28/04
16:33

Aleluia (Hallelujah)

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Na segunda-feira de Carnaval deste ano fui ao Bairro da Liberdade, em São Paulo. Enquanto minha mulher andava pelas lojas, sentei-me na praça para ouvir um violonista de rua tocando clássicos da música mundial. Sucessos como Perhaps Love, Yesterday, Imagine, You and I, Let It Be, One Moment In Time, Champagne, Volver a Los 17, The End, Always on My Mind, My Way, What a Wonderful World, e tantos outros, desfilavam encantando a minha alma, dos transeuntes e de algumas pessoas que paravam para ouvir o som virtuoso daquele instrumento musical. Repentinamente, surge uma mendiga, de vestes simples, e implora para que o músico toque para ela a música Aleluia, de Leonard Cohen. O músico não deu bolas. Ela aproximou-se de mim e, após falar o nome do compositor, olhou nos meus olhos, e disse: - Eu adoro essa música. Ela fala de Davi, o rei, e sua doentia paixão por Betsabeia, mulher de um guerreiro. Fiquei impressionado com o conhecimento daquela jovem de rua, maltratada miseravelmente pela vida, que gostaria de ter um momento de enlevo e paz na alma. Mandei-a esperar! Fui ao músico, aproximei-me, coloquei 20 reais na sua cesta e pedi que tocasse Aleluia. Voltei para o meu lugar e disse a ela que a música iria ser interpretada. Assim que a canção começou, ela aproximou-se do violonista (foto acima), sentou-se no chão e passou a ouvi-la emocionada, sem esconder as lágrimas que vertiam dos seus olhos. Terminada a música, ela veio a mim e disse: - Obrigada, você me deu um pouco de amor! Pegou em minha mão e afastou-se. Comecei a pensar naquela menina e nas razões que a levaram a viver naquela situação de flagelo e de exclusão. Lamentavelmente, tanto a sociedade como o Estado ainda tratam o problema com o chamado preconceito negativo, o que impossibilita cada vez mais a inclusão dessa fatia da população de rua de terem sua cidadania reconhecida. Como diria Vinícius, a vida não é brincadeira, amigo. A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida.

Já falei aqui sobre o episódio bíblico que envolveu o rei Davi e Betsabeia, tão bem invocada na música do compositor canadense Leonard Cohen, falecido no final de 2016. O fato ocorreu na varanda do seu castelo, quando, de lá, avistou uma jovem a banhar-se nua. Deliciosamente nua. A limpidez arquitetônica daquele singelo corpo o hipnotizou. Imediatamente, o monarca indagou quem seria tão rara espécime. Responderam tratar-se de Betsabeia, filha de Eliam e mulher de Urias. O rei, ainda assim, não se conteve. Mandou trazer-lhe a moça, embora comprometida, para o seu quarto, onde a estuprou. Ocorre que Betsabeia engravidou e mandou dar ciência a Davi da tragédia. Ele empalideceu. A coisa piorou ainda mais com a maldição que lhe foi irrogada pelo profeta Natã. Quem quiser conhecer toda a história, que se debruce sobre os Capítulos 11 e 12 do Segundo Livro de Samuel. Relevante, por enquanto, é mostrar a referência que Aleluia faz ao episódio. Aliás, como todos sabem, a palavra original é Hallelujah, palavra de origem hebraica e que tem como significado “louvai a Deus”. Etimologicamente, ela é dividida em duas partes, hallelu (louvai) e jah, forma abreviada de Yahweh, um dos nomes de Deus. Claro que a música de Cohen, apesar da sua beleza ímpar, tem uma letra bastante emblemática, o que, desde o seu lançamento, criou uma série de polêmicas em relação às diversas interpretações e críticas. A menina da Praça da Liberdade me disse que a música falava do rei Davi e do seu desvario em relação a Betsabeia. É verdade. A letra diz mais ou menos: “Eu ouvi dizer que havia um acorde secreto / Que Davi tocava e agradava ao Senhor / Mas você não liga muito para música, não é? / É assim: a quarta, a quinta / A menor cai, a maior ascende / O rei perplexo compondo Aleluia. / Aleluia, Aleluia. / Sua fé era forte, mas você precisava de provas / Você a viu se banhando no telhado / A beleza dela e o luar arruinaram você / Ela te amarrou à cadeira da cozinha / E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo / E dos seus lábios ela tirou o Aleluia / Aleluia, Aleluia...”.

Mas na semana passada, comemorando a Semana Santa, reservei alguns dias para rezar. Fiquei perplexo com a ausência dos católicos em data tão significativa da história do Cristianismo. A começar no Domingo de Ramos, nas missas vespertina e do Encontro na Catedral, ora funcionando no auditório da Rádio Cultura. O encontro da imagem de Nossa Senhora das Dores, vinda da Igreja de São José, com a de Senhor dos Passos, da Igreja do Espírito Santo, veio acompanhado de quatro gatos pingados, numa prova inconteste do afastamento dos católicos à prática dos sacramentos, ao pleno relacionamento com Jesus Cristo e à Igreja fundada por Ele. Paradoxalmente, temos hoje um Papa que teve a coragem de tirar do armário os esqueletos que tanto contribuíram para a perda de fiéis. Sim, o Papa Francisco é tudo que queríamos, mais coerente com os ensinamentos de Cristo do que apegado aos dogmas da igreja. Entretanto, esta ausência cada vez maior da comunidade não se justifica diante dessa nova fase da Igreja Católica, que não tem medo de criticar os seus erros, que revaloriza a tradição popular, que questiona a incoerência dos cristãos e de seus ministros. Hoje, defende as pessoas que passam fome, quem é perseguido pela religião, pelas ideias, pela cor da pele e até pelas opções sexuais. E o mais importante, a pregação da solidariedade, tão esquecida nos dias presentes. Num mundo eminentemente materialista, como o nosso, a civilidade dá cada vez mais lugar à barbárie. Esta observação de inércia dos fiéis, pude acompanhar nas missas de quinta a domingo da pequena Igreja da Praia do Forte, município de Mata de São João. Com uma esmagadora maioria de turistas e poucos moradores do local, as celebrações encantaram a todos. Ceia do Senhor e Lava-pés, na noite de quinta-feira; Paixão do Senhor, na sexta-feira; Vigília Pascal do Senhor, no sábado; e Páscoa, no domingo. É, como já disse o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, “ser católico não é para quem quer, é para quem pode”.

A Semana Santa nos traz, também, uma reflexão sobre o comportamento de Pilatos diante do julgamento de Cristo, matéria já tratada no artigo “Ecce Homo”. Em meio a um debate sobre o comportamento dos juízes, quiseram saber se qualificaria como “omissa” a decisão tomada por Pilatos contra Cristo. Repliquei que não. “Desprezível”, foi a resposta, “na acepção mais diminutiva que puder ser atribuída à palavra”. E expliquei por que empregara termo suficientemente carregado de menosprezo e rejeição. Pilatos é asqueroso e repulsivo não por aquilo que o afamou (o suposto ato de abster-se quanto à condenação de Jesus). Não. A conduta que verdadeiramente o realça não é a da neutralidade quanto ao assassinato do redentor, pois ele decidiu. A dramaturgia abjeta, estampada na sujeira moral de lavar as mãos, não implicou uma renúncia à prerrogativa de sentenciar, mas redundou num pronunciamento de submissão à chantagem da ralé farisaica (que insinuara ser a libertação de Cristo um atentado contra a soberania do imperador). E, nisso, o prefeito da Judéia tremeu. Pensem comigo. Que reação esperar de covardes, ali onde são postos diante dum jogo de sonora inevitabilidade? Gente sem couraça e dinamismo de caráter logo argui a incompetência para deliberar como válvula de escape. Foi o primeiro recurso de que Pilatos lançou mão. Ao saber que o réu, sobre o qual pesava a imputação de blasfêmia (porquanto se tivesse apresentado como a própria divindade), era egresso da Galileia, driblou a pressão da turba, declarando que só Herodes podia debruçar-se sobre a suposta infração. Com isso, ainda conseguiu reatar laços com o governante da província vizinha, seu desafeto até então. O desmiolado, porém, ao invés de ater-se ao libelo que os adversários de Jesus irrogavam, armou uma patacoada e fez estridente panavoeiro circense, exigindo de Cristo a realização de milagres, em troca da absolvição. Ante o silêncio do acusado, tomou-o por louco e o devolveu para Pilatos.

