21/04
14:04

As sete maravilhas de Sergipe

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS


Inventariar as sete maravilhas sergipanas – eis aí uma tarefa muito difícil. Eu sei que a palavra “maravilhas” pode parecer um exagero, mas também me dou direito de exagerar de quando em vez. Escolhi dois critérios, a saber, maravilhas da natureza ou naturais e maravilhas artificiais ou de criação humana. Ao final da leitura, peço ao leitor que não inclua esse artiguinho no rol de textos para fomentar o turismo em Sergipe ou entre coisas do sergipanismo. Não mencionarei as omissões, porque elas são inevitáveis num tal exercício.

Começo as maravilhas com que nos presentou a natureza sergipana. Os
manguezais sergipanos são a minha primeira das sete maravilhas. São bonitos, são muito verdes, bem tropicais. Além de Aracaju, eles estão espalhados pelas beiras dos rios sergipanos, como Cotinguiba. A minha segunda maravilha são os canaviais. Tudo bem, eu sei que eles são plantações humanas etc. É uma pena que os pintores das coisas sergipanas ainda não tenham percebido a sua beleza. Nos países do Caribe plantadores de cana de açúcar, pintores “naifs” constroem telas incríveis retratando essas belezas. Agora, os intermináveis canaviais de Alagoas e de Pernambuco são cansativos, pouco importando se a gente está viajando de avião ou de carro, porque só vemos aquele verde sem fim. Felizmente em Sergipe, os canaviais são em número menor.

Os
canyons de Xingó não poderiam faltar em qualquer lista das maravilhas de Sergipe. Na verdade, todo o Rio São Francisco é muito legal. Quando for construída uma ponte ligando Sergipe a Alagoas, na foz do mesmo rio, eu a incluirei como outra maravilha. Uma quarta maravilha natural são os cajueiros de Aracaju. É provavelmente a árvore mais bonita do mundo e ela dá a Aracaju um marketing turístico espontâneo, natural, mas mal aproveitado. É lamentável que essas árvores estejam desaparecendo da cidade. Deixarei de elencar a Serra de Itabaiana porque os governos e o setor empresarial de Sergipe ainda não souberam explorar a sua beleza potencial.

Entre as maravilhas que são criações humanas, as primeiras são
as cidades históricas de Laranjeiras e São Cristóvão – e um pouco de Estância. Quinta maravilha então. Realmente, elas são conjuntos arquitetônicos belíssimos que englobam igrejas barrocas, sobrados, ruas, pontes, entre outros destaques, resultados históricos de muita riqueza derivada da cana de açúcar. As demais cidades sergipanas, afora Aracaju, são – vou criar coragem para dizer - horrorosas! Parece até que os prefeitos sergipanos competem entre si pela medalha de ouro de ter a cidade mais feia – quando deveriam fazer o contrário. E isso nada tem a ver com pobreza das cidades. Tome, por exemplo, Itabaiana, cidade próspera, mas onde são construídas “casas caixotes” com uma parte de baixo e um andar. Tudo igual. Falando de um modo geral e sem querer insultar ninguém daquela e de outras cidades semelhantes, comerciantes têm bom gosto em qualquer área?

A sexta maravilha criada pelos sergipanos são algumas
casas-grandes que ainda estão em bom estado de conservação. Elas são muitas no Rio de Janeiro ou em São Paulo, transformadas em locais de turismo e lazer. Em Sergipe, destacarei apenas aquela de Santa Luzia de Itanhy. Tudo bem, eu sei que elas têm uma associação negativa por causa da escravidão (idem os canaviais), mas como conjunto arquitetural elas me agradam muito. Se o leitor ainda não estiver ficado satisfeito com o meu adendo, colocarei mais outro. Certo, certo, essas belezas arquitetônicas foram todas levantadas pelos escravos sergipanos!

A sétima maravilha sergipana são as
mulheres sergipanas. Escolhi falar delas no fim para terminar o artigo no melhor estilo, mas bem que poderia ter feito isso no seu começo, pois elas também fariam parte da natureza. Sergipe tem as mulheres mais bonitas do Brasil. É certo que existem certos lugares com mulheres bonitas por aí afora, mas aí elas parecem todas iguais. Em Sergipe, ao contrário, existe uma diversidade muito grande de mulheres, com beleza para todos os gostos. Concursos de beleza deveriam ser incentivados em todas as favelas, em todos os bairros e em todas as cidades sergipanas para haver uma valorização maior das mulheres. Mas essa valorização precisa estendida ao respeito dos seus direitos. A presidenta Dilma Roussef ainda pode ajudar – e muito – nesse processo de afirmação dos direitos da mulher sergipana e brasileira.



Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
21/04
13:45

A opção pela indústria

Ricardo Lacerda*

Nos anos noventa, a indústria de transformação perdeu cinco pontos percentuais de participação no Valor Adicionado Bruto (o PIB excluindo os impostos). O ano mais crítico foi o de 1998. Naquele ano, a participação da indústria de transformação (a preços básicos) se situou 7,5 pontos abaixo do resultado de 1990 e 9,8 pontos abaixo de 1985 (ver Gráfico). A abertura comercial acelerada e o câmbio fortemente valorizado fizeram o trabalho. Milhares de postos de trabalhos foram destruídos e a produção doméstica foi substituída pela importação em um grande número de setores da atividade industrial. Ninguém há de esquecer nem a euforia do consumo de produtos importados causada pelo real forte, nem a ressaca da quebra do país em 1998, na esteira da crise no sudeste asiático.

Abertura comercial
A abertura comercial significou, nesse sentido, uma opção pela perda de participação da indústria no desenvolvimento brasileiro. À época, as autoridades econômicas entenderam e os especialistas alinhados não escondiam a opinião de que o peso da indústria na formação do PIB era tido como excessivo e somente se mantinha à custa de elevada proteção, que onerava os consumidores e restringia a competitividade e a modernização da economia brasileira.

Fonte: IBGE. Obs. As participações da indústria de transformação na série com ano base de 2002 em razão da nova classificação das atividades econômicas em que foi ampliado o escopo do setor de serviços

Operava também, como em outros momentos de nossa história recente, o apelo popular do subsídio implícito ao consumo proporcionado pelo real forte mesmo que em troca de menos geração de emprego e de produção interna mais frágil. Nesse sentido, a valorização cambial foi também uma opção, todavia não confessada nesse caso, de reduzir o peso da indústria.

Com a mudança de regime cambial e a abrupta desvalorização do real em 1999, a participação da indústria de transformação subiu alguns pontos até 2000 (ou até 2001, dependendo da série), ficando distante, todavia, dos patamares dos anos oitenta. Com a nova desvalorização provocada pelo temor dos mercados em relação ao governo eleito em 2002, a indústria da transformação voltou a elevar o peso no valor adicionado bruto em 2003 e 2004, agora já se aproximando da participação de 1985.

Ciclo e crise
A emergência da China no cenário internacional e a explosão de demanda pelas nossas commodities produziram crescentes saldos comerciais, que aliados à intensa entrada de capital de risco, inauguraram um novo ciclo de valorização do real. O ciclo de crescimento econômico iniciado em 2004 foi impulsionado, em um primeiro momento, pela expansão das exportações, mas ganhou fôlego com a expansão do crédito e com o crescimento do poder de compra da faixa de população situada na base da pirâmide de renda.

Entre 2005 e 2008, a atividade industrial cresceu em ritmo intenso, mas inferior ao do PIB, o que levou à perda de peso do setor no total da economia. Depois de 2008, a atividade não conseguiu manter a trajetória de crescimento, apesar do desempenho de 2010.

Nos últimos dois anos, diante do agravamento da crise financeira internacional e ainda com o real valorizado, a indústria de transformação sofreu novo baque, o que fez não apenas a atividade industrial perder peso no PIB como ter visto o seu nível de produção cair.

Diferentemente dos anos noventa, a redução da participação da indústria de transformação na formação da riqueza a partir de 2005 não é apresentada como objetivo de governo e resulta, em um primeiro momento, do efeito das exportações de nossas commodities sobre o câmbio. Como a indústria crescia em ritmo intenso por conta da acelerada expansão do mercado de consumo, a perda de sua participação do PIB não era vista como problema. No segundo momento, após 2008, quando urgia a decisão de desvalorizar o câmbio, contou o renovado apelo consumista do câmbio valorizado.

Nova Matriz
Somente em meados de 2011, quando ficou claro que a economia mundial caminhava para o segundo mergulho, com fortes impactos sobre o nível de atividade interna, especialmente sobre as atividades industriais, iniciou-se um movimento de maior amplitude em favor do desenvolvimento industrial.

Desde então, por meio de instrumentos como desvalorização cambial, redução dos juros, desoneração da produção e da implementação de programas específicos voltados para o desenvolvimento de capacitação tecnológica e para a internalização de atividades produtivas, iniciou-se uma nova política de desenvolvimento produtivo que revela uma opção pela indústria.

Em meio ao temporal da crise financeira internacional, as medidas têm demorado a mostrar seus efeitos, mas elas podem ser um início de uma nova etapa de aumento da participação da atividade industrial na economia brasileira, que caiu muito além do desejável.

*Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe
A
rtigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
16/04
07:24

Servidores da saúde de Pirambu sofrem com descaso público

Utilização inadequada da mão-de-obra, defasagem no salário, falta de condições de trabalho e medicação e ausência de capacitação profissional. Estes foram os principais pontos observados pela diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Área da Saúde de Sergipe (Sintasa) ao visitar os servidores municipais da Saúde de Pirambu. Por conta dessas reclamações, o sindicato protocolou um ofício para o prefeito a fim de poder ter uma reunião com ele e com o secretário de saúde do município para resolver estas questões administrativas.

“São grandes deficiências e isso tudo tem prejudicado o bom desenvolvimento das atividades dos servidores”, declarou a diretora do Sintasa, Maria da Graça, que visitou o município com o outro diretor, João Wadson.

Quem mais sofre em Pirambu são os auxiliarias, técnicos de enfermagem e enfermeiros. Eles que são lotados na urgência e emergência, estão atuando hoje no apoio ao Programa de Saúde da Família (PSF), fazendo atividades dos profissionais do programa, como curativos em domicílio, acolhimento, triagem, sendo que não são suas funções de origem. Para piorar, não recebem nenhuma gratificação por isso, e continuam com seus salários defasados. Só para exemplificar, o enfermeiro ganha hoje R$ 1 mil e o auxiliar e enfermeiro R$ 678,00 como salário base.

Outros descasos
As condições de trabalho são deficientes pelo fato de não existir é Estar (lugar de descanso), não tem birô para atender o cliente, e nem sala para fazer uma triagem. “O objetivo da gestão é que o funcionário fique em pé o tempo todo”, diz Graça.

Os funcionários que cumprem jornada de 12 horas não têm direito a almoço e não existe transporte para os servidores que moram fora de Pirambu. “Na minha concepção, os trabalhadores estão pagando para trabalhar”, ressalta a diretora.

A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) não funciona, a exceção é quando existe uma festa no município. Nesta ocasião, a prefeitura contrata de emergência médicos e técnicos. Falta  medicações de urgência, o auxiliar de enfermagem está sendo obrigado a vir com o paciente numa ambulância simples, com os torpedos de oxigênio quase vazio, e sem o paciente está estabilizado.

Mais problemas
Outro ponto é a falta de equipamentos de urgência e emergência como oxímetro de pulso, que é essencial para fazer o monitoramento do paciente; e o respirador mecânico (Ambu) encontra-se em quantidade insuficiente. Há ainda uma falta de capacitação aos funcionários, como do curso de BLS (Suporte Básico de Vida, do inglês, Basic Life Support) para melhor tratar o paciente, visto que numa parada cardíaca do mesmo, o técnico e o auxiliar tem que estar preparados para poder rever o quadro.

E, por fim, a diretoria do Sintasa quer saber o critério de falta para os funcionários que não comparecem às segundas-feiras e sextas, visto que estão levando três faltas em qualquer dia da semana.

Fonte: www.sintasa.com.br


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/04
09:11

Balanço do Sergipão: Fabinho Cambalhota ajuda o Sergipe golear e manter a ponta

Fabinho Cambalhota, destaque da rodada pelo Sergipe, ao completar 100 jogos com o colorado (Fotos: Filippe Araújo/FSF)

Por Kleber Santos


Na rodada que marcou os 100 jogos de Fabinho Cambalhota pelo Sergipe, o time colorado manteve a ponta e colocou três pontos no segundo colocado, Confiança, ao golear o Boca Júnior por 4 a 1, neste domingo (14), no Estádio Batistão, em Aracaju, pela 13ª rodada do Campeonato Sergipano de Futebol. Os gols foram marcados por Lucão, Rafael, David e Fabinho Cambalhota, o cara do jogo. O gol único dos visitantes foi marcado por Osvaldo.

Ainda no domingo, o Itabaiana ficou no empate em 1 a 1 com o Lagarto, no Presidente Médici. Os gols foram marcados por Gilmar Alagoano para o Tricolor e Wellington para os visitantes. Com o placar, o Lagarto está na zona do rebaixamento ao lado do América. Este, por sua vez, perdeu para o Estanciano, por 2 a 1.No complemento da rodada, o River Plate jogou fora de casa e bateu o Olímpico, por 4 a 2.

Sábado
O Confiança manteve viva as chances de se aproximar do líder Sergipe, ao ganhar do Socorrense, que vem com uma bela campanha, por 1 a 0, no Estádio Wellington Elias. Wallace marcou para o time proletário.

Resultados dos jogos
Socorrense 0 x 1 Confiança
Itabaiana 1 x 1 Lagarto
Estanciano 2 x 1 América
Olímpico 2 x 4 River Plate
Sergipe 4 x 1 Boca Júnior

Próxima rodada
17/04 - QUA
Itabaiana x Estanciano
20/04 - SAB
América x Itabaiana
River Plate x Boca Júnior
21/04 - DOM
Estanciano x Sergipe
Lagarto x Socorrense
Confiança x Olímpico

CLASSIFICAÇÃO



Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/04
08:33

Futebol: Os brasileiros pelo mundo

Foi um final de semana produtivo para os jogadores brasileiros espalhados pelo mundo, com gols saindo na Itália, Portugal, Alemanha e até em países da Ásia. Mas foi mesmo a Espanha que contou com maior número de bolas na rede de atletas do país. O festival começou no sábado e terminou neste domingo.

Espanha: quem abriu a série foi Jonas, que manteve a ótima forma ao marcar seu oitavo gol nos últimos oito jogos pelo Valencia, chegando a 11 no total da temporada. No entanto, sua equipe perdeu terreno na briga pela quarta colocação no campeonato, já que sofreu o empate em 3 a 3 para o Espanyol no último lance do jogo. O Málaga, então, aproveitou para roubar o quinto lugar do rival ao vencer o Osasuna por 1 a 0, com gol de Júlio Baptista também no lance derradeiro da partida. No domingo, Diego Costa (foto) abriu e Filipe Luís fechou a goleada do Atlético de Madri sobre o Granada por 5 a 0, ganhando pontos na briga para se manterem na Seleção de Luiz Felipe Scolari. Os colchoneros seguem em terceiro na tabela com 65 pontos, três atrás do Real Madrid – que venceu o Athletic Bilbao por 3 a 0 – e a 16 do líder Barcelona – que superou o Zaragoza por 3 a 0.

Alemanha: com o título confirmado com seis rodadas de antecedência, o Bayern de Munique recebeu o Nuremberg com time totalmente reserva – Dante e Luiz Gustavo não atuaram –, mas ainda assim não teve trabalho para golear por 4 a 0. Coube ao lateral Rafinha aproveitar as ausências dos titulares para marcar um dos gols, em belo chute cruzado após passe de Pizarro. O clube bávaro manteve sua impressionante campanha, com 25 vitórias e apenas uma derrota em 29 rodadas, 83 gols marcados e apenas 13 sofridos. Outro gol brasileiro na rodada foi do zagueiro Naldo, no empate do Wolfsburg com o Hoffenheim em 2 a 2 que deixou o rival em situação bastante complicada, na penúltima posição. O mesmo placar de 2 a 2, também com tento no fim, aconteceu entre Schalke 04 e Bayer Leverkusen. O meia Raffael, que fez carreira na Europa, cobrou o pênalti do empate, ajudando a equipe – que ainda contou com Michel Bastos como titular – a se manter na quarta posição.

Rússia: contratado a peso de ouro pelo Anzhi no início do ano, o ex-corintiano Willian marcou seu primeiro gol com a camisa do novo clube na vitória por 3 a 0 sobre o Volga, fora de casa. O resultado manteve a equipe na terceira posição da tabela, atrás do Zenit e do líder CSKA Moscou, que tropeçou e perdeu terreno na briga pelo título ao empatar em 0 a 0 com Dínamo de Moscou. Vagner Love não esteve em campo.

Ucrânia: não foi a saída do seu antigo camisa 10 justamente para o Anzhi que tirou o Shakhtar Donetsk da rota de mais um título ucraniano. A equipe segue liderando com sobras e desta vez passou pelo Zorya por 3 a 0 com mais um gol de Luiz Adriano, chegando a 69 pontos, 17 a mais que o vice-líder Metalist, que goleou fora de casa o Vorskla por 4 a 1 com gols do ex-são-paulino Marlos e do ex-palmeirense Cleiton Xavier, um dos principais artilheiros da liga.

Itália: teve gol brasileiro em um duelo direto contra o descenso e no clássico de Gênova. Ângelo, que teve passagem pelo Corinthians, ajudou o Siena a bater o Pescara por 3 a 2 e a sair da zona de rebaixamento. Já Éder abriu para a Sampdoria e Matuzalém empatou um duelo quente, que deixou o Genoa em situação complicada na briga para não cair. Mesmo sem marcar Leandro Castán e Dodô foram titulares na vitória da Roma sobre o Torino por 2 a 1, fora, enquanto Robinho voltou a começar um jogo pelo Milan, no empate em 1 a 1 com o Napoli. Quem gostou foi a Juve, que segue com folga na ponta.

E o que mais?
Na Inglaterra e na França, alguns dos principais brasileiros tiveram resultados opostos. Lucas, Thiago Silva e Maxwell, titulares do Paris Saint-Germain, ajudaram o clube a vencer o Troyes e se manter firme rumo ao título. Já Philippe Coutinho e Lucas Leiva não impediram o 0 a 0 do Liverpool com o Reading, assim como Júlio César também não evitou nova derrota do praticamente rebaixado Queens Park Rangers, desta vez para o Everton.

Por fim, nos Emirados Árabes Unidos, o embalado Ricardo Oliveira fez mais dois no empate em 3 a 3 do Al Jazira com o Al Nasr.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/04
08:03

O declínio americano

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS

O filosofo alemão Jorge Guilherme Frederico Hegel (1770-1831) escreveu que a historia ou o movimento da historia começou no Oriente e depois foi se deslocando para o Ocidente até chegar à Europa do seu tempo. Quando escreveu, ele não sabia, provavelmente, da existência de civilizações sofisticadas no hemisfério sul da Terra. Pouco importa. Àquela afirmação acrescentou outra que se confirmou mais tarde pela historia: que, da Europa, o movimento da historia se deslocaria para os Estados Unidos. Embora isso não passasse de Filosofia Política (provavelmente influenciada pela história do cristianismo), o fato é que o século XX foi o século americano: ganharam duas grandes guerras, fizeram muitas outras guerras menores, ajudaram a reconstruir a Europa e o Japão, colocaram suas empresas e suas mercadorias em todos os continentes, afirmaram-se como potência militar e grande fabricante de armas, tornaram-se hegemônicos cultural (Hollywood à frente) e cientificamente. É pouco?

Dessa hegemonia ou supremacia no mundo, nasceu o antiamericanismo. Esse comportamento está associado geralmente à esquerda, porque os Estados Unidos passaram a representar a liderança do capitalismo em escala mundial. Da mesma forma que a esquerda era contra os capitalismos nacionais antes e depois da ascensão dos EUA, ela continuou com a mesma atitude, mas dirigindo especial atenção ao capitalismo ianque. Razões para isso não faltavam nem faltam: os americanos e suas empresas quebraram muitas empresas em muitos lugares pelo mundo afora, fizeram-se "polícia do mundo", invadiram países, colocaram frotas em todos os oceanos (podendo intervir em qualquer país, se necessário, a qualquer momento), organizaram e financiaram golpes de Estado, etc. E também transformaram o mundo um pouco em sua cópia distorcida e países e povos passaram a imitá-los. Não é à-toa que os norte-americanos se acham "o número um" ("the number one") em tudo. O seu nacionalismo está fundado nessa evidência.

Quando morei lá, muitas coisas e atitudes dessa superpotência me chamavam a atenção. A primeira dela é a sua poderosa democracia. São mais de duzentos anos com um único regime político: a democracia. Nada de ditaduras. Muitas críticas podem lhes ser dirigidas por conta de sua política externa imperial, mas não existe país mais livre no mundo internamente. A sua sociedade é muito bacana. Por isso sei que sou suspeito para falar dela, pois adorei viver lá e, embora sem nunca deixar de ser brasileiro, estou identificado com a sua cultura até hoje. Mas, como brasileiro dentro do Brasil, não me agrada entrar numa livraria e observar que a maioria dos livros mais vendidos é de livros americanos; pensar em ir ao cinema e saber que a maioria dos filmes vem dos EUA; admitir que muitos produtos que precisamos comprar são de empresas ou de franquias norte-americanas; e a lista continuaria com muitos outros exemplos dessa presença. E isso não é só no Brasil: isso vale para o resto do mundo. O mundo virou um grande "quintal americano" na segunda metade do século passado.

Vivendo dentro da "grande nação do Norte", não escapava de minha observação a cobertura que era feita pela mídia dos eventos merecedores de destaque. Enquanto a França, por exemplo, fazia e faz a cobertura de seu próprio país, da União Europeia (hoje em dia com mais razão), das ex-colônias pela África, a mídia norte-americana cobre o mundo inteiro, seja porque suas empresas e portanto seus interesses nacionais estão por toda a parte, seja porque os seus interesses estratégicos cobrem todo o planeta. Agora pense o leitor na cobertura internacional da mídia (especialmente da TV) brasileira: o foco está nos centros econômicos e políticos na Europa, nos EUA e no Japão (só recentemente incluindo a Argentina por conta do Mercosul). Isso só mostra ainda a sua condição subordinada no concerto das nações e que a influência brasileira no mundo ainda está por vir.

Ainda do interior da "barriga da baleia", outra coisa não me passava despercebida. Reportando tensões e conflitos entre o seu país e outros, a mídia, quando entrevistava e entrevista autoridades públicas, coloca abertamente o conceito de "regime change" (mudança de regime). Dito de outra forma, quando não dá mais para dialogar com país "peso leve", eles falam, com naturalidade e arrogância, em derrubar governos. Impressionante! Isso também vale, cuidados à parte, para a França, a Rússia, a Inglaterra, etc. Era assim também com a Roma Antiga: se não adiantava falar suavemente, dava no país incômodo uma porretada, parodiando de novo os EUA. Agora, convido o leitor de novo a pensar no Brasil por ocasião daquela tensão não muito antiga com a Bolívia sobre gás ou petróleo: só alguns malucos falaram em "invasão" e coisas que tais. Felizmente, a maioria dos brasileiros pensou como governo federal em diálogo, etc. Tradição pacífica brasileira? Não, o Brasil ainda não é um peso pesado.

Muitos tonéis de tinta já foram gastos para tratar do declínio americano. Há declínio? Com certeza, há. A segunda metade do século XX marcou a sua hegemonia espetacular sobre o mundo e o seu relativo declínio depois do seu paroxismo com fim da Guerra Fria. Eles ainda têm supremacia em tudo: econômica, militar, científica e cultural. Mas, economicamente, os EUA enfrentam concorrência das velhas e novas potências econômicas – aí incluído o Brasil. Militarmente, idem. Apesar de fazerem parte e de liderarem a maior e mais importante aliança militar do mundo, a hoje imbatível OTAN, o aparelhamento nuclear de diversos países impede que os EUA posem tão abertamente como "polícia do mundo". É por isso que se pode dizer que o século XXI não será outro século americano. Mas dos EUA e de outros países – embora guardando o posto de liderança na área científica, cultural e militar. É aí que eu acho que a tese do historiador norte-americano Paul Kennedy, segundo a qual os impérios começam a declinar quando precisam ter mais despesas militares não acompanhadas de muito sucesso econômico, faz sentido. Os EUA são cada vez mais ameaçados economicamente no mundo inteiro. Essa "trégua" com o mundo que faz agora o presidente Barack Obama é um sinal claro da chegada a esse ponto. E disso os norte-americanos têm consciência. Somente a direita ianque faz questão de ignorar perigosamente essa evidência.

Immanuel Wallerstein, outro historiador americano, escreveu que, no século XVI, quando os europeus começaram o movimento de conquista do mundo, a China era a potência mundial pronta para fazer o mesmo. Não fez ou foi impedida de fazer pela dianteira tomada pelos europeus. No final do século XX e começo deste, já existe consenso sobre a ascensão da China à condição de superpotência mundial – tendo a seu lado outra potência econômica oriental que é o Japão. Mesmo com o seu capitalismo selvagem (comprando terras na África, exportando empresas, vendendo mercadorias a preço de banana, etc.), a China terá um longo caminho a seguir antes de impor alguma hegemonia cultural para além de sua culinária no mundo. Quando isso acontecer, o velho Hegel poderia acrescentar, se estivesse vivo, que o movimento da história voltou para o Oriente. E a gente também poderia completar: pois é, sabe-se lá por que, às vezes a Filosofia acerta.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/04
18:38

Afonso Nascimento - Choques culturais

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS

Viver no exterior é uma fonte de choques culturais. É também oportunidade de comparar os costumes de seu país de origem com aqueles do lugar onde alguém está a viver. Depois de algum tempo, aquelas diferenças começam a tornarem-se naturalizadas e, quando você volta ao seu país de verdade, dá-se o contrário: você conhece algum estranhamento dentro da sua própria cultura. Quem viveu fora do Brasil conhece essa sensação. Na verdade, nem é preciso sair do Brasil. Aqui mesmo no Brasil isso acontece, posto que, em razão das nossas heterogeneidades culturais, nesse território existem vinte e sete "países". Sim, mas os choques culturais não chegam a ser tão fortes quanto os de morar no exterior.

Quando eu vivi nos Estados Unidos nos anos 1990, eu experimentei vários choques culturais. Relatarei três desses choques. O primeiro diz respeito à cultura jurídica norte-americana. Enquanto brasileiro com formação jurídica, eu estava acostumado com a cultura de que juízes são recrutados através de concursos públicos – uma das razões que fazem que a magistratura não seja uma corporação democrática e, sim, burocrática. Nos EUA, para minha surpresa, eu observei campanhas para juízes federais em outdoors, em emissoras de rádio, etc. Eu achava e acho muito legal aquele procedimento de seleção e gosto até hoje contar para meus alunos essa história e noto que a reação deles é sempre de desconfiança. "Isso não daria certo no Brasil", sempre dizem. Eu concordo com eles, mas acrescento que idealmente seria bom combinar a seleção meritocrática com a democrática de juízes como forma de reduzir o déficit de legitimidade que tem o Judiciário brasileiro.

Da cidade em que eu vivi, Oak Park, no estado de Illinois no meio-oeste americano, vem de novo o segundo choque cultural. Para que o leitor tenha uma ideia superficial dessa cidadezinha, ela é um subúrbio de Chicago de classe média, em cuja terra nasceram o escritor Ernest Hemingway e o arquiteto Frank Lloyd Wright. Pois bem, nessa cidade, com sua pequena população, não tem Câmara de Vereadores, só Prefeito. Eu me perguntava então: como é que pode isso? As pessoas me diziam com naturalidade: "Para que Vereadores?" Além do Prefeito, tinha só um "manager" (um administrador técnico) e, claro, a máquina administrativa da Prefeitura. E a cidade funcionava incrivelmente bem, com o Prefeito eleito prestando com frequência contas de suas ações administrativas a seus constituintes.

Peço ao leitor que pare um minuto e pense nas pequenas cidades do interior de Sergipe. O que pode ser encontrado? Cidades com economias irrelevantes e, por conseguinte, com arrecadação baixíssima de impostos, vivendo de repasses do governo federal. A despeito disso, essas cidades elegem Prefeitos e muitos Vereadores. Para que servem esses Vereadores que levam uma grande fatia do orçamento municipal com seus altos salários e cujo retorno em termos de trabalho é praticamente nulo? Nessas cidades não ter Vereadores significa uma enorme economia para suas populações. Infelizmente, não faz muito tempo, para piorar a situação, o corporativismo da classe política brasileira brigou e conseguiu aumentar o número de edis nas Câmaras de Vereadores do país. Indo ao que interessa: nesse caso, esse arranjo institucional caberia para o Brasil? Não me posiciono como Bob Fields ( "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil"), mas estou seguro de uma coisa: esse rigorismo de engenharia institucional ("tem que ter uma Câmara de Vereadores") pode ser motivo para desvirtuar o sentido da democracia representativa e de uma boa governança.

