09/06
21:12

No tempo do Onça

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

De onde se originou a expressão No tempo do Onça? De 1725 a 1732, o Rio de Janeiro foi administrado por Luís Vahia Monteiro, um capitão-geral extremamente severo com os gastos públicos. A lei, na sua época, era rigorosamente cumprida e não tinha esse negócio de para os amigos tudo e para os inimigos a lei. Ele exigia o seu cumprimento por todos os munícipes. Pois, justamente, pela forma como a cidade era gerida, a população passou a admirar o seu trabalho e o apelidou de “Onça”. As expressões mais ouvidas na época eram: “cuidado, o ‘Onça’ tá de olho”; “faça besteira que o ‘Onça’ lhe pega’; ‘’com ‘Onça’ no governo, propina nunca mais”; “o ‘Onça’ vem aí pra fazer uma devassa”. Era um homem truculento com aqueles que não gostavam de agir com decência. Cioso da sua honestidade, chegou ao ponto de fazer uma carta ao Rei de Portugal, Dom João VI, dizendo que “nesta terra todos roubam, menos eu”. Os saudosistas, sempre que detectam um gestor incompetente, corrupto, sem compromisso com a administração, frouxo nas atitudes, desleixados com os problemas, dizem logo: “Vocês precisavam conhecer o que era gestão pública! No tempo do ‘Onça’ não era brincadeira”.  A sua popularidade ultrapassou os séculos. Em 1944, o cantor da Era do Rádio, Carlos Galhardo, gravou uma valsa carnavalesca com o título “No tempo do Onça”, que dizia mais ou menos o seguinte: “Oh! Que saudades que eu tenho / Daquelas valsas, do tempo do Onça / Valsas que tinham alegria / Dançadas ao som de uma gerigonça”. Certa vez, referindo-se a fatos históricos passados, mais precisamente aos dias que antecederam o golpe militar de 1964, o saudoso colunista da Folha de São Paulo, Carlos Heitor Cony, escreveu “Segredos do tempo do Onça”, onde narra episódios revelados por documentos secretos do governo dos Estados Unidos sobre a política da América Latina e que, então, provocou injustificáveis preocupações.

Infelizmente, exemplos como os que foram deixados por Luís Vahia Monteiro, o Onça, não se constituem em regra de comportamento no mundo da política e da sociedade. O ministro Carlos Ayres Britto disse, certa vez, num evento em Salvador que “A nossa história é ruinzinha; o nosso DNA coletivo não é dos melhores. Enquanto nos Estados Unidos a sociedade civil chegou antes do Estado, aqui, no Brasil, o Estado chegou antes da sociedade civil. Somos sequelados política e juridicamente por causa desta chegada do Estado em primeiro lugar, assumindo a estrutura de todo o processo colonizador e civilizatório. Temos resquícios de um Estado imperial, como a prepotência, a arrogância, a confusão entre tomar posse no cargo e tomar posse do cargo”. Britto tem razão. A corrupção tem sido um câncer na história brasileira desde seus primórdios, no século XVI, período da nossa colonização. Alguns funcionários públicos, responsáveis pela fiscalização do contrabando e outros ilícitos contra a coroa portuguesa, eram os primeiros a praticar o comércio ilegal de produtos brasileiros, negociando, por debaixo do pano, diamantes, pau brasil, ouro e todo tipo de mercadoria que deveriam zelar em função dos cargos que exerciam. Os traficantes de escravos nos séculos XVI a XIX agiram à vontade durante os períodos colonial e império, sendo inclusive estimulados por altas autoridades políticas que compravam esses escravos, sendo tolerantes e coniventes com tais infratores, apesar das denúncias de entidades e governos internacionais que proibiam o tráfico. Aliás, poucos sabem o que foi a carnificina escravocrata em nosso país, campeão mundial da escravidão moderna, chegando ao ponto de em 1820 - dois anos antes da Independência - ter uma população com dois terços de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no Rio de Janeiro 700 mil africanos. 

Documentos demonstram que a “Cidade Maravilhosa” foi a maior escravista do mundo desde a Roma antiga. E para arrematar: De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade levada para América do Norte. A corrupção, nesse ínterim, correu solta às custas do horror e das atrocidades praticadas contra os irmãos africanos. Outras formas de ilícitos contra o poder público foram se aperfeiçoando através dos tempos, sempre com a complacência do aparelho estatal. A concessão de obras públicas sempre foi um grande filão do pagamento de altas propinas a agentes do governo, desde a época imperial. O Visconde de Mauá, que obteve licença do governo para exploração de cabo submarino, por exemplo, o que fez? Por uma gorda indenização transferiu os seus direitos de exploração para uma empresa inglesa, passando, logo depois, a ser o diretor da multinacional. Um fato semelhante ocorreu com os serviços de exploração da iluminação a gás da cidade do Rio de Janeiro. Um empresário, que recebeu do imperador o direito de concessão para explorar a atividade, a transferiu por 120 mil libras para uma companhia inglesa. Escândalos envolvendo atos de corrupção eram práticas recorrentes durante o império, como no caso do alistamento de eleitores, através de uma comissão, que escolhia os mesmos ao seu próprio talante. Ou seja, só se tornava eleitor quem ela aprovasse e, para tanto, usava a extorsão como instrumento de persuasão na    liberação da listagem. E muitos políticos pagavam para ter os seus empregados, apaniguados e dependentes registrados em tais listas. Esse tipo de comportamento veio influenciar, já na República, o chamado voto de cabresto e a era do chamado coronelismo, tão bem explorado no clássico da literatura política brasileira, “Coronelismo, Enxada e Voto”, de Victor Nunes Leal, citado hoje por todos os estudos sociopolíticos do mundo.

Outra forma de corrupção é o assaque ao sistema democrático através de golpes e contragolpes perpetrados sempre contra a vontade popular. Descoberto no início do século XVI (1500), o Brasil foi colônia de Portugal durante três séculos, exatos 322 anos (1500 a 1822). Durante 77 anos (1822 a 1899), embora independente, viveu sob a forma monárquica, governada por Dom Pedro I e II. De 1899 a 1930, exatos 31 anos, já sob a forma republicana, no período cognominado de Primeira República. Foi uma etapa da vida brasileira muito tumultuada, onde as forças dominantes, civis e militares, eram bastante heterogêneas e onde a cultura do golpe campeava. Veio, em seguida, a Segunda República, de 1930 a 1937, com o cargo sendo ocupado por Getúlio Vargas após a renúncia imposta ao Presidente Washington Luís, com a interferência do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme. Foi uma fase bastante conturbada da vida brasileira, dominada pelos extremismos de direita e de esquerda que se polarizavam, influenciados pelos acontecimentos que ocorriam na Europa com o nazismo, fascismo e comunismo. Redundou tudo isso numa das ditaduras mais violentas das Américas, de 1937 a 1945, o chamado Estado Novo, onde, depois de 7 anos no poder, Getúlio Vargas abiscoitava mais oito anos como o ditador que mais vivenciou o poder no Brasil, em exatos 15 anos. Veio a redemocratização em 1945 e permaneceu até 1964, durando 19 anos. Mais uma vez, o Brasil não encontrou o seu caminho. Golpes e contragolpes eram tramados diuturnamente, sendo a fase mais radical das facções políticas existentes. Getúlio, Kubistchek, Jânio e Jango tiveram dificuldades em assumir o cargo de presidente, apesar de terem sido eleitos pelo povo.  Veio a ditadura militar, de 1964 a 1985, vivendo 21 anos entre nós. Mais uma vez o Brasil parava no tempo e no espaço, sem vivenciar o estado de direito democrático.

A normalização institucional só veio a partir de 1985 com a redemocratização. Somos, como se vê, ainda imberbes em democracia. Essa influência histórica contribui bastante para que nossos interesses egoísticos impeçam que o Estado concretize o bem comum. Como diz Chico Buarque, ele, o Estado, dorme tão distraído sem perceber que é subtraído vergonhosamente em inúmeras e intermináveis tenebrosas transações. Raymundo Faoro, na sua obra, “Os donos do poder”, aborda as relações de poder sob duas óticas, uma de natureza do estamento, outra de ordem patrimonialista. Para ele, acima das classes sociais e do interesse público, está o estamento burocrático que se apropria da coisa pública, a fim de sustentar os seus privilégios. Os escândalos no campo do assaque ao erário são tão grandes que o tempo se encarrega de esquecê-los: O lema do político paulista Adhemar de Barros era o de “Rouba, mas faz!”; as famosas “caixinhas” feitas por bicheiros, fornecedores, empresários e empreiteiros como forma de angariar recursos para os políticos em troca de favores; o caso Capemi (Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios), que envolveu militares de alta patente durante a ditadura militar; o caso Coroa-Brastel, também durante a ditadura; o esquema de corrupção montado na era Collor de Mello; e as diversas operações de combate à corrupção que detonaram a máfia dos políticos, empresários e doleiros, descobertas através dos recentes trabalhos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Ainda prevalece em nosso país a ideia de que a coisa pública, por ser de todos, não é de ninguém. Na verdade, cada vez mais se torna real a profecia de Lévi-Strauss na qual o Brasil passaria da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Mas, quem sabe, não custa acreditar que os brasileiros, um dia, vão voltar a dar o devido valor à honestidade e à decência, aquelas “do tempo do Onça”. 

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 


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Por Kleber Santos
27/05
13:43

O acaso do acaso

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE/SE

Em 1727, ou 1729, numa noite fria de sexta-feira santa, Leipzig, uma pequena cidade alemã, situada na região da Saxônia, iria testemunhar a apresentação da obra de Johann Sebastian Bach, Paixão Segundo São Matheus, que tratava do sofrimento e a morte de Cristo. A Igreja de São Tomás estava repleta e curiosa para ver e conhecer mais uma obra daquele que era um homem dos sete instrumentos da música erudita da cidade. Bach foi compositor, cravista, regente, kepellmeister, organista, professor, violista, kantor e violonista, mas nunca reconhecido fora dos limites de sua cidade. Muitos deixaram a igreja antes do término do espetáculo e o pequeno público que ficou até o final aplaudiu com cara enfadonha. Também, com mais de três horas de duração, tinha que ter muita paciência para aguentar as duas partes da peça, constituídas de 68 números alternados por coros, recitativos, ariosos, árias e corais. A obra teve mais algumas revisões e duas ou mais apresentações, sem qualquer repercussão. Mais uma vez ficava constatado que santo de casa não faz milagres. Bach morreu em 1750 sem ver qualquer reconhecimento ao conjunto do seu trabalho musical. Em 1829, 79 anos após a sua morte, o compositor, pianista e maestro alemão Felix Mendelssohn, o grande autor da suíte Sonho de uma Noite de Verão, interessou-se pela composição de Bach, tendo-a apresentado em Berlim uma versão abreviada da obra. Foi um sucesso estrondoso de público e de crítica. A partir daí a vida musical de Bach passou a ser escarafunchada, sendo descobertas extraordinárias peças de sua autoria, como O Cravo bem-Temperado, A Arte da Fuga, Concertos de Bradenburgo e tantas outras, que o levou ao patamar de o maior nome da música barroca de todos os tempos. E qual a lição de moral desse exemplo? É que nada foi planejado e o sucesso de Bach adveio de um acaso. 

Em 1968 a França era presidida por Charles De Gaulle. Um pequeno incidente sem maiores preocupações ocorreu na Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima da capital francesa. Ao invés de dialogar com os estudantes, a direção da escola resolveu radicalizar com a meninada. Não deu outra, a reação foi violenta e daí iniciou-se uma série de conflitos no campus. Com os nervos à flor da pele, a administração resolveu fechar a escola e começar um processo de caça às bruxas para expulsar os líderes da insurreição acadêmica. Resultado: as medidas adotadas pelos dirigentes universitários resultaram numa das maiores ondas de protestos ocorridas em Paris, liderada inicialmente por estudantes da Universidade de Sorbonne, uma das mais tradicionais e respeitadas escolas do mundo, que de uma simples reivindicação, por reformas no setor educacional, culminou com uma greve de operários que teve a participação de mais de 9 milhões de pessoas. As chamadas passeatas de maio de 1968, com as suas barricadas, repressão violenta do aparelho policial, batalhas campais, e participação ativa da população, colocou Paris em pé de guerra. A vida parisiense só voltou ao normal a partir da renúncia de Charles De Gaulle à presidência e as eleições convocadas para o mês subsequente, junho de 1968. O simbolismo representado por maio/68 é o de que o mundo mudaria completamente a partir daquele momento. Aquele foi o ano que não terminou e que teve uma grande influência nos movimentos de transformação social que varreram a humanidade, ora avançando, ora retroagindo. A verdade é que tudo aquilo poderia ser evitado acaso a linguagem e a argumentação preponderassem entre o Reitor da Universidade de Paris e seus estudantes. Muitas vezes, no entanto, como foi maio/68, o acaso veio contribuir para um acontecimento que viria revolucionar o mundo contemporâneo.

Em 1922, um grupo de artistas brasileiros resolveu iniciar um movimento que propunha uma nova visão de arte, “a partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias”. Comemorávamos o centenário da Independência quando o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta Mário de Andrade, o grande autor de Pauliceia Desvairada, junto com outros intelectuais, sem maiores intenções, fazia surgir um dos acontecimentos que revolucionaria o cenário cultural brasileiro e que ficou conhecido como a “Semana da Arte Moderna”. Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, tinha como características a ausência de formalismo, a ruptura com o academicismo e tradicionalismo, crítica ao modelo parnasiano, influência das vanguardas artísticas europeias, ou seja, com o futurismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo e expressionismo, valorização da identidade e cultura brasileira, fusão de influências externas aos elementos nacionais, liberdade de expressão, aproximação da linguagem oral, com utilização da linguagem coloquial e vulgar e a exploração de temas nacionalistas e cotidianos. Resumindo, a Semana de 22 constituiu-se no início da consolidação do modernismo em nosso país, rompendo completamente com os eventos anteriores. Evidente que o acontecimento chocou grande parte da população e o academicismo existente nas discussões artísticas até então. Para Di Cavalcante, um dos idealizadores dessa festa, seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulista. Mas nem tudo foram flores. A Semana de 22 sofreu forte reação de setores da inteligência brasileira de então, a exemplo do manifesto furibundo de Monteiro Lobato, e mesmo assim a Semana de Arte Moderna tornou-se um dos marcos mais importantes da história cultural brasileira. Um acontecimento sem maiores ambições que se transformou numa revolução.

Em 1956 um grupo de jovens fundava uma banda de rock na cidade de Liverpool, Inglaterra, com o nome de Silver Beetles. Eram eles: John Lennon (guitarrista e vocalista), Paul Mc Cartney (baixista, compositor e vocal), Ringo Starr (baterista) e George Harrison (guitarrista e vocalista). Mais tarde, a banda mudaria o nome para The Beatles e, a partir de 1960, uma verdadeira revolução tomou conta do mundo. Estava implantada uma nova forma de interpretar. As letras com temas marcantes e o estilo visual agradaram os jovens, influenciando todo o planeta. Ainda hoje, suas músicas são reverenciadas por todas as faixas etárias, numa prova cabal da supremacia do talento que nasce sem maiores pretensões. Para se tornar o mais bem-sucedido e aclamado grupo da história da música popular, foram agregados ao simbolismo representado pelos meninos de Liverpool os ideais de um mundo revolucionário e de transformação. E realmente a sua influência foi intensa nos movimentos sociais e culturais a partir da década de 60. O surgimento desse fenômeno chamado de The Beatles foi tão importante que os seus membros foram coletivamente incluídos na compilação da revista Times das 100 pessoas mais importantes e influentes do século XX. O que estou tentando demonstrar com esses exemplos é que os fatos ocorridos nem sempre são motivo de nossa aspiração. Eles acontecem, muitas vezes, pela conjunção de vários elementos influenciadores, conhecidos e desconhecidos, sentimentos bons ou maus, que se apossam dos nossos momentos. A rivalidade criativa entre John Lennon e Paul Mc Cartney, por exemplo, durante os anos da beatlemania, rendeu as mais belas músicas da discografia da banda. A vida é assim, cheia de encontros e desencontros. Um dia sofremos perdas, doenças, em outro, usufruímos conquistas, alegrias. O importante é aprender a suportar aquilo que não podemos evitar.  

A bossa nova foi um movimento musical que surgiu no Brasil na segunda metade dos anos 50 do século XX. Na década de 60 fez muito sucesso nos Estados Unidos. Os estudiosos consideram sua batida como uma mistura do jazz norte-americano, do samba, choro, blues e a moda de viola. A sua principal característica é o ritmo calmo e suave, músicas cantadas em tom baixo, como se fosse uma fala ou uma narração. João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes são considerados os pais desse ritmo que revolucionou a música popular brasileira. Um dos grandes hits da bossa nova é uma canção composta em 1956 por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, Chega de Saudade, que após passar por vários intérpretes consagrou-se na voz de João Gilberto, um baiano de Juazeiro que estudou em regime de internato numa escola aracajuana. Era um homem excêntrico. Foi retratado no livro Ho-ba-la-lá, do alemão Marc Fischer, como uma pessoa que desde jovem tinha dificuldades em cumprir acordos financeiros, vivia com dores de dente e perdia empregos por não respeitar horários. O fim de vida de João Gilberto não tem sido fácil. Recentemente, foi despejado do apartamento onde vivia e foi morar de favor em outro local. Ao lado disso, uma dívida impagável com um produtor, com um banco e com seu ex-senhorio. Isso tudo nos leva a refletir sobre as barreiras que temos de ultrapassar no dia-a-dia. Os ventos favoráveis e desfavoráveis na vida de João Gilberto são frutos do acaso? Segundo Maquiavel, metade de nossas ações é guiada pela fortuna, metade pela virtù. A fortuna é o acaso, a sorte, o azar, o fato positivo ou negativo. A virtù significa o agir de forma viril, varonil, determinada. Explico: metade do que somos se deve à sorte ou azar, à fortuna ou ao infortúnio. A outra metade depende de nossas ações, do nosso empenho. Estamos, portanto, dependendo diuturnamente do embate entre o acaso e a razão. A questão é saber quem vai ser o vencedor nesse duelo.     

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


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Por Kleber Santos
22/04
14:47

Osório de Araújo Ramos: Centenário de nascimento

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Tive a honra de conviver com grandes nomes da advocacia e da vida pública brasileira, principalmente no período em que me dediquei a servir à Ordem dos Advogados do Brasil, seja como conselheiro seccional, seja como conselheiro federal. No campo nacional, compartilhei minhas energias apoiando ou divergindo de teses com Evandro Lins e Silva, Sergio Bermudes, Bernardo Cabral, Eduardo Seabra Fagundes, Miguel Seabra Fagundes, Márcio Thomaz Bastos, José Cavalcanti Neves, Raymundo Faoro, Mário Sérgio Duarte Garcia, Hermann Assis Baeta, José Roberto Batochio, Dom Hélder Câmara, Arnold Wald, George Tavares, Heráclito Fontoura Sobral Pinto, Victor Nunes Leal, Thomas Bacellar da Silva, José Paulo Sepúlveda Pertence, Jair Leonardo Lopes, Daniel Penna Aarão Reis, Técio Lins e Silva, Sérgio Ferraz, Dorany de Sá Barreto Sampaio, Augusto Sussekind de Moraes Rego, Arthur Lavigne, Antônio Evaristo de Moraes Filho, Miguel Reale Júnior, José de Castro Bigi, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Leonel Brizola, Jamil Hadad, Lucélia Santos, Alfredo Sirkys, Fernando Gabeira, Chico Mendes, Betinho, Darcy Ribeiro e tantos outros. Aqui em Sergipe também vivenciei com figuras marcantes da nossa vida cultural, política e social, destacando nomes como Bonifácio Fortes, Guido Azevedo, Balduíno Ramalho, Rui Elói, Gonçalo Rollemberg, Marcelo Déda Chagas, José Augusto Azeredo Lobão, Gilton Garcia, Moacyr Mota, Antônio Jacintho Filho, José Silvério Leite Fontes, Eduardo Garcia, Carlos Ayres de Britto, Antônio Garcia, Juçara Leal, José Lima Azevedo, Nilo Jaguar, Tertuliano Azevedo, Osório de Araújo Ramos, Carlos Alberto Menezes, Edson Ulisses de Melo, Cezar Britto, Adélia Pessoa, Vladimir Carvalho, Osvaldo Rodrigues da Silva, Paulo Almeida Machado, José Rosa de Oliveira Neto, etc.

Todos eles e muitos outros passaram pela minha vida num revoar de encontros e desencontros, partidas e chegadas, aqui ou ali compartilhando ideias, fazendo delas uma mesma frequência na forma com a qual captariam a sonoridade do mundo ou no modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida. Mas também, aqui e ali, vinham as diatribes quase sempre provocadas pelo debate e pelo modo de enxergar o mundo à luz de um caso concreto. Com Osório de Araújo Ramos não seria diferente. E no momento em que comemoramos o seu centenário de nascimento não poderia deixar de dar meu testemunho a essa figura de advogado símbolo, padrão de honestidade, dignidade, correção, lealdade e, acima de tudo, de ética. Osório de Araújo Ramos nasceu em Aracaju no dia 22 de abril de 1918, filho de Antonio Eugênio Ramos e Ana de Araújo Ramos. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Sergipe, tendo colado grau em 8 de dezembro de 1955. Em 1956 inscreveu-se provisoriamente na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Sergipe. Em 1960 assumiu o cargo de Juiz de Direito, atuando na magistratura por dez anos. Em 1970 inscreve-se definitivamente nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Sergipe, voltando a exercer a profissão de advogado. Passou, a partir de 1977, a militar nos quadros da entidade mater dos advogados sergipanos, a OAB, tendo ocupado os cargos de 1º Secretário, Tesoureiro e Presidente no biênio 1979/1980. Gilton Garcia, que havia derrotado Osmário Vila Nova em 1974, elegendo-se presidente, mudou radicalmente as rédeas da Instituição para um novo grupo. Dois anos depois reelegeu-se presidente com uma chapa eclética, integrada por nomes da direita e da esquerda.

Osório participou da chapa de Gilton Garcia, tendo este assumido a presidência e ele a tesouraria da OAB, começando aí uma nova fase da instituição, que passaria por mudanças profundas nos anos seguintes. Como tesoureiro teve uma tarefa árdua, que foi a de organizar as finanças da entidade - o que fez com bastante equilíbrio - passando a cobrar as anuidades e melhorando consideravelmente a sua estrutura com aquisição de móveis, investindo na formação de uma equipe técnica para atendimento aos advogados e dando maior rapidez aos processos em tramitação e de interesse dos profissionais de direito. Na sua gestão como presidente, em 1979/1980, ingressei nos quadros da OAB como conselheiro após ser indicado por Gilton Garcia, que havia se afastado para assumir a Procuradoria Geral de Justiça, nomeado que fora pelo governador Augusto Franco. Em minha eleição, indireta, fui aprovado à unanimidade pelos conselheiros, passando a colaborar com a gestão de Osório ao lado dos demais colegas. Naquele período, um impasse foi criado na escolha de desembargador na vaga destinada para a advocacia. À época, a OAB tinha a responsabilidade de encaminhar ao governador do Estado a lista dos advogados inscritos para fins de escolha, pelo Poder Executivo, do nome que iria ocupar a vaga derivada da aposentadoria do desembargador Pedro Barreto. Eu, Nilo Santana Jaguar de Sá e Benedito de Figueiredo defendíamos a tese que a lista só deveria ser preenchida por advogados militantes, sendo excluídos todos aqueles que não possuíssem tal requisito. A querela foi formada, tendo o Conselho, por maioria, decidido pelo encaminhamento da lista de todos os inscritos, militantes ou não. A ruptura nas hostes do Conselho foi imediata, tendo eu, Benedito e Nilo renunciado ao cargo, passando a fazer oposição aos seus membros.

Disse anteriormente que Osório era um advogado símbolo, padrão de honestidade, dignidade, correção e lealdade. E por quê? Na eleição seguinte da OAB houve empate no resultado, sendo eleitos 9 conselheiros para o grupo de Osório e 8 para a nossa chapa (na época os votos eram individuais nos nomes que compunham as chapas em disputa, havendo mescla das escolhas de um e outro lado). Só que Nilo Jaguar, componente da chapa que eu fazia parte, teve o mesmo número de votos de José Rosa de Oliveira Neto e, como este tinha uma inscrição mais antiga, prevaleceu a sua vitória, passando o agrupamento de Osório a ter uma maioria de 10 a 8. Mas um novo problema surgiria na chapa vencedora, a escolha do presidente da OAB. Houve um rompimento no grupo de Osório em face do lançamento da candidatura de José Augusto Azeredo Lobão, que não abria mão do cargo de presidente. Para ser eleito, Lobão precisaria dos nossos votos e de mais 1 ou dois votos da situação, o que foi conseguido, tendo sido eleito presidente da OAB/SE. Em momento algum Osório reclamou da atitude de Lobão, que passaria para a oposição em seguida. Ele, entretanto, continuou leal ao seu grupo. Lembro-me que fui indicado para relatar as contas da sua gestão e ele veio falar comigo para colocar-se à disposição para qualquer dúvida a seu respeito. Eu disse a ele que ficasse despreocupado, pois uma coisa que ninguém tinha qualquer tipo de receio era sobre a sua honestidade. Pelo pouco tempo de convivência que tive com ele, deu para perceber que a consciência de Osório estava acima dos interesses pessoais, mesquinhos e momentâneos. Repugnava-lhe os tíbios de caráter, os vendilhões de consciência, os déspotas perseguidores. Cada palavra por ele empenhada valia muito mais do que compromissos escritos.

Tinha uma amizade de irmão com outro grande nome que dignificou Sergipe: o jornalista e advogado José Rosa de Oliveira Neto, sinônimo de homem que se postava indiferente para os dúbios de personalidade, aos frouxos de conduta, aos falsos e hipócritas naturais, aos castrados de mentes e de espírito, aos apátridas, amorais e desleais. Com Osório, José Rosa formava um duo que honrava a plêiade de homens que se identificavam, na advocacia, com uma nova escola de juristas vinculada às teorias sociais. Não tinham dúvidas de que quem controla o econômico domina o político e, em certa medida, o social. Tinham a nítida convicção de que os política e economicamente dominados, numa sociedade conflituosa, buscam defender os seus interesses. E é esse confronto de interesses que empurra a sociedade para os avanços e retrocessos. Conflito muito maior que o meramente jurídico de uma ação judicial - no qual o juiz, com a sentença, supera os limites do conflito individual - é o social, onde classes, grupos e camadas querem impor sua vontade. Desse quadro de conflitos emana o direito que não pode ser puro. Muito pelo contrário, ele traz as chagas e o sofrimento de situações injustas, no conceito universal do sofrimento e da injustiça. Esta escola do Novo Direito, da qual José Rosa e Osório são partícipes, e que também seguimos, impõe a todos nós a valorização das conquistas jurídicas decorrentes dos avanços sociais e força-nos a dirigir nossa curiosidade dialética, não estática, para esses fenômenos, tendo em mãos os instrumentos da sociologia e da filosofia, e não apenas daquele direito que nos foi imposto na sala de aula, onde o que se busca é a formação de quadros para a defesa dos interesses da elite. Penso que a similitude de propósitos foram os pilares que uniram José Rosa e Osório.

Todo esse entendimento e sintonia de pensamento tinham como pano de fundo a formação marxista de ambos. Osório participou ativamente do Partido Comunista Brasileiro, tendo inclusive ocupado cargo de direção e sido, por várias vezes, preso e respondido a diversos processos formalizados pelos órgãos de repressão. Com a redemocratização do país após a Segunda Guerra Mundial, o PCB foi legalizado, o que levou Osório a exercer uma militância pujante e combativa. O seu falecimento, aos 68 anos, em 1986, encerrava uma vida dedicada à procura de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa e de um sentimento de solidariedade incomum. Amanhã, domingo, 22 de abril, data do centenário de nascimento do contador, advogado e magistrado Osório de Araújo Ramos, fica o registro da história de um homem intransigente em relação aos princípios e que escondia no peito uma mina riquíssima de compreensão humana.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos


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Por Kleber Santos
08/04
14:36

Mulheres de Atenas

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Chico Buarque e o teatrólogo Augusto Boal escreveram Mulheres de Atenas, que foi tema musical da peça Lisa, a Mulher Libertadora, de autoria do segundo. Não vi nem conheço a peça, mas tudo leva a crer que trata da mesma personagem de Aristófanes, em sua comédia satírica, burlesca, obscena, mas, sobretudo, revolucionária, de nome Lisístrata, escrita em 400 AC. A este título, o tradutor acrescentou o termo A greve do sexo. Voltando à peça, o apelo é feito na música a todas as mulheres do mundo: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas. Quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam e quando fustigadas, não choram, se ajoelham, pedem, imploram. Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas. Quando eles embarcam, soldados, elas tecem longos bordados. E quando eles voltam sedentos, querem arrancar violentos, carícias plenas, obscenas. Quando eles se entopem de vinho, costumam buscar o carinho de outras falenas, mas, no fim da noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas pequenas Helenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade, tem medo apenas. Não têm sonhos, só tem presságios, o seu homem, mares naufrágios. Lindas sirenas! Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas. As jovens viúvas marcadas e as gestantes abandonadas. Não fazem cenas, vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolhem às suas novenas, serenas. Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”.

A música não fez justiça a essas mulheres. Tudo bem que elas fossem tudo isso que foi poetizado. Acredito que até mais. Aliás, em 1976, data do seu lançamento, houve acusações sérias a Chico, uma vez que a letra da música seria uma ode à submissão feminina. Buarque retrucou, justificando que a idéia era exatamente a contrária: “Eu disse: mirem-se no exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver no que vai dar”. Mas me interessa aquelas mulheres atenienses, mesmo sendo ficção, representadas pelo texto de um dos maiores dramaturgos da Grécia antiga, Aristófanes. Através da peça “Lisístrata” ou “A greve do sexo”, usa a abstinência sexual como fator determinante do fim de uma guerra. E quem aguenta ficar muito tempo sem sexo? A coisa viaja à estratosfera e acaba por ganhar a tonalidade da escuridão. Mas, também, burrice tem que ser tratada com brutalidade. Enquanto a grande ameaça para as cidades-estado gregas (Atenas e Esparta) estampava a bandeira Medo-Pérsio, os patetas pelejavam entre si. Foi necessário que uma ateniense, de nome Lisístrata, conclamasse todas as mulheres gregas a fazerem uma greve de sexo, forçando seus maridos a suspenderem a batalha. Deu certo. Mas antes ela teve que demonstrar todo o seu talento. Em um diálogo com um comissário, chamado pelo Corifeu-Velho para interrogá-la sobre a inusitada rebelião feminina, Lisístrata discursa: Trancamos as portas da Acrópole prá dominar o tesouro. Onde está o tesouro está o poder. Sem dinheiro não há guerra. O dinheiro que é usado na guerra, falta na paz. Por isso a guerra é opulenta e a paz é miserável. Pisandro, o oligarca, vive pregando mil rebeliões, e a cada uma aparece mais rico e mais potente. Pois resolvemos acabar com isso. Nem mais uma dracma do povo será gasto na guerra.

Lisístrata teve um trabalho árduo para colocar em prática a sua revolução sexual. Primeiro, fez uma lavagem cerebral nas mulheres, que até então viviam entornadas nas festas de Baco, nos usuais bacanais. Foi um trabalho diuturno de persuasão, mostrando a necessidade de se deixar por um tempo os prazeres para se dedicarem aos interesses da comunidade. E delas próprias, pois as ausências dos pais de seus filhos duravam muito tempo, isso quando voltavam vivos das guerras. Pacto fechado, perante Afrodite juraram: Eu não deixarei que nenhum homem do mundo, marido, amante, ou mesmo amigo, se aproxime de mim de membro em riste; se for tentada, reagirei, me transformando na própria tentação; me farei provocante, usando minha túnica mais leve, pra que meu homem se queime no fogo do desejo, mas jamais me entregarei a ele voluntariamente; e, se abusando da minha fraqueza de mulher, quiser me violentar, serei fria como o gelo, não moverei um músculo do corpo, nem mostrarei ao teto a sola das sandálias, nem o ajudarei me botando de quatro como as leoas dos relevos assírios; e porque manterei meu juramento, me seja permitido provar desta bebida. Todas beberam do vinho e selaram o compromisso. A segunda parte do plano, então, foi concretizada. Invadiram a Acrópole e expulsaram os burocratas, ocupando todo o prédio. A terceira, era a de convencer as mulheres de Esparta, ao tempo, também, que se livravam dos velhos e do seu Corifeu.

Ainda no diálogo com o comissário, Lisístrata dá uma aula de política: se vocês tivessem um pouco mais de bom senso, iriam, como nós, buscar as grandes soluções nas coisas simples. A tecelagem é uma lição política. Quando pegamos a lã bruta, o que fazemos primeiro é tirar dela todas as impurezas. Pois faremos o mesmo com os cidadãos, separando os maus dos bons a bastonadas, eliminando assim o refugo humano que há em qualquer coletividade. Aí pegamos os que vivem correndo atrás de cargos e proventos, e os classificamos como parasitas do tecido social.

O curioso na comédia é que, à época, para incentivar o crescimento da população ateniense, o governo estimulava os cidadãos a terem vários filhos com mulheres diferentes, o que seria crucial para as autoridades e população masculina, se a ficção tivesse sido realidade. Mas, diferentemente das greves dos dias de hoje - essa presepada de burgueses anticapitalistas - Lisístrata, na sua insurreição, criou o matiz da paz. Ou para se ter amor é preciso ter paz. Todos deveriam lê-la para entender que quem não dialoga perde. E vendo e conhecendo Lisístrata, pensarão menos na escuridão da guerra e mais na brancura do amar. 


POST SCRIPTUM
Palavreando com Ismar Barretto
Fonsecão Chifre de Ouro

Continuo compartilhando com todos vocês o humor de um dos mais talentosos artistas sergipanos. Sigo palavreando com Ismar, mostrando a Sergipe um pouco mais do que já se disse dele e também do que produziu em vida. Ele não deixou somente um monte de música guardada, mas artigos, crônicas, pilhérias, piadas (homofóbicas?), tiradas, sarros e muita, muita provocação. Dizem que Hemingway, quando viveu em Paris, nos anos 20 do século passado, odiava gente chata. Ele tinha uma frase certa para essas figuras: - Me larga, cara! Você não dá para andar com Ernest! Ismar era diferente, adorava um chato, pois era uma vítima ideal para os seus chistes e gozações. O chato é que odiava andar com Ismar. O saudoso escritor e jornalista baiano-sergipano Cleomar Brandi dizia que Ismar é rima, quem sabe solução. É resistência musical, muralha e pó, mar, salitre e sertão. Hoje, apresento mais uma obra inédita de Ismar, escrita, conforme anotação no final da crônica, em 22 de março de 1989, sob o título “Fonsecão Chifre de Ouro”: “Fonsecão vendeu uns terrenos que tinha à beira mar pra se ver livre dos passeios dominicais com a ‘patroa’ e as crianças, pois lhe cortava o barato das suas conquistas pela praia. Comprou para ela um Karmanghia conversível, vermelho Michigan, a coisa mais linda. Segundo ele, uma teteia. Pronto. Tava livre. Um belo dia, Fonsecão encontra com o Betão, no Bar do Gordo, ali na Praia dos Artistas e já começa a mandar uma das suas: ‘- Pô cara... nem lhe conto! Comi um prato que num tá no gibi! Loura, elegante paka, papo meio besta, mas eu não janto papo, né? Precisava ver o tamanho do Boing. Cara...!!! Aí me mandei logo pro matadouro (ele se referia, mui poeticamente, a um motel) e subi aquela rampa na maior fissura, com aquela dor de barriga nas pernas, e depois cê já sabe, né...? Foi quatro de cara...! ’ O resto, o ilustre leitor já sabe. É o que (quase) todos contam. Depois contou duma morena, duma ruiva, duma negra, duma sueca, o skambau. E tome caipirinha, cerveja, amendoim, queijo assado. Aí, o Betão, cansado de só escutar, mandou também uma das suas: ‘- É, Fonsecão...! Você é demais. É o cão chupando manga com aratu! Eu vou mais devagar. Deixe eu lhe contar uma. Tô em Salvador, ali na Barra dando um bordejo, (papo de Sergipano na Bahia sempre começa na Barra) me surge uma coroa. Grannnnnde coroa! Aí cê sabe. Comigo, ajoelhou tem que rezar.’ E o Betão contou o diabo que tinha feito com a coroa. Garganta Profunda era programa educativo da TV Aperipê. ‘-Bom, a folia foi até as cinco da manhã. Ainda me levou pro hotel no carro dela. Um Karmanghia conversível vermelho. Lindão o carango da coroa! E olhe a coincidência... placa de Aracaju!!!’"
 
Clóvis Barbosa escreve aos domingos quinzenalmente                                        
 
 
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
26/03
21:18

Ódio e Inveja

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

François de La Rochefoucauld é um cronista moralista que viveu na França de 1613 a 1680. É dele a máxima que “A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos”. Já existem estudos que indicam onde a inveja é processada em nosso cérebro. Segundo uma pesquisa científica, é na região do córtex cingulado anterior, ou seja, uma parte de massa cinzenta logo atrás da testa, local onde também é identificada a dor física. O estriado ventral, região do cérebro onde se processa a sensação de prazer, também opera a chamada shadenfreude, palavra alemã que dá nome ao sentimento de prazer que o invejoso experimenta ao identificar o sofrimento do invejado. Esses estudos foram desenvolvidos pelo neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica de Tóquio, sob o título “Quando a sua Conquista é a minha Dor e a sua Dor é a minha Conquista: Correlações Neurais da Inveja e do Shadenfreude”. Através de ressonância magnética realizada em 19 voluntários (dez homens e nove mulheres), na faixa etária dos 20 anos, foi possível descobrir que, ao sentir inveja, a região do córtex cingulado anterior era automaticamente ativada. Durante a pesquisa, os voluntários foram induzidos a imaginarem uma situação que envolvia outros três personagens do mesmo sexo, faixa etária e profissão idêntica às deles. Hipoteticamente, dois deles seriam mais qualificados e inteligentes. Dessa comparação é que o estudo foi desenvolvido. A partir do momento em que se fixa na pessoa a sensação de inferioridade, nasce a inveja, sentimento difuso que ninguém admite. Mas, é preciso que se diga que inveja e ódio são irmãos siameses.

A matriz da inveja está naquilo que a gente deseja, mas muito além do nosso alcance. Elisa Cintra, em Melanie Klein Estilo e Pensamento (Ed. Escuta), sintetiza: ‘Quem desdenha quer comprar’, diz o ditado: a inveja é quase sempre detectável na vida cotidiana por esse trabalho de desvalorização do outro, o que também foi narrado pela fábula da raposa e das uvas. Impossibilitada de ter acesso às uvas, a raposa começou a tecer considerações sobre a falta de valor dos frutos, o fato de estarem verdes… A inveja dirigiu-se aos frutos, isto é, à criatividade da árvore, àquilo que ela pode oferecer e criar. A ideia de ‘frutos’ permite que se lembre a inveja da obra do outro, de suas ideias, de seu trabalho e de sua capacidade de criar obras de arte ou científicas. Entretanto, a inveja vai mais longe: além de depreciar os frutos, ela tenta diminuir o prazer da própria situação de gratificação, como na expressão popular ‘não dar o braço a torcer’, admitir o poder do outro. O escritor irlandês, Oscar Wilde, dizia que A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. O Novo Dicionário Aurélio conceitua a Inveja como o desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Um desejo violento de possuir o bem alheio. Já o Dicionário de Psicologia Dorsch afirma que a inveja pertence aos sentimentos intencionais. É uma insatisfação, um aborrecimento com a alegria do outro. Allan Kardec, o pai do espiritismo, explicita que, com a inveja e o ciúme, não há calma nem repouso para aquele que está atacado desse mal: os objetos de sua cobiça, de seu ódio, de seu despeito, se levantam diante dele como fantasmas que não lhe dão nenhuma trégua e o perseguem até no sono.

Ciúme, inveja e ódio são sentimentos que existem desde os primórdios da civilização humana, estando a Bíblia repleta de exemplos. A inveja tem até traços físicos, como os pintados por Ovídio em As Metamorfoses, II: lábios lívidos, esquálidos e descarnados como um cão; seus olhos são vermelhos e não encara ninguém de frente. Aliás, a personificação da inveja teve como protótipo a figura da deusa Invídia. Veja a estória: a gananciosa Aglauro, filha do rei de Atenas, sentia grande ciúme de sua irmã Herse. Por isso, foi punida pela deusa Invídia e transformada em pedra mais tarde por Mercúrio. Todos conhecem a estória de Atreu e Tiestes, cujas trajetórias de traições e crimes preenchem uma lista enorme. Ainda jovens, mataram seu meio-irmão Crisipo. Adiante, Tiestes torna-se amante de sua cunhada, Aérope, levando o irmão Atreu a matar três filhos de Tiestes e a servi-los a ele numa bandeja. Para vingar-se, Tiestes, seguindo as instruções de um oráculo, emprenha a sua própria filha, gerando Egisto, que mais tarde viria a assassinar Atreu. A inveja entre irmãos é um dos temas bastante explorados pela Bíblia. Nos Livros Históricos – 2º Livro de Samuel - está a história dos filhos de Davi, Absalão, Amnon e Tamar. Absalão revoltou-se com a atitude de Amnon que, num ato insano, estuprou a própria irmã, Tamar. Isto fez com que Absalão armasse uma emboscada e matasse Amnon. Mas há quem diga que, independentemente deste fato, muito antes, havia uma briga de foice entre os dois envolvendo o criatório de ovelhas. No Livro dos Juízes, Abimeleque, para se tornar rei, mata os seus setenta irmãos de uma só vez. Enfim, o caso de Caim, que matou o irmão Abel, episódio bastante conhecido de todos.

O psicanalista Mario Quilici diz que a inveja dá-se em quatro fases específicas: (I) Primeiramente, o indivíduo olha um objeto, situação ou um traço de alguém, que imediatamente admira e compreende a importância para ele. Ou seja, vê, admira e deseja; (II) No momento seguinte, faz uma comparação entre o que o outro tem e o que o indivíduo não tem. Ele toma consciência de uma falta sua porque já discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante; (III) Aí se dá o terceiro momento da inveja, que é a percepção – e ao mesmo tempo a vergonha – de uma falta nele do que foi admirado (e valorizado) no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou é impossível de ser obtido por ele; (IV) Logo estamos na quarta e última fase: A inveja é disparada pela percepção de uma falta no indivíduo. Essa insuficiência faz com que ataque e, consequentemente, espolie o objeto invejado, para fazer desaparecer a diferença que foi percebida. Numa luta secreta e constante, aquele que se sente insuficiente tenta esconder sua vergonha de ser incapaz. Assim, procurando evitar qualquer situação que o faça sentir mais humilhado, ele ataca antes de ser atacado. Isto é, ele compete sozinho. A competição é um hábito do invejoso, pois ele tem dificuldade de receber ajuda, fazer junto e cooperar. A inveja é um dos sete pecados capitais e percorreu todas as fases da história da humanidade e encontra-se presente hodiernamente. Foi protagonista do holocausto, das teorias de Freud, da morte de Sócrates e tantos outros acontecimentos históricos. Mas, como dizia Bob Marley, tudo que me desejar de negativo, baterá no peito e voltará pra você em forma de amor e paz.
    

POST SCRIPTUM
Palavreando com Ismar Barretto
Memórias de um gordo

Eu já disse aqui que ganhei um presente que me fez conhecer, mais amiúde e intimamente, um dos maiores talentos da música sergipana. Através de um pendrive, estou compartilhando com os leitores a obra dessa fascinante figura, Ismar Barretto, que já teve a sua história contada num belo livro do escritor Marcelo da Silva Ribeiro. Entre os seus panos de bunda, encontro uma crônica muito bem construída, sarcástica e cheia de humor, denominada Memórias de um Gordo. Ei-la: A única camisa que tenho no armário que não está apertada é uma de Vênus. As outras estão que nem minhas contas: faz tempo que não fecham. Aliás, nunca entendi direito porque só engordo na barriga, nos braços, nas pernas e no rosto, mas nunca lá no “dito cujo”. Logo ele que preciso tanto. Só tenho uma explicação viável para o fato: o meu “dito cujo” come bem menos do que eu. Admito que, por causa do meu corpinho, tenho comido mais estrogonofe do que mulher. A vida é cruel com os gordos. Sério! Gordo não namora. Vira amigo. Só pra você ter uma ideia, o último brotinho que comi foi de calabresa, na Pizzaria Guanabara. É barra ‘pesadaça’. Gordo só consegue comer uma gatinha quando encara um churrasquinho na porta do Maracanã. Só pega o maior avião quando faz viagem internacional. O pior é que quando o gordo faz regime e perde uns 30 quilos, continua sem comer ninguém. As mulheres que não davam porque ele era gordo, agora não dão porque acham que ele ficou com cara de aidético. Não tem jeito. Se correr você não pega. Se ficar você não come. Sobra pro gordo comer uma vagabunda ou uma bunda vaga (aquela que ninguém come). Alias, gordo quando chega no puteiro, vira Brad Pitt. É um tal de ‘Vem cá meu fofinho’, ‘essa tua barriguinha é um charme’, ‘que pauzão que você tem’, ‘Oh God!!’. (que traduzindo quer dizer: Arrrgh!, Gordo). A única frase verdadeira que uma puta fala pra um gordo é: ‘Aí não, assim você me mata’, que geralmente é balbuciada quando o gordo está por cima. Como toda mulher sabe, gordo não faz amor, dá um amasso. Gordo não transa. Dá uma barrigada. Mas a conclusão a que cheguei depois de anos de estudo foi a seguinte: quanto mais você paga, mais magrinho você fica. Não existe regime mais eficaz do que ser rico. Eu tenho um amigo obeso que tem uma tática infalível. Não interessa se é puta ou mulher de família. Ele sempre dá um ‘presentinho’ pra moça depois do acasalamento. A ideia é simples: sempre que a moça estiver precisando de dinheiro, vai ligar apaixonada, morrendo de saudades do gordinho. O pior é que dá certo. E como!

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
11/03
19:01

O tambor

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Não estou nem aí para o que a direita fala do alemão Günter Grass, falecido em 2015, e autor do romance “O tambor”. O que me interessa em Grass é o seu personagem Oskar Matzerath. A tese defendida por ele é que Adolf Hitler não foi o único culpado da aventura do Estado alemão na Segunda Guerra Mundial, quando onze milhões de pessoas entre eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, judeus, testemunhas de Jeová, foram assassinadas, num dos episódios históricos que mais envergonham a humanidade. As sementes plantadas por Hitler só atingiram o ápice graças ao apoio incondicional da sociedade alemã, dos seus cidadãos. Se olharmos os grandes acontecimentos históricos veremos que o povo, na sua maioria e estupidamente, sempre esteve apoiando o lado errado. Foi assim nas ditaduras de Salazar, em Portugal, de Franco, na Espanha, de Mussolini, na Itália, nas da América Latina, da África e dos países de regime totalitário. No Brasil, tanto os regimes de exceção de Vargas, nas décadas de 1930/1940, como o governo militar iniciado em 1964, só sobreviveram pelo apoio civil que tiveram. Em “Amnésia, repressões, mitos: como se conta o passado após uma ditadura”, artigo do professor Bruno Groppo constante no livro “1964: 50 anos depois, a ditadura em debate” (Editora Edise, Aracaju, 2015), consta que “Uma das questões mais difíceis de enfrentar após o fim de uma ditadura é a do consenso de que esse regime se beneficiava no seio da população, em vez de discuti-lo abertamente. Prefere-se, geralmente, esquivar-se dele, negá-lo ou reformulá-lo. A dificuldade vem do fato de que as ditaduras, ainda que sejam por definição sistemas fundados sob a violência, não podem se manter por muito tempo no poder somente por esse meio, e têm necessidade também de um certo consenso. Até porque elas pretendem sempre governar em nome de um conjunto mais vasto (o povo, a nação, uma classe) e não podem renunciar a essa ficção, destinada a legitimá-las. O consenso que elas obtêm pode ir da adesão entusiasta à aceitação passiva, passando por uma larga gama de atitudes intermediárias”.

A tese de Günter Grass e de seu personagem Oskar Matzerath não é novidade. É justamente o óbvio que preferimos ignorar. Mas, por ter dito isso, o romance “O tambor” causou furor na Alemanha quando lançado em 1959. Tal o incômodo, que o livro foi queimado em várias cidades alemãs. No Brasil, muitos que se serviram da ditadura e que se destacaram na sua preservação, ocupando os mais importantes cargos, foram servis escudeiros de um regime que torturava e assassinava cidadãos nos seus porões. Hoje, passam a imagem de democratas extremados, que nada teriam a ver com a ditadura. Têm sim! A ditadura militar só sobreviveu por 21 anos graças ao apoio e às benesses recebidos por esse grupo de políticos e outros membros da sociedade civil que assinaram embaixo de todas as atrocidades praticadas contra a cidadania e a liberdade de expressão. Essas pessoas nunca tiveram e ainda não têm compromisso com o processo democrático. Para elas, o Estado não é instrumento de transformação social, mas de realização de seus próprios objetivos pessoais. Não interessa a elas que haja fome, miséria e injustiça. São pessoas que nunca se extasiaram diante de um crepúsculo, ou como diz Ingenieros, “nem tampouco gostam de passear com Dante, rir com Moliére, tremer com Shakespeare ou assombrar com Wagner; nem mesmo emudecem diante de David, da Ceia ou do Partenon”. Essas pessoas estão aí “botando pra quebrar” e se servindo de outra alcateia, aquela formada pelo homem que passa a vida vivendo em rebanho, pensando com a cabeça dos outros e incapaz de formar juízo próprio. Pois bem.José Saramago, o grande escritor lusitano, no seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, não poderia ter sido mais feliz na escolha da epígrafe de sua obra: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Ele nos apresenta uma narrativa emblemática: projeta o leitor para uma comunidade em que os habitantes vão, paulatinamente, perdendo a visão, numa autêntica “viagem ao inferno”, no dizer do compositor, violonista, crítico literário e musical Arthur Nestrovski.

No inferno, contudo, todos os personagens se encontram e se descobrem, numa verdadeira desmistificação da hipocrisia. Não adianta: quem é ruim, será ruim, quem é bom, será bom, se é que este vai para o inferno. Aliás, a leitura míope dessa realidade encontra seu arcabouço traçado pela Bíblia. É só ver a Segunda Carta aos Coríntios, capítulo 11, versículo 14, quando o apóstolo Paulo nos ensina que não deveríamos nos impressionar com falsos enviados do Messias, ao ressaltar que a existência desse tipo de gente “não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz”. Quem acompanhou as manifestações ocorridas entre 2015 e 2016 em várias capitais brasileiras teve a oportunidade de assistir o triunfo da hipocrisia, enquanto arte de amordaçar a dignidade. Evidente que naquela multidão havia pessoas de boa-fé, que lutavam contra a corrupção, a favor da melhoria da saúde e da educação públicas. Ao mesmo tempo, havia aqueles, “os enviados do Messias”, bradando como xerifes da sociedade, eleitos ninguém sabe por quem, acompanhados de uma turba de agiotas, filhos de corruptos, aposentados por invalidez do serviço público no pleno exercício de atividades laborais, enfim, uma multidão de gente que se merece. Nem criativos são. Um grupo criou o slogan “Basta”, outro o “Fora”. Não sabem (ou fingem não saber) que estas foram as senhas utilizadas pelos militares para instalação da ditadura no país. Aliás, a história é contada por Carlos Heitor Cony (Folha de São Paulo, Terça, 14.04.2015, p. A-2-Opinião): “Na manifestação do último domingo (12), em São Paulo, vi em algumas faixas, verdes e amarelas, amarradas na testa de duas jovens, duas palavras terríveis: Basta! E Fora! Por sinal, dois títulos dos editoriais do ‘Correio da Manhã’ em 1964, que foram considerados pelos historiadores a senha para a derrubada do presidente João Goulart e o golpe militar daquele ano. Golpe logo transformado numa ditadura que durou 21 anos, que, além de sufocar a liberdade de todo um povo, produziu mortes e torturas violentas, desaparecimentos até hoje não explicados, tutela sobre a justiça, censura contra a imprensa e as artes em geral”.

Não sei se a humanidade faliu, mas como dizia Woody Allen, mais do que em qualquer época, ela está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher. Eu tenho insistido muito em trazer para reflexão nesses meus ensaios temas ligados à filosofia, ética, política, sociologia e, sobretudo, sobre o comportamento humano e sua terrível falta de memória e de conhecimento da nossa história. Repito Oskar Matzerath em O tambor: “Até o papel de parede tem uma memória melhor que a dos seres humanos”.


Post Scriptum
Palavreando com Ismar Barretto
Viver Aracaju

A relação de Ismar com Aracaju era de amor e de desgosto. Desgosto, evidentemente, pela classe dominante. Não vou falar hoje de suas frustrações, angústias e decepções com as instituições culturais, com a falta de apoio ao artista sergipano. Tinha uma frase dele que encerrava os momentos de dissabor com a terrinha: “sergipano, não gosta de sergipano”, ou, “aqui, o sujeito gasta 10 mil para que o outro não ganhe 2 mil”. Quero falar do amor que ele dedicava a Aracaju. Gostava de repetir uma frase de Chico Buarque que ele adotou para Aracaju: “Aqui, eu semeio vento, vou pra rua e bebo a tempestade”. Ismar Barreto, com a sua obra musical, crônicas, artigos, e sua agenda, onde para cada amigo ou “desamigo” tinha um apelido jocoso ou bem-humorado, se constitui num verdadeiro historiador da vida mundana da nossa cidade. Num desses momentos de saudades de sua terra, na solidão que apertava o coração, escreveu uma das músicas mais bonitas em homenagem à nossa cidade, Viver Aracaju, escrita no verão de 1987, no Rio de Janeiro, na verdade dedicada ao seu amigo, o agitador cultural Pascoal Maynard. Aliás, quando ele terminou a música, ligou para Pascoal e disse: “Fiz um música para você, filho da puta”. Começou a cantar e, ao terminar, desligou o telefone: “Tão longe de você, vontade de morrer / Um poço de sofrer, rezando pra te ter / Querendo só saber quando afinal / Eu vou te ver / Comer muito siri, andar de pé no chão / Descer a Laranjeiras, entrar no Calçadão / Ir para Pirambu, beber lá no Dedé / Pegar uns aratus, tirar bicho-de-pé / Voltar pra Aracaju, tomar um “murici” / E então / À noite eu vou lá no Fans tomar chopp com Pascoal / E papo vai, papo vem, fofocar não faz mal / Depois a gente sai sem ter aonde ir / Mas não tem essa não, o mundo é mesmo aqui / Tem a lua e o sol, tem fá e si bemol no violão / E quando o dia raiar e vir a vida a nascer / Te amo Aracaju resolvi te viver”.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
25/02
15:48

A Coruja de Minerva

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Se você acha que todo filósofo é prolixo, então, por favor, não abra nenhum livro de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A leitura de seus escritos é terrivelmente difícil, quase impossível de ser compreendida. Quando ele disse que “A coruja de Minerva só voa ao anoitecer”, todos queriam saber o significado da frase. Mas, afinal, existem os críticos, os intérpretes, e os tratados para desvendar os questionamentos narrativos das teses filosóficas. Como se sabe, Minerva era a deusa romana da sabedoria e estava sempre associada a uma coruja sábia. Recorro ao professor titular de filosofia da Open University, no Reino Unido, Nigel Warburton, em sua obra Uma Breve História da Filosofia. Para ele, a declaração sobre a coruja é uma das partes mais fáceis de decifrar: “É a forma de Hegel nos dizer que a sabedoria e a compreensão no curso da história da humanidade só acontecerão em um estágio mais avançado, quando olharmos para o que já aconteceu, como alguém que revê os acontecimentos do dia quando a noite cai”. Esse introito vem a calhar com a divulgação, em 2014, do extenso relatório da Comissão Nacional da Verdade, que causou imensa polêmica à época. Na sua conclusão, o documento defende punições para 377 pessoas apontadas como responsáveis por crimes cometidos durante a ditadura militar, inclusive os generais presidentes Castello Branco, Costa e Silva, Garastazu Médici, Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo. Ressalta, ainda, que essas pessoas, entre as quais 196 vivas, não podem se beneficiar da Lei da Anistia.

Segundo a Comissão, 423 pessoas foram mortas ou desapareceram no período da ditadura; os crimes foram resultado de uma política de Estado, com diretrizes definidas pelos presidentes militares e seus ministros, e não abusos cometidos por agentes isolados; os delitos devem ser definidos como crimes contra a humanidade; e a falta de punição para os crimes da ditadura contribui para que torturas e outras violações aos direitos humanos continuem sendo praticadas pelas polícias estaduais. Finalmente, é dito que ocorreram 191 mortes por execução sumária e ilegal ou decorrentes de tortura, perpetradas por agentes a serviço do Estado. Esse novo evento na vida brasileira veio ainda mais ativar as relações radicais da nação, exteriorizadas durante o processo eleitoral de outubro daquele ano, quando o país se dividiu. Para uns, o documento demoniza as Forças Armadas; a revisão da Lei da Anistia é uma aberração jurídica, pois anistia significa ‘perdão’, ‘esquecimento’, e não absolvição; a comissão é um equívoco por só olhar o lado dos mortos pelo sistema, mas não analisar a morte dos militares em serviço. Para outros, a Comissão da Verdade produziu um documento histórico que põe a nu as atrocidades praticadas pela ditadura militar; há necessidade de se rever a Lei da Anistia para punir aqueles que mataram e torturaram; o crime de tortura é imprescritível, etc. Enfim, o debate foi lançado e há entendimento para todos os gostos. O grande desafio é buscar em Minerva e em sua coruja a sabedoria para avaliar o acontecimento de ontem (dia) nos tempos atuais (noite).

Primeiro, é preciso que se reconheça que a ordem constitucional foi vilipendiada no governo Goulart, eleito democraticamente, pelos militares golpistas que instituíram uma ditadura que durou 21 anos (1964-1985). Nesse período, é necessário conhecer o quanto o regime militar autoritário agiu de forma deletéria contra o Estado Democrático de Direito. O completo conhecimento desses fatos serve de experiência para que isso jamais se repita. Admitir a prática do crime patrocinado por agentes estatais é ojerizar a democracia. Portanto, a culpa, sim, é dos militares que lançaram o país numa aventura e que dividiram o seu povo entre os que apoiavam o regime e aqueles que eram contrários. Ademais, a lição do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, sobre o relatório da prática de tortura nos porões da CIA, é bastante oportuna para nossa situação: “Nenhum país é perfeito, mas uma das forças que tornam a América excepcional é nossa vontade de enfrentar abertamente nosso passado, encarar nossas imperfeições, fazer mudanças e melhorar”. Esse período abominável da história do Brasil não pode ser esquecido, mas temos que buscar nele a experiência para que não se repita nunca mais. A Comissão Nacional da Verdade contribui para que sempre nos lembremos dessa ditadura infame que se abateu sobre a sociedade brasileira, dirigida por um grupo de militares inconsequentes e por uma alcateia de políticos oportunistas que se quedaram e se calaram diante da quebra da ordem constitucional. Esses políticos, muitos ainda vivos, fazem de conta que nada tiveram a ver com o regime de exceção. Eles são tão culpados quanto os militares.

Temos que ter a coragem de reconhecer os nossos erros do passado. E não há qualquer tipo de humilhação em pedir desculpas à sociedade brasileira pelos crimes e abusos cometidos. Há, sim, grandeza neste ato, até porque fugir do passado não faz com que ele se modifique. Entretanto, por mais repugnantes que tenham sido os anos de chumbo da ditadura, também compartilho do entendimento que a anistia foi ampla, geral e irrestrita, aliás, como defendíamos no fim dos anos 70 do século passado. Lembro-me que eu, em 1978, participando da OAB, estava presente na criação do CBA (Comitê Brasileiro pela Anistia), na cidade do Rio de Janeiro, e que tinha como norte pressionar o governo para que concedesse perdão às pessoas acusadas de crimes políticos e que fosse permitido o retorno dos exilados. E o grito era uno: anistia ampla, geral e irrestrita. E a anistia, através de lei, foi dada a ambos os lados. O Governo, na era FHC, por exemplo, reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de 136 pessoas. Até o ano passado mais de 6 bilhões de reais foram pagos em indenizações às vítimas da ditadura. Certo, não há dinheiro que pague o mal perpetrado naquele período em lares brasileiros. Mas, porque não seguirmos o exemplo de Mandela, que teve a grandeza de almoçar com o promotor que, durante o apartheid, lutou de todas as maneiras para condená-lo à morte? Não temos o direito de envenenar o presente com os erros do passado. Aprendamos que a coruja da deusa Minerva só voa ao anoitecer.

Post Scriptum

Palavreando com Ismar Barretto
O Jegue Assobiador

Chega às minhas mãos um dos melhores presentes que já recebi: um rechonchudo pen drive com as peripécias daquele, que foi, em vida, um dos mais talentosos nomes da nossa música e um dos personagens mais fascinantes de Aracaju. Será que Ismar Barretto (com dois ou três ‘Tês’, para não ser confundido com outros ‘Barretos’) era um autêntico parente literário de Gregório de Mattos ou de Cuíca de Santo Amaro, o poeta popular da velha Bahia que, através do cordel, atanazava a vida dos poderosos através da sátira e da esculhambação? Não sei! O que sei é que Ismar era um homem inteligente, dono de um talento invejável e perfeito autor de uma poesia satírica de feroz maldade. Achincalhador? Sim! Homofóbico? Coisa nenhuma! Não perdia era a oportunidade de esculachar, com tudo e com todos! Podia perder o amigo, mas a piada, nunca! Se alguém pensou que o escritor Marcelo da Silva Ribeiro, com o seu excelente Ismar BarreTo – Da Esbórnia ao Sublime, 2014, falou tudo sobre a vida e obra desse grande gozador da vida cotidiana, aguarde, aqui, neste espaço, quinzenalmente, o meu palavrear com Ismar. Por enquanto, fiquem com esta música de sua autoria, o Jegue Assobiador, dedicado a uma figura política do nosso Estado:  “Comprei um jegue preto pra brincar o São João / O ‘pexte’ era ruim de espora, uma decepção / O osso do lombo duro, uma consumição / Aleijado de uma perna e manco de uma mão / O beiço de baixo grande, em cima nada não / Pra que diabo ele servia eu não sabia não! / Nem era caminhador / Preguiçoso era um horror / Aí me disse o Agenor: ‘- Teu jegue é assobiador...!’ / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS / Comprei esse meu jegue lá em Malhador / Mas ele morou em São Paulo e já foi professor / Trabalhou seis ‘mêis’ na Globo, como diretor / Dirigiu 5 novelas e 6 filmes de amor / Namorou com Malu Mader e nunca ciumou / Mas o que ele quis ser na vida era assobiador / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS / Aí mudou-se pra Brasília mas nunca gostou / Candidatou-se Deputado e foi pra Senador / Elaborou 15 projetos e 100 ele aprovou / Foi pro Itamaraty pra ser Embaixador / Nomearam ele Ministro e ele renunciou / E o que ele quis ser na vida era assobiador / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS / Depois foi pra Hollywood para ser ator / Trabalhou com John Wayne e Briggite Bardot / Fez Robert Redford se sentir amador / Se casou com Brook Shields e se divorciou / Ganhou mais de 15 ‘Oscars’ de melhor ator / Mas o que ele quis ser na vida era assobiador / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS / Aí foi pra Inglaterra para ser cantor / Fez um ‘som’ com os Rolling Stones e 2 com Al Jarreau / Steve Wonder quando viu, logo se apaixonou / Frank Sinatra quase endoida com a voz de tenor / Ele cantou com João Gilberto e aí desafinou / Porque o que ele quis ser na vida era assobiador / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS / Mas é que deu uma saudade e ele então voltou / Foi morar em Macambira pra ser Exator / Passou seis ‘mêis’ em Itabi e nunca trabalhou / Depois veio para Aracaju pra ser Governador / Deram um cacete nele ele se aposentou / Mas o que ele quis ser na vida era assobiador / REFRÃO / Meu jegue assobia fiu fiu fiu fiu / E as morenas vão passando e ele fiu fiu / BIS.”
 
Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/02
22:08

Eu, Caçador de Mim

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Vinícius de Moraes tinha razão sobre a vida. Aliás, ninguém viveu tão intensamente como ele. A vida não é brincadeira! A vida é pra valer, porque são muitos os perigos desta vida. Se você tem uma vida retilínea, baseado na decência, sempre procurando manter um comportamento ético, não se preocupe que vai ter que enfrentar, aqui ou ali, em determinado momento, os tiros de fuzis da maldade humana. E se você tiver posição crítica sobre determinados assuntos, não sendo daqueles que nunca se aproximam dos extremos, esqueça os fuzis e prepare-se para as balas de canhão. Evidente que uma crítica, mesmo dura, até injusta, desprovida de má fé, não é motivo para se abalar. Mas aquela desferida sem qualquer razão, mas motivada pelo ódio ou pela inveja, mesmo sendo doentia do ponto de vista psicanalítico, essa dói pela injustiça que traz. Certa vez, levado pela paixão futebolística, cometi uma injustiça com um cidadão, juiz de futebol, de nome Antônio Góes, que também era sargento do exército. Após o jogo do meu clube (eu era cartola), sendo entrevistado por uma emissora de rádio, para justificar os supostos erros de arbitragem, disse: “o que esperar de um homem que foi torturador durante a ditadura militar?”. Ele foi humilde e me procurou para informar que nunca foi torturador e que eu tinha cometido uma injustiça. Eu fui soberbo e todos os seus sinônimos, arrogante, orgulhoso, vaidoso e presunçoso. Mas aquilo se incrustou em minha alma, como uma ferida que não cicatrizava. Há pouco tempo, soube que Antônio Góes nunca foi torturador, mas um militar digno, um exemplar cidadão e que eu havia o confundido com outro seu colega de farda, também juiz de futebol. A minha máscara caiu. Como eu vou reparar a dor que infligi na alma dessa pessoa? Sim, porque a injustiça dói na alma do injustiçado. Mas também dói na de quem a praticou equivocadamente. Eu estou pedindo perdão, publicamente, a Antônio Góes, e ficaria feliz se ele aceitasse.

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim.

Obra: História Política de Sergipe, VII volume, 1982-1990, de Ariosvaldo Figueiredo, edição de 1996, Gráfica Editora J Andrade, páginas 338/339: “o processo de revalorização dos reacionários, golpistas e fascistas, ora em expansão na Universidade Federal de Sergipe, tem seu ponto culminante com a homenagem a José Aloísio de Campos, servidor da classe dominante, membro da reacionária ARENA, partido oficial, defensor do Golpe de 31/3/1964. Depois de José Aloísio de Campos, que dá seu nome ao ‘campus’, é a vez do Arcebispo de Aracaju, D. Luciano José Cabral Duarte, estrela da primeira grandeza da quartelada de 31/3/1964, querem dar seu nome à Biblioteca Central da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Tudo, como convém à mentalidade autoritária, é feito de cima para baixo. A iniciativa da homenagem, decidida por unanimidade, é do Centro de Educação e Ciências Humanas, presidido pela provinciana Joelina Souza Menezes, borboleta ideológica que, desde que leve vantagem, pousa em qualquer flor. Dia 13/5/1991 o Conselho Universitário, sob a presidência do Reitor Clodoaldo de Alencar Filho, presentes (...), Bel. Clóvis Barbosa de Melo”. E continua, adiante: “... A verdade é que os membros do Conselho Universitário (CONSU) dizem amém, baixam as cabeças e as nádegas, homenageiam o fascismo, antigo e aceito, do Arcebispo Dom Luciano José Cabral Duarte. Por fraqueza cultural e moral os ‘esquerdistas’ Clóvis Barbosa de Melo, do Partido Socialista, Neilza Barreto de Oliveira, do Partido dos Trabalhadores (PT) e José Paulino da Silva, da apelidada ‘Igreja progressista’, três carreiristas fichados, estão entre os maiores defensores da homenagem ao fascista Luciano José Cabral Duarte”. O pau na minha moleira foi injusto e demonstra a ignorância do articulista. Eu era procurador da UFS e estava nessas reuniões como mero assessor do Reitor para dirimir qualquer dúvida de ordem regimental ou legal. Nas reuniões do CONSU o procurador não se envolve no mérito das discussões.

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito à força, numa procura,
Fugir às armadilhas da mata escura.

Entendo que a mais branda punição que pode ser destinada a um ato injusto é a indiferença e o desprezo ao seu autor. Mas nem sempre, principalmente quando ela vem carregada de ódio e é fomentada por uma vindita. No caso de Ariosvaldo Figueiredo, em um requerimento onde pleiteava na Universidade a percepção de vencimentos atrasados, opinei pelo indeferimento em virtude das provas contrárias à sua pretensão contidas no processo. Ele era implacável com as pessoas eleitas como inimigas. Basta ler a referida obra.

Em outro caso, estava eu presidindo a seccional de Sergipe da Ordem dos Advogados do Brasil. A imprensa denunciava quase que diariamente a morte de menores. O aparelho policial do Estado sempre justificava os assassinatos como uma suposta disputa de pontos de vendas de drogas entre traficantes ou, como era chamada na época, a “guerra da maconha”. Muitas mortes ocorreram, num total aproximado de 140 menores. Aquilo me deixou um pouco desconfiado até com a falta de lógica nas justificativas da polícia. Primeiro, em sua maioria, as vítimas eram crianças; segundo, o crime era sempre praticado da mesma forma, com armas de fogo e quase sempre marcado com uma cruz na testa do menor; terceiro, repentinamente, Sergipe passava a ser a capital da venda de drogas do País, fato desconhecido na época pela própria Polícia Federal, a quem também cabia a repressão do tráfico; e quarto, os traficantes seriam menores. Não dava para engolir tanta incongruência. A OAB passou a investigar e conseguiu detectar – após a ouvida de testemunhos, anexação de documentos e denúncias de agentes policiais – a existência de um “esquadrão da morte” no Estado, e o que é pior, com participantes da própria polícia civil. O caso foi denunciado na imprensa local, nacional e internacional e a repercussão foi muito grande. Pronto! A minha vida transformou-se num inferno com as ameaças diuturnamente recebidas. Mas fui em frente, inclusive dando nome aos principais denunciados do esquema de matança indiscriminada de menores. O principal suspeito, orientado pela cúpula da Secretaria de Segurança Pública, concedeu entrevista a jornais de Aracaju. Além de negar o seu envolvimento em qualquer tipo de violência contra menores, partiu para o ataque e me fez algumas acusações graves, registradas no Jornal da Cidade, Caderno Local, edição de 3 de março de 1990, pág. 7.

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim.

A primeira acusação: “Mostrando-se tranquilo, o policial fez questão de ressaltar o assassinato das manequins Rosa Estelita e Patrícia Cunha, fato ocorrido em agosto de 89. Nessa época, disse ele, fui procurado por Clóvis Barbosa, para que os policiais que prenderam os autores dos dois crimes facilitassem a liberação dos mesmos. Como não caí no papo dele estou sendo perseguido por Clóvis até hoje”. Na Gazeta de Sergipe, edição de 4 e 5 de março de 1990, pág. 7, em nova entrevista, além de repetir a acusação anterior, está registrado: “O agente disse que não sabe as razões das acusações de Clóvis contra ele e assegurou que foi seu vizinho durante 10 anos e ‘o conhecia muito bem, inclusive da forma como ele maltratava os seus familiares’”. As acusações maltrataram a minha alma, mas não podia perder a razão, até porque entendia que na história do “esquadrão da morte” ele era incentivado por setores importantes do aparelho policial de então. Por outro lado, tinha a minha consciência tranquila sobre as acusações, pois jamais mantive contato com o meu acusador sobre qualquer assunto e sempre nutri um excelente relacionamento com a minha família. Mas, o tempo é o senhor da razão. Na primeira acusação, eu tinha sido advogado dos suspeitos da morte das duas jovens, na fase ainda policial. Sempre tive a convicção da inocência de ambos, mas a polícia, a todo momento, apresentava provas falsas da participação dos mesmos e essa atitude tinha o apoio do magistrado responsável pelo processo. Falei com a família dos acusados e a orientei no sentido de contratar um criminalista e me afastei do processo. Em junho de 1990, o caso foi resolvido com a prisão de dois policiais que confessaram a autoria dos crimes. Em novembro de 1990, a imprensa anunciava o desbaratamento do chamado “esquadrão da morte”, com a prisão de vários policiais, dentre os quais o meu acusador. Pois bem, sabe-se que toda injustiça precisa ser superada para que não se torne um sofrimento que corrói a alma. Naquela que pratiquei, procuro aqui me redimir. Nas que sofri, procuro perdoar. Eu, caçador de mim.
Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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