Sendo Páscoa, o prefeito partiu para aquilo que, contemporaneamente, chamaríamos “plano b”. Utilizou a tradição de libertar alguém contra quem tivesse sido prolatada pena capital. Medroso, em vez de ele próprio emancipar o homem que sabia inocente, apostou naquilo que, estrategicamente, era a logística do comodismo. Pinçou Barrabás, o mais seboso dentre os delinquentes presos nas masmorras, pondo-o ao lado do nazareno, a fim de compelir a multidão a ser compassiva. Seria um despautério anistiar o outro, contra quem pesavam medonhos antecedentes. Barrabás era um assassino contumaz, estuprador detestável e ladrão repugnante. Na fragilidade mental que intoxicava o pensamento de Pilatos, o povo nunca optaria por ver solto um câncer dessa dimensão. Mas optou. “Dê-nos Barrabás”. Mas também restava a Pilatos o uso da chantagem. Canalhas sempre se impõem à função enlameada do chantagista. Mandou trazer água. Nela, pretendeu lavar as mãos do sangue dum justo. “Minhas mãos estão limpas do sangue deste homem”. “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, rebateu a multidão. “Ele disse ser o seu rei. Vocês matariam o seu rei?”. “Não temos rei, senão César. Se você não matá-lo irá pôr-se contra César, nosso único rei”. Foi o quanto bastou. Agora, embora de mãos lavadas, Pilatos viu-se emporcalhado. E, chafurdando, decidiu. Aqui surge o dado que poucos equacionam. Lavar as mãos não foi deixar de decidir. Lavar as mãos traduziu um estelionato litúrgico de autojustificação, como quem diz que decide contra seus princípios, mas porque as amarras que lhe impuseram não o deixaram solto para decidir como a voz de sua consciência balbuciava. Não contemporizo. Quem desejar manter as mãos limpas, não as lava com água, mas com princípios. Daí, meu irredutível desprezo por Pilatos. Apegado à formalidade e à insana demagogia dos fariseus, imolou um justo e livrou um pilantra. De mãos “limpas”, mas com o espírito encardido, suicidou-se quatro anos após, chantageado por Calígula. É o fim de pessoas cartilaginosas.

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.  


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Por Kleber Santos
14/04
20:47

Quarta-feira de cinzas

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em 2010 foi lançado em Paris um livro que causou a maior polêmica. Tratava-se de uma obra de Michel Onfray, doutor em filosofia, defensor do hedonismo, do ateísmo e da anarquia, autor de mais de 40 livros. “Le Crépuscule d’une Ídolo – L’affabulation Freudienne” é tida como um morteiro de alto calibre direcionado à vida e obra freudiana. Após passar o sarrafo na psicanálise, acusando-a de ser uma ciência nazista e fascista, entra na vida pessoal de Freud, incriminando-o de se apropriar de textos de Schopenhauer e Nietzsche, de ser um burguês inveterado pela celebridade e até de manter uma relação adúltera com uma cunhada que vivia em sua casa. Por fim, taxa-o de falocrata, misógino e homofóbico. A reação ao escrito de Onfray, segundo matéria publicada na Folha de São Paulo, edição de 25 de abril de 2010, Caderno Mais, veio de dois intelectuais: Elisabeth Roudinesco, psicanalista, nascida em 1944, professora de História da Universidade de Paris, autora de “Em defesa da Psicanálise” e “A Parte Obscura de Nós Mesmos”; e John Forrester (1949-2015), que foi Chefe do Departamento de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, autor de “Seduções da Psicanálise”. Roudinesco, inclusive, desafiou Onfray para um debate e ele não aceitou. Interessante... tanto o nazismo como o fascismo não morriam de amores pela psicanálise. E sabem de uma coisa?! Não estou nem aí para o que dizem de Freud! O que interessa é o legado que ele deixou para a humanidade, como, por exemplo, quando ele enfoca a questão do desenvolvimento humano. A propósito, a civilidade pressupõe três elementos essenciais para sua desenvoltura: beleza, limpeza e ordem. Isto é de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Não só isso, mas o homem que reinventou tudo o que se sabia até então sobre a alma humana. Tudo o que é “civilizado” é limpo e, portanto, ordenado. Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, professor da Universidade de Varsóvia, na sua obra “O mal-estar da pós-modernidade”, afirma que o estado de “limpo” ou “sujo” relaciona-se ao estado de “ordenado” ou “desordenado”. A limpeza em sua concepção é o estado de ordenamento das coisas.

O que está no lugar certo está limpo e não está “sujando” outras coisas. Ele diz: “O oposto da ‘pureza’, o sujo, o imundo, os ‘agentes poluidores’ – são coisas ‘fora do lugar’. Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em ‘sujas’, mas tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem das coisas idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são ‘sujas’ num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num outro lugar – e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao mundo dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato de jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro”. A concepção de limpeza, nesse contexto de elo com a civilização, ou com a cultura, como queria Freud, importa na análise de uma questão abordada por Bauman. Veja: “Há, porém, coisas para as quais o ‘lugar certo’ não foi reservado em qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam ‘fora do lugar’ em toda parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo de pureza tem sido destinado. Mais frequentemente, estas são coisas móveis, coisas que não se cravarão no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por livre vontade. A dificuldade com essas coisas é que elas cruzarão as fronteiras, convidadas ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza ‘para colocarem as coisas em seu lugar’ e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as acomodações”. Conceber-se civilizado é, portanto, não sujar nem estar sujo, ou, ainda, não desordenar a ordem exigida pela civilização. Ante essa proposição, configurada e até um tanto intrínseca à mentalidade do homem civilizado, obtemos resposta para as atitudes individuais e coletivas de rejeição ao estranho e ao estrangeiro. Noutra quadra, o homem deseja obter felicidade. Todos querem ser e permanecer felizes. Para atingir esse objetivo, a ação humana deve visar não apenas a supressão do sofrimento e do desprazer, mas também a experimentação de sentimento de prazer, intensa e permanentemente.

As experiências de prazer podem ser intensas, mas permanentes não. Qualquer prazer permanente deixa de ser prazer. Freud cita Goethe: “nada é mais difícil de suportar do que a sucessão de dias belos”. Assim, a felicidade resume-se a momentos, a experiências passageiras. A infelicidade, por sua vez, não perde sua força nem vigor se perseverar. Pode até se tornar crônica no indivíduo. E quais são os motivos da infelicidade, senão o sofrimento? Freud reflete sofrimento a partir de três direções: de nosso próprio corpo, do mundo externo e de nossos relacionamentos com os outros homens. Nosso corpo envelhece, adoece e nos ameaça constantemente de dissolução. A sua decadência natural sempre foi motivo de profundo sofrimento e, nos tempos atuais, tem sido francamente combatida por processos médicos de todo o gênero. A medicina desenvolve, testa e aplica dezenas de métodos de manutenção e conservação corporal, utilizando medicamentos e cirurgias – como a plástica – que rejuvenescem. Contudo, o tempo é implacável e todos sabem que o corpo não resistirá. A segunda fonte de sofrimento advém do mundo externo, “que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas”. Essa ameaça é tão evidente quanto a da dissolução do corpo. Semanalmente, sabemos da ocorrência de catástrofes e, a cada ano, elas se aproximam de nossas casas, como resultado dos saques que fazemos à natureza. Finalmente, nosso relacionamento com outros homens é a fonte mais penosa do sofrimento que qualquer outra. Podemos nos conformar com a fatalidade da morte e das catástrofes por estarem além de nossas possibilidades de evitá-las; mas sucumbir à vontade, ao capricho ou à ganância de outro homem não nos é dado resignar. Mas existe um modelo de bem-estar espiritual ou de paz interior? Certa vez, perguntei ao amigo Luiz Eduardo Oliva o que era felicidade. Ele me respondeu com esta bela crônica - onde mostra que muitas vezes as coisas mais simples são as que nos dão mais prazer - à qual deu o título de “Quarta-Feira de Cinzas”:

“Na quarta-feira de cinzas cai o pano. A vida volta à realidade. Os bacantes recolhidos salivam o sabor azedo da ressaca. Há ainda uma confusão na mente, ressoa o eco dos dias da tríade momesca. Vem a velha canção carnaval desengano, deixei a dor em casa me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei, quarta-feira sempre desce o pano! Ah, a felicidade... e afinal, o que é a felicidade? Indagava-me ontem o velho Clóvis ao brindar um Pinot Noir numa cantina ítalo-sergipana nada momesca. Eis a pergunta para nenhuma resposta convincente. A única que me ocorre é que a felicidade é a festa do coração, dura enquanto durar a festa. Lembrei-lhe o grande J. Inácio, o mágico pintor do amarelo, da luz do sol e das bananeiras nas terras Del Rey que um dia, exaltando o pintor de paredes no seu ofício numa manhã nos anos oitenta dum festival de arte de São Cristóvão, disse-me: - Não sei porque os homens fazem festas. Para mim a festa é o sol que invade meu quarto trazendo todas as cores quando acordo e me diz: homem, vai pintar... Então lembrei a canção de Haroldo Barbosa e Luiz Reis ... eu abri a janela e esse sol entrou... de repente, em minha vida já tão fria e sem desejos... estes festejos, esta emoção... luminosa manhã... porque tanta luz, tanto azul... é demais pro meu coração... Vejo o quadro "Quarta-feira de cinzas", obra do pintor alemão Carl Spitzweg, e observo quanta verdade há nele para retratar o fim do carnaval... Um pierrot e sua realidade: finda a festa, de volta à prisão da vida, uma tosca moringa d'água e um exuberante raio do sol da esperança a atravessar as grades da prisão da vida... carnaval desengano... Volto à pergunta do velho Clóvis: E a felicidade...? Uma luminosa manhã...” Retorno ao velho Bauman. Para ele, há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. Um é a segurança e o outro a liberdade. Você não consegue ser feliz ou ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escravidão e liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Daí, segundo ele, a necessidade dos dois estarem sempre engatados como dois irmãos siameses.

A verdade é que, entre críticas e ataques rabugentos contra personalidades que revolucionaram o mundo, a humanidade tem dado seus passos nessa longa caminhada, ali avançando, aqui recuando, mas sempre em busca da perfeição e de um mundo cada vez mais civilizado. Enfim, Sr. Michel Onfray, como diria Winston Churchill, “é melhor fazer história do que se submeter a ela; ser um ator em vez de um crítico”.


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Por Kleber Santos
31/03
13:22

O cabaré destampado

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Aracaju, como todas as cidades, possui os seus tipos populares que fizeram e fazem a alegria da molecada. Os fatos grotescos, jocosos e até inusitados integram parte da história da cidade. Enfim, se é verdade o que o grande escritor russo de Guerra e Paz, Leon Tolstoi, afirmou sobre a compreensão do mundo – a qual deveria começar pela sua aldeia - eis aqui algumas figuras que vivenciaram a paisagem aracajuana. Todos já morreram, mas tornaram-se importantes personagens folclóricas ou mesmo lendas urbanas. Falar desses tipos é, também, registrar as tragédias humanas, tão comuns nas grandes e pequenas cidades. Começemos com Tô Te Ajeitando, um alagoano de baixa estatura, magro, olhos azuis, rosto esquálido e que sempre trajava paletó, gravata e camisas berrantes. Vivia da venda de bilhetes da Loteria Federal. Pouco da sua vida se conhece. Na verdade, apenas a origem do apelido. É que ele ao responder aos transeuntes se tinha namorada, sempre dizia: - Tô ajeitando. Viveu numa casa na avenida Desembargador Maynard e antes de morrer encontrava-se quase cego. Não gostava do apelido e queria ver ele “pegar ar” era também chamá-lo de Macaca de Maiô. Seu nome verdadeiro era Domingos Correia da Silva. Pipiri, cujo nome de batismo era Humberto Santos, nascido em Penedo-AL, era filho de uma lavadeira, Dona Umbelina, que residia na rua de Campos com Santa Luzia. Dizem que o processo de preconceito e discriminação sofrido é o motivo que o levou ao alcoolismo. Gostava de imitar ronco de porco, miado de gato, latido de cachorro, barulho de carro, políticos e autoridades conhecidas da cidade, resfolego do trem, simulava entrevistas e passava o tempo mostrando ao povo seus dotes artísticos. Quando bebia se transformava completamente, tornando-se incoveniente e desrespeitoso com tudo e todos. Não foram poucas as vezes em que era chamado na polícia para receber uns “conselhos”. 

Sóbrio, fazia a alegria da cidade com suas imitações e apresentações artísticas nas praças e colégios. Era chamado pelas crianças como O maluco de Deus. Morreu atropelado na avenida Barão de Maruim. Foi imortalizado pela Prefeitura de Aracaju com o prêmio que leva o seu nome e homenageia personalidades que se destacam nas diversas atividades sociais, artísticas e econômicas. Roberto Corcunda era dono de uma birosca na rua Simão Dias com Bomfim, à época, zona do meretrício. Amigueiro e tratável com todos, virava uma fera quando o chamavam de Roberto Corcunda. A turma não perdoava. Propositalmente, chegavam na bodega, pediam uma cachaça e diziam antecipadamente que não tinham dinheiro para pagar. Isso irritava o corcunda que negava atender o pedido. O interlocutor então gritava já na porta saindo: - Roberto Corcunda, corno miserável! Ele perdia as estribeiras e saía atrás do ofensor com um cacete na mão. Certa vez sofreu um acidente e, diante de tanta massagem que estava recebendo dos enfermeiros, disse: - Não adianta me desempenar não, doutor! Eu sou corcunda de nascença. Artur Paiva foi uma figura excêntrica, que frequentava cotidianamente o Empório Santo Antônio na rua Arauá com Estância, onde hoje funciona uma padaria. Era o primeiro freguês a entrar no estabelecimento assim que suas portas estavam abertas. Dizem que era um exímio pianista, poeta, filósofo, que gostava de fazer citações e recitar sonetos de Augusto dos Anjos, seu poeta preferido. Seu companheiro inseparável era Jackson, um alfaiate, que também frequentava o Empório. Ao se encontrarem, assim se cumprimentavam: - Sr. Artur Póteris ou não Póteris? Artur respondia: - Neguris tateris. E começavam a beber. Falam que foi ele quem criou a frase “Homem educado não diz palavrão, não compra fiado nem cospe no chão”, transformada numa plaqueta muito comum nas biroscas de bairro. 

Certa vez perguntaram-no se era casado, ao que respondeu prontamente: - Perante o altar da saudade, casei-me com a tristeza. Contam que foi por uma desventura amorosa que se tornou alcóolatra. Teria se apaixonado perdidamente por uma paraense. Quando retornou a Belém para revê-la, soubera que tinha partido com outro. Como pianista, era magnífica a interpretação que fazia da música Valsa das sombras, de Al Dubin e Harry Warren, versão de Oswaldo Santiago. Era emocionante a sua tocata, pois chorava e contagiava os ouvintes. Popó era um alcóolatra que residia numa casinha na rua Maruim, esquina com Itabaiana, e que tinha um senso de humor extraordinário. Todos os dias tomava o Bonde I, do Bairro Industrial, que passava pelo Mercado Municipal, onde ele desembarcava. Pilheriando com uns e outros e tomando suas pingas, retornava à sua casa ao meio dia já bêbado. Sempre voltava à sua residência através do Bonde 2, que vinha do Santo Antônio. Ao se aproximar do ponto, ele gritava: - Motorneiro, pare o bonde pra descer um corno! Descia do transporte e, quando este se afastava, gritava: - Motorneiro, leve o resto! Valtinho era uma figura típica que tinha a mania de colecionar fotos 3x4, os chamados santinhos. Dificilmente na época alguém deixava de andar com esse tipo de retrato na carteira. Ele enjoava tanto os transeuntes que, para ficarem livres do assédio, terminavam presenteando-o com uma fotografia. As imediações do cachorro-quente do Seu João, no Parque Teófilo Dantas, era o local de sua preferência. Dizem que, após a sua morte, encontraram no seu quartinho mais de 30 mil fotografias de diversas pessoas de Aracaju. Doutor Leandro, o Santo Dotô, era uma figura bastante inteligente que perambulava pelas ruas de Aracaju. Tratava a tudo e todos sempre com o epíteto Santo. Era santa casa, santo esposo, santa loja, santo banco, santa pessoa, santo cachorro, santa comida, santo homem, santa mulher, etc. 

Dizia chamar-se pomposamente Doutor Leandro Gonçalo Prado Rollemberg Leite da Cruz Franco Proprietário de Tudo e Santo Deus. Conseguiu juntar nesse comprido nome todas as matizes políticas e nomes tradicionais de Sergipe à época. Dizia-se um homem rico, com milhões depositados no banco, contudo nada podia sacar por não possuir carteira de identidade. Era comum no centro da cidade ele abordar as pessoas e perguntar: - Santo homem, o senhor tem carteira de identidade? Ao receber a resposta sim, convidava a pessoa para ir ao banco testemunhar em seu favor para receber as supostas quantias depositadas em sua conta. Era um ser pacífico e gozava da estima de todos os aracajuanos. Balrimore e Tonho Aleijadinho, dupla de engraxates que trabalhavam num salão da rua João Pessoa. Balrimore dizia-se parecido com o famoso ator americano John Barrymore, que estrelou vários filmes como o Médico e o Monstro e Grande Hotel. Tonho Aleijadinho era cotó das duas pernas e andava num carrinho de rolimã. De segunda a sexta a dupla não farreava e iam da casa para o trabalho e daí para casa. Aos sábados, porém, eram encontrados no Bar Apolo, na rua João Pessoa, sempre na mesma mesa. Balrimore pegava Tonho Aleijadinho pelo braço e o colocava numa cadeira. Lá pras tantas, já bêbado, Tonho Aleijadinho caía da cadeira e era levantado pelo seu companheiro, sempre com uma reprimenda: - Se cair de novo, te levo para casa. Né homem não, porra! Eles continuavam bebendo e Tonho Aleijadinho caía várias vezes da cadeira e sempre era repreendido com as mesmas palavras por Balrimore. Mané Imbuaça morava na rua Santa Luzia, entre Riachuelo e a praça Tobias Barreto. Vivia de fazer carrego com uma tropa de jegues de sua propriedade. No final da tarde, sempre voltava para sua casa bêbado acompanhado dos seus animais. Nos finais de semana, tornava-se um artista com o seu pandeiro, improvisando versos e cantando emboladas pelas ruas.

Era uma forma de acrescentar alguma coisa ao seu orçamento. Alcides Mello, o grande compositor de Mercado Tales Ferraz e um dos mais brilhantes músicos de Sergipe, hoje residindo em Uberaba-MG, era fã do talento de Mané Imbuaça e o carregava para os principais lugares de Aracaju, sempre o apresentando como um grande artista. Certa vez, levou Mané à praça do Mini Golf - onde hoje se situa a sede da OAB - principal point da juventude e dos intelectuais da capital à época. Ao sentarem-se num bar entupido de jovens que trocavam carícias, lá pras tantas, já bêbado, Mané Imbuaça perguntou para Alcides: - Ô Alcide, isso aqui é um cabaré destampado? Mané Imbuaça foi assassinado a pauladas, porém, o seu nome se imortalizou num grupo teatral sergipano reconhecido mundialmente, o Grupo Imbuaça, com mais de quarenta anos de serviços prestados à cultura de Sergipe. Madonna, a rainha das ruas de Ará, perambulava pelas ruas de Aracaju, vivendo de pequenos biscates e da boa vontade das pessoas. Homossexual assumido, defendia, com unhas e dentes, a sua opção sexual. Bom de briga e no uso da faca, esteve várias vezes preso pela prática do crime de lesão corporal, pois não admitia atos homofóbicos contra ele. Ninguém o conhecia pelo seu nome de batismo, Amós Lima Chagas, mas pelo seu apelido Madonna, um dos tipos mais populares e conhecidos de Aracaju. Era uma pessoa prestativa e muito solidária com quem ela gostava. Certa vez, estava conversando com um amigo comerciante da Rua 24 horas, num estacionamento da rua Laranjeiras, esquina com Capela. Repentinamente chega Madonna e fala para este meu amigo: - Gordinho gostoso! Vim buscar a minha mesada! Irritado com a petulância, o comerciante retrucou: - Não tem mesada porra nenhuma, me respeite viado safado! Madonna botou as mãos nos quartos e foi logo replicando: - Ah, é?!  Agora sou viado safado?! Quando você me comia eu não era! Pois vou espalhar na Rua 24 horas o que você fazia comigo dentro da loja! 

Foi um Deus nos acuda para o meu amigo, que espavorido disse: - Não! Não! Por favor, tome aqui 20 reais. Um casal proprietário de uma gráfica no centro da cidade gostava muito dele e resolveu mudar a sua vida. Ofereceu-lhe um emprego com carteira assinada. E não é que o quadro mudou completamente para Madonna? Com carteira assinada, calça comprida e camisa social, todos os dias ele chegava e saía religiosamente no horário comercial da gráfica. Ajudava na oficina, limpava as máquinas, fazia pagamentos bancários. Era um autêntico “faz-tudo” no seu emprego. Abandonou os trejeitos femininos, deixou a droga e até estava mais tolerante com os moleques que mexiam com ele, engolindo vários tipos de “sapos”. O Bar da Finha, na Rua Laranjeiras, era o preferido nas sextas-feiras por causa da feijoada. Mas três meses depois, Madonna causou o maior furor. Tirou a gravata, rasgou a camisa, despiu-se da calça, meia e sapato e saiu de cuecas aos gritos lancinantes: - Chega! Não quero mais ser homem! Nasci para ser mulher! Na madrugada de uma sexta-feira, ano de 2012, ele foi encontrado totalmente ensanguentado atingido por golpes de paralelepípedos no centro de Aracaju. Quatro dias depois morreria em consequência do traumatismo craniano sofrido. Muitos e muitos outros personagens desfilaram pelos logradouros aracajuanos, que se tornaram palcos de tantas e tantas tragédias humanas.    

(Colaboraram Murillo Melins, Luiz Eduardo Oliva e Luiz Antônio Barreto – in memorian)

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.
 


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Por Kleber Santos
17/03
11:09

Teoria dos Complexos

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicoteraupeuta suíço, é o fundador da chamada psicologia analítica que, dentre outros estudos, desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida, arquétipo e inconsciente coletivo. Aproximou-se de Freud no começo do século XX, dado que ambos elaboravam projetos inéditos nas áreas da medicina e da psiquiatria. Mais tarde, ambos romperam a amizade, já que Jung não aceitava as teses de Freud sobre as causas dos conflitos psíquicos, que seriam provenientes de algum trauma de natureza sexual. Já Freud, não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais. Mas não é o meu interesse aqui discutir as divergências desses dois grandes teóricos da psicanálise. Interessa-me, sim, a questão dos complexos, tão arraizados hoje no nosso dia a dia. O professor Walter Boechat, estudioso de Jung, Mestre pelo Carl Gustav Jung Institut Zurich – Universitat Zurich, em brilhante artigo sobre a “A teoria dos complexos de C.G.Jung aplicados aos estudos da cultura”, diz que o autor suíço designa o termo complexo afetivo como um grupamento de representações mentais mantidas juntas pela emoção, que se organizam a partir de experiências emocionais significativas do indivíduo. Essa questão do complexo afetivo foi abordada por um trabalho de Jung em 1934. Ele diz: o que é, portanto, cientificamente falando, um complexo afetivo? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite, e por isso, se comporta, na esfera do consciente como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. 

Sobre o conceito de arquétipo, Jung descreve como um conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo, ou seja, a parte mais profunda do inconsciente humano. São essas informações que influem nos determinados tipos de comportamento. Evidente que essas imagens psíquicas absorvidas durante o tempo fazem com que a pessoa perca, aos poucos, os seus mecanismos de proteção e acabe desenvolvendo um certo tipo de complexo, digamos, afetivo. Nesse diapasão, encontramos vários tipos de conflitos emocionais, alguns explicados cientificamente, outros acrescentados por novos estudos sobre a matéria e alguns, ainda, formalizados pela criatividade popular. Enfim, a palavra complexo tornou-se comum em todas as áreas e serve para explicar qualquer tipo de comportamento humano. Vejamos alguns de seus tipos: Complexo de Inferioridade: constitui-se num sentimento em que uma pessoa se considera inferior a outras. Acredita cegamente nisso e passa a agir como se fosse verdade. Daí os sintomas de comparação, a busca por reconhecimento, preocupação excessiva com as opiniões alheias a seu respeito, mania de apontar defeitos nos outros para se proteger, isolamento, inveja, vitimismo, baixa autoestima, ausência de autocrítica, etc. Saliente-se que a psicanálise apenas postulou dois tipos de complexo, o de Édipo e o de Castração. Mas, na verdade, todos eles são derivados do complexo de inferioridade, que teve como maior estudioso o psicóloco austríaco Alfred Adler (1870-1937), considerado o fundador da psicologia do desenvolvimento individual. Complexo de Superioridade: é a tentativa de compensar os problemas de inferioridade que a pessoa possui, ou seja, ele projeta para outrem aquilo que ele é. Ele marginaliza, ofende e exclui aqueles que ele tem como subordinados. Complexo de Édipo: desenvolvido por Freud, inspirou-se na tragédia grega de Sófocles, Édipo, o Rei, escrita por volta do ano 427, a.C.

Esse complexo se desenvolve numa fase da criança do sexo masculino que se sente atraída psicosexualmente pela figura materna, rejeitando e se rivalizando com a figura paterna. Surge na “fase fálica”, entre os 3 e 5 anos de vida, após, conforme Freud, as chamadas fases oral e anal. Como todos sabem, a tragédia grega conta a história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, abandonado ainda criança no Monte Citerão, entre Tebas e Corinto, com os pés amarrados e deixado ali para morrer. Um pastor encontrou a criança e levou-a para Corinto onde foi criado pelo rei Pólibo. Já adulto, consultou o Oráculo de Delfos para saber de sua origem, sendo esclarecido sobre um terrível destino: sua sina seria matar o pai e desposar a mãe. Tentando fugir da profecia, ele abandona Corinto. Mais tarde, numa encruzilhada, discute com um velho homem e, fora de si, mata o mesmo e sua comitiva. Ao chegar em Tebas, a Esfinge propõe-lhe um enigma. Se errasse, morreria, se acertasse a sua vida estaria salva bem como a cidade. Como recompensa, recebe de Creonte, irmão da rainha e então regente de Tebas, o título de rei e a mão de Jocasta, viúva de Laio, o rei assasasinado misteriosamente numa encruzilhada com toda sua comitiva. Anos mais tarde, depois de muitos fatos ocorridos, descobre-se que ele, Édipo, fora o assassino do próprio pai, Laio (o velho assassinado na estrada) e casou-se com a própria mãe, Jocasta, tendo com ela quatro filhos. Jocasta suicida-se e Édipo fura os próprios olhos e passa a ser andarilho. Vale a pena conhecer essa obra, tida por Aristóteles, em sua Poética, como a mais perfeita tragédia grega. Aliás, observe-se que há uma tremenda contradição de Freud ao escolher o escrito de Sófocles como influenciador do seu complexo. Ele diz em sua obra A interpretação dos Sonhos que quem sofre desse mal tem consciência de quem são os seus pais, diferentemente, portanto, de Édipo na tragédia, que não sabia da identidade de seus pais.

Complexo de Electra: desenvolve-se na criança do sexo feminino e consiste na etapa em que a filha passa a se sentir atraída pelo pai, disputando com a mãe sua atenção. Electra é uma personagem da mitologia grega, filha de Agamemnon e Clitemnestra, irmã de Orestes, Crisotemi e Ifigênia. É personagem de duas peças e uma paródia, escritas por Sófocles, Eurípides e Ésquilo, respectivamente. Electra induziu seu irmão Orestes a matar a própria mãe, acusada de ter mandado executar o seu pai. O complexo de Electra é, na verdade, a versão feminina do complexo de Édipo. Complexo de Castração: diferentemente do que o nome diz, esse complexo nada tem a ver com a ideia de mutilação dos órgãos genitais, mas com uma experiência que se repete em várias fases da vida. Freud desenvolveu essa tese em 1908, após tratar um caso de fobia num menino de cinco anos. Ele parte de quatro premissas para explicar esse processo psíquico, tanto no menino como na menina. No menino, inicialmente, ele descobre que tem um pênis e acha que todo mundo possui um órgão idêntico; o segundo momento é a ideia da ameaça, quando o menino deseja substituir o pai em relação à mãe (complexo de Édipo). É a etapa em que ele constrói a imagem de que esse seu comportamento – rechaçado pelos pais com ameaças – é o castigo da castração que poderá sofrer. A seguir, a descoberta da ausência de pênis nas mulheres, mas vagina; essa realidade é associada ao fato de que a ausência de pênis é uma castração. Finalmente, a fase da angústia, quando descobre que a sua mãe é mulher e não tem pênis, surgindo a noção de que a mesma teria sido castrada. Mas esse processo se encerra na fase de resolução, quando o menino não quer mais assumir o lugar do pai em relação à mãe, aceitando a lei paterna. Já o complexo de castração das meninas possui comportamentos idênticos, só que, para elas, o clitóris representa o pênis; como é pequeno, fixam-se na ideia da castração. 

