16/01
09:19

Mais um prefeito corrupto

José Lima Santana
Professor da UFS

Compra de votos na eleição? Abuso do poder econômico? Licitações viciadas? Coleta de lixo sem controle e, portanto, pagamentos superfaturados? Conchavos com empresas do transporte coletivo urbano? Empreiteiras molhando a mão – e bem molhada – do prefeito? Propinoduto chegando aos vereadores que davam sustentação ao prefeito, num lamaçal maior e mais fétido do que o pântano do Baixio das Serpentes, nas cercanias do Caldeirão de Satanás? Bem que poderia ter sido tudo isso. E muito mais.

Porém, contudo e todavia, não foi nada disso, não. O pau quebrou lá pras bandas da Feira do Malvado, lugarejo pachorrento que, por obra e graça de um deputado assim, assim, com o governo do estado, foi transformado em município. Uma vergonha! Aliás, dos mais de cinco mil, quinhentos e tantos municípios que existem no Brasil, uma boa parte nunca deveria ter deixado de ser povoado ou distrito de outros municípios, dos quais foram desgarrados, para aumentar o número de agents públicos, dentre os quais prefeitos e vereadores, muitos deles da mesma curriola, mamadores nas tetas da vaca leiteira, embolsadores dos parcos dinheiros das respectivas viúvas, ou seja, das prefeituras. Vale dizer, do povo, tão sofrido, tão avacalhado por um bando de larápios descarados, que deveriam ser atirados no Baixio das Serpentes, sendo estas rastejantes suas inocentes primas.

O prefeito corrupto, antes que algum leitor ou leitora se descabele de curiosidade, era Leandrinho de Zé Fumaça, prefeito de Pau D’Arco, antigo povoado Feira do Malvado, denominação que lhe tinha sido dada em tempos mais do que idos, por conta da feirinha que ali se formou, por volta dos anos 1910, e por causa de um amansador de cavalos e burros, que gostava de judiar dos animais. Um malvado da costela oca. Um barrabás! Feira do Malvado. Na entrada do povoado miserável vicejava um frondoso pau d’arco amarelo, na beira da cerca de Tibúrcio Calça Frouxa, o sujeito mais mofino, mais covarde que o mundo viu nascer do Japão ao Catolé de Baixo, de onde o tal era originário. E para quem não sabe ou não lembra, o Catolé de Baixo continua de baixo, sem nunca ter subido a município, simplesmente porque nunca teve e não tem um deputado que lhe valesse, como ocorreu com a Feira do Malvado. O Pau D’Arco amarelo, ou ipê amarelo, da beira da cerca de Tibúrcio Calça Frouxa deu nome à nova cidade. Afinal, Feira do Malvado servia como denominaçao de um povoado, mas, não daria certo para uma cidade, venhamos e convenhamos. 

Leandrinho de Zé Fumaça elegeu-se vereador por três vezes. Loroteiro, metido em farras de bar em bar, de bodega em bodega, amigueiro, marchante de porco, cujas carnes eram vendidas na feira local e noutras duas feiras de cidades vizinhas. Tinha lá seu bom pé de meia, uma mulher zelosa e duas filhinhas desabrochando para a vida. Gente fina, como se poderia dele dizer. Pelo fato de que queria ser prefeito, foi expulso do partido, o PPBRD (Partido Progressista Brasileiro Revolucionário Democrático). O prefeito de então, Afonso Bucho Largo, queria a reeleição. Era do mesmo partido. Ao saber que Leandrinho assanhava-se para tomar o seu lugar, ele deu pinotes, arrotou brasas, pulou num pé só, como se fosse um saci-pererê. Botou a tropa de choque nas ruas, para desmoralizar Leandrinho. Coisas da política tupiniquim, rasteira, que, quanto mais sobe, mais rasteira fica. De Pau D’Arco a Brasília, o caminho é tortuoso, temerário, com cães latindo aqui e ali. Cães da política. Sarnentos, rabujentos e raivosos. Com exceções muito raras, um bando de sariguês mal cheirosos. 

O vereador, pré-candidato a prefeito, ingressou no PRPBF (Partido Renovador do Povo Brasileiro Faminto). Arrastou com ele, outros três vereadores da situação. Os dois da oposição ao prefeito Afonso Bucho Largo, somaram-se a Leandrinho. De nove vereadores, Leandrinho contava com seis, ele incluído. Bucho Largo era rico. Fazendeirão. Mas, como prefeito, era uma lástima. Vivia fora da cidade, cuidando de suas fazendas espalhadas por três municípios. A cidade vivia às moscas. Dos povoados, nem se fala. Campo aberto para Leandrinho de Zé Fumaça, que tinha esse nome, isto é, o pai de Leandrinho, porque era proprietário de uma fubica, um Ford Bigode 1928, que esfumaçava mais do que uma capineira pegando fogo. 

Leandrinho fez-se em campanha. Juntou gente. Os pobres de Pau D’Arco ficaram com ele. Vitória fácil, apesar dos esperneios de Afonso Bucho Largo. Se o dinheiro dele valia, o povo valia mais. Uma vez na vida, ao menos, o povo valeu mais. Sóbrio, Leandrinho começou botando ordem na casa. Fez pequenas melhorias na cidade e nos povoados. Choramingou verbas. Zelou pelo dinheirinho do povo. Atravessou bem o primeiro ano. Servidores e fornecedores em dia. O governo do estado garantiu alguns adjutórios. Nem todos foram cumpridos. Porém, o novo prefeito não se deixava levar pelo desânimo. Fazia mutirões, consertava estradas há muito esburacadas, consertava casas de pessoas pobres, tudo no mutirão. O remedinho para os pobres não faltou. Escolas limpas, criançada com merenda garantida. 

Perto do fim do ano, eis que sobreveio um problemão. Corrupção. Descobriu-se que Leandrinho era corrupto. Mais um prefeito corrupto nos anais da história da administração pública brasileira. Das prefeituras ao planalto, a corrupção escorria em tubos de grossa circunferência. Mundo perdido. Esperanças levadas pelo vento. Pelo vento medonho, qual furacão da ladroagem. Uma bagaçada! 

O prefeito de Pau D’Arco não deixou de vender carne de porco salgada na feira da cidade. Não vendeu mais nas outras duas cidades, mas, na sua cidade, ele não quis perder a freguesia. “Prefeito é só quatro anos”, dizia ele. No meio da feira, Leandrinho foi acusado de corrupto por Jeremias Beato, um pobre amalucado que se dizia devoto de São Miguel Arcanjo, padroeiro da cidade. 
Jeremias Beato berrou na feira: “Leandrinho de Zé Fumaça, você é o prefeito mais corrupto do mundo. Você corrompeu até o meu santinho São Miguel. O dia dele é 29 de setembro, que cai na quinta-feira, mas, você corrompeu o padre Milton Capitulino para mudar a procissão do meu santinho para o domingo. E o meu santinho não disse nada. Foi corrompido também. Quanto foi que você deu a ele? Diga quantas notas você deu ao meu santinho para ele aceitar a mudança da procissão, calado, sem dar um pio, seu corrupto descarado?”. Jeremias Beato era, sim, amalucado. 

A verdade foi que, apesar do dia do padroeiro ser feriado na cidade, o prefeito Leandrinho convenceu o padre Milton, novato na Paróquia, a fazer a mudança da data da procissão para o domingo seguinte, a fim de acolher mais fiéis que vinham de fora. Era fato. E, enfim, todos ganhariam. Porém, foi exatamente por isso que o povo de Pau D’Arco ficou sabendo que o prefeito Leandrinho era corrupto. Tinha corrompido o padre e o santo, como protestou aos berros Jeremias Beato. “Se toda corrupção fosse assim, o Brasil seria o melhor dos paraísos”, diria Marcionilo da Patioba, vulgo Barão. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/01
20:07

Um bando de Cabruncos

José Lima Santana
Professor da UFS

Quem andou, por extrema precisão, pelas brenhas do Pau Seco, Toca da Onça, Riacho dos Ovos, Olhos D’Água do Catimbó e circunvizinhanças, deve muito bem ter conhecido Moitinha de Cima, cidadezinha dorminhoca, com uma igrejinha cai não cai, um quartel de polícia pedindo socorro e uma Prefeitura, que funcionava na casa do prefeito, como se ele fosse o dono daquele pequeno burgo de pessoas muito pacatas. Tão pacatas, que um crime de morte fazia quinze anos que não se registrava. Um furto, um roubo, perdia-se a conta dos anos que tais tipos de crimes se deram. Lugar de paz. Nem na vida política se davam conta de ocorrências que fossem além de um desentendimento deste ou daquele eleitor, lá entre eles, um bate-boca normal de tempos de eleição, mas, sem maior gravame. De anormal mesmo, nos últimos cinco anos, somente o rapto da menina Maria Clara por um filho do capitão Batista, dono do alambique Ferreirinha, onde se produzia uma cachaça louvada por todos. Afora isso, nada de anormal. A cidade era um brinco de sossego. Parada no tempo. E o povinho dali no tempo parado, salvo um ou outro movimento besta de nem chamar a atenção. 
Ah, mas o rapto de Maria Clara, em 1965, chamou a atenção da cidadezinha sonolenta! Um vespeiro em voos de desespero fez-se sentir na manhã em que Dona Floduarda, mãe de Maria Clara e esposa de Américo Mineiro, deu por falta da filha e esta não apareceu para o café da manhã. Um dia antes, Dona Floduarda ouviu um zun-zun-zun das bocas de duas vizinhas loroteiras. Mas, ela nem chite. A filha não tinha namorado. Não tinha, pois, porque ela se preocupar. O que não faltava na cidadezinha pacata eram línguas compridas demais. “Cabeça desocupada é oficina do diabo”, dizia ela, juntando a sua voz às vozes correntes. 

Maria Clara era a filha caçula de Dona Floduarda e de Américo Mineiro, que de mineiro só tinha o apelido. Menina cobiçada por qualquer rapaz de juízo. Flor desabrochando, orvalhada, em manhã de sol. Vestisse a menina com as cores da veste de Nossa Senhora, e dir-se-ia que era a própria representação da Santa Menina de Nazaré. Linda, meiga, solicita com quem de um obséquio dela precisasse. Quinze anos a serem completados no mês de São João. O rapto deu-se em fevereiro.

Somente no fim da tarde, Dona Floduarda recebeu um bilhete mal escrito, da parte de Zuleica de Bastião, prima do raptor, Terêncio do capitão Batista. Maria Clara foi deixada aos cuidados de Zuleica e de seu esposo Bastião, como convinha naqueles tempos e naquelas brenhas. Um rapaz de boa família ao raptar uma moça não a levava consigo de primeira, nem para a casa de seus pais. Embora, se levasse para a casa dos pais, ele, o raptor, teria que deixar a casa até o dia do casamento. Afinal, raptar não significava desonrar a moça, como se dizia por ali. E desonrar a moça significava desonrar a sua família. Era aí que, às vezes, o bacamarte fazia fogo. 

À boquinha da noite, Américo Mineiro e dois filhos arrumaram-se para tocar à casa do capitão Batista, para um dedo de prosa de pai para pai. Ele e a mulher nunca souberam que Maria Clara estava de namorico com Terêncio. Este, já tinha lá seus dezenove, vinte anos, e estudava na capital para ser doutor. Como eles se conheceram, não se sabia. Talvez no Natal, que ela passou na casa de uma tia, em Salto Alto, a maior cidade das redondezas, que dava cinco ou seis de Moitinha de Cima. Quando estava para montar no cavalo castanho, afogueado, eis que no terreiro de Américo Mineiro riscou o cavalo negro como carvão do capitão Batista. Veio sozinho. E veio em paz. “Boa tarde ou boa noite, conforme seja, ‘seu’ Américo Mineiro. Minha esposa Quitéria manda um abraço para Dona Floduarda. Estou desapeando, ‘seu’ Américo”. Desceu da montaria, segurando a rédea com a mão esquerda e estendendo a mão direita para Américo Mineiro. Este, após dar-lhe a mão, convidou: “Vamos entrar, capitão Batista. Julinho, você cuide do animal do capitão!”. 

Dona Floduarda, chorosa, recebeu os cumprimentos do capitão. “Eu soube, no meio da tarde, pelo meu filho Terêncio, que ele carregou sua filha Maria Clara. Peço desculpas pelo atrevimento do rapaz, que, como vocês sabem, está nos estudos para ser médico, na capital. Porém, o meu menino caiu nas graças da sua menina, no Natal, num piscar de olhos. Ele me confessou. E me pediu a bênção para casar com ela, como convém a gente direita como a gente, ‘seu’ Américo e dona Floduarda. Aqui está um pai, em nome do filho, para pedir a bênção de vocês”. 

O choro de Dona Floduarda ficou preso na garganta. Ela bem que quis dizer algo, mas, não poderia causar uma desfeita ao marido. O chefe da família era quem tinha a voz ativa. Primeiro ele. Américo Mineiro ajeitou-se na cadeira. Pigarreou. “Capitão Batista, a gente também nunca soube desse namoro de um piscar de olhos entre os nossos filhos. Afinal, pelo que a gente sabe, eles nunca se encontraram antes do Natal, antes desse piscar de olhos, como o senhor disse. Uma surpresa! Ainda mais por causa da idade dela, que nem quinze anos completou. Ela é a nossa caçula, como o senhor bem sabe. A nossa ponta de rama. Sem desmerecer os nossos outros cinco filhos, Maria Clara é o nosso xodó, meu e de Floduarda. E dos irmãos e irmãs dela também”.

O calor daquela boca da noite de fevereiro abrandou um pouco com um ventinho adentrando pela porta e janelas da varanda da casa. Disse o capitão Batista: “O meu filho Terêncio teve a quem puxar. É um menino respeitador, embora, tomado pelo coração, levou com ele a mulher que ama, na calada da noite, e sorrateiro como um ladrão. Mas, como vocês já sabem, ele deixou a menina na casa da minha sobrinha Zuleica e do seu marido Bastião, pessoas honestas e do meu maior agrado. Com a bênção de vocês, de lá ela só sai para a igreja, no dia marcado. E, por enquanto, lá ele não bota os pés. Respeito é respeito”.

Tudo acertado. O menino Terêncio deixou-se arriar dos quatro pneus pela formosura, pela graça e pela iluminação da menina Maria Clara. Por sua vez, ela também se deixou tocar pela altivez dele, pelo olhar embriagador, que lhe pareceu tão sincero, apesar dos seus poucos anos e da sua nenhuma experiência com um rapaz. Para aquilo, o povo chamava de amor à primeira vista. Havia quem acreditasse. Sem tirar nem pôr isso ou aquilo, Maria Clara e Terêncio formavam um belo casal. O casamento foi marcado junto ao padre Genário Peixoto da Conceição, o padre Peixotão, bom de garfo e copo como ele só. No cartório, o casamento seria feito quando Maria Clara completasse dezesseis anos, idade necessária, segundo disse o escrivão. 

Festa de arromba no casarão do capitão Batista. Américo Mineiro fez questão de dividir as despesas. Em princípio, o capitão não quis concordar com a divisão. A festa era do pai do noivo. Porém, Américo afirmou que o pai da noiva não ficaria satisfeito se não partilhasse as despesas. Ele também era pai. Enfim, tudo se acertou. No meio da festa, com o jovem casal deslumbrado um com o outro, o padre Peixotão propôs um brinde: “Vamos brindar ao mais belo casal de Moitinha de Cima e às duas famílias mais burguesas destas bandas!”. Foi um alvoroço de “Vivas!”. Para bem dizer, o capitão Batista e Américo Mineiro eram os homens de melhores posses dali. Burgueses? Isso era com o padre.

Tefinha de João Beiço Mole perguntou a Sá Mirandinha do finado Juca Prego Solto: “O que quer dizer burguesas?”. A resposta: “Deve ser um bando de cabruncos”. As duas soltaram uma estrepitosa gargalhada. Ia-se lá saber o que eram! Ora, bolas. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/12
16:41

Natal?

José Lima Santana
Professor da UFS

Sim. Natal, sim. Natal do Filho de Deus e Salvador da humanidade. É nisso que nós cristãos acreditamos. Natal é tempo de festa, de alegria, de amor. Mas, todos estarão em festa? Obviamente, não. Há aqueles que jamais tiveram a oportunidade de celebrar o Natal. Destes, alguns nem sabem quais são os símbolos litúrgicos ou populares do Natal. “Alguém ai sabe quem é Papai Noel?”. Muita gente ainda não sabe. Não estou falando acerca do mito Papai Noel, mas do que, na prática, deveria ser feito sobre esse chamado “bom velhinho”. Ou seja, quantos jamais receberam a ternura do Papai Noel em termos de um presente, qualquer que seja? Aliás, tendo sido transformado num condutor do consumismo, tem gente que quer a morte do Papai Noel, que é visto como um engodo por certos grupos iconoclastas. Papai Noel precisa ser destruído porque é um mito branco, europeu, elitista, que, na verdade, nunca chega para milhões de pessoas. “Morte ao Papai Noel!”, pregam tais grupos. 

Quantas crianças, por exemplo, vêem na televisão, nas portas das lojas a figura do Papai Noel com suas vestes vermelhas, com sua barba branca como a neve, com um sorriso muitas vezes forçado, com aquele gritinho (Ho, ho, ho!) que quer traduzir satisfação, porém, jamais viu cumprido o desejo de receber algo vindo do seu suposto saco de presentes? “Morte ao Papai Noel!”. Todavia, quantas crianças ficam na ilusão de que Papai Noel lhes chega, porque há pessoas que conseguem lhes atender o desejo de um presente, por mais simplório que seja? “Morte ao Papai Noel?”. Cada um julgue e decida o que deve ser feito com o Papai Noel. Mas, seria bom ter pena do pobre “velhinho”. 

Na verdade, o que se deve compreender sobre o Natal não é o consumismo que o comércio nos impõe. Não são os almoços ou jantares de confraternização, não raro com troca de presentes, que os colegas de trabalho e tantos outros grupos de pessoas fazem todos os anos. Não são as ceias pomposas ou não, que as famílias realizam. Não são as taças de vinho consumidas. Tudo isso tem feito parte do Natal. Não há como dissociar. Tudo isso criou raízes profundas. É preciso, contudo, ir além. 

Por uma espécie de remorso, pela necessidade, talvez, de “reparar” erros na condução da vida pessoal, há quem deixe cair no colo dos pobres algumas migalhas no período natalino. Ou por motivos altruístas mesmo. Bem. Que assim seja. Não devemos julgar as pessoas pelo que elas fazem, nem o porquê elas o fazem. Que façam! Se apenas um sorriso de criança for aberto no Natal (ou noutro qualquer momento) pela ação de alguém, qualquer que seja o tipo de ação, já terá valido a pena. Morte ao Papai Noel? Ora, deixem o “bom velhinho” branco, europeu, elitista, mítico, em paz. 

Porém, o Natal não está circunscrito ao que acima foi descrito, ou a muito mais do que isso, na mesma visão. 

Tempo de festa, de alegria, de amor. Foi dito acima. Tempo de reverenciarmos o Deus que nos vem, que assumiu a nossa humanidade, que quis viver conosco, para nos ensinar a ser verdadeiramente humanos, solidários, fraternos. Tempo de festa porque o Verbo se fez carne. Tempo de alegria porque a Luz brilhou nas trevas. Tempo de amor porque nós fomos feitos filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, nós devemos amar uns aos outros. Aí, sim, repousa o espírito natalino. No mínimo, devemos nos esforçar para amar. Não com palavras, mas com gestos concretos. Com ações mínimas possíveis. Cada um ao seu modo. 

Jesus veio ao mundo para cumprimento da Palavra de Deus. A Palavra do Pai está no Filho, como também está no Espírito Santo. A Palavra é una. É santa. 

Neste Natal, quantos barracos estarão silenciosos na beira de córregos, nas encostas de inúmeros morros! Nas favelas, nos subúrbios. Quantos corações estarão vazios, embora diante da mesa farta da ceia, da troca mecânica de presentes? 

Jesus não veio a nós em vão. Que em vão não seja o Natal. Que saibamos compreender a liturgia do Advento. E, mais ainda, que saibamos viver essa liturgia. Que comecemos se for o caso a vivê-la. Não apenas neste período, mas por todo o ano, por toda a vida. 

Deixemos que o Natal explorado pelo consumismo continue como algumas pessoas gostam de vê-lo assim, de fazê-lo assim. Não atiremos pedras. Não queiramos a morte do Papai Noel. Queiramos, sim, a morte do descaso, da indiferença, do desamor.

Que o espírito do Natal, o verdadeiro espírito cristão do Natal de Jesus chegue a nós, cristãos ou não cristãos. Espírito de renovação. Espírito de repensar a vida, para fazê-la melhor. Para compartilhar. Para tomar consciência de que mudanças precisam ser feitas em nossas vidas, mas, também, na vida do nosso país assolado pela falta de ética, pela corrupção da parte de empresários e políticos que roubam descaradamente o que faz falta à educação, à saúde, à segurança e a tudo o mais que pertence ao povo. 

Natal? Sim. Que a paz de Jesus esteja conosco. FELIZ NATAL! 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/12
10:58

O jumento caprichoso

José Lima Santana - Advogado e professor da UFS

 

Cosme Cochilo de Véio zanzou por aí, batendo pernas por estradas, caminhos e veredas. O jumento Caprichoso fugiu. Jumento inteiro, que servia para cobrir jumentas e éguas. A procura era grande. E Cosme faturava com ele um bom dinheirinho, que lhe valia como estimável adjutório.

Em torno de umas dez léguas em quadra, ninguém dava notícia do Caprichoso. Algum malfazejo teria dado sumiço ao jumento mais afamado do Brejão da Coruja? Teria Caprichoso servido ao capricho nefasto de algum larápio? Afinal, muita gentegostaria de ter um animal daquele quilate. Era, a bem da verdade, ouro em forma de animal. Jumento de porte avantajado, pelo brilhoso, bicho de teimosia desmedida, que quando cismava de empacar, durava horas parado sem tomar conhecimento da vida e do mundo. Ora, ora, como se um animal irracional pudesse tomar conhecimento de alguma coisa. Instinto não gera conhecimento, hão de dizer os sábios, mesmo os de ocasião, que, sim, são muitos.

Aliás, muito mais do que se pode imaginar. O que não falta neste mundo de meu Deus são sujeitos e sujeitas metidos e metidas a donos e donas da mais vasta e profunda sabedoria. “Pobres coitados/as!”, haveria de relinchar o jumento Caprichoso.Era quase meio-dia de uma quinta-feira. O sumiço do Caprichoso deu-se na segunda-feira, dia da feira semanal da cidadezinha perdida nos confins de Judas, onde o vento fez a curva e quebrou cinco costelas, como dizia Ferreirinha de Chico Bosta de Boi, o pior barbeiro do mundo, mas, nem por isso, deixava de ser o mais procurado do lugar. Não pela destreza no ofício, mas pela boca solta que tinha e que falava de Deus e do mundo. Todos gostavam de suas lorotas. Língua comprida. Língua de fel. Cosme Cochilo de Véio procurava por Caprichoso desde a manhã da terça-feira. Rodou por aqui e por ali. Foi do Brejão da Coruja ao Monte das Argolas. Do Tabuleiro de Severo à Gruta de Maria Preá. Das Timbiras ao Campo Largo. Da Terra Vermelha ao Barro Alto. Nada. Nem sinal do jumento. Teria se encantado? Se avultado? Diziam os antigos que a jumenta de um tal Pedro Tanajura tinha se “envurtado”, numa noite desexta-feira, treze de agosto. Noite de lua cheia, de aflições e de encantamentos. Noite de doidos saírem portas afora, ganhando o mundo. Pois foi, então, que naquela noite, a jumenta Miroró do tal Tanajura envultou-se. De quando em quando, diziam, a envultada aparecia em forma de assombração, correndo trechos e assustando as pessoas. De muito conversar era o povo antigo.

Naquela quinta-feira, ao meio-dia, Cosme Cochilo de Véio, filho de Bertulino de Américo de Julião e de Sá Maria Coça-Coça, cansado, tomou assento debaixo de um péde maria-preta. Sol a pino. O suor descia em volta do pescoço como água de enxurrada. Tirou da cabeça, aliás, um monumento de cabeça, mais parecendo uma bola de couraça, daquelas que o time de pernas de pau do povoado costumava usar nas peladas de fim de semana, o velho chapéu de couro, encardido pelo tempo. Abriu o embornal e dele arrancou um naco de carne de sol assada na brasa, fria como um defunto passado das horas, que ele carregava numa pequena mochila com um punhado de farinha de mandioca e uma banana d’água. Comeu. Depois, sacou da cabaça, que carregava a tiracolo, e bebeu uns goles. Arrotou. Arrotozinho nanico. Estava sem ânimo para prosseguir a caminhada. Nenhuma notícia do jumento Caprichoso. Nada, nada, nada. Não lhe custava tirar um cochilo. A sombra da maria-preta era mais do que convidativa. Encostou as costas no tronco do pé de pau. Adormeceu.

Era a boquinha da noite quando Cosme Cochilo de Véio deu cor de si. Diga-se de passagem, que o apelido Cochilo de Véio não era porque ele era um dorminhoco. Nada disso. Era, sim, porque ele era meio lerdo de entendimento, como se vivesse cochilando como um idoso sofrido, abandonado e enfadado da vida. Idosos sofridos eabandonados há muitos por aí, infelizmente. Despertando, Cosme assustou-se. “Ih, perdia hora!”. Levantou-se para seguir viagem. Não muito longe dali ficava o Vale

Encantado. Lugar bonito, plano de dar gosto. Um riacho chorava dia e noite naquelelugar, as águas descendo devagarzinho como se não quisessem descer, para encontrar orio Maxixe e, engrossando-o, chegar ao mar. Adiante, ficava o sítio de um parente de sua mãe, Toninho Pereba. Ali, ele teria pouso certo e seguro. Tocou em frente. Cosme Cochilo de Véio não andou nem duzentas varas e eis que ouviu um relincho conhecido. Só podia mesmo ser Caprichoso. Até que enfim. “Louvado seja Deus!”, disse ele de si para si mesmo. Mas, onde estava o jumento? Outro relincho.

Mais perto. O animal estava por ali, pertinho, pertinho. Terceiro relincho. Este, porém, veio do alto de um umbuzeiro. Árvore frondosa e de boa serventia pelos seus frutos tão apreciados no sertão. Ah, uma umbuzada com leite grosso de vaca mestiça, como a vaca que ele possuía, Estrelinha, era uma gostosura! E um fortificante capaz de levantar defunto há anos enterrado. Um relincho vindo do alto da árvore? Cosme pensou que estava endoidecendo. Estava não.

O dono aflito do jumento Caprichoso ouviu um farfalhar de folhas. Até parecia coisa do outro mundo. De repente, na noite de lua cheia, o clarão prateado embelezando o mundo, Cosme Cochilo de Véio pôde ver dois jumentos voando e, aproximando-se dele, soltaram relinchos como que zombeteiros. Então, Cosme pensou no que diziam os antigos. Seria a jumenta envultada de Pedro Tanajura que tinha seduzido o seu Caprichoso? Era sim.

Nas quebradas do sertão, muitas coisas aconteciam. Eu juro aos leitores que o relato que acabaram de ler é mais verdadeiro do que dois e dois são cinco. Palavra de um homem de fé.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
10/12
12:46

A Margarida, o Galo e os Pardais

José Lima Santana
Professor da UFS

O sujeito saiu de casa, no fim da tarde, para comprar margarina. Margarina. Puxa vida! Como foi que a mulher deixou faltar margarina em casa? Saiu na bronca. Além do mais, um amigo lhe disse que margarina era quase uma matéria plástica. Um horror! Mas, a sogra dele só comia margarina. Margarina! Era terrível deixar a caminhada em torno da quadra do prédio para ir comprar margarina. Enfrentar o trânsito no fim da tarde. Enfrentar a fila no caixa do mercadinho. Tudo isso para comprar um mísero pote de margarina. 

Não tinha jeito. Pegou o carro. Saiu. A caminho do mercadinho, voltou o pensamento para a família, no interior. Nunca mais tinha ido à cidade natal. Achou-se um filho ingrato. Se já não tinha mais pai e mãe vivos, tinha irmãos, sobrinhos, tios e tias. Não custava dar uma esticada, fazer uma visita. A vida na capital asfixiava. Naquele momento, por exemplo, ele precisava de ar. De ar interiorano. De um lugar bucólico onde pudesse passar ao menos uns bons momentos. Sentiu-se ainda mais um filho ingrato. A sua cidade poderia lhe dar aqueles bons momentos.

O carro passou da entrada para a rua do mercadinho. O pensamento estava voltado para o interior. Seguiu em frente. Logo mais, estava na BR-101. A pista estava muito remendada. Além disso, tinha a sinalização eletrônica. Puxa! Todo mundo só queira lascar com o povo. O governo federal multava. O estadual multava. O municipal multava. Haveria de chegar o dia em que ninguém aguentaria mais andar de carro. 

Percorreu a rodovia federal. Chegou ao cruzamento com a rodovia estadual. Esperou alguns minutos. Muito movimento nos dois sentidos da BR. Entrou na rodovia estadual. Por enquanto, buracos tapados. Mal tapados, mas tapados. Bem adiante, buracos precisando ser tapados. Não havia carro que aguentasse. Pedaços de rodovia que poderiam ser comparados a queijos suíços. Uma lástima!

Enfim, chegou à cidade natal. Foi à casa de uma tia. Bem recebido. Chegou na hora do jantar. A tia era uma exímia cozinheira. Comeu bem. Deveria seguir viagem, para a cidade mais acima, onde moravam os irmãos, onde ele próprio passou a maior parte da vida, da infância à juventude. Ali, o pai tivera casa comercial. Ali, o pai e a mãe estavam sepultados. 

Depois do jantar, foi instado a pernoitar ali, na casa da tia. Deveria seguir viagem na manhã seguinte. Era melhor e mais seguro. Aceitou a ponderação da tia. Não aceitou dormir numa cama. Queira dormir na varanda ou na garagem, numa rede. Queria sentir mais de perto o frescor da noite. Naquela cidade, os dias de novembro em diante e até a chegada do inverno eram muito quentes, mas, as noites eram frescas. E mais ou menos frias no inverno. 

Rede armada. Deitou-se e pôs-se a balançar. A tia lhe deu um vasilhame de repelente. Uma ou outra muriçoca. O repelente as afastaria e lhe permitiria um sono tranquilo. Pensou na vida. Pensou na maldita margarina. Deveria ligar para casa? A mulher ficaria preocupada. Os filhos também. Ligou. “Você endoidou?”, indagou a mulher. “Endoidei”, respondeu com desdém, desligando o telefone. 

Noite fresca. Noite boa para dormir. O sono veio logo. Deve ter roncado e bufado à vontade. 

No meio da madrugada, um galo abriu a garganta e deve ter acordado meio mundo. Há muito tempo, ele não ouvia o canto dos galos. Mas, àquela hora? Às três e quinze? Galo miserável. Não poderia cantar um pouco mais tarde? Às cinco horas, por exemplo? Outros galos responderam ao canto do primeiro. Os galos são assim. Cantam e reverberam. Quem tem o sono leve, incomoda-se. Sofre a cada madrugada. Todavia, ele acabou se sentindo bem. Os galos deviam mesmo cantar. Era assim a vida interiorana. Ele voltou a dormir.

Por volta das quatro horas, os pardais começaram a sua cantoria. Eram muitos. Orquestra afinadíssima. E cantavam ali, bem pertinho, no jardim cheio de arbustos. Ele se virou na rede. Os pardais da capital não lhe incomodavam. O seu apartamento ficava no décimo primeiro andar. Aqueles pardais também deveriam cantar um pouco mais tarde, depois que o sol desse bom dia ao mundo. 

