12/11
11:59

Tragédia

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Maria Zilda de Maneco Pé Ligeiro estava no roçado, fazendo a terceira limpa do pequeno mandiocal, após as últimas chuvas. O inverno veio danado de bom. A fartura na lavoura foi grande. Milho, feijão e fava à vontade. A mandioca prometia. Uma trovoada no fim do ano, outra em fevereiro, garantiriam boas raízes tuberosas que os nossos índios delas contavam preciosa lenda, e que dava a farinha nossa de cada dia, sustento para gerações de nordestinos. 

Mais da metade do roçado já estava limpa. Terra frouxa, fácil para o manejo da enxada. Maria Zilda parou um instante para limpar o suor da testa com o lado externo da mão esquerda. O tempo já começava a levantar com força. O sol abrasava cada pedaço de chão. Primavera? Que nada! Verão antecipado. Era sempre assim. O marido de Mariz Zilda, Maneco Pé Ligeiro, tocador de sanfona, vivia de canto em canto, por aí, puxando o fole e namorando quem aparecesse. E mulher pronta para um xodó não faltava em lugar nenhum. 

Ultimamente, coisa de dois meses mais ou menos, o pé tornou-se ainda mais ligeiro para o lado de uma zinha do Tabocal dos Pretos Forros, depois da Timbira de Jorjão. Aboletara-se de casa sem dar notícias até aquela tarde. A Maria Zilda restava a filhinha, Doralina, de nove anos, a casa em regular estado e o roçado. Para a filha, ela almejava um futuro bem diferente do seu. Por isso, a menina estava no estudo pela manhã e pela tarde, na escolinha do povoado. Porém, Maria Zilda não sabia o porquê, mas o seu coração tinha um pressentimento que ela não conseguia entender. Alguma coisa estava para acontecer. Pensou logo no marido farrista e de asa arrastada por aquela zinha do Tabocal. Ocorreu-lhe também a filha, Doralina. Não. A filha estava bem, na escola, estudando para ser gente. 

A tarde andava a meio. Maria Zilda ouviu um grito. Um chamado. Era para ela. Agora, sim, ela ouvia bem: “Maria Zilda! Maria Zilda!”. Era voz de homem. Desembestado, montando um cavalo cai, mas não cai, bamboleando sobre o animal como se fosse o último dos espantalhos, João Balaio aproximou-se, berrando: “Maria Zilda, minha filha, pelo amor de Deus, corre para casa. Uma desgraça acaba de acontecer”. Ela viu, então, o rostinho de sua filha estampado na lâmina d’água da última poça que o sol sorvia gota a gota, devagarzinho. “E o que foi, João? É Doralina?, perguntou a mãe aflita. O cavaleiro respondeu: “Corre, filha de Deus! Corre!”. Alvoroço. Pranto incontido.

Uma caixa d’água postada nas cercanias da escola onde Doralina estudava, aliás, a única do povoado, acabara de desabar sobre a escola, partindo-a ao meio, ferindo muitas crianças e deixando sem vida duas delas. Uma das duas era, sim, Doralina. Nove anos. A outra criança era só um pouco mais velha. Ou melhor, mais velho. Era um menino. Quanta tristeza! Quantas lágrimas derramadas por todos que ali se aglomeravam. Era um povoado pequeno, unido na dor de duas perdas que tinham sido feitas sementes esmagadas. Sementes que deveriam germinar e florir, abrindo-se para a vida. Porém, a morte prematura as colhera, esmagando as corolas de suas inocências. 

Uma mãe e um pai em prantos. Um corpo esmagado. Ferragens retorcidas. Ferrugem à mostra. Muita ferrugem. Concreto rachado. Olhos lacrimejantes. Solidários. Um povoado atônito. Uma tragédia anunciada. Há muito tempo, havia rebuliço dos moradores por causa da caixa d’água, que parecia entortar. Ninguém dava ouvidos ao povo. Moucos eram os ouvidos dos governantes, dos dirigentes, de quaisquer pessoas que detinham um naco de poder e de responsabilidade. 

O outro corpo ensanguentado, destroçado era, sim, o de Doralina, a filhinha de Maria Zilda e Maneco Pé Ligeiro. A mãe desesperada jogou-se sobre o corpo da filha. Nove anos. Uma flor esmagada pela fúria do descaso, da omissão. Fúria mais devastadora do que um furacão. Choro, grito dilacerante. Lamentação. Dor que cortava o coração de todos. Dor somada à outra dor. Duas mães que, por certo, experimentavam a dor de Maria diante do seu Filho vergado na cruz. Dor excruciante. Que rasgava os véus do coração como a dor de Maria pareceu rasgar s véus dos céus, naquela sexta-feira que o mundo jamais esquecerá. Porém, a dor daquelas duas famílias seria em pouco tempo esquecida, em especial pelos omissos. Omissos. Omissos. Omissos. 

Maria Zilda não tinha mais lágrimas para juntar a tantas lágrimas, para juntar à água derramada. Duas mães unidas pela dor, pela perda, pelo desespero de ter nos braços o filho e a filha que guardaram nos respectivos ventres por nove meses, e por quem elas choraram a cada choro daqueles filhos quando ainda eram bebês, no tempo do sarampo, da coqueluche, da caxumba, das gripes constantes, das diarreias. Ás vezes, por causa do pão minguado ou pela falta de médico ou de medicamentos, tudo quase sempre faltante pelo descaso dos poderes públicos. Vidas pobres. Era tão difícil viver, mas, a esperança era um raio de sol a se libertar todo dia das nuvens carrancudas e passageiras. 

Ali estavam dois ventres de mães rasgados no seio da terra. A caixa d’água fez chorar duas famílias. Fez chorar um povoado inteiro. Uma cidade. Lágrimas e indignação. Notícia nos telejornais nacionais. Responsabilidades a apurar. Dois corpos. Duas vidas ceifadas no meio da tarde. Duas vidas que ainda engatinhavam no alvorecer da existência. Alvorecer sangrento. 

Maria Zilda beijou a face sangrenta da filha. Da filha única. Da filha que lhe fora arrancada. Da filha que nunca mais lhe tomaria a bênção. E que ela nunca mais abençoaria. 

De repente, o corpo de Doralina escorregou dos braços de Maria Zilda, que desmaiou. Socorreram-na. Duas estrelas cadentes riscaram o céu e pairaram sobre o aglomerado das pessoas daquele povoado em pranto. Dois anjos pareceram descer do céu. Depois, pareceram subir. Já não eram apenas dois. Eram quatro. E as estrelas cadentes fizeram a viagem de volta. Estavam mais brilhantes. Era evidente que quatro anjos brilhavam mais que dois. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
05/11
13:17

A salvação de Ticinha

José Lima Santana
Professor da UFS

Marcinho de Zeca Tabuleiro voltava do roçado de milho, que começava a embonecar. Partidão de milho. O verde escuro perdia-se no horizonte. O inverno tinha demorado, mas quando veio, veio de tinir. Safra da melhor possível a caminho. As chuvas regulares impediam o surgimento das lagartas, que, nos dois anos anteriores, devoraram quase tudo. Pestes! As borboletas vieram azedas. Botaram os ovos, que se transformaram em lagartas esfomeadas. 

Não. Naquele ano, não. O sol quando aparecia era para dar bom dia ou boa tarde e, logo, se recolhia. O tempo não esquentava muito. Não faltavam borboletas, mas, as chuvas matavam as lagartas mal e mal saídas do casulo. Os plantadores de milho e feijão não teriam, naquele ano, as sócias miseráveis e comilonas. Marcinho de Zeca Tabuleiro tinha, sim, que dar graças a Deus. Uma safrona estava para chegar. Casado de novo, a mulher, Ticinha, esperava o primeiro filho. Eram bênçãos sobre bênçãos. 

O milho tinha aumentado de preço nos últimos anos. Muita gente estava deixando de lado outras lavouras para se dedicar ao plantio do milho. Sementes selecionadas e novas formas de plantio garantiam uma produtividade nunca antes vista por aquelas bandas. Marcinho era possuidor de boas terras, propícias para a lavoura. Jovem bem aquinhoado quer pelos esforços próprios, quer pelo legado de uma tia solteirona, que o tivera como filho e para quem deixara seus pertences, inclusive boa parte das terras que ele possuía. 

Ticinha, sua jovem esposa, era, na verdade, Ticiana. Filha de Alfredo Pires Peixoto, gente de Pernambuco, e conhecido como Alfredão Cospe Fogo, porque quando ele falava era como um vulcão em erupção. Soltava fogo e fumaça. E se estivesse brabo, eram labaredas da altura dos céus. Tinha, porém, um coração molim, molim, molim, como caldo de doce de banana em rodinhas. 

A esposa de Marcinho era uma beldade. Linda moça. Prendada e estudada. Tinha tirado o ginásio. E estudava para ser professora. Marcinho fora seu colega ginasiano. Largara os estudos para dedicar-se à vida no campo. Gado e roçados para cuidar. 

Naquele fim de tarde, Marcinho regressava para casa. Desde a madrugada, um pé d’água intermitente enchia o mundo. Parecia um dilúvio. Talvez apenas um pouco menor do que aquele de que fala a Bíblia, o dilúvio da arca de Noé. O riacho do Zabelê botava água sobre os galhos dos pés de paus. Um verdadeiro mar. Ainda bem que ventava pouco. Do contrário, os pés de milho seriam virados pela ventania. Um prejuízo danado! Mas, graças a Deus, isso não acontecia. Ruim mesmo era para o feijão que estivesse em floração. As chuvas fortes derrubavam as flores e a plantação se perderia. Marcinho não plantava feijão, a não ser uma mão cheia de sementes no fundo do quintal, que era grande, quase uma chácara. 

No fundo da casa de Marcinho e Ticinha passava um córrego. Coisa de pequena monta. Corregozinho tísico, que vinha da fonte de “seu” Alcides Boca Mole, cortando malhadas e quintais e desembocando lá adiante, coisa de meia légua abaixo da morada de Marcinho, no riacho do Zabelê. 

Havia algo estranho na casa de Marcinho quando ele apeou do cavalo castanho. Montaria mimosa. Quarto de milha. Comprado por um dinheirão. Aliás, daquele ele tinha alguns. Gostava do que era bom e bonito. E tinha posses para tanto. Um jovem promissor com uma família em formação e, igualmente, promissora. Ao encontro dele correu uma irmã, Margarida. Eram, ao todo, seis irmãos, sendo ele o único varão. Cinco irmãs que lhe paparicavam e das quais ele gostava com o amor próprio de irmão mais velho e zeloso. Antes que a irmã lhe dirigisse a palavra, ele ouviu vozes agoniadas e prantos. “O que foi, Margozinha?”, indagou Marcinho. E ela: “Uma desgraça!”. E, aos atropelos, relatou-lhe o ocorrido. 

Ticinha fora socorrer o cãozinho que Marcinho tinha lhe dado duas semanas antes. Era, por enquanto, a companhia dela, nas necessárias ausências. Apolo tinha caído no córrego, cujas águas tinham engrossado em demasia. A esposa de Marcinho buscou resgatar o cãozinho tentando fazer com que ele subisse numa tábua que ela estendeu ao seu encontro. Todavia, as águas estavam muito ligeiras. Ela acompanhou a descida de Apolo por uns trinta metros ou mais. De repente, escorregou e também desceu nas águas escuras. Tentou segurar-se nas ramagens, mas não conseguiu. Ela não sabia nadar e, ainda que soubesse, talvez não encontrasse valimento. O córrego estava brabo. Ela submergiu e emergiu algumas vezes. Mariano de Soarino do Cerro Azul e Chiquinho de Maria Bole-Bole, que por acaso passavam por ali, a socorreram. Lançaram-se ao córrego e conseguiram resgatá-la. Mais morta do que viva. Engolira um pote de água. 

Os dois salvadores chamaram os pais e as irmãs de Marcinho, cuja casa era logo ali. Fizeram com que ela expelisse boa parte da água engolida. Porém, ela não deu cor de si. E foi naquele estado que Marcinho encontrou a sua jovem esposa. 

Namoro nascido na escola. Primeiro encantamento dele e dela. Casal formoso. Marcinho encontrou a esposa prostrada. O pulso quase a zero. Desfalecida. Se não fosse o minguado pulso, dir-se-ia que estava morta. Talvez não durasse muito. A morte poderia ocorrer a qualquer segundo. Um cunhado de Marcinho, João Tripa, magro como um caniço, acabara de chegar com o carro do sogro. “Vamos para a cidade. Lá o Dr. Milton poderá salvar a vida dela!”. Dr. Milton era um médico de fama. Um médico como poucos. A cidade era bem pertinho. Légua e meia de distância. 

Com jeito, Marcinho tomou a mulher nos braços. Duas lágrimas escorreram-lhe face abaixo. Com ele e o cunhado foi a sua mãe, Dona Cristina. No carro de Marcinho foram o pai e as irmãs. Alguém da família foi avisar aos pais de Ticinha, no povoado vizinho, logo abaixo da residência do jovem casal.

Ao chegarem à cidade, o Dr. Milton não se encontrava. Estava em viagem. No pequeno hospital, encontrava-se apenas uma auxiliar de enfermagem, por sinal, prima de Ticinha. Uma vez posta no leito, a prima, muito nervosa, tomou-lhe o pulso. Uma, duas, três vezes. Estava cada vez mais nervosa. “Não bate mais, gente! Não bate mais!”, disse ela, que desandou a chorar. Choro geral. Marcinho ajoelhou-se diante da esposa. Segurou a mão direita dela. Com a outra mão, alisou o ventre onde o primeiro filhinho estava abrigado. Não chorava. Lembrou-se do que dizia a tia que lhe deixara a herança em terras e gado. “Não houve no mundo dor maior do que a de Maria Santíssima diante do seu Filho na cruz”. Ele apertou com firmeza a mão de Ticinha. Era um jovem crente e temente a Deus. Fazia suas orações diárias, como lhe ensinara sua mãe e sua tia, com quem ele morou nos tempos de ginásio, na cidade. Rezou. Duas orações corridas. Pai Nosso e Ave Maria. Era, contudo, o que saía do mais íntimo do coração, expressão de uma fé ainda rude, porém, a fé de alguém que, confiante, esperava por um milagre. 