Muitos outros tipos de complexos surgem a todo momento, nem todos reconhecidos cientificamente, mas sempre irradiados pelo complexo de inferioridade. São vários os tipos: Messias, Deus, Napoleão, Aristóteles, Doctor Who, Narcisista, etc. Mas tem um tipo de complexo que está em voga atualmente em Sergipe. É o Complexo de Geração, urdido nas profundezas de um sentimento doloroso: a inveja. O senador Alessandro Vieira foi escolhido pelo povo nas últimas eleições com uma votação estupenda, mandando para a aposentadoria velhos caciques da política sergipana. A sua atuação parlamentar – menos de dois meses – está sendo fiscalizada de forma veemente por setores da imprensa e alguns cidadãos que, aqui e ali, deixam transparecer seus conflitos psíquicos. Tudo porque o senador nomeou quatro profissionais de fora do Estado para compor sua assessoria, ato visto como uma estupidez e falta de compromisso do parlamentar com o povo que o elegeu. Os perfis de seus algozes são bastante evidentes: frustrados em suas vidas, não permitem o sucesso de seus conhecidos e, principalmente, daqueles de sua geração. Para tanto, utilizam-se de um discurso para esmigalhar, em segundos, a performance que este ou aquele homem conseguiu edificar. Aliás, a Bíblia, no livro de Tiago, registra que “Toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos é domada e tem sido domada pela espécie humana. Mas a língua, ninguém consegue domá-la: ela é um mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provém bênção e maldição”. Aquele que ridiculariza quem está onde gostaria de ter chegado é porque não está posicionado profissionalmente onde acredita que merece estar. Na verdade, sente uma ponta de inveja daquele que conseguiu algo que ele não conquistou. É o tal complexo de geração.

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
04/03
12:12

Post Scriptum: Seu Sindulfo, o Lunga sergipano

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

A literatura de cordel atribui ao Seu Lunga o título de homem mais mal humorado e ranzinza do mundo. Inúmeras estórias sobre o seu comportamento estão contadas em livros, cordéis, teses de mestrado, artigos acadêmicos, matérias jornalísticas e até “O Fantástico”, da Rede Globo, dedicou um valioso tempo à sua história. Nascido em Caririaçu, Ceará, em 1927, morreu em 2014 na cidade de Barbalha, no mesmo Estado, mas viveu a maior parte do tempo em Juazeiro do Norte, onde possuía uma espécie de sucata, na qual vendia de tudo, desde aparelhos de televisão usados até frutas e legumes. Seu Lunga, certa vez, negou que os fatos narrados sobre o seu comportamento fossem verdadeiros e que eram invencionices criadas pelos autores de cordéis. Mas a verdade é que, mentira ou não, a sua fama de homem descortês e sem paciência para discutir o óbvio ultrapassou as fronteiras do Ceará. Aracaju também teve o Seu Lunga, o comerciante na área de ourivesaria, Sindulfo Barreto Fontes. A sua loja ficava na rua Laranjeiras, já chegando na Itabaianinha. Era um homem rude quando se colocava a sua honestidade em dúvida. Contam-se muitas estórias a seu respeito. Selecionei algumas delas para que a nova geração de sergipanos conheça as peripécias desse respeitável homem do comércio aracajuano. Certa vez, uma senhora da alta sociedade foi comprar uma pulseira e gostou de uma da loja do Seu Sindulfo. Disse para ele: - Seu Sindulfo, posso mostrar a pulseira pra Seu Vavá? (era dono de uma outra joalheria). – Pode sim. Mais tarde ela voltou e foi dizendo: - Seu Sindulfo, é ouro mesmo, quero comprar. Ele tomou a pulseira das mãos da Senhora e respondeu: - Oxente, é ouro mesmo? Se é ouro eu não vendo não! E guardou a mercadoria. Outra Senhora agradou-se de uma pulseira e antes de pagar o preço estabelecido, perguntou: - Seu Sindulfo, é ouro, né? Fica preta? – Fica sim, se a Senhora passar pixe nela!!!, ao tempo em que recolhia a joia das mãos da cliente. - Tá bom, vou buscar o dinheiro. Volto já! Horas depois, chegou a cliente: - Vim buscar a pulseira. Eis o dinheiro. E ele bem sério: - A joia não existe mais. Passei pixe nela, ficou preta, joguei fora! Em outra vez, um grande comerciante da cidade estava com problemas no seu cofre. Mandou vir um técnico de Salvador e não houve jeito de abrir. Já estava desesperado, pois grande parte do seu patrimônio encontrava-se no interior do cofre. Soube então que Seu Sindulfo era um experiente abridor de cofre. Acertado o preço, o Sr. Sindulfo em três minutos abriu o cofre. O comerciante, usurário, diante do pequeno tempo levado por Seu Sindulfo para abrir o equipamento, foi logo falando: - Ah, Seu Sindulfo, não vou pagar o acertado não. O Senhor não teve trabalho nenhum. Seu Sindulfo, então, fechou o cofre e disse: - Então não precisa pagar nada. Mande outro abrir. Essas e outras estórias estão na memória ainda de muitos sergipanos. Como seria bom se alguém as recolhesse e transformasse em livro.
 


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Por Eugênio Nascimento
04/03
12:07

A carne é fraca

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
Pois é! Precisava de uma explicação lógica a justificativa que todos têm para os males praticados, principalmente no campo das anomalias sexuais, ou naquilo que se chama de sexo desregrado. Por exemplo, um ex-deputado estadual da Bahia, hoje na Câmara Federal, vem causando a maior polêmica. Tido como pastor, responsável pela “Fundação Doutor Jesus”, um centro de reabilitação de drogados, o parlamentar se diz ex-homossexual, ex-drogado e ex-bandido e que foi curado pela fé. Numa entrevista a uma emissora de tevê da Bahia, ele defendeu o seu colega também pastor, deputado federal Marco Feliciano, e ratificou a tese de que os “africanos são descendentes amaldiçoados de Noé”. E explicitou: “a viadagem da África, quando viu dois cabras bons, bonitos, musculosos, saiu atrás” (sic). Ao interpelar uma nota de repúdio contra ele do seu próprio partido, creditou a autoria “aos viados e viadas lá dentro” (sic). Diz também o deputado-pastor que não teme represálias do seu partido e explica: “Se essas desgraças (partidos) prestassem, eram inteiros”. Mas sobre o seu passado, principalmente o fato de ter sido homosexual, ele vacila e justifica: “O pastor é humano. Claro que eu tenho medo de recaída. Eu não posso ficar junto de um homem muito tempo porque a carne é fraca”. A carne é fraca? Vejamos outro exemplo: Um pároco da cidade de Niterói foi acusado de manter relações sexuais com uma coroinha desde os sete anos de idade, e também com uma sua irmã. O padre nega, entretanto reconhece que quando começou a fazer sexo com uma delas a mesma já tinha 18 anos de idade. Não interessa aqui se a acusação é verdadeira ou não, mas a justificativa do advogado do padre: “A carne é fraca. O padre também é um ser humano”. Conversa fiada! Desculpar-se de seus atos sobre a fraqueza da carne não deixa de ser uma fuga que tem como objetivo escapar da sua responsabilidade. Aliás, se “a carne é fraca” é porque o espírito é pobre.
 
Júlio Ribeiro faz parte da história da literatura brasileira. Da Escola Naturalista, a sua principal e polêmica obra foi “A Carne”, publicada em 1888, e que aborda temas diversos daqueles enfrentados pela literatura da época. Recebeu fortes críticas por explorar o amor livre e a figura da mulher libertária. Conta a história de Lenita, uma jovem que não buscava o fulgor do romantismo, mas a satisfação dos seus desejos sexuais. Ao ir residir numa fazenda de um Coronel, conhece o seu filho, divorciado, e com ele tem uma tórrida relação entremeada por sexo violento. Lenira sente prazer ao assistir um escravo ser açoitado e ter o seu corpo totalmente desfigurado com as feridas. Apesar de o livro terminar numa tragédia, a sua importância está justamente em enfrentar o tema da fraqueza da carne. Ribeiro consegue fazer com que ela triunfe sobre os desenganos da mente. O mais importante, ainda, é colocar a mulher num papel de vanguarda numa sociedade conservadora e preconceituosa. Se for verdade o que dizia o presidente dos EUA, Abraham Lincoln - que pessoas sem vícios não possuem virtudes - a trajetória de Lenita estaria então justificada? Outro caso impressionante foi o do terceiro presidente dos EUA, Thomas Jefferson, autor da Declaração da Independência americana. É dele a seguinte idéia: "A miscigenação de brancos com negros produz uma degradação com a qual nenhum amante de seu país, nenhum amante da excelência no caráter humano, pode inocentemente concordar". Pois não é que se descobriu que Jefferson tinha uma amante?! Justamente uma escrava, com quem teve vários filhos e viveu durante trinta e oito anos, quatro vezes mais do que com a sua legítima mulher. Afinal, a carne é fraca. Outro presidente dos EUA, Bill Clinton, também se deixou levar pela fraqueza carnal quando foi acusado de usar uma estagiária para a prática de sexo oral, em plena Casa Branca.
 
Diz uma música sertaneja que a carne é fraca e o coração é vagabundo. Adhemar de Barros foi um dos políticos mais influentes da política brasileira antes da ditadura militar. Governador de São Paulo por várias vezes, teve uma expressão cunhada que dizia bem do seu comportamento como governante: “O homem que rouba, mas faz”. Casado com Dona Leonor, teve uma amante por vinte anos que mandava e desmandava em seu governo e no seu patrimônio, Ana Gimol Benchimol Capriglione. Era conhecida como “Dr. Rui”. Depois da morte de Adhemar em 1969, Dr. Rui herdou os seus dólares que foram guardados num cofre de uma mansão em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. O maior assalto da história da luta armada brasileira durante o período de chumbo foi, justamente, a ação que terminou com o roubo do cofre do Dr. Rui. Mas o importante aqui é mostrar que Adhemar também se quedou à fraqueza da carne. Nem sempre as amantes tiveram papel de destaque na vida política. É o caso de duas mulheres, uma no império romano, outra no século passado: Valéria Messalina e Elena Ceausescu. Messalina foi a terceira esposa de Tibério Cláudio César, ele com 50 anos, ela com 15. Apesar dessa diferença de idade, era uma mulher avarenta, devassa, cruel e assassina. A sua participação no governo era tão grande que o marido foi obrigado a ordenar sua execução aos 22 anos de idade. Ela está incluída entre as mulheres mais perversas da história. Já Elena Ceausescu viveu na Romênia e era casada com o ditador Nicolae Ceausescu. Era alcunhada de “Mãe da Pátria”. Ao lado do seu marido, dirigiu com mãos de ferro os destinos da Romênia durante vinte e quatro anos. Foram acusados de causar a morte de mais de 60 mil pessoas durante o seu reinado. Elena era uma mulher cruel, dominadora e tornou-se o braço direito do seu marido. Foi fuzilada juntamente com Nicolae no natal de 1989, encerrando naquele momento o orgulho, a arrogância e o poder.
 
A literatura biográfica está cheia de exemplos que justificariam a fraqueza da carne. No mundo político, é comum o desempenho das amantes na vida do seu parceiro, participando ativamente da vida profissional do amado. O ditado que diz “por trás de todo grande homem há uma mulher ainda mais brilhante” pode ser verdadeiro, muitas vezes, por causa justamente da fraqueza da carne. Não é à toa que Cristo disse a Pedro “vigiai e orai, para não cairdes na tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41).


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/02
12:34

Em Busca do Ontem

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Ernest Hemingway estava internado num hospital em Rochester, Minnesota, em 15 de junho de 1961. Também no local estava um garoto de nove anos. Ao sentir o sofrimento da criança, resolve fazer uma carta para ela. Na missiva, diz sentir muito por encontrá-la naquele local e desejava-lhe o mais breve restabelecimento. Descreve um belo lugar, com peixes saltando dos rios e muitas flores. Dizia, no entanto, que o ambiente não era tão bonito quanto em sua Idaho. E arremata que em breve os dois, ele e o menino, estarão juntos em Idaho pescando, rindo e fazendo piadas sobre a experiência de ambos no hospital. Este foi o último trabalho do grande escritor americano, que passou toda a sua vida produzindo contos, crônicas, artigos, obras literárias, notícias jornalísticas, prefácios e apresentações de livros. Duas semanas depois, em 2 de julho de 1961, há cinquenta e oito anos, Hemingway se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Encerravam-se ali sessenta e dois anos de uma vida intensa. Viveu cerca de 20 anos em Cuba, esteve nas duas grandes guerras e na Guerra Civil Espanhola. Assim como Neruda, ele também poderia dizer “confesso que vivi”.Josef Stalin, que governou a Rússia com mãos de ferro durante o período comunista, e Fidel Castro, o grande líder cubano, nutriam uma grande admiração pela obra desse escritor, considerado o mais talentoso da chamada “geração perdida”, que habitou Paris nos anos de 1920. Foi o autor, dentre outras publicações, de O Sol também se levanta, Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O velho e o mar, As neves do Kilimanjaro e Paris é uma festa. Quem foi este homem capaz de escrever obras que ainda hoje comovem a humanidade? Quem foi Ernest Hemingway, o grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954?Interessa-me o período mais rico de sua vida: a década de 20 em que viveu em Paris, amais criativa de toda a sua existência.Chegou na capital francesa com sua primeira mulher, Hadley Richardson. 

Ela assim define a sua convivência naqueles anos: “Nada foi como aqueles anos em Paris, depois da guerra. A vida era dolorosamente pura, simples e boa, e eu acredito que Ernest era o melhor de si mesmo. Tive o melhor dele. Tivemos o melhor um do outro”. É a pura verdade. Os seus romances nasceram de pequenas crônicas vivenciadas na capital francesa.Antes de chegar a Paris, Hemingway, muito jovem, viveu uma aventura que marcaria física e psicologicamente a sua vida. Foi durante a Primeira Grande Guerra, onde ele trabalhou no serviço de ambulâncias no interior italiano. Ferido durante a ofensiva austríaca em Piave, 1918, foi encaminhado para o Ospedale Rossa, em Milão, onde conheceu e se apaixonou por Agnes Von Kurowski, uma enfermeira daquele hospital. O curioso é que a sua obra Adeus às armas trata desse período, só que na história contada a heroína morre de parto, quando, na verdade, o seu primeiro amor o dispensou para casar com um oficial italiano. Certa vez, já casado com Hadley, justificando as noites mal dormidas, confessou: “Tenho esses pesadelos e eles são tão reais. Ouço os tiros de morteiro, sinto o sangue em meus sapatos. Acordo encharcado. Tenho medo de dormir”. Apesar do trauma, Hemingway era um homem bastante afável, extrovertido e brincalhão, sempre encontrando um apelido certo para a pessoa certa. Era um piadista contumaz, bebia muitoecostumava dizer aos amigos que saíam na noite com ele e que não aguentavam beber: “Não andem comigo! Vocês não dão para andar com Ernest”. Em 2013, escrevi aqui no Jornal da Cidade uma crônica com o título Cartas do Caribe I – Um mojito com Hemingway, onde estabeleço um encontro ficcional com o escritor, com toques também de realidade e à luz do seu senso de humor. Dizia eu na oportunidade: “Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? 

