08/09
11:40

Sergipe no século XXI (10): Perspectivas e reposicionamento estratégico

Ricardo Lacerda
Professor da UFS

 
Algumas conclusões sobre a evolução da economia sergipana nas duas primeiras décadas do século XXI: Durante o ciclo expansivo da economia brasileira (2004-2014), Sergipe apresentou crescimento acelerado do emprego e da renda, deixando para trás o período de baixo dinamismo que marcou a maior parte da década de 1990. Diante da natureza do ciclo, marcado pelas políticas públicas de inclusão social, a expansão da renda caminhou à frente das transformações nas estruturas produtivas, o que não significa que elas não tenham sido amplas. Pelo contrário, o ciclo de expansão nesse período foi o mais abrangente e dinâmico desde que nas décadas de setenta e oitenta a economia estadual sofreu radical transformação com a implantação de grandes unidades produtivas na cadeia de petróleo e gás e de fertilizantes.
 
Diversificação
É necessário distinguir, todavia, o período anterior de transformações da base produtiva estadual, liderado pelos investimentos estatais, com o ciclo expansivo mais recente, em que o crescimento da renda e do poder de compra interno, ao lado da ampliação dos investimentos públicos em infraestrutura social (educação, recursos hídricos e saneamento, entre outros), impulsionou em um segundo momento os investimentos privados atraídos pelo crescimento acelerado do poder de compra regional e local.
 
Como visto nos artigos anteriores, a economia agrícola sergipana apresentou dinamismo considerável nas duas primeiras décadas do século XXI, ainda que alguns setores tenham ficado para trás; enquanto os cenários externos e internos permaneceram favoráveis, a exploração da base de recursos minerais apresentou notável crescimento; e, as atividades tipicamente urbanas, em parte orientadas pelo crescimento da renda e pelo acesso ao crédito, como a indústria de transformação, a construção e civil e a prestação de serviços, se diversificaram e apresentaram intenso dinamismo.

 
Impactos da recessão
A recessão da economia no âmbito nacional, iniciada em 2015, atingiu com muita intensidade a economia sergipana, provocando impactos mais acentuados do que na maioria das Unidades da Federação, em diversas dimensões: no mercado de trabalho, no poder de compra interno, nos investimento em estrutura produtiva e nas finanças públicas. A economia sergipana, como as de outras Unidades da Federação muito dependentes dos fluxos de renda e produção gerados pela exploração petrolífera, registrou, desde então, reveses acentuados, alguns de caráter conjuntural e outros mais profundos, que vão exigir reposicionamentos em sua estratégia de desenvolvimento.
 
Em linhas gerais, as principais causas desses impactos diferenciados sobre a economia estadual podem ser associadas a alguns fatores fundamentais: 1) Fim do ciclo longo de valorização de commodities e a crise empresarial da Petrobras, levando a forte retração da produção de algumas das principais riquezas estaduais. Entre outros impactos, o fim do período favorável nas cotações das commodities minerais e energéticas e o reposicionamento da Petrobras implicaram: a) Queda abrupta na produção de petróleo nos campos maduros de Sergipe; e b) Adiamento, de 2018 para 2023, do início da exploração do petróleo de águas profundas e ultraprofundas, enquanto os campos maduros não recebiam os investimentos necessários para manter os níveis de produção; c) Postergação dos investimentos para a exploração de sais de potássio provenientes da carnalita; 2) Os efeitos do longo período de estiagem sobre algumas das principais culturas agrícolas do Estado e na geração de energia elétrica da UHE de Xingó; 3) Retração do setor imobiliário e seus desdobramentos na fabricação de cimentos; e, 4) Queda na produção no setor têxtil estadual, com o encerramento da atividade de algumas importantes fábricas. Não menos significativos foram os efeitos da recessão econômica sobre as principais fontes de receitas das administrações públicas, estadual e municipais.
 
 
Perspectivas
As perspectivas de saída da crise para Sergipe estão associadas a alguns fatores de curto e médio prazos, de caráter mais conjuntural, e outros de longo prazo, de sentido mais estrutural.
 
Começando pelos fatores de curto e médio prazos, algumas atividades que sofreram retrações muito acentuadas da demanda, que provocaram o encerramento de unidades produtivas ou redução de grande proporção de seus tamanhos, como a produção de minerais não metálicos e de madeira e móveis, integrantes da cadeia de produção da construção civil, deverão se recuperar na medida em que um novo ciclo de expansão se firme na economia nacional.
 
Desde que a capacidade produtiva não tenha sido desmobilizada e a situação de endividamento empresarial encontre um caminho para equacionamento, tais atividades deverão acompanhar um novo ciclo de expansão, mesmo que seja com estruturas empresariais reconfiguradas.
 
 
No caso das atividades agrícolas do Semiárido, o fim do atual período de estiagem repercutirá imediatamente na produção. Como visto, a resposta das culturas temporárias do Semiárido, especialmente do milho, é muito intensa. A situação da cana-de-açúcar é mais complexa, diante do endividamento dos principais grupos empresariais atuantes no setor. Também a geração de energia da UHE de Xingó deverá ter retomada imediata à medida que a vazão do São Francisco retorne à média histórica. Essas flutuações do nível de atividades associadas à prolongada recessão nacional ou ao regime de chuvas explicam, todavia, somente uma fração da crise estadual.
 
Reposicionamento estratégico
 
A outra parcela, mais importante do que a primeira em uma perspectiva de longo prazo, diz respeito ao reposicionamento estratégico da economia sergipana frente às transformações da economia nacional, em particular, as mudanças em curso no mercado de energia e na exploração de petróleo. É necessário levar em consideração, também, o contexto mais amplo do cenário mundial, de revolução tecnológica e de novo equilíbrio geopolítico mundial. Esse ponto será tratado no próximo artigo, que completa a série sobre a evolução da economia sergipana nas duas primeiras décadas do século XXI.


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
01/09
22:35

Sergipe no século XXI (9): As atividades de Serviços

Ricardo Lacerda
Professor da UFS

Um dos aspectos mais característicos da evolução da economia brasileira depois da crise financeira internacional foi o descolamento do desempenho da atividade manufatureira em relação à trajetória do PIB. De tal forma que a sobrevida do crescimento da economia brasileira até 2013 se deveu ao desempenho dos demais setores, especialmente à contribuição das atividades de serviços. 

O Gráfico apresentadoretrata esse comportamento, mostrando que a evolução do volume de produção da indústria de transformação se manteve colada ao PIB até o terceiro trimestre de 2008, na série que registra a média de quatro trimestres. Depois que despencou, em 2009, e retomou ao patamar anterior ao da crise, com o Pibão de 2010, a atividade manufatureira entrou em uma fase problemática. Entre 2011 e 2013, a produção manufatureira não mais apresentou crescimento digno de nota e, a partir de 2014, iniciou uma trajetória de queda acelerada, seguida pela estagnação, da qual não se recuperou até o momento.
 
Enquanto isso, as atividades de serviços, embaladas pela continuidade da expansão do mercado de trabalho e do crédito, mantiveram o crescimento até 2014, quando, então, o setor não resistiu ao choque de austeridade comandado pelo ministro Joaquim Levy, e passou a apresentar resultados negativos. 

Serviços X Indústria manufatureira
Na média dos quatro trimestres completados no segundo trimestre de 2019, o volume de produção das atividades de serviços no Brasil se situava16,2% acima do resultado de 2008, enquanto a indústria de transformação apresentava índice 12,8% abaixo. Ou seja, desde 2008, em relação à evolução das atividades de serviços, a indústria de transformação apresentou um desempenho 29% inferior. 

Diante dos comportamentos diferenciados, a indústria de transformação brasileira perdeu, entre 2008 e 2018, participação de 5,2 pontos percentuais no valor adicionado bruto, enquanto as atividades de serviços ampliaram seu peso em 6 pontos percentuais. Esse comportamento se repetiu, com diferentes intensidades, nas economias estaduais.




Serviços em Sergipe
Em Sergipe, as atividades de serviço elevaram de 61,4%, em 2002, para 75%, em 2016, a participação no Valor Adicionado Bruto, um ganho de participação de 13,6 pontos percentuais. Nesse período, as atividades industriais perderam 12 pontos percentuais de participação. 

É fato que dos 13,6 pp de incremento das atividades de serviços no VAB estadual no período, 4,5 pp decorreram da parcela redistribuída, de acordo com o peso das várias atividades no VAB de 2002, da perda de peso dos serviços industriais de utilidade pública, associados à queda da geração de energia pela UHE de Xingó. Isolando-se esse fator, ainda restam 8,1 pontos percentuais de incremento da participação das atividades de serviços no VAB estadual.  

Até 2014, enquanto a economia sergipana ainda se encontrava em expansão, os recuos dos Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP), por conta da queda da vazão no reservatório de Xingó, e da construção civil, depois do estouro da bolha imobiliária, explicaram a quase totalidade do ganho de participação das atividades de serviço. 
Desde 2008, todavia, em processo semelhante ao da economia brasileira,a indústria de transformação sergipana viu sua participação ser rebaixada para o patamar de 6%, quando havia se mantido acima de 8% em todo o período anterior à crise internacional.  

Após 2014, foi a retração nas atividades de exploração de recursos minerais, em grande parte associada à queda da exploração de petróleo e gás, o principal fator de perda do peso do setor industrial e, consequentemente, da elevação da participação do setor de serviços na economia sergipana. 

Na comparação entre os anos extremos, 2002 e 2016, as atividades comerciais foram as que mais ganharam participação no VAB sergipano, saltando de 6,8%, no primeiro ano, para 13%, no último, indicando como o ciclo de expansão de consumo foi importante para a economia sergipana. 

Também apresentaram ganhos expressivos de participação, nessa comparação, as atividades de administração, defesa educação e saúde públicas e seguridade social; as atividades profissionais e administrativas; e os serviços de alojamento e serviços. 

Como, contrariamente ao senso comum, a administração pública vem perdendo peso no emprego formal, o incremento de participação do segmento no valor adicionado pode estar associado aos ganhos salariais no período. 

2015- A crise chega aos serviços 
O segmento de serviços em Sergipe manteve-se em crescimento até 2014, mas sucumbiu à crise brasileira iniciada em 2015. Na média de 2015 e 2016, o comércio se retraiu 8,3% ao ano, o setor de transporte, 10,6% aa, e os segmentos de saúde e educação privadas, 13,3%. 

Desde o início de 2018, o saldo do emprego formal no acumulado de 12 meses do setor de Sergipe sergipano se tornou positivo, com resultados modestos, mas a atividade de comércio varejista e os serviços técnicos e administrativos ainda não estabilizaram o nível de emprego formal.




Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
25/08
16:18

Sergipe no século XXI (8): Serviços Industriais e Construção civil

 
 
 
Ricardo Lacerda
Professor da UFS

Em vista do peso da geração de energia elétrica no PIB sergipano, vale a pena examinar como o comportamento dos Serviços Industriais de Utilidade Pública- SIUP afetou o crescimento estadual. 

Como apontado anteriormente, esses serviços respondiam por 12,1% do Valor Adicionado Bruto (VAB) sergipano de 2002 e, por conta da redução da vazão do rio São Francisco, tal participação caiu para 5,2%, em 2016.  

UH de Xingó
A queda abrupta na geração de energia elétrica explicou parcialmente porque a desaceleração no crescimento do PIB sergipano se antecipou em três anos em relação à maioria dos demais estados da região, como vimos anteriormente. A simples retração da participação dos SIUP, entre 2012 e 2014, de 7,7% para 3,3% no VAB equivale, grosso modo, à queda de 4,4% do PIB sergipano, apenas associado a esse efeito, impulso para baixo que não teria como ser compensado pela aceleração das demais atividades. 

A figura 1 apresenta as evoluções da vazão natural do reservatório de Xingó, na média de 365 dias, e a defluência no referido, reservatório na média de 30 dias, indicando a retração acentuada e quase contínua do fluxo de água entre 2012 e 2017, com recuperação parcial e relativamente modesta desde então.
Enquanto a vazão (na média de 365 dias) se situou acima de 2,5 mil m3/s no inicio de 2012, três anos depois se posicionava em torno 1,0 mil m3/s. Ao final de 2017, essa média era inferior a 800 m3/s. Com a elevação da precipitação no a montante do reservatório, a vazão média na média de 365 superou 1,2 mil m3/s, em maio de 2019.
 
A figura 2 apresenta os efeitos da queda da vazão sobre a geração de energia na UHE de Xingó, de 2.199 MV médio/ano, em 2012, para somente 585 MV médio/ano, em 2018, retração de 73% no período. Em termos estatísticos, a retomada da geração de Xingó ao patamar de 2012 propiciaria por si própria um incremento de cerca de 2,5% no PIB sergipano.  
 
 


Construção Civil
É importante destacar que a atividade de construção civil, como é usual, iniciou sua expansão com certa defasagem de tempo em relação aos demais setores da economia. Somente quando o ciclo de crescimento do PIB brasileiro já se encontrava no seu terceiro ano, com o mercado de trabalho aquecido e o acesso do crédito em plena aceleração, a expansão do mercado imobiliário se firmou. As contas nacionais trimestrais, do IBGE, na série dessazonalizada, assinalam o último trimestre de 2006 como o momento da aceleração do crescimento do setor.

As contas regionais (IBGE), os dados de emprego formal (RAIS), e de produção e consumo de cimento (SNIC) confirmam o ano de 2006 como sendo, também, o de início da expansão das atividades do setor da construção civil em Sergipe.  

A evolução do volume de Valor Adicionado Bruto da atividade indica crescimento acelerado do setor da construção civil em Sergipe entre 2006 e 2008, desaceleração, em 2009, por conta do impacto da crise financeira internacional, e o boom da atividade entre 2010 e 2012 (ver Figura 3). 

Com o estouro da bolha imobiliária e com o início do período de restrições mais rígidas do tesouro estadual e a redução dos repasses voluntários federais para realizar investimentos em infraestrutura, a construção civil parou de crescer, entre 2012 e 2014, e, nos anos seguintes, entrou em descenso acelerado. 


  
Cimento
O consumo de cimento tem correlação direta com a evolução da atividade da construção civil e Sergipe é detentor de importantes jazidas de calcário. Na média dos anos 2001-2013, a fabricação de cimento em Sergipe foi 6,5 vezes maior do que o seu consumo.
 

Tal relação fez com que a economia estadual tenha sido muito impulsionada quando o consumo nacional de cimento apresentou crescimento acelerado, entre 2006 e 2013, mas, por outro lado, com a sua queda, a partir de 2015, a crise do setor puxou para baixo o crescimento da economia estadual. O consumo de cimento no país, segundo o SNIC recuou 25,4% entre 2014 e 2017.  Em Sergipe, a produção e o consumo de cimento já registravam retração no ano de 2013, o último com dados disponíveis. 

Perspectivas
Em 2019, quinto ano seguido de recessão ou baixo crescimento da economia nacional, a atividade da construção ainda se encontra prostrada, sem apresentar sinais mais decididos de alguma retomada. Muitos economistas prescrevem, o autor do presente artigo inclusive, que a economia brasileira não encontrará o caminho da retomada do crescimento enquanto não forem elaborados novos instrumentos para impulsionar a cadeia produtiva da construção civil, por tudo que representam em termos de efeito multiplicador de emprego e de renda na economia.

Mais recentemente, tem se formado um crescente consenso em torno da defesa da flexibilização do teto do gasto público com o objetivo de expandir os investimentos na construção civil residencial e de infraestrutura pública. Meus votos para que os iluminados do mercado financeiro e de Brasília se convençam rapidamente dessa necessidade.

*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
16/08
18:55

Sergipe no século XXI (7): As atividades extrativas minerais

Ricardo Lacerda

A evolução das cotações do barril de petróleo no mercado mundial foi decisiva para o comportamento da exploração de petróleo e gás natural em Sergipe nas duas primeiras décadas do século XXI. Mas não menos importante foi o reposicionamento adotado pela Petrobras em relação às mudanças no cenário externo e aos desdobramentos dos escândalos de corrupção.

No início dos nos 2000, com as cotações em alta, a exploração de petróleo e gás em Sergipe se recuperou da estagnação que marcou os anos noventa. A produção local apresentou crescimento continuado entre 2003 e 2008.

Os investimentos na recuperação de campos maduros foram determinantes para o aumento da produção, que ganhou novo impulso com a exploração do
s campos de águas profundas Piranema e Piranema Sul. O patamar de produção se manteve elevado, ainda que levemente declinante até 2014. A produção, todavia, despencou a partir de 2015, com a q
ueda das cotações internacionais do petróleo e os ajustes realizados na Petrobras, como resposta à crise financeira e de reputação da empresa.

A extração de sais de potássio e a produção de fertilizantes nitrogenados, duas outras atividades integrantes da indústria de base de Sergipe, também foram atingidas pela queda na cotação dos seus produtos no mercado internacional. No caso da produção de nitrogenados, a redução da produção seguida pela desativação da atividade decorreu essencialmente do reposicionamento estratégico da Petrobras em um momento de baixa rentabilidade.

Ciclo de Commodities

O ciclo longo de valorização, associado à emergência em ritmo acelerado da economia chinesa, contemplou commodities agrícolas, minerais e energéticas. Nesse último grupo, é notável a evolução das cotações do barril de petróleo no mercado mundial. Partindo de US$ 21, ao final de 2001, o barril do petróleo West Texas Intermediate (WTI), alcançou US$ 73, em meados de 2006, atingindo o pico de US$ 140, em meados de 2008, imediatamente antes da crise do subprime norte-americano. Depois de despencar para cerca de US$ 40, no início de 2009, recuperou-se se nos anos seguintes, até nova queda no segundo semestre de 2014 (Ver Figura 1).

A baixa da cotação internacional impactou na exploração interna de petróleo, mas é necessário ponderar que a transmissão dos seus efeitos não é imediata sobre o nível e produção interno, sendo mediada pelas decisões de preço e de investimentos da Petrobras, devidamente monitoradas ou mesmo conduzidas pelo governo federal.
























Petróleo e gás natural
 

A figura 2 apresenta a evolução, em metros cúbicos, da produção de petróleo de Sergipe desde 1978. Dominada pela exploração em poços terrestres, a produção de petróleo no estado despencou na primeira metade dos anos noventa, por conta da redução da atividade de prospecção, caindo de 2,6 milhões de m3 para 2,0 milhões de m3, entre 1990 e 1996.
A produção prosseguiu rebaixada até 2002, período em que a cotação internacional do barril de petróleo se manteve desfavorável. Com o início da elevação das cotações no mercado internacional e, não menos importante, o papel mais ativo da Petrobras na estratégia de desenvolvimento econômico do governo, a produção sergipana de petróleo voltou a crescer ano a ano, até que o inicio da exploração dos campos marítimos de Piranema e Piranema Sul, a partir de 2007, recolocou no patamar de produção superior a 2,5 milhões de m3 (Figura 2).

O volume de produção de gás natural no estado, apresentado na figura 3, alcançou patamar inédito, com expansão ainda mais intensa, com o início da exploração dos novos campos marítimos, utilizando plataformas de exploração inovadoras.

A queda acentuada na produção de petróleo, em terra e em mar, em Sergipe teve início em 2015, já refletindo a mudança do cenário internacional para o setor e os primeiros estágios da crise econômica e política interna. É, todavia, a partir de 2016 que o descenso da produção sergipana se acelerou, em decorrência da nova orientação adotada pela Petrobras de desmobilizar ativos menos rentáveis. Entre 2015 e 2018, a produção de petróleo de Sergipe encolheu 45% e passou a se situar em 38,4% do pico da produção de 2008, enquanto a produção de gás natural recuou 8,4% no período.

Hibernação e desmobilização

A nova direção da Petrobrás determinou também a desativação da Fábrica de Fertilizantes do Nordeste (FAFEN-SE). Alegando prejuízos de grande monta, decorrentes em parte dos recorrentes aumentos no preço do gás natural fornecido pela própria empresa, que subiu de R$ 376/mil m3, em 2014, para R$ 816 mil m3, em 2017. Em fase de baixa da cotação no mercado internacional, a Petrobras anunciou no início de 2018 a decisão de vender ou desativar as fábricas de fertilizantes nitrogenados da Bahia e de Sergipe. Em novo revés para a exploração local de petróleo e gás, em 2019 a empresa comunicou que pôs à venda os campos de Piranema e Piranema Sul, responsáveis pela maior parte da produção em mar de Sergipe.

Frente à nova orientação da empresa de enfrentar os problemas de caixa por meio de desmobilização de ativos, a economia de Sergipe sofreu impactos negativos de grande monta nos fluxos de renda e produção de suas principais cadeias produtivas. Com especificidades próprias, as economias de outros estados da região Nordeste, como Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia também se ressentiram do recuo nas atividades da Petrobras.
 


















































A reconfiguração da cadeia produtiva de petróleo e gás natural

Na verdade, a exploração de petróleo e gás natural de Sergipe encontra-se em momento de transição, com os campos maduros em descenso e a expectativa de exploração de uma nova fronteira de exploração em águas profundas. O futuro da exploração de petróleo e gás natural no estado passou a depender da entrada em operação dos imensos campos na costa estadual, com descobertas avaliadas em até 24,4 bilhões de m3 de gás natural in place e 226 milhões de barris de óleo in place, apenas no campo de Poço Verde.
A Petrobras anunciou em 2018 a instalação de gasoduto de 128 km de extensão a fim de escoar a produção de gás natural dos reservatórios de Farfan, Barra e Muriú, na área dos blocos exploratórios BM-SEAL-10 e BM- SEAL-11. A produção nos novos campos, em águas profundas, deverá ser realizada por até duas FPSO (Floating Production Storage and Offloading), cada uma delas com capacidade de produção de cem mil barri/dia de óleo e 8,5 milhões de m3 dia de gás natural.

A exploração de seis reservatórios em águas profundas poderá atingir até 40 milhões de m3/dia de gás natural, segundo informou o secretário de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia, Márcio Félix (Agência Estado, em 14/06/2019). Esse montante é equivalente a 70% da produção atual do país e volume superior ao atualmente importado pelo gasoduto Bolívia-Brasil. A exploração que deverá ser iniciada em 2023, deverá ampliar rapidamente a oferta interna de gás natural, atingindo 30 milhões m3/dia, segundo informou a mesma fonte.

A expectativa do governo do estado é que a oferta abundante e a nova regulamentação interna do mercado de gás, o chamado Novo Mercado de Gás, e tendo em vista a atual restrição física da rede de gasodutos, poderá servir de atrativo para instalação de unidades fabris na costa sergipana.


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Redação
04/08
13:31

Sergipe no século XXI (5):a agropecuária

Ricardo Lacerda
Professor da UFS

A maioria das principais atividades da economia agrícola sergipana apresentou expansão notável nas duas primeiras décadas do século XXI, alcançando novo patamar produtivo, ainda que a combinação de seca e de recessão econômica tenha afetado as safras mais recentes. Três foram as principais mudanças na agropecuária sergipana durante o período:

1.No semiárido, expansão acelerada do cultivo do milhoque mais do que dobrou a área plantada e multiplicou por quase oito vezes a produção, tornando-se a principal atividade agrícola para um número crescente de municípios do sertão sergipano;

2. Expansão da pecuária leiteira no Alto Sertão que, no período 2000-2017, quase multiplicou por três a sua produção. O crescimento da pecuária leiteira, que na região sertaneja é realizada principalmente bases familiares, propiciou a instalação de plantas industriais de beneficiamento de médio e grande porte, fortalecendo a cadeia produtiva na região. Os programas federais de aquisição de alimentos, como o PAA, foram determinantes para a consolidação da atividade leiteira no estado;

3. Novo ciclo expansivo da atividade sucroalcooleira, com a instalação de unidades produtivas voltadas principalmente para a fabricação de etanol. A atividade sucroalcooleira teve sua expansão no período estimulada pelo rápido crescimento da frota nacional de veículos. Novos grupos econômicos passaram a atuar no setor na virada da primeira para segunda década. Depois de um período de expansão, a rentabilidade da atividade foi afetada pela defasagem de preço que se acumulou no principal bem substituto do etanol, a gasolina, com consequências graves para a solidez financeira dos grupos empresariais locais;

Cabe ainda destacar a evolução do cultivo da laranja, a principal cultura permanente de Sergipe e uma das três mais importantes de suas atividades agrícolas (ao lado do milho e da cana-de-açúcar). A citricultura sergipana, que vinha com a produção estagnada desde o inicio da década de noventa, apresentou trajetória de crescimento entre 2001 e 2012, com a produção do último ano superando a do primeiro em 41,4%. Desde 2013, todavia,a produção de laranja vem apresentando retração acentuada.

Temporárias e permanentes
A Tabela a seguir apresenta as distribuições das áreas de cultivo das culturas temporárias e permanentes em Sergipe em alguns anos selecionados entre 2000 e 2017 e as respectivas taxas de crescimento. A transformação de maior significado na agricultura sergipana ao longo das duas primeiras décadas do século XXI foi, sem sombra de dúvidas, o avanço das culturas temporárias, particularmente milho e cana-de-açúcar. Entre os anos extremos, 2000 e 2017, o total da área plantada das culturas temporárias aumentou 22%, enquanto as áreas destinadas à colheita das culturas permanentes recuaram 16,1%.

Entre as culturas temporárias a grande estrela do período foi o milho, cuja área plantada aumentou 96,7%, enquanto a quantidade produzida registrou incremento 870,6%, indicando a expansão de uma nova cultura do milho, com produtividade muito mais elevada do que a vigente no início do período, com rendimentopor hectare próximo aos padrões mais elevados do país. O milho que respondia, em 2000, por 39,2% da área plantada das culturas temporárias, em 2017, representava quase 2/3 desse total. A contrapartida da expansão do milho no semiárido foi a retração das culturas menos rentáveis ou mais vulneráveis às secas como feijão e, em menor grau, mandioca. O outro destaque foi a expansão cultura da cana-de-açúcar, motivada pelo incremento da demanda combustível no país, com a ampliação da área plantada em 154,4%, mas com incremento da produção menos exuberante.


A figura 1 apresenta a evolução da produção de milho entre 2000 e 2018 e a previsão de safra para 2019. A cultura do milho iniciou sua expansão em 2004 quando a safra saltou para 237,1 mil toneladas, comparativamente as 184,9 mil toneladas do ano anterior.Mas é a partir de 2008 que a cultura alcança novo patamar, com a produção de 584,8 mil toneladas. Nos anos seguintes, produção de milho se mantém no novo patamar alcançado, mas os anos de estiagem resultam em quedas acentuadas da produção, como em 2012, 2015, 2016 e 2018.



Cana-de-açúcar
A cana-de-açúcar iniciou seu novo ciclo de expansão a partir de 2003, mas é entre o final da primeira década e os primeiros anos da segunda, com a inauguração das Usinas Campo Lindo e Taquari, que a produção agrícola atingiu novo patamar, com as safras ultrapassando três milhões de toneladas entre 2011 e 2015 (ver Figura 2). Nos anos seguintes, a produção recuou até atingir os dois milhões de toneladas em 2018. Apesar da crise dos últimos anos e as dificuldades enfrentadas atualmente pelos grupos empresariais, é inegável que a atividade sucroalcooleira alcançou um novo patamar ao longo do período.




Com a inauguração das novas usinas, a produção de etanol saltou de 45,5 milhões de litros, na safra 2005/06, para 122,4 milhões de litros, na safra 2011/12, mais do que dobrando a produção. A fabricação de açúcar também mais do que duplicou, quando são comparadas as safras iniciais da série apresentada, 2005/06 e 2006/07 e as melhores safras depois da implantação das novas usinas.

Laranja
A citricultura sergipana, que conheceu seu principal ciclo de expansão entre as décadas de setenta e oitenta do século passado, vem perdendo impulso desde os anos noventa. Apesar de se manter como uma das mais importantes culturas agrícolas de Sergipe, ocupando o segundo lugar em termos de valor da produção e terceiro lugar em termos de área de plantio, em 2017, a citricultura aparece, ao lado do feijão, como as atividades que mais perderam espaço na agricultura sergipana no século atual. Depois de um período de expansão da produção até 2012, a citricultura entrou em declínio continuado nos anos seguintes.

Leite
A produção de leite de Sergipe saltou 115 mil litros, em 2000, para mais de 337 mil litros, em 2017. O melhor ano foi 2015, quando a produção se situou 230% acima da produção do ano 2000, enquanto no período a produção do Nordeste cresceu 83%, fazendo com que a participação de Sergipe na produção regional saltasse de 5,3%para 9,6%.Com a retração da produção estadual em 2016 e 2017, a participação de Sergipe na produção regional de leite recuou para 8,7% no último ano, ainda muito acima do peso regional de 2000.

*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/07
14:34

Sergipe no século XXI (4): As evoluções setoriais

 
Ricardo Lacerda*
Professor da UFS
 

A evolução do Valor Adicionado Bruto (VAB), uma aproximação do PIB, propicia uma visão panorâmica de comportamento dos diversos setores da economia sergipana ao longo do ciclo econômico, considerando quatro etapas:

 
 
2003-2008: os setores na aceleração do crescimento

Seguindo esse indicador, entre 2003 e 2008, todas as atividades econômicas apresentaram expansões vigorosas, com a exceção do segmento de informação e comunicação. No conjunto das atividades, o VAB sergipano se expandiu ao ritmo médio anual de 4,3% (Ver Tabela 2).

A agropecuária teve um desempenho extraordinário, liderado pela expansão de suas principais atividades, notadamente milho, cana-de-açúcar e pecuária leiteira. Mas a indústria de transformação, o comércio, as atividades de transporte e os serviços vinculados ao turismo, como alojamento e alimentação, também apresentaram taxas médias de crescimento muito elevadas.

A construção civil e as atividades de serviços imobiliários começam a apresentar taxas de expansão elevadas, ainda que o boom da cadeia produtiva da construção civil somente se consolidará no período subsequente.

As atividades financeiras, refletindo a expansão do crédito a novos segmentos da população, e os serviços profissionais, em geral associados aos contratos de terceirização do setor público, apresentaram taxas de crescimento especialmente elevadas, nesse período.

 
 
2009-2012: boom do consumo e do emprego combinado com os efeitos da estiagem

No período subsequente, entre 2009 e 2012, marcado pelo resultado negativo de 2009, registra-se desaceleração no ritmo médio anual do crescimento do VAB para 3,8%, mas alguns segmentos obtêm resultados extraordinariamente bons: trata-se de um momento especialmente favorável principalmente para as atividades da indústria de transformação, que registraram em conjunto taxas médias de crescimento de 7,4% ao ano, e para a construção civil, com expansão de 8,1%.

O crescimento econômico nesse período é marcado pelo incremento do emprego, pela ampliação do acesso ao crédito e pela incorporação de novos estratos da população ao mercado consumidor, com a chamada ascensão da classe C. De outra parte, a agropecuária já se ressente dos efeitos da estiagem em 2012. Notável foi a expansão das atividades de educação e saúde privadas em Sergipe entre 2009 e 2012, de 7% ao ano.

 
 
2013-2014: a sobrevida do ciclo expansivo e o estouro da bolha imobiliária

Entre 2013 e 2014, a ampla maioria das atividades econômicas se manteve em expansão em ritmo ainda intenso, mas alguns segmentos produtivos passaram a apresentar forte retração, influenciando o resultado do agregado.

Assim, o VAB registrou incremento médio anual de apenas 0,9% nesse período. Dois são os fatores principais da forte desaceleração do crescimento do VAB: a queda abrupta na produção dos SIUPs, associada à retração de energia pela Usina Hidroelétrica (UHE) de Xingó, de 17,1% ao ano, e os primeiros estágios da crise na cadeia de produção da construção civil, com o estouro da bolha imobiliária e com a retração dos investimentos públicos em infraestrutura, impactando o nível da produção de da atividade de fabricação de cimento e de outras atividades correlatas.

Nesse momento, as atividades industriais, em conjunto, recuam, enquanto alguns segmentos do setor serviços continuam avançando, ganhando espaço na economia estadual. Cabe destacar o crescimento do segmento dos serviços de atividades profissionais e técnicas, que foi impulsionado pela instalação de call center, a continuidade do crescimento do subsetor de transporte e armazenagem e a acelerada expansão de serviços pessoais, anotadas no grupo de outros serviços.

 
 
2015-2016: instala-se a recessão

Finalmente, os anos de 2015 e 2016 são marcados pelo intenso recuo do nível de atividade, abrangendo quase todos os setores da economia estadual. Os efeitos da recessão nacional, da crise da Petrobras e do colapso da construção civil se aliam aos impactos da estiagem sobre a agricultura e sobre a geração de energia, contaminando o mercado de trabalho, as finanças públicas e puxando as atividades privadas dos segmentos de serviço e a administração pública para dentro da crise.

 
 
São esses movimentos ao longo do período analisado que causam as principais mudanças de participação dos setores e subsetores de atividade no total do Valor Adicionado Bruto da economia sergipana, com o incremento do peso da maioria das atividades de serviços e o forte recuo nas atividades industriais, particularmente nas indústrias extrativas e nos serviços industriais de utilidade pública.

 
 
Especificidade de Sergipe na crise

Cabe fazer um alerta. Os pesos acentuados da produção extrativa mineral e da geração de energia, atividades exercidas por grandes empresas com sede fora do estado, fazem com que parcela expressiva da riqueza gerada seja apropriada por não residentes, em forma de renda líquida de fatores externos.

Por essa razão, parte significativa da queda mais acentuada do PIB sergipano a partir de 2012, relativamente às médias nacional e regional, tem um caráter prioritariamente contábil, de redução do valor adicionado na geração de energia elétrica, sem implicações de maior monta sobre as demais atividades do estado e sobre as vidas das pessoas, com a exceção daquelas residentes nos municípios que têm no pagamento de royalties de geração de energia uma das principais fontes de receitas públicas.

Separar esse efeito é fundamental para entender a contundência da crise na economia estadual depois de 2014. No período em tela (2002-2016), o agrupamento de atividades de serviços industriais de utilidade públicas teve em Sergipe o pior desempenho estadual, com exceção do Amapá.

Distinto é o comportamento das atividades das cadeias produtivas do petróleo e gás e de fertilizantes que, por seus fortes efeitos para frente e para trás por meio dos fluxos de produção e de renda na economia estadual, foi decisivo tanto na geração de emprego e renda na etapa ascendente do ciclo, quanto no momento da crise, explicando em grande parte porque a economia sergipana se mostrou mais vulnerável do que na maioria dos demais estados.

A apresentação das principais transformações de cada um dos principais setores da economia sergipana, nos próximos artigos, propiciará um cenário mais próximo da vida real de suas transformações nas duas primeiras décadas do século XXI.

*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe
 


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
19/07
14:25

Sergipe no século XXI (3): A inserção no ciclo da economia nacional

Ricardo Lacerda

Após a euforia no consumo das famílias nos primeiros anos do Plano Real, a economia brasileira passou a andar de lado. Foram dois anos de desaceleração intensa do ritmo de crescimento, entre 1998 e 1999, na esteira da crise do balanço de pagamentos que culminou com o abandono do regime de âncora cambial. Nos anos seguintes, a economia brasileira alternou entre altas e baixas no ritmo de crescimento. O apagão de energia entre meados de 2001 e inicio de 2002 e a instabilidade política gerada pelo favoritismo do Partido dos Trabalhadores na campanha presidencial de 2002 foram fatores importantes nessa trajetória instável. A posse do novo governo, no início de 2003, sem contar com a confiança do mercado financeiro, manteve o ambiente de instabilidade por algum tempo.

O ciclo expansivo

Passado o período de maior incerteza, a economia brasileira deu início ao robusto ciclo expansivo que, no primeiro momento, foi impulsionado pelo crescimento acelerado das exportações, nos marcos do superciclo de valorização de commodities no mercado internacional, ao que se seguiu forte ampliação do poder de compra interno. 

Com o cenário externo favorável, instaurou-se um ciclo virtuoso que foi potencializado pelas políticas de valorização do salário mínimo, pela expansão do crédito às famílias e pelas políticas de transferências de renda que, em conjunto, fomentaram a expansão das vendas, o crescimento da produção e a formalização do mercado de trabalho, com fortes efeitos de retroalimentação. Diante da aceleração do crescimento da renda interna e das exportações, os investimentos em formação bruta de capital fixo não demoraram a responder. 

A continuidade do ciclo virtuoso, todavia, vai ser colocada à prova pela crise financeira internacional, que se seguiu ao estouro da bolha no mercado imobiliário norte-americano, em setembro de 2008, e revelou seus limites com os efeitos do esmorecimento do crescimento da economia chinesa sobre os preços de nossas principais commodities, a partir de 2013. 

Sob certo sentido, a etapa ascendente do ciclo econômico iniciado em 2004 pode ser pensada a partir de um modelo de crescimento de base exportadora em que os efeitos do crescimento do comércio exterior sobre a expansão do mercado interno são potencializados pelas políticas públicas de valorização dos salários de base, pelo crescente acesso das famílias ao crédito e pelas políticas de apoio à ampliação dos investimentos, tanto por meio da expansão do crédito subsidiado, quanto por meio de ampliação do gasto público. 

Diante das características do ciclo expansivo, marcado fortemente pelas políticas públicas de inclusão social, crescente formalização dos vínculos no mercado de trabalho e elevação real do salário mínimo, era inevitável que os estados das regiões de menor renda per capita e de maior incidência de pobreza fossem relativamente favorecidos, reduzindo, em maior ou menor grau, o hiato de desenvolvimento em relação aos estados das regiões mais ricas e industrializadas. Nesse período, as políticas sociais entraram definitivamente na agenda do país e passaram a ser um dos vetores estruturantes que balizaram o ciclo de crescimento. 

Sergipe no ciclo ascendente

A economia de Sergipe conheceu um período de aceleração do crescimento do PIB a partir de 2004 que se estendeu, grosso modo, até 2012, quando os efeitos combinados do estouro em todo país da bolha imobiliária sobre a construção civil e da estiagem sobre a safra agrícola são estatisticamente suficientes para desacelerarem o crescimento da economia estadual, ainda que a maioria das demais atividades permanecesse em expansão até 2014 ou 2015. 

A figura 1 mostra os desempenhos do PIB do Brasil, Nordeste e Sergipe no período 2002-2016.  Ao longo da maior parte do período ascendente do ciclo econômico, até pelo menos 2012, pelos motivos referidos anteriormente, o crescimento do PIB de Sergipe caminhou à frente das médias da região do Brasil e do Nordeste, enquanto a expansão do Nordeste manteve-se em ritmo superior à média nacional até 2016, no acumulado do período.

A Figura 2 apresenta a média móvel trienal do crescimento do PIB do Brasil, Nordeste e Sergipe, confirmando que, com a exceção da média móvel finalizada em 2008, ano da eclosão da crise financeira internacional, a economia sergipana manteve ritmo de expansão do PIB superior às médias da região Nordeste e do Brasil até 2011. A finalidade de utilizar a média móvel trienal é o de apreender a tendência da evolução do PIB, evitando que ocorrências em anos específicos tornem obscuro o movimento tendencial mais amplo. No caso do agregado Nordeste, a média móvel trienal manteve-se acima do agregado nacional até 2006, depois colou no crescimento do PIB nacional até 2012 e manteve-se em linha com o comportamento nacional, no período de sua desaceleração, em 2013 e 2014. Quando a economia brasileira passou a apresentar resultados negativos, em 2015 e 2016, o PIB da região Nordeste registrou resultados superiores ao agregado nacional na media trienal, ainda que no resultado específico do ano de 2016 a evolução do Nordeste tenha sido pior do que a nacional, antecipando os comportamentos relativos de 2017 e 2018.

Nos próximos artigos, examinaremos o comportamento de cada um dos principais setores de atividade da economia sergipana nas etapas de ascensão e de crise do ciclo econômico nacional.


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Redação
16/07
17:58

Sergipe no século XXI (2): A especialização estadual

Ricardo Lacerda
Professor da UFS

Em sequencia ao artigo da semana passada, que deu início à série que busca examinar a evolução da economia sergipana ao longo das duas primeiras décadas do século XXI, tratamos nessa oportunidade das especificidades da economia sergipana que foram determinantes de sua inserção ao longo do ciclo de ascensão e crise que marcou a economia brasileira nesse período.

Entendemos que um bom ponto de partida para analisar o desempenho da economia sergipana nas duas primeiras décadas do século XXI é observar a sua estrutura produtiva em termos da participação das atividades econômicas no Valor Adicionado Bruto (VAB) e compará-la com as médias da região Nordeste e do Brasil.

Nesse momento da exposição, observemos as participações das atividades econômicas no VAB tal como elas se apresentavam em 2002, antes dos efeitos do ciclo expansivo da economia nacional, iniciado em 2004, e dos impactos da prolongada estiagem, que remontam ao ano de 2012.

Extração mineral e geração de energia

Em 2002, o peso do setor agropecuário no VAB estadual era de 6,5%, similar ao da média do Brasil (6,4%), mas bem inferior ao da média regional, 10,0% (ver Tabela 1).

A participação do setor de serviços (61,4%), por sua vez, se situava cerca de seis pontos percentuais a menos do que às médias regional (67,1%) e nacional (67,2%). Essas participações inferiores nas atividades agropecuárias e de serviços não decorrem necessariamente do menor desenvolvimento relativo dessas duas atividades em Sergipe, mesmo que isso pudesse (ou não) ser fato. A explicação é principalmente de outra natureza; está associada basicamente ao fato de a atividade industrial apresentar naquele ano peso bem superior em Sergipe (32,1%) do que nos agregados regional (23,0%) e nacional (26,4%), cerca de nove e seis pontos percentuais, respectivamente. Como o peso da indústria de transformação na economia sergipana era, em 2002, o mesmo da média regional (9,7%) e bem inferior à média nacional (14,5%), a explicação se encontra nas participações de dois outros subsetores: as atividades extrativas minerais e os chamados Serviços Industriais de Utilidades Públicas (SIUP), nesse último caso, por conta do valor da produção da Usina Hidrelétrica de Xingó.

No caso das indústrias extrativas, em que se sobressaem a exploração de petróleo e gás natural, o seu peso no VAB de Sergipe alcançava 4,2%, em 2002, mais do que o dobro das participações dessas atividades nas médias do Nordeste (1,9%) e do Brasil (2,0%).

A presença dos serviços industriais de utilidade Pública (SIUP) na economia sergipana, com participação de 12,1% em 2002, era ainda mais diferenciada, superando em mais de três vezes a importância que o setor tem na economia regional (3,5%) e na do Brasil (3,4%).

São as participações extremamente elevadas desses subsetores na geração de riqueza de Sergipe que fazem com que, de um lado, o estado de Sergipe apresente índices de especialização relativos frente ao Nordeste e ao Brasil muito elevados nas duas atividades e, por outro lado, que o estado não tenha especialização relativa na maioria das atividades de serviços, com as exceções das atividades de serviços de saúde e educação privadas e da administração pública, nesse caso talvez como consequência da receita pública extraordinária gerada pelas atividades de exploração mineral (Ver as duas últimas colunas na Tabela 1).

O bônus e o ônus

Nesse sentido, é possível pensar as atividades de exploração mineral e de geração de energia elétrica como provedoras de um bônus para a renda estadual, o que colocou o estado acima da média da região Nordeste em termos de PIB per capita e renda per capita, na ampla maioria dos últimos vinte anos. Convém esclarecer que se trata apenas de uma hipótese.

Em grande parte, também, são os comportamentos desses dois segmentos que explicam os impactos diferenciados em Sergipe durante os movimentos ascendentes e descendentes da economia brasileira nas duas primeiras décadas do século XX, como examinaremos em artigos subsequentes. A redução nos últimos anos da atividade da Petrobras em nosso estado e a queda abrupta na geração de energia da Usina Hidrelétrica de Xingó, por meio de canais diferentes e com efeitos distintos, agravaram muito os impactos da crise nacional sobre a economia sergipana.


 


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Redação
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