como o “executor-chefe do terceiro reich”. E tudo isso só foi possível avaliar após sua captura pela Mossad, a polícia secreta israelense, na cidade de Buenos Aires, em 1960, local onde ele viveu após o fim da Segunda Guerra Mundial. Drogado, foi enviado para Israel onde se submeteu a julgamento. Arendt acompanhou o julgamento para a revista New Yorker. E a idéia que se tinha dele era a de ter participado de fatos terríveis e praticado crimes contra a humanidade. Ao invés de um sádico, a escritora conheceu uma figura comum, que não pensava, que não fazia perguntas e que tinha sempre a mesma resposta: “eu cumpri com o meu dever”. Diante desse quadro, fiquei na dúvida sobre a esfera que eu iria abordar do seu comportamento, se na psicológica ou na moral. Dei ênfase à psicológica, uma vez que a sua mente estava mapeada segundo ângulos direcionados à psicopatia. É verdade que psicopatas não são doentes ou deficientes mentais, pois, no caso de Eichmann, ele nem tinha distúrbio que afetava a sua percepção, nem tinha enfermidade que alcançava a inteligência. Como se sabe, psicopatia é uma condição, inata e irreversível. Ser psicopata é como ser branco, negro ou índio. Assim como um índio nasceu e morrerá índio, um psicopata nasce e morre psicopata.

Eichmann foi um artesão na escrituração da morte. Ele não estava preocupado com a justiça ou com a injustiça da execução em massa dos judeus. Sua irresignação moral partia do princípio em que a morte de judeus era uma política do Estado ao qual servia. Ele não tinha nada a ver com isso e nem queria saber. Para ele, não importava o que iria acontecer com os judeus, malgrado saber que o destino de seus passageiros eram os campos de concentração da Polônia, transformados em fábricas da morte, onde centenas de pessoas eram trancadas em câmaras de gás sob o pretexto de tomarem banho. Mas, na realidade, elas eram intoxicadas com gás zyclon. Portanto, para o nazismo, operacionalizar o extermínio desse povo implicava tão-somente em uma etapa da cadeia engrenada por fases matematicamente estabelecidas, a exemplo de fazer a triagem dos que iriam morrer, levá-los aos trens que os transportariam até a zona de execução, cumprir rigorosamente horários de saída e de chegada das locomotivas, conduzir os condenados às câmaras de gás e, por fim, matá-los. Era a chamada “Solução Final” (Endlösung der Judenfrage), uma das estratégias mais hediondas do holocausto e que tratava do genocídio sistemático do povo judeu. A tática desse plano odiento assumia cores semelhantes às que permeiam os armários de um escritório de contabilidade. Judeus mortos eram apenas números, vistos sem índice moral. Nesse sentido, Eichmann banalizou o mal, transformando a fattispecie numa atividade instrumental. Aniquilar judeus, para Eichmann, não era algo mau e, tampouco, bom, mas só uma instância, dentro do processo de sedimentação da filosofia nacional-socialista, de cuja implementação a manutenção de seu status dependia. Da mesma maneira que um comerciante de livros precisava vender mais compêndios para garantir o emprego, Eichmann se notabilizou como workaholic na matança de judeus para ascender na escala de respeitabilidade do establishment nazista.

A essa postura, desprovida de sentimento ou valoração, vazia de compaixão, piedade ou até mesmo de raiva, Hannah Arendt chamou “banalização do mal”. Alguém, cuja pulsação sanguínea coordene-se pela moralidade afeta à noção de bem e mal, sabe que a ação nazista foi perversa. Essa assertiva não se subordina a digressões para encontrar pálio de validade. Ali onde, todavia, burocratas vêem a trucidação de humanos com indiferença, conferindo-lhes a envergadura de códigos de barra, o mal passa a ser corriqueiro, trivial, como resolver uma equação de álgebra. Eichmann queria cumprir seu múnus com extremo profissionalismo, procurando ser, inclusive, o mais competente dentre os colegas responsáveis por outras estações. Ele banalizou a morte, disfarçando-a atrás da performance institucional. Um grande momento do julgamento foi quando ele disse que agia de acordo com a teoria do dever moral de Kant, uma vez que seguia ordens e atuava no estrito cumprimento de um dever legal, uma das excludentes de ilicitude prevista em todos os códigos penais modernos. Kant pertenceu ao chamado grupo que defendia uma das matrizes do sistema ético, a chamada deontologia, onde são os princípios que importam. Se a regra é “não matarás”, “não roubarás”, “não mentirás”, viola o sistema quem as descumprir, pois amparadas por ideais universais. Ademais, Kant entendia que o respeito a dignidade humana era um princípio fundamental da moral.

Mas, os argumentos de Eichmann não o livraram de uma sentença de morte a 15 de dezembro de 1961. Menos de seis meses depois, a 1º de junho de 1962, ele foi enforcado na prisão de Ramla, próximo a Tel Aviv. A decisão causou muita controvérsia, principalmente entre os juristas, isto pela prova colacionada contra o famoso réu, quase toda testemunho de sobreviventes do holocausto. Eichmann assistiu passivamente o desenrolar dos acontecimentos sentado atrás de um vidro à prova de balas e de som. Não questionou a decisão. Nada perguntou sobre as regras que lhe eram dadas, até porque ele era um homem que não fazia perguntas.

Post Scriptum. Um editorialista do bom combate

Tive acesso a alguns editoriais polêmicos do jornalista e membro da Academia Sergipana de Letras, João Oliva Alves. Um particularmente me impressionou pelo talento e lhaneza do debate, duro, mas respeitoso: João Oliva Alves versus José Aloísio de Campos, professor e ex-reitor da Universidade Federal de Sergipe. Oliva, um católico ligado intimamente a um grupo laico, ao lado do saudoso professor José Silvério Leite Fontes, foi, talvez, um dos maiores editorialistas do jornalismo sergipano em todos os tempos, tendo pontificado no jornal A Cruzada, Rádio Cultura de Sergipe e Gazeta de Sergipe. É imensa a sua produção jornalística e muitos foram os seus embates e polêmicas com figuras exponenciais da cultura e política de Sergipe. João Oliva Alves precisa urgentemente disponibilizar esse material transformando-o em livro. As novas gerações vão agradecer. O velho Oliva é um daqueles homens que pode bater no peito e dizer que combateu o bom combate. Duvida? Aguarde, já no prelo, Mural de Impressões, onde fala sobre personalidades sergipanas, literatura, jornalismo, ensaios e memorialística. Mas não basta! Que venha também, logo depois, os embates enfrentados na sua vida jornalística. Será bom para a nossa história.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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