04/03
19:01

Consumo e investimentos crescem e gastos do governo recuam

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A saída da economia brasileira do fundo do poço ao longo de 2017, depois de dois anos de retração no nível de atividade, tem sido arrastada e desbalanceada setorialmente. Do ponto de vista setorial, a supersafra agrícola resultou em incremento de 13% na produção do setor, recuperando com folga as perdas de 4,3% do ano anterior, causadas pelos efeitos da estiagem. 

O setor industrial apresentou o mesmo volume de produto do ano anterior, ou seja, crescimento zero, resultante do saldo do incremento da indústria de transformação, da extrativa mineral e dos serviços industriais de utilidade pública e da queda acentuada da construção civil (5%). O setor de serviços apresentou crescimento residual, de 0,3%. O PIB fechou o ano de 2017 com expansão de 1%. 

O incremento do PIB do 4º trimestre, na comparação com o 3º trimestre, ficou aquém do esperado, mas, quando são observadas em conjunto as evoluções dos componentes das despesas e dos produtos setoriais, há sinais robustos de que a economia deverá apresentar taxa de crescimento moderadamente elevada em 2018. Angustiante é a demora na recuperação do mercado de trabalho e o fato de que a retomada da construção civil ainda não surgiu no horizonte. 

O Gráfico 1 mostra as taxas de crescimento do PIB trimestral dos setores e subsetores econômicos em relação aos mesmos trimestres do ano anterior, em que fica explícita a aceleração do crescimento na ampla maioria das atividades econômicas. 

Com a exceção do setor agrícola, que teve um desempenho excepcional concentrado no 1º trimestre, os setores e subsetores de atividade econômica encerraram o 4º trimestre do ano com as taxas de crescimento em aceleração ou atenuando o ritmo de queda, como é o caso da atividade da construção civil. 




Dispêndio
Do ponto de vista do dispêndio, ainda que as exportações tenham sido importantes no crescimento econômico, a demanda doméstica apresentou maior relevância, particularmente os gastos das famílias com consumo. 

Como apresentado no Gráfico 2, a taxa de crescimento do consumo das famílias, na série que compara com os mesmos trimestres do ano anterior, manteve-se em aceleração ao longo do ano, ainda que os ganhos de aceleração tenham se atenuado na passagem do 3º para o 4º trimestre.  Ao finalizar 2017, o consumo trimestral das famílias estava rodando em um patamar 2,6% superior ao mesmo período do ano anterior. 

Ainda que bem menos importante no resultado do PIB do que o incremento do consumo, o desempenho dos investimentos foi mais impressivo. Depois de apresentar catorze taxas negativas na comparação com os mesmos trimestre do ano anterior, a Formação Bruta de capital Fixo (FBCF) voltou a apresentar incremento no 4º trimestre de 2017, nessa série que compara com o mesmo trimestre do ano anterior. 

Mesmo com a FBCF se situando em patamar extremamente baixo e ainda registrando queda no resultado anual, há sinais de que os investimentos na aquisição de máquinas, equipamentos e veículos estão sendo retomados a fim de atender necessidades setoriais, como respostas ao incremento do consumo.  Com isso, a Formação Bruta de Capital Fixo deverá apresentar crescimento em 2018, depois de quatro anos de retração. A outra perna da FBCF, os investimentos imobiliários e em obras públicas permaneceram em retração em 2017. 

Finalmente, cabe examinar o comportamento do consumo do governo. Como mostrado no Gráfico 2, esse componente manteve-se deprimido ao longo de todo o ano. Diante das regras estabelecidas pela Lei do Teto de Gastos, os dispêndios do governo central deverão ficar congelados por um longo período, o que significa que esse componente do dispêndio deverá continuar puxando para baixo a taxa de crescimento do PIB.

Do ponto de vista dos componentes da demanda agregada, a retomada FBCF é fundamental para acelerar crescimento do PIB em 2018, somando-se ao componente de consumo das famílias, dado que o saldo das vendas de bens e serviços com o exterior e os gastos do governo não deverão apresentar contribuição positiva no período.  




*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
25/02
15:53

O crescimento finalmente engrenou: indústria, varejo e serviços em 2017

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Os resultados de dezembro dos indicadores de nível de atividade foram, em geral, favoráveis. As atividades de serviço e a indústria geral surpreenderam positivamente.  Com a publicação dos indicadores setoriais pelo IBGE, o Banco Central do Brasil apresentou sua estimativa de crescimento da atividade econômica em 2017. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), uma aproximação do PIB, registrou crescimento de 1,04%, frente a recuos de 4,17%, em 2015, e de 4,05%, em 2016 (ver Figura A). 

O mais significativo é que a economia brasileira finalizou o ano de 2017 com o crescimento em aceleração, tanto quando se considera o IBC-BR do último trimestre em relação ao mesmo período de 2016 (linha contínua dupla), quanto na comparação em relação ao 3º trimestre de 2017 (linha pontilhada). A aceleração da velocidade de recuperação é captada também pela inclinação da curva que representa a série acumulada em doze meses, em relação a doze meses anteriores (linha contínua simples).
Salvo reviravolta inesperada, vai se consolidando a perspectiva de crescimento moderado para alto em 2018, alguma taxa entre 2,5% e 3%. Parece valer enfim o dito popular de que não há mal que nunca se acabe. 

Na estimativa do Banco Central, a economia brasileira fechou o último trimestre do ano rodando a uma velocidade de 2,56% em relação ao mesmo trimestre de 2016. É verdade que é um crescimento puxado pelo consumo das famílias, utilizando-se parcela da ampla capacidade produtiva tornada ociosa por uma recessão que fez o produto interno se retrair em 7,8% no acumulado de longos oito trimestres, referentes a 2015 e 2016. 

Para que o ritmo de crescimento corrente seja sustentável em um prazo mais largo de tempo é necessário que o investimento seja destravado, o que ainda não está devidamente assegurado. Do ponto de vista social, uma melhoria mais significativa somente será percebida quando a contratação de emprego formal começar a apresentar resultados mais robustos. 

Indústria e comércio
Do ponto de vista setorial, agricultura, indústria e comércio varejista apresentaram crescimentos acentuados em 2017, enquanto o volume de vendas do setor de serviços registrou retração de 2,84%, na comparação com 2016. Alguns indicadores sinalizam em um segundo momento uma possível reação da construção civil, mas não há ainda segurança de que a atividade vá apresentar crescimento em 2018, mesmo que as vendas do setor imobiliário venham a apresentar incremento significativo em relação ao ano anterior, porquanto os investimentos em infraestrutura estão deslanchando e os estoques de imóveis ainda se mantêm em patamar elevado.

A produção física da indústria geral, que agrega as atividades de transformação industrial e a extração mineral, cresceu 2,47% em 2017 e no último trimestre do ano registrou incremento de 4,9% em relação ao mesmo trimestre de 2016.

 A expansão da indústria geral vem abrangendo quase todos os subsetores de atividade. Como mostra a Figura B, a produção industrial apresentou uma trajetória de aceleração nas três séries consideradas, quais sejam, no acumulado de doze meses, na comparação com os mesmos trimestres do ano anterior, e o crescimento na margem, em relação ao trimestre imediatamente anterior, apesar de, nesse caso, ter registrado certa oscilação ao longo do ano.

O volume de vendas no comércio varejista encerrou 2017 com incremento de 2,02% (ver Figura 3). Impulsionado pela redução dos juros nominais e pelo aumento da ocupação, mesmo com vínculos informais, a expansão do ritmo de vendas no varejo foi bastante intensa e o volume de vendas do setor fechou o último trimestre do ano com incremento de 3,89% em relação ao mesmo período de 2016.

Serviços
Finalmente as atividades de serviços estão demorando mais a reagir. O volume de serviços recuou não apenas na comparação entre os anos fechados, como ainda registrava queda na comparação entre o último trimestre de 2017 e o mesmo período de 2016. A trajetória da curva dessa série, que compara com igual trimestre do ano anterior, indica que a atividade deverá começar a apresentar resultados positivos em 2018, à medida que o mercado de trabalho comece a mostrar resultados mais robustos.

O cenário favorável da economia mundial jogou papel decisivo no impulso que a economia brasileira no final d ano passado. Sim, o crescimento econômico parece ter começado a engrenar, ainda que ele venha se mostrando desequilibrado em termos setoriais e na sua distribuição regional, como também não há ainda segurança sobre o seu fôlego.




Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
04/02
16:08

Sergipe vai voltar a gerar empregos formais em 2018?

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Pesquisa do IBOPE tornada pública durante a semana passada constatou que apenas 6% da população acham que a economia brasileira está melhorando, apesar de as contas nacionais apontarem que o PIB se encontra em crescimento desde o primeiro trimestre de 2017. A principal causa do mal-estar, certamente, é a recuperação débil e desbalanceada do mercado de trabalho, com redução do emprego formal e forte incremento de vínculos precários, como emprego sem carteira de trabalho e ocupações por conta própria, como vêm mostrando os levantamentos da PNADC do IBGE.

O registro do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, apontou saldo negativo em 2017 na geração de empregos regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), com o fechamento de 20.832 vagas. O resultado ficou bem aquém do que era esperado pelas autoridades econômicas no início do ano passado, quando se projetava saldo positivo ao final do ano. A retração do emprego formal em 2017 foi bem menos acentuada do que nos dois anos anteriores, 1,54 milhão, em 2015, e 1,32 milhão, em 2016.

A evolução recente do mercado de trabalho e as perspectivas de aceleração do ritmo de crescimento do nível de atividade dão suporte a projeções de aumento relativamente robusto do emprego formal para 2018, com as simulações variando entre 700 mil até um milhão de novas vagas.

O saldo do emprego formal em 2017 também foi negativo em Sergipe, mas, como no Brasil, bem menos expressivo do que nos dois anos anteriores. Ao longo do ano foram fechadas 1.381 vagas formais no estado.

Mesmo considerando que a recuperação do mercado de trabalho na maioria dos estados da região Nordeste tem sido mais lenta e com alguma defasagem temporal, é razoável projetar um incremento entre três mil e cinco mil empregos formais em Sergipe ao longo de 2018.

Setores
Em comparação ao ano anterior, a variação no emprego formal foi relativamente melhor em 2017 em todos os principais setores, mesmo entre aqueles que ainda apresentaram saldo negativo (construção civil, indústria de transformação e extrativa mineral). As atividades de comércio e os chamados Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) registraram saldos positivos em 2017, frente a cortes de empregos em 2016 (ver Tabela).

Entre as principais atividades empregadoras a construção civil tem se revelado a de situação mais problemática; depois de cortar 5.561 empregos em 2016, eliminou 1.892 vagas em 2017 (ver Tabela).



Ponto de virada
A evolução do saldo de emprego formal no acumulado de doze meses, mostrada no gráfico, vem registrando melhoria relativa em ritmo acentuado desde o mês de março de 2017, à medida que os resultados mensais do ano foram se revelando melhores do que os dos meses correspondentes de 2016.

O gráfico mostra que a trajetória dessa série do saldo de emprego formal acumulado em doze meses inverteu naquele mês a tendência anterior de intensificação do corte de emprego iniciada ainda em outubro de 2015. O resultado de dezembro de 2017, nessa série, sinaliza se aproxima o momento em que a economia sergipana voltará a apresentar saldos positivos no acumulado de doze meses.

A reversão da tendência e a geração de saldos positivos crescentes ao longo do ano confirmam uma perspectiva de melhoria paulatina no mercado de trabalho no estado, acompanhando, com suas especificidades, o comportamento do país. O desafio de gerar empregos formais deverá permanecer em pauta por um período relativamente longo, no Brasil e em Sergipe.






*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/01
19:58

O mercado de trabalho do Nordeste demora mais a reagir – Parte 2

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Vimos no artigo da semana passada que os impactos a crise econômica sobre o mercado de trabalho foram muito mais intensos na região Nordeste do que nas demais regiões, ainda que eles tenham sido muito fortes em todo o território nacional. 

Em linhas gerais, o emprego formal despencou em todas as regiões, mas a queda no Nordeste foi mais intensa do que na maioria das demais regiões, enquanto a ocupação informal (emprego sem carteira assinada e ocupação por conta própria) compensou parcialmente a retração nas ocupações formais na média das demais regiões mas despencou na região Nordeste. 

Não tenho conhecimento de explicação satisfatória das razões pelas quais as ocupações informais no Nordeste apresentaram trajetória diversa da maioria das demais regiões, ou mesmo por que o emprego formal sofreu queda tão mais acentuada na região. 

Procurando avançar na compreensão do que é específico na crise do mercado de trabalho no Nordeste examinaremos a evolução da ocupação nos últimos três anos segundo os grupos de atividades. Em artigos subsequentes procuraremos outros recortes que possam auxiliar na resposta às questões postas no parágrafo anterior. 

Queda generalizada
Na comparação entre a evolução da ocupação do ponto de vista setorial saltam aos olhos importantes diferenças entre a média do Brasil e o Nordeste.  Entre a média de quatro trimestres encerrados em setembro de 2017 e a média de quatro trimestres de 2014, o Nordeste participou com cerca de quatro em cada cinco ocupações perdidas. Diferentemente da média do país, em que o número de pessoas ocupadas caiu em quatro dos dez grupos de atividades considerados, na região Nordeste o pessoal ocupado se retraiu em sete grupos de atividades, grau de disseminação que não se repetiu em nenhuma outra região do país (Ver Tabela 1).

Um outro aspecto de caráter geral é que nessa comparação a taxa de evolução do número de pessoas ocupadas na região Nordeste foi pior do que a do país em todos os grupos de atividade, com uma única exceção, na indústria geral, agrupamento que reúne a indústria de transformação e a extração mineral (ver última coluna da Tabela 1). 






Grupos de atividade
Os maiores diferenciais de crescimento desfavoráveis ao Nordeste, entre as atividades que mais desocuparam, ocorreram na agricultura, construção civil e no amplo segmento de serviços que apresentado no grupamento 5 da tabela. 
 
A partir desses dados, é razoável concentrar a explicação do desempenho pior do mercado de trabalho no Nordeste nesses agrupamentos, ainda que a retração tenha sido generalizada, sintoma que a crise no mercado de trabalho da região foi contaminando setor a setor. 

A seca e a crise canavieira foram devastadoras para a ocupação regional: a retração na ocupação em atividades agrícolas regionais atingiu o contingente de 863 mil pessoas. Mas o desempenho na construção civil, nos segmentos de comércio e serviços, e, mesmo que  acompanhando a média do Brasil, na indústria geral também concorreram fortemente para quadro que se estabeleceu no mercado de trabalho da região.

Chama atenção como a crise nas finanças públicas (e a consequente corrida para a aposentadoria) tem impacto muito superior na ocupação do Nordeste do que na maioria das demais regiões.  

Em 2017
Ao se comparar o 3º trimestre de 2017 com o mesmo período de 2016, constata-se que, em um número expressivo de atividades, todas integrantes ao setor terciário, o contingente de pessoas ocupadas também registrou crescimento na região Nordeste. Todavia, mesmo nessa comparação, a evolução na região permanece inferior à média do país em quase todos os grupos de atividades econômicas (última coluna da Tabela 2).  

Seca, queda mais acentuada na construção civil e comércio e serviços públicos e privados em retração traçam um cenário muito crítico no mercado de trabalho do Nordeste nos últimos três anos, situação que também vem se revelando de reversão bem mais lenta do que na média do país. 






*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/01
17:22

O mercado de trabalho do Nordeste demora mais a reagir

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe 

A crise no mercado de trabalho nos últimos três anos vem sendo muito mais dura nas regiões Nordeste e Norte e menos acentuada nas regiões Sul e Centro-Oeste. A região Sudeste se situa em uma posição intermediária, com a ocupação total caindo menos do que na média brasileira, mas com o desempenho dos empregos formais acompanhando a média do país. De fato, a evolução no mercado do trabalho no Nordeste tem sido muito pior do que na região Norte, com a ocupação total encolhendo em velocidade mais do que duas vezes superior. 

Não tenho conhecimento de que tenha sido elaborada uma explicação robusta das causas pelas quais os mercados de trabalho das regiões mais pobres têm sofrido muito mais do que os das regiões mais estruturadas economicamente. Em linhas bem gerais, o que se percebe é que o comportamento do mercado de trabalho do Nordeste na crise atual pode ser sintetizado da seguinte maneira: as ocupações formais do Nordeste se retraíram em ritmo bem superior aos das demais regiões, com exceção da região Norte, e as ocupações informais também despencaram, diferentemente da maioria das demais regiões em que ampla parcela das pessoas buscou refúgio em ocupações como empregos sem carteira assinada e por conta própria. 

A tabela apresentada resume o comportamento das ocupações total, do emprego com e sem carteira assinada e das ocupações por conta própria no agregado do Brasil e nas regiões Nordeste e Sudeste, a partir de comparações entre alguns períodos. 

Quatro em cada cinco 
Na comparação entre a média dos quatro trimestres de 2014 e a média entre o último trimestre de 2016 e 3º trimestre de 2017, o Brasil apresentou retração de 1,93 milhão de pessoas ocupadas. Desse contingente, mais de quatro em cada cinco pessoas (82%), residiam no Nordeste. 

O pessoal ocupado na região Nordeste encolheu em 1,58 milhão de pessoas, frente a redução em 214 mil pessoas na região Sudeste, lembrando que a última região participava com 44% do pessoal ocupado no país em 2014, frente a 25% de participação da região Nordeste. Na comparação entre esses períodos, a ocupação total na região Nordeste recuou 7%, frente à média de 2,1% no Brasil e de 0,5% na região Sudeste (ver 1ª coluna da Tabela).  

O número de pessoas ocupadas em empregos formais no setor privado no Nordeste registrou retração muito acentuada (743 mil pessoas), inferior em termos absolutos à queda na região mais industrializada (1,57 milhão), mas bem mais intensa em termos relativos, 12,5% e 8,2%, respectivamente. A média de recuo no país foi de 8,5%.

Além da retração mais acentuada no emprego formal, a região Nordeste não conseguiu, nesses três anos de crise no mercado de trabalho, gerar ocupações alternativas, com vínculos informais, à diferença de todas as demais regiões. 

Assim, os empregos no setor privado sem carteira assinada no Nordeste recuaram em 3,7% na comparação entre a média dos quatro trimestres de 2014 e a média dos quatro trimestres encerrados no 3º trimestre de 2017. Nessa comparação, os empregos sem carteira no setor privado aumentaram 1,7% no país e 5,1% na região Sudeste. Apenas a região Centro-Oeste acompanhou o Nordeste na redução dos empregos sem carteira de trabalho, ainda assim registrando taxa bem menos acentuada (-0,9%). 

O comportamento divergente da região Nordeste na geração de ocupações informais foi ainda mais acentuado nas ocupações por conta própria, que recuaram 5,9% no Nordeste, e cresceram 13,2% na região Sudeste. Em todas as demais regiões as ocupações por conta própria apresentaram incrementos importantes, ainda que bem inferiores ao apresentado na região Sudeste. 

Retardo
Nos dois últimos trimestres com dados disponíveis, 2º e 3º trimestres de 2017, a ocupação total aumentou no Nordeste, em parte por conta de fatores sazonais relacionados ao início da safra da cana-de-açúcar ou às ocupações no comércio, na indústria e nos serviços relacionadas às vendas de final de ano. 

Na comparação com os mesmos trimestres do ano anterior, o Nordeste foi a única região em que o pessoa ocupado continuou recuando no 3º trimestre de 2017, mas é provável que as taxas tenham invertido para positivas a partir do último trimestre de 2017 (ver última coluna da tabela). 

Nessa comparação que reflete o comportamento no período mais recente, a taxa de retração do emprego com carteira assinada permanece mais acentuada no Nordeste do que na média das demais regiões e os vínculos informais ainda não começaram a reagir. Tanto em relação ao mesmo trimestre do ano anterior quanto em relação ao trimestre imediatamente anterior, a ocupação por conta própria no Nordeste continuou recuando no 3º trimestre de 2017, enquanto o emprego sem carteira assinada apresentou certo incremento na margem, mas continua recuando na comparação com o mesmo trimestre anterior.   

A deterioração mais acentuada e o retardo na recuperação no mercado de trabalho no Nordeste explicam uma perda de quase 1% na sua participação na massa da renda nacional de trabalho. 



*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/01
12:35

Perspectivas do Banco Mundial para 2018

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A edição de janeiro de 2018 do relatório Perspectivas Econômicas Globais, do Banco Mundial, apresenta panorama relativamente otimista do cenário global para 2018 e 2019. Depois de constatar que, em 2017, o crescimento do nível de atividade se acelerou entre as principais economias avançadas e mercados emergentes, o relatório projeta a continuidade da expansão em ritmo moderado no ano corrente e no próximo ano. 

A recuperação da economia em andamento da economia global teria sido ajudada pelo incremento dos investimentos internacionais e pela expansão do comércio mundial suportados pelas condições financeiras benignas, em grande parte asseguradas pelas políticas monetárias acomodatícias dos principais bancos centrais. A recuperação parcial nos preços das commodities, após o colapso anterior nas cotações, também favoreceu o crescimento das economias emergentes.

O relatório assinala, todavia, que o incremento da produtividade da economia mundial encontra-se em desaceleração,o que limitaria o potencial de crescimento de boa parte dos países em um horizonte mais largo de tempo, depois que a capacidade produtiva tornada ociosa no período recessivo venha a ser ocupada. E reconhece que a economia mundial, em conjunto, e, particularmente, as economias emergentes, não retomaram o potencial de crescimento do período anterior à crise financeira de 2008.

Potencial de crescimento
Quase dez anos depois que o estouro da bolha imobiliária na economia norte-americana provocou reações em cadeia, demarcando o início da grande recessão na economia mundial, que se disseminou entre economias avançadas e mercados emergentes, o crescimento na maioria dos países e grupos de países não retornou ao ritmo anterior.

Frente ao crescimento da média anual 2005-2007 de 5,3% na economia mundial, a média de 2015-2017 deve ter se situado, na estimativa do Fundo Monetário Internacional, em 3,4% (ver Gráfico).

As economias avançadas cresceram 2,8%, no primeiro período, e devem ter crescido 2,0%, no segundo período. A América Latina, que havia crescido 5,3% ao ano entre 2005 e 2007, encerrou 2017 com média móvel trienal de 0,1%. É fato que o Brasil concorreu para empurrar para baixo a média trienal do subcontinente, mas todas as principais economias das regiões apresentaram média anual no triênio 2015-2017 muito abaixo da média anual 2005-2007. 

Perspectivas regionais
A estimativa do Banco Mundial no relatório Panorama Econômico Mundial, de janeiro de 2018, é de que a América Latina deve ter apresentado crescimento de 1,0% em 2017, devendo acelerar para 2,0% em 2018, taxa quase idênticas às previstas para a economia brasileira para o período, 0,9% e 2,0%, respectivamente. Em 2019 e 2020, em projeções que não dão para se fiar muito, a economia brasileira deverá acelerar o crescimento, segundo o relatório, para 2,3% e 2,5%.
 
Diferentemente das autoridades brasileiras, o organismo internacional não demonstra euforia sobre as perspectivas de crescimento do país em 2018  e anos seguintes. O fato alvissareiro é que a edição de janeiro do relatório do Banco Mundial reviu para cima, em relação à publicação anterior, os números do crescimento para o Brasil de 2017 e 2018. 

No capítulo dedicado às perspectivas regionais, o relatório constata a recuperação do nível de atividade na América latina e Caribe em 2017, depois de dois anos consecutivos de retração. E estima que o crescimento poderá se acelerar até 2022, à medida em que os países exportadores de commodities, marca da sub-região, continuem a melhorar. 

Fontes do crescimento e ameaças
O crescimento da América Latina em 2017 foi impulsionado pelo incremento do consumo privado, enquanto a recuperação do investimento vem ocorrendo em ritmo muito lento. As fortes restrições fiscais decorrentes do fim do ciclo anterior de valorização de commodities limitam a contribuição dos investimentos públicos para acelerar o crescimento econômico.

O risco mais acentuado de que esse cenário de melhoria moderada não se confirme decorreria de contaminação na sub-região de uma piora nas condições no mercado financeiro internacional e dos efeitos da ascensão do protecionismo comercial norte-americano.

O relatório prevê que algumas forças que impulsionaram o crescimento da América Latina perderão impulso nos próximos anos, como os ganhos nos preços das principais commodities e as desacelerações do crescimento da China e dos Estados Unidos projetadas para 2019 e 2020. Daí que a continuidade da aceleração do crescimento na América Latina deverá ser suportado pelo fortalecimento do consumo interno e dos investimentos em infraestrutura, em parceria com o setor privado.
 

Agenda das reformas
A contrapartida de tal diagnóstico é a usual recomendação dos organismos multilaterais de que os países promovam reformas que possam atuar sobre os fatores de oferta aos quais são atribuídos o potencial de crescimento econômico, como a ampliação do capital físico e humano, a elevação da taxa de atividade da força de trabalho e melhoria no funcionamento das instituições. 

Para os países em desenvolvimento com problemas fiscais, as propostas de reformas se estendem para a recomendação de contenção dos gastos públicos, revisão de gastos com funcionalismo, privatização de empresas e mudanças em regimes previdenciários. Como dito, nada além da cartilha convencional. Para lustrar o relatório, o Banco Mundial não deixa de mencionar a importância de reduzir as desigualdades de rendas vigentes e compartilhar de forma justa socialmente os custos dos ajustes.

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
02/01
10:02

Tudo depende do mercado de trabalho

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Enunciada como no título a afirmativa tem muito de circular, mas cumpre o papel de evidenciar como a evolução recente do mercado de trabalho no Brasil tem sido titubeante, sendo ao mesmo tempo sintoma ecausa da debilidade da retomada de crescimento nessa transição para 2018. 

A recuperação do mercado de trabalho no segundo semestre de 2017 se revelou bem menos robusta do que o governo federal anunciava. De triste memória pela emissão da portaria que restringia a fiscalização de trabalho escravo, o agora ex-ministro do trabalho se despediu do cargo com a blague de que serão criados 1,8 milhão de empregos em 2018.  A piada de mau gosto foi dita no mesmo dia em que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Previdência Social, informou o corte de 12.292 empregos formais. 

A queda do emprego formal registrada pelo CAGED foi corroborada pelas últimas edições mensais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar contínua – (PNADc). O contingente de trabalhadores do setor privado com carteira de trabalho assinada encolheu em 194 mil na comparação entre o trimestre móvel setembro-novembro de 2017 e junho-agosto de 2017, depois de já ter caído nos dois trimestres móveis anteriores (ver Gráfico).  

Mesmo com a propalada recuperação do emprego, o ano de 2017 vai se encerrando com quase um milhão a menos de empregados com carteira de trabalho no setor privado, na comparação entre o trimestre setembro-novembro de 2017 e o mesmo período do ano anterior. Contabiliza-se,nessa comparação, queda de simplesmente 857 mil empregos formais no setor privado, com o agravante de que a curva de redução desse tipo de vínculo não dá demonstração de esfriar já por quatro edições mensais da PNADc. 

Massa de rendimentos
Apesar disso, a economia se move. As pessoas têm buscado alternativa de sobrevivência, se inserindo no mercado de trabalho como é possível, em geral, como empregado sem carteira de trabalho, como trabalhador doméstico, como empregador, ou como trabalhador por conta própria (ver Gráfico).  

No trimestre setembro-novembro de 2017 havia 888 mil pessoas ocupadas a mais, sob qualquer de vínculo, do que no trimestre junho-agosto, e é isso que tem movido a economia, mesmo que muito lentamente. Com mais pessoas ocupadas, mesmo com vínculos precários, a soma dos rendimentos do trabalho tem crescido e ajudado a economia se recuperar. 

Desde o segundo trimestre do ano que a massa de rendimento real de todos os trabalhos vem apresentando crescimento, na comparação com os trimestres móveis anteriores, e chegamos ao trimestre setembro-novembro com a massa de rendimentos reais de todos trabalhos registrando incremento de 4,5% em relação ao mesmo período de 2016. 

É esse incremento da renda da população que tem impulsionado a economia, por meio do aumento do consumo das famílias. A expectativa de retomada do crescimento econômico está assentada nessa evolução do poder de compra das famílias, decorrente do incremento da ocupaçãoe da redução da inflação. 

Para 2018, o mais recente relatório trimestral de inflação, do Banco Central do Brasil, projeta incremento de 3% do consumo das famílias, enquanto o consumo do governo deverá evoluir bem abaixo do crescimento do PIB. O consumo das famílias, praticamente sozinho, deverá sustentar a expansão do PIB, com alguma contribuição do incremento dos investimentos. 

Trôpega
Nem mesmo é possível atribuir a precarização do vínculo no mercado de trabalho à recente reforma trabalhista, cujos efeitos em termos de geração de emprego ainda são uma grande incógnita. A precarização das relações trabalhistas é fruto da prostração profunda em que a economia se encontra desde 2015. 

É possível que, em um segundo momento, o emprego formal no setor privado comece a reagir, mas a recuperação trôpega do mercado de trabalho nesse final de 2017 revela os limites do ajuste executado pela atual equipe econômica.


Fonte: IBGE.PNADc.

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe
 


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/12
15:57

Perspectivas para 2018 e mais além

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe 

Do ponto de vista do ciclo de negócios, o ano de 2017 representou o ponto de inflexão da trajetória descendente para uma retomada do nível de atividade. Depois de recuar 3,5% em 2015 e em 2016, acumulando retração de 6,9% nos dois anos, a economia deverá crescer um pouco menos de 1%, em 2017, e pouco mais de 2,5% em 2018 (ver Gráfico). 

É uma retomada em ritmo modesto, diante da intensidade da queda.  O PIB per capita demorará alguns anos para atingir o pico de 2013. Serão nove anos, até 2022, para retornar ao mesmo patamar. Apesar do ritmo vacilante, a economia voltará a crescer e o mercado de trabalho deverá apresentar melhorias paulatinamente. Há, todavia, outras questões mais preocupantes sobre o futuro do Brasil. 

O ano de 2017 representou também um outro tipo de transição, depois do ciclo de crescimento com forte inclusão social de 2004-2014, que foi oportunizado, é verdade, pelo cenário externo favorável, mas que foi movido pelo projeto de consolidar em patamares mais elevados as promessas de construção de estado de bem-estar inscritas na constituição cidadã de 1988. 2017 significou também o início do desmonte progressivo do estado de bem-estar social.

2008
A atual recessão remete a explosão da bolha imobiliária norte-americana, em 2008, que se desdobrou na crise europeia de 2011, e alcançou os países ditos de mercados emergentes, em 2013, com a o fim do longo ciclo de valorização de commodities.

A reversão do cenário na economia mundial, como não poderia deixar de ser, foi impactante, provocando um vendaval político que derrubou, um a um, os partidos e coalizões políticas então no poder, tanto no mundo industrializado, como entre os países periféricos. 

Assim como as crises cambiais dos anos noventa haviam levado de roldão os governos de orientação neoliberal, que não entregaram à população a melhoria de bem-estar prometida pela integração à nova ordem mundial, a contaminação pela crise financeira internacional induziu ao encerramento do ciclo de governos de matizes populares e desenvolvimentistas na América Latina.

Da crise econômica à crise política

A presidente Dilma se defrontou com o período de reversão do cenário internacional favorável aos países emergentes. Depois do levante das ruas em 2013, as forças políticas conservadoras e os mercadistas, não são a mesma coisa, perceberam a oportunidade de retomar o poder. E a presidente Dilma cometeu muitos erros quando percebeu o cerco político se fechando à medida que a economia perdia empuxe. 

Repetindo o voluntarismo de outras épocas, a presidente Dilma forçou muito a mão para estimular o nível de atividade e a economia não respondeu, o que gerou fortes impactos fiscais. Além de ter cometido erros incompreensíveis, como ter promovido desonerações generalizadas para setores de atividade e ter permitido por período demasiadamente longo a defasagem dos preços dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica. Quando o nível de atividade despencou em 2015 e as receitas desabaram, a situação fiscal brasileira fugiu de controle.


O ajuste e as reformas

Quando a recessão se instalou, os mercadistas perceberam a oportunidade que tinham pela frente e se associaram aos setores conservadores e de extrema direita em uma aliança estratégica, com o propósito de impingir retrocessos às conquistas sociais pactuadas na constituição cidadã. Se os setores de extrema direita têm uma pauta conservadora e mesquinha e algumas vertentes chegam a propagar uma agenda obscurantista, anticientífica e homofóbica, a ameaça real à ao estado de bem-estar social não vêm deles e sim dos setores mercadistas. 

A coluna vertebral das reformas é o rígido teto de gastos, que engessa as políticas de ajuste e impõe uma redução de dimensões inéditas do tamanho do estado como proporção do PIB em um horizonte de vinte anos. 

Para cumprir o congelamento dos gastos estabelecido em lei estão sendo adotadas “reformas” em série que visam ao fim e ao cabo promover o encolhimento do estado nacional: estatais estão sendo vendidas a preço de banana e as riquezas minerais estão sendo entregues a investidores internacionais, assim como extensas terras agrícolas. Essa coalizão que atualmente comanda a política nacional, liderada pelos mercadistas, vai dizimar o que resta de indústria nacional e de projeto nacional de desenvolvimento. E esses setores foram hábeis em manipular o discurso contra corrupção em favor dos seus propósitos. 

Com a profundidade da crise econômica que atingiu o país, não se enganem, a agenda do ajuste fiscal se impôs. Não há como contornar esse tema.  Nem nacionalmente, nem localmente. A questão é como fazê-lo de modo inteligente, para reduzir o sofrimento da população, e como distribuir o seu ônus, sem comprar o pacote pronto das reformas liberais. Em cenário tão adverso politicamente, os setores populares têm como desafio apresentar uma proposta coerente e consistente de ajuste fiscal. 

Fonte: IBGE, CNT 2003 a 2016. BCB. Expectativa de mercado, 15/12/2017

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
Primeira « Anterior « 1 2 3 4 5 6 7 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos