12/11
00:16

Maneco Bosta Seca

José Lima Santana
Professor da UFS

Sim. Era este o apelido de Manoel Correia de Souza, agente da Estação Experimental do Algodão, nos tempos em que o algodão era o ouro branco do sertão do Chorrochó. Algodão de qualidade não suplantável dentre todos os produtores era o de Julinho do Pau Ferro, seis vezes vereador e uma vez vice-prefeito de Curral dos Bois, cidadezinha em franco crescimento depois que a estrada de rodagem passou a poucas braças do começo do arruado, na entrada da banda do Sul da povoação. 

Julinho do Pau Ferro era cunhado de Maneco Bosta Seca, casado com a irmã deste, Dona Florinda, que lhe deu quinze filhos, todos vivos, graças a Deus, como se fosse um milagre, numa época e numa região onde os cemitérios enchiam-se de covas miúdas de anjos, como se dizia com os pequeninos que morriam aos magotes, atacados por doenças diversas, sendo as principais delas as que decorriam da água de beber sem nenhum tratamento. Água de tanques, barrenta, carregada de coliformes fecais e toda sorte de imundícies. Dona Florinda estudou até o ginásio e aprendeu a ferver e filtrar a água da cor de suco de maracujá, enlameada nos verões prolongados. 

Maneco Bosta Seca foi empregado na Estação por obra e graça do cunhado, o mais próspero plantador de algodão e o único dono de uma fábrica de descaroçar o referido produto. Além do algodão, a riqueza de Julinho provinha também da criação de gado bovino em três boas fazendas de criar. Ele tinha boas aguadas e extensa plantação de palma forrageira, para aguentar os rigores das secas prolongadas. Porém, os anos de bons invernos suplantavam os anos de estiagem. Mas, darei conta de Maneco. Este recebeu o em nada atrativo apelido nas bancas de jogatina. Numa noite em que ele estava ganhando uma bolada no bacará, começou a caçoar dos parceiros, a contar pabulagem, a sentir-se rico e soltou esta frase: “Do jeito que a sorte me quer esta noite, vou acabar deixando Julinho meu cunhado para trás no quesito riqueza”. 

Ao ouvir a eloquente frase de Maneco, Zé de João de Porfírio de Maria Rita esbravejou: “Fique calado, Maneco. Você parece bosta seca. Não fede, mas é bosta!”. Todos caíram na mais estrepitosa gargalhada. O próprio Maneco sorriu. Claro, a noite era sua. A bolada de dinheiro em sua frente, na mesa, assim o mostrava. Mas, apelido é como erva daninha: quando pega, não sai mais. Maneco Bosta Seca não saiu. Da jogatina, o apelido saiu para todas as bocas. Até o padre João Fagundes, tão circunspecto, o chamava de Manoel Bosta Seca. Jamais de Maneco. Por quê? Sabia-se lá! Cisma de padre velho. 

Julinho candidatou-se a prefeito. Querido por todos na cidade, na situação e na oposição, acabou sendo candidato único. Era a primeira vez que o município teria um único candidato a prefeito em mais de sessenta anos de emancipação. Dele diziam ser “algodão entre cristais”, tal era a sua postura de camaradagem, de saber acomodar confusões. Naquela eleição, Maneco Bosta Seca apresentou-se como candidato a vereador. Também ele era benquisto na comunidade. Provavelmente, teria eleição garantida. Nisso todos apostavam. 

Sendo uma eleição de candidato único a prefeito, o pleito transcorreu na mais perfeita normalidade. Nem seria preciso fazer comícios de povoado em povoado. Apenas um comício na cidade, nas vésperas do pleito, para animar os eleitores. Abdias Sanfoneiro foi contratado para fazer a festa. Naquele tempo, podia. Cada candidato a vereador faria um discurso de dez minutos. Tonho Martelinho, locutor do Serviço de Alto-falante Vera Cruz, era o animador do comício e o controlador do tempo da fala de cada candidato à Câmara Municipal. 

Cada candidato a vereador foi fazendo o seu discurso. Uns eram por demais hilários. Outros não diziam coisa com coisa. Apenas dois deles, jovens ginasianos, filhos de fazendeiros, falaram direitinho. Todos falaram dentro do tempo previsto. Enfim, chegou a vez de Maneco Bosta Seca. Àquela altura, muita gente já tinha bebido todas. Tudo, porém, transcorria em paz. Maneco deitou falação. No tempo certo, Tonho Martelinho deu aviso, puxando na camisa do candidato, que não deu por aquilo. Continuou falando. Quinze, vinte, trinta minutos. O candidato a vice-prefeito, Miguelão de Zacarias do Brejo soprou no ouvido de Maneco: “Tu tem que parar, Maneco!”.
 
Em resposta ao dito de Miguelão, Maneco sapecou: “Estão tentando me impedir de continuar falando. Pois é agora que a garapa vai azedar. Não me chamam de Bosta Seca? Nesta noite, a Bosta está fresca, fresquinha, fresquinha. E só vou parar quando a bosta secar”. Naquilo, um gaiato gritou no meio do povo: “Pare de falar, seu Bosta Seca de bosta. Sua bosta tá mais seca do que a minha goela, que tá precisada de um gole. Desça daí e venha pagar uma bicada pra gente, senão tu vai perder a bosta da eleição”. 

Maneco ainda falou por mais dez minutos, até que se deu por satisfeito. Desceu do palanque e tomou o rumo de casa, que pão-duro ele era. Pagar uma bicada para alguém? Nem pensar. 

A eleição transcorreu na maior normalidade. A contagem dos votos era feita na sede da Comarca, em Piedade. Na única Junta Apuradora, uma única mesa escrutinadora. A contagem dos votos começava pelos dois Termos da Comarca, a fim de liberar as pessoas, para que mais cedo retornassem às suas cidades. Na vez de Curral dos Bois, e contados os votos do único candidato a prefeito, o Juiz Eleitoral, Dr. Aristides de Souza Ramalho, proferia os nomes dos candidatos a vereador, voto a voto. Nas nove urnas eleitorais, a votação de Maneco Bosta Seca não passaria de uns votos pingados. Logo, não seria eleito. Na verdade, amargou um desastroso décimo sexto lugar dentre vinte e um candidatos, para sete vagas na edilidade municipal. 

