08/10
21:24

O emprego formal começa a reagir lentamente no Nordeste

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe

Desde o mês de abril o emprego celetista vem paulatinamente reagindo na região Nordeste. Ainda que no acumulado do ano, até agosto, o saldo se mantenha negativo, já são cinco meses contínuos de geração de emprego (ver Gráfico). O mais importante é que a geração de emprego formal na região Nordeste, mês a mês, vem se disseminando em um maior número de setores e abrange todos os estados, com a exceção de Alagoas. É provável que a geração de emprego formal da região Nordeste feche o ano de 2017 com saldo negativo, mas no segundo semestre ele deverá alcançar resultado positivo. Mesmo o estado de Alagoas deverá apresentar geração líquida de emprego no consolidado do segundo semestre, à medida que a contratação no setor sucroalcooleiro se intensifique.

É importante assinalar que o ritmo da retomada do emprego formal na região Nordeste é muito modesto e levará muito tempo para recompor os cerca de 550 mil empregos formais perdidos desde o início de 2015, dentre os quais, mais de 200 mil concentrados na construção civil. 

Agosto
No mês de agosto, a região Nordeste registrou saldo líquido de 19.964 novos empregos. O salto de contratação em relação ao mês anterior (8.725) tem explicação principalmente sazonal, decorrente do inicio da safra da cana-de-açúcar em alguns estados, que se traduzem em expansão do emprego na agropecuária, indústria química e indústria de alimentos (ver Tabela).  

Outros setores de atividade também apresentaram volumes de contratações dignos de destaque, como a construção civil, o segmento de serviços que abrange comércio de imóveis e serviços profissionais, e os segmentos de saúde e de serviços médicos. Cabe registrar que a recuperação da contratação na construção em agosto e julho, muito modesta frente ao acúmulo do corte de emprego no setor, não repercutiu na ocupação no setor de minerais não metálicos, cuja principal atividade é a fabricação de cimento,  que eliminou 508 empregos formais em agosto (ver Tabela). A ocupação formal em outra atividade associada à construção civil, a fabricação de madeira e móveis, se manteve praticamente estável em agosto (-3), indicador que o subsetor pode interromper nos próximos meses a longa trajetória de corte de emprego formal, iniciada ainda no final de 2014. 

Também por fatores principalmente sazonais, o comércio e o turismo apresentaram os piores desempenhos entre as atividades no mês de agosto.  O subsetor de transporte e comunicações continuou eliminando um número expressivo de vagas.

 
Trimestre junho-agosto
A tabela apresentada traz uma perspectiva sintética do comportamento do emprego formal no trimestre junho-agosto e no acumulado do ano. Estão assinaladas as células com saldo positivo na geração do emprego mês a mês e no acumulado dos períodos. 

Enquanto no mês de junho, doze subsetores /setores de atividade eliminaram postos de trabalho e outros trezes apresentaram saldo líquido de contratação positivo, em agosto nove subsetores/setores cortaram emprego e dezesseis contrataram. 

No acumulado do trimestre junho-agosto foram criados 34.110 empregos formais na região. O aspecto sazonal ligado à safra da cana teve grande peso nesse volume de contratação. 

Indústria de transformação e serviços
Uma  diversidade de subsetores da indústria de transformação vem mudando de sinal negativo para positivo o saldo de contratação ao longo do trimestre, mesmo que os números não sejam tão expressivos, de modo que no mês de agosto apenas a atividade de fabricação de minerais não-metálicos (cimento) e a indústria mecânica cortaram emprego formal, desconsiderando os resultados residuais dos segmentos de madeira e mobiliário e papel e papelão. 

Fatores sazonais deverão atuar favoravelmente nos próximos meses sobre os números do comércio e de alojamento e alimentação, além de concorrerem para intensificar a contratação no setor sucroalcooleiro. 

Abstraindo-se os fatores de caráter mais sazonal, é possível inferir que o mercado formal de trabalho vem retomando em ritmo muito modesto na região Nordeste e que a trajetória de recuperação deverá ganhar algum impulso adicional nos próximos períodos, sem significar, todavia, uma recuperação exuberante do emprego.  

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
01/10
17:41

A construção civil está saindo do fundo do poço?

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe 

Os últimos resultados da PNAD Contínua Mensal sugerem que o mercado de trabalho brasileiro começou a reagir consistentemente. Mesmo que os vínculos  informais venham apresentando crescimento mais intenso do que os vínculos formais,  no trimestre encerrado em agosto o incremento da ocupação abrangeu todos os tipos de vínculos, com a exceção do emprego doméstico. Na comparação com o trimestre completado em maio, a ocupação total no Brasil cresceu em um milhão e trezenta e setenta mil pessoas; o emprego formal no setor privado teve incremento de 154 mil pessoas; e o emprego sem vínculos formais no setor privado, de 286 mil pessoas. O maior contingente de novas ocupações foi de pessoas por conta própria, seguidas pelos  empregos no setor público.

A Pnad Continua do IBGE registrou taxa de desocupação de 12,6% no trimestre encerrado em agosto. Ainda que tal taxa seja a mais elevada para o período julho-agosto desde que a pesquisa foi iniciada em 2012,  é  o terceiro resultado subsequente em que a taxa de desocupação recua em relação ao trimestre imediatamente anterior (ver Gráfico). 
 
Construção civil
A novidade no trimestre junho-agosto é que, pela primeira vez desde que a ocupação começou a reagir, o contingente de pessoas ocupadas apresentou incremento no setor da construção civil.  

No quadro apresentado resume-se o comportamento da ocupação segundo os setores de atividades, comparando o número de pessoas ocupadas com o trimestre anterior, assinalando com sinais positivo e negativo, conforme tenha sido a variação. 

Algumas atividades do setor de serviços já vinham apresentando incremento da ocupação, em muitos casos por conta do incremento de vínculos informais, desde o trimestre encerrado em setembro de 2016. No trimestre encerrado em abril, a ocupação total registrou o primeiro incremento, assim como a atividade industrial; em maio, o agrupamento de atividades de administração pública, educação, saúde e serviços sociais registrou saldo positivo; em junho foi a vez dos segmentos de comércio e o de transporte; e, finalmente no trimestre encerrado em agosto, o primeiro resultado positivo da ocupação na construção civil.


Saindo do fundo do poço?
A atividade da construção civil no Brasil criou 191 mil novas ocupações no trimestre junho-agosto, em relação ao trimestre anterior (março-maio). É o primeiro aumento substantivo nessa série depois de dezoito edições mensais da PNAD Contínua, desconsiderando o incremento de 0,1% do trimeste novembro de 2016-jan de 2017. A última vez que a ocupação na construção civil havia registrado incremento substantivo havia sido no trimestre encerrado em janeiro de 2016. 

O emprego formal da construção civil vem reagindo muito mais lentamente do que as ocupações informais, mas finalmente ele vem deixando de cair. Os resultados de julho e agosto do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho e Previdência Social, informa que o incremento do emprego na construção contemplou os vínculos formais, mas indicam também que o incremento da ocupação nas atividades do setor têm se dado quase que exclusivamente por meio de vínculos informais de trabalho. No acumulado de julho e agosto, o incremento do estoque de vínculos celetistas na construção civil foi de apenas 1.741 pessoas, no resultado sem ajustes. 

Nordeste lidera
Um aspecto que merece ser destacado é a distribuição regional na geração do emprego formal na construção civil. Em agosto, quando o setor apresentou no conjunto do país um saldo líquido positivo de 1.017 empregos formais, a região Sudeste cortou 5.383 postos de trabalho, concentrados em São Paulo e no Rio de Janeiro. As regiões Nordeste, com 4.458 novos empregos formais, e o Centro-Oeste, com 879 novos empregos formais, lideraram a geração do emprego na construção civil no mês. A região Norte continuou a desempregar e a região Sul criou apenas 127 empregos setoriais. Registre-se que a construção de edifícios gerou em agosto 1.705 novos empregos formais na região Nordeste. 

Naquele mês, todos os estados da região Nordeste, com a exceção da Paraíba,  registraram saldo líquido positivo de emprego formal na construção civil, mas a Bahia foi o grande destaque, com a geração de 2.396 postos de trabalhos formais no setor. 

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
24/09
09:33

A construção civil atingiu o fundo do poço?

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe

O setor de construção civil vem se apresentando como um dos segmentos produtivos mais intensamente impactados pela crise econômica nacional. Desde que iniciou sua trajetória de declínio, no segundo trimestre de 2014, a produção do setor encolheu 21%; no segundo trimestre de 2017, a produção da construção civil se situava em 79% do que apresentava no 1º trimestre de 2014.  O dado mais recente de evolução da atividade informa que a produção do setor recuou 2% entre o primeiro e o segundo trimestres de 2017. 

Ainda assim, no meses mais recentes, há sinais no mercado de trabalho, mesmo que tênues, de que o setor pode estar atingido o fundo do poço, próximo a um ponto de estabilização. 

Já por dois meses (julho e agosto), o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho e Previdência Social, registra que o emprego formal no setor deixou de cair. 

É importante assinalar que o emprego formal na construção civil vinha despencando continuamente desde outubro de 2014.  A partir de janeiro de 2017, todavia, o ritmo de queda do emprego formal no setor vem sendo muito atenuado, em relação à media mensal dos dois anos anteriores, até voltar a apresentar o saldo positivo de 724 empregos formais em julho e de 1.017, em agosto (ver Gráfico 1). Em Sergipe, o emprego formal na construção civil também deixou de cair nos últimos dois meses.


Os dados da Pnad Contínua confirmam uma melhoria relativa do mercado de trabalho na construção civil, abrangendo o conjunto das atividades formais e informais. Na evolução na margem dos trimestres móveis, a ocupação na construção civil registrou saldo positivo nos trimestres abril-maio-junho e maio-junho-julho em relação aos trimestres móveis imediatamente anteriores, ainda que em valores pouco expressivos. 

A derrocada 
A construção civil vem despencando continuamente desde meados de 2014. Na comparação entre o trimestre maio–julho de 2014 e o mesmo trimestre de 2017, foram eliminadas um milhão de ocupações no setor, entre atividades formais e informais. 

A perda de ocupações na construção civil foi mais acentuada nas atividades formais, principalmente na construção habitacional. Na comparação entre agosto de 2014 e agosto de 2017, o contingente de trabalhadores ocupados na construção caiu de 3.225.068 para 2.208.008, ou seja, foram eliminados mais de um milhão de vínculos celetistas, equivalentes a 31,5% do total de trabalhadores do setor. Nesse intervalo de tempo, quase 1/3 da força de trabalho empregada na atividade formal construção civil perdeu ocupação. 

Na comparação entre o 1º semestre de 2014 e 1º semestre de 2017, a queda da produção da construção civil (de 18,1%) foi superior à enfrentada pela indústria de transformação (16%), enquanto a retração do emprego formal entre agosto de 2014 e agosto de 2017 foi mais do que o dobro na construção, (31,5% e 12,9%, respectivamente. 

Diferentemente da indústria de transformação, que se encontra em uma encruzilhada, sem perspectivas de desenvolvimento de longo prazo por falta de competitividade, a crise na construção civil tem um caráter mais cíclico, associado à exaustão do boom imobiliário que conheceu entre o final de 2006 e 2013. 

Enquanto a indústria de transformação entrou em um processo de estagnação de difícil superação desde setembro de 2008, não se recuperando dos impactos advindos com a eclosão da crise financeira internacional, a construção civil brasileira retomou e até acelerou a expansão depois de 2008, até ver o crescimento interrompido bruscamente a partir de meados de 2013 (ver Gráfico 2). 

A crise das finanças públicas e a eclosão das denúncias da Lava Jato complementam a derrocada do setor, atingindo tanto o segmento habitacional quanto as obras ´de infraestrutura urbana e produtiva.

Perspectivas 
É importante ponderar que, caso venha se confirmar a estabilização do nível de atividade da construção civil nos próximos trimestres, acompanhada por alguma elevação do emprego, isso não significa que o setor já tenha deixado a crise para trás e vá passar a exibir uma retomada expressiva. O mais provável é que a construção civil, com alguma defasagem temporal em relação ao que se verificou com a indústria de transformação, venha a conhecer nos próximos meses uma correção para cima do nível de produção, apesar de o setor contar com especificidades que o distinguem muito da indústria de transformação. 

Mais do que a indústria de transformação, a recuperação da construção civil depende da normalização das condições de crédito e da melhoria do nível de endividamento das famílias. Adicionalmente, a recuperação do setor depende do próprio retorno da confiança sobre as possibilidades de retomada do crescimento da economia nacional.




*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
10/09
16:23

A recuperação pelo consumo: compressão do gasto público restringe a retomada

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS 

Apressado em comemorar os sinais mais consistentes de recuperação da economia, o ministro Meireles afirmou que os números da atividade econômica nos dois primeiros trimestres do ano são muito positivos e fortes e admitiu que pode rever a projeção de crescimento do PIB de 2017 de 0,5% para 1%. Como assinalamos no artigo da semana passada, o crescimento da atividade econômica no primeiro semestre de 2017, apesar de lento, indica que a economia brasileira deixou para trás o fundo do poço e iniciou uma modesta recuperação, que deverá prosseguir no próximos trimestres.

No acumulado dos dois trimestres, o PIB brasileiro apresentou incremento de 1,3%, compensando no período aquilo que havia perdido no segundo semestre de 2017, ou seja, o PIB do 1º semestre de 2017 igualou-se ao do 1º semestre de 2016. Em grande parte, a expansão do nível de atividade da economia em 2017 responde aos mecanismos de recuperação próprios aos ciclos de negócios, depois de oito trimestres de declínios. 

Setores de atividade
Em termos setoriais, as atividades que mais contribuíram para o crescimento da economia no 1º semestre de 2017 foram a agropecuária, a atividade extrativa mineral (inclusive petróleo), a geração de energia, o comércio, a atividade de transporte e armazenagem e o agrupamento de atividades classificadas como Outros serviços.  A indústria de transformação também registrou crescimento importante no semestre, apesar de ter desacelerado na passagem do 1º para o 2º trimestre. 

A tabela apresentada registra nas duas últimas colunas a comparação, por atividade, do valor da produção do 1º semestre de 2017 em relação aos mesmos períodos de 2016 e de 2015. 

Em alguns casos, a recuperação no primeiro semestre decorreu de movimentos específicos dos próprios segmentos, como a melhoria do regime de chuvas ou nas cotações internacionais do produto. Tais foram os casos da agropecuária e da extração de minérios, respectivamente.

A agropecuária ao longo dos dois primeiros trimestres do ano cresceu 11,5%. Na comparação com os mesmos semestres de 2016 e 2015,  a atividade agropecuária registrou incremento, respectivamente, de 15% e 6,7%, indicando que quase a metade da expansão no 1º semestre de 2017 foi na verdade recuperação do que havia sido perdido em 2016 por conta da estiagem (ver Tabela). 

A extração mineral, que teve incremento de 2,1% ao longo do 1ºsemestre de 2017, repôs na verdade o valor da produção que havia perdido em 2016, posto que na comparação com o 1º semestre de 2015 o valor da produção do segmento registrou crescimento de apenas 0,1%. 

Reversão para cima
Em outras atividades, os incrementos do valor da produção em 2017 aparentemente indicam que o ciclo de negócio começou a reverter a trajetória até então descendente em direção à retomada. A indústria de transformação cresceu 1,2% no 1º semestre do ano, ainda que se situe 1% abaixo do mesmo período de 2016 e 8,5% inferior a 2015. A atividade de construção, por enquanto, manteve-se em queda.

No segmento de Serviços, as atividades que mais contribuíram para o crescimento em 2017, até o 1º semestre, como o comércio, transporte e armazenagem e Outros serviços, repuseram parcialmente, mesmo que em ritmos dignos de destaque, as quedas acentuadas que tiveram em períodos anteriores.  

Setor público
É importante assinalar que o consumo do governo no 2º trimestre de 2017 registrou a quarta queda consecutiva. Ao longo do 1º semestre de 2017, o agrupamento de atividades que abrange a administração, saúde e educação públicas recuou 0,6%, se situando 1% abaixo do patamar do 1º semestre de 2016. Como se sabe, diante da PEC dos gastos, as atividades desse agrupamento não deverão puxar o crescimento do PIB nos próximos anos. 

Para o bem ou para o mal, o crescimento do PIB nos próximos trimestre deverá ser ainda modesto e impulsionado pelos gastos privados, notadamente das famílias, à medida em que paulatinamente o mercado de trabalho for retomando, posto que não há grandes expectativas no curto prazo em relação ao retorno dos investimentos.

A recuperação da economia, até o momento, nada tem tem espetacular e tampouco reflete um suposto acerto das políticas adotadas pela equipe comandada por Meireles e Ilan Goldfajn. Ela responde basicamente à correção parcial, pelos mecanismos do ciclo de negócios, da queda excessiva que se seguiu ao ajuste promovido pelo ministro Joaquim Levy entre o final de 2014 e primeira metade de 2015 e que foram potencializados pela crise política-policial. 






*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
03/09
15:22

A recuperação pelo consumo

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

Em entrevista publicada na Folha de São Paulo no último dia 26, o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, em um episódio pouco comum de ataque de sinceridade, declarou que o “choque de confiança” não teve o efeito esperado sobre os níveis de investimento e que a recuperação da economia deverá ser lenta e puxada pelo consumo. 

Em outros termos, o alentado choque de confiança que adviria da adoção de uma política fiscal responsável falhou e o recente incremento, em ritmo arrastado, do nível de atividade tem sido impulsionado pelo aumento do consumo,  causado em parte pela queda da inflação, em parte por conta da redução dos juros nominais, em parte pela injeção de renda decorrente dos saques do FGTS, em parte pelo incremento da ocupação no mercado de trabalho. 

Como costuma dizer meu colega da UFAL professor Reynaldo Ferreira, não há choque de confiança capaz de produzir uma contração fiscal expansionista. A via crucis enfrentada pelos países do sul da Europa na esteira da crise financeira internacional foi suficientemente pedagógica nesse sentido. A elevação do nível de atividade da economia brasileira nos dois últimos trimestres decorreu basicamente dos efeitos do incremento da renda disponível sobre o consumo das famílias, porquanto os investimentos continuaram declinando. 

O PIB do 1º semestre de 2017
Em relação ao último trimestre de 2016, o PIB brasileiro registrou crescimento de 1,27%, sendo 1,02% no 1º trimestre e 0,25% no 2º trimestre. Desaceleração tão intensa na comparação entre os dois períodos decorreu basicamente do desempenho extraordinário do setor agrícola, contabilizado no 1º trimestre. Em outra palavras, não é que o crescimento do 2º trimestre tenha sido surpreendemente baixo, é que o crescimento do 1º trimestre foi excepcionalmente bom.
  
O incremento do PIB da primeira metade do ano foi suficiente apenas para repor o que havia sido perdido no segundo semestre de 2016. Assim, o PIB do 1º semestre de 2017 foi exatamente do mesmo montante do verificado no 1º semestre de 2016, auferindo crescimento zero nessa comparação.

Componentes da despesa
O consumo das famílias cresceu 1,4% no 2º trimestre do ano depois de oito retrações trimestrais sucessivas em 2015 e 2016 e estagnação no 1º trimestre de 2017. Os gastos correntes do governo aceleraram seus declínios nos dois trimestre do ano, no 2º trimestre o consumo do governo recuou 0,9%. Os investimentos não reagiram e mantiveram a trajetória de decclinio iniciada no já longínquo 4º trimestre de 2013 (registrou-se uma oscilação para cima de 0,4% no 2º trimestre de 2016). Em outras palavras, os gastos privados e públicos realizados na aquisição de máquinas, equipamentos, construção e caminhões e implementos agrícolas (que formam a parcela principal da Formação Bruta de Capital Fixo-FBCF) mantiveram-se em queda, em ritmo ainda muito acentuado. 

Ao longo do 1º semestre de 2017 o consumo das famílias cresceu 1,34%, o consumo do governo recuou 1,64% e a FBCF caiu 1,66% (ver Gráfico). Além do consumo das famílias, o incremento das exportações de bens e serviços e a queda nas importações contribuíram para o resultado positivo do PIB na primeiro semestre do ano. 

 
 

Ciclo de negócios
Há poucas dúvidas de que a economia brasileria está deixando para trás o fundo do poço e que iniciou uma trajetória de incremento do nível de atividade, que deverá se dar em ritmo muito lento. Não nos iludamos, todavia, sobre a natureza da recuperação em curso. Trata-se basicamente de uma retomada decorrente do próprio movimento do ciclo de negócios, em que paulatinamente foram sendo registradas quedas mais suaves seguidas pelos incrementos dos dois últimos trimestres. 

A expansão do PIB nos próximos trimestres deverá seguir essa trajetória, impulsionada pelo incremento da renda que a recuperação paulatina do mercado de trabalho deverá engendrar, empurrando lentamente para cima o nível de utilização da capacidade produtiva instalada. Em outras palavras, o conhecido mecanismo do multiplicador da renda, seguido pelo acelerador do investimento, enxovalhado noite e dia pelo pensamento convencional de mercado como correspondendo a adoção de uma concepção hidráulica do keynesianismo, vai cumprindo seu papel. O choque de confiança vai demorar mais um pouco para gerar seus efeitos. Foi o presidente do Banco Central quem reconheceu.

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
20/08
15:09

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura do emprego

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

No artigo de hoje completamos o delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil, com o propósito de  entender como a crise da economia nacional vem impactando de forma tão acentuada a economia sergipana e, na medida do possível, avaliar  os seus próximos desdobramentos.  
Examinaremos nas linhas que se seguem alguns aspectos da estrutura da ocupação da economia estadual, a fim de captar um dos aspectos mais fundamentais da crise atual, a supressão de milhões de empregos em todo o país, com incidência especialmente acentuada nos estados da região Nordeste.  

A PNAD Contínua do IBGE informou a geração de 42 mil ocupações em Sergipe no 2º trimestre de 2017, interrompendo o período de perda de emprego iniciado no 1º trimestre de 2015.  As novas ocupações concentraram-se nos segmentos da indústria de transformação, alojamento e alimentação, transporte e armazenagem e outros serviços, indicando as atividades em que as pessoas têm buscado alternativas de sobrevivência, em geral empregos sem vículos formais e por conta própria, até que o mercado formal volte a contratar.

Posição na Ocupação
Já constatamos em artigo anterior que o rendimento médio dos trabalhadores sergipanos é, há bastante tempo, superior à média do Nordeste e permaneceu acima dessa média mesmo no período mais recente, marcado pela crise acentuada no mercado de trabalho. Veremos também que o grau de formalização do mercado de trabalho sergipano é um pouco superior à média regional e que não houve no período mais recente mudança de vulto na posição relativa do estado neste quesito.

No que diz respeito à estrutura de ocupação, as tabelas apresentadas trazem, com base nas médias de quatro trimestre da PAND Contínua, os pesos das posições de ocupação e dos setores de atividade em Sergipe e os comparam com as médias do Brasil e do Nordeste. 

Na média dos quatro trimestres de 2014, os empregados do setor privado respondiam por 41% da ocupação em Sergipe, o trabalhador doméstico por 5,7%, o empregado no setor público por 15%, o trabalhador por conta própria por 31%, e o empregador por 3,2%. 

Dois anos depois, com os efeitos da crise já se manifestando de forma acentuada no mercado de trabalho, não se constataram mudanças de grande magnitudes na estrutura das posições na ocupação.  

Em relação ao ano de 2014, a média de 2016 mostra uma redução na participação de trabalhadores com carteira assinada no setor privado,  de 28,1% para 27,3%, enquanto os trabalhadores sem carteira nesse segmento aumentaram o peso de 12,8% para 13,3%. 

A participação do emprego público pouco se modificou, passou de 15,0% para 15,1%, mas se verificou uma queda importante na participação do grupo de servidores estatutários e militares, por conta da corrida à aposentadoria, e o aumento da importância do servidor não estatutário. A participação de empregadores na ocupação se manteve inalterada, em 3,2%, e a de trabalhadores por conta própria registrou uma perda relativa, somente apresentando uma reação mais forte no 2º trimestre de 2017, cujos dados não constam na tabela. 

Em suma, em termos de posição na ocupação, entre 2014 e 2016 aumentou a importância de trabalhadores sem carteira assinada e de funcionários públicos não estatutários (por conta do incrmento no número de  aposentadorias), uma redução de trabalhadores por conta própria e a elevação no número de trabalhadores domésticos com carteira de trabalho, certamente por conta da nova legislação para o segmento. 

Setor Formal
Se, grosso modo, considerarmos relação formal de trabalho os vínculos como trabalhador do setor privado e trabalhador doméstico com carteira de trabalho assinada, empregador e servidor público estatutário ou com carteira assinada, em 2016 o percentual de trabalhadores sergipanos que se enquadravam nessa condição era de 45,1%, frente à média regional de 41,2%. 

Na região Nordeste, à frente de Sergipe em termos de grau de formalização se situavam os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e, surpreenda-se, Alagoas (por conta do setor sucroalcoleiro). Atrás de Sergipe nesse indicador, por ordem de menor grau de formalização, Maranhão, Piauí, Bahia e Ceará e Paraíba- empatados.

Em relação à média do Nordeste, Sergipe não revelou um especialização muito acentuada em termos de distribuição por tipo de ocupação. As participações segundo a ocupação no nosso estado eram muito próximas à média regional.  Sem se afastar muito da média do Nordeste, Sergipe apresentou maior peso no pessoal ocupado com carteira de trabalho assinada no setor privado, de trabalhador doméstico com carteira assinada e de empregadores. Chama atenção todavia, o fato de que o peso de servidores estatutários e militares na ocupação de Segipe em 2016 se situava dois pontos percentuais acima da média do Nordeste, respectivamente 10,9% e 8,9%.  

 

Ocupação por setor
Em termos de ocupação por setor de atividade, chama a atenção a perda de participação entre 2014 e 2016 do emprego na indústria de transformação em Sergipe, com intensidade superior à média nacional e regional. A redução da ocupação, formal e informal, também foi superior à média no caso do setor de transporte e armazenagem e no segmento de serviços profissionais, administrativos e imobiliários. 

No caso da construção civil, aparentemente o que se verificou entre 2014 e 2016 foi a migração de trabalhadores das atividades formais para informais, dentro do próprio setor. A queda da ocupação na construção em Sergipe foi mais acentuada do que a média do Brasil mas inferior à média do Nordeste, que em conjunto vem sofrendo de forma muito mais intensa a crise do setor. 

Na comparação entre 2014 e 2016, ganharam partipações as ocupações nos segmentos de comércio, alojamento e alimentação e outros serviços, que têm funcionado com refúgio nesse período de crise acentuada no mercado de trabalho, até que o mercado de trabalho formal inicia sua recuperação.

 



*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
13/08
15:08

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura industrial

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

No artigo de hoje damos sequência ao delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil. Temos insistido na sequência dos artigos que, se é verdade que a gravidade com que a crise econômica nacional vem impactando a economia sergipana está principalmente associada às características da estrutura produtiva interna, isso não significa necessariamente que a economia do estado terá maior dificuldade para retomar o crescimento e para crescer no longo prazo. 

Poderá ser exatamente o contrário. Na medida em que os fatores que derrubaram o nível de produção de algumas dessas atividades deixarem de atuar, ou forem atenuados, a recuperação da economia poderá ser mais robusta do que na média dos demais estados. É um tanto óbvio que, se não houver nenhum obstáculo especial, os setores que mais caem durante a crise também serão aqueles que deverão se recuperar mais rapidamente depois que ela cessar, a não ser que existam motivos para que isso não aconteça, como mudanças de natureza estrutural, que não são tão disseminadas assim. 

Dinâmicas próprias

Cada setor de atividade deverá ter um dinâmica própria de recuperação nos próximos anos, alguns crescendo mais rapidamente; outros podem ser arrastar por algum tempo antes de retomar; e outros podem ter maior grau de dificuldade. Alguns exemplos podem ser lembrados.

De imediato a produção de grãos de Sergipe deverá recuperar com grande intensidade ainda em 2017, por conta da melhoria do regime de chuvas. Caso a estimativa de julho do IBGE se confirme, a produção de cereais de Sergipe, liderada pelo milho, deverá multiplicar por quatro em relação a 2016. A safra da cana-de-açúcar, outra de nossas principais atividade agrícolas, deverá crescer, segundo o IBGE, 31,7% , com tudo o que o setor sucroalcooleiro significa em termos de fabricação de açúcar e de biocombustíveis.  

A geração de energia de Xingó despencou nos últimos anos, com impacto muito negativo no PIB sergipano e não deverá recuperar de imediato, diante dos baixos níveis dos reservatórios do Sâo Francisco. Todavia, quando o regime de chuvas nas cabeceiras do rio lá em Minas Gerais se normalizar o crescimento da geração de Xingó trará um impacto positivo de 3 ou 4 pontos percentuais no PIB sergipano. 

Setor por setor, é possível traçar um cenário daqueles devem ser recuperar mais rapidamente e de outros que deverão retardar a retomada, como a construção civil, atividade que poderá ensaiar os primeiros passos de uma lenta recuperação em 2018. Mas deixemos o exame das perspectivas de recuperação do crescimento para um artigo futuro; observemos hoje a estrutura da atividade industrial.

Estrutura Industrial
A Indústria Geral congrega as atividades das indústrias extrativas e as atividades das indústrias de transformação. A tabela apresentada resume a estrutura do agregado Indústria Geral de Sergipe em 2012 e 2015. Nas últimas colunas, a tabela registra o grau de especialização relativa de Sergipe, frente à média dos estados nordestinos, também naqueles dois anos. Em 2015, as indústrias extrativas participavam com 37,4% do Valor da Transformação Industrial (VTI) do total da indústria geral de Sergipe, dos quais 32,8% eram oriundos da exploração de petróleo e gás natural, enquanto as indústrias de transformação representavam os demais 62,6%.  

O grau de especialização de Sergipe na produção das indústrias extrativas em Sergipe era muito elevado em 2015, com a participação dessas atividades apresentando-se quase cinco vezes maior do que na média do Nordeste.  Entre 2012 e 2015 essa especialização até se acentuou,em parte porque a atividade ganhou peso na estrutura industrial sergipana, em parte porque ela perdeu participação na média do Nordeste, cedendo espaço principalmente para a produção de alimentos, celulose, químicos e derivados de petróleo.
 
Indústria de Transformação
Na indústria de transformação, as atividades de maior peso em Sergipe em 2015 eram a fabricação de alimentos, com destaque para açúcar e suco de laranja,a fabricação de cimentos (minerais não-metálicos), químicos (fertilizantes), têxteis, calçados, bebidas e biocombustíveis (etanol).    

Entre as atividades de peso mais elevado, a produção de têxteis e de cimento são aquelas em que Sergipe apresentava maior grau de especialização em relação à média do Nordeste, participando no VTI estadual com mais do dobro do que representavam na estrutura regional (ver Tabela).

A crise da Petrobras impactou fortemente a exploração de petróleo nas áreas tradicionais, diante da preferência dada pela empresa para a produção do pré-sal, enquanto o início da produção dos novos campos de águas ultraprofundas na bacia de Sergipe e Alagoas foi postergado.

As fabricações de produtos têxteis e de cimento também foram muito impactadas pela crise e deverão demorar a apresentar uma recuperação mais robusta. O setor têxtil por uma dupla condição, de retração do mercado interno e pela dificuldade de competir com os produtos importados. No caso da fabricação de cimento, principalmente em razão do estouro da bolha do mercado imobiliário, setor que deverá retomar o crescimento muito lentamente.   

No curto ou médio prazos, as recuperações das safras agrícolas, da geração de Xingó e na produção de cimento e na construção civil são as de maior significado para o crescimento do PIB estadual, além da recuperação do emprego à medida em que o crescimento da economia nacional rebater nas esferas estaduais. 

As mudanças de longo prazo que deverão ter impacto mais acentuado sobre o futuro da indústria sergipana dependerão principalmente do que acontecerá com o papel da Petrobras na cadeia de petróleo no Brasil, do início da produção dos campos em águas ultraprofundas e dos desdobramentos que poderão advir da maior presença de investimentos estrangeiros no setor de energia e fertilizantes em Sergipe, com os investimentos da Usina Termoelétrica Porto de Sergipe e com a aquisição pela norte-americana Mosaic das unidades de exploração postássio.

 

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
06/08
14:50

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura produtiva

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS 

No artigo de hoje damos sequência ao da semana anterior em que iniciamos o delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil, focalizando nossa atenção na evolução da economia estadual nessas quase duas décadas do século XXI. Buscaremos identificar as especificidades da estrutura produtiva regional, comparando os pesos das atividades com as médias do Brasil e do Nordeste.
  
Ao se destacar as atividades de maior peso na estrutura econômica do estado, acreditamos poderemos avançar no sentido de alcançar um melhor entendimento dos impactos da crise nacional sobre a nossa economia.

Como teremos oportunidade de ver na sequencia dos artigos, a economia sergipana apresentou um crescimento vigoroso até o espoucar da crise nacional,  acompanhando o ciclo expansivo nacional entre 2004 e 2013. A questão se situa no fato de que, em grande parte, por conta de sua estrutura produtiva muito marcada pela extração de petróleo, fabricação de cimento e fertilizantes e ainda pela fabricação de produtos têxteis, a economia sergipana foi atingida muito duramente pela crise recessiva nacional. 

Também muito significativos foram os efeitos da estiagem sobre a produção de algumas das nossas principais culturas agrícolas e ainda mais fortes os impactos da queda na geração da energia elétrica, decorrente da redução dos níveis dos reservatórios da bacia do São Francisco. Vamos aos dados. 

Estrutura produtiva
A tabela apresentada resume na segunda e terceira colunas as participações dos setores de atividade na geração de riqueza em Sergipe, em 2012 e em 2014, último ano com os dados publicados. A razão de apresentar também os números de 2012 é a de buscar destacar modificações significativas que ocorreram nesse intervalo de anos nas participações de alguns dos principais setores de atividade, seja por conta da estiagem, seja por conta do agravamento da situação do mercado em atividades específicas, antes mesmo da recessão nacional iniciar a sua pior fase. 

Em 2014, as atividades agropecuárias sergipanas respondiam por 5,3% do total do Valor Adicionado Bruto (VAB), uma proxy do PIB. As atividades industriais representavam 24,6% e as atividades de serviços 70,1%, dos quais 26,9%  eram referentes ao setor público incluindo seguridade. 

O setor industrial no sentido amplo, que abrange além da indústria de transformação, a indústria extrativa, os serviços industriais de utilidade pública (SIUP) e a construção civil, perdeu 5,0 pontos percentuais de participação na comparação entre 2012 e 2014. A queda de participação do setor industrial se deve a três fatores principais: retração da contrução civil, depois do estouro da bolha imobiliária; redução da exploração local de petróleo, associada à queda da cotação do produto no mercado internacional, e, sobretudo; os efeitos da estiagem sobre o potencial de geração da Usina Hidroelétrica de Xingó. 
A participação dos Serviços Industriais de Utilidade Pública, em que se enquadra a geração de energia,  caiu de 7,7% do VAB de 2012 para menos da metade, 3,3% do VAB de 2014, e esse fato tem um impacto importante no crescimento do PIB sergipano.

A crise da atividade da construção civil, notadamente da construção de prédios residenciais, após o estouro da bolha imobiliária fez com que o setor apresentasse uma evolução inferior à média e também perdesse perticipação na riqueza gerada, passando de 8,8% do VAB de 2012 para 7,4%, em2014. 
Até 2014 o conjunto da indústria de transformação sergipana não se ressentia tanto da desaceleração da economia brasileira, ainda que algumas atividades já estivessem sendo atingidas. Na comparação entre 2012 e 2014, a indústria de transformação até aumentou seu peso no VAB, de 5,9% para 6,8%, mesmo porque com a forte retração do peso do SIUP, a perda participação daquela atividade é redistribuída pela demais. 

Especialização produtiva
As quatro últimas colunas daTabela mostram em quais as atividades a economia sergipana é relativamente especializada, quando se compara com a média do Brasil e do Nordeste. Valores superiores a 100 indicam que o peso de uma determinada atividade em Sergipe é superior ao peso que ela tem ou na economia do Brasil ou na economia do Nordeste, conforme o caso. Assim, o valor de 178 alcançado pelos serviços industriais de utilidade pública de Sergipe em 2012 indica que essas atividades pesavam 78% a mais na estrutura produtiva da economia sergipana do que na média do Brasil. Quando comparada à média do Nordeste, o  índice dos SIUP de Sergipe alcançava notáveis 304,3%, em 2012. Ou seja, a participação dos SIUP em Sergipe naquele ano era 204,3% maior do que na média do Nordeste. 

Na tabela estão marcadas as células em que o peso de uma determinada atividade na economia sergipana supera em 20% sua participação nas médias regional e nacional.

Petróleo, Xingó e Construção civil

A chave para entender porque a crise recessiva atingiu de forma contundente o nível de atividade da economia sergipana, com implicações na geração de emprego e na evolução das receitas públicas, é observar a estrutura produtiva estadual, em que a exploração de petróleo, a geração de energia elétrica e a construção civil apresentam participações muito expressivas.

Em 2014, a indústria extrativa, cuja principal atividade é a exploração de petróleo e gás natural, pesava 3,4 vezes mais em Sergipe do que na média do Nordeste e 91,6% a mais do que na média do país. Quando a cotação do barril de petróleo despencou no mercado internacional, passando da média anual de US$ 97,99, em 2013, para US$ 43,34, em 2016 (preço médio do mercado spot do barril de petróleo do tipo WTI), naturalmente os estados mais dependentes do setor são especialmente atingidos . 

Em termos proporcionais, Sergipe é o estado da região Nordeste em que a energia elétrica tem o maior peso no VAB. Em termos nacionais, Sergipe é o quarto estado em que a geração de energia tem maior participação. Entre 2012 e 2014, por conta da redução dos níveis dos reservatórios do rio São Francisco, a geração de energia por parte da UH de Xingó reduziu-se à cerca da metade. 

Finalmente, o caso da construção civil, que apresenta em Sergipe peso próximo ao da média nordestina, mas que se situava pelo menos 20% acima da média da participação brasileira. A crise na construção civil rebateu com força na fabricação de cimentos, uma das principais atividades da indústria de transformação de Sergipe, cujo peso no setor industrial é cerca do dobro da média do Nordeste. 

No próximo artigo, examinaremos a estrutura interna da indústria de transformação em nosso estado, com o mesmo intuito de avaliar como a crise econômica nacional impacta as suas principais atividades econômicas. 




*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


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