30/12
20:02

Feliz Ano Velho

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Não! Nada disso! Não vou falar do best-seller do querido Marcelo Rubens Paiva que emocionou, e ainda emociona, a todos aqueles que têm contato com o seu romance. Aliás, recomendo como presente de Natal. Na década de 80, recordo-me que comprei 30 edições de Feliz Ano Velho e distribuí no período natalino com os amigos. Ainda hoje alguns desses companheiros recordam do fato bastante gratificados com o presente e com a oportunidade de conhecer uma história trágica, contada numa linguagem simples e coloquial. Eu tenho uma profunda admiração por Marcelo, filho de um grande companheiro, o deputado federal Rubens Paiva, torturado e assassinado pela ditadura militar no início da década de 1970. Confesso que gosto de receber livros e, também, de dá-los. Este ano já recebi três livros: A Democracia Traída, entrevistas com Raymundo Faoro, organização e notas de Maurício Dias e prefácio de Mino Carta; A Biblioteca Esquecida de Hitler, de Timothy W. Ryback, que trata das obras que moldaram a vida do Führer; e Trujillo, La Muerte del Dictador, de Bernard Diederich.

Para presentear alguns amigos vou oferecer o livro da jornalista Claudia Wallin, Um País sem Excelências e Mordomias, obra que me foi dada por um servidor do Tribunal de Contas há dois anos e que li recentemente. Pois bem! A verdade é que muitos que lêem, aprendem. Outros não. A bíblia, a história, os grandes mestres, a filosofia, as obras literárias, estão cheias de ensinamentos. O homem, entretanto, apesar de ser capaz de desenvolver descobertas fantásticas na área da tecnologia, involuiu no campo do aprendizado com a vida. Teima em repetir erros cotidianamente registrados nos anais da história. Tudo bem. Erra-se inconscientemente, não era essa a pretensão, justifica-se, após produzir o caos e a destruição antes do tempo. Nada disso, conversa fiada! Erra-se porque não é sábio, não assimilou os bons ensinamentos e optou pela mediocridade como exemplo. Incorporou maus sentimentos ao seu cotidiano. Vaidade, auto-suficiência, arrogância e, sobretudo, esqueceu-se de ouvir. Ou ouviu mal.

Nietzsche estava certo: "Deus acertou ao limitar a inteligência humana, mas errou em não limitar a burrice". O “conselho” - que, conforme se diz, se fosse bom, não se dava, vendia-se, o que não é verdade - é o maior exemplo de como a insensatez predomina na mente das pessoas incautas. Conselho sempre foi bom e faz muita diferença numa situação de conflito, principalmente quando é dado por pessoas, como diria Ingenieros (O Homem Medíocre, Ícone Editora), que extasiam-se diante de um crepúsculo, sonham frente à aurora ou se arrepiam na eminência de uma tempestade, que gostem de passear com Dante, rir com Moliere, tremer com as tragédias de Shakespeare ou assombrar com Wagner. Enfim, o conselho sempre é bom quando dado por quem sabe velejar nos mares da sensatez. Agora, só dá certo para quem precisa e para quem quer ser ajudado. Aqueles que se acham argutos, espertos, eruditos, não! Por serem auto-suficientes, e muitas vezes, por assim se acharem, preferem se unir aos vampiros de energia, ornados com as virtudes da mediocridade.

Tobias (4,18) sempre ensinou seu filho a dar ouvidos aos sábios e a não desprezar nenhum bom conselho. Fez desses ensinamentos o seu caminhar pela longa vida. E morreu cercado de honra, aos cento e dezessete anos de idade. A mulher de Ló (Gênesis 19,26) recebeu também boas instruções, mas sua índole era cheia de desdém, o que fez com que Deus a castigasse, transformando-a em estátua. Todos sabem como se deu a destruição de Sodoma. Justamente por terem amparado os dois anjos da fúria dos habitantes da cidade, foi Ló aconselhado a sair daquele lugar com a sua mulher e as duas filhas antes da destruição, sob a fixa determinação de não olhar para trás e não parar em lugar algum, seguindo para a montanha. Não era para olhar para trás, mas a mulher não quis ouvir o conselho. Resultado, virou uma estátua de sal; o rei Roboão (1 Reis 12,8) não aceitou ser guiado pelos ensinamentos dos anciãos, que tantos serviços prestaram a Salomão, seu pai, quando ainda estava vivo, preferindo outro caminho.

O que fez Roboão? Seguiu os inaptos, sem cultura, sem experiência. Resultado, perdeu dez tribos e continuou sendo um apoucado. Se Nabucodonosor (Daniel, 4,24-33) tivesse ouvido Daniel, que o aconselhou a pagar os seus pecados praticando a compaixão e reparando as suas faltas cuidando dos pobres, ele não teria sido transformado em animal, comendo capim como gado e a ficar ao esmo. “Seu cabelo ficou comprido como penas de águia e as unhas cresceram como unhas de passarinho”; e Judas Macabeu (1 Macabeus 9,1-18), o mais forte dos homens, cujos feitos lhe renderam a fama, o herói do povo de Israel, não teria perdido a vida caso houvesse seguido as palavras dos seus companheiros que, sensatamente, tentaram demovê-lo da ideia de enfrentar um exército bem mais numeroso, logo após a deserção desenfreada de seus homens. Portanto, quem ignora e descrê dos bons conselhos, seguindo a sua presunção, perde o bonde da história. Faz com que a inteligência seja ofuscada pela mediocridade ou, como diria Flaubert, torna-se “um homem que pensa de maneira baixa”.

Gracian (A Arte da Prudência, Editora Sextante) acentua que a vida humana é uma luta contra a malícia do próprio homem, adiantando, também, que conhecimento sem bom senso é uma dupla loucura. A insensatez, lamentavelmente, é um cancro que impregna o tecido humano, vicia a alma e destrói os sonhos. Está presente em todas as carreiras, sejam nas áreas das ciências exatas, nas humanas; entre as classes mais abastadas ou menos favorecidas. Entristece, contudo, quando a Inteligência sucumbe à insensatez. Não cabe, aqui, discutir as origens desse rebaixamento moral, mas é importante enfrentarmos o dragão verde que solta bolas de fogo pelas narinas existente em nós, como pensado por Nietzsche. Ele não pode continuar impedindo o nosso peregrinar em busca da perfeição. Mas, infelizmente, está muito difícil encontrar o caminho. Tenho visto de tudo nessa vida, mas é nos meandros do poder que a insensatez encontra o seu habitat, dando exemplos cotidianos de como a mediocridade prevalece nas relações.

O mundo está cheio desses semideuses que pululam nos galhos da insensatez, da vaidade, do descalabro ético, da hipocrisia, da indolência e preguiça. Todos irmãos gêmeos da arrogância, característica principal dessa estirpe de gente, que se vangloria da desonra de haver ludibriado alguém e de receber honrarias pelos malefícios praticados. Só e somente ele é honrado e acredita ser o melhor de todos. Diferentemente dos sábios, recebem como afronta uma crítica a um equívoco ou a uma estupidez cometida. Quase sempre são egocêntricos, desonestos e indignos de confiança. Essa turba que povoa o nosso espaço aumenta a cada dia. Quer ver o diabo faça um teste com alguém que assume o poder. Transforma-se, de imediato. Passa a ser um PhD naquela atividade. Não interessam as forças, as circunstâncias, os erros do adversário, a forma como ele chegou ao píncaro, nada! Ele chegou à glória por força da sua “inteligência”, da sua capacidade de aglutinar e por ser o melhor entre todos. Não ouse aconselhá-lo ou tentar estabelecer um diálogo num momento de crise.

A resposta é imediata: - Eu sou pós-doutor, não preciso de interferência de ninguém; eu sei como resolver, pois, se não soubesse, não era eu que estava no poder, mas você. É sempre assim. O poder, para esse psicopata, é eterno, nunca acaba. Não se mira nos exemplos da literatura, da história, da Bíblia e da universidade da rua. Sempre olha a plebe de cima para baixo, como ser inexistente. Pobre de espírito, não sabe o que perde quando deixa de lado a experiência que se encerra num homem do povo. Alexandre, o Grande, subjugou o mundo com as suas vitórias em diversas batalhas. Morreu feio, envenenado por um criado; Xerxes. Filho de Dario I, rei da Pérsia, conquistou o Egito e tentou fazer o mesmo com a Grécia, pois se achava o dono do mundo. Sofreu uma fragorosa derrota, fugindo para a Ásia, onde morreu assassinado por um seu cortesão. O mesmo aconteceu com o poderoso imperador romano Júlio César, que em pouco tempo morreu apunhalado. Veja o exemplo de Muammar Gadafi, objeto de uma crônica aqui neste espaço.

O seu fim mostra que nenhum poder foi tão grande que não tivesse sucumbido de forma terrível, como foi o seu caso, testemunhado por milhões de pessoas. Todos foram e são esmagados pelo próprio veneno: o veneno da arrogância. Em Tiago, 4,6, está dito que “Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes”, ou seja, o arrogante Deus humilha, mas o humilde Ele sempre exalta. Todos conhecem a história da escrava Agar. Está ali no Livro do Gênesis. Por não poder conceber, Sara, mulher de Abrão, propôs-lhe: “Já que o Senhor me fez estéril, une-te à minha escrava, para ver se, por meio dela, eu possa ter filhos”. Abrão acordou com a idéia, unindo-se a Agar que lhe deu um filho. Só que, durante a gravidez, Agar passou a esnobar a sua Senhora, pensando possuir um poder que na verdade não possuía, terminando por ser de forma obstativa expulsa da casa com o seu filho, tudo fruto de sua estupidez. Mas, na verdade, esse time de pessoas que se veste com a roupa da vaidade e da arrogância, não passa de seres medíocres.

Como bem diz José Ingenieros: barcos de amplas velas, mas desprovidos de timão, não sabem determinar seu próprio rumo: ignoram se irão varar uma praia arenosa ou arrebentar-se contra um penhasco. O problema é que eles se sentem felizes, repetindo, sempre, com toda pavonice, aquilo que o personagem vivido por Al Pacino, em O Advogado do Diabo, diz no final do filme: Vaidade: meu pecado favorito. Oxalá que não se acabem como no poema “Vaidade, Tudo Vaidade”, do poeta português Antônio Nobre: “... Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna e eu vi-me só no mar com minha escuna, e ninguém me valeu na tempestade”. Para eles, feliz ano velho!

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
11/12
19:00

Carta aos Iluminados

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE
 
A luz subverte os olhos. Daí, muitos optarem pela noite. É que o ato de enxergar envolve interpretação. Disso, decorre a necessidade de saber ver, conseguir entender e ser capaz de traduzir. A primeira etapa (essencialmente sensorial) contempla a acomodação do objeto na retina. Só isso, porém, não significa nada. Intrincados itinerários até a mente, que o decifrará, precisarão ser percorridos, pois, nela, se aperfeiçoará a compreensão. Com efeito, é o cérebro, pulsando engrenagens lubrificadas à base de serotonina, que nos permitirá distinguir, por exemplo, uma cadeira de um livro. Vencido esse momento intermediário, advém o epílogo: verbalizar a percepção. Aqui reside o instante de maior angústia para idiotas (os mais primitivos e selvagens, dentre os oligofrênicos). O requinte na arte de ofender não consiste em designar o desafeto como demente ou imbecil. O ápice do ultraje está no termo “idiota”.

Há duas espécies de idiota, infiltradas nos mais diversificados nichos sociais, a causar danos às vezes irreparáveis. A primeira é aquela composta pelos idiotas que enxergam menos do que se lhes mostra (os míopes). Já na segunda se encontram arregimentados aqueles que enxergam mais do que se põe à sua frente (os hipermétropes). A cinematografia hollywoodiana, em 1991 (numa das mais refinadas películas sobre a genialidade), estampou, com singular êxito, o protótipo do idiota míope. Trata-se do filme “Mentes que Brilham”, dirigido e estrelado por Jodie Foster. No original, o título da obra é “Little man Tate”, clara alusão ao nome da personagem protagonista, Fred Tate, um garotinho superdotado de sete anos. A cena que consagra a idiotia (que fica entre as mais burlescas do longa-metragem) se dá quando a professora de Fred rabisca uma série de números no quadro-negro. Uns são pares, outros ímpares.

O pequeno Fred nem bulhufas dava à sua pífia aula. Assim, a inconsequente “tia” do maternal acha por bem desafiar o guri: “Quais desses números podem ser divididos por dois?” O moleque, com indiferença, nem se dá ao trabalho de levantar a cabeça. Mas, a contragosto, entre um quê de obrigatória submissão e ironia, com voz modorrenta e arrastada por quilos de desprezo, responde: “Todos”. A toupeira da professora, achincalhada pelo episódio, volta-se para a lousa, esbugalha os globos oculares e, silenciosamente, grita para dentro de si: realmente, qualquer número (e não só os pares, como supôs) pode ser dividido por dois. A questão é se o quociente será número inteiro ou decimal. Não fosse a iluminação do pimpolho, a idiota da professora morreria intelectualmente cega. Os números até que eram cravados na retina e sua massa encefálica os hospedava como tais. Onde, então, morava o problema?

Estava ali, onde a docente teve que compor ideias com eles [os números]. Seu cérebro entrou em curto-circuito. Excesso de luz para uma idiota míope. Como, todavia, conceber o mecanismo “irracional” de um idiota hipermétrope? Saiamos do terreno da cinematografia e encaminhemo-nos ao campo da literatura. Malba Tahan. No fim da década de 1930, Tahan publicou seu festejado livro “O homem que calculava”, no qual narra as façanhas matemáticas de Beremiz Samir. Numa das histórias vivenciadas por Samir, Tahan conta que ele, acompanhado do amigo, ia pelo deserto, montado num camelo. De súbito, depararam-se com o que parecia ser uma caravana recém-saqueada. Entre homens e animais mortos, contudo, emerge uma voz. Era um príncipe, o chefe da caravana, que, ao perceber que os meliantes que se lançavam sobre ela matariam a todos, jogou-se entre os que tinham sido abatidos, passando-se por morto.

Vendo que, nos forasteiros, estava a tábua de salvação, implorou que eles o levassem até seu principado e, rogou água e pão. Samir trazia consigo cinco pães; seu amigo, três. O príncipe pediu que os dividissem com ele, prometendo que, assim que alcançassem seu palácio, daria uma moeda de ouro por cada um dos pães, o que totalizaria oito moedas de ouro. Chegando à casa do nobre, em Bagdá, este cumpriu imediatamente o pactuado. Deu cinco moedas de ouro a Samir e três ao amigo deste. No entanto, Samir redarguiu a divisão, afirmando que o correto seria ele receber sete moedas de ouro, enquanto o amigo receberia tão-somente uma. Espantado com a declaração, o príncipe exigiu uma justificativa do matemático. Samir, desse modo, explicou que toda vez que iam comer, pegavam um dos pães e o partiam em três pedaços: um para o príncipe, um para ele [Samir] e outro para o seu amigo.

Como Samir possuía cinco, seus pães foram partidos em quinze pedaços. Como seu amigo tinha três pães, os seus foram partidos em nove pedaços. Totalizavam-se, por conseguinte, vinte e quatro pedaços (15+9=24). Como eram três a comer dos pães, a cada um foram destinados oito pedaços (24÷3=8). Sendo assim, como o amigo de Samir comeu oito pedaços, dos nove resultantes da divisão de seus três pães, ele acabou por contribuir com apenas um pedaço para o príncipe. Como Samir também comeu oito pedaços, mas dos quinze resultantes da divisão de seus cinco pães, ele acabou por contribuir com sete pedaços para o príncipe. Somando os sete pedaços de Samir com o único pedaço de seu amigo, atingimos os oito pedaços de pão, degustados pelo príncipe. Portanto, Samir, de fato, tinha de receber sete moedas (referentes aos sete pedaços); já seu amigo, uma moeda (referente a um pedaço de pão).

A visão iluminada de Beremiz Samir lhe rendeu honrarias e um alto cargo naquele principado, exatamente porque não foi um idiota hipermétrope, que atropela a sofisticação do raciocínio e esburaca a manta asfáltica por onde trafega a lucidez do pensamento. Idiotas, a rigor, não esgrimam com números. Ora não veem números onde eles existem, ora veem números onde eles não existem. O Brasil, por exemplo, está padecendo de esclerose matemática, em ambas as modalidades (míope e hipermétrope). 

Basta interpretar a crise criada por segmentos políticos que não se conformaram com a derrota nas urnas. Instituíram uma crise política que destruiu a economia. Agora, depois de afastar uma presidente eleita pela escolha popular, estão com dificuldades de reconstruir o país destruído por eles mesmos. Mas, como dizia o cronista Nelson Rodrigues, “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. 

  
Post Scriptum
O Azar

Alfredo era advogado em um grande banco de Salvador, onde chefiava um grupo de oito colegas. Bom sujeito, senso de humor extraordinário, sempre estava alegre e disposto. Aliás, a sua vida se resumia ao trabalho e aos encontros de fim de semana com as famílias de seus colegas de banco. Tinha por eles uma grande afeição e a recíproca era verdadeira. Casado, vivia bem com Emília, uma perfeita dona de casa. Mas ele tinha uma predileção maior pela Dra. Irene, responsável pela área trabalhista. Era um pedaço de mulher! Os homens viviam embevecidos por ela, mas a amizade que os unia fazia com que ninguém avançasse qualquer sinal, em termos de assédio, na sua direção. Qualquer um não! Alfredo avançava o sinal, às vezes discretamente, outras abertamente para dar a impressão que era somente brincadeirinha perante todos. Irene era casada com Fernandez, corretor de imóveis, filho de espanhóis, muito simpático e que fazia parte do grupo. As “brincadeirinhas” de Alfredo eram sempre de elogios -  ora ao corpo de Irene, ora às pernas, ora aos olhos verdejantes, ora à boca gulosa – e sucessivamente terminavam com a frase “Ai se você fosse minha só uma vez...” Irene, apenas ria e dizia “Alfredo, Alfredo, deixe Emília saber...” A verdade é que ela também levava na brincadeira. O tempo foi passando e, certo dia, Lourdinha, mulher de outro causídico do banco, resolveu olhar um terreno acima de Lauro de Freitas, cidade vizinha de Salvador, num condomínio hoje chamado de “Busca Vida”, um lugar que na época só ia quem tinha negócio. A chegada ao local era uma viagem, pois ainda não tinha sido inaugurada a “Estrada do Côco”. Para tanto, Lourdinha chamou para a viagem a mulher de Alfredo, Emília, e foram ver o terreno na companhia de Fernandez. Neste mesmo dia, ao chegar ao trabalho, Alfredo foi logo elogiando a beleza de Irene e, antes que ele dissesse “ai se você fosse minha...”, ela respondeu: “Vai ser hoje, quero ser sua...” Alfredo empalideceu! – Meu Deus, será verdade o que estou ouvindo? Logo marcaram para sair à tarde. Após o almoço, o casal saiu no carro de Alfredo. Ele já tinha pensado onde levá-la, um lugar bem longe, mas discreto e perto do mar. E qual o lugar escolhido? Exatamente... o hoje condomínio “Busca Vida”. De repente, a mulher de Alfredo, que estava com Lourdinha e Fernandez, balbucia: - Oxente, vejam ali. Aquele é o carro de Alfredo? O que ele está fazendo aqui? Os dois olharam e ratificaram o balbucio de Emília. Aproximaram-se do carro e o que viram?! Os dois nus, atracados sexualmente. – Alfreeedo???!!! – Ireeeeene???!!! O que é isto???!!! Gritaram ao mesmo tempo, Fernandez e Emília. Espavorido, Alfredo respondeu na hora: - Azar, simplesmente azar!            

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
29/11
08:19

Feridas da vida

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Ele tinha três aninhos. Estava todo arrumado. De sapatinho, camisinha vermelha, shortinho azul e cabelo cortado. Quem sabe, com aquele cheirinho gostoso de lavanda. Estava vestido como se fosse passear. Ou a uma festa de aniversário brincar com outras crianças. Exalava inocência e vida. De repente, levaram-lhe para atravessar o mar. Sem saber, a esperança de um mundo melhor o levaria à morte. O mar lhe trouxe intacto, como a mostrar para todos nós o quanto da nossa insensatez e da nossa maldade. Ah, como o mar é implacável! Por que fez isso? Logo ali, entre a areia e as ondas que vinham e iam? Ali onde muitas crianças brincam e são felizes com seus familiares? Mas, o impressionante foi a posição de suas mãozinhas. Ambas viradas para trás como a pedir socorro: - por favor, ajude-me, eu sou uma criança! Entretanto, a natureza é pródiga. Notem que nenhum peixe, nenhum animal marinho tocou no seu corpinho, como a homenagear a inocência. Deus! Onde estás que não te vejo? Por que permitiste que essa criança morresse nessas condições? É crime de lesa-natureza uma criança morrer. A criança não nasce para morrer. Ela nasce para irradiar alegria, para nos dar exemplos da força da ingenuidade e da pureza da alma. A criança é luz, é renovação, é a representação da esperança de um mundo melhor. A foto acima é do menino sírio Alan Kurdi. Ao vê-la, dá vontade de agasalhá-lo nos braços, afagando-lhe os cabelos. Ele estava com a família num pequeno bote que carregava 17 pessoas. O barco virou bem próximo ao balneário de Bodrum, na Turquia. Fugiam da maldade humana e de um mundo insensato, em busca de paz e na esperança de um novo amanhã. Escapavam da cidade de Kobane, palco de violentos embates entre militantes extremistas muçulmanos e forças curdas oficiais. Seu irmão Galip, 5 anos, e sua mãe, Rehan, também morreram afogados, mas seu pai, Abdullah Kurdi, sobreviveu. Ele disse: - meus filhos eram as crianças mais maravilhosas do mundo. Eles me acordavam todas as manhãs para brincar. Alguém, irresignado com a morte de uma criança, cunhou um dos mais contundentes petardos contra a humanidade, contra o mal existente em cada um de nós: “De cada criança morta nascerá um fuzil com olhos que terminará por lhe achar o coração”.

Em fevereiro do ano passado, aqui neste espaço, escrevi um ensaio sobre a origem do mal. Ali, tento fazer uma reflexão através de sete perguntas capitais: se Deus foi o criador de tudo, o mal também foi criado por Ele? Por que existe o mal? O bem e o mal são intrínsecos à natureza humana? O mal é uma criação do meio em que se vive? O que é, na verdade, o bem e o mal? Por que Deus tolera o mal? Como nasceu o mal? Todos conhecem o Hino da Criação do Universo. Ali está dito que Deus criou o céu e a terra, as águas do mar, a noite e o dia, plantas que geram sementes, árvores frutíferas, seres vivos nas águas e pássaros que voam abaixo do firmamento, animais domésticos, pequenos e selvagens, segundo suas espécies, monstros marinhos, e seres humanos à Sua imagem e semelhança. Tudo, portanto, foi criado por Deus. E a Bíblia arremata que tudo criado por Deus é bom, especialmente o ser humano – homem e mulher -, coroamento da criação. Depois dessa sentença bíblica, começam a fervilhar as perguntas que não saem da cabeça. São questionamentos para reflexão diante de um mundo de predomínio da maldade. De um mundo onde cada vez mais o homem faz questão de mostrar seus instintos primitivos. Aliás, na própria Bíblia, Habacuque questionou Deus sobre o mal: Tu [Deus] és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele? E ali eu lembrava do perigo de se fazer tantas perguntas. Há cerca de 2.400 anos, em Atenas, por perguntar demais, um homem foi condenado à morte, obrigado a tomar veneno preparado com cicuta: Sócrates. Aliás, para ele, o mal seria resultado da ignorância, não teria existência real e, assim, o homem sábio deveria superá-lo. Mas, a sua morte, ao contrário do que se imaginava, fez estimular na história da filosofia o pensamento perquiridor. Epicuro, por exemplo, filósofo grego que nasceu no ano 341 e morreu em 270 a.C., foi bastante persuasivo ao falar sobre o mal moral, ou seja, o mal causado pelos seres humanos. Epicuro questionava como poderia um Deus bom e todo-poderoso admitir o mal? Ora, segundo ele, se Deus não pode impedir que isso aconteça, então não é verdadeiramente todo-poderoso.

Mas foi Santo Agostinho quem defendeu a tese de que a origem do mal estaria no livre-arbítrio concedido por Deus. Todo mal, para ele, seria resultado do livre afastamento do bem. O mal, assim, seria a ausência do bem. Durante muito tempo se acreditou que a bondade vinha da alma e o mal do corpo, com todas as suas contradições. E mais ainda, a religião maniqueísta explicava a existência do mal diante do confronto de duas forças antagônicas, uma representando o bem, Deus, outra o mal, o Diabo. Ambos seriam fortes e nenhum deles conseguiria destruir o outro. Embora maniqueísta na sua juventude, Santo Agostinho se afastou dessas teses, principalmente ao tentar explicar o motivo de Deus permitir o sofrimento em decorrência da prática do mal. Para ele, ao receber o livre-arbítrio, teria o homem o poder de escolha. Santo Tomás de Aquino repete Santo Agostinho, e vê o mal como ausência do bem. Segundo Aquino, o mal não tem perfeição nem ser. O mal só pode significar a ausência do bem e do ser; pois o ser, enquanto ser, é um bem. Por essa razão, o mal representa algo puramente negativo, ou melhor, ele não é nem essência nem realidade. Ele se apresenta como privação de uma propriedade que a substância deveria possuir. O mal, portanto, seria uma privação, ou seja, a falta daquilo que deveria estar presente. Num momento em que a igreja associava o mal à imagem do demônio e do pecado, Jean-Jaques Rousseau revolucionou a discussão da matéria, ao enunciar “que a primeira fonte do mal é a desigualdade” e que “O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto ele”. Essa visão de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe criou muitos problemas para ele, já que esse entendimento ia de encontro aos valores da época, principalmente aqueles defendidos pela igreja. A obra de Rousseau está consolidada em Discursos sobre as Ciências e as Artes, Discurso sobre a Origem da Desigualdade, O Contrato Social, Emílio e As Confissões e é tida como importante na história da filosofia política. Já Kant entende que o mal está enraizado na natureza humana, diante do poder de escolha que o homem tem para decidir o que fazer. Enfim, o bem é um imperativo categórico e tudo que vai de encontro a ele seria o mal.

E diz Kant: (...) o fundamento do mal não pode residir em nenhum objeto que determine o arbítrio mediante uma inclinação, em nenhum impulso natural, mas unicamente numa regra que o próprio arbítrio para si institui para uso da sua liberdade, i.e., numa máxima. O espiritismo também defende a pureza da alma e que nela está armazenada bilhões de anos de existência. Para essa doutrina, a origem do mal estaria na consciência do homem e na sua convivência com o bem, este sempre eterno e aquele temporário. Para os Espíritos da Codificação Espírita, o bem é tudo o que é conforme a lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta. Allan Kardec, no Livro dos Espíritos, enuncia: [...] os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa ao homem a escolha do caminho. Tanto pior para ele, se toma o mau caminho: sua peregrinação será mais longa. Se não existissem montanhas, o homem não compreenderia que se pode subir e descer; e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e, para isso, é necessário que conheça o bem e o mal. O pensamento humano e a ideia do mal tiveram o seu ponto máximo na descoberta do inconsciente por Sigmund Freud. Para ele, grande parte das nossas ações é movida por desejos recônditos, formulados a partir de lembranças traumáticas reprimidas, tal qual um reservatório de impulsos eticamente inaceitáveis para o indivíduo. Retorno a Kant, que pertenceu ao grupo que defendia uma das matrizes do sistema ético, a chamada deontologia, onde o que importa são os princípios. Se as regras são “não matarás”, “não roubarás”, “não mentirás”, violará o sistema quem as descumprir, pois amparadas por ideais universais. Mas saiu de Czeslaw Milosz - poeta, romancista e ensaísta, de naturalidade polonesa, prêmio Nobel de literatura em 1980 - a ideia de que o bem e o mal só existem no homem. Assim, se a espécie humana deixar de existir, eles, o bem e o mal, também desaparecerão. É o mal existente em cada um de nós que mata as nossas crianças, que cria os nossos medos. O corpinho de Alan de rosto na areia, na beira do Mediterrâneo, parecia mostrar que ele dormiu cansado de tanto brincar... quem sabe com os peixinhos, sonhando que crianças como ele nunca mais morreriam. 
 
Post Scriptum
A Vendedora de Galinha

Não havia contestação. Todos os homens e mulheres, naquela pequena cidade do interior sergipano, eram uníssonos em reconhecer que Anabela era a mulher mais bonita do local. Corpo escultural, seios fartos e pele bronzeada como se estivesse saindo do mar, ela transbordava simpatia onde chegava. Era admirada e fonte inspiradora para o poeta Geraldinho de Fleury que, segundo ele próprio, tem mais de setecentos poemas dedicados a ela, todos de encômios à sua beleza. Desses, seiscentos e cinquenta são dedicados aos seus seios. Para ele, embora os seios de uma mulher carreguem o símbolo da maternidade, são também a imagem da fertilidade e da purificação. Na sua adolescência, Anabela  foi rainha de todas as festas da cidade: Milho, São João, São Pedro, Padroeira. Era invencível. Muito desejada pelos rapazes da capital, nunca deu bola para eles. Seu coração pulsava mais forte apenas por Pedro de Ieié, seu grande amor juvenil. Namorou com ele desde os onze anos e aos dezessete casou-se. Vivia feliz com ele, já com um casal de filhos. Possuíam uma granja e as coisas não vinham muito bem, quando então ela resolveu que iria vender as galinhas na feira. Foi um estouro. Os negócios cresceram rapidamente. De quinze a vinte galinhas que Pedro de Ieié vendia por feira, Anabela, passou a vender entre duzentas e cinquenta a trezentas galinhas. Filas enormes de homens se faziam na barraca de Anabela para comprar o galináceo. Mulher simples e despojada, vestia-se sempre com roupas sensuais que deixavam o seu corpo à mostra em toda a sua plenitude. Se o mesmo scouter que descobriu a modelo Naira Lili, uma vendedora de galinha do Espírito Santo, passasse na cidade sergipana e visse Anabela, não se teria qualquer dúvida que ela seria convidada para posar nos estúdios da Andy Models. O seu marido, Pedro de Ieié, estava maravilhado com a descoberta daquela nova faceta de sua mulher. Sempre que ia à feira, ficava observando a fila de homens comprando galinha. Qualquer pessoa que se aproximasse, ele logo ia falando: - Não sei o porquê, mas quando estou na barraca vendendo galinha ninguém compra, já Belinha! E ele mesmo respondia: - É o tino para o comércio, bestão!      


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
14/11
16:14

Ódio e Inveja

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE


François de La Rochefoucauld é um cronista moralista que viveu na França de 1613 a 1680. É dele a máxima que “A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos”. Já existem estudos que indicam onde a inveja é processada em nosso cérebro. Segundo uma pesquisa científica, é na região do córtex cingulado anterior, ou seja, uma parte de massa cinzenta logo atrás da testa, local onde também é identificada a dor física. O estriado ventral, região do cérebro onde se processa a sensação de prazer, também opera a chamada shadenfreude, palavra alemã que dá nome ao sentimento de prazer que o invejoso experimenta ao identificar o sofrimento do invejado. Esses estudos foram desenvolvidos pelo neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica de Tóquio, sob o título “Quando a sua Conquista é a minha Dor e a sua Dor é a minha Conquista: Correlações Neurais da Inveja e do Shadenfreude”. Através de ressonância magnética realizada em 19 voluntários (dez homens e nove mulheres), na faixa etária dos 20 anos, foi possível descobrir que, ao sentir inveja, a região do córtex singulado anterior era automaticamente ativada. Durante a pesquisa, os voluntários foram induzidos a imaginarem uma situação que envolvia outros três personagens, do mesmo sexo, faixa etária e profissão idêntica às deles. Hipoteticamente, dois deles seriam mais qualificados e inteligentes. Dessa comparação é que o estudo foi desenvolvido. A partir do momento em que se fixa na pessoa a sensação de inferioridade, nasce a inveja, sentimento difuso que ninguém admite. Mas, é preciso que se diga que inveja e ódio são irmãos siameses.

A matriz da inveja está naquilo que a gente deseja, mas muito além do nosso alcance. Elisa Cintra em Melanie Klein Estilo e Pensamento (Ed. Escuta), sintetiza: ‘Quem desdenha quer comprar’, diz o ditado: a inveja é quase sempre detectável na vida cotidiana por esse trabalho de desvalorização do outro, o que também foi narrado pela fábula da raposa e das uvas. Impossibilitada de ter acesso às uvas, a raposa começou a tecer considerações sobre a falta de valor dos frutos, o fato de estarem verdes… A inveja dirigiu-se aos frutos, isto é, à criatividade da árvore, àquilo que ela pode oferecer e criar. A ideia de ‘frutos’ permite que se lembre a inveja da obra do outro, de suas ideias, de seu trabalho e de sua capacidade de criar obras de arte ou científicas. Entretanto, a inveja vai mais longe: além de depreciar os frutos, ela tenta diminuir o prazer da própria situação de gratificação, como na expressão popular ‘não dar o braço a torcer’, admitir o poder do outro. O escritor irlandês, Oscar Wilde, dizia que A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. O Novo Dicionário Aurélio conceitua a Inveja como o desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Um desejo violento de possuir o bem alheio. Já o Dicionário de Psicologia Dorsch, afirma que a inveja pertence aos sentimentos intencionais. É uma insatisfação, um aborrecimento com a alegria do outro. Allan Kardec, o pai do espiritismo, explicita que, com a inveja e o ciúme, não há calma nem repouso para aquele que está atacado desse mal: os objetos de sua cobiça, de seu ódio, de seu despeito, se levantam diante dele como fantasmas que não lhe dão nenhuma trégua e o perseguem até no sono.

Ciúme, inveja e ódio, são sentimentos que existem desde os primórdios da civilização humana, estando a Bíblia repleta de exemplos. A inveja tem até traços físicos, como os pintados por Ovídio em As Metamorfoses, II: lábios lívidos, esquálidos e descarnados como um cão; seus olhos são vermelhos e não encara ninguém de frente. Aliás, a personificação da inveja teve como protótipo a figura da deusa Invídia. Veja a estória: a gananciosa Aglauro, filha do rei de Atenas, sentia grande ciúme de sua irmã Herse. Por isso, foi punida pela deusa Invídia e transformada em pedra mais tarde por Mercúrio. Todos conhecem a estória de Atreu e Tiestes, cujas trajetórias de traições e crimes preenchem uma lista enorme. Ainda jovens, mataram seu meio-irmão Crisipo. Adiante, Tiestes torna-se amante de sua cunhada, Aérope, levando o irmão Atreu a matar três filhos de Tiestes e a servi-los a ele numa bandeja. Para vingar-se, Tiestes, seguindo as instruções de um oráculo, emprenha a sua própria filha, gerando Egisto, que mais tarde viria a assassinar Atreu. A inveja entre irmãos é um dos temas bastante explorados pela Bíblia. Nos Livros Históricos – 2º Livro de Samuel - está a história dos filhos de Davi, Absalão, Amnon e Tamar. Absalão revoltou-se com a atitude de Amnon que, num ato insano, estuprou a própria irmã, Tamar. Isto fez com que Absalão armasse uma emboscada e matasse Amnon. Mas há quem diga que, independentemente deste fato, muito antes havia uma briga de foice entre os dois envolvendo o criatório de ovelhas. No Livro dos Juízes, Abimeleque, para se tornar rei, mata os seus setenta irmãos de uma só vez. Enfim, o caso de Caim, que matou o irmão Abel, que é bastante conhecido de todos.

O psicanalista Mario Quilici diz que a inveja dá-se em quatro fases especificas: (I) Primeiramente, o indivíduo olha um objeto, situação ou um traço de alguém, que imediatamente admira e compreende a importância para ele. Ou seja, vê, admira e deseja; (II) No momento seguinte, faz uma comparação entre o que o outro tem e o que o indivíduo não tem. Ele toma consciência de uma falta sua porque já discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante; (III) Aí se dá o terceiro momento da inveja, que é a percepção – e ao mesmo tempo a vergonha – de uma falta nele do que foi admirado (e valorizado) no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou, é impossível de ser obtido por ele; (IV) Logo estamos na quarta e última fase: A inveja é disparada pela percepção de uma falta no indivíduo. Essa insuficiência faz com que ataque e consequentemente espolie o objeto invejado, para fazer desaparecer a diferença que foi percebida. Numa luta secreta e constante, aquele que se sente insuficiente tenta esconder sua vergonha de ser incapaz. Assim, procurando evitar qualquer situação que o faça sentir mais humilhado, ele ataca antes de ser atacado. Isto é, ele compete sozinho. A competição é um hábito do invejoso, pois ele tem dificuldade de receber ajuda, fazer junto e cooperar. A inveja é um dos sete pecados capitais e percorreu todas as fases da história da humanidade e encontra-se presente hodiernamente. Foi protagonista do holocausto, das teorias de Freud, da morte de Sócrates e tantos outros acontecimentos históricos. Como dizia Bob Marley, tudo que me desejar de negativo, baterá no peito e voltará pra você em forma de amor e paz.    

POST SCRIPTUM
BATISTA, O CAÇAROLA

Tai uma coisa que Batista nunca se importou: o fato de ser chamado de corno. Por volta dos anos 60 do século passado, era uma figura muito conhecida em Aracaju. Conseguiu seu emprego numa importante repartição federal através de um deputado amigo seu, que tinha prestígio com o presidente Getúlio Vargas. Bastante tranquilo, com bom senso de humor, era muito estimado pelos amigos e colegas de trabalho. O que ninguém entendia era ele sempre afirmar que era feliz com as traições que sofria de suas mulheres. Conquistou a sua primeira mulher aos 19 anos. Ela tinha 16 e foi seduzida e desvirginada, o que o obrigou a casar-se. Viveram juntos 4 anos. A ruptura foi ocasionada pelo fato dela traí-lo com um primo que frequentava a sua residência. Depois dela, teve a oportunidade de se amigar com 25 mulheres, e por todas elas foi enganado. Isso não lhe causava qualquer mágoa ou trauma, ao contrário, se vangloriava. Tinha frases prontas para justificar as traições sofridas. Dizia que ninguém consegue comer sozinho uma melancia grande e uma mulher bonita. Justiça seja feita. Todas as suas mulheres eram de fechar a rua, lindíssimas e esculturais. Todas tinham bumbum avantajado e cintura de pilão. Não conhecia dor de corno e nunca se lamentou nos bares da vida. – Chifre foi feito para homem, o boi usa de ousado, dizia sempre. Tinha orgulho de afirmar que nunca foi infiel com suas mulheres. Era inteiro com elas enquanto estavam juntos. Era um autêntico caçarola, vivendo do trabalho para sua casa e vice versa. E sempre foi dominado pelas suas parceiras. A sua 17ª mulher lhe traiu com um vizinho. Era, inclusive, uma chata. Ele não podia sentar no sofá com os pés estendidos que ela reclamava. Pipoca para assistir o futebol, nem pensar. Pois bem. Certo dia, ele teve que fazer uma viagem para o interior do Estado. Contudo, como houve um problema no carro, voltou para casa antes do tempo. Ao chegar, lá estava seu vizinho no sofá, de cueca, assistindo um filme e ao seu lado uma bacia de pipoca. Ele ficou com raiva, quis matar a mulher ou o vizinho? Qual nada! Disse para o amante que estava nervoso com o flagrante. - Fique à vontade. Só vou pegar as minhas roupas. E saía dizendo, - Chifre se cura com outro chifre. Quando algum amigo questionava o fato de tanta traição, ele respondia: - Tenho orgulho dos meus chifres. Se não existisse eu não teria conhecido 26 mulheres. A minha meta é chegar às 30.  

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Por Kleber Santos
16/10
16:00

Escombros de uma Chaminé

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Numa discussão com um grupo de estudos de sociologia da religião, em São Paulo, quiseram saber se qualificaria como “omissa” a decisão tomada por Pilatos contra Cristo. Repliquei que não. “Desprezível” foi a resposta, “na acepção mais diminutiva que puder ser atribuída à palavra”. E expliquei por que empregara termo suficientemente carregado de menosprezo e rejeição. Pilatos é asqueroso e repulsivo não por aquilo que o afamou (o suposto ato de abster-se quanto à condenação de
Jesus). Não. A conduta que verdadeiramente o realça não é a da neutralidade quanto ao assassinato do redentor, pois ele decidiu. A dramaturgia abjeta, estampada na sujeira moral de lavar as mãos, não implicou uma renúncia à prerrogativa de sentenciar, mas redundou num pronunciamento de submissão à chantagem da ralé farisaica (que insinuara ser a libertação de Cristo um atentado contra a soberania do imperador). E, nisso, o prefeito da Judéia tremeu. Pensem comigo. Que reação esperar de covardes, quando são postos diante dum jogo de sonora inevitabilidade? Gente sem couraça e dinamismo de caráter logo argui a incompetência para deliberar como válvula de escape. Foi o primeiro recurso de que Pilatos lançou mão. Ao saber que o réu, sobre o qual pesava a imputação de blasfêmia (porquanto se tivesse apresentado como a própria divindade), era egresso da Galiléia, driblou a pressão da turba, declarando que só Herodes podia debruçar-se sobre a suposta infração. Com isso, ainda conseguiu reatar laços com o governante da província vizinha, seu desafeto até então. O desmiolado, porém, ao invés de ater-se ao libelo que os adversários de Jesus irrogavam, armou uma patacoada e fez estridente panavoeiro circense, exigindo de Cristo a realização de milagres, em troca da absolvição. Ante o silêncio do acusado, tomou-o por louco e o devolveu para Pilatos.

Sendo Páscoa, o prefeito partiu para aquilo que, contemporaneamente, chamaríamos “plano b”. Utilizou a tradição de libertar alguém contra quem tivesse sido prolatada pena capital. Medroso, em vez de ele próprio emancipar o homem que sabia inocente, apostou naquilo que, estrategicamente, era a logística do comodismo. Pinçou Barrabás, o mais seboso dentre os delinquentes presos nas masmorras, pondo-o ao lado do nazareno, a fim de compelir a multidão a ser compassiva. Seria um despautério anistiar o outro, contra quem pesavam medonhos antecedentes. Barrabás era um assassino contumaz, estuprador detestável e ladrão repugnante. Na fragilidade mental que intoxicava o pensamento de Pilatos, o povo nunca optaria por ver solto um câncer dessa dimensão. Mas optou. “Dê-nos Barrabás”. Mas também restava a Pilatos o uso da chantagem. Canalhas sempre se impõem a função enlameada do chantagista. Mandou trazer água. Nela, pretendeu lavar as mãos do sangue dum justo. “Minhas mãos estão limpas do sangue deste homem”. “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, rebateu a multidão. “Ele disse ser o seu rei. Vocês matariam o seu rei?”. “Não temos rei, senão César. Se você não matá-lo, irá pôr-se contra César, nosso único rei”. Foi o quanto bastou. Agora, embora de mãos lavadas, Pilatos viu-se emporcalhado. E, chafurdando, decidiu. Aqui surge o dado que poucos equacionam. Lavar as mãos não foi deixar de decidir. Lavar as mãos traduziu um estelionato litúrgico de auto-justificação, como quem diz que decide contra seus princípios, mas porque as amarras que lhe impuseram não o deixaram solto para decidir como a voz de sua consciência balbuciava. Algo semelhante àquilo que, hoje, alguns poucos juízes com diarréia fazem, laureando marginais sob escusa de serem serviçais da lei.
Não contemporizo. O magistrado que desejar manter as mãos limpas, não as lava com água, mas com princípios. Tércio Ferraz Jr., por exemplo, ensina que sentenças são normas. Para o jurista, elas estarão imunizadas, ou seja, respaldadas quando acharem amparo em normas superiores que as sustentem. Nesse sentido, e apesar de uma sentença não poder ser proferida contra a lei, ela também não pode sê-lo para tutelar o mal. Aí, ele se vale da ilustração do homem que constrói uma chaminé, dentro das regras urbanísticas municipais, não porque queira uma chaminé, não porque ela lhe seja realmente útil, mas porque quer projetar sombra sobre a piscina do vizinho. Pela lei, ele estaria alinhado. Mas o judiciário, enfrentando o formalismo da lei (em respeito à justiça, enquanto princípio fundamental do Direito), determina a demolição da chaminé. Decisão contra a lei, mas a favor do que é bom e correto. Para o bem ou para o mal, obviamente, a consciência que deve reger a trilha a ser seguida pelas decisões é a do juiz. Os aplausos pelos acertos serão a ele outorgados, assim como as cobranças por eventuais equívocos. A alusão, aqui, é a cobranças morais. Volto ao professor Tércio Ferraz Jr., que fala de uma coisa chamada imunização das normas jurídicas. Sentenças são normas. Assim, como as sentenças estarão imunizadas? Se elas estiverem respaldadas em norma superior que as justifique, como dito anteriormente. O leitor deve atentar para o uso do vocábulo “norma”, ao invés de “lei”. A norma é a lei que está de acordo com a “normalidade”, com o sentimento de justiça que a sociedade naturalmente possui, de acordo com o professor Goffredo Telles Júnior. Uma lei injusta, consequentemente, não é “normal”. Por conseguinte, ela não é uma “norma”, é apenas uma “lei”. Uma decisão judicial injusta também não é “normal”.

Logo, ela não se reveste com a autoridade de uma “norma”. Atentemos para o caso do julgamento de Nuremberg. Com efeito, os nazistas praticaram atrocidades contra a humanidade. Mas tudo o que eles fizeram estava respaldado num alicerce constitucional formalmente perfeito (numa visão míope da doutrina kelseniana). Não havia uma constituição que alicerçava as ações de Hitler? Mas será que essa constituição estava imunizada pela norma fundamental? Por aquilo que Kant denomina imperativo categórico? Kant ensina que devemos “agir de tal maneira, que o fundamento de nossa ação se transforme em princípio de uma legislação universal”. Assim, perguntemos: os campos de concentração achavam eco no princípio de uma legislação universal? Perguntemos mais: já que não havia legislação que previsse punição para a ação dos nazistas, eles deveriam ficar impunes, apenas por questões formais? Afinal, como condenar alguém sem lei anterior que definisse a ação desse sujeito como crime? De qualquer modo, seria “normal”, para a humanidade, deixar os nazistas sem punição, por conta de um respeito “anormal” à formalidade? Portanto, sabemos que existem no Direito dois setores distintos. Há aquele que congrega o erro e o acerto. Há, também, o que congrega o justo e o injusto. Daí, uma decisão até pode estar certa, mas ser injusta; ou estar errada, mas ser justa. E isso não é complicado de entender. O hipotético erro poderá estar ou no plano formal ou no plano do conteúdo. Desse modo, quando um juiz (legalista em sua essência) adota o acerto como princípio básico da formatação das decisões, é melhor que ele acerte no conteúdo e erre na forma, se não for possível acertar nas duas coisas ao mesmo tempo. Interessante é que o próprio ordenamento assimila tal raciocínio quando acata, por exemplo, o que chamamos de fungibilidade.

Fungibilidade é uma espécie de adaptação automática, cuja ideia advém da finalidade primordial do Direito, que é propagar justiça. Dessa maneira, se, numa determinada ação, o autor pede uma medida cautelar quando o certo seria pedir uma antecipação de tutela [os termos jurídicos são necessários], o juiz deverá antecipar a tutela, mesmo que, formalmente, o pedido não tenha sido certo. Por quê? Porque não é justo que alguém seja prejudicado tão-somente em razão de um pequeno deslize, de uma mera filigrana. A decisão de um julgador não pode gravitar em torno de um epicentro vazio, seu juízo não pode estar concentrado naquilo que o saudoso procurador de justiça sergipano Gilberto Vila-Nova chamava de “perfumaria jurídica”. É preciso que as pessoas saibam que a lei não é o fim do direito, mas apenas o início de um raciocínio jurídico. O fim do direito é a justiça. E a justiça só é atingida quando se faz valer a norma, ou seja, a determinação verbalizada conforme a “normalidade”. Certa vez, o escritor russo Dostoievsky afirmou que “todos somos responsáveis por tudo, diante de todos”. Partindo dessa premissa, o filósofo francês Comte-Sponville distinguiu “valor” de “verdade”, aliás, uma obra que deveria ser vista por todos nós brasileiros nesse momento instável nos campos da economia, da política e da ética em nosso país. Partindo, pois, dessa singela reflexão, é que registro o meu irredutível desprezo por Pilatos. Apegado à formalidade e à insana demagogia dos fariseus, imolou um justo e livrou um pilantra. De mãos “limpas”, mas com o espírito encardido, caiu em desgraça junto ao imperador romano Calígula após o trucidamento de grande número de samaritanos, o que o levou ao suicídio quatro anos após. É o fim de juízes cartilaginosos: ser encobertos pelos escombros duma chaminé, destroçada pela justiça do tempo.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


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Por Kleber Santos
02/10
01:29

O Direito Achado na Rua

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Em dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Resultado das atrocidades testemunhadas na 2ª Guerra, a Declaração deu especial atenção à dignidade humana como postulado. Quarenta anos depois, o Brasil promulgaria uma constituição. A Carta de Outubro, como é chamada por aqui, ali no art. 1°, III, estabelece ser um dos fundamentos da república a dignidade da pessoa humana, associando a ela os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Interessante que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no art. XXIII, n° 1, diz que toda pessoa tem direito a condições justas e favoráveis de trabalho, bem como à proteção contra o desemprego. Há outros direitos sociais mencionados no art. XXIII. Contudo, o art. XXV parece ser mais contundente, ao determinar que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego”. É bem verdade que o número de pessoas vivendo em situação de pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013, passando de 13,6% para 4,9% da população, segundo dados divulgados na época pelo Banco Mundial. A redução - que pode perder força com a atual crise econômica - foi calculada com base em uma nova linha de pobreza estabelecida pelo banco, de US$ 1,90 (cerca de R$ 7,32) por dia, e é maior do que a divulgada anteriormente. Apesar disso, ainda existem no Brasil 9,5 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza.

Em julho de 2003 sancionou-se a Lei n° 10.695, que deu nova redação ao art. 184 do Código Penal. Esse artigo trata da criminalização da conduta de quem viola direitos autorais: a pirataria. As penas para a pirataria variam de três meses de detenção a quatro anos de reclusão. Como se vê, pirataria dá cadeia, malgrado muitos dos brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, e até alguns que vivem acima dela, faça desse ilícito uma profissão. Ora, mas quem quereria viver com um salário de R$ 7,32 (sete reais e trinta e dois centavos) por dia? Sete reais e trinta e dois centavos são capazes de oferecer condições justas e favoráveis de trabalho? Sete reais e trinta e dois centavos garantem direitos sociais, como saúde, bem-estar, alimentação, vestuário, habitação e cuidados médicos? Por coisas como essas, foi que, em 1987, um ano antes da promulgação da Constituição Federal de 88, intelectuais da Universidade Nacional de Brasília fundaram o chamado “direito achado na rua”. Fruto de pesquisas concentradas no âmbito do núcleo de estudos para a paz, essa corrente teve como grande scholar o professor Roberto Lyra Filho, para quem o direito só teria significado se partisse de uma análise da prática social, fincada no empirismo e na disputa aberta pela vitória da justiça sobre a lei. Por conseguinte, Lyra Filho consubstanciava seus pontos de vista em pensamentos alternativos, heterodoxos e, antes de mais nada, não-conformistas. Em suma, o direito achado na rua realiza uma “leitura dialética do fenômeno jurídico”.

O direito achado na rua não é invenção exclusivamente nacional. Os anglo-europeus já haviam pensado o people’s law of the streets e os franceses já tinham concebido o droit qu’on trouve dan la rue. Flexibilidade é a palavra-chave do direito achado na rua. Plagiando o próprio prof. Lyra Filho, “o direito só pode ser compreendido como a enunciação dos princípios de uma legítima organização social da liberdade”. Para ele, o direito “nasce na rua, no clamor dos espoliados e oprimidos e sua filtragem, nas normas costumeiras e legais, tanto pode gerar produtos autênticos, quanto produtos falsificados”. Produtos falsificados, para Lyra Filho, seriam, por exemplo, “as leis que representam a chancela da iniquidade, a pretexto da consagração do direito”. Essa concepção marxista, também cognominada “humanismo dialético”, detecta na metáfora da rua (que aponta para a polis) a metamorfose da “multidão de solitários urbanos em povo”, conclamando “a rua da cidade para a vida humana”, consoante preconiza Marshall Berman, na sua obra “Tudo que é Sólido Desmancha no Ar”. Em suma, o operador do direito deve “reivindicar a rua para a vida”. A vida nasce na rua. O direito nasce na rua. O povo idealiza a rua. O povo, como Castro Alves canta: “A praça! A praça é do povo, como o céu é do condor”. De modo bem simplista, o direito achado na rua pugna por uma recriação do ordenamento, tendo nas massas seu centro gravitacional de criatividade.

 A edificação de uma cidadania sócio-jurídica é a meta do direito achado na rua, que ambiciona “relações de trabalho mais livres”; deseja pôr um termo na opressão que um indivíduo lança sobre outro. Disso, advêm algumas reflexões: estimativas dão conta de que aproximadamente três milhões de pessoas assistiram à versão pirata do filme “Tropa de Elite”. Ao invés de dar um tratamento criminal a esses indivíduos, os produtores da obra foram buscar o direito na rua e, dentro de uma concepção humanisticamente dialética, vislumbraram a alternativa de propiciar-lhes a expiação pelo “pecado” que cometeram. Abriu-se uma conta, na qual cada um dos “infratores” poderia fazer um depósito, idêntico ao valor do ingresso de cinema, o qual seria revertido em favor do Instituto Nacional do Câncer. Bela e criativa sociabilização. O fisco, entretanto, lançou mão de outra postura. No Pré-Caju de 2009 anunciou que iria apreender todos os CDs e DVDs piratas que estivessem sendo comercializados no itinerário da festa, além de enquadrar os “marginais” nos rigores da lei. Não é assim que quer o art. 184 do Código Penal? Parabéns ao fisco, que não achou o direito na rua, mas nos códigos. Não deixa de ser uma perspectiva. Nada zetética; totalmente dogmática. Os auditores, certamente, cumpririam a lei. Difícil é saber se aperfeiçoaram os ditames da justiça, em face de um povo que vive abaixo da linha de pobreza e que perscruta na rua os seus direitos.  

Essa dicotomia, todavia, é intransponível. Historicamente, cobradores de impostos sempre foram colocados ao lado de prostitutas e pecadores. Que o diga a bíblia (Mateus 21,32 e Marcos 2,16). Ainda assim, Cristo hospedou-se na residência de Zaqueu, talvez um dos mais contumazes cobradores de impostos de Jericó. Sucede que Zaqueu arrependeu-se das extorsões e acusações falsas que praticou para arrancar tributos. Jocoçsamente, talvez tenha achado, na rua, o direito das suas vítimas. Em verdade, o fisco federal não extorque e tampouco acusa os cidadãos que vivem abaixo da linha de pobreza. Quem faz isso é a lei. Mas a lei é menor do que o ordenamento jurídico. Na Alemanha, por exemplo, tutelou-se a teoria social da ação, oriunda dos gênios de Jescheck e Wessels. Para essa teoria, ação “é a conduta socialmente relevante”. Daí, perguntar: é socialmente relevante a conduta de quem pirateia por viver abaixo da linha de pobreza, procurando, assim, sobreviver com dignidade, como quer a declaração universal dos direitos do homem? É correto exigir conduta diversa dessa pessoa? Em 1998, Luiz Vicente Cernicchiaro, então ministro do STJ, ao relatar o Recurso Especial nº 112.600, disse: “Cumpre considerar o sentido humanístico da norma jurídica. E mais. Toda lei tem significado teleológico. A pena volta-se para a utilidade”. Pois bem, qual a utilidade em reprimir aquele que, vivendo abaixo da linha de pobreza, vende um CD ou DVD pirata?

Por conta disso é que se trata o fisco como leão. Sucede que a mesma bíblia, que apresenta um Cristo que come com cobradores de impostos, preconiza: “como um leão furioso ou um urso feroz, assim é o governo mau que domina um povo pobre” (Provérbios 28,15). Seria precipitado dizer que o governo é mau. As leis brasileiras, no entanto, por não terem sido achadas na rua, são más. Os auditores federais, porém, embora cumpram leis más, agem de boa-fé, dando cabo de uma norma que foi achada em qualquer lugar, menos na rua, menos nas praças. Uma lei talvez achada no gabinete de um performático esquizofrênico, que pensa sob o pálio de um ar-condicionado. Ainda assim, um conselho para o pessoal do fisco, também tirado da bíblia: “não fiques justo demais. Por que causar a ti mesmo a desolação?” (Eclesiastes 7,16). É suficiente a desolação de quem ganha R$ 7,32 por dia.  


POST SCRIPTUM
O PARENTE

O Brasil, durante muito tempo, principalmente na República Velha (15 de novembro de 1889, com a proclamação da República, até 1930, com a queda do presidente Washington Luís), conviveu no seu interior com a figura do chefe político, também alcunhado de Coronel. Eram figuras que exerciam absoluto domínio sobre as pessoas que viviam em suas terras ou delas dependiam para sobreviver. Apesar do seu declínio, ainda hoje encontramos representantes desse período triste da história rural brasileira. O novo cacique sobrevive da desorganização da prestação dos serviços públicos. Ocupam esses espaços passando a ter o controle da população em todos os níveis. Numa cidade do interior, alguns anos atrás, ocorreu um fato que dá para aquilatar a força e o respeito que essas figuras impõem aos cidadãos. Azedo era o seu nome. Certo dia, ao retornar mais cedo das suas atividades de motorista de pau-de-arara, encontrou a sua mulher na cama com um sujeito. Correu para pegar um revólver no veículo e a mulher e o amante desapareceram pelo quintal. O homem enlouqueceu e gritava que ia matar os dois. Não colheu êxito, pois ambos desapareceram completamente. Foi de bar em bar e dizia que havia sido traído e aquilo não iria ficar assim. Os amigos pediam calma, mas ele não tirava da cabeça a ideia do crime. Já tarde da noite, o chefe político da cidade mandou chamar Azedo. Lá já se encontravam os Azedinhos, os dois filhos do casal, que estavam chorosos. O chefe perguntou o que aconteceu e ele disse que tinha encontrado sua mulher na cama com outro homem. Quem era o homem que estava com sua mulher, perguntou o Coronel. Ele disse ser o seu primo Dedé. - Como, seu primo Dedé? Ora homi, aí não foi traição. Traição seria se fosse uma pessoa de fora, que não fosse parente. É o mesmo sangue. Tome prumo de homi, Azedo, vá buscar sua mulé e traga pra casa. Faça as pazes com Dedé. E não é que Azedo se convenceu? Chamou a mulher de volta e reatou relações com Dedé. Nos bares da cidade, quando indagado da traição pelos amigos, não hesitava: – Meu amigo, você quer teimá com o coroné? Ele é homem de estudo e me disse que traição de parente não vale. Ora, não é o mesmo sangue? 