Terminada a apuração, “seu” Valter Exator, que fez parte da Junta Apuradora, e era amigo de Maneco, disse-lhe: “Maneco, meu amigo, você vai ter que passar uma aguazinha na Bosta Seca. Ela está seca demais da conta e por isso os seus votos secaram.

O candidato derrotado respondeu: “Se passar uma aguazinha quiser dizer gastar dinheiro, a bosta vai continuar seca. E ademais, ‘seu’ Valter, bosta molhada fede”. 

Maneco Bosta Seca nunca mais quis saber de candidatar-se. Há mais de vinte anos, aposentou-se do Ministério da Agricultura. Mudou-se, então, para a capital sergipana, onde os filhos, formados, dois médicos e uma engenheira, residiam. Em Curral dos Bois ficou o apelido. Terça-feira passada, informaram-se que ele veio a falecer aos 96 anos de idade. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
05/11
13:00

Colégio Tradicional, Ensino Moderno

José Lima Santana
Professor da UFS

A educação tem sido um desafio ao longo dos milênios, tanto para os governos, quanto para os que se têm lançado no campo da iniciativa privada. Desde a Edubba sumeriana, tida por muitos estudiosos como a mais antiga instituição escolar formal, a educação vem desafiando os educadores. Sistemas de ensino surgiram e desapareceram ao longo dos séculos. De início, no Ocidente, a educação somente chegava aos nobres. Aos poucos, os governos foram se dando conta da necessidade de educar o povo ou parte deste. Camadas imensas da população por muito tempo não puderam pôr os pés numa escola, pública ou privada. Naquela, não havia vagas para todos; nesta, não tinham os pais suficientes recursos para custear o estudo dos filhos. Um dilema que se arrastou pelos tempos afora.

Na contemporaneidade, ou, como queiram, na época pós-moderna, especialmente da segunda metade do século XX para cá, muitas instituições de ensino foram surgindo no Brasil. Em Sergipe não seria diferente. Entre nós, em 1960, o Mons. José Carvalho de Souza houve por bem, e sob os auspícios da Arquidiocese de Aracaju, fundar o Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus, tão popular e carinhosamente nominado de ARQUI. Do Colégio Arquidiocesano saíram gerações de profissionais do maior respeito e da mais escorreita competência, nas mais diversas áreas, proporcionando inestimáveis serviços à sociedade sergipana. 

Nos últimos anos, o ARQUI passou e vem passando por mudanças no seu corpo administrativo e pedagógico, após a saída do seu fundador. No momento, por exemplo, apesar de especulações infundadas, ou de falas incompreendidas, mal interpretadas e distorcidamente divulgadas, o ARQUI está procurando se renovar. Na Unidade da Farolândia, diga-se de passagem, o Colégio está em franca expansão com a construção de novas e modernas salas de aula, para abrigar, em 2019, turmas até o 9º ano do ensino fundamental. Na Unidade do Centro, que vozes agourentas disseram que iria fechar, uma nova e moderna biblioteca está sendo aparelhada. Logo mais, e até o início das aulas no próximo ano letivo, será a vez da remodelação do ginásio de esportes, também no Centro. E assim por diante. Os investimentos continuarão em 2019 e 2020, dentro do planejamento que está sendo elaborado.

Enquanto “olhos vesgos”, que provocam “maus olhados”, anseiam pela derrocada do ARQUI, o Colégio fundado pelo Mons. Carvalho, agora entregue à gestão do padre Valtewan, com o apoio de todos que formam os corpos de coordenação, docente e administrativo, seguirá o caminho que foi traçado há quase seis décadas e que está sendo aprimorado, paulatinamente, para corresponder à confiança que lhe vem sendo depositada pelos seusinestimáveisalunos e respetivos pais. 

A luta dos últimos anos tem sido dura, mas firme e consistente. As dificuldades inicialmente enfrentadas pela atual diretoria vêm sendo vencidas com esforço e dedicação. Há, internamente, pontos a serem ajustados e, com certeza, o serão no menor lapso de tempo possível. 

Na parte pedagógica, ajustes continuarão a ser feitos, nas duas Unidades (Centro e Farolândia) com vistas a ensejar ainda mais o melhor aprendizado dos alunos como os pais almejam e os alunos merecem. O ARQUI prepara-se para continuar a atender os princípios da BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que, como todos os leitores bem o sabem, é um documento oficial de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica (ensino fundamental e médio).

As adequações e inovações estão previstas para ser desenvolvidas no biênio 2019-2020. Depois das adequações legais a serem implementadas em 2019, no ano seguinte, ou seja, em 2020, por exemplo, o ARQUI estudará a possibilidade de ingressar no rol das escolas que trabalham com o sistemahigh school, para a dupla certificação de alunos do ensino médio, que assim o desejarem, bem como de trabalhar com o sistema de ensino bilíngue. São expectativas. 

Do mesmo modo, em 2020, buscar-se-á trabalhar com o sistema Bernoulli nas três séries do ensino médio, pois até 2019 trabalhar-se-á apenas na 3ª série, como se vem trabalhando nos últimos anos, por força de contratos anteriormente assumidos (antes da atual direção) com algumas editoras. E, se até lá, outro sistema de ensino parecer mais eficiente e adequado ao aprendizado dos alunos, o Colégio não medirá esforços para adotá-lo, mas, antes, consultando os maiores interessados, ou seja, os alunos e os pais, que desembolsam os recursos financeiros necessários para a educação de seus filhos. 

Também na prática esportiva, que, no passado, fez do ARQUI o grande campeão dentre todas as escolas públicas e privadas de Sergipe, o Colégio está encontrando novo rumo. Nas competições dos Jogos da Primavera, o ARQUI saltou do 12º lugar, em 2017, para o 7º lugar geral em 2018. Avançou 5 posições em apenas um ano. E assim será até ter de volta a hegemonia que lhe pertenceu. 
Como visto, o ARQUI não está inerte. Tem avançado. E irá avançar muito mais. Uma modificação estrutural mais ampla, no Centro, deverá vir mais tarde, modernizando suas instalações. São aspirações a serem concretizadas. 

O ARQUI continuará sendo a escola tradicional da família cristã sergipana, porém, com um sistema de ensino cada vez mais moderno. É assim que o ARQUI é. E é assim que o ARQUI continuará a ser, para prosseguirna formação de bons cristãos, honestos cidadãos e competentes profissionais do futuro. 

O ARQUI lutará, como tem lutado. E jamais se renderá. Continuará trabalhando com todo ardor ecom todo amor pela educação, em prol de seus alunos. 
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
21/10
15:45

Cocô de elefante

José Lima Santana
Professor da UFS

Américo de Galdino Fontes era o tipo de sujeito metido a ser o rei da cocada preta, da morena e da branca. De todas as cocadas. Até mesmo da cocada baiana, que só Perolina fazia naquela cidadezinha morrinhenta. Américo era pabo, inflado de vaidade, a ponto de quase não pisar no chão. Ele parecia levitar levemente quando caminhava, apesar de ser grandalhão. De tanta pabolice era o sujeito cheio, que nele botaram o apelido de Cocô de Elefante. Apelido mais do que apropriado para quem era inflado de gabolices. 

Mas, quem era mesmo o tal Cocô de Elefante? Um sujeito que não tinha, a bem dizer, eira nem beira. O pai, porém, Galdino Fontes das Embiribeiras era um pequeno proprietário rural, dono de umas poucas, mas, muito boas, tarefas de terra e de um gadinho miúdo, que também se dedicava ao comércio ambulante de cereais nas feiras de três cidades: Matão de Dentro, onde morava, Tijuquinha e Pau d’Arco. Todas elas cidadezinhas poeirentas, largadas nos sertões da Bocaiuva.

Cocô de Elefante tinha se arrastado nos bancos escolares da professorinha Dona Amélia de Vicente Gogó de Ouro, tocador de rabeca e cantador de baiões e xaxados. Não passara, todavia, do segundo ano primário. Lia e escrevia sofrivelmente. Lendo, gaguejava mais do que Tito Gaguinho do finado Zacarias Pançudo. Como o pai, Galdino Fontes, era muito chegado a Manequinha de Belmiro Alagoano, e este Alagoano era mesmo nome de família, embora pernambucano ele fosse, foi concedido a Américo Cocô de Elefante o cargo de fiscal da Prefeitura. Nem os talõezinhos com os quais se cobrava as taxas de feira ele os preenchia de forma legível. Era, a bem dizer, um verdadeiro tabacudo. 

O cargo de Cocô de Elefante, no qual ganhava uma miséria, fora-lhe concedido nos fins dos anos 1950, quando um genro de Manequinha, da UDN, era o prefeito municipal de Matão de Dentro. Manequinha de Belmiro Alagoano era o chefe inconteste da União Democrática Nacional desde a instalação do partido no município. Era, portanto, um “cara-preta” legítimo de carabina e cartucheira. Nos idos dos 30, ele e dois irmãos assentaram lugar na Volante do tenente Isaías Cospe Fogo, que combateu Lampião de três estados. Era do tipo que não aguentava subacada de ninguém. Homem nenhum lhe fazia cócegas na política. Antes, fora getulista. Depois, tornou-se brigadeirista, eleitor do Brigadeiro Eduardo Gomes. Para ele, os homens de bem deviam andar armados, especialmente na roça, para enfrentar os bandidos que por ventura aparecessem, vindos de outras plagas. Afinal de contas, em Matão de Dentro bandidos tinham vida curta e sujeitos mofinos morriam de caganeira, ainda nos cueiros. Manequinha era belicoso, violento. 

Nas eleições de 1962, depois de muito tempo sem aparecer um adversário que ameaçasse o poderio de Manequinha, eis que um neto de Tertuliano Sampaio, finado já em pó transformado, engenheiro formado nas Minas Gerais, deu para meter a cara na política local. O avô, Tertuliano, homem de paz, mas, nem por isso, um zé mané, fora chefe da oposição a Manequinha, liderando o Partido Republicano, que, no estado, era eterno aliado do PSD. 

Jovem bem apessoado, funcionário público federal, lotado no DNOCS, Geraldo Mota Sampaio começou a arrebanhar jovens e adultos para a sua fileira. Manequinha, octogenário, mas, ainda com pulso forte, começou a sentir-se incomodado com a presença do engenheiro. “Ainda sou muito homem pra botar esse frangote pra correr daqui com as calças na mão”, disse o velho líder aos seus apadrinhados. Ocorre que o neto de Tertuliano Sampaio era também neto do Coronel Francisco Tenório, chefe político no interior das Alagoas e, mais do que isso, antigo chefe de jagunços, cuja linhagem vinha desde os tempos do Império, nas pessoas de seus diretos antepassados, o Barão da Boa Morte, o Coronel Peregrino Tenório, que, um dia, fechou à bala a Assembleia Legislativa, em Maceió, e do também Coronel Aristides Tenório, este coronel da Polícia Militar alagoana, e não coronel de patente comprada da antiga Guarda Nacional. Portanto, peco Geraldo Sampaio não era. Descendia, pois, de boa ninhada.
 
Por onde anda Cocô de Elefante? Teria sumido no oco do mundo? Não, não e não! Ei-lo de volta à narrativa. Numa sexta-feira, véspera da feira semanal de Matão de Dentro, após duas semanas em que Geraldo Sampaio instalara-se de vez na cidade, arranchando-se na casa da avó viúva, Dona Terencinha Sampaio, e de ter aberto noutra casa da avó a sede do Partido Republicano, Manequinha de Belmiro Alagoano convocou uma reunião dos seus apaniguados. Estava chegando a hora de dar uma lição no doutorzinho. O plano era simples. Alguém iria à tal sede do partido opositor para desferir uns tiros para o alto, desmantelando algumas telhas e botando os da corriola do engenheiro para correr. Pensava Manequinha que apenas uns tiros fariam Geraldo Sampaio encolher o rabo entre as pernas e voltar para a capital, para cuidar da mulher e dos dois filhos. 

Manequinha escolheu logo quem para executar o serviço? Sim, ele mesmo: Cocô de Elefante. Afoito, cheio de si, a própria empáfia em pessoa. Um servicinho daquele era moleza e, ainda por cima, lhe daria crédito de montão junto ao chefe. Ah, mas olheiros os há em todos os lugares! Pois não era que Geraldo Sampaio tinha um olheiro infiltrado nas hostes de Manequinha? O plano lhe fora passado tin-tin por tin-tin. O serviço sujo do qual Américo de Galdino Fontes fora encarregado era para ser executado no sábado, por volta das dez horas, quando a feira estaria no auge. E a sede do PR ficava na Praça do Comércio, local de maior atração da feira. 

No horário combinado, Cocô de Elefante dirigiu-se à sede do PR. Portava na cintura um três-oitão canela seca carregado até a boca. Alguns paus-mandados de Manequinha ficaram aperuando ali por perto, para ver o rebuliço. O rei de todas as cocadas aproximou-se da calçada. Meteu a mão na cintura por baixo da camisa. De dentro da casa para a calçada, uns vinte homens surgiram, à frente o engenheiro Geraldo Sampaio, armados até os dentes. Cocô de Elefante parou. Tremeu. Gaguejou. Mijou-se e cagou-se todo. 

Américo de Galdino Fontes não passava mesmo de um cocô de elefante. Só tinha tamanho.

As eleições daquele ano, 1962, botaram por terra o mandonismo de Manequinha de Belmiro Alagoano. A paz reinou em Matão de Dentro. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
14/10
15:16

O Dia D: 28 de Outubro

José Lima Santana
Professor da UFS

Vem aí o segundo turno das eleições. Para a Presidência da República, os dois candidatos escolhidos pelos eleitores despontam nas pontas, nas extremidades políticas à direita e à esquerda.  E isso causa uma divisão acentuada entre os eleitores. Os extremos vão ao embate. Desde o início da campanha, no primeiro turno, as mídias sociais encheram-se de rivalidades e, até certo ponto, de ódio. Os seguidores dos dois lados que despontavam na dianteira e que acabaram se confirmando para a disputa no segundo turno trocaram farpas, enfrentaram-se, discutiram, debocharam uns dos outros, tendo por ponto central as figuras dos dois candidatos, o do PSL e do PT. 

Na eleição de 2014 também ocorreu uma divisão muito nítida entre os eleitores. Todavia, agora, o acirramento tornou-se muito maior. Há até mesmo laivos de ódio entre alguns seguidores dos dois candidatos, por vezes alimentados por atitudes dos próprios candidatos ou de seus apaniguados mais próximos. 

Nas ruas, a violência, embora em casos pontuais, começa a ser atiçada por conta do acirramento advindo das mídias sociais, dos palanques etc. Evidentemente, há moleques, bandidos, que se aproveitam da situação para dar vazão aos seus instintos animalescos. E bandidos devem ser tratados como tais, no rigor da lei. Não é admissível que a violência possa ganhar as ruas por conta da eleição. Os próprios candidatos devem posicionar-se firmemente contra todo e qualquer tipo de violência. Devem admoestar os seus eleitores. Devem, eles próprios, conforme o caso, conter-se em certas situações. Devem dar exemplos. Devem ser espelhos. Talvez, um mais do que o outro. 

O próprio mercado, no que tange às expectativas em torno da economia, está em sobressaltos. O mercado é conservador, impelido pelo neoliberalismo econômico, e precisa de segurança, de confiabilidade. Um candidato atende mais do que o outro às esperanças do mercado. Porém, este mesmo não tem propostas seguras para a área econômica. O mercado, então, fica “nervoso”. As operações na Bolsa de Valores e o câmbio não se estabilizam a contento. 

O que podem os brasileiros esperar em caso da vitória de um ou de outro candidato? De um lado, alguns temem o retorno do PT. Do outro, temem a instabilidade que poderá advir do PSL. Estaremos num beco sem saída? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come? Que situação terrível! Qual o menor dos males? Haverá um mal maior e outro menor? 

Vamos esperar o Dia D. O que sairá das urnas poderá ser um filhote de bacurau com pernas de girafa e cabeça de mosquito. Ou outro bicho não muito diferente disso, se for do outro lado. 

Há, ainda, os temores de uma retomada do autoritarismo por parte de um dos candidatos. Autoritarismo de direita e de cunho militar. Mas, do outro lado, há também o temor do mesmo autoritarismo, embora sob outro viés com o aparelhamento cada vez maior do estado por parte de um partido, que, segundo alguns, não tem planos de governo, mas, sim, de poder, como, aliás, um de seus membros condenados por atos de corrupção, apregoou recentemente, obrigando o candidato do seu partido a desmenti-lo. Meu Deus! Dois rumos incertos. Numa verdadeira encruzilhada é onde nós nos encontramos. 

Os dois candidatos tendem a dizer coisas que nunca cumprirão. Dirão apenas para “encantar” os eleitores. Para seduzi-los, cantando o canto da sereia. Que os eleitores possam se acautelar a exemplo de Ulisses, na Odisseia, que se amarrou ao mastro do navio para poder ouvir o canto da sereia sem correr riscos de atirar-se às profundezas do mar sem fim, para nunca mais voltar. Quanto a nós, brasileiros, não devemos cair nas águas dos mares da quimera, que nos querem afundar. 

O Brasil precisa de rumo. Precisa de quem possa nos tirar dessa situação caótica em que nos encontramos, a partir do equilíbrio das contas públicas, cujo déficit beira a 80% do PIB (produto interno bruto). 

O mundo está de olho no Brasil. E o Brasil deve estar de olho no mundo. Mas, nós eleitores devemos estar de olho em quem? 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
07/10
17:54

5 DE OUTUBRO

José Lima Santana
Professor da UFS

Ontem, dia 5, o Brasil comemorou, ou deveria ter comemorado (?) os 30 anos da Constituição Federal. 5 de outubro de 1988. Para o saudoso Ulisses Guimarães, a Carta trintona é a “Constituição Cidadã”. Por um lado, sim. Por outro, não. Afinal, em que pese os muitos avanços em termos de direitos individuais e sociais por ela assegurados, muitos também foram os privilégios que ela abarcou, sabe-se lá o porquê, graças às negociatas entre os senhores constituintes, muitos dos quais nada mais, nada menos, do que “velhas raposas”, da velha política, que parece não passar jamais. Não passa a velha política, nem morrem as “velhas raposas”. Ou algumas delas não morrem, não largam o poder. Ao contrário, tais e quais vermes que comem a madeira carcomida, devoram os carcomidos cofres públicos, que não conseguem guardar, para o uso devido, os nossos suados recursos financeiros, com os quais contribuímos para a efetivação de obras públicas e para a regular e boa prestação de serviços públicos. Ou assim deveria ser.

Constituição Cidadã ou Constituição Cortesã? Há quem sustente a primeira forma. E também há quem defenda a segunda forma. Uma cortesã das mais alcoviteiras. É o que dizem alguns, que enxergam na Constituição uma provedora de privilégios desenfreados.

Bem. Não quero desapontar uns ou outros. Cidadã ou Cortesã, pouco se me dá. A Carta de 1988 é a nossa sétima Constituição (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988). Há quem insista em dizer que seria a nossa oitava Constituição, pois estes levam em conta a Emenda nº 1/1969, à Carta de 1967, que alterou a maior parte dessa Constituição. Eu prefiro ficar com a sétima. Não reconheço uma Constituição em 1969.

Quando eu comecei o curso de Direito, em 1977, a Carta de 1967 tinha recebido a sua sétima emenda constitucional. Sete emendas em 10 anos. Um absurdo. Nós a tínhamos como uma colcha de retalhos. Era como dizíamos na Faculdade de Direito da UFS. Ocorre que em 10 anos, até outubro de 1998, a Carta atual recebeu nada mais do que 19 emendas, quase três vezes mais. E, passados 30 anos, aproximam-se as 100 emendas. Um absurdo! Uma vergonha! Constituição Cidadã? Se, deveras, o fora, já não o é mais.

No momento, há quem defende a manutenção da atual “colcha de retalhos”, mas, há quem defende a convocação de nova Assembleia Nacional Constituinte. Sinceramente, não sei dizer, de repente, qual deve ser o caminho a ser trilhado. Continuar com a que aí se arrasta, ou promulgar nova Constituição? O que perderíamos? Ou o que poderíamos ganhar? Uma coisa é certa: do jeito que a situação vai, haveremos de ter a Constituição mais emendada do mundo. Talvez.

Estamos no ocaso da campanha eleitoral deste ano. Amanhã, iremos às urnas. Os diversos candidatos à Presidência da República falam em reformas: política, tributária, previdenciária etc. Reformar o estado, eis o que deve ser feito. Reformar as estruturas do poder. Reformar o serviço público, acabando ou minorando o aparelhamento do estado pelos partidos políticos que chegam ao topo do poder ou ajudam a chegar, a fim de fazer-se a pilhagem do butim.

Pobres cofres públicos nos quais as impressões digitais de muitos se sobrepõem ou se misturam nervosamente. Maliciosamente. Indignamente. Dos cofres, raspam o tacho. E muitos apaniguados dos poderosos corruptos os defendem de todos os lados. Como queremos mudar este país? Quando o haveremos de mudar?

Teremos de levar a sério este país do qual se disse que não era um país sério. Continuaremos a não ser um país sério?

Ao festejarmos (se é que temos motivos para tanto) os 30 anos da nossa Constituição, deparamo-nos com a mais atípica das eleições. Eleições com opções de extremos. Para onde poderemos ir? Para onde iremos de verdade?

5 de outubro já se foi. Agora, é esperar amanhã, ou seja, 7 de outubro. O que sairá das urnas? As pesquisas têm razão? Esperemos. Que Deus nos acuda!


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
29/09
12:51

O tão esperado Sermão do Padre Nabuco

José Lima Santana
Professor da UFS

Alecrim do Agreste respirava ares de expectativa há cerca de seis semanas. Estava para acontecer aquele que seria o maior evento religioso da cidadezinha poeirenta e empoeirada. Emancipada de Cruz da Serra não faziam dois anos, o primeiro prefeito era o farmacêutico João das Timbiras, aplicador de injeções que acabaria dono do arremedo de farmácia da novel cidade. Não havia ainda uma rua sequer com pavimentação. No melhor dos casos, a pracinha onde mal e mal se sustentava a igrejinha local, dedicada a São Raimundo Nonato e onde celebrava missa uma vez por mês o padre Afonso Xavier, da paróquia de Nossa Senhora do Desterro, em Cruz da Serra, era piçarrada. São Raimundo Nonato era curato daquela paróquia. 

O padre Afonso era diligente, zeloso com as coisas sagradas, querido por toda a comunidade da qual ele era o guia espiritual: Cruz da Serra, Alecrim do Agreste, Cipó de Miroró, outra cidadezinha emancipada por força de junções políticas, e nada mais, além de um sem número de povoações miúdas, médias e grandes, algumas destas esperando também o dia da sonhada emancipação. Em número de almas, o padre Afonso era o guia espiritual de umas 30 mil ou mais. 

No Seminário do Recife, o padre Afonso fora colega de um jovem cearense de nome Francisco Viegas Nabuco, um galego de cabeça chata, que mais parecia uma abóbora de leite suspensa sobre um pescoço atarracado e que mais parecia um cepo de baraúna. Desde cedo, o seminarista Nabuco revelou-se um profundo estudioso do livro santo e dos compêndios filosóficos e teológicos. Era de uma inteligência fulgurante. Tinha uma oratória vibrante, voz de trombeta bem postada, que ressoava pelo mundo afora, varando portas, janelas e frestas de telhado. Uma vez ordenado, o padre Nabuco, como ficaria conhecido, era convidado para pregar em várias paróquias da Diocese de Matão de Dentro e de várias outras dioceses, inclusive de fora do estado. Um orador que arrebatava as multidões. 

Pregação do padre Nabuco era sinônimo de ensinamento bíblico do maior quilate, trazido para a realidade da vida, para o cotidiano das pessoas, que se deixavam tocar por tão auspiciosas lições. Através da Rádio Vale do Sol, o padre Nabuco esbanjava conhecimentos aprofundados da Bíblia, amarrando cada um deles na vivência das pessoas. Nas festas dos padroeiros e das padroeiras a presença do padre Nabuco superlotava as igrejas e seus arredores, pois, não havia igreja por maior que fosse que pudesse absorver tamanhas multidões. E os sermões nas missas solenes arrancavam lágrimas dos fiéis mais contritos. Até autoridades dos governos não se continham, algumas delas recebendo na carapuça as palavras de fogo do padre. 

Conta-se que um determinado governador caiu em prantos quando o padre com aquele vozeirão que Deus lhe deu, olhando diretamente no rosto afogueado da autoridade estadual, disse: “Como pode um homem público, que se diz cristão, que conhece a palavra de Deus, diante de uma seca inclemente como a que estamos sofrendo neste momento, ter a coragem de festejar seu aniversário na capital do país, levando com ele um séquito fenomenal, ao invés de estar de calças empoeiradas, de mangas arregaçadas, ao lado do sofrido povo, cujos destinos Deus lhe confiou? O que tem uma autoridade dessas a dizer a Deus, quando para junto Dele for, a fim de ajustar as suas contas? O que haverá de dizer no juízo final? Que socorreu o povo martirizado pela sede e pela fome? Ou que deu as costas ao povo, para brindar com cálices de fino cristal, bebendo, ao invés de vinho, o suor e o sangue do seu povo?  Teria o governador chorado de remorso ou de raiva? 

Assim era o padre Nabuco. Despachado. E, apesar de toda a erudição de que era dotado, na paróquia a sua caminhada era ao lado do povo inteiro, mas, com predileção por trabalhar junto às comunidades mais carentes. Aliás, alguns desafetos lhe acusavam injusta e descabidamente de “padre melancia”, ou seja, verde por fora e vermelho por dentro. Isto é, diziam que ele era comunista. Um homem de Deus, cuja vida era para servir à Boa Nova do Senhor Jesus Cristo. Como bem o disse São Tiago, o padre Nabuco era vítima da inveja e das rivalidades. Até dentro do próprio clero. Porém, assim mesmo é a vida. Até Jesus fora escorraçado de algumas comunidades daquele tempo e acabaria pregado numa cruz pelo conluio entre os judeus e os romanos. O seu sacrifício, contudo, era para salvar a humanidade, embora os seus algozes não o soubessem. E muitos ainda hoje não sabem ou refutam. 

Era domingo. Dia da festa do padroeiro, São Raimundo Nonato. Alecrim do Agreste amanheceu engalanada. As ruazinhas tortuosas foram enfeitadas com bandeirolas. Um pequeno, mas muito bem caprichado tapete de flores do campo decorava a frente da igrejinha que mal e mal se sustentava de pé, tão carente que era de reforma e ampliação. A missa solene seria às 10 horas, o horário de praxe. A celebração seria na própria pracinha, tal era a multidão que, desde cedo, acorreu à missa. Em frente ao improvisado altar, muito bem arrumadinho, como as velhinhas do apostolado da oração primavam em fazer, cadeiras foram reservadas para as autoridades. Prefeitos das redondezas eram esperados. Dois ou três deputados também. Um secretário de estado representaria o governador. O juiz e o promotor da comarca de Cruz da Serra ali estariam. 

O padre Nabuco estava na cidadezinha desde a noite anterior. Um Jeep empoeirado o trouxera. Beatos e beatas portando objetos sacros esperavam pela bênção do padre Nabuco. Às dez em ponto, deu-se início à celebração. Na pracinha, um silêncio abismal. Ali estava o orador sacro mais afamado. De estatura mediana, agalegado, quase roliço, olhinhos vivazes. Um dia para ser lembrado por todo o tempo. Uma bênção dos céus para a cidade e para aquele povão todo, que ali se comprimia. Batizados e casamentos seriam celebrados após a missa. Um momento inesquecível na vida religiosa daquela gente. A expectativa era muito grande. Todos estavam atentos, esperando a hora do sermão, que, pelo que se ouvia dizer, haveria de ser o mais belo sermão proferido naquela terra ressequida. 

O padre Nabuco iniciou a celebração em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A missa transcorreu sem sobressaltos. Cantos de penitência e glória. Oração do dia. Liturgia da palavra. Primeira leitura, salmo responsorial, segunda leitura. O alto-falante da Prefeitura com quatro bocas, devidamente consertadas, transmitia a missa. O som estava uma beleza. Como o evento sagrado merecia. Após o canto de saudação ao Evangelho, o padre Nabuco dirigiu-se ao ambão. Fez a proclamação. Silêncio. Expectativa. Ansiedade. Enfim, chegara o momento tão esperado: o mais belo sermão que, seguramente, aquele povo de Deus haveria de ouvir. O pregador disse: “Meus irmãos e minhas irmãs. Meu eminentíssimo irmão no sacerdócio e velho companheiro de Seminário, padre Afonso...”.

O padre Nabuco vacilou. Segurou o ambão com a mão direita, o microfone caiu da mão esquerda, e ele próprio tombou. Estava morto. Ninguém sabia, nem ele mesmo, que o seu coração andava por uma peinha de nada.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/09
11:28

Fedentina Política

José Lima Santana
Professor da UFS

A política como expressão cívica não fede. Ao contrário, ela é importante para o aprimoramento da sociedade. A política não apenas com “P” maiúsculo, mas, sim, com todas as letras maiúsculas. A política é o meio de interação das pessoas no convívio social. É a maneira de as pessoas envidarem esforços para o alcance do bem comum, que, em boa teoria, é a conjugação harmônica do bem de cada um com o bem de todos, como nos ensina o renomado e eminente jurista brasileiro Miguel Reale (o pai), de saudosa memória. 

Mas, a política chinfrim, a maldita politicagem, fede. E fede muito. Fede a politicagem de quem faz uso das mais diversas formas de esperteza para ludibriar o povo e, por conseguinte, para se fazer na vida através da confiança do povo ou da compra da consciência política de parte do povo sob as mais diversas formas de comprar votos ou de enganar os eleitores a cada eleição.

Neste ano, estamos numa campanha eleitoral absolutamente atípica, notadamente no plano federal, ou seja, para a presidência da República. República que, a depender de alguns larápios e figurinhas carimbadas associadas aos larápios, será, se já não o é, uma “Reprivada”. A “res” (coisa, em latim) deixa de ser do povo, para ser de alguns, que se locupletam dos recursos públicos a fim de enriquecer e de se manter no poder. A safadeza vem de todos os lados. Da direita, quase vitalícia no poder, e viciada, e da esquerda aloprada, que, uma vez alcançado o poder, também se viciou. Direita e esquerda corrompidas, ao menos no que diz respeito aos partidos, que já se encastelaram no poder central. Sem falar, claro, no poderregional (estadual e municipal)
Fede também, a meu ver, a participação de muita gente nas redes sociais. Ora, é justo e amplamente democrático que as pessoas possam exprimir suas vontades e preferências políticas, à direita ou à esquerda. Todavia, fazer uso de “FakeNews” e pregar o ódio são atitudes reprováveis. Beiram ao nazi-fascismo. E todos os lados têm feito uso disso. Lamentavelmente. 

No Facebook, por exemplo, embora haja manifestações lúcidas de cada lado político, respeitando-se os gostos de cada um, há também uma desenfreada tentativa de manipulação das massas e, o que é pior, uma desembestada forma aviltante de ataques e contra-ataques, ou seja, um fogo cruzado que depõe contra a democracia e contra o bom senso. Os “ratos de rádio” agora são “ratos de mídias sociais”. Hackers e tantos outros bichos. 

Muitas pessoas criaram e alimentam uma guerra suja, uma fedentina política insuportável. Os ânimos acirram-se sobretudo entre os defensores de um candidato da direita e de um candidato da esquerda. Os dois estão na crista da onda. Para os dois, há defensores e detratores em profusão. O jogo é bruto entre os apoiadores dos dois candidatos. Chega a dar nojo! 

O país dividiu-se como nunca, especialmente, a partir das eleições presidenciais de 2014. Quem perdeu não soube perder e quem ganhou não soube fazer com que a vitória resultasse em ganhos para a sociedade em geral. Daí veio o impeachment. E em sequência, um atoleiro moral gigantesco de alguns mandatários, que se seguia aos atoleiros anteriores. O mergulho no lamaçal foi quase geral em termos partidários. Uma vergonha inominável. Mas, todos os lados querem posar de bons moços. Ridículos!

Os eleitores midiáticos, com raras exceções, estraçalham-se. Batem boca. Inventam. Mentem. Exasperam-se. Usam as mídias sociais a serviço de seus ídolos. Ou de seus mitos. Mitos? Bem. Este é um problemão. 

Já se disse: “O mito há de ser sempre um desafio, uma abertura, um enigma. De sentido múltiplo e difuso, é através dele que as sociedades exprimem suas contradições, dúvidas e inquietações. Quase indefinível, pode designar desde o mito de Édipo até o de Michael Jackson, passando pelo mito da mulher amada ou da eterna juventude. Que ‘verdade’ podemos encontrar nele? Quais suas possíveis origens e interpretações”?

Pois nas eleições presidenciais de 2018 estamos convivendo com os mitos. Para alguns, porém, há um mito apenas. Aliás, mitos o povo os fabrica. É fácil. 

De qualquer forma, não será custoso recomendar a leitura das seguintes obras, que poderão ajudar a compreender o que seja o mito: “O Mito”, de K. K. Ruthven; “O que é Mito”, de Everardo Rocha; “O Poder do Mito” e “Mitologia Criativa”, de Joseph Campbell; “O Mito do Governo Grátis”, de Paulo Rabello de Castro. E por aí vai. 

Há pessoas que estão mitificando este ou aquele candidato porque se sentem desprotegidas pelos governos. E não se trata apenas de questões da segurança pública, não. Em vários setores da vida pública, a falta de proteção, isto é, de boas políticas, que se traduzam na melhor prestação de serviços públicos e na realização de obras estruturantes, deixa os eleitores em polvorosa. 

Recentemente, o furacão Florence fez com que pacotes de maconha batessem em praias da Flórida, nos Estados Unidos. É a droga do furacão. Um ex-deputado federal me disse que, aqui, há dois furacões: um à direita e outro à esquerda. Resta saber qual deles será eleito. Será o que vai nos trazer pacotes de drogas em termos de mazelas que possam atormentar a já atormentada vida dos brasileiros? Há, nestas eleições, lobos balindo como ovelhas. Mas, cuidado: não passam de lobos travestidos. São os piores dos lobos. 

Faltam duas semanas para as eleições. Há um quadro indefinido. Há um quadro pavoroso no ar. E a fedentina política tem tudo para aumentar. Pobre Brasil!


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/09
07:27

Advocacia algemada e dois outros casos

José Lima Santana
Professor da UFS

Segunda-feira, dia 10 deste mês. Fórum de Duque de Caxias (RJ), cidade que eu conheci em 1989, e onde, por sinal, ainda reside o meu afilhado Victor Vilar Gomes, filho do meu compadre Beto (in memoriam) e de minha comadre Lídia. 

Uma advogada inconformada com uma situação sobre a qual a juíza leiga do 3º JEC tinha entendimento diverso e, provavelmente, equivocado. No mínimo. Logo depois, a advogada seria algemada por policiais militares acionados pela juíza. Qual o crime cometido pela advogada, para ser algemada? Ora, ela cometeu o “crime” de ser altiva, de lutar pelo direito da sua constituinte, de não se sujeitar a uma decisão errônea da juíza, no que era direito seu. A juíza leiga (e, claro, nada contra os juízes leigos, que atuam nos Juizados Especiais e, que, via de regra, prestam bons serviços, na forma da lei) foi intolerante. Não agiu com razoabilidade, com prudência. Acabou, assim, causando um problema sério, um desatino, que ganhou as redes sociais, a imprensa, e deixou indignada, como não poderia deixar de ser, a classe advocatícia de todo o Brasil. 

A advogada, após não se ter obtido êxito na proposta de conciliação, pediu para acessar e impugnar pontos da contestação da ré, mas foi informada de que a audiência já havia sido encerrada.A juíza leiga teria solicitado que a advogada aguardasse fora da sala, mas, como ela insistiu em permanecer até a chegada de um representante da OAB, como é de praxe, a polícia foi então chamada para forçá-la a se retirar. Ela insistiu na presença do representante da OAB, para aquele procedimento. Ela tinha um mandato procuratório e por ele deveria zelar. Um (a) advogado (a) que se preza age assim mesmo. A ação era de danos morais contra uma empresa de telefonia. A advogada defendia uma cliente da tal empresa. 

Valéria Lúcia dos Santos é o nome da advogada ultrajada. Em entrevista prestada depois, ela disse que é mulher, negra, e que precisa trabalhar. Bravo! Bravo!

O estatuto da advocacia – Lei nº 8.906/1994, determina, no art. 2º, § 3º, que, “no exercício da profissão, o advogado é inviolável por seus atos e manifestações”. 

Diversas entidades que congregam advogados e, particularmente, advogadas, emitiram notas de repúdio. Uma enxurrada delas. Oportuníssimas. 

Depois de o porta-voz do TJ do Rio de Janeiro ter tentado “botar panos quentes”, em torno do episódio reprovável e vergonhoso, enfim, o Juiz Titular do 3º JEC houve por bem de emitir o seguinte despacho no processo: “Tendo em vista o ocorrido na audiência do dia 10 de setembro e resguardar o direito da parte autora, torno sem efeito a assentada, redesignoaij[audiência de instrução e julgamento] para o dia 18/09/2018 às 11:00 a ser presidida pelo juiz togado. Intimem-se as partes. Duque de Caxias, 11/09/2018. Luiz Alfredo Carvalho Junior - Juiz Titular”. Bravo!!

O feito foi chamado à ordem. Que a advocacia nunca mais seja algemada. Sim, porque não somente a advogada foi algemada. Foi a própria advocacia, em tese. Um absurdo! Afinal, a advocacia é a defesa do exercício livre de todos os direitos das pessoas, consubstanciados no ordenamento jurídico. 

Diante do ocorrido, a OAB/RJ realizará, na próxima segunda-feira, 17, às 15h, um ato de desagravo à advogada. Eis a convocação:“A Diretoria da OAB/RJ convoca toda a advocacia fluminense para ato de desagravo, que acontecerá na porta do juizado de Duque de Caxias e contará com a presença do presidente do Conselho Federal da OAB, Claudio Lamachia”. O presidente da Seccional fluminense, Felipe Santa Cruz, afirmou: “Sabemos que toda advocacia foi aviltada e algemada juntamente com a nossa colega. Sofremos juntos e juntos diremos NÃO”. Bravo!!!

******

Em Redmond, no Oregon, EUA, uma cadela da raça labrador salvou Joshua Horner de cumprir a pena de 50 anos de prisão, acusado de abusar sexualmente de uma menor de idade. Ele foi condenado em abril do ano passado. Durante o julgamento, a suposta vítima alegou que ele havia ameaçado atirar em seus animais se ela contasse o caso à polícia, e afirmou que viu o homem atirar em sua cadela e matá-la como forma de intimidação.Seis meses depois da condenação, o americano pediu ajuda ao Oregon Innocence Project, que contou com a ajuda do promotor do condado de Deschutes, John Hummel. Horner insistiu que nunca atirou no cão e que encontrar o animal provaria que a acusadora havia mentido sob juramento.As buscas foram feitas e as informações eram de que a labradora teria sido entregue à doação. O grupo tentou encontrar o novo dono do animal, mas não teve sucesso. Até que Lucy, a cadela, foi localizada na cidade de Gearhart, em Portland.

A descoberta da labradora indicou que a acusadora de fato havia mentido ao testemunhar, segundo o procurador distrital. O juiz do condado de Deschutes, Michael Adler, decidiu então anular o caso.Depois que Lucy foi encontrada, a acusadora faltou a um encontro em agosto para discutir seu testemunho. Na última quarta-feira, um dos investigadores soube que ela estava em uma casa perto de Redmond. Quando ele encostou o carro na entrada da garagem, para a contatar, ela saiu correndo. O caso foi encerrado e Joshua Horner declarado livre. Bravo!!!!

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Uma mulher foi estupidamente esmagada por um carro na avenida São João, no centro da capital paulista. Morte instantânea. O seu nome era Iracema. O chofer não teve culpa. O amado de Iracema fez uma música em sua homenagem, cuja letra diz assim:“Iracema, eu nunca mais que te vi / Iracema meu grande amor foi embora / Chorei, eu chorei de dor porque / Iracema, meu grande amor foi você // Iracema, eu sempre dizia / Cuidado ao travessar essas ruas // Eu falava, mas você não me escutava não / Iracema você travessou contramão // E hoje ela vive lá no céu / E ela vive bem juntinho de nosso Senhor / De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos / Iracema, eu perdi o seu retrato”.

Ora, isso é a simplicidade da belíssima música “Iracema”, composição de Adoniran Barbosa, gravada pelo conjunto “Demônios da Garoa”, em 1956, e pelo próprio compositor, sendo a última gravação por Adoniran datada de 1974, pela Odeon. Adoniran, o maior sambista da terra da garoa, tinha um modo peculiar de compor. Suas composições são crônicas que retratam a alma da “inocente” marginália paulistana. 

Adoniran era filho de Francesco Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos da localidade de Cavárzere, província de Veneza. Nasceu a 6 de agosto de 1910, em Valinhos (SP) e faleceu a 23 de novembro de 1982, na capital paulista, aos 72 anos. Quem poderá esquecer de “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” etc.? Bravíssimo!!!!!
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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