Levantou-se às cinco e meia. Apesar do galo e dos pardais, o sono não foi de todo ruim. O sino da Matriz tocou suas precisas badaladas. Firmes badaladas que ressoaram por toda cidade. Pena que muita gente já não acorre ao chamado do sino. Ele tomou banho. Logo, o café foi servido. Café interiorano como ele se acostumou desde menino. A tia, assim como a sua mãe, era caprichosa no café da manhã. A bem dizer, em todas as refeições. 

Despediu-se da tia e do marido dela, flamenguista como ele. Dois sofredores. Não seguiu viagem para visitar os irmãos. Ficaria para outro dia.

Retornando à capital, ele foi ao mercadinho. Chegou ao apartamento por volta das nove horas. A mulher e os filhos já estariam no trabalho. Ele pôs sobre a mesa da cozinha o pote de margarina na pequena bolsa plástica do mercadinho. A sogra silenciosa o olhou com um olhar de azedume. Bem melhor era o canto do galo e o canto dos pardais.  


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
03/12
07:00

Noite de Lua Cheia

 José Lima Santana
Professor da UFS

Noite. Noite de breu. Agosto. Sexta-feira. Dia 13. Um vento lúgubre e frio soprava no Beco de Filismina, lado direito do cemitério da cidade. Beco sombrio mesmo nos dias de sol intenso. Nos tempos de antanho, por ali, diziam-se, almas penadas corriam o trecho, soltando gemidos dilacerantes. Teve gente que ouviu os gemidos dolorosos, que eram de cortar coração e de dar arrepios nos pelos mais escondidos. Teve gente que viu os vultos correndo como seres desesperados. 

Mal e mal o sol se escondia, muita gente se recusava atravessar o Beco de Filismina. Beco mal afamado. Beco mal assombrado. Seres medonhos, demoníacos, pareciam tanger as almas penadas que gritavam sem parar, correndo de um lado para outro, horas a fio, noites adentro. Era como se as espetassem com espetos de ferro em brasa. Ora, almas penadas tinham corpos para serem ferrados com ferros ardentes? Coisas do outro mundo, do submundo mais imundo do qual se podia falar. Forças negras do além dali faziam morada. 

Reginaldo de Maria Zabelê da finada Telma de Américo Boiadeiro trabalhava no sítio de Chico Bonfim, cinquenta braças bem medidas para além do Beco de Filismina. Rege de Maria, como era conhecido, não era do tipo de homem que dele se podia dizer ser um cabra destemido. Era, sem tirar nem pôr, a negação da fama de valentia que acompanhava os homens da sua família. Homens brabos de punhal e trabuco. Mas, Rege de Maria fugia desse estereótipo familiar. Não passava de um borra-botas. Um cagão, na linguagem chula dos vadios. 

Aquela era uma noite de lua cheia. Lua perigosa, que com ela arrastava toda espécie de coisa ruim. Rege de Maria atrasou-se no serviço.E ainda deu para ficar de trololó com uma filha de Messias Pão Duro, a mais nova de sete irmãs e por quem Rege arrastava asas. Passava das dez horas da noite quando Rege tomou a direção do Beco de Filismina. A animação da conversa com a pretendida fez o rapaz esquecer que teria que atravessar o Beco infestado por seres ou coisas desagradáveis. Ele apressou as pedaladas na velha bicicleta Monark, cuja corrente do pedal caia por brincadeira.

Ao entrar no Beco, Rege de Maria sentiu um calafrio tomar conta do corpo inteiro. Pensou em recuar, enquanto era tempo. Porém, ao avistar a silhueta de um homem que atravessava o Beco, no sentido contrário, sentiu-se bem, Não estava sozinho naquela travessia. 

A bicicleta de cor azul foi comprada de segunda mão a Izidoro Funileiro e paga em cinco prestações mensais. Cada uma no valor de 20 cruzeiros novos. Corria o ano de 1968. Quando Rege de Maria estava para emparelhar com o homem que vinha em sentido contrário, eis que este sumiu. No momento, uma rajada de vento, um bafo estranhamente quente como que mordiscou as orelhas do quase namorado de Lucinha de Messias Pão Duro. 

Um cheiro muito ruim de coisa podre, muito podre, rescendeu no ar. Ao ombrear-se com Rege, o homem escancarou uma bocarra de fogo vivo. Labaredas soltavam daquela bocarra infeliz, como línguas de serpentes gigantes. E foi então que, tendo parado e ficado sem ação, Rege foi abraçado pelo homem de fogo. Suas roupas incendiaram-se. Seu corpo assava-se sem se consumir. Vultos negros e horripilantes achegavam-se, vindos do cemitério. Rege não tinha forças para correr. Nem para gritar. Estava paralisado. Morto nas calças. O inferno abria-se diante dele. Lobos furiosos uivavam por todos os lados.  Era o fim.

– Rege! Ô Rege! Acorda meu filho. Tá na hora de tirar o leite do seu patrão. Você quer desapontar ‘seu’ João Vieira. Ande. Se avexe!

Dona Maria Zabelê da finada Telma de Américo Boiadeiro viu a cara do filho Reginaldo como a de quem tinha visto assombração. 
– Que cara é essa, meu filho? Você tá bem, Rege?

Pulando da rede, Rege disse: – Foi um sonho doido que eu tive minha mãe. Um sonho dos infernos. Ainda tô todo arrepiado. 
Dona Maria Zabelê persignou-se. – Cruz credo, Rege! 

Naquela manhã, Rege fez voltas, mas não passou no Beco de Filismina. Horas depois, ele soube que encontraram um corpo carbonizado no referido Beco. Era incrível como o corpo estava queimado, mas não consumido. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
19/11
16:20

A prisão do cavalo

José Lima Santana
Professor da UFS

O fato não se deu nos dias de hoje. Nem de ontem. Foi no tempo pratrasmente de trasantontem. Início da década de 1950. Naquele tempo, o delegado de polícia era um oficial reformado da briosa Polícia Militar. Era outro tempo. Diverso do tempo de hoje, bem mais civilizado. Aconteceu, nas Varas Verdes do Chapadão, cidadezinha mixuruca espremida entre a Serra do Castelo e a Serra do Corisco. Um cavalo foi preso. Alguns, para aliviar a barra do vexame, que se tornaria nacional e internacional, disseram (in) justificadamente, que tudo não passou de uma detenção, e não prisão. Outros, ciosos para com a Briosa, disseram que o que houve mesmo foi apenas a apreensão do representante da espécie equina. 

O fato inusitado correria trechos e ruas. Cidades e estados. Países até. Uma muvuca da desgraça. A oposição feita pela UDN ao governo do PSD, tanto no município, quanto no estado, lavou a égua de tanto explorar entre gargalhadas e comentários desvairados a prisão do cavalo.
Tudo se deu quando, numa cavalgada, o dito cavalo espantou-se, à aproximação de um carro, pinoteou duas vezes e meteu um coice no carro de Tibério Orelhudo, sogro do prefeito. Foi um Deus nos acuda. Carro novinho em folha. Um Simca Rabo de Peixe. Um luxo! Único veículo de passeio daquele tipo na cidade. Talvez, na região. O Orelhudo era dono de fábricas de descaroçar algodão. Três delas: a Nossa Senhora Aparecida, a São Francisco de Assis e a Santo Antônio. Dona Sinhazinha, a mulher do empresário, era devota de todos eles. 

A autoridade policial entendeu que houve dano ao carro. E houve mesmo, um amassãozinho de leve, uma bituca de quase nada. Todavia, contudo e, porém, o velho oficial reformado da Briosa vociferou que houve “crime de dano”. Danou-se. O “crime” estava mais do que provado. A autoria também. E lugar de “criminoso” era a cadeia. O dono do animal ainda alegou que o cavalo Precioso não deveria ser preso. Ofereceu-se, pois, para tomar o lugar do animal. O velho oficial disse: “Não!”. O ofensor foi o cavalo. Ele pagaria pelo “crime de dano” praticado. Conduziu-o ao quartel e o colocou numa cela. Que ironia! O animal de sela acabou numa cela. Era o fim de tarde de um domingo. É de lembrar que, enquanto o cavalo era conduzido ao xadrez, uma pequena multidão acompanhou o grande feito do velho oficial, entre risos e galhofas. No meio da caminhada, o exemplar guardião da ordem gritou, perante tamanha algazarra: “Se continuarem com esse furdunço, eu boto todos vocês juntamente com o colega de quatro patas”. Mais uma vez, danou-se. 

Domingo. Fim de tarde. O que poderia exigir aquela populaça de um velho oficial reformado, que, longe de casa, ainda haveria de queimar panela no quartel se quisesse uma jantazinha na noite que se avizinhava? Pensava aquela cambada que a sua vida era fácil? Que tinha sido fácil em trinta anos de caserna, enfrentando bandidos e malfeitores em todas as zonas do estado, inclusive na própria “zona”? Qual nada! Ele sofreu muito. Assentou praça no fim da década de 1910. Reformou-se em 1948. Há quatro anos, era delegado de polícia comissionado, como assim o era naqueles tempos bicudos. E ainda tinha que aguentar aquele povinho cheio de ditos e churumelas. Se ele metesse dois ou três daqueles atrevidos no xilindró, tudo se acalmaria. Enfim, a autoridade policial ali era ele. E prendia quem quisesse: cavalo ou gente. Pronto.

Cavalo preso, pessoas dispersas. Regalias ao preso? Uma baciazinha com água para beber e um pequeno feixe de capim sempre verde. Cela pequena, entulhada de bregeços. Pobre cavalo, que nem se mexer podia. Deitar-se, espojar-se? Nem pensar. 

Day after. Uma segunda-feira de sol. Primavera que mais parecia verão. O fotógrafo lambe-lambe Tito Retratista tinha subornado o soldado de plantão, na noite anterior, após o oficial reformado ter-se recolhido, e retratou o cavalo preso, que saiu em pose de primeira página no jornaleco “Fiu-Fiu”, de Beto Felizola, adversário do prefeito Getúlio Bocão. A pequena tiragem do jornal vespertino não deu para quem quis. Lá estava o cavalo Precioso tristinho, atrás das grades. Antes, porém, da saída do jornal de oposição, que, além da foto com a matéria zombeteira, exibiu uma foto antiga do oficial reformado em farda de gala, dos tempos em que ele desfilava garboso no Dia da Pátria, e localizada nos arquivos do jornal, o Serviço de Amplificação G.C., de propriedade do vereador Genildo Carvalho, parlamentar combativo, que se dizia independente, ora atacando, ora elogiando a situação ou a oposição, e que tinha o seu serviço de som esparramado por quase toda a cidade, meteu a ripa. Botou a jiripoca para piar. Ele tinha uma verdadeira “rádia” nos céus da cidade em ondas médias, curtas e longas, como costumava dizer Elízio Souza, o seu produtor, operador e, por vezes, locutor de ocasião. 

O Serviço de Amplificação G. C., ao bem do povo e da veiculação da verdade, entrevistou pessoas, transmitiu lorotas, fez um carnaval. Teve até quem imitasse um famoso locutor da capital, fazendo uma gozação das seiscentas. Até um “fio do canço” apareceu relinchando e pedindo um habeas corpus. Sátiras danadas. Os ouvintes caíram na maior gozação. Um cavalo preso e os bandidos soltos, diziam. Na capital, as autoridades ficaram indóceis. Umas, defenderam o velho oficial reformado, que sempre foi um policial valoroso em todas as missões que lhe foram acometidas. Outras queriam a sua cabeça. Na Assembleia Legislativa, o deputado Chico Frederico, que se dizia “esquerdista, mas nem tanto”, oportunista que só ele, fez um discurso cheio de verborreias e disse mais empolgado do que pinto no lixo: “Senhores deputados, minha gente da galeria, esse cavalo que foi preso, não é gente, mas é um ser humano, que merece respeito”. Um gaiato da galeria retrucou, para delírio da galera: “Muito bem deputado: o cavalo é um ser humano igual ao senhor!”. O orador fez que não entendeu,  ou não entendeu mesmo. 

O cavalo foi solto ainda na segunda-feira. Saiu mancando, coitado. Passaria por uma averiguação feita por uma junta de veterinários da capital. A Liga das Senhoras Aflitas fez correr uma subscrição para pedir ao governador do estado a apuração do caso. Afinal, nos dias que se seguiriam jornais e emissoras de rádio do eixo sul/sudeste do país estraçalhariam o estado por causa daquele episódio. Um cavalo preso pela autoridade policial. Deu até no Pravda, jornal soviético. Na Rádio de Moscou. Na BBC de Londres. Na Voz da América. Na Rádio de Havana. Na Rádio de Berlin Oriental. Até na “Voz do Brasil”. Em tudo que foi canto, para o desencanto do povo do pequenino estado. Coisas do longínquo ano de 1952. Coisas passadas, que jamais poderiam acontecer nos dias de hoje. Com certeza. Tá doido! Prender um cavalo hoje em dia? Nos dias de agora, em pleno século XXI, ninguém chegaria ao desplante de prender um cavalo. Isso não. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
12/11
11:59

Tragédia

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Maria Zilda de Maneco Pé Ligeiro estava no roçado, fazendo a terceira limpa do pequeno mandiocal, após as últimas chuvas. O inverno veio danado de bom. A fartura na lavoura foi grande. Milho, feijão e fava à vontade. A mandioca prometia. Uma trovoada no fim do ano, outra em fevereiro, garantiriam boas raízes tuberosas que os nossos índios delas contavam preciosa lenda, e que dava a farinha nossa de cada dia, sustento para gerações de nordestinos. 

Mais da metade do roçado já estava limpa. Terra frouxa, fácil para o manejo da enxada. Maria Zilda parou um instante para limpar o suor da testa com o lado externo da mão esquerda. O tempo já começava a levantar com força. O sol abrasava cada pedaço de chão. Primavera? Que nada! Verão antecipado. Era sempre assim. O marido de Mariz Zilda, Maneco Pé Ligeiro, tocador de sanfona, vivia de canto em canto, por aí, puxando o fole e namorando quem aparecesse. E mulher pronta para um xodó não faltava em lugar nenhum. 

Ultimamente, coisa de dois meses mais ou menos, o pé tornou-se ainda mais ligeiro para o lado de uma zinha do Tabocal dos Pretos Forros, depois da Timbira de Jorjão. Aboletara-se de casa sem dar notícias até aquela tarde. A Maria Zilda restava a filhinha, Doralina, de nove anos, a casa em regular estado e o roçado. Para a filha, ela almejava um futuro bem diferente do seu. Por isso, a menina estava no estudo pela manhã e pela tarde, na escolinha do povoado. Porém, Maria Zilda não sabia o porquê, mas o seu coração tinha um pressentimento que ela não conseguia entender. Alguma coisa estava para acontecer. Pensou logo no marido farrista e de asa arrastada por aquela zinha do Tabocal. Ocorreu-lhe também a filha, Doralina. Não. A filha estava bem, na escola, estudando para ser gente. 

A tarde andava a meio. Maria Zilda ouviu um grito. Um chamado. Era para ela. Agora, sim, ela ouvia bem: “Maria Zilda! Maria Zilda!”. Era voz de homem. Desembestado, montando um cavalo cai, mas não cai, bamboleando sobre o animal como se fosse o último dos espantalhos, João Balaio aproximou-se, berrando: “Maria Zilda, minha filha, pelo amor de Deus, corre para casa. Uma desgraça acaba de acontecer”. Ela viu, então, o rostinho de sua filha estampado na lâmina d’água da última poça que o sol sorvia gota a gota, devagarzinho. “E o que foi, João? É Doralina?, perguntou a mãe aflita. O cavaleiro respondeu: “Corre, filha de Deus! Corre!”. Alvoroço. Pranto incontido.

Uma caixa d’água postada nas cercanias da escola onde Doralina estudava, aliás, a única do povoado, acabara de desabar sobre a escola, partindo-a ao meio, ferindo muitas crianças e deixando sem vida duas delas. Uma das duas era, sim, Doralina. Nove anos. A outra criança era só um pouco mais velha. Ou melhor, mais velho. Era um menino. Quanta tristeza! Quantas lágrimas derramadas por todos que ali se aglomeravam. Era um povoado pequeno, unido na dor de duas perdas que tinham sido feitas sementes esmagadas. Sementes que deveriam germinar e florir, abrindo-se para a vida. Porém, a morte prematura as colhera, esmagando as corolas de suas inocências. 

Uma mãe e um pai em prantos. Um corpo esmagado. Ferragens retorcidas. Ferrugem à mostra. Muita ferrugem. Concreto rachado. Olhos lacrimejantes. Solidários. Um povoado atônito. Uma tragédia anunciada. Há muito tempo, havia rebuliço dos moradores por causa da caixa d’água, que parecia entortar. Ninguém dava ouvidos ao povo. Moucos eram os ouvidos dos governantes, dos dirigentes, de quaisquer pessoas que detinham um naco de poder e de responsabilidade. 

O outro corpo ensanguentado, destroçado era, sim, o de Doralina, a filhinha de Maria Zilda e Maneco Pé Ligeiro. A mãe desesperada jogou-se sobre o corpo da filha. Nove anos. Uma flor esmagada pela fúria do descaso, da omissão. Fúria mais devastadora do que um furacão. Choro, grito dilacerante. Lamentação. Dor que cortava o coração de todos. Dor somada à outra dor. Duas mães que, por certo, experimentavam a dor de Maria diante do seu Filho vergado na cruz. Dor excruciante. Que rasgava os véus do coração como a dor de Maria pareceu rasgar s véus dos céus, naquela sexta-feira que o mundo jamais esquecerá. Porém, a dor daquelas duas famílias seria em pouco tempo esquecida, em especial pelos omissos. Omissos. Omissos. Omissos. 

Maria Zilda não tinha mais lágrimas para juntar a tantas lágrimas, para juntar à água derramada. Duas mães unidas pela dor, pela perda, pelo desespero de ter nos braços o filho e a filha que guardaram nos respectivos ventres por nove meses, e por quem elas choraram a cada choro daqueles filhos quando ainda eram bebês, no tempo do sarampo, da coqueluche, da caxumba, das gripes constantes, das diarreias. Ás vezes, por causa do pão minguado ou pela falta de médico ou de medicamentos, tudo quase sempre faltante pelo descaso dos poderes públicos. Vidas pobres. Era tão difícil viver, mas, a esperança era um raio de sol a se libertar todo dia das nuvens carrancudas e passageiras. 

Ali estavam dois ventres de mães rasgados no seio da terra. A caixa d’água fez chorar duas famílias. Fez chorar um povoado inteiro. Uma cidade. Lágrimas e indignação. Notícia nos telejornais nacionais. Responsabilidades a apurar. Dois corpos. Duas vidas ceifadas no meio da tarde. Duas vidas que ainda engatinhavam no alvorecer da existência. Alvorecer sangrento. 

Maria Zilda beijou a face sangrenta da filha. Da filha única. Da filha que lhe fora arrancada. Da filha que nunca mais lhe tomaria a bênção. E que ela nunca mais abençoaria. 

De repente, o corpo de Doralina escorregou dos braços de Maria Zilda, que desmaiou. Socorreram-na. Duas estrelas cadentes riscaram o céu e pairaram sobre o aglomerado das pessoas daquele povoado em pranto. Dois anjos pareceram descer do céu. Depois, pareceram subir. Já não eram apenas dois. Eram quatro. E as estrelas cadentes fizeram a viagem de volta. Estavam mais brilhantes. Era evidente que quatro anjos brilhavam mais que dois. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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