A mãe de Marcinho compreendeu aquele momento de intimidade do seu filho com o Criador. Fez com que todos se retirassem dali. Ela, porém, ficou encostada no portal. Depois, também, ajoelhou-se. Orou. Lágrimas escorreram dos seus olhos. A dor do filho era a dor da mãe. Como Maria. De repente, Marcinho gritou: “Ela está viva! Ela está viva!” Estava sim. O pulso batia levemente. Mas, batia. Ticinha salvou-se. O cãozinho também, pois alguém lhe retirara da água do córrego, ofegante, mas vivo. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
30/10
10:09

"Hoje, eu tô azedo"

José Lima Santana
Professor da UFS

Veludo ladrou uma, duas, três vezes. E outras tantas. Era, sem dúvida, um cão de atenta vigilância a despeito de ser um reles vira-lata, um cachorro gué do rabo fino. Fora apanhado na rua, num dia de muita chuva. Naquela quarta-feira, um dilúvio caiu sobre a cidade. Valetas transformadas em riachos. Leonardo Pançudo do finado João de Maria Gaguinha apanhara-o. Era um filhote desnutrido, magrinho de dar dó. Comido por vermes. Uma bactéria devorava-lhe os pelos. Um cãozinho em verdadeira petição de miséria. Medicado, alimentado, curado, Veludo recebeu este nome por causa da cor negra sem mancha. Tornar-se-ia o xodó da casa de Leonardo Pançudo. Até a velha Domitila Coceirinha, avó de Leonardo que morava com a família do neto, e que era muito mais rabugenta do que Veludo, passou a gostar muito do cão que conquistara a família dos Pançudos. Aliás, ser Pançudo era a marca da família do finado João Guedes de Menezes, o João de Maria Gaguinha, sua generosa mãe. 
Pois Veludo ainda ladrou algumas vezes. No interior da casa, todos ficaram de prontidão. Alguém ou alguma coisa Veludo teria visto ou farejado. Era Paulinho Marreco, dos Marrecos do Costado Alto, pra lá das Bananeiras do finado Felismino. Bananeiras era uma fazenda de muitas terras, de muitas pedras e de muitas cobras cascavéis. 

Paulinho Marreco, de batismo Paulo José, e, de certidão civil, Paulo José Loureiro Matoso Guedes, era filho de Matias Marreco e neto de Aristides Marreco. Marreco era, claro, apelido bicentenário da família Loureiro Matoso Guedes, gente dos tempos do Império, aparentada com o Barão da Patioba. 

O que haveria de querer Paulinho Marreco, àquela hora, na boquinha da noite, hora do café noturno, que nas casas dos grã-finos se dizia jantar? Logo se saberia. Veludo fora acalmado por um dos meninos de Leonardo Pançudo, Tibôco Pançudinho, que era o seu apelido. O menino abriu o portão fechado a cadeado. Paulinho Marreco perguntou: “Seu pai taí, meu fio?”. Estava sim. O visitante entrou e dirigiu-se à casa. Ao entrar, sem meias palavras, foi logo dizendo: “Leonardo Pançudo, hoje, eu tô azedo!”. Sem muito entender, indagou Leonardo: “E que bicho lhe mordeu, home de Deus?”. Marreco respondeu: “Pior que não é bicho. É um cabra safado, um fio de uma ronca e fuça, um fio do demo”. 

E foi então que Leonardo Pançudo ficou a par da aflição de Paulinho Marreco. Uma senhora das Bananeiras andou de fuxico com a vizinhança, dizendo que ele, Marreco, andava de cabeça pensa para um lado com o peso dos chifres. Nem casar ele tinha casado e já era corno. Assanhou-se. Azedou-se. E a senhora, uma velhota desdentada, viúva que não tinha o que fazer a não ser lorotar e levantar aleive para desassossegar um cristão, que vivia da sua casa para o seu trabalho. Ora, mas, o que tinha Leonardo Pançudo ou a sua família com os chifres de Paulinho Marreco? É o que os leitores, que, eu bem sei, não estão, nem um tiquinho, curiosos, vão saber. Querendo ou não, vão saber. 

Antes, porém, de revelar esse negócio dos chifres do Marreco, eis que é preciso esclarecer o seguinte: Paulinho Marreco estava de namoro com uma filha de Aloísio Mão de Pilão, do Catolé de Baixo, sujeito afamado pelo murro certo e demolidor, no tempo em que morou em São Paulo e lutou boxe amador. Só não fez carreira porque o pai morreu e ele teve que voltar ao sertão, para cuidar da mãe e dos irmãos menores, que eram apenas doze, todos de cobrir com um cesto. Era uma fileira de buchudinhos. Ocorre que ele, Paulinho Marreco, era um cabra de seus quase trinta anos, e a menina com quem ele namorava, com o consentimento de Mão de Pilão não passava dos treze anos. Casamento, na versão dura do pai da menina, somente quando ela tivesse idade para casar no civil, que filha dele, Aloísio do finado Martônio Pereira Lemos, outro aparentado do Barão, não sairia de casa sem documento passado na Igreja e no cartório. 

Retornando ao assunto dos chifres de Paulinho Marreco, a velha Deolinda do falecido Cassiano Ferreira, funileiro dos melhores que o sertão já vira, e não somente o sertão, mas, quem o sabia, o mundo inteiro, andara de bocarra aberta, e ainda mais aberta porque não tinha lá de seu um só dente, alardeando que a menina Creuzinha, na inocência dos seus treze anos, enfeitava a testa do Marreco. Santo Deus! O aleive chegara ao umbral da janela do oitão da casa da família dos Marrecos. Dona Crisolina, a mãe dos Marrecos, sabedora por um vento que lhe tinha soprado aos ouvidos, chamou o filho às falas: “Andam dizendo por aí, meu fio, que a sua pretendida tem lhe enfeitado a testa”. Paulinho deu um pinote: “O que é isso, minha santa mãezinha?”. A mãe respondeu: “Cheias estão as estradas dessa conversa desaforada. Dizem que a menina tá de xodó com um boneco qualquer”. 

Paulinho Marreco danou-se. Tiraria aquela conversa a limpo. Seria capaz de fazer uma besteira. Levar chifres de uma meninota? E, ainda por cima, com um boneco? Boneco, no sertão daqueles tempos, era como se chamava um sujeito grã-fino, fatiotado, sujeito dengoso e criado com mimos de avó. A velha Deolinda dissera que a mulher de Leonardo Pançudo era a alcoviteira da menina Creuzinha naquela história com o boneco. Daí foi que Paulinho Marreco bateu à porta dos Pançudos. Queria tirar aquela história a limpo. 

Dona Risoleta, a mulher de Leonardo, ao ouvir a lenga-lenga do Marreco, adiantou-se: “É bem verdade que Creuzinha está doidinha pelo boneco. E também é bem verdade que fui eu quem lhe apresentei ao tal”. Paulinho Marreco amarelou. Depois, afogueou-se. Ficou abrasado. Um fogaréu ardeu dentro de si. Procurou chão e não encontrou. Pensou besteiras. Ali mesmo, ele seria capaz de um desatino. Pensou logo em João Pedro de Robertão do Baixio Largo, primo de Dona Risoleta, menino mimado, cheio da grana, metido a conquistador de mocinhas, cuja avó materna, Dona Elvirinha Mecenas, antiga proprietária do engenho Porteiras, o cobria de mimos e dinheiro, coisa que não lhe faltava. Paulinho Marreco quis dizer alguma coisa, mas não teve voz. Um nó na garganta o sufocava. Uma morte, duas mortes... Sabia-se lá! 

Diante do quadro vexatório pelo qual passava Paulinho Marreco, Dona Risoleta perguntou: “Ô, meu filho, você já viu o boneco que eu dei a Creuzinha? Você sabe qual foi o nome que ela lhe deu? Você vive pelo mundo, tangendo tropas de burros, para cima e para baixo. Quantas vezes por semana você vê sua namorada? Tome tento, homem de Deus! Ao boneco de pano do tamanho de um menino recém-nascido, que eu fiz para Creuzinha, ela botou o seu nome. É Paulinho. Como você vive pelo mundo e se esquece de ver a menina com quem você, um dia, pretende casar, as pessoas vivem dizendo de brincadeira que ela arranjou outro Paulinho. É só isso. Se Dona Deolinda, que tem a boca maior do que a boca da noite, vive por aí dizendo lorotas, o problema é dela”. 

Paulinho Marreco viu-se constrangido ao ter que limpar duas lágrimas, que lhe caíam dos olhos. Melhor prosa ele não poderia ouvir naquela boquinha de noite. Então, era aquilo? Ele não era um chifrudo? Creuzinha sentia a sua falta a ponto de buscar um substituto, um boneco de pano? E ainda por cima, dando o seu próprio nome? Aquilo de Creuzinha só podia ser bem-querer. Amizade sem fim. Ou, como diziam por lá, amor. 

Ele beijou a mão de Dona Risoleta. Pediu desculpas à família dos Pançudos. E foi direto à casa de Aloísio Mão de Pilão, pai de Creuzinha, sua namorada. Naquela mesma noite, Paulinho Marreco e Creuzinha noivaram. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/10
20:46

O Barão da Patioba e as químicas

José Lima Santana - Padre, advogado e professor da UFS

 

 

            Tinha gente grã-fina e tinha gente que queria ser grã-fina a pulso. O tataraneto do Barão da Patioba era grã-fino. Na sua cadeira de balanço, tirando baforadas do charuto cubano, que alguns amigos lhe davam de presente, pois comprar mesmo ele não comprava, o Barão tinha ares de gente das elites, da antiga nobreza da Missão. Nobreza comprada a tostões. O que tinha de ares de grã-fino, ele tinha de sovinice. Não gastava um conto para ninguém. E, até certo ponto, fazia bem. Naqueles tempos bicudos, não dava para sair por aí torrando dinheiro.

            O tataraneto do Barão era metido nas químicas. Inventava fórmulas mirabolantes. Misturava uma ruma de pó de todas as cores, fazia um fumacê desgraçado, de vez em quando papocando umas coisas, frascos retorcidos e o escambau. A vizinhança inculta o tinha na conta de um mago, um homem de sabedoria incalculável. E o seu palavreado difícil para explicar as químicas? “Vôte!”, como diria Chico Ferrugem, antigo amigo e companheiro de caçadas nem sempre bem sucedidas do tataraneto. Aquilo nos tempos idos, da adolescência e da juventude.

            João Torróio de Malaquias de Pedrinho do Brejo Seco, viúvo pela segunda vez, ali beirando os oitentão, estava de asa caída para o lado de Mariquinhas de Marta de Zé Pequeno, solteirona, igrejeira, donzela de fé intocável. E de intocáveis outras coisas também. Ela que o dizia. Pois João Torróio bandeou-se para o alpendre avarandado do Barão. Era uma tarde de sábado. O Barão dormitava na cadeira de balanço após ter almoçado uma baita moqueca de siri mole, seu prato preferido, antecedido de duas boas doses de whisky 18 anos, um do rótulo azul. Coisa de nobres. E de sobremesa, uma coisinha mais do que comum, porém, que o Barão adorava, como criança: mariola. Além de mangas. Comia aos montes. O Barão roncava. João Torróio não o quis incomodar. Abancou-se por ali à espera do último ronco do Barão naquela tarde de vento fresco, que não cessava de balançar as folhas da mangueira espada, no oitão do sobrado centenário, onde, outrora, festas e acordos políticos foram celebrados.

            A dona Baronesa mandou servir um ponche de limão a João Torróio. Afinal, além da delicadeza própria da esposa do Barão, comentada na Missão e até na capital, João Torróio era quase da família. Ele fora casado com uma prima distante do Barão, há cinco anos falecida.

            Além de dono de muitas terras na Patioba, o Barão era professor de química na capital, com teses publicadas. O quê? Era sim. E ele enchia as bochechas para dizer que tinha sido aluno do professor fulano, do professor beltrano e do professor sicrano, na Bahia. Ele tivera até mesmo um professor estrangeiro. O Barão não era brinquedo, não.

            O laboratório do Barão ficava nos fundos do sobrado. Ali, por vezes, ele passava manhãs e tardes, nos fins de semana, metido com fórmulas e mais fórmulas. Jocosamente, dizia-se, na Missão, que ele tentava transformar um banco de madeira num boi. Era pura gozação dos seus irmãos e dos amigos de carteado.

            Enfim, o Barão roncou o último ronco naquela tarde de sábado, depois da moqueca de siri mole e de algumas das afamadas mangas da Patioba. “As mais doces do mundo”, vivia a repetir o Barão. Ao despertar, tirou com a “costa” da mão esquerda a librina dos olhos. Vislumbrou o quase parente, João Torróio. E o cumprimentou: “Como vai, primo?”. E o visitante: “Na santa paz de Deus. Mas, primo Barão, eu estou carecendo de um dedo de prosa e de um adjutório”. “O que manda o primo?”, indagou o Barão, ajeitando-se na cadeira de balanço. João Torróio olhou para o Barão, coçou a cabeça descoberta, com o chapéu preto de baeta na mão direita. Chegou para mais perto do Barão a cadeira de vime com assento alcochoado. Olhou para os lados, desconfiado, e sussurrou: “Primo Barão, você que é homem de ciência, que sabe fazer coisas nas químicas, precisa dar um jeito cá n’eu. O primo Barão sabe que eu estou precisado de alguém para tocar meu resto de vida. E eu estou de olho na filha de Marta de Zé Pequeno, que é uma donzela de igreja, fornida e aparelhada”. O Barão com ares nobres rebateu o cochicho: “Mas, no que se deve dar a minha serventia, primo?”. João Torróio emendou: “É aqui que o primo entra: na minha idade, eu estou de pólvora molhada. Tiro certeiro não hei de dar. Por isso, preciso do seu adjutório. O primo me fará o favor de me dar uma fórmula que me esquente de volta a pólvora. Preciso de pólvora seca, para não passar vergonha, no novo casamento”.

            Naquele instante, o Barão quase levantou da cadeira de balanço. Apalpou o bolso da camisa, onde estavam um charuto e o isqueiro. Acendeu o cubano legítimo. Tirou, resfolegando o peito, as primeiras baforadas. A fumaça cheirosa rescendeu no ar. Não era um dos charutos mata-mosquitos que João Torróio fumara por muitos anos. Porém, há uns dez ou doze anos ele não mais fumava. Recomendação médica.

            “Primo João, as minhas químicas são de outro tipo. Não são farmacêuticas. Eu não tenho fórmulas mágicas que dê jeito em coisas mortas. O primo vai me desculpar, mas eu não lido com esse tipo de adjutório, de pólvora molhada etc.”.

            Decepção. João Torróio decepcionou-se com o primo Barão. Ou quase primo. Aliás, a partir dali, nem primo, nem quase primo. E, a bem dizer, nem Barão. Onde já se tinha visto um Barão de título comprado na Corte por uns tostões ensebados? Um título representado por um papel furta-cor? Aquilo era título de Barão? O tataravô do atual Barão talvez nem tivesse comprado o tal título. Devia ser invenção dele ou do povo. Título que ninguém nunca viu, a não ser Melquíades Félix Simões das Palmeiras, que dizia ser o papel do título do tipo furta-cor. Somente ele, e mais ninguém, sabia do título de baronato. Um papel furta-cor...!

            João Torróio saiu da casa do Barão sem se despedir. Decepção. Um Barão que não era Barão de verdade. Um primo ou quase primo que se negava a fazer uma de suas químicas para lhe poder secar a pólvora molhada. Decepção.

            A boquinha da noite chegou. E com ela, os pernilongos. O Barão recolheu-se. Foi saborear o mingau de puba da dona Baronesa. Supimpa! E enquanto ele saboreava o mingau quase colando os beiços, pensou, tristemente: “Não é somente João Torróio que está com a pólvora molhada!”.

            Feche o pano. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
15/10
15:38

Arte, sim. Mas, com respeito

José Lima Santana
Professor da UFS

Embora não sendo versado no tema “arte”, eu publiquei no final dos anos 1980, um artigo sobre a exposição do pintor argentino Alberto Carbi, realizada no Rio de Janeiro, onde ele residia. Aliás, à época, eu ensinava, no segundo grau, a disciplina História da Arte. Por necessidade de alguém que a lecionasse. Somente por isso. Todavia, do artigo publicado no jornal Gazeta de Sergipe, foi extraído um texto de algumas linhas que adornou o folder, em francês e espanhol, do referido pintor, indicado pelo Senado da Argentina, para representar o país na grande exposição de 1989, comemorativa do bicentenário da Revolução Francesa, em Paris. Alberto Carbi foi um amigo que eu conheci através do meu compadre Beto, pai do meu afilhado Victor Vilar Gomes, carioca da gema. 

Por outro lado, lecionei a disciplina Estética Filosófica, no curso de Filosofia, no Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição da nossa Arquidiocese. Igualmente, por não ter quem a lecionasse. Posso não entender de arte. Posso não entender de estética sobre a qual tive que estudar. Porém, uma coisa é certa: entendo de bom senso. 

Nas últimas semanas, parte do Brasil entrou em polvorosa, por conta de uma exposição, a “Queermuseu”, em Porto Alegre, e das performances do artista plástico Antônio Obá, do Distrito Federal. Sobre a exposição, que acabou sendo suspensa pelo Banco Santander, e frustrada no Rio de Janeiro, pelo prefeito Crivela, o mundo dos articulistas de jornais e revistas e de comentaristas televisivos quase desabou. Sentaram a porrada nos grupos que se revoltaram contra a exposição, que apresentava algumas “bizarrices”, como figuras que remetiam à pedofilia, à zoofilia e à pederastia, neste caso, a figura de um negro fazendo felação em um branco e sendo sodomizado por outro branco. Sinceramente, alguém compraria uma “obra de arte” dessa para ornamentar a sala de estar de sua casa? E mais: onde estavam os movimentos que defendem os direitos dos negros, que silenciaram quanto a essa figura “ridícula”? Faço apenas estas duas perguntas. Todavia, vai a uma exposição quem quer ver o que lá está exposto. Acho, apenas, que se deveria ter estabelecido uma idade limite. Quanto a ver bizarrices, que ficasse por conta dos bizarros. Cada um é livre para fazer suas escolhas. 

Eu jamais vou querer que a liberdade de expressão venha a ser fraturada, quebrada, atirada ao lixo. Ela é uma conquista da democracia. Uma conquista dos princípios que têm levado o mundo ocidental a melhorar o seu rumo. E parte desse melhoramento se deve, quer queiram ou não, ao cristianismo, que, dentre outros feitos, moldou o princípio da isonomia, desde o Evangelho de Jesus Cristo e como tão bem está estampado, inclusive, nos Atos dos Apóstolos. Critiquem o quanto quiserem o cristianismo e, mais de perto, o catolicismo, mas a chamada moral cristã, mesmo com alguns exageros, abriu mais portas do que as fechou. Somente os tresloucados não reconhecem isso. 

Com relação ao caso do artista Antônio Obá, como o nome já o diz, deve ter uma matriz nos cultos afro-brasileiros. Pelo que procurei ler sobre ele, pode até ser um artista promissor, naquilo que, em parte, apresenta, pois consta entre os finalistas do Prêmio Pipa de 2017, instituído em 2010, pelo Instituto Pipa e pelo MAM do Rio de Janeiro.

Todavia, esse Antônio Obá, depois de uma performance tida como profana, ao usar hóstias, numa simulação de “missa negra” (ou preta, com o ele chamou), apresentou-se noutra performance que, sinceramente, também merece o repúdio dos católicos e de quem mais prezar pela dignidade, sendo de qualquer religião, ou não professando religião alguma, mas tendo, ao menos, um mínimo de bom senso. Ele se apresentou nu, cobrindo suas partes pudendas com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que, para nós católicos, é a Padroeira do Brasil. 

Muito antes, a imagem de Aparecida foi chutada num programa de TV apresentado por um bispo de uma denominação religiosa protestante. Os protestos foram tantos, que o bispo foi afastado daquela TV. Mais recentemente, um líder de outra denominação protestante comparou a imagem de Aparecida a uma garrafa pet de coca cola. Mais protestos. E o vídeo foi retirado do ar, porém, depois de ter corrido o mundo. São acintes de protestantes contra a fé católica. Todavia, reconheço que ainda há muita animosidade de lado a lado, ou seja, entre católicos e protestantes e vice-versa. O que é, deveras, lamentável. Todos adoram ao mesmo e único Deus. Cada qual ao seu modo. O modo de caminhar de cada um é próprio de cada um, mas o caminho a ser percorrido é o mesmo, a verdade a ser proclamada é a mesma, a vida a ser vivida é a mesma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus Cristo. 

Voltando ao Antônio Obá, a performance dele com a imagem de Aparecida foi verdadeiramente acintosa. Vergonhosa. Ridícula. Uma aberração. Ele poderia ter usado a figura em gesso de um orixá. Ele não o fez. Poderia ter usado a imagem de Buda. Não o fez. Poderia ter usado qualquer outra imagem ou referência a qualquer religião. Não o fez. Nem deveria jamais. Por respeito aos que professam esta ou aquela religião ou filosofia religiosa, não deveria ter feito uso de nenhuma imagem, figura ou representação de valor religioso. Como não deveria jamais ter usado a imagem de Aparecida, que representa um valor da fé católica. Claro que não é a imagem em si que é um valor da fé católica, mas, sim, a pessoa que a imagem representa, isto é, Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, o Unigênito de Deus. 

O Antônio Obá, como já foi dito, cobriu sua genitália com a imagem de Aparecida. Uma baixaria. Uma canalhice. Depois, ralou a imagem de gesso num ralo, dela fazendo pó, colocando-o numa gamela do tipo usado em ritos do candomblé. Que performance é essa? Que arte é essa? Ele tentou explicar-se. A explicação é chula. Tenho o dever de respeitar a pessoa dele, a sua arte, mas jamais poderei compactuar com a infeliz performance. E sabem por quê? Porque é simplesmente uma agressão ao bom senso e aos católicos. É uma agressão a “princípios coletivos de vida”, para usar uma expressão do filósofo Mário Sérgio Cortella. Para ele, a liberdade de expressão não deve ser cerceada, mas quem se expressa livremente deve arcar com as consequências, quando fere suscetibilidades, quando gera controvérsias, quando, repito, fere “princípios coletivos de vida”.

Que a liberdade de expressão, pela qual tanto lutamos, prevaleça. Porém, que prevaleça igualmente o bom senso. O respeito. Que todos possam se respeitar. E que nós, católicos, possamos nos dar ao respeito de exigir respeito à nossa fé e a tudo que a ela também diz respeito. 

O uso da imagem de Nossa Senhora Aparecida ou de quaisquer outras imagens não significa que nós somos idólatras, como alguns dizem. Não. Idolatria seria abandonar o culto e o temor de Deus por quaisquer ídolos. Nós católicos não fazemos isso. Imagens, para nós, são lembranças de pessoas que deram, em vida, exemplos de amor à Boa Nova de Cristo, à Palavra de Deus. Nisto, Maria de Nazaré é inigualável. 

O mundo precisa, sim, de tolerância. Mas, isso tem uma mão dupla. Tolerância de todos para com todos. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
08/10
21:26

A vingança do prefeito

José Lima Santana
Professor da UFS

Deu-se o fato nos tempos dos trabucos e das tocaias. Do coronelismo. Tempos em que a política era, nalguns cantos remotos, verdadeira arte do cão. O diabo juntava e espalhava, ao mesmo tempo, sempre auxiliado por mentirosos e malfazejos. Em todo lugar digladiavam-se os chefes políticos. Em Aracati, cidadezinha perdida nos confins dos grotões, o prefeito Tibúrcio Veiga, vulgo Tibúrcio Cospe Fogo, mandava na política local há mais de trinta anos, elegendo-se prefeito ou elegendo comparsas seus, homens de sua confiança, que, eleitos, lhe passavam o mando da Prefeitura. Ele tinha, pois, o mando e o comando. Ninguém lhe fazia frente. Todos os opositores eram derrotados nas urnas viciadas. Governasse quem governasse o estado, a UDN ou o PSD, que ali, em Aracati, reinava Cospe Fogo. Com ele, ninguém podia. Tinha corpo fechado nos embates políticos. Nas duas únicas vezes em que um candidato a prefeito ameaçou ganhar a eleição, a morte de espreita apareceu na curva de alguma estrada. 

O diretor da instrução pública, como, à época, era designado o secretário de estado da educação, aportou em Aracati com pequena comitiva. Iria escolher o terreno para a construção de um grupo escolar, que era uma novidade. Poucas cidades tinham uma obra de igual porte. A comitiva da autoridade estadual chegou ao fim da tarde. Ali pernoitaria, para, na manhã seguinte, visitar localidades urbanas, a fim de escolher o lugar adequado para tão importante empreendimento público. A secretária da Prefeitura, na momentânea ausência do prefeito, dirigiu-se com a comitiva à pensão de Valdivino de Sá Luzia de Maria Terta, uma das duas pensões da cidade, mas, de longe, a de melhores condições para receber tão ilustre comitiva. 

Na pensão, diante do proprietário, a secretária demonstrou grandeza: “Olhe aqui, ‘seu’ Valdivino, todas as despesas destes senhores correrão por conta da Prefeitura. Sirva do bom e do melhor”. Valdivino apertou ainda mais os apertados olhos e disparou: “Dona Celinha, por conta da Municipalidade, não. Faz dois anos e um pouco mais que eu não vejo a cor do dinheiro da Prefeitura. E a conta não é pequena”. Foi um vexame! Dona Celinha pasmou. Amarelou. Titubeou. Procurou terra no chão e não achou. Constrangimento geral. A autoridade estadual mitigou a situação. Os funcionários públicos estaduais recebiam diárias para pagar os dispêndios. Não havia, assim, necessidade de a Prefeitura fazer mais despesas.

Tudo serenado, a comitiva instalou-se em três dos quartos da “Flor do Aracati”. O jantar foi servido após o banho de cuia, pois água encanada era um luxo pelo qual a cidade aspirava. Cuscuz de milho ralado com recheio de dicuri e queijo de coalho. Macaxeira cacau do quintal da própria pensão. Feijão e arroz temperados. Carne de sol assada na brasa. Galinha de capoeira de cabidela. Um assado de porco tostadinho de dar gosto. Um ensopado de carneiro. Uma farofinha de ovos. Licores de jenipapo e de jabuticaba, para abrir o apetite. E mais, para a sobremesa: doce de leite, pudim navegando em grossa calda, doce de goiaba e de mamão. 

A comitiva fartou-se. O diretor da instrução pública, deseducadamente, arrotou à mesa. Um despropósito. Mas, era uma autoridade da capital. Ninguém reparou. No dia seguinte, o prefeito aguardou a comitiva, na Prefeitura. Sendo informado pela secretária da desfeita que Valdivino praticou, Cospe Fogo não foi à pensão. Localidades visitadas, o diretor da instrução escolheu o lugar onde o grupo escolar deveria ser construído. O governador prometeu, em campanha, que construiria a obra. A sua palavra era um tiro certo. A comitiva retornou à capital, no meio da tarde. 

Durante a madrugada, Pedro Carroceiro trabalhou sem parar com dois ajudantes. Funcionário municipal, ele recolhia o lixo das casas, na carroça puxada por um burro, que, se gente fosse, já estaria aposentado. Ao amanhecer, Valdivino deparou-se com a frente da pensão entupida de lixo. Era a vingança do prefeito, que deu ordem a Pedro Carroceiro para limpar a cidade e entulhar a pensão. Na fachada da pensão, de uns doze metros, a pilha de lixo subia a mais de metro. Cães vadios cuidavam de espalhar a sujeira. A fedentina já conspirava contra o ar puro da praça.

Valdivino era um homem pacato, mas de sangue no olho e de pelos nos buracos das ventas. Contratou quantas carroças disponíveis pôde encontrar. Limpou a frente da pensão. O lixo foi acumulado num terreno baldio a ele pertencente. À meia-noite, as carroças voltaram a trabalhar e despejaram o lixo na porta da Prefeitura. Os adversários do prefeito Tibúrcio Cospe Fogo riam às gargalhadas com o feito de Valdivino. Vingança contra vingança. Todavia, o prefeito virou a besta fera. Ao ser avisado sobre o monte de lixo na porta da Prefeitura, mandou convocar Zé Grande, afamado pistoleiro de Brejo das Cobras, seu melhor pau-mandado, a fim de dar uma lição no dono da pensão, matá-lo com se fazia com um cachorro sarnento. Zé Grande morava no povoado Baixa Limpa, que era o povoado mais distante da sede municipal, e, por isso, somente chegaria à cidade no fim da tarde. 

O dono da pensão foi avisado de que corria perigo. Na cidade havia um bocado de leva-e-traz. E Tibúrcio não escondia de ninguém o seu intento. Era até bom que a notícia se espalhasse para que Valdivino se borrasse o dia todo. O sol espalhava brasas pelo mundo. Não corria nem um soprinho de vento. Muita gente cochichava nos bares e nas ruas. Valdivino que se cuidasse. Dele já se dizia que era um homem morto. 

Eis que Zé Grande, o pistoleiro, chegou à cidade. Dirigiu-se à Prefeitura, onde se encontrava um ajuntamento de cupinchas do prefeito. Zé Grande recebeu as instruções. Delas não gostou. Então, tinha saído de casa para matar “seu” Valdivino? Enraiveceu-se. E disse, desaforadamente: “Prefeito, eu já lhe servi uma ruma de vezes. Já botei gente demais no cemitério para a sua serventia. Mas, ‘seu’ Valdivino é meu vizinho de terras, um bom vizinho, e é um homem honrado. Arranje outro para fazer o serviço, se puder, porque desta vez, eu estou contra o senhor. Mudei de lado. Com ‘seu’ Valdivino ninguém mexe. E é melhor não se meter comigo”. Recado dado. Por aquilo, Cospe Fogo não esperava.  De raiva, tremeu na cadeira. E foi assim que Valdivino escapou da morte. No ano seguinte, muita gente empurrou Valdivino para a política e ele venceu a eleição para prefeito contra o candidato de Cospe Fogo. 

Poucos dias após a posse, Valdivino sofreu um atentado. Quase morreu. O autor dos tiros foi preso. Delatou. Cospe Fogo tinha sido o mandante. Também foi preso. O júri foi desaforado para a capital. Sete a zero contra o réu, por tentativa de homicídio. O coronelismo mixou em Aracati. 

******
NOTA: Sobre o artigo intitulado “Algumas Mentiras”, publicado aqui no Jornal da Cidade e reverberado no site “Clicksergipe” e no blog “Primeira Mão”, na semana passada, em minha página do Facebook foram registradas mais de 370 curtidas e mais de 70 comentários, em solidariedade a este subscritor. Nunca temi os embates da vida. Não os provoco, mas deles não fujo quando sou instigado, nem mesmo quando vêm da podridão de covas rasas. Nos meus 41 anos de militância na Igreja, eu absorvi o que disse o Mestre: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10,19). Que todos vivam em paz. Se puderem e se quiserem. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
01/10
17:40

Algumas mentiras

José Lima Santana
Professor da UFS

Em 1974, eu me tonei, em Nossa Senhora das Dores, correspondente do antigo “Diário de Aracaju”, que funcionava na parte térrea do antigo prédio da Rádio Jornal, e que, hoje, se encontra abandonado, na Av. Rio Branco. Na década de 1980, publiquei meus primeiros artigos, na Gazeta de Sergipe. Na década de 1990, comecei a publicar, de forma esparsa, artigos no Jornal da Cidade. A partir de 2010, Marcos Cardoso reservou-me, no JC, um espaço aos domingos, que tenho usado desde então. Publico o que me vem à telha. Ao longo desses sete anos, publiquei artigos sobre política local, questões nacionais e internacionais, artigos jurídicos, mas, aos poucos, fui dando preferência a publicar “contos provincianos”, ou, como, queiram os leitores, “causos”. 

Publiquei artigos em periódicos e revistas. Publiquei artigos exclusivos no site Clicksergipe. Os artigos publicados semanalmente no Jornal da Cidade são, há algum tempo, republicados no site Clicksergipe e no blog “Primeira Mão”, de Eugênio Nascimento. Tenho, pois, três veículos de comunicação para a publicação do que eu escrevo, semana após semana, além de minha página no Facebook. 

Eu sempre tive e tenho a convicção de publicar o que me ocorreu e o que me ocorre. Jamais tive amarras. E ninguém jamais me colocará amarras. Não sou jornalista. Sou cidadão. Sou servidor público (passando pelas três esferas federadas) há 44 anos. Sou advogado há 37 anos. Sou professor de Direito, na UFS, há mais de 20 anos. Sou padre desde 9 de dezembro do ano passado, após 41 anos de serviços prestados como leigo à Igreja.

Como técnico, servi a algumas administrações públicas, em momentos diferentes e diversos. Exerci cargos e funções nos três governos de João Alves, no governo de Valadares, no segundo governo de Albano Franco, e, na Prefeitura de Aracaju, na segunda gestão de Jackson Barreto e na de Almeida Lima. Eu sempre escrevi, livremente, a favor ou contra certas situações postas. Jamais contra ou a favor de ninguém deliberadamente. As pessoas fazem ou dizem coisas que merecem os meus comentários, quando os quero apresentar. Alguns não gostam. Que comam menos!

Há alguns dias, um jornalista referiu-se a um padre recentemente ordenado e que escreve artigos. O tal jornalista, que já tinha se insurgido contra o Arcebispo Metropolitano de Aracaju, na semana anterior, atacando-o de forma ostensiva e maledicente, voltou a insurgir-se contra ele, mas, atacando, primeiro, o padre recentemente ordenado e que escreve artigos. Dos quatro padres ordenados por último, na Arquidiocese de Aracaju, o único que publica artigos sou eu. Ah! Jamais me importei ou me importarei com o que possam dizer sobre mim, a não ser que atinjam minha honra. E a não ser que MINTAM deslavadamente. Foi o que aconteceu.

O tal jornalista em sua sanha miserável de atacar por atacar, acabou, por desinformação ou por pura maldade, MENTINDO MAIS DE UMA VEZ. Primeiro, mentiu ao dizer que o padre recentemente ordenado e que escreve artigos (se é que sou eu, como se pode deduzir) escreve artigos políticos. O último artigo político que eu escrevi foi publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º de novembro de 2016. Quando de minha ordenação, a 9 de dezembro último, eu disse, em meu discurso, que não mais escreveria como vinha escrevendo. A Rádio Cultura transmitiu a solenidade da ordenação. Os ouvintes me ouviram. E, desde então, silenciei, em artigos, sobre a política tupiniquim. Tenho publicado os meus “causos”. MENTIU, pois, o tal jornalista.  

E MENTIU novamente ao dizer que eu sou parente de um político. Eu não sabia que tinha um político como parente. Mas, não tenho, nem mesmo um parente lá por trás das nuvens, como se diz em Dores, minha terra natal. Ou será que todas as pessoas que têm o mesmo patronímico são aparentadas entre si? Todas as pessoas que assinam o sobrenome LIMA ou SANTANA seriam de minha família? MENTIU pela segunda vez o tal jornalista. Pergunto: MENTIU por desinformação ou por maldade? 

Se alguém quer me instigar a escrever de novo artigos sobre a política sergipana, saiba que já estou sendo tentado. A minha condição de padre não me impede de fazer isso. O pároco de uma das Paróquias da capital escreveu-me, no Whatsapp, que teria um padre por trás da escrita do tal jornalista, ao atacar o Arcebispo duas vezes no espaço de poucos dias. Será? Duvidar, eu não duvido. Mas, acreditar, eu não gostaria. Contudo, se for o caso, é facilmente identificável. Já se disse que em Sergipe, todos se conhecem. No Clero aracajuano, também.   

Evidentemente, ao decidir não mais escrever artigos sobre a política de Sergipe, a partir de minha ordenação, eu o fiz por consciência. Todavia, continuarei fazendo os “vlogs” sobre quaisquer temas, para o Clicksergipe, como, aliás, já o fiz no passado. Goste quem gostar. E se decidir voltar a escrever sobre política, para o Jornal da Cidade, eu o farei. 

O tal jornalista MENTIU pela terceira vez, ao dizer que eu escrevo (se é que sou eu mesmo) puxando para um lado, no caso, o do governador Jackson Barreto. É óbvio que ele jamais leu os meus artigos, nos quais eu disse sempre o que bem entendi sobre qualquer político sergipano, ora mostrando suas falhas, ora mostrando seus acertos. Exemplos? Na edição do JC, de 1º de novembro de 2015, eu falei sobre os problemas da segurança pública, no país e em Sergipe. Na edição de 22 de fevereiro de 2015, eu disse que um “puxa saco” de Jackson Barreto exigia que o governador me desse um “corretivo” porque eu teria mostrado falhas na administração estadual. Na edição de 1º de fevereiro de 2015, eu disse que Jackson Barreto precisava “botar o carro para andar”. A roda estava presa na administração dele. Sem falar nos artigos e nas notas políticas exclusivas para o site Clicksergipe, nos quais eu falei o que tinha que ser falado a respeito das administrações de Jackson e João Alves. E sobre o comportamento de alguns políticos com atuação no Parlamento federal. 

Com relação aos dois ataques frontais ao senhor Arcebispo, Dom João José Costa, dele não tenho procuração para fazer a sua defesa. Mas, por uma questão de princípio, defendo-o. O tal jornalista, a soldo não sei de quem, ou, seja lá por qual motivo for, desconhece um fato à época amplamente divulgado, que foi convocado pelo Arcebispo, inclusive, com a colaboração de alguns pastores evangélicos, e que se refere à Caminhada pela Paz e pela Vida, levada a efeito em 3 de junho deste ano,                após uma conversa franca e direta dos três Bispos da Província Eclesiástica de Sergipe, Dom João, Dom Giovanni (Estância) e Dom Mário (Propriá) com o governador do estado, quando os três mostraram preocupação com a segurança pública. Naquela ocasião, os três Bispos também demonstraram ao governador descontentamento com a possibilidade de privatização da DESO. Disso, o tal jornalista não sabe. Ou, simplesmente, ignora. Tem gente assim: que não sabe das coisas ou as ignora, sabe-se lá por quais motivos ou interesses. 

MENTIRA? Ora, quem MENTE, MENTE por algum motivo. Geralmente, escuso. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/09
09:15

O burburinho

José Lima Santana
Professor da UFS

Dia calmo. Era o que prometia aquela sexta-feira. A manhã veio tocada por uma aurora de cores e sons que somente a vida interiorana era capaz de oferecer. No sitio de Tião Ceboleiro, lá para os confins do Tamanco Velho, subúrbio distante de Missão do Araticum, cidadezinha sonolenta e de gente pacata, o bode Chambinho espreguiçou-se. O galo Zé Porreta cantou três vezes. Logo, um alvoroço no terreiro da frente da casa, tão carente de consertos. Dona Esmeralda, mulher de Tião, atendeu à porta o chamado de Maria de Terto de Doca do Marmeleiro. Vizinha e comadre. Maria carecia de uma xícara de açúcar. Era costume da vizinhança se socorrer de adjutórios ocasionais. Ora um pouco disto, ora um pouco daquilo. E todos se ajudavam mutuamente. Ninguém passava certas necessidades. A vida comunitária fazia dos vizinhos verdadeiros amigos e irmãos. 

Tião Ceboleiro tinha madrugado naquele dia. Teve precisão de ir ao Riacho do Meio, povoado distante meia légua da Missão do Araticum. Era a terra de seus pais, João Vicente de Robertão de Sinézio e Maria das Dores do finado Vavá Pimenta. Vivos. O pai passava dos noventa e a mãe andava perto. Firmes e gozando boa saúde. Longe, certamente, ainda iriam. Tião vendera um cavalo de montaria a um primo, Valdivino de Totonho Bucho Grande, e fora entregar o animal, como prometido. Entrega feita, dinheiro no bolso, Tião Ceboleiro tomou o rumo da casa dos pais. Tomou-lhes a bênção. O café estava posto. O filho assentou-se diante de um cuscuz fumegante e de uma vasilha com leite gorduroso, a nata amarelada por cima. Ovos estrelados e carne de sol assada na brasa. Um capeado. Gordura vistosa. Os três comeram em silêncio como convinha. Conversas à mesa, somente se o chefe de família tomasse a iniciativa. Desde sempre, era assim. 

Acabado o café da manhã, Tião indagou ao pai se ele pretendia vender as quatro cabras que viviam soltas no pequeno sítio. Cabras de boa raça. Boas de leite. A resposta foi “não”. No meio da conversa, pai e filho ouviram um burburinho vindo da estrada, que passava em frente à casa. O burburinho aumentou. Tião achegou-se da porta. Era um pequeno grupo de pessoas que conduziam um sujeito desconhecido para Tião, amarrado nos braços por um pedaço de corda de caroá. “O que é isso, moçada?”, perguntou Tião. Adiantou-se na resposta Marcelino Boca de Sapo, primo distante de Tião: “Este sujeito tentou fazer coisa feia com a filha de Manuquinha de Zé de Vito. Eu mesmo impedi o intento maligno deste satanás. Vamos levá-lo pro delegado tomar conta dele. Mas, antes, demos umas cipoadas nele e deitamos sal grosso pra curar os talhos”. Tião tirou o chapéu, coçou a cabeça e disse: “Cuidado, gente. Não vão fazer mais besteira, não. Quem deve dar cobro dele é o sargento Miguelão. É ele a autoridade”. 

O grupo seguiu viagem. Tião despediu-se dos pais. Tomou-lhes a bênção e partiu a poucas braças do grupo que conduzia o malfazejo. Tendo negócios na cidade, acompanhou o grupo. Na cidade, a passagem do grupo pelas ruas causou ainda maior burburinho. As pessoas se agitavam nas portas e nas calçadas. “O que foi?”, Quem é este?”, perguntavam as pessoas curiosas e ávidas por novidades. A vidinha pacata da cidade era agitada por qualquer acontecimento fora da rotina cotidiana. Pessoas desocupadas, que nunca faltavam, engrossaram o grupo. Uma mulher reconheceu o malfeitor: “Este desinfeliz tentou fazer coisa que num se pode dizer com a neta de Sá Margarida de Pedrinho das Flechas, num faz cinco dias”. Alguém conseguiu achegar-se ao sujeito e deu-lhe um soco na cabeça. Marcelino Boca de Sapo impediu outras agressões. 

No velho quartel da polícia, o malfazejo foi entregue aos cuidados do sargento Miguelão, que ali estava destacando há uns dez anos ou mais. Conhecido por todos, era bonachão, mas firme no riscado de suas funções como chefe do destacamento policial e delegado comissionado. Sentou-se o sargento para tomar anotações. Pergunta daqui, pergunta dali, tudo sendo anotado à mão, no livro de capa preta e sebenta. Pronto. O preso seria conduzido à cidade vizinha, sede da comarca, para, na delegacia regional, ficar à disposição das autoridades do fórum. O grupo se desfez e cada qual retomou a sua vida, retornou ao seu canto. 

Meia-noite. No quartel de Missão do Araticum só tinha um preso. O dito cujo malfeitor. Cuidando da segurança do quartel, apenas um soldado, Maninho de Zé Tibúrcio, que tinha parentela na cidade, embora fosse natural de Timbaúba de Cima, dali distante umas vinte e tantas léguas. De sono leve, o soldado Maninho, tendo há pouco tempo sentado praça, foi despertado por um burburinho que vinha da cela onde estava o molestador de meninas. Levantou-se. Riscou o fósforo. Acendeu um candeeiro, pois energia elétrica ainda não era uma serventia da cidade. Dirigiu-se à cela. O preso estava rolando no chão, estrebuchando-se, como se estivesse possuído por uma coisa braba. E começou a falar coisas estranhas. E a gritar como um condenado. De um pulo, o preso jogou-se na grade da cela, como se quisesse derrubá-la. Foi contido pela ferragem. A cara do preso mais parecia a figura do diabo. 

O soldado Maninho não era homem de amedrontar-se com pouca coisa. Sacou a arma, cujo coldre estava pendurado no ombro esquerdo e gritou a plenos pulmões: “Fio da gota serena, se tu escapar daí, seu tinhoso das seiscentas, eu lhe como na bala”. O malfazejo endiabrado parou. Estatelou-se no cimento frio do piso da cela. 

Enroscou-se em si mesmo. Enrodilhou-se como uma cobra. Soltou um gemido infernal. O soldado Maninho, com a arma na mão direita e o candeeiro na mão esquerda, manejou a luz para mais perto da cela. O malfazejo encantou-se. Virou uma cobra grande de língua de fogo. Maninho arregalou os olhos, soltou o candeeiro no chão e disse: “Vade retro, satanás das profundas!”. O candeeiro, no chão, continuava aceso. O soldado mirou a cobra grande e fez menção de disparar. Naquilo, abriu-se a porta do quartel. Era o sargento Miguelão, que morava na casa em frente ao quartel. Acordara com o labafero. Vinha com uma lanterna na mão. Mirou o facho de luz para dentro da cela. Assombrou-se. “O que é isto, soldado Maninho?”. O subalterno respondeu: “Deve ser o diabo em pessoa, que veio acabar com a gente, sargento!”. A cobra passou pela grade, sacudiu o rabo e derrubou o soldado e o sargento. Ganhou a porta e o mundo, para nunca mais aparecer.

Foi isso mesmo que o sargento e o soldado contaram ao povo. Porém, Tião Ceboleiro descobriu na Mata Grande, cidade para além do rio das Mercês, que o malfazejo se chamava Antônio Silva, primo da mulher do sargento Miguelão. O sargento e o soldado deram fuga ao malfazejo? É provável. Afinal, ninguém andava virando cobra por aí. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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