03/12
20:15

RICARDO LACERDA - A sofrida recuperação econômica

Ricardo Lacerda*

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentou diagnóstico da situação atual e perspectivas para os próximos anos muito duros para a economia mundial, em face ao agravamento da instabilidade da zona do euro. Na versão preliminar do segundo relatório anual sobre as perspectivas econômicas, a instituição inicia o documento assinalando que “após cinco anos de crise, a economia mundial está se enfraquecendo novamente. No presente ano, não estamos diante de um padrão diferente”.

Para a OCDE, os sinais de recuperação sofreram abrandamento e o risco de uma nova contração
na economia mundial, o chamado duplo mergulho, não pode ser descartado. A economia da zona do euro permanece em recessão e a economia americana, ainda que a recuperação esteja em curso, apresenta desempenho abaixo do esperado, com fortes implicações negativas para as economias ditas emergentes.

Mesmo apontando uma diversidade de causas do enfraquecimento da recuperação da economia
mundial, a instituição não titubeia sobre o vetor chave da piora do cenário: a nova queda na confiança em relação às perspectivas da economia mundial.

Para a OCDE, a desaceleração no crescimento nas economias emergentes deve ser atribuída
parcialmente a fatores domésticos e parcialmente aos efeitos induzidos pela recessão europeia
sobre o comércio externo desses países e sobre a deterioração das expectativas.

Projeções

Ao final de 2012, economia da zona do euro deverá estar rodando a -1,3% anualizados,
a economia americana estará apresentando o crescimento pífio de 1,2% e o conjunto das
economias avançadas que formam a OCDE, de 0,5%. Nos próximos anos, as economias
avançadas, além de fortemente sujeitas a instabilidades, deverão apresentar recuperação em
ritmo modesto, de tal forma que, para o final de 2013, o crescimento trimestral anualizado
está estimado em apenas 1,2% para zona de euro e de 2,6% para a economia americana (ver
Gráfico). Com os dados disponíveis atualmente, as projeções para 2014, melhores do que as
de 2013, não são muito alentadoras para zona de euro, ainda que sejam mais robustas para a
economia americana.

Fonte: OCDE- Economic Outlook. Volume 2012/2

Recuperação sofrida

Frente a condições externas tão desfavoráveis, a recuperação do nível de atividade da economia
brasileira tem sido sofrida, apresentando resultados reiteradamente abaixo das expectativas,
tanto das autoridades econômicas, quanto do mercado. O resultado do PIB do 3º trimestre,
anunciado na sexta-feira passada, novamente frustrou mercado e governo. Quando se esperava
crescimento trimestral do PIB de 1%, na série sem efeitos sazonais, o aumento se limitou a
0,6%, o que equivale a uma revisão do crescimento anualizado de 4% para 2,4%.

Em termos setoriais, no trimestre, o crescimento foi mais pujante na agropecuária e no setor
industrial, em parte por conta da base de comparação, muito baixa em ambos os segmentos, em
parte por conta dos fortes estímulos para a atividade industrial.

A grande surpresa foi o crescimento zero do setor de serviços, que jogou para baixo a taxa de
expansão do PIB trimestral. O resultado médio do setor serviços foi fortemente influenciado
pelo recuo de 5,6% do setor financeiro, às voltas com o aumento da inadimplência e a redução
nas taxas de juros.

A expansão da atividade industrial foi especialmente bem vinda, mostrando que as medidas
de estímulos para o setor começam a dar resultados. Em termos das variáveis da demanda, o
consumo das famílias voltou a apresentar taxas de expansão acima de 3%, enquanto a taxa de
investimentos continuou declinando (ver Gráfico 2).

Apesar de sofrida, com números inferiores ao projetados, a recuperação da economia brasileira
se encontra em pleno curso e deverá se acelerar nos próximos trimestres. Depois de quatro
períodos de crescimento muito baixo, o PIB brasileiro mostrou sinais claros de recuperação, o
que deve marcar o início de um ciclo expansivo mais vigoroso. A OCDE avalia que, em 2013, o
crescimento da economia brasileira deverá atingir 4%, e, em 2014, de 4,1%.

A série de quatro trimestres de crescimento anualizado abaixo ou igual a 1% provocou uma
série de efeitos negativos no sistema econômico, desde o abalo na confiança das famílias e
das empresas, a perdas importantes nas finanças da união, estados e municípios, e começava
a atingir a capacidade de geração de novos empregos. Com a confirmação, nos próximos

trimestres, da recuperação do nível de atividade, como os indicadores atuais apontam, lenta e
progressivamente, deverá ser restabelecida uma situação de maior confiança e de melhoria da
situação econômica geral.

Fonte: IBGE- Contas Trimestrais
 
*Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/
 


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
14/10
18:08

RICARDO LACERDA - Novas projeções para 2012 e 2013

Ricardo Lacerda - Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu na semana que passou as projeções para a economia mundial em 2012 e 2013. A instituição constatou a lentidão da recuperação da economia norte-americana, a instabilidade de sua situação fiscal e as indefinições em relação a essa questão para 2013. Revelou ainda preocupações com as finanças do sistema bancário e os riscos de fuga de capitais em países na Europa e indicou que o agravamento recente do cenário europeu deverá contaminar a saúde financeira de economias emergentes. Em conjunto, apresentou um quadro de deterioração em relação a projeções feitas em relatórios anteriores para 2012, sem perspectivas de melhorias expressivas para 2013.

Surpreendentemente, considerando a postura adotada pela instituição nas crises que atingiram o terceiro mundo nos anos oitenta e noventa, o FMI tem observado que os países em posições mais críticas hoje enfrentarão enormes dificuldades para cumprir os compromissos de saneamento fiscal se medidas para reanimar suas economias não forem implementadas.

Em relação ao Brasil, especificamente, o FMI alertou, no relatório de estabilidade financeira, para os riscos de o elevado endividamento comprometer a capacidade de pagamento das famílias caso os desdobramentos da crise na Europa impactem negativamente o mercado de trabalho e os rendimentos internos. Reconhece, todavia, que o país não corre os mesmos riscos de outros países ditos emergentes no que tange à fragilidade das contas externas.

Projeções

A nova projeção do FMI é de que a economia mundial deverá crescer 3,3%, em 2012, e 3,6%, em 2013. Apesar da desaceleração geral das taxas de crescimento nos últimos dois anos, a China e outros países emergentes continuarão empurrando para cima a média mundial enquanto as economias avançadas, muito especialmente as dos países da endividados da Zona do Euro, a puxarão para baixo.

O relatório da instituição sobre as perspectivas da economia mundial, definitivamente, não formula cenário alvissareiro. Acrescente-se que na semana anterior o economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard, concedeu entrevista prognosticando dez anos de dificuldades para a economia mundial, a contar de 2007.

O exame do gráfico apresentado, a seguir, não deixa dúvida a respeito desse segundo mergulho que tira o fôlego da economia mundial, após o ensaio de recuperação em 2010. Nos últimos dois anos, os principais países e grupos de países registraram trajetórias acentuamente descendentes, com a notória exceção da economia norte-americana que manteve relativamente estáveis as taxas anuais de crescimento, adiando as tão aguardadas retomadas do ritmo de atividade e de geração de emprego.

A recaída da economia dos países avançados fez despencar a taxa de expansão do volume do comércio mundial que, depois de crescer 12,6% em 2010, registrou 5,8% em 2011, e deve se limitar a 3,2% em 2012. Esse cenário restritivo estimulou a adoção de novas medidas de defesas dos mercados internos, o que somente agravou as perspectivas do comércio mundial. Países emergentes como a China e o Brasil viram-se constrangidos a buscar no mercado interno os vetores de expansão de suas economias.

Fonte: FMI. WEO, outubro de 2012.

Brasil

O FMI reviu a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2012 para 1,5%, frente aos 2,5% esperados na edição anterior do relatório. Nesse último trimestre do ano, a economia brasileira já deve estar operando com taxas de crescimento anualizadas de 4%, patamar que também se projeta para o ano de 2013, ver Gráfico.

Há uma evidente má vontade de parte dos analistas quando finge desconhecer as restrições que a deterioração do cenário externo impõe ao Brasil, atribuindo o ritmo de crescimento pífio dos últimos dois anos a limitações do potencial de expansão do PIB derivadas da estagnação da produtividade e da reduzida taxa de poupança interna.

O crescimento brasileiro foi atropelado nesses dois últimos anos pela abrupta reversão do cenário externo, em um momento em que eram adotadas internamente medidas restritivas aos excessos de 2010. Desde meados de 2011, todo um redesenho da política vem sendo implementado para conjugar o reaquecimento da demanda, a fim de reverter o pessimismo que se disseminava, e preparar as forças da produção para crescer em meio a um cenário externo instável e restritivo.

 

 


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Por Eugênio Nascimento
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