A última amostra de choque cultural desse brasileiro na terra de Tio Sam tem a ver com o uso da biblioteca pública de Oak Park. Qual era o uso que os moradores dessa cidade faziam de sua biblioteca municipal, localizada em frente à sua praça principal, no centro da cidade? Ela era (ainda está lá) uma biblioteca que ficava aberta todos os dias da semana, desde a manhã até lá pelas dez da noite. Era um espaço com aparelhos de ar condicionado, dividido em diversos outros, a saber, sala de leitura, sala de brinquedos para crianças, cabines para ouvir música, salas de projeções, salas com estantes de livros, filmes, DVDs, video-games, etc. Quem frequentava essa biblioteca? Embora fosse um subúrbio afluente, a impressão que guardei foi a de que pessoas de todas as classes por lá passavam por diversas razões. Adultos, homens e mulheres, iam tomar emprestados livros, filmes etc. Pais e filhos também buscavam livros, etc. Outros iam ler os jornais diários e revistas de todos os tipos. Mais outros lá ficavam só por lazer, conversando uns com outros. Trocando em miúdos, era um espaço de vivência e de convivência dos moradores.

Vamos de novo pensar em Sergipe? Todas as cidades sergipanas têm bibliotecas públicas estaduais e municipais? Nas grandes cidades, todos os bairros grandes possuem bibliotecas públicas? De vez em quando são publicadas informações do MEC que tratam das dificuldades sergipanas no seu setor de bibliotecas públicas. Mas eu acredito que toda cidade de Sergipe pode ter, pelo menos, uma biblioteca pública cumprindo essa função de espaço de vivência e de convivência para os seus moradores e cidadãos. Imagine o leitor esse tipo de biblioteca, hoje acrescida de internet, instalada especialmente nos grotões sergipanos em que as pessoas não têm o que fazer, tendo que lidar com o calorzão de suas casas ou de suas praças. Essa poderia ser uma política cultural, absolutamente factível porque barata, para governos estaduais e municipais. Nos vinte anos que ainda quero viver, partiria feliz recebendo esse mesmo choque cultural em Sergipe.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
01/04
05:10

Como era ser pobre em Sergipe

Afonso Nascimento
Advogado e Professor de Direito da UFS


O leitor já teve a oportunidade de encontrar pessoas indignadas com a concessão da bolsa-família para algum miserável sergipano? Pois é, essas pessoas existem e estão sempre armadas com bons argumentos contra aqueles que dizem que a bolsa fomenta a preguiça, "vicia o cidadão" ( como na música de Luiz Gonzaga), etc. De vez em quando, porque esses comentários são frequentes, eu pergunto a essas pessoas se elas têm ideia do que recebem os pobres dos países europeus com o seu estado-providência. Então eu lhes digo que na Europa rica as pessoas, além dos seus salários em situação ordinária ou de seus generosos seguros-desempregos, ganham escola, transporte, saúde ( com direito a retorno com gastos com médicos e remédios) de qualidade, ajuda com aluguel, boas aposentadorias e muitas outras alocações em relação aos filhos, à maternidade, etc.

Apesar da ameaça de destruição do estado de bem-estar social, esses europeus "pobretões" fretam aviões e vêm passear em países como o Brasil como se fossem "ricos". Aí eu não posso deixar de dizer como somos mesquinhos fazendo questão com a ninharia da bolsa-família ( pouco mais de cem reais) que custa outra micharia ( em torno de quinze bilhões ) no orçamento da União. Naturalmente, por aquelas bandas não existe o estardalhaço dessa política social que termina por transformar os seus beneficiários em uma gigantesca clientela eleitoral - o que é uma coisa muito lastimável.

Eu sou um ex-pobre. Eu e minha família fizemos parte da questão social do Brasil. Por isso, sinto-me à vontade para escrever com experiência e reflexão sobre o assunto. É preciso dizer, para início de conversa, que a pobreza pode ser e que pode não ser uma condição ontológica. Trocando em miúdos, existe a diferença entre ser pobre e estar pobre. Aquelas pessoas que são pobres a vida inteira, vivem na pobreza e a pobreza moram nelas. As duas coisas se confudem. Porém, quando pessoas mudam de sua condição material, aparentemente a probreza descola delas. No meu caso, a pobreza não morou em mim.

Avançando no assunto, afinal, o que é a pobreza? A pobreza tem uma dimensão objetiva. Com efeito, ela está sempre associada à privação de bens materiais e culturais. As pessoas consideradas pobres moram em bairros periféricos, (quando têm) têm baixa renda, muitos filhos (às vezes, não), o seu consumo de bens materiais e culturais é de qualidade baixa, etc. Levam uma vida material e cultural que as impedem de terem uma completa dignidade humana. São pessoas normais, como quaisquer outras, que têm desejos materiais, mas não conseguem satisfazê-los. Existe nesse sentido uma conexão entre necessidades e frustrações na definição de pobreza.

