20/01
13:00

Muvuca no Ferryboat

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

No dia 30 de dezembro de 2018, encontrava-me com minha esposa em Salvador. Tinha recebido um convite de um colega conselheirodo TCE/BA, Inaldo Paixão,para comer uma moqueca de pescada amarela em Caixa Prego, bem no fim da ilha de Itaparica, ou Vera Cruz (a ilhotahoje é formada pelos dois municípios). Inaldo é um dos homens do sistema Tribunal de Contas com quem mais me identifiquei e, se é verdade que etnia, idioma e similitude de propósitos são os três ingredientes que imantam as pessoas- irmanando-as e fazendo delas emergir uma mesma frequência que capta a sonoridade do mundo, ou o modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida- então está explicada essa afinidade. Interessante é que a primeira vez que o vi foi em Buenos Aires. Estávamos, ambos, no mesmo propósito de representaro sistema de controle externo brasileiro num evento que tratava do assunto com colegas argentinos e espanhóis. Falamos o mesmo idioma, aquele que é expressadopelos excluídos dos bairros pobres da velha Salvador. E temos a mesma etnia, pois somos filhos da antiga Estrada das Boiadas que, com a Independência da Bahia, por ali passando o exército libertador, tornou-se Estrada da Liberdade ou Rua Lima e Silva, que se estende da Soledade até o Largo do Tanque. Esse itinerário é cortado por vários guetos, com suas diversas nações: Soledade, Lapinha, Sieiro, Cine Brasil, Ladeira do Inferno, Pero Vaz, Central, Queimadinho, Estica, Gengibirra, São Lourenço, Sete de Abril, Bairro Guarany, Rua São Cristóvão, San Martin, Alto do Peru, Alto do Pará, Japão, Curuzu, Ladeira de Pedra, Graciosa, Largo do Tanque e tantas outras. Inaldo é da nação do Corta Braço, hoje Pero Vaz e antiga roça de Chico Mãozinha, invadida na década de 1940.Eu sou da Liberdade, o bairro mais negro da Bahia, mas, segundo o IBGE, este título pertence hoje à Fazenda Coutos.Vivemos sob os batuques do Ilê Aiyê e do Muzenza, dois blocos afro que orgulham aquelas comunidades. A Liberdade e o Corta Braçoderama mim e a Inaldo a régua. O compasso fomos buscar nos caminhos da vida.

Nosso propósito ideológico, ademais, é o mesmo: construir uma sociedade mais justa, onde a força do trabalho supere a exploração do sangue e do suor do operário. Vejam, pois, que eu e Inaldo compartilhamos da etnia, do idioma e dos propósitos, daí o entrosamento existente. Resolvi, então, ir em direção a Caixa Prego. Deixei o meu veículo no hotel e fui para o ferry de Uber. Acertei com minha filha para nos pegar em Bom Despacho (ela estava veraneando em Aratuba, a quatro quilômetros de Caixa Prego), já que nós íamos como passageiros. A fila de veículos estava tranquila, contudo a dos passageiros estava enorme, saindo do ferry em direção à feira de Água de Meninos.Enfrentamos a fila para compra dos ingressos e até que não demorou muito. Entretanto, durante o trajeto para a bilheteria, vivenciei a amizade de algumas figuras interessantes e a alma do povo baiano, sempre bem-humorado apesar dos atropelos do dia-a-dia. Após essa primeira etapa, demos o segundo passo e entramos na antessala da sala de embarque, onde os passageiros esperavam a abertura do portão.  Pois bem.Fomos os últimos a adentrar no espaço, que já estava entupido de gente.Não dava para ninguém se mexer do lugar. Eram homens, mulheres, crianças, cachorros, gatos,e vários utensílios, como geladeira, ventiladores e caixões carregados com cerveja, muitos desses objetos meticulosamente encachados nas cabeças de algumas pessoas. Aliado a esse tumulto e desconforto, pasmem, o calor a cada minuto que se passava aumentava ainda mais. Minha mulher, por seu turno, começava a reclamar das pisadas, bafos, empurrões e se preocupava com o fato de tê-la colocado naquela situação. E repetia a toda hora a insensatez da direção do ferry em permitir aquilo; que pela demora achava difícil o embarque;que não sabia como o povo aguentava aquele sofrimento; que era um crime o que se fazia com as crianças naquele calor medonho.Ela estava com a matraca solta.

Para mim, tudo era emoção e um filme passava pela minha cabeça. Imagens da minha infância, com meus pais e irmãos atravessando a Baía de Todos os Santos em direção a Itaparica,  desfilavam pela minha mente. Quase não ouvia a angústia da minha mulher. O suor corria pelas minhas pernas. Repentinamente, tudo mudou no ambiente e começaram as reclamações com a demora em encaminhar os passageiros para a sala de embarque: - Abra esta porta, filho da puta!gritou um passageiro aovisualizaruma espécie de segurança na parte de dentrodo Ferry. Como ele era careca, outro gritou: - Abra esse caralho, seu Cabeça de Pica, ninguém está aguentando o calor! Duas moças, que se encontravam no final da aglomeração, começaram a se aproximar da porta de embarque, falando que estavam se mijando. O público, percebendo a aflição das moças, abriram alas para que pudessem transitar. Ocorre que, já no portão de embarque, elas se acalmaram e não procuraram atender às suas necessidades fisiológicas, o que levou a multidão a se rebelar. Passou-se, então, a chamá-las de mijonas: - Ou mijonas, não vão mijar mais não? Um grito, que veio lá do fundo, berrava com eco: - Mijoooooonass!!! E o tempo passando! À proporção que funcionários do ferry surgiam na sala de embarque, gritos começaram a ecoar no recinto, saídos de todos os lados: - Xibungo, abra essa porta; - Cala a boca corno; - Abre a porta Mariquinhas; - Maria Bonita;- Sapatona; - Veada; - Tô me cagando, porra, abra essa porta!; - Filho de uma égua, tá um fedor de rabo que ninguém aguenta, etc. Nisso, abre-se uma sinfonia aterradora, com crianças chorando, cães latindo, gatos miando, e um sorveteiro gritando no seu ouvido: - É sorvete, sorvete, sorvete, coco, mangaba e cajá, um é três reais e dois são cinco. Tudo isso e toda essa algazarra ao mesmo tempo, o que levava a uma agonia geral. Sinceramente, eu vibrava com tudo aquilo. Há muito tempo não vivia aquela realidade. Minha mulher estava pasma com a minha reação.

E então a porta de embarque começa a abrir e uma confusão se forma com todos querendo adentrar ao mesmo tempo. Um jovem cotó, com apenas uma perna, começou a discutir com outros passageiros e foi empurrado abruptamente por um segurança contra o portão. Todos se revoltaram com o guarda, mas os ânimos foram acalmados. Com a situação regularizada, todos acomodados no catamarã, seguimos viagem pela Baía de Todos os Santos. Nisso, um casal gay começa a dançar ao som de músicas baianas. A coreografia encenada pelos dançarinos divertia os passageiros. Estava conversando com o jovem Cotó quando esse me disse: - Quer ver as bibas “endoidar”? Aproximou-se do som, conversou com o dono e entregou-lhe um pen drive. Começa a tocar I Will Survive, na voz de Glória Gaynor. O casal começa a dançar loucamente, agora ao lado da maioria dos passageiros, numa junção de movimento corporal e passos que invejaria as dançarinas do Faustão. Durante o trajeto, a música tocou umas 20 vezes. É umacanção muito bonita, com uma letra que fala de superação, de que é preciso ir para a frente, lutando para transformar o mundo num local único, homogêneo, leve, igual pelo respeito das diferenças. A verdade é que eu estava num bom lugar, ao lado de gente simples, alegre, com extraordinário senso de humor, humilde, esquecida pelas políticas públicas. Todo aquele sofrimento, com grande número de pessoas enjauladas, sem poder sair e nem entrar, é uma afronta à dignidade da pessoa humana. O ferry é uma concessão pública. É inadmissível que o Estado assista de camarote o péssimo serviço que é prestado pela empresa exploradora da concessão. Bom, finalmente cheguei em Caixa Prego. A me esperar, com um sorriso do tamanho de um caminhão, o meu amigo Inaldo, sua mulher e seus sogros. Esplêndida a moqueca de pescada amarela, o siri catado com feijão divinamente temperado, arroz branco e cerveja gelada. Mas fiquei retadocomigo. É que quis ser educado e não repeti o prato. 

Pois é, foi um dia de arromba! Confesso que é nas pequenas coisas que a gente descobre momentos de felicidade. Na volta, sem mais os problemas enfrentados, vim cantarolando um samba de terreiro, “nessa minha caminhada/ sou água de cachoeira/ Ninguém pode me amarrar/Piso firme na corrente/ Que caminha para o mar/Em água de se perder/ eu não me deixo levar”.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/01
10:21

Por que mataram Carlos Firpo?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em junho de 1958 eu tinha exatamente dez anos. Pela primeira vez, após a minha saída da cidade de Estância há sete anos, eu voltava à terra em que nasci. Numa manhã chuvosa, na Estação da Calçada, em Salvador, capital baiana, embarcava com minha avó paterna, Júlia Modesto de Melo, em direção ao estado de Sergipe. Trinta e seis horas depois chegávamos à Estação Ferroviária da cidade de Salgado. Ali dormimos numa pensão e na madrugada do dia seguinte, de caminhão, seguimos para a cidade de Estância. Eram parcas as minhas lembranças sobre a terra que me viu nascer, mas, durante os trinta dias que ali fiquei, fiz algumas amizades e vivenciei um pouco dos costumes e dos acontecimentos da vida estanciana e sergipana. Era o mês de junho, período rico das festas de largo, que se concentravam sempre na praça Barão do Rio Branco. Dias antes, em Salvador, tinha lido no jornal A Tarde e ouvido nos noticiários da Rádio Sociedade da Bahia notícias sobre o assassinato do médico Carlos Firpo em Aracaju, cuja autoria, segundo a imprensa baiana, seria de sua mulher junto ao amante, um militar da Aeronáutica. Aquilo atiçou a minha curiosidade e, quando cheguei em Estância, procurei notícias sobre o infausto acontecimento. As crianças de minha idade não tinham qualquer ideia crítica sobre o evento, mas, as pessoas mais velhas criavam todo tipo de ilação sobre os motivos que levaram ao crime. No calor das discussões e das notícias que pululavam diariamente na imprensa sergipana, três versões, pelo menos naqueles dias, tentavam justificar o ilícito praticado contra um médico bastante respeitado pela sociedade: a do crime passional, cujos mandantes teriam sido a mulher do médico, Milena, e seu suposto amante Afonsinho, jovem Coronel da Força Aérea Brasileira; a do crime político, muito comum na época em Sergipe; e a do crime levado por questões familiares e ligados ao direito de herança. Voltei a Salvador, mas aquele crime marcou bastante a minha infância.

Quando retornei a Sergipe, na quase metade da década de 1960, procurei informações e comecei a ler tudo que se falava a respeito daquele crime, que teve repercussão nacional ante as circunstâncias e pessoas envolvidas. O jornal Última hora, do Rio de Janeiro, cobriu todo o desenrolar do processo, cuja nata da advocacia brasileira atuava na defesa e na acusação, esta como assistente do Ministério Público. Os historiadores sergipanos trataram muito pouco ou quase nada do tema, à exceção de uma obra, Sergipe por um óculo, de José Lopes Bragança, um militar do exército que serviu em Sergipe durante algum tempo e que estava presente por ocasião do crime de Carlos Firpo. O livro dedica sete páginas ao acontecimento, no que se constitui como o mais amplo trabalho escrito da época. Bragança diz, na conclusão do seu opúsculo, que tinha o objetivo de “contar aos brasileiros como se desenrola a vida em Sergipe”. E o faz, mostrando uma realidade dantesca do Estado naquela época, tanto no campo da economia como na política. Recolhi algum material e guardei. Mais tarde, nos anos de 1990, fiz amizade com o jurista Evandro Lins e Silva, que era meu colega Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, e que atuara na defesa de Milena e de seu pai Nicola Mandarino. Inquiri Evandro, durante vários anos, sobre o crime de Carlos Firpo e ele me falou dos bastidores do processo, da sua atuação, da briga com o seu colega e amigo Sobral Pinto, que atuou na acusação, da sua tese sobre o verdadeiro motivo do crime. Enfim, num encontro no Rio de Janeiro, por volta dos anos 2000/2001, onde ele tinha o seu escritório, voltamos a falar sobre o assunto. Falei-lhe da minha intenção de escrever um livro sobre o evento e ele me estimulou bastante, dizendo-me, inclusive, que eu iria fazer um resgate da verdadeira história e do sofrimento da família Mandarino. Depois de me entregar alguns recortes e dados do processo, Evandro aceitou meu convite para escrever o prefácio, mas morreu em 2002, não chegando a deixá-lo pronto.

Após a sua morte, adiei um pouco o meu projeto, até porque tinha algumas dúvidas sobre uns acontecimentos e precisava dirimi-las. Desde 1970 venho conversando e gravando depoimentos com muitos sergipanos e testemunhas oculares de alguns fatos ocorridos ao redor do crime. Dentre tantos, destaco o advogado Achiles Lima, que atuou na acusação ao lado de Sobral Pinto; Humberto Mandarino; Evandro Lins e Silva; Milena Mandarino; Seixas Dória; Desembargador Antônio Machado, Secretário de Segurança Pública à época do crime; Lauro Porto, parente da família Mandarino; médico Antônio Garcia, autor da letra da música Injustiçada, gravada por Alcides Gerardi, onde defende a honra de Milena Mandarino; policial José Rozendo Santos; e Luiz Eduardo Costa. Tive acesso a gravações dos programas dos radialistas Silva Lima e Santos Mendonça, ambos de grande audiência em todo Estado; jornais da época; petições dos advogados de defesa Evandro Lins e Silva, José Laurindo Cerqueira e José Mesquita Santos; cópia do inquérito e do processo judicial com os seus recursos e decisões. Em 2008, cinquenta anos depois do crime, uma bomba estourava na imprensa sergipana. O jornalista Luiz Eduardo Costa começaria a escrever, no Jornal do Dia de Aracaju, uma série de artigos sobre o malfadado evento da rua de Campos. E traz uma novidade que resgata toda uma estória criada durante o inquérito policial dirigido pelo Secretário de Justiça da época, Heribaldo Vieira: a questão da confissão de Milena Mandarino Firpo. Apesar de estar acompanhado por José Machado de Souza, vice-governador do Estado, Lauro Porto, Seixas Dória - então deputado federal - e de Humberto Mandarino, irmão da viúva, Heribaldo Vieira foi ouvi-la em sua residência, contudo, não deixou os seus acompanhantes adentrarem ao quarto para assistirem ao depoimento. No dia seguinte, Heribaldo anunciava na imprensa a confissão de Milena, que ao lado do seu amante, Coronel Afonsinho, seriam os mandantes da morte do marido.

A verdade é que Milena repeliu todas as acusações e perguntas impertinentes de Heribaldo, o que a levou, a certa altura do depoimento, ao desmaio. Na manhã seguinte, com as emissoras de rádio falando sobre a confissão, Milena negou o seu conteúdo. A esta altura, justiça e opinião pública estavam com a cabeça feita e imediatamente a prisão de Milena foi decretada, sendo recolhida ao reformatório penal do Bairro América. Mas qual a novidade trazida pelo jornalista Luiz Eduardo Costa, cinquenta anos depois? De posse de sete assinaturas de Milena Mandarino Firpo, “feitas ao longo do inquérito policial e do processo, em diferentes datas e em diversos documentos”, Luiz Eduardo procurou o advogado e funcionário aposentado do Banco do Brasil, Antonio Newton de Oliveira Porto, perito grafotécnico, notório conhecedor da matéria e com vasta experiência na área. Dentre as sete assinaturas, estava aquela que ratificava a confissão. Após alguns dias, o perito Porto elaborava o seu laudo e afirmava textualmente que assinatura de número sete (justamente aquela do depoimento prestado por Milena a Heribaldo em sua casa) era falsa e não fora do punho da subfirmada. Como é do conhecimento de todos, na confissão alguém reconhece como verdadeira a existência de um fato que lhe é desfavorável, ou seja, uma declaração voluntária de ciência de um fato. Sendo irrevogável, a confissão só poderá ser anulada quando emanada de erro de fato, falsidade ou se feita sob coação. Quem mandou matar Carlos Firpo? O que estava por trás do assassinato? Por que toda uma trama foi urdida para desmoralizar uma mulher e sua família? Por que a polícia e a justiça, apesar do depoimento da viúva de que não assinara o depoimento prestado na polícia, não determinaram na época o exame grafotécnico da assinatura? Quem foram os verdadeiros mandantes do crime? Quais os motivos? Por que mataram Carlos Firpo? São perguntas que, em breve, poderão ser respondidas por duas obras a serem lançadas neste ano. 

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/12
15:34

Carta aos Desinteressados

No artigo da quinzena passada, repassei para os leitores o teor de um discurso que proferi na posse do desembargador Aloísio de Abreu Lima no cargo de presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. À época, estava pela segunda vez dirigindo os destinos da OAB-SE. A minha intenção foi mostrar o estado de decomposição social que o Brasil vivia naqueles tempos. Hoje, trato de um novo discurso que proferi durante o ato de posse e transmissão da presidência da entidade para o advogado Jorge Aurélio, solenidade ocorrida em 1º de fevereiro de 1991, dois anos antes, portanto, do evento objeto do artigo anterior. Dizia eu, então, que muito me honrava presidir aquela sessão, na qual transmitia as insígnias e o bastão de comando da nossa corporação para o novo presidente. Não penso que, no momento em que encerro dois anos extremamente felizes e que pareceram côncavos - porquanto cheios de acontecimentos, cheios de articulação com a realidade e com a cidadania - eu deva fazer um discurso formal. Será uma mera prestação de contas feita por um advogado humilde, que teve a honra e a responsabilidade de um dia assumir a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe, cujo bastão de comando, há dois anos, recebi das mãos fortes e honradas do professor José Silvério Leite Fontes. Termino o mandato de presidente da OAB-SE mais consciente da função que devem desempenhar as instituições civis não partidárias na sociedade brasileira, especialmente a Ordem dos Advogados, sem prejuízo da seleção, disciplina e defesa dos profissionais da advocacia. 

Esta consciência afigurou-se mais ainda durante a nossa gestão. Embora a nível nacional tivéssemos um Conselho Federal comprometido com o Estatuto na parte das questões institucionais, assistíamos a inércia, a omissão dos conselhos seccionais nesses problemas, dando prioridade a um discurso corporativista de que a OAB deve conduzir a sua curiosidade, só e somente, para as questiúnculas da classe. Em todas as conferências de advogados brasileiros, promovidas bianualmente pelo Conselho Federal, este discurso corporativista era execrado pela imensa categoria, como bem disse Fabio Konder Comparato, durante a Conferência de Florianópolis: “Enquanto o corporativismo, o clientelismo e o cartorialismo existirem, jamais construiremos um país decente”. Não foi defendendo os privilégios da profissão de advogado que a OAB conquistou a credibilidade da sociedade civil brasileira. Não foi agalopado em discurso corporativista que a OAB se constituiu numa entidade respeitada no Brasil e no mundo. Foi com luta, muita luta. Luta contra a ditadura militar, que oprimiu a nação e se baqueou inerte ante a altivez e perseverança de uma entidade que orgulha o povo brasileiro. E foi diante dessa tenacidade que muitos advogados foram perseguidos, assassinados e o próprio Conselho Federal teve uma sua funcionária, Dona Lida Monteiro da Silva, ceifada por uma carta-bomba. E por que a OAB privilegiou a luta institucional em detrimento do corporativismo? 

Porque raciocinou que não adiantaria fechar-se em si mesma, deixando de lado o aprofundamento de uma crise que cada vez mais se espelhava no horizonte deste país. Era preciso questionar e fazer a reflexão de um mundo injusto que estávamos criando, muitas vezes até inconscientemente. Era necessário mudar o modelo social que se erguia, pois não adiantava que a situação do advogado estivesse boa e a da maioria da população estivesse ruim. Veio a redemocratização do país, criamos uma nova constituição, fizemos eleições diretas para presidente, e o que se assiste: a violação cotidiana do texto constitucional; o desrespeito ao dinheiro público; a corrupção institucionalizada; o entreguismo do patrimônio público aos amigos e apaniguados do poder político; a distribuição de cargos para pessoas despreparadas e incompetentes, para atender escusos interesses e conchavos políticos; um poder legislativo que perde cotidianamente a sua capacidade de deliberar, deixando de ser  um poder autônomo, independente, para ser um mero cartório de registro da vontade do executivo. Aí está o exemplo da indignidade desse Poder que não tem vontade própria, dependendo hoje da indicação do governador para eleger o seu presidente. E os partidos políticos cada vez mais atrasados? A ambiguidade, a vacilação, a falta de relação entre a palavra e a prática são incompatíveis num partido político moderno.

A deterioração das nossas instituições está levando o país ao caos. São milhões de famintos, são milhões de menores carentes e abandonados, é o sucateamento das empresas estatais construídas com o suor do povo, é o descompromisso com a educação, a saúde pública, com a habitação e, sobretudo, com o homem. Lamentavelmente, estamos construindo um país sem futuro. Por isso, não é nenhuma novidade encontrar-se a OAB à frente de uma transformação da sociedade brasileira, no seu papel de denunciar, processar, bradar contra a injustiça social que assola no país. A OAB foi, a nível nacional, quem mais contribuiu com emendas à Constituição, cumprindo assim o seu Estatuto que a obriga a colaborar para o aperfeiçoamento das instituições. Foi dentro dessa postura que assumi a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe. Cumpri o Estatuto que jurei defender quando da minha posse. Ademais, havia uma cumplicidade entre as teses da OAB e o homem político Clóvis Barbosa. Considero-me não uma testemunha, mas um partícipe desse drama humano pela sobrevivência que dilacera a alma brasileira. Não poderia trair o meu passado de homem pobre, filho de pais humildes com prole numerosa, que aos nove anos de idade foi obrigado a enfrentar o mundo para comer e contribuir para a sobrevivência dos seus irmãos menores. Não li nos livros! Experimentei, convivi com as humilhações, desventuras e as angústias do homem oprimido, que constrói a riqueza dessa nação e não se lhe permite a participação nos seus frutos. 

Foram essas experiências cruéis vividas neste mundo de miséria, dominação do homem pelo homem, de injustiças, que fizeram com que minha alma fosse incrustada de um sentimento contestador. Não de revolta, mas de que era necessário dar a minha contribuição ao processo de transformação social dessa realidade. Agora, pergunto, perquirindo: qual a novidade dessa atuação da OAB, quando seu Estatuto a tudo isso obriga? Não temos que defender a Constituição? Não temos que defender os direitos humanos? Não temos que contribuir com o aperfeiçoamento das instituições? Então, cumprir o Estatuto da OAB é ser arrivista? É gostar de aparecer? É utilizar a Ordem como trampolim político? É ser irresponsável pelo simples fato de ter questionado, aí sim, a irresponsabilidade de um representante da classe empresarial que num jornal da cidade disse que não iria ficar de braços cruzados diante dos arrombamentos que menores infratores vinham fazendo em lojas do comércio da cidade? Quero dizer aos meus colegas advogados que nada do que fiz como presidente esteve fora da Lei nº 4.215, de 1963 (Estatuto da OAB, à época). Daí o desespero de uma minoria da nossa corporação, engatada na classe dominante, que atua sorrateiramente contra os interesses da sociedade e da própria corporação, que fazem do puxa-saquismo, do engodo, da peta, do logro, instrumentos de manutenção dos seus privilégios em detrimento da triste realidade social em que vivemos.

No campo político-institucional, portanto, estou convencido que agi com acerto e de acordo com as decisões expressas pelo nosso Conselho Pleno e com as teses dos advogados brasileiros, radiografadas nos anais de suas Conferências Nacionais. Não existe trabalho mais difícil do que o de lutar pela transformação social, de forma pacífica e sem poder econômico. Se a luta pela democracia e contra o autoritarismo para nós, simples advogados, é, por um lado, um dever, é, por outro, encargo pesado que não dispensa a coragem, a audácia e o desprendimento. Quando refletimos sobre a nossa história e consultamos a historiografia nacional, ainda mais nos persuadimos de que o trabalho político-institucional haverá de percorrer um longo caminho, enfrentando resistências e superando contradições. Penso que os colonizadores portugueses transmitiram práticas políticas que, ajustadas a cada ciclo histórico, têm contribuído para obstaculizar ou retardar o avanço social. O historiador José Honório Rodrigues observa que “as lideranças sucessivas, ajudadas pelas elites, foram sempre muito conservadoras. O conservadorismo é anticonspiratório e anti-histórico, por essência, nem confia na intervenção, nem se considera aliado da história. Não crê no futuro, mas somente no instante presente, participa do dia-a-dia rotineiro e com a fome que traz se farta em comer e devorar os pequenos”. Deixo, destarte, para o novo presidente, uma entidade que se transformou nesses dois anos no repositório, na depositária das angústias do homem humilde, do oprimido, daqueles que são destinatários esmagados na ordem jurídica posta. Não feche a porta da OAB àqueles que têm sede de justiça. 

Enfim, deixo a maior das heranças: o respeito e a credibilidade do povo sergipano a esta entidade que hoje não pertence somente aos advogados, mas é um patrimônio do povo de nossa terra. Agradeço a todos que me aconselharam e ajudaram nessa tarefa difícil. Aos pares da minha diretoria, aos conselheiros, aos servidores e à brava classe da qual orgulhosamente pertenço. Ao deputado Marcelo Déda, que viabilizou as propostas da OAB durante o processo de elaboração da Constituição Estadual nas partes dos Direitos e Garantias Fundamentais, Segurança Pública e Defesa dos Cidadãos, e na criação do Conselho Estadual de Justiça, lamentavelmente obstaculizada por uma liminar do Supremo Tribunal Federal por requerimento da Associação dos Magistrados do Estado de Sergipe. Agradeço,  também, ao povo sergipano, aos Delegados Regionais do Trabalho, neste Estado, Lealdo Feitosa e Nivaldo Elias, aos sindicatos, aos partidos políticos, às entidades civis ligadas ao meio ambiente, aos engenheiros, aos médicos, assistentes sociais, servidores públicos e, por fim, à brava imprensa sergipana, cúmplice das ações da OAB na defesa dos direitos humanos e da cidadania. Registro que nunca imaginei exercer tão importante mandato, que me obrigou a superar a mim mesmo. E, seja a que título for, afirmo que não exercerei nenhum que a ele se equipare; pelo conceito que dele tenho e pelo fascínio que me envolveu. Retorno à simplicidade e ao cotidiano da advocacia mais maduro, convencido de que, além da importância técnico-jurídica do exercício profissional, não podemos nos furtar da dimensão política inerente à responsabilidade de cada um de nós enquanto cidadãos brasileiros. 

Este discurso também era um desabafo, diante das críticas que recebia dos advogados que pensavam a entidade como uma casa de discussão de assuntos corporativos. Faltou, no entanto, dizer, como na música Carta aos Desinteressados, Quem vocês pensam que sou? Quem vocês acham que são? Ninguém vai me segurar quando eu cair no chão...

Autor: Clóvis Barbosa
 


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Redação
09/12
16:05

Mãe, no céu tem pão?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

No dia 1º de fevereiro de 1993, na qualidade de presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe, proferi discurso na posse do desembargador Aloísio de Abreu Lima no cargo de presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. Naquele dia, quando se cumpriam os rituais de transmissão dos cargos de direção da Casa – Presidente, Vice e Corregedor – estava ali não por um dever de mera cortesia, mas de ofício, visto ser o advogado, constitucionalmente, elemento indispensável à administração da Justiça. Por isso, a presença da Ordem dos Advogados do Brasil, naquele momento histórico, se constituía num fato marcante, onde as relações que devem ser mantidas entre a OAB e o Poder Judiciário sempre serão as melhores, desde que fundadas na verticalidade, na transparência dos gestos e na compreensão, oferecidas mutuamente. Dizia eu naquele momento que, tirante o aspecto solene de que se revestia aquele ato, o momento também era o da reflexão. Dizia André Gide que “todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta, força é recomeçar sempre”. E não poderia deixar de abordar um tema atual que envolve cada um de nós, individualmente e enquanto responsáveis pelos Poderes Constituídos, pela magistratura, pelo Ministério Público, pela advocacia, instrumentalizadores de uma sociedade que deve ter na ética e no bem comum os caminhos obrigatórios e permanentes. Se Maquiavel julgou necessário separar a política da ética é porque a proximidade de ambas é inevitável. Uma e outra atuam no mesmo território, o das ações humanas. E ambas têm o mesmo objetivo, o bem. O bem comum, no caso da política, e o bem em abstrato, no da ética. Mas há um momento em que elas claramente se distinguem, como ensina Norberto Bobbio – o critério segundo o qual se julga boa ou má uma ação é radicalmente diferente, segundo se esteja no campo da ética ou da política.

A ética julga uma ação de acordo com sua observância a um princípio. Já a política julga-a pelo resultado. Faça o que deve, aconteça o que acontecer, este é o imperativo da ética, segundo Bobbio. O da política é: Faça de acordo com o que você deseja que aconteça. O pensador italiano embasa seu raciocínio nas lições do mestre da ciência política, o alemão Max Weber, que distinguia entre ética da convicção e ética de resultados. Ética de convicção é ética propriamente dita, aquela que obedece a princípios. Não matarás é o princípio e ponto final. O homem ético não mata porque assim o princípio ordena. Já na ética de resultados, que é a da política, o princípio de não matar conhece uma importante exceção nos países que adotam a pena de morte. A questão aqui é o resultado. Mata-se com a convicção de que a pena de morte é intimidatória. Portanto, o resultado de sua aplicação pode ser bom para a coletividade. A ética que Maquiavel separou da política é a da convicção, para ficar na terminologia de Weber. É a ética dos princípios. O que Maquiavel tinha em vista era chamar a atenção para sua grande norma norteadora, a de que, em política, os fins justificam os meios. Os Estados podem fazer guerra, algo eticamente condenável, porque o que importa é o resultado. E o resultado é que o Estado, se estiver em boas condições de guerrear, ficará mais rico e poderoso, o que será bom para a coletividade que o habita. Maquiavel estava inventando a razão do Estado, algo que pode ser definido como a imoralidade sancionada em nome da política. Ou seja, do bem comum. Mas em nenhum momento estava dizendo que o governante poderia roubar. Em outras palavras, sua doutrina vale para os atos de governo dos dirigentes, aquelas ações que têm por objetivo o bem comum. Mas não é válida para sua conduta pessoal, aquela órbita privada e doméstica que, para qualquer outro cidadão, deve ser regida pela ética.

Este brilhante ensaio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, Revista Veja, edição 1256, a respeito da bandeira da moralidade que acabou derrubando o presidente Collor, reacendeu o antigo debate entre moral e política. Fora, entretanto, da discussão acadêmica - que deve ser perseguida - interessa, aqui, demonstrar as consequências drásticas para a sociedade brasileira da falta de cumprimento da ética das convicções de que nos fala Weber, institucionalizada no país nos últimos anos, quando a corrupção passou a ser a regra e a decência a exceção. A ética que predomina na nação nos últimos quinze anos é a do resultado pessoal - não abordada por nenhum cientista político - em detrimento do bem comum. Estamos num país em que um grande líder empresarial, da poderosa FIESP, confessa “que todos nós somos corruptos”, que um Senador da República afirma textualmente, perante as câmeras de televisão, em rede nacional, “que todos são sonegadores”. Estamos num país em que a Constituição de 1988 - mormente em relação aos princípios que regem a administração pública, como os da legalidade e da moralidade - é letra morta. Saímos de um processo elogiável quando, pela primeira vez na história, afastou-se um governante corrupto. Dias depois, a sociedade brasileira assistiu atônita as condições em que as prefeituras foram entregues aos novos executivos, totalmente dilapidadas. A “Belíndia” do período 1950 a 1980 tinha acabado. A constatação é do próprio autor da feliz expressão que sintetizava as desigualdades sociais do país, o economista Edmar Bacha. Se o Brasil já era o campeão mundial em concentração de renda, a situação ficou pior com a corrupção desenfreada, com a falta de investimentos estrangeiros e com a extinção da ética nas atividades produtivas, gerando a maior crise já vista na história do país.

O país entrou na década de 1990 com um terço da população - 45 milhões de pessoas ou 11 milhões de famílias - abaixo da linha de pobreza, o que significa uma renda mensal de até ¼ do salário mínimo. A miséria não era mais uma condição típica das áreas rurais. De cada dez brasileiros pobres, cinco moravam em cidades. Era nas aglomerações urbanas que, segundo Bacha, começaram a eclodir os sintomas de uma perigosa desintegração social. Os riscos eram potencializados por uma inflação de três dígitos. Só existiam no mundo dois países com um custo de vida tão alto: a Rússia e o Brasil. Tínhamos, naquela época, as previsões mais sombrias para o final do século. De norte a sul do país, as ruas eram tomadas pelos miseráveis: a recessão completava o quadro trágico delineado nos anos 80. A década perdida devastou o povo brasileiro e os anos 90 deixaram as portas abertas para a miséria. O aumento da concentração de renda nos anos 80 expunha suas consequências funestas nos quatro cantos do país. De norte a sul, não havia mais ilhas da fantasia imunes ao assustador crescimento das favelas ou, pior ainda, da população de rua. Na época, 1993, o Brasil tinha 33,5 milhões de pessoas classificadas como “indigentes” pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA. De acordo com o IBGE, 43,1% das crianças de até 5 anos viviam em estado de extrema pobreza, ou seja, conviviam com a mais escura fome. Fome, como a do menino Anselmo, de 4 anos, que em seu delírio, na noite antes de morrer, perguntou à mãe, Joana Matias, moradora da Favela do Pirambu, em Fortaleza: “Mãe, no céu tem pão?” Nem São Paulo, a mais rica cidade do país, escapou do empobrecimento. A Secretaria Municipal de Abastecimento distribuía, diariamente, 1,1 milhão de refeições, não só para os mendigos, mas para um grande número de trabalhadores desempregados.

A decadência paulistana havia dado passos largos no último semestre de 1992: 63% dos atendidos pela rede de solidariedade estavam morando nas ruas havia menos de seis meses, informava a Secretaria de Bem-Estar Social. A recessão pode explicar tudo: a taxa de desemprego na Grande São Paulo passou dos 9% em 1990 para 15% em 1992. A capital paulista tinha, então, 1,2 milhão de desempregados, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). Em Fortaleza, a miséria aguda se tornou crônica. Pesquisa da Prefeitura mostrava que a maioria dos habitantes de cinco favelas da capital cearense era integrante da chamada “população-não economicamente-ativa”, a classificação dada pelos estatísticos às pessoas que não têm emprego e já desistiram de procurar. De acordo com a UNICEF, a faixa de pobreza na população infanto-juvenil do Ceará passou de 62,5% para 70,4% em 1989. Em Salvador, 60% de seus moradores viviam em estado de pobreza crítica, ou seja, 1,5 milhão dos cerca de 2,5 milhões de habitantes. Foi o que constatou pesquisa do professor Fernando Pedrão, da Universidade Federal da Bahia. A desnutrição atingia 54% das crianças de 0 a 7 anos da periferia da cidade e apenas 30% da população da capital baiana vivia em regiões servidas por esgotos sanitários. Maceió era a capital das doenças da fome: 26% das crianças que morriam antes de completar um ano de idade eram vítimas de diarreias, doenças infectocontagiosas e respiratórias. A cidade alagoana, assim como a capital de Pernambuco, não conseguiu sequer conter a cólera. Recife teve 7.900 casos de fevereiro a novembro de 1992. A falta de saneamento básico atingia 80% da população urbana e havia 600 mil famílias morando em favela. Aracaju não fugia à regra das demais capitais brasileiras, sendo os aumentos dos bolsões de miséria uma tônica, respaldada pela degradação escancarada nas cenas de miséria explícita pelas ruas de nossa capital.

O relatório sobre a situação alimentar e nutricional do Brasil, organizado pela FAO-OMS e levado pelo governo à Primeira Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada em dezembro de 1992 em Roma, é inequívoco: “As condições de vida de 67% dos brasileiros não atingem os níveis mínimos de consumo alimentar recomendados pela FAO-OMS, de 2.400 calorias-dia, provocando altos índices de desnutrição, nanismo e mortalidade infantil; O índice de mortalidade infantil, 64 óbitos por mil nascimentos, só é inferior na América Latina aos de Honduras e Bolívia; Dos 58,6 milhões de crianças e adolescentes (0 a 17 anos), que representam cerca de 41% da população, 30% vivem na pobreza absoluta; 75 milhões de pessoas (71% da população) vivem na zona urbana sem esgoto sanitário, 13 milhões não têm água potável, 34 milhões não têm coleta de lixo e, no meio rural, 17 milhões (44% da população rural) não tem água de boa qualidade”. Enquanto isso, uma minoria de brasileiros vivia igual ou superior à maioria dos ricos dos países adiantados e do primeiro mundo. Fingiam inexistir esse quadro de miséria, não sabendo que estávamos criando um país sem futuro. Era o Brasil que a gente vivia!

Pois é! Saímos dessa situação nos anos seguintes: nos governos FHC, Lula e nos primeiros anos do governo Dilma. Estamos retornando ao caos? Deus queira que não!

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
26/11
10:10

À queima roupa

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em 2008, Antonio Marcos Pimenta Neves queria advogar. Mangação. Neves é aquele jornalista que, em 2000, matou a namorada por ciúmes. Sandra Gomide (a vítima), uma jovem com pouco mais de trinta anos, deu um fim no relacionamento que mantinha com o então sessentão porque se apaixonara pelo equatoriano Jaime Mantilla. Mas isso não vem ao caso. Relevante é a atração que o assassino começou a nutrir pela advocacia. Talvez porque também tencionasse matá-la. Com efeito, é o que iria suceder se a OAB-SP não desse um basta no surto do sociopata. Preconceito? Não. Admitir um homicida na OAB é o mesmo que aceitar um sádico tratando feridos de guerra ou um pedófilo como diretor de creches e orfanatos. A advocacia veio ao mundo com o propósito de defender a liberdade e a vida, coisas das quais Pimenta não entende patavina. A uma porque não deixou Gomide livre para escolher com quem viver. A duas porque nem a deixou viver.

Creio até que não era necessário recorrer à lei para brecar a sandice de Neves. Tudo bem que o Estatuto da Advocacia diga que uma das exigências para que o bacharel venha a ser advogado esteja ali onde ele apresente “idoneidade moral” (art. 8º, inciso VI, da Lei nº 8.906/1994). Tudo bem que o mesmo Estatuto prescreva que não é idôneo quem exibir uma condenação por crime infamante. Tudo bem que infamante seja aquele crime que atribui má-fama ao delinqüente (infamante ainda carrega essa acepção, a não ser que a reforma ortográfica também seja semântica). Tudo bem que Pimenta Neves não tenha lá uma das melhores famas (ele só matou a namorada com dois tiros, um dos quais na cabeça e à queima roupa – que bobagem). Tudo bem para tudo isso. Mas a lei era o que menos importava agora. O direito não se resolve na lei. O direito resolve-se a partir da lei. O direito, a rigor, resolve-se na ordem. Neves advogar é desordem.

Quando concebeu o “direito quântico” (na década de 1970), o professor Goffredo Telles Jr. sonhava com uma dimensão holística para a ciência. O vocábulo “holismo” foi usado pela primeira vez no final da década de 1920, por um sul-africano: Jan Christiaan Smuts. O holismo, em verdade, traduz uma filosofia segundo a qual a energia que regula todo o universo mantém-se harmônica em quaisquer das manifestações de existência. Seja na biologia, na física, na química, no direito etc. O que irá definir a ordem das coisas será aquilo que o filósofo bretão Pierre-Félix Guattari conceitua como “o domínio molecular do desejo, da inteligência, da sensibilidade”. Por exemplo, você já se perguntou por que o homicídio é repudiado em toda e qualquer civilização, por mais primitiva que ela possa transparecer aos olhos? Porque a “ordem” da vida, que a inteligência emana, está como que impregnando nossa alma genética.

O que for além da ordem será desordem. O ficar aquém da ordem também será desordem. Como cantou Gregório de Matos Guerra e feito em partes todo em toda parte, em qualquer parte sempre fica o todo. Veja que o “Boca do inferno”, já no século XVII, tinha a noção holística de acordo com a qual a parte, embora retirada do todo, não perde a impressão genética com que este a dotou. Bem assim o todo, que não deixa de sê-lo porque lhe suprimiram uma das partes. Daí dizer Gregório, no mesmo poema, que quando encontraram um braço do menino Jesus, não toparam apenas com o braço. Depararam-se com o menino Jesus em inteireza, porquanto o braço, que lhe acharam, sendo parte, nos disse as partes todas deste todo. Quem via o braço, via o Cristo. Bonito. Se Neves viesse a ser advogado, quem olhasse pela OAB veria uma alcateia. E quem olhasse para Neves, veria a OAB com a tez genética do crime.

A bíblia ensina que assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor (Ec 10,1). Caso Pimenta Neves passasse a ser parte da OAB, o aroma de liberdade que ela sempre exalou se dissiparia. Em seu lugar ficaria uma cor fétida de morte. Aliás, a mesma bíblia, no gênesis, narra a história de Agar, escrava de Abraão. Ali é dito que, como Sara, esposa do patriarca, era estéril, ela consentiu que Abraão deitasse com Agar e nela fizesse um filho. Nascida a criança (Ismael), Agar passou a humilhar Sara, solapando a alegria da família. Como punição, Agar foi abandonada no deserto de berseba. E Sara voltou a ter paz. Numa palavra, a quebra da harmonia não é holística. Rompe com o equilíbrio “genético”. Causa um câncer no convívio. O lugar de Pimenta Neves não era a casa da liberdade. É o deserto.


Post Scriptum

A joalheria 


Chiquito a vida inteira foi um homem pacato, sempre vivendo em função do seu trabalho - na compra e venda de produtos hortigranjeiros - e da sua família, representada pela mulher e três filhos. Mantinha uma rigorosa fidelidade à esposa e se gabava de nunca tê-la traído. Para se ter uma ideia, todos os dias levava para a mulher dois beijus molhados, sempre quentinhos, iguaria que comprava numa bodega a caminho de casa. Jamais sua conduta recebeu a mais tênue suspeita, aliás, a sua fama de fiel era contada em verso e prosa naquele grande município sergipano. As mulheres traídas, nas brigas com seus maridos, sempre citavam o exemplo de Chiquito como protótipo do verdadeiro homem. Até o pároco da cidade fazia questão de tecer as maiores loas ao seu comportamento nas homilias. Exagerado, certa vez ele falou: Fiel, perseverante e fecundo são as características do amor que Jesus tem pela Igreja, sua Esposa; são também, portanto, as características da união de Chiquito com a sua família. Dona Finha, sua mulher, fazia questão de elogiar a compostura do esposo nas reuniões com outras mulheres casadas. – Confio mais em Chiquito que em meus pais. Evidente que nessas amizades sempre tem uma mais ousada, desbocada, uma mal-amada, que adora melar a felicidade dos outros. - Ah! Minha filha, não acredito em homem fiel!!! Ele só o é até conhecer outra mulher. E quando conhece mais de uma, em duas não fica! Não acredito Finha, tenha santa paciência, não acredito!!! Finha retrucou: – Que horror! E entre os dentes: - Pura inveja! Mas o tempo passa e Chiquito, que sempre apoiou um grupo político da cidade, foi lançado candidato a vereador, tendo uma retumbante vitória, sendo o mais votado do município. O seu discurso era o mesmo: - Desafio que exista neste município um homem mais fiel do que eu. Fiel à esposa, à família, aos amigos, e agora aos meus eleitores. E sempre terminava com o bordão: - A fidelidade do amor. Sempre!!! Quatro anos mais tarde foi reeleito, tornando-se, novamente, o vereador mais votado. Isso o credenciou a assumir a Presidência da Câmara. Sua popularidade era crescente no município. Sempre esteve ao lado do seu grupo político original. Tinha uma fidelidade canina à líder do seu agrupamento, a deputada estadual Lucinha dos Guedes. Daí foi um pulo para Chiquito ser escolhido o candidato do grupo para disputar o executivo, quatro anos depois. Mais uma vez, ele deu um show e massacrou o candidato da oposição. Foi uma festa na cidade. Ele passou a ser assediado pelos caciques políticos do Estado, mas fazia questão de sempre discutir as questões com o seu grupo. Fez uma bela administração e revolucionou a cidade. O seu tino administrativo era admirado por todos e já se falava numa possível candidatura a Governador. Foi reeleito prefeito também com uma grande votação e era uma figura cada vez mais prestigiada. Bom, a partir daí as coisas começaram a mudar na vida pessoal e na gestão dos destinos da Prefeitura. Prá começo de história, anunciou que iria lançar o seu filho como candidato a deputado estadual. Isso fez com que rompesse com o seu aglomerado político, o que causou grande trauma em Lucinha dos Guedes. Passaram a ser inimigos e ele chamado de traidor. Sua administração, então, começou a ser radicalmente fiscalizada. A oposição não dava trégua e sua honestidade começou a ser colocada em dúvida. Mas, independentemente da guerra contra o administrador, era preciso investigar sua vida pessoal. Depois de muito trabalho, Mirinha de Adolfo, dona da principal joalheria da cidade, confessou à irmã, numa viagem a Miami-EUA, que Chiquito tinha três amantes: uma na cidade, outra na Capital e uma terceira numa cidade vizinha, todas clientes de sua loja. Como o prefeito tinha autorizado a colocar em sua conta qualquer compra feita por elas, Mirinha usava de astúcia para vender a sua mercadoria: - Quando uma comprava, eu ligava para a outra, avisando. ‘Fulana, ontem a sua rival da cidade vizinha esteve aqui e comprou um anel de 4 mil reais’. No dia seguinte a da capital corria e comprava uma joia de 6 mil. E assim tem sido feito. Estou tão feliz com as vendas, irmã! Pronto, a irmã de Mirinha contou para o marido, este para o irmão, o vizinho também ouviu e de repente estava na boca do povo e da oposição. Não precisa dizer mais nada. A fama da infidelidade de Chiquito atravessou os muros da cidade e se espalhou por todo o Estado. E ainda descobriram que ele não era o único das suas três amantes. Agora, além de sair da prefeitura, o pobre Chiquito perdeu a esposa, as amantes e a credibilidade. Pior ainda prá Mirinha de Adolfo, que amarga um prejuízo de mais de setenta mil reais das joias que não foram pagas.  

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
14/10
15:06

Quo Vadis?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Estou particularmente seduzido pelo insight do governo pluripartidário. A lição não é nova. Barack Obama, todavia, rejuvenesceu a ideia. Reconheçamos que a iniciativa não partiu dele, mas de Colin Powell, que identificou no democrata o perfil ideal para o futuro presidente ianque. Nada demais, não fosse o fato de Powell ter sua ideologia tracejada segundo o cânon do republicanismo. Isso sem mencionar que ele ocupou o destacado cargo de secretário de estado numa administração pré-cambriana como a de George Bush. Em resumo, Obama e Powell eram adversários. Depois, contudo, o presidenciável conseguiu contar com o general da reserva no seu governo. Mas por quê? Elementar. Porque, como ensinava o ex-presidente Abraham Lincoln, a melhor maneira de aniquilar um inimigo é transformá-lo num amigo. A história está repleta de lições nesse sentido.

22 de junho de 1941. Londres. Dia em que Churchill manifestou irrestrita solidariedade aos soviéticos, cujo país acabara de ser invadido por Hitler. John Colville, secretário do premiê, entretanto, assombrado com a teórica incoerência do chefe - consistente em aliar-se com os comunistas que, no passado, quis ver esganados - censurou Churchill antes de ele começar o pronunciamento pelo rádio. Diante disso, o experiente primeiro-ministro, na altura dos seus 66 anos, não poderia perder a oportunidade de dar uma lição no assessor. “Meu filho, se Hitler invadisse o inferno, eu, no mínimo, faria uma referência favorável ao diabo”. Qual a lógica de Churchill? Compor com um antigo inimigo (Stalin) para assegurar a governabilidade mundial. Ambos tinham encontrado um inimigo externo comum, que afetava interesses também comuns. Daí, a inevitabilidade da coalizão, até como garantia de manutenção da paz pós-guerra.

A chave do poder, em situações desse naipe, está consubstanciada na permanente vigília que o inimigo impõe. Mas não só. O matiz de governabilidade que busca formar um correligionário no inimigo também parte da premissa segundo a qual este apresentará mais produtividade do que aquela que seria contabilizada pelo amigo. Por quê? Porque o amigo supõe que a contrapartida que ele tem para oferecer ao governante estimado é, única e exclusivamente, a amizade. Acontece que, em política, as relações são de complexidade subliminar. Seu feixe enrijece-se na medida em que elas se aperfeiçoam, encontrando fundamento na capacidade e na competência. Malgrado a etnia os aproximasse, a aliança entre ingleses e americanos foi posterior àquela que se testemunhou entre ingleses e russos, inimigos de antanho. Naquele momento, era útil gerir a guerra com os soviéticos, que demonstrariam gratidão no futuro.

Eis a acepção da coisa. Um inimigo agraciado por sua capacidade de produzir e por sua competência em formular jamais quererá, sequer, passar a impressão de que perdeu tais atributos. O amigo, no entanto, que é beneficiado sem que algum critério técnico acompanhe a nomeação para um cargo qualquer, fatalmente se tornará um ingrato. Sua psique não enxerga a obrigação de provar constante fidelidade. Para ele, a fidelidade sempre esteve provada. Essa proposição, porém, não encontra respaldo antropológico. Fidelidade é algo que se prova dia a dia. Um inimigo congraçado por ser capaz e competente transpira serventia e indispensabilidade. Ele não jogará fora a oportunidade de manter estendido o rol de asseclas. Como preconizam Robert Greene e Joost Elffers, “guarde os amigos para a amizade, mas para o trabalho prefira os capazes e competentes”. No fundo, congraçar tão somente amigos é desgraçar-se.

Prêmio Nobel de literatura em 1905, o escritor polonês Henryk Sienkiewicz (autor do festejado romance Quo vadis?) atesta o quanto é temerário entregar postos de relevante vulto a amigos, simplesmente porque eles são amigos. Quer uma evidência de tal ponto de vista? Imagine o leitor que está na Roma governada por Nero. O único pilar vivo do cristianismo é Pedro, a quem Cristo chamou de pedra angular da sua igreja. A matança de cristãos no obelisco do circo de Nero leva o psicopata ao êxtase. Pedro, de personalidade sempre oscilante (já havia negado o mestre três vezes no passado), resolve fugir da cidade. Já na via appia, tem uma visão. Cristo, carregando sua cruz, caminha em direção a Roma. Assim, Pedro, aturdido, indaga o rabi: “Quo vadis, domine?” (Aonde vais, senhor?). Jesus, de acordo com sermão de Santo Ambrósio, responde: “Venio iterum crucifigi” (Venho ser novamente crucificado).

A rigor, Cristo quis dizer algo do tipo: “Já que não pude contar com o único amigo que tinha para apascentar meu rebanho, vim eu mesmo”. Envergonhado, Pedro voltou. Diz a patrística que foi crucificado de cabeça para baixo. Por outro lado, Paulo (talvez o maior inimigo que o cristianismo já teve) após converter-se nunca temeu a morte e jamais fugiu dela. Por isso, foi chamado apóstolo das nações, escolhido a dedo por Jesus para difundir seus ensinamentos. Um inimigo que se tornou o maior de todos os aliados, porquanto fosse capaz e competente. São Pedro que me perdoe, mas não abrirei mão da tese. Quando nos depararmos com um oponente talentoso, devemos perguntar-lhe:   “Quo vadis?” e trazê-lo para o nosso lado. Coligar-se com quem digladiávamos é usar o aço da espada na armadura. Por conseguinte, faço minhas as palavras de Voltaire: “Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu”.


Post Scriptum
O cavalo que anda de moto

Toda vez que vou à República Dominicana, onde vive uma parte de mim, surpreendo-me com o modus vivendi do seu povo. Passei recentemente oito dias naquele país, viajando direto por algumas de suas paragens. Punta Cana, Bávaro, Macao, Higüey, Boca de Yuma, Bayahibe, Domínicus, La Romana, San Pedro de Macoris, Boca Chica e Santo Domingo foram locais visitados. Seja por uma “carretera” recém-inaugurada, que liga Santo Domingo a Punta Cana, ou passando por estradas estreitas e sem acostamento, vê-se de tudo, inclusive como o país vive um drama de falta de civilidade no seu trânsito. As motos andam com cinco e até seis pessoas, muitas delas crianças, e o capacete (eles chamam de “casco”) só é obrigatório para o condutor. Presto atenção a tudo. Às placas nas estradas: “No cierre el cruce”, “Motorista use siempre el casco”, “Estación de peaje”, “No olvide usar el cinturon de seguridad”, “Pare em rojo”, “Despacio”, “Redusca velocidad”, “Verifique los frenos”, “Rebase com seguridad”, “Respete las siñales de transito”. E a propaganda política?  “Robert de La Cruz – diputado – Por el desarollo de nuestra província”, “Hamlet Melo, diputado”, “Juan Julio, senador 2016”, “Cholitin, senador – Voi por ti...”, “Ramon Ramires Manolito, síndico”, “Josecito, senador”, “Socrates Dias, regidor”, “José Maria, senador – el senador que el pueblo quiere”, “Juancito, alcalde”, “Miguel, presidente”, “Juana Vicente, senadora – capaz e servidora”. As eleições seriam realizadas em 2016, contudo, a campanha política já estava nas ruas desde o início do ano. As motos tomam conta das pequenas localidades. Nos fins de semana, a população mais pobre dos trabalhadores se reúne numa espécie de bodega para tomar rum. Depois saem, muitas vezes bêbados, conduzindo as motocicletas com até cinco pessoas. Os acidentes batem recordes. Não é à toa que alguns políticos fazem da reivindicação de construção de hospitais traumatológicos a sua bandeira. A par disso tudo, enfrentei nesse período a possibilidade da passagem pela ilha de um furacão (eles chamam de huracan). Estava programado para o dia 25, justamente o dia do meu regresso, porém, aos poucos, “Danny”, seu cognome, foi se debilitando e se afastando em direção à Flórida, Estados Unidos. Segui viagem e, após um banho nas águas do Caribe, retornando ao hotel que estava hospedado, diviso na minha frente uma moto e, na sua garupa, um cavalo com as patas amarradas ao corpo do condutor. Não acreditei no que vi. Tinha que ter a certeza. Perguntei à minha mulher e ao meu filho se eles estavam vendo aquela cena surreal. O meu filho, que mora na República Dominicana, disse que aquilo era comum. Fiquei aturdido e, ao chegar ao hotel, fui pesquisar na internet. E o que eu encontro? Uma foto semelhante ao que testemunhei há alguns minutos. A fotografia, de autoria de Amit Dave/Reutes, mostra uma espécie de cabrito, flagrado na cidade indiana de Ahmedabad. Vivendo e me surpreendendo! 

*Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
29/09
11:46

Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Merece todos os encômios o fato de um jovem jornalista, Milton Alves Júnior, interessar-se em escrever sobre um personagem intrigante da vida sergipana, ainda vivo, Wellington Dantas Mangueira Marques. Esta sua obra “Wellington Mangueira – Um Comunista Continenciado” traça um vasto panorama da vida desse líder estudantil na juventude, militante histórico do Partido Comunista do Brasil, preso político e torturado nos porões da ditadura militar que assombrou o país de 1964 a 1985. As sequelas psicológicas e traumatizantes produzidas pela tortura sofrida em si e em sua mulher, Laurinha, não foram capazes de destruir as suas vidas, mas serviram de bálsamo para justificar a necessidade de resistir. Aos poucos, mesmo diante de uma sociedade amorfa, incapaz de entender a dor do torturado, soube compreender esse abismo e, para tanto, partiu para recompor a sua existência como professor, desportista, advogado e gestor público. A sua infância, a família, o amor de sua vida - companheira Laurinha - os estudos no velho Atheneu, os acontecimentos políticos que antecederam o golpe militar de 1964, a queda do governo Jango, as prisões e as torturas sofridas, o exílio na antiga União Soviética e no Chile, tudo isso é contado para nos revelar a figura de um homem fraterno, que sonhava com um mundo mais justo e igualitário.

Todos sabem que durante o período ditatorial as maiores atrocidades foram cometidas contra os que se opunham ao regime. Estudantes, intelectuais, políticos, sindicalistas, profissionais liberais engajados, eram perseguidos e tidos como comunistas e terroristas. Era preciso combatê-los. Muitos foram torturados, desaparecidos e mortos sem qualquer tipo de constrangimento dos donos do poder. Muitas famílias não tiveram sequer o direito de dar um enterro digno a seus parentes, uma vez que os corpos nunca foram achados. Inúmeros presos políticos não resistiram e acabaram mortos após sessões de tortura física ou psicológica, com utilização dos métodos mais diversos, dentre os quais se destacam o Pau de Arara, onde uma barra de ferro era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, ficando o corpo pendurado; o Choque Elétrico, no qual dois fios longos eram ligados nas partes sexuais, nos dentes, língua e ouvidos; o Afogamento, que consistia em mergulhar a cabeça do torturado num balde cheio de água ou de fezes, empurrando sua nuca até o limite do afogamento; a Cadeira do Dragão, parecida com a cadeira elétrica, mas revestida de zinco e ligada a fios elétricos que, quando ligados, transmitia choques por todo o corpo do acusado; a Palmatória, utilizada para agredir várias partes do corpo, inclusive nos órgãos genitais; e as Agressões Físicas, aplicadas no corpo do preso.

Mas Mangueira, apesar de todo sofrimento e humilhações, como ser transcendental, sabia que era preciso resistir e transformar-se. Era preciso reconstruir novos sentidos e horizontes para a continuidade da vida. O livro, então, passa a narrar a sua reintegração à vida aracajuana. Primeiro no Cotinguiba, um clube de futebol, onde ele passou a dar exemplo de administração. Em seguida, ocupando vários cargos públicos e privados como professor e advogado. Depois, passou a Secretário de Estado da Justiça, da Segurança Pública, da Cultura, Secretário Municipal da Educação em Nossa Senhora do Socorro, de Obras, Assuntos Jurídicos e Cultura e, finalmente, a Fundação Renascer, órgão que administra as unidades socioeducativas Centro de Atendimento ao Menor (CENAM), a de Internação Provisória (USIP), a Unidade Feminina (UNIFEM) e a Casa São Francisco de Assis (CASE/Semiliberdade). Em cada passagem por esses órgãos, Mangueira deixou registrada a sua atuação como gestor eficiente, denodado, ético e, sobretudo, revolucionário, procurando sempre transformar a realidade encontrada. Na Segurança Pública, aproximou a polícia da população através da criação da Polícia Comunitária e de uma delegacia destinada a grupos vulneráveis. O lado humanista sempre andou de mãos dadas com a sua prática no exercício dos cargos.

Enganaram-se, entretanto, aqueles que achavam que Mangueira havia perdido o elo com os seus ideais e com o sonho de um mundo melhor para todos. Mesmo ocupado com os vários afazeres profissionais, trabalhou no processo de legalização do Partido Comunista Brasileiro logo após a redemocratização do país, sempre participando da vida política sergipana. Foi um grande defensor dos direitos humanos e soube muito bem trilhar o caminho do reencontro com a vida. Apesar da perseguição nos albores da ditadura militar, não vendeu sua alma, não tergiversou nos seus princípios. Aliás, é um homem intransigente em relação aos seus ideais, esconde no peito uma mina riquíssima de compreensão humana. Mesmo com tudo o que aconteceu com ele e sua mulher, não deixou que o seu coração fosse povoado pelo ódio. Todos podemos olhar para ele com orgulho do seu passado de lutas em prol do social, como defensor inflexível da cidadania e das liberdades ameaçadas. De Wellington Mangueira pode-se dizer que combateu o bom combate, dando tudo de si por um humanismo de base democrática, que tem como norte uma sociedade livre, justa e solidária, lapidada pela consciência. Compreendeu cedo o seu papel de não conformista, de agente de transformação social dentro daquilo que o destino construiu para ele.

Alguns acontecimentos ligaram a minha vida à de Wellington: o primeiro quando fui convocado pelo Reitor da Universidade Federal de Sergipe e pelo Arcebispo Dom Luciano Duarte para um ato de “beija-mão” ao Presidente Garrastazu Médici, que visitava Sergipe. Essa história eu já contei em artigo publicado na revista CUMBUCA, décima edição. Faço um resumo: Diante da minha recusa em comparecer ao ato com o ditador, fui premido por argumentos que me deixaram entre a cruz e a espada. Ao tempo em que a minha ida ao encontro seria bastante desconfortável, já que combatia a ditadura, por outro lado não podia deixar de me solidarizar com a aflição do Reitor e do próprio Arcebispo. Pela parte do Reitor João Cardoso, em razão da série de pressões que ele sofreu e estava sofrendo para punir estudantes. Em relação a Dom Luciano, uma ponderação fulminante fez com que eu revisse a minha posição: Tá bom! Quando o Senhor precisou de mim para salvar o seu amiguinho Wellington Mangueira eu prestei. Agora o Senhor me dá as costas! Ele lembrava uma reunião que tivemos na Cúria Metropolitana no período que Mangueira estava preso. Temíamos pela vida dele e de sua mulher, Laurinha, por conta das notícias que recebíamos sobre as torturas que vinham sofrendo em um quartel do exército fora de Sergipe.

Lembro-me, também, quando fui indicado pelo Partidão para recolher junto a algumas pessoas ligadas à Universidade Federal de Sergipe - professores, alunos e servidores - determinadas quantias que seriam destinadas ao pagamento dos seus advogados. Na época, ele se encontrava preso com sua mulher. Outro fato significativo foi recente, ele como diretor da Fundação Renascer e eu como presidente do Tribunal de Contas. Diante da penúria das finanças do Estado, ele me fez uma série de solicitações de mobiliário, equipamentos de informática e materiais de construção usados, além de um scanner corporal que tinha como meta evitar o constrangimento das revistas íntimas aos visitantes dos menores infratores da unidade socioeducativa. Fizemos a doação de aproximadamente 460 itens, sendo 201 entre mesas e cadeiras, 142 equipamentos de informática e 112 de materiais de construção usados, desde divisórias a estrutura de banheiros. Ao receber o material ele me disse: Muitas mães ao visitarem seus filhos tinham que ficar de pé ou sentadas na quadra. Isto era constrangedor para mim e para todos que defendem os direitos humanos. Os recursos para aquisição do scanner foram deixados pela nossa administração no caixa do Estado. Mangueira é um homem que, como dito num provérbio chinês, não perdeu a candura de sua infância.

Mas o que mais me empolgava nele era a forma como discursava dialeticamente. Num debate com uma pessoa de diferente ponto de vista, não tentava vencer ou persuadir o seu opositor de forma impositiva ou deselegante. Ele fazia questão que não subsistisse qualquer dúvida a respeito dos seus argumentos. Aprendeu naturalmente com Sócrates, que encontrou na procura da verdade, através da razão e da lógica, o maior valor durante um processo de discussão, deixando de lado a retórica, porque nunca visou agradar o seu interlocutor, e a oratória, pois jamais pretendeu vencer uma conversa através da emoção. Como o Menestrel das Alagoas, imortalizado na música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, era um saltimbanco falando em rebelião, como quem fala de amores para a moça do portão. Giovanni Pico Della Mirandola, na sua obra Discurso sobre a dignidade do homem, diz que o homem é colocado no centro do mundo para poder contemplar as mais diferentes angulaturas do próprio mundo, sendo capaz de realizar plenamente suas virtualidades. Este homem, no centro do mundo, é o homem digno, aquele que direciona sua curiosidade para escolhas humanistas. Num mundo de tanta desigualdade, de exploração do homem pelo homem, de falta de fraternidade, é virtuoso construir para si e para todos a dignidade.

Wellington Mangueira é este homem! Por ser solidário, o respeito pela dignidade humana criou raízes em sua alma. Viveu e vive como um cavaleiro templário, resgatando valores adormecidos pela sociedade para construção de um mundo livre, digno e justo.

*Clóvis Barbosa escreve aos sábados, edição de fim de semana, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
02/09
08:32

Minha Luta

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Uma polêmica foi travada no Brasil, no fim de 2015, entre as livrarias. Tratava-se da venda ou não da publicação da obra de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta), pela Geração Editorial. O jornal Folha de São Paulo de 4/12/2015, caderno Ilustrada, página C4, deu conhecimento aos seus leitores desse impasse através de matéria de uma página. O fundador da Editora, Luiz Fernando Emediato, justificou o seu lançamento pelo valor histórico do calhamaço que antecipa o período de terror do Terceiro Reich. A questão, porém, era a de quem exporia a chamada “Bíblia nazista” nas prateleiras? Pois bem. Na hora de expor publicamente seus pontos de vista sobre a circulação da obra, cada um dos livreiros saía pela tangente: a Livraria da Vila disse que venderia o livro quando estivesse disponível no mercado; a Saraiva avisou que não comentava estratégias comerciais, mas que pensa seu sortimento de produtos de modo a contemplar todos os gêneros e categorias; a Cultura afirmou que essa decisão comercial seria discutida oportunamente. Enfim, ninguém queria posicionar-se antecipadamente sem conhecer a opinião do concorrente. Fora do mundo empresarial, o debate comia solto entre os intelectuais. Maria Luiza Carneiro, professora de História da USP, autora de Holocausto, Crime contra a Humanidade, manifestou-se contrária à sua reedição sob a alegação de que a mesma poderia servir de munição para o antissemitismo contemporâneo. E salienta, ainda, que a venda em livrarias ajudaria a pôr nos holofotes o ideário nazista, inclusive sendo pirateada a torto e a direito na internet.

A polêmica, contudo, não passou dessa fase de anúncio da publicação. Lançada a obra, não houve maiores repercussões, prevalecendo o entendimento de Emediato, para quem é importante discutir a história, por mais feia que ela nos pareça, ou principalmente por isso. Ademais, Mein Kampf não deixa de ser um documento importante para o estudo da ascensão do nazismo e do que ele representou na Alemanha. Proibir a sua reedição seria não compreender ou não conhecer os horrores praticados durante a Segunda Guerra Mundial, que teve como saldo 50 milhões de mortos, 6 milhões deles no Holocausto. A obra é dividida em duas partes. Na primeira, Hitler narra a sua história; na segunda, expõe sua doutrina para a estruturação do Estado Nacional-Socialista. Para a historiadora e professora da Universidade Estadual de Londrina, Sylvia Lenz, nada justifica as ações violentas do nazismo. Mesmo assim, segundo ela, é necessário analisar o livro e a ascensão do nazismo sob o contexto da época. Durante as primeiras décadas do século passado, muitas nações europeias também defendiam políticas nacionalistas, imperialistas e expansionistas. “França e Inglaterra, por exemplo, tinham colônias em países africanos e asiáticos e iam para essas comunidades como se fossem superiores”, afirma. Além dessas nações, a Itália com Benito Mussolini, a Espanha com Francisco Franco e Portugal com António de Oliveira Salazar, eram outros países que focavam em políticas nacionalistas e práticas ditatoriais. “Era uma onda que tomava conta de toda a Europa”.

Ela acredita que o Mein Kampf ganhou tanta importância e polêmica pelo fato de a Alemanha ter sido derrotada na 2ª Guerra Mundial. “O fato de ter sido proibido por tanto tempo chama mais ainda a atenção”, completa. Sylvia relata ainda que o livro foi escrito pelo austríaco Hitler sem que ele tivesse noção de que se tornaria o III Reich alemão. “Ele era um pintor frustrado que não se conformava com as imposições dadas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. O bode expiatório que ele encontrou foram os judeus. Em toda história, há um bode expiatório”, ressalta. Além disso, segundo ela, a crise econômica de 1929, a chamada Grande Depressão Americana, que quebrou a Bolsa de Valores de Nova Iorque (à época os EUA era o principal investidor da economia alemã), foi preponderante para que as ideias nazistas ganhassem adeptos e Hitler tivesse o apoio da população. Enquanto ideologia institucionalizada, as principais características do nazismo nasceram de sua obra Mein Kampf, escrita durante o período em que esteve na prisão, fruto de um golpe frustrado articulado pelos nazistas na Baviera em 1923. A propaganda teve um papel fundamental na propagação das ideias contidas na obra, a começar pelo antissemitismo, o tresloucado ódios aos judeus, a quem era atribuída a culpa por todos os males que vivia a Alemanha. Além disso, tínhamos ainda a noção racista e eugenista da superioridade do homem branco alemão ou da raça ariana. Para tanto, era necessária a construção do chamado “espaço vital” para que esta raça superior ali se instalasse e se transformasse num império mundial.

Durante o governo nazista foi criado no programa eugenista a Ação T4, que previa o extermínio de deficientes incuráveis. Vejamos o texto: “O que corresponderia aos mais nobres sentidos é que nossas igrejas cristãs, em vez de irem incomodar os negros com suas missões, coisas que os infelizes não querem e nem entendem, viessem ensinar à nossa humanidade europeia (...) que a obra mais digna de Deus para casais saudáveis consiste em dar a pobres crianças órfãs, porém sadias, um lar generoso (...), em vez de permitir a progenitores doentes colocar no mundo crianças deficientes que só trarão a si mesmas e ao resto do mundo infelicidade”. O objetivo do nazismo, com a eugenia, era purificar a sociedade germânica dos seres indesejáveis. O historiador Philippe Burrin descreveu em seu livro Hitler e os Judeus: “(...) Solicitado por um casal que lhe pedia para autorizar a morte do filho incurável, Hitler respondeu favoravelmente. Decidiu então que o mesmo destino seria imposto sem apelação a todos os recém-nascidos portadores de deformações ou anormais. No dia 18 de agosto de 1939, uma circular do Ministério do Interior obrigava os médicos e parteiras do Reich a declarar as crianças que sofriam de uma deformidade. Reunidos em seções especiais, elas foram mortas pela injeção de drogas ou pela fome”. O método eugenista também foi aplicado aos doentes mentais, dentre estes pacientes esquizofrênicos, epilépticos, paralíticos e psicopatas, que eram transportados para os centros de eutanásia, todos mortos através de gás tóxico.

Volto a Burrin: “(...) depois de algumas experiências, foi estabelecido um procedimento uniforme, que consistia em mandar que as vítimas se despissem ou despi-las e levá-las numa sala com falsas duchas onde elas seriam asfixiadas por monóxido de carbono. Os cadáveres eram queimados num forno crematório, depois que lhes eram arrancados todos os dentes de ouro. Um atestado de óbito era enviado às famílias após um processo de complicada camuflagem, a fim de evitar o anúncio simultâneo de inúmeros decessos numa mesma localidade. Em pouco menos de dois anos, a empresa fez mais de 70 mil vítimas”. Enfim, uma pergunta que não pode deixar de ser feita: como foi possível um livro e seu conteúdo tornar Hitler uma figura tão atraente para milhões de pessoas?

 

 
Post Scriptum
Para onde vão os nossos sonhos

Recebi, no início do mês de agosto deste ano, um texto do escritor, fotógrafo e cineasta Carlos Modesto, um sergipano de Estância e radicado em Salvador, Bahia, desde os anos 50 do século passado, com o título “Para onde vão os nossos sonhos”. Além de vários filmes produzidos, dirigidos e fotografados, Modesto lançou recentemente o seu primeiro livro, “Contos da Escuridão”, ao qual estive presente. 15 dias antes, telefonou-me para dizer que havia descoberto uma raridade, uma série de obras de um sergipano, Manuelito Campos. Não se conteve e escreveu este texto de impressionante lirismo, que repasso para os amigos leitores sergipanos: “Passando por um dos trechos da Rua Ruy Barbosa onde possuo um escritório (ontem, primeiro de agosto), fui chamado por João Brandão, o proprietário de um dos sebos ali existentes, para mostrar-me um material recentemente adquirido de obras literárias de um sergipano. Como ele sabe que gosto muito de livros, e que o conjunto havia pertencido a um conterrâneo (pois sou estanciano de Sergipe), viu em mim uma possibilidade de vender alguma parte dos objetos. Ao examinar o produto, negligenciado no chão da livraria, fiquei logo surpreso pelo fato de as obras terem pertencido ao poeta sergipano Manuelito Campos. E logo senti aquela sensação de tristeza, em ver os sonhos de um homem jogados ao léu. Pensei naquele instante em mim, amante inveterado em livros cujos cuidados dos mesmos fazem parte da minha vida cotidiana. Toquei naquelas peças, algumas já corroídas pelas traças do tempo, outras ainda em bom estado de conservação. Naquele lote desprezado que um dia fez parte de uma alma poética, o tesouro da sua vida intelectual e emocional. Senti vibrações estranhas infiltrarem à minha alma. Vi cartas de amigos também irmanados nos mesmos sonhos, análise do livro de Alexis Carrel, alguns de seus cadernos escritos com sua própria caligrafia, de muitos dos seus poemas, tudo isso me entristeceu. Como sou bastante sentimental, algumas lágrimas umedeceram os meus olhos. Não conheci o poeta, mas senti a dor que sua alma sofria naquele instante através de mim, encerrada nas mansões da eternidade. Era uma parte da sua obra que ali jazia, uma mercadoria de valor, malbaratada sobre o chão frio de um estabelecimento cultural, mas comercial, sentindo uma esperança de que alguém a encontrasse e a valorizasse. Manuelito Campos foi um dos fundadores da Academia Sergipana de Letras, sociedade literária idealizada pelo poeta Antônio Garcia Rosa, criada em 17 de julho de 1927. Ela sucedeu à Hora Literária, instituição recreativa nascida em primeiro de abril de 1919. Assim, através de Manuelito Campos, vejo o final de muitas obras fantásticas, coleções maravilhosas, tão cuidadosamente amadas e valorizadas por seus possuidores em suas vidas terrenas, serem refugadas após suas transições, por familiares frios e sem interesses culturais, onde os sonhos cristalizados nas suas obras são desprezados ao lixo” (Salvador, Bahia, 02 de agosto de 2018)

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente


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