No Floridita, ali no Obispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Medio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: - Um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde o do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando ‘Hasta siempre comandante’, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara.Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: ‘Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961’. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. 

Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: ‘Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Añadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber’. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado ‘Este lado do paraíso’, o seu primeiro romance, e ‘Os belos e malditos’. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: ‘O grande Gatsby’. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época, ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: ‘Você acha que eu tenho um pau pequeno?’. Sobre o porquê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, com frases tipo ‘tamanho não é documento, o importante são as preliminares’, etc. Mas ele só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: ‘Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário’. Fitzgerald saiu saltitante”.

O que fez Hemingway e muitos outros artistas no início de carreira fixarem residência em Paris foram, justamente, as viagens de navio bastante baratas, a inexistência de qualquer lei seca e, principalmente, o câmbio vantajoso, onde um dólar equivalia a 55 francos. Nesse período, como relatado em Paris é uma festa, lançado após a sua morte, abandonou o jornalismo para viver quase na miséria com o intuito de concretizar o sonho de escrever um livro. Viveu em Paris com nomes conhecidos das artes, como Pablo Picasso, Miró, Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos, James Joyce, Scott Fitzgerald, George Gershwin, Cole Porter, Sylvia Beach e tantos outros. A sua vida foi marcada pela pescaria, as caçadas, as guerras e o álcool. No tempo que viveu em Paris, apesar das farras diárias pelos bares e cafés de Montparnasse, era bastante disciplinado na leitura dos clássicos e no escrever. Tinha horários para tudo. Hemingway sempre tentou voltar a Piave, na Itália. Queria rever o local que marcou profundamente a sua vida. E foi, como escreveu depois: “Ir em busca de ontem é uma perda de tempo – se tiver de verificá-lo, volte para sua velha linha de frente”.


Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos sábados.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
03/02
12:04

Em Busca do Ontem

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE/SE

Ernest Hemingway estava internado num hospital em Rochester, Minnesota, em 15 de junho de 1961. Também no local estava um garoto de nove anos. Ao sentir o sofrimento da criança, resolve fazer uma carta para ela. Na missiva, diz sentir muito por encontrá-la naquele local e desejava-lhe o mais breve restabelecimento. Descreve um belo lugar, com peixes saltando dos rios e muitas flores. Dizia, no entanto, que o ambiente não era tão bonito quanto em sua Idaho. E arremata que em breve os dois, ele e o menino, estarão juntos em Idaho pescando, rindo e fazendo piadas sobre a experiência de ambos no hospital. Este foi o último trabalho do grande escritor americano, que passou toda a sua vida produzindo contos, crônicas, artigos, obras literárias, notícias jornalísticas, prefácios e apresentações de livros. Duas semanas depois, em 2 de julho de 1961, há cinquenta e oito anos, Hemingway se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Encerravam-se ali sessenta e dois anos de uma vida intensa. Viveu cerca de 20 anos em Cuba, esteve nas duas grandes guerras e na Guerra Civil Espanhola. Assim como Neruda, ele também poderia dizer “confesso que vivi”. Josef Stalin, que governou a Rússia com mãos de ferro durante o período comunista, e Fidel Castro, o grande líder cubano, nutriam uma grande admiração pela obra desse escritor, considerado o mais talentoso da chamada “geração perdida”, que habitou Paris nos anos de 1920. Foi o autor, dentre outras publicações, de O Sol também se levanta, Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O velho e o mar, As neves do Kilimanjaro e Paris é uma festa. Quem foi este homem capaz de escrever obras que ainda hoje comovem a humanidade? Quem foi Ernest Hemingway, o grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954? Interessa-me o período mais rico de sua vida: a década de 20 em que viveu em Paris, a mais criativa de toda a sua existência. Chegou na capital francesa com sua primeira mulher, Hadley Richardson. 

Ela assim define a sua convivência naqueles anos: “Nada foi como aqueles anos em Paris, depois da guerra. A vida era dolorosamente pura, simples e boa, e eu acredito que Ernest era o melhor de si mesmo. Tive o melhor dele. Tivemos o melhor um do outro”. É a pura verdade. Os seus romances nasceram de pequenas crônicas vivenciadas na capital francesa. Antes de chegar a Paris, Hemingway, muito jovem, viveu uma aventura que marcaria física e psicologicamente a sua vida. Foi durante a Primeira Grande Guerra, onde ele trabalhou no serviço de ambulâncias no interior italiano. Ferido durante a ofensiva austríaca em Piave, 1918, foi encaminhado para o Ospedale Rossa, em Milão, onde conheceu e se apaixonou por Agnes Von Kurowski, uma enfermeira daquele hospital. O curioso é que a sua obra Adeus às armas trata desse período, só que na história contada a heroína morre de parto, quando, na verdade, o seu primeiro amor o dispensou para casar com um oficial italiano. Certa vez, já casado com Hadley, justificando as noites mal dormidas, confessou: “Tenho esses pesadelos e eles são tão reais. Ouço os tiros de morteiro, sinto o sangue em meus sapatos. Acordo encharcado. Tenho medo de dormir”. Apesar do trauma, Hemingway era um homem bastante afável, extrovertido e brincalhão, sempre encontrando um apelido certo para a pessoa certa. Era um piadista contumaz, bebia muito e costumava dizer aos amigos que saíam na noite com ele e que não aguentavam beber: “Não andem comigo! Vocês não dão para andar com Ernest”. Em 2013, escrevi aqui no Jornal da Cidade uma crônica com o título Cartas do Caribe I – Um mojito com Hemingway, onde estabeleço um encontro ficcional com o escritor, com toques também de realidade e à luz do seu senso de humor. Dizia eu na oportunidade: “Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? 

No Floridita, ali no Obispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Medio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: - Um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde o do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando ‘Hasta siempre comandante’, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara. Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: ‘Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961’. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. 

Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: ‘Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Añadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber’. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado ‘Este lado do paraíso’, o seu primeiro romance, e ‘Os belos e malditos’. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: ‘O grande Gatsby’. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época, ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: ‘Você acha que eu tenho um pau pequeno?’. Sobre o porquê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, com frases tipo ‘tamanho não é documento, o importante são as preliminares’, etc. Mas ele só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: ‘Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário’. Fitzgerald saiu saltitante”.

O que fez Hemingway e muitos outros artistas no início de carreira fixarem residência em Paris foram, justamente, as viagens de navio bastante baratas, a inexistência de qualquer lei seca e, principalmente, o câmbio vantajoso, onde um dólar equivalia a 55 francos. Nesse período, como relatado em Paris é uma festa, lançado após a sua morte, abandonou o jornalismo para viver quase na miséria com o intuito de concretizar o sonho de escrever um livro. Viveu em Paris com nomes conhecidos das artes, como Pablo Picasso, Miró, Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos, James Joyce, Scott Fitzgerald, George Gershwin, Cole Porter, Sylvia Beach e tantos outros. A sua vida foi marcada pela pescaria, as caçadas, as guerras e o álcool. No tempo que viveu em Paris, apesar das farras diárias pelos bares e cafés de Montparnasse, era bastante disciplinado na leitura dos clássicos e no escrever. Tinha horários para tudo. Hemingway sempre tentou voltar a Piave, na Itália. Queria rever o local que marcou profundamente a sua vida. E foi, como escreveu depois: “Ir em busca de ontem é uma perda de tempo – se tiver de verificá-lo, volte para sua velha linha de frente”.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos sábados.


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Por Kleber Santos
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