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Por Kleber Santos
18/09
19:01

O Burro que Espirrava Dinheiro

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Quando o consagrado fabulista alemão Ludwig Bechstein, nascido em Weimar no ano de 1801 e falecido em Meiningen em 1860, publicou O burro que espirrava dinheiro, ele supôs que apenas as crianças acreditariam na estória, afinal de contas, seu papel era entreter os jovens leitores. Passados quase cento e cinquenta anos da morte do escritor, é possível ver que alguns adultos, mais burros que o burro da fábula, acham crível espirrar dinheiro. Ludwig Bechstein também é conhecido pelo famoso texto “Der Rattenfaenger Von Hameln” (O caçador de ratos de Hameln), onde ilustra a biografia de uma cidadela que, após ficar livre de uma praga de ratos, por conta da ação paranormal de um mago flautista, não o recompensou segundo aquilo que ficara acordado. Consequentemente, o músico, irritado, acabou por enfeitiçar todas as crianças da cidade, levando-as embora para sempre. Bechstein foi sutil, mas o conteúdo que se esconde por trás de suas fábulas é acachapante: a visão capitalista do sistema, que arquiteta as coisas tão-somente sob o prisma do controle financeiro. Parece que, às vezes, é melhor arrancar o dedo de alguém a privar-lhe de cinquenta centavos que sejam. Os cidadãos de Hameln preferiram perder as suas crianças a pagar o que prometeram ao flautista, caso ele os livrassem dos ratos. Isso, historicamente, tem gerado um desconforto incrível na relação entre governos de esquerda e o proletariado, em tese responsável pelo surgimento desse núcleo de poder. É que a luta de classes teria dado corpo ao aparecimento de uma filosofia nacional-socialista, deturpada aqui e acolá.

Houve, aliás, quem chegasse a crer que a dominação do sistema por parte dos donos do poder impediria um diálogo isonômico entre estes e os trabalhadores. Isso se deu ali na década de 1920, quando alguns intelectuais de língua alemã resolveram fundar o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, que entrou para a História da Filosofia como A Escola de Frankfurt, cujo principal mote está consubstanciado na denominada teoria crítica. Mas o que vem a ser tal teoria? Simples. Consistente em uma fusão de conceitos marxistas e freudianos, tal teoria difundiu o ponto-de-vista de acordo com o qual a sociedade de massa seria guiada pelos controladores da tecnologia, posta à disposição da defesa de uma perspectiva única e exclusivamente capitalista. Noutras palavras, quem detém o capital (leia-se poder) controla o proletariado, hipnotizado pela instrumentalidade das cifras. Em síntese, para a Escola de Frankfurt, não há razão, não há dialética, não há esclarecimento. Há, apenas, o desencantamento do mundo. Manda quem pode e obedece quem tem bom senso. Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno e Max Horkheimer são os mais radicais na diagramação dessa tese. De acordo com eles, morreu a razão crítica do proletariado, ao qual, homogeneizado, massificado e sem consciência revolucionária, só restaria a indústria cultural. E a teoria crítica teria que abrir espaço para a teoria estética. Walter Benjamin arrematou tal estigma, afirmando que o proletariado poderia ser politizado apenas pela ingerência de movimentos artísticos a ele dirigidos. Parece que o proletariado apontaria para um amontoado de patetas, que ficariam o dia inteiro tomando chibatada, enquanto escutariam ou um poema de Brecht ou uma sinfonia de Mozart. Valendo-se, inclusive, da filosofia de Herbert Marcuse, o proletariado acabaria por traduzir o “homem unidimensional”, algemado e sem condições de digladiar com o sistema que, em tese, o oprime.

Sorte do proletariado e de segmentos avançados politicamente da humanidade que não acreditam nessa lenga-lenga. Abaixo Frankfurt! Afinal, Adorno, Horkheimer e os demais membros dessa cambada de pessimistas estão totalmente superados. E para enterrar de vez no lixo da história as teses da Escola de Frankfurt, é que surge como texto de cabeceira a obra Modernidade versus Pós-Modernidade, de Jurgen Habermas. Para ele, razão, verdade e democracia têm de ser enxergadas de outra maneira. Não defendo o capitalismo, mas, nem por isso, creio que ele crucificou a razão. De forma alguma. Habermas, como o último grande racionalista, provou que a razão crítica de Adorno cede campo para a “razão dialógica”, onde a linguagem e a argumentação preponderam. Daí a necessidade, nos embates diuturnos que se travam no mundo dos conflitos, de se dispor dos alicerces da liberdade comunicativa. Mas não é isso que tem acontecido ultimamente na sociedade brasileira. Forjada nos porões do baixo clero da política brasileira, uma crise sem precedentes tomou conta do país, iniciada após a eleição da presidente Dilma e deixando um vácuo de poder desde o início de 2014. A grande consequência dessa irresponsabilidade tem sido o caos gerado na economia do país, acarretando em problemas para a maioria do povo brasileiro, como desemprego, aumento da violência e a institucionalização da corrupção como regra de comportamento. E mais: a razão dialógica deu lugar ao discurso impositivo. Nada de razão, nada de dialético, nada de esclarecimento. Como já dito, manda quem pode e obedece quem tem bom senso.

O estadista e jornalista francês Georges Benjamin Clemenceau, foi um político destemido, atuante, de força discursiva invejável, irreverente e bastante firme na defesa de seus ideais. Estava como Primeiro-Ministro no fim da Primeira Guerra Mundial quando da conferência de paz de Paris, que culminou com o “Tratado de Versalhes”. Pois bem. Dizia Clemenceau que, em matéria de desonestidade, a diferença entre o regime democrático e a ditadura é a mesma que separa a chaga que corrói as carnes, por fora, e o invisível tumor que devasta os órgãos por dentro. Para ele, as chagas democráticas curam-se ao sol da publicidade, com o cautério da opinião livre; ao passo que os cânceres profundos das ditaduras apodrecem internamente o corpo social e são, por isto mesmo, muito mais graves. Em outras palavras, na democracia, é muito mais fácil detectar o submundo da corrupção e as suas influências nefastas. Essa lição do líder político francês é mais uma tentativa de explicar a importância da preservação do Estado de Direito Democrático. Somente quem viveu durante o período autoritário pode avaliar as consequências e os males sofridos. As experiências do Brasil (1937-1945 e 1964-1985), Portugal (1926-1933 e 1933-1974) e Espanha (1939-1976), para não falar em outras, atestam como é restringido o exercício da cidadania e como se dá a repressão aos movimentos de oposição, quase sempre com violência. Para se ter ideia, basta ver o grau de desenvolvimento e melhoria das condições de vida após a redemocratização nos três países citados. 

Para Aristóteles e Platão, os tiranos são ditadores que ganham o controle social e político despótico pelo uso da força e da fraude. A intimidação, o terror e o desrespeito às liberdades civis estão entre os métodos usados para conquistar e manter o poder. Se a ditadura é o regime de desrespeito às leis, às instituições e às liberdades civis, a democracia, ao contrário, faz o caminho inverso: o respeito às normas e às instituições é o mais importante passo para a solidificação de uma sociedade que tende a avançar no campo da civilidade, da solidariedade e do respeito mútuo. Claro que sei que a democracia não é um regime inerte, mas dinâmico, sempre estando em transformação. Como diz Bobbio, “o estar em transformação é seu estado natural”. Sei, também, que a democracia não goza no momento de ótima saúde, estando sempre em ebulição. Mas isso faz com que todos aqueles que têm compromisso com a sua preservação, com seu avanço, na busca do seu aperfeiçoamento, estabeleçam canais de reflexão com os setores da sociedade que ignoram que é preciso respeitar as regras do jogo. Para o bem de todos, é preciso que haja preponderância da “razão dialógica” de que nos fala Jurgen Habermas, onde a linguagem e a argumentação preponderam. Mas não basta a intenção. As armas devem ser deixadas em casa. O argumento é o que deve prevalecer, ou seja, a razão dialógica. Dizia Winston Churchill, premier inglês, que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos.

Celso Antônio Bandeira de Mello, um dos maiores juristas do nosso País, recentemente falou em uma revista especializada em direito. E lá pras tantas, resolveu filosofar sobre as relações humanas. Disse: “O fato de ser racional não faz o homem diferente dos animais que vivem em manada, que têm uma cabeça que guia e os outros vão atrás. Na sociedade humana é igual, há os que pensam, e eles são poucos; os outros parecem que pensam, mas não pensam, repetem. Eles não têm coragem de pensar. O mundo tem que ser assim, alguns pensam e os outros acompanham o pensamento. Nós vivemos um momento em que é a escória que pensa, que dirige. Mas claro que sempre existem seres notáveis que lutam contra a escória e dizem o que deve ser feito. São seres humanos maravilhosos”. Infelizmente, hoje, o que vemos são pessoas que simplesmente desistiram de pensar. E por não pensarem, acreditam até que centavos são mais importantes que a vida, como os habitantes de Hameln, ou mesmo que um burro pode espirrar dinheiro. 

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
04/09
14:00

Freud e o desenvolvimento humano

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Em 2010 foi lançado em Paris um livro que causou a maior polêmica. Tratava-se de uma obra de Michel Onfray, doutor em filosofia, defensor do hedonismo, do ateísmo e da anarquia, autor de mais de 40 livros publicados. Le Crépuscule d’une Ídolo – L’affabulation Freudienne é tida como um morteiro de alto calibre direcionado à vida e obra freudiana. Após passar o sarrafo na psicanálise, acusando-a de ser uma ciência nazista e fascista, entra na vida pessoal de Freud, acusando-o de se apropriar de textos de Schopenhauer e Nietzsche, de ser um burguês inveterado pela celebridade e, até, de manter uma relação adúltera com uma cunhada que vivia em sua casa. Por fim, taxa-o de falocrata, misógino e homofóbico. As reações ao escrito de Onfray, segundo matéria publicada na Folha de São Paulo (Caderno Mais, edição de 25 de abril de 2010), vieram de dois intelectuais: Elisabeth Roudinesco, psicanalista, nascida em 1944, professora de História da Universidade de Paris, autora de “Em defesa da Psicanálise” e a “A Parte Obscura de Nós Mesmos”; e John Forrester, Chefe do Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, autor de “Seduções da Psicanálise”. Roudinesco, inclusive, desafiou Onfray para um debate e ele não aceitou. Interessante, tanto o nazismo como o fascismo não morriam de amores pela psicanálise. E sabem de uma coisa?! Não estou nem aí para o que dizem de Freud. O que interessa é o legado que ele deixou para a humanidade, como, por exemplo, quando ele enfoca a questão do desenvolvimento humano. 

A propósito, a civilidade pressupõe três elementos essenciais para sua desenvoltura: beleza, limpeza e ordem. Isto é de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Não só isso, mas o homem que reinventou tudo o que se sabia até então sobre a alma humana. Para ele, tudo o que é “civilizado” é limpo e, portanto, ordenado. Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, professor da Universidade de Varsóvia, na sua obra “O mal-estar da pós-modernidade”, afirma que o estado de “limpo” ou “sujo” relaciona-se ao estado de “ordenado” ou “desordenado”. A limpeza, em sua concepção, é o estado de ordenamento das coisas. O que está no lugar certo está limpo, e não “sujando” outras coisas. Ele diz: “O oposto da ‘pureza’, o sujo, o imundo, os ‘agentes poluidores’ são coisas ‘fora do lugar’. Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em ‘sujas’, mas tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem das coisas, idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são ‘sujas’ num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num outro lugar e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao mundo dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato de jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro”. A concepção de limpeza, nesse contexto de elo com a civilização, ou na cultura, como queria Freud, importa na análise de uma questão também abordada por Bauman. 

Para o escritor polonês, “Há, porém, coisas para as quais o ‘lugar certo’ não foi reservado em qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam ‘fora do lugar’ em toda parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo de pureza tem sido destinado. Mais frequentemente, estas são coisas móveis, coisas que não se cravarão no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por livre vontade. A dificuldade com essas coisas é que elas cruzarão as fronteiras, convidadas ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza ‘para colocarem as coisas em seu lugar’ e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as acomodações”. Conceber-se civilizado é, portanto, não sujar nem estar sujo, ou, ainda, não desordenar a ordem exigida pela civilização. Ante essa proposição, configurada e até um tanto intrínseca à mentalidade do homem, obtemos resposta para as atitudes individuais e coletivas de rejeição ao estranho e ao estrangeiro. Noutra quadra, o homem deseja obter felicidade. Todos querem ser e permanecer felizes. Para atingir esse objetivo, a ação humana deve visar não apenas à supressão do sofrimento e do desprazer, mas também à experimentação de sentimento de prazer, intensa e permanentemente. Mas o prazer permanente e intenso existe? Freud cita Goethe: “nada é mais difícil de suportar do que a sucessão de dias belos”. Qualquer prazer permanente deixa de ser prazer. Assim, a felicidade resume-se a momentos, a experiências passageiras.

A infelicidade, por sua vez, não perde sua força nem vigor se perseverar. Pode até se tornar crônica no indivíduo. E quais são os motivos da infelicidade, senão o sofrimento? Freud reflete sofrimento a partir de três direções: de nosso próprio corpo, do mundo externo e de nossos relacionamentos com os outros homens. Nosso corpo envelhece, adoece e nos ameaça constantemente de dissolução. A sua decadência natural sempre foi motivo de profunda agonia e, nos tempos atuais, tem sido francamente combatida por processos médicos de todo o gênero. A medicina desenvolve, testa e aplica dezenas de métodos de manutenção e conservação do corpo utilizando medicamentos e cirurgias – como a plástica – que rejuvenescem. Contudo, o tempo é implacável e todos sabem que o corpo não resistirá. Já a segunda fonte de sofrimento advém do mundo externo, “que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas”. Essa ameaça é tão evidente quanto o da dissolução do corpo. 

Semanalmente, sabemos da ocorrência de catástrofes e a cada ano elas se aproximam de nossas casas, como resultado dos saques à natureza. Finalmente, nosso relacionamento com outros homens é a fonte mais penosa do sofrimento que qualquer outra. Podemos nos conformar com a fatalidade da morte e das catástrofes, por estar além de nossas possibilidades evitá-las; mas sucumbir à vontade, ao capricho ou à ganância de outro homem não nos é dado resignar. Enfim, Sr. Michel Onfray, como diria Winston Churchill, “é melhor fazer história do que se submeter a ela; ser um ator em vez de um crítico”.        
 


Post Scriptum
Cão Raivoso no Sótão do Coração

Em fevereiro deste ano postei em meu blog (www.clovisbarbosa.blogspot.com.br) o artigo, de minha autoria, “A Morte de Deus” e, no Post Scriptum, um texto de Marcelo Déda, em que ele abordava a morte de um amigo comum, Chico Mocó, e a necessidade de todos nós embriagarmo-nos naquela visão do poeta francês Baudelaire. Sobre os temas, recebi do amigo, grande orador e biscoito fino da intelectualidade sergipana, Fábio Túlio, digno presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 20ª Região, o seguinte texto, que tenho a honra de repassar aos meus leitores quinzenais, dada a riqueza da reflexão: “Caro amigo e intelectual Clóvis. É bom voltar a receber suas mensagens, cujos textos - ora de reflexão, ora de afetividade, sempre de encantamento - acerca dos fatos e dados dessa nossa vida besta são sempre oportunos. O tema que agora você trás à discussão - o da violência - tem origens as mais diversas, mas talvez o poeta, o velho e grande poeta, tivesse razão, ontem como hoje: todo homem tem um cão raivoso no sótão do seu coração! Alguns de nós têm coleiras fortes para segurar essa fera; outros, no entanto, comprazem-se em deixar a besta solta, a atacar os incautos. Cérbero anda a solta nas ruas de nossas cidades, e os motivos são vários, tantos que não é possível abarcá-los aqui, dado que não tenho a profundidade de sua análise nem o talento de sua síntese. O magistral filósofo Espinoza racionalista do Século XVII - judeu renegado e excomungado aos 24 anos - disse, a propósito do homem, que nós somos um ser de desejo, e os nossos desejos nos opõem. Ele, portanto, antecipou sistemas de pensamento importantes como os de Schopenhauer, Nietzsche e até mesmo Freud, ainda que seus pósteros não o tenham admitido expressamente. Os nossos desejos nos opõem no nível atômico, individual, e no nível molecular, social, diria eu. E quiçá aí esteja, ao fundo e ao cabo, a raiz de todas as formas de violência. É usual dizer-se que a educação e a boa vida podem minorar isso, civilizando o homem, mas é igualmente verdadeiro - di-lo a História - que elas não sufocam para sempre esse ardor maligno presente atavicamente em todo homem, certamente; basta lembrar que as maiores atrocidades do Séc. XX foram praticadas pelos povos mais cultos e abonados da Terra, como os alemães, por exemplo. Lembro a você, estimado amigo e dileto professor, que alguns soldados britânicos usavam bonés com a seguinte inscrição durante a guerra do Afeganistão, essa a cujas barbaridades assistimos, recentemente, em nossas telas de computador e nos nossos aparelhos de TV: "Fazemos coisas ruins com pessoas más". Veja que coisa mais interessante, porque penso que esse fato daria para escrever um tratado. E, para além das muitas indagações que ele suscita, entendo que a mais relevante, de cunho eminentemente filosófico e que desafia nossos sistemas morais, é a seguinte: é correto fazer o mal às pessoas más? Como somos de tradição cristã, a nossa primeira reação é dizer um sonoro não! Mas seria precipitado, e imagino que em algumas situações seríamos levados a dizer, mesmo que constrangidos, um patético sim. Eis que não se trata de defender o relativismo frente ao absolutismo cognitivo ou moral, de jeito nenhum. Não nos perderemos em intermináveis debates sobre se a Verdade e o Bem existem por si. Ptolomeu e Einstein tinham ideias diferentes sobre o tamanho do universo; João Paulo II e Richard Dawkins pensavam de modo oposto sobre religião e seus reflexos no mundo moderno; os concretistas nada tinham em comum com os parnasianos acerca da ideia de beleza poética. Alguns de nós se posicionarão a favor dos primeiros destes termos binários; outros, em favor dos segundos. Os relativistas, todavia, dirão que todos estão certos, a partir de seus particulares pontos de vista. A democracia, que você cita brilhantemente em seu texto, é apenas uma forma de permitir a convivência num mundo plural, absurdo e esquizofrênico, que vem de ser acometido por um mal de graves proporções: o politicamente correto, que entorpece o debate e embota as mentes. Outrossim, resta-nos o ideário de ter algo a fazer, alguém para amar e um tantinho de esperança, eis que tudo isso é essencial à vida. Parabéns pelo seu trabalho, que esparge luz num mundo envolto em trevas. Fábio Túlio”.

*Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


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