E a dimensão subjetiva da pobreza? Geralmente, os pobres são sempre frustados ou revoltados - a menos que sublimem essas necessidades com outros bens. No caso brasileiro, com nossa pouca tradição de rebeldia, os pobres estão sempre se colocando como vítimas num mundo social para o qual não tem solução. Mas quase nunca se revoltam. Quando morei nos Estados Unidos, li um livro que me impressionou muito sobre a pobreza de lá ( "The hidden injuries of class" ou "As feridas escondidas de classe", de Richard Sennett e Jonathan Cobb) para o qual os autores entrevistaram americanos pobres sobre o seu "inferno" subjetivo. Guardei que muitos reclamavam que a economia de mercado americana não cumpria as promessas divulgadas no país, que dizia oferecer oportunidades para todos. Aí eu pensava no Brasil, um país que não pode dizer que dava ou dá oportunidades a todos, como fica isso?

Deixe-me falar um pouco sobre minha experiência de quando eu era pobre. Dentro das camadas de pobres sergipanos, a minha família moradora do Aribé não era das mais pobres, porque meu pai foi ferroviário público federal a vida inteira, a gente podia comprar fiado em muitos lugares ( bodegas, mercado, etc.) porque meu pai nunca ficou desempregado e a minha família tinha casa própria, não precisando pagar aluguel - e eu nunca trabalhei como criança ou adolescente. Mas era só o salário de meu pai para alimentar quatorze bocas ( pai, mãe, dez irmãos e dois meio-irmãos). Além disso, meu pai possuía um terreno no Bairro Santos Dumont onde tinha plantação de abóbora, melancía, etc. Família de famintos? Claro que não, mas minha mãe, não poucas vezes, preparava deliciosos pratos como leite em pó da Aliança para o Progresso, café açucarado com farinha, caranguejo ou guaiamum para o almoço, vários tipos de tripas, pilombetas,etc. A mortalidade infantil não chegou a ser um problema para nossa família, porque nos mudamos de Salgado para Aracaju - onde existiam ( ainda que precários ) serviços médicos públicos na LBA do Bairro Siqueira Campos), e onde pessoas como eu tiveram a sorte de estudar em escola pública com problemas mas num tempo em que ainda não existia educação de baixa qualidade para massas.

O meu problema começou quando eu estava terminando a escola secundária. O que fazer para ganhar a vida? A minha avó materna insistia para que meus pais me colocassem numa oficina mecânica para eu aprender um ofício ( no caso de mecânico). Já o meu pai e a minha mãe, sempre altivos mesmo com suas limitações culturais e sem possuírem bons relacionamentos ou contatos, tinham outros planos para mim: entrar para a Escola Agro-Técnica do Quissamã no interior de Sergipe ou ir para o Exército (Academia Militar de Agulhas Negras), no estado do Rio de Janeiro. Parece um típico itinerário para um filho de família trabalhadora? No mesmo período em que isso tinha lugar, eu me preparava para fazer o exame vestibular da UFS, depois de ter estudado no Colégio Costa e Silva ( onde tinha professores que eram geralmente estudantes universitários ) e estudava no Colégio de Aplicação, uma escola-laboratório da UFS, para a qual entrara depois de fazer exame ( parte da política educacional da ditadura militar), a qual tinha excelente quadro de professores efetivos e que ajudou a melhorar e a aumentar a minha bagagem de conhecimentos.

O leitor me desculpe por fazer todo esse relato biográfico, mas o seu objetivo não é estragar o seu domingo falando de miséria, pobreza, etc, nem passar dica sobre como escapar da pobreza. Embora eu não desse tanta importância de ter um diploma universitário ( na Europa rica não existe tanto essa obessão brasileira do diploma universitário, mas eles fornecem educação de qualidade para todos ), eu tinha consciência de que a minha sorte estava lançada, em qualquer direção, naquele processo seletivo, visto que, ainda que eu me considerasse um grande jogador de futebol, ninguém mais pensava como eu. Era muito azar! Ademais, como afrodescendente não tinha talentos artísticos para cantar ou dançar - e a criminalidade econômica nunca fora considerada como alternativa. Assim, ou passava no exame vestibular ou ia ser classe trabalhadora como meus pais, meus avós, etc, reproduzindo uma tradição de muitas gerações.

Para minha surpresa, não fui reprovado. E é isso que me dá autoridade para falar que, numa sociedade como a sergipana que não dá oportunidade ao viveiro de talentos ( este não é bem o meu caso, pois não passo de um professor ordinário ) existentes no interior da população de baixa renda, ser pobre em Sergipe era e é não ter perspectiva de uma vida melhor - exceções postas de lado. E o sergipano pobre sofre o pior e o mais naturalizado dos preconceitos sociais: o de classe social.Eu sei que a educação não resolve tudo, mas tenho certeza que garantir escola pública de qualidade é um bom começo para sacudir o passado colonial e "republicano" dos sergipanos de injustiça econômica, social e cultural. Para além disso, não perco a esperança de que os sergipanos possam ter um dia um Museu da Pobreza, como fez a Noruega não tem muito tempo, para lembrar as suas novas gerações como era ser pobre por lá. Enquanto isso, por aqui, ainda somos um quase-museu da pobreza a céu aberto.


Coluna Afonso Nascimento
Com.: 2
Por Eugênio Nascimento
Primeira « Anterior « 36 37 38 39 40 41 42 43 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos