14/10
11:41

Dulcíssima Dulce

José Lima Santana
Professor da UFS

 
Na língua de Cervantes, “dulce” é doce. Eis o nome que ela escolheu como no seu tempo de iniciação religiosa era comum nas congregações católicas. Dulce era o nome da mãe de Maria Rita, ou seja, da Irmã Dulce. Dulce dos Pobres. O Anjo Bom da Bahia. E por que não do Brasil? O Anjo Bom também de Sergipe. Afinal, aqui ela iniciou a sua vida religiosa, em São Cristóvão. Aqui foi operado o primeiro milagre reconhecido pelo Vaticano, sob a intercessão da Irmã Dulce.
 
Desde que o Papa Francisco anunciou a canonização da Irmã Dulce, que fora beatificada sob o papado de Bento XVI, muitos compositores têm dedicado músicas àquela que, neste domingo, 13 de outubro de 2019, será elevada aos altares como santa. Dentre tais compositores, destaca-se Theotônio Neto, cuja música em homenagem à Santa Dulce é interpretada pelo cantor sergipano Roberto Alves, que deu um toque especial à sua interpretação.
 
Desde 9 de fevereiro, por decisão do Sr. Arcebispo Metropolitano de Aracaju, Dom João José Costa, eu estou à frente da Paróquia Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, que passará a se chamar Paróquia Santa Dulce dos Pobres. Não sei, numa visão simplista e meramente terrena, porque eu fui parar ali. Porém, acredito nos desígnios.
 
A Paróquia citada foi erigida sem uma igreja matriz. Aos poucos, os padres que passaram por ali, como Almi e Wagner, com a colaboração da comunidade, foram fazendo o que era possível. Depois, veio o diácono Francisco, como administrador paroquial. A obra da igreja tomou certo impulso. Paralisou sob embargo da EMURB, em face de problemas com o projeto arquitetônico, que carecia de alterações. Dois meses após eu assumir a Paróquia, deu-se o desembargo da obra, que foi recomeçada. Muito ainda falta para fazer. Será preciso a continuidade das ações generosas da comunidade, que, a bem da verdade, dentro das limitações de cada um e de cada uma, não têm faltado.
 
Falar em Irmã Dulce é falar na doçura aguerrida, na gentileza firme, na generosidade não passiva. Uma visionária. Uma lutadora. Uma fortaleza por trás do hábito a vestir o corpo frágil. Santa? Desde sempre. Os santos nascem com a auréola dos que pegam no arado sem olhar para trás, dos que tomam a cruz e seguem, dos que se vestem de bons samaritanos (ou de boas samaritanas, conforme o caso), dos que são luz e sal. Dulce era tudo isso. A Bahia sabe muito bem disso. Os baianos, milhares, muitos milhares, sentiram nas entranhas a doçura do seu coração, manifestada em amor que se fazia serviço e em serviço que era prestado com amor.
 
Na Igreja Católica, os santos e as santas são canonizados (as) para ganhar os altares. Os não católicos não compreendem isso, não aceitam isso, mas não têm como nem porque compreender e aceitar. São situações postas por um segmento religioso, que se compreende e se apresenta no contexto da manifestação de Jesus Cristo, quando disse a Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Assim o é. Esta é a fé católica. Inabalável.
 
A Igreja, ao longo dos séculos, constatou que “os santos e santas sempre foram fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis da história da Igreja. Com efeito, a santidade é a fonte secreta e a medida infalível de sua atividade apostólica e de seu elã missionário” (Catecismo da Igreja Católica, 828). A todos Deus faz o convite de viver em profunda conformidade com o Evangelho de Jesus Cristo, numa experiência incondicional do mandamento do amor a Deus e ao próximo, a fim de alcançar uma perfeita união com Jesus, ou seja, a santidade. “Sereis santos porque eu sou santo”, disse o Senhor (Lv 11,45).
 
Existe um caminho que se faz para reconhecer santos e santas alguns homens e mulheres que, como se acredita, Deus escolhe para seguir mais de perto o exemplo de Cristo, e darem testemunho glorioso do Reino dos céus, seja com o derramamento de sangue ou com o exercício heroico das virtudes (Constituição Apostólica – Divinus Perfectionis Magister).
 
A Igreja tem sempre conservado a sua memória, propondo aos fiéis exemplos de santidade no seguimento de Cristo. Ao longo dos séculos, os Romanos Pontífices se preocuparam em expedir normas adequadas para facilitar a obtenção da verdade numa matéria de tão grande importância para a Igreja (Sanctorum Mater – Congregação para as causas dos santos).
 
Na Constituição Apostólica do Papa João Paulo II sobre a legislação relativa às causas dos santos, foram dadas orientações para o processo de canonização, e uma delas é a participação ativa das Igrejas particulares (dioceses). O Documento aponta que “à luz da doutrina sobre a colegialidade proposta pelo Concílio Vaticano II, seria conveniente associar os Bispos à Sé Apostólica no tratamento das Causas dos Santos”.
 
Para cada causa é escolhido pelo Bispo um postulador, cuja tarefa é investigar detalhadamente a vida do candidato para conhecer sua fama de santidade. Sendo que já é chamado Servo de Deus o fiel católico do qual se iniciou a causa de beatificação e canonização.
 
O primeiro processo é o das virtudes ou martírio. Essa é a etapa mais demorada, porque o postulador deve investigar minuciosamente a vida do Servo de Deus, verificar a fundo a vivência das virtudes. Já no caso de um mártir, devem ser estudadas as circunstâncias que envolveram sua morte, para comprovar se houve realmente o martírio. Ao término desse processo, a pessoa é considerada venerável.
 
O segundo processo é o milagre da beatificação. Para se tornar beato, é necessário comprovar um milagre ocorrido por sua intercessão. No caso dos mártires, não é necessária a comprovação de milagre. O terceiro e último processo é o milagre para a canonização. Este tem que ter ocorrido após a beatificação. Comprovado esse milagre, o beato é canonizado e o novo santo passa a ter um culto de veneração universal. Não se trata de adoração, como alguns podem entender de forma equivocada. Adora-se unicamente a Deus, único, verdadeiro, vivo.
 
Chegou o tempo de Dulce. Santa Dulce. Neste domingo, 13, em Roma, ela será canonizada. Na nossa Paróquia, haverá vigília e adoração ao Santíssimo, a partir das 04:00 horas. A seguir, os fiéis que ali comparecerem poderão assistir a solenidade de canonização através de aparato eletrônico instalado para esse fim. Depois, será servido um café da manhã. Às 08:00 horas, o senhor Arcebispo presidirá a Santa Missa. Para quem não sabe, a igreja de Dulce dos Pobres fica na Rua Orlando Tavares, Aruana. Indo pela Av. Melício Machado, passando pelo primeiro posto de gasolina Petrox, entra na primeira via à direita. Há uma placa indicativa na esquina. Dali, são 800 metros em linha reta. Estão todos convidados.
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/05
20:43

A UFS? Por que a UFS?

José Lima Santana
Professor da UFS

Não há uma ação volitiva sem uma intenção que lhe sirva de alicerce. Todo ser humano faz ou diz o que quer, tendo por pano de fundo uma causa, um objetivo. E daí resultam consequências. No último 1º de maio, Dia do Trabalho, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, num canal de televisão fechada proferiu um despautério sobre a Universidade Federal de Sergipe. 

Por que a UFS foi a bola da vez do tal ministro, a ser, pode-se dizer, “esfaqueada”?

Primeiro, o tal ministro fez uma comparação, no mínimo, indevida, pois não se pode comparar entidades com situações díspares. O tal Onyx claudicou feio. Errou, porém, deliberadamente. Estava sem apontamentos, mas, com o que queria dizer na ponta da língua. Lição aparentemente bem absorvida pelo tal ministro. Mas, a bem dizer, pessimamente absorvida. O tal ministro em sua sanha miserável de justificar o que lhe interessava justificar, MENTIU. Mentiu feio. Mentiu descaradamente. 

Disse o tal ministro, como se estivesse dando uma aula (e como se aula ele soubesse ministrar), embora esteja ministro (e essa qualidade não tem nada a ver com a aptidão para dar aulas), e disse de forma enfática, que a Universidade Federal de Sergipe não tinha nenhum projeto de doutorado e mestrado com nota 5. Mentiroso!!! Enganador. A serviço de quem estava o tal ministro ao proferir tamanha e deslavada MENTIRA? O que ele pretendia, ao certo? Por que não procurou no Ministério da Educação os dados corretos? Não lhe interessavam tais dados? Por que? Ministros podem mentir? No Brasil, talvez. No atual governo (e em governos anteriores) com certeza. Podem, mas não devem. Jamais deveriam. 

No dia 2, ao que parece, Sergipe amanheceu alvoroçado com a MENTIRA suja (como se houvesse mentira limpa!) desse tal ministro. Nas redes sociais, na imprensa, em todos os lugares vozes se levantaram para dizer de tudo. O mais importante, o que realmente importava dizer, naquele momento, pouquíssimas vozes o disseram: que o ministro MENTIU. Malditas sejam as mentiras. Maldita seja a MENTIRA do tal ministro da Casa Civil.

De lá para cá, da Câmara Municipal de Aracaju ao Congresso Nacional, parlamentares ergueram suas vozes em combate ao tal ministro mentiroso. À MENTIRA que ele irresponsavelmente lançou nos ares do Brasil, maculando a imagem da Universidade Federal de Sergipe, nos seus 51 anos de benefícios ímpares em prol de Sergipe e dos sergipanos, levantou-se o repúdio, embora a própria UFS tenha sido parcimoniosa em rebater a MENTIRA. Porém, o tal ministro não sabe nada a respeito da nossa UFS, a não ser o que ele disse em sua fala torpe, na TV: a MENTIRA que ele criou, ou alguém criou para ele. 

Não é fácil engolir MENTIRAS, muito menos se ela vem da boca de uma autoridade pública, que tem o dever de bem servir ao povo, e não a pessoas ou grupos de pessoas. Ainda hei de perguntar: a quem o tal ministro procurou servir com a fala eivada de MENTIRA? É óbvio que ele jamais dirá. Nem precisa. Ao menos, para mim. Imagino.
Podem dizer que o tal ministro queria apenas desmerecer o ensino superior público, e, mais de perto, as Universidades Federais. Ora, bolas! Muitos o querem fazer. E, pior, o fazem. É verdade que o ensino superior público precisa melhorar certos aspectos. Mas, o privado, muito mais, em tese. Todos os índices oficiais ou oficiosos dizem isso. 

Bem. Eu deixei para escrever este artigo, passadas as emoções dos dias logo após o dia 1º. A primeira parte do artigo vem até aqui. Não tenho outra pretensão, a não ser enfatizar e repudiar a MENTIRA do tal ministro, quando ele disse, repito, que a Universidade Federal de Sergipe não tinha nenhuma nota 5 em seus projetos de doutorado e mestrado. O tal ministro sabia que tinha, e tem. Claro que sabia. Mas, a MENTIRA precisava ser jogada nos ares. O tal ministro tinha intenções sórdidas com a tal MENTIRA. Esqueceu-se, contudo, de que MENTIRAS tinham, como têm, deveras, pernas curtas. Curtíssimas. 

A segunda parte deste artigo é a mais curta. Curtíssima. É apenas para dizer que a Universidade Federal de Sergipe, embora sendo uma das menores dentre as Federais, até mesmo pelo próprio porte do nosso estado, tem prestado serviços incomensuráveis ao povo sergipano, nas mais diversas áreas da vida social, econômica e política. 
O custo das universidades federais é grande? Prove-se de forma concisa e busque-se as correções de rumo, se for mesmo o caso. Se for. 

Como professor da UFS, não me senti diminuído com a provocação MENTIROSA da fala do tal ministro. Afinal, esse tal ministro é infinitamente menor do que a Universidade Federal de Sergipe. Ele é só Onyx. Nada mais. 

 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/03
12:54

Agradecimento

José Lima Santana
Professor da UFS

Ao longo do tempo, em jornais, revistas, sites e blogs, eu publiquei mais de seiscentos (600) escritos (artigos literários e jurídicos, comentários políticos, crônicas, contos etc.). Faltam ser catalogados alguns que publiquei na inesquecível Gazeta de Sergipe, na década de 1980. Precisarei levantar esses escritos, pois não guardei exemplares das publicações. Não são muitos. Porém, de um desses artigos gazetianos, sobre a obra estética do pintor argentino Alberto Carbi, morador na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, foi colhido um texto que fez parte do folder desse pintor, em espanhol e francês, para a grande exposição francesa, que, em julho de 1989, comemorou os 200 anos da Queda da Bastilha. Alberto, um amigo, tinha sido escolhido pelo Senado argentino para representar o seu país naquela exposição, e eu escrevi o artigo a partir da primeira exposição individual que ele realizou na Cidade Maravilhosa, meses antes.  

A maioria esmagadora dos meus escritos foi publicada no Jornal da Cidade, da nossa querida Aracaju. No referido Jornal foram mais de quinhentas (500) publicações, que se iniciaram em 1992. Dessa data até 2008, eu publiquei esporadicamente. 

A partir de 2009, eu passei a publicar, semanalmente, no Jornal da Cidade. Foram mais de quatrocentos e noventa (490) publicações, desde fevereiro do ano citado. De lá para cá, pelo que me lembro, só não estive no JC apenas por três semanas: uma vez, eu esqueci de enviar o artigo e por duas vezes os artigos não foram publicados em face de questões técnicas do Jornal. 

Em 2009, os meus escritos foram publicados em dias diferentes, até que Marcos Cardoso facultou-me a edição de domingo, que, hoje, é a edição de fim de semana. Tive, então, a honra de publicar na edição nobre. E, muitas vezes, na página dita mais nobre, a A-7. E outras tantas vezes, com chamadas. 

Aos poucos, fui angariando o gosto de alguns leitores pelos meus escritos, notadamente pelos “causos”, que eu prefiro chamar de “contos provincianos”. Em 2016, recebi um e-mail do renomado jurista capixaba, João Batista Herkenhoff, que localizou o meu e-mail, elogiando o conto intitulado “O fuzil e o bico do urubu”, publicado, no JC, na edição de 6 de setembro de 2015. Eis o texto, na íntegra, do referido e-mail: 

“Prezado Dr. José Lima Santana,
Li hoje seu artigo, através da internet: O fuzil e o bico do urubu.
Seu estilo é muito agradável.
Além disso, tem a arte de colher as coisas interessantes do cotidiano.
Parabéns,
  João Baptista Herkenhoff
  (João Baptista Herkenhoff, 80 anos, Juiz de Direito aposentado, escritor, professor, Vitória (ES). E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com)”. 

Depois que Marcos Cardoso deixou o cotidiano do Jornal da Cidade, Luiz Melo passou a receber os meus escritos. Ultimamente, recebia-os Dilson Ramos. E, nas suas últimas férias, Andréa Vaz. A todos eles, os meus penhorados agradecimentos. Agradecimento especialíssimo ao Jornal da Cidade, claro. 

Como está em voga a palavra hibernação (infelizmente, a FAFEN está hibernando, a SABE está hibernando, como noticia a imprensa), estarei, a partir desta semana, hibernando. Até quando? Não sei. O que sei, é que preciso dedicar qualquer sobra de tempo para a minha atividade educacional, para escrever textos que digam respeito ao meu labor como professor de Direito da Universidade Federal de Sergipe. E o meu tempo está escasso. Muito escasso. 

Do mesmo modo, estarei hibernando em face do Facebook, no qual eu também tenho postado os meus escritos semanais. Peço a compreensão de todos. 

Sentindo-me, sobremaneira, sobrecarregado por conta de múltiplas funções na Arquidiocese de Aracaju, deverei concentrar-me, por enquanto, em apenas duas delas (a Paróquia e o ARQUI), afastando-me de todas as outras. Espero a compreensão do Senhor Arcebispo, com quem já falei. Preciso cuidar mais de minha saúde e de minha família, especialmente de minha mãe. O professor dorense, Manoel Cardoso, que reside em São Paulo, e que é o maior escritor e o mais brilhante intelectual de minha terra natal, sem nenhum favor, tem insistido, semanalmente, através de seus constantes e agradáveis e-mails, que eu reserve um tempo para mim mesmo e para o meu contato mais reservado com Deus. Ele tem razão. Eu não devo continuar trabalhando de segunda-feira a segunda-feira, como vem ocorrendo, dormindo, inclusive, poucas horas por dia. Sem um dia de descanso semanal, como até os padres têm direito. Ninguém aguenta isso. E eu não sou de ferro. Sou de carne e osso, como todos os seres humanos. 

Obviamente, continuarei escrevendo. Aliás, há quinze dias, assinei contrato com uma editora de São Paulo, para a publicação de mais um livro, o décimo entre autorias e coautorias. Outros virão. 

Agradeço, e agradeço muitíssimo, aos leitores que, pacientemente, leram o que eu publiquei. Sem os leitores, quem escreve não passa de um balão que perde o ar quente que o sustenta, e cai. 

Não sei quando voltarei a publicar os escritos semanais. Agradeço também ao site Clicksergipe de Ronaldo Ramos e ao blog Primeira Mão do jornalista Eugênio Nascimento, que republicaram os meus escritos, publicados no Jornal da Cidade. No Clicksergipe eu também publiquei artigos inéditos, comentários e vlogs. 

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu” (Eclesiastes 3,1).

Obrigado a todos. E até um dia.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/02
14:25

Depois da escova e da barata (*)

José Lima Santana
Professor da UFS

O carro estava com um pequeno amasso na chamada “saia” dianteira esquerda, ou seja, do lado do passageiro. Um amasso minúsculo, que ele não tinha detectado antes. Não lembrava do que teria ocorrido. Na noite anterior, tomara uns uísques. Chateou-se. O dia começou às esquerdas. Uma barata lambendo a escova de dentes. Agora, aquele amasso na lataria do carro. O que mais viria naquele segundo dia, após a derrapada que lhe deu as dores de cabeça do dia anterior? A selfie da prima sentada na sua perna. O namoro desfeito. A mulher que lhe endireitou na vida, estava desapontada. Ele compreendia que um homem ou uma mulher não precisava fazer declarações de juras de amor. Coisas de romance barato. Mas, um propósito de respeito mútuo era essencial. Na selfie, Raquel pôde deduzir que ele desfizera o compromisso de respeito que os dois assumiram, um diante do outro. 

Saiu de casa. Aquele pequeno amasso no carro era mais um problema a lhe perturbar. Seria uma perturbação tola noutro momento. Porém, naquele instante em que a sua cabeça fervilhava, era mais um problema a lhe esquentar o quengo. 

A empresa precisava dele, como sempre precisou. O gerente, Antônio Carlos, era um empregado comprometido com o trabalho. Operoso e líder da pequena equipe da loja, formada por mais oito empregados. Com o subordinado, ele podia contar nos momentos de maiores apertos, como era o caso daqueles dias e dos mais que poderiam vir. 
Ele precisava colocar a cabeça no lugar. Não seria fácil. Todavia, o mundo não estava para acabar. Não considerava ter jogado a toalha. Não estava beijando a lona. Um namoro tão bem constituído não poderia acabar assim, por causa de uma simples selfie. A namorada, sim, a namorada, pois ele ainda achava que não a teria como ex-namorada, precisaria ouvi-lo, ter paciência para as explicações que as tinha para dar. Não haveria de ser uma prima tresloucada, e prima em segundo grau, que, por meio de uma selfie,destruiria uma relação amorosa de quase três anos. Impedir um casamento que seria celebrado no ano seguinte. Era o que ele tinha proposto. Foi o que ela consentiu. Agora, tudo desfeito? Não! Ele não haveria de permitir que a felicidade lhe escapasse, como água escorrendo por entre os dedos, debaixo de uma torneira, numa bica ou na praia. 

A muito custo, deu-se conta de que a clínica onde a mãe haveria de realizar os rotineiros exames, era na próxima esquina. Um pequeno engarrafamento. Um louco buzinava atrás dele, como se o trânsito pudesse fluir por causa de uma buzinada. A mãe, ao seu lado, não sabia do que se passava com o filho. Era melhor assim. Ela estava com indícios de começo do mal de Alzheimer. Doía vê-la repetir as mesmas coisas poucos minutos depois de as ter dito. De esquecer algo que fizera meia hora antes. Ele era o filho caçula, temporão. Nasceu quatorze anos depois do último irmão. Era a ponta de rama. A doença veio muito precocemente. A mãe ainda não tinha setenta anos e estava esquecendo as coisas. Já não bastavam os cuidados que precisava dispensar à mãe. Ainda tinha que lidar com o namoro desfeito. Deveras, desfeito? O noivado estava certo para ocorrer no dia dos namorados. O brasileiro, em junho, não o norte-americano, o Valentine’s Day, que estava começando a fazer moda no Brasil, como o Halloween, que se empesteara pelo país afora. Modismos. Lixo cultural dos ianques. 

Enfim, a clínica. A irmã Lucila já estava à espera deles. Ela ficaria com a mãe, para que ele pudesse dedicar-se aos negócios. Beijou a irmã. Beijou a mãe.

Haveria de ligar para Raquel. Ela não poderia deixar de ouvi-lo. Sabia que não seria fácil convencer a namorada, ou ex-namorada, de que aquela selfie não tinha nada demais, a não ser por ele estar descamisado e a prima, Cíntia, em roupas íntimas. Não era nada. Não aconteceu nada entre eles. Um momento de descuido diante do calor exagerado de fevereiro. O tempo estava destrambelhado. Afinal, tinha gente na casa da prima, naquela tarde, dois dias antes. Ele tinha provas. Fora ali para almoçar. Nada mais. Raquel não podia ser tão intransigente. Ele sabia que tinha cometido um erro. Deixar a prima sentar em sua perna esquerda, naqueles trajes, foi um lapso. Nada mais. Mas, compreendia o desapontamento instantâneo da namorada. Se fosse o inverso, como ele reagiria? Não queira nem pensar. 

Amava Raquel. Ela era a sua companheira, a sua cúmplice. Aquela cabeça de mulher adulta, ponderada. Resolutiva, conselheira. Aquele sorriso. A ternura. O modo gentil com que ela segurava a sua mão, apoiava-se em seu braço, confiante. Os olhos cor de mel, os cabelos sedosos, tão bem cuidados. A pele mais macia do que um pêssego. Os momentos de intimidade. Como renunciar a tudo aquilo? Não. Ele não poderia perdê-la. Ligaria mais uma vez para ela. No dia anterior, depois que ela anunciou o rompimento, ele ligou várias vezes. Ela não atendeu. Segundo lhe disse a mãe dela, Raquel viajou. A mãe não disse para onde. Ele compreendia o desapontamento dela. Compreendia. Porém, ela teria que lhe ouvir. Até lhe desculpar, lhe perdoar. Sim, pediria perdão. Não lhe custaria nada. Ela estava certa. Se fosse o inverso, ele não saberia como teria reagido. Provavelmente, sentiria o coração sangrar. Então, compreendia o que ela estava sentindo. Não era burro. Tinha consciência. 
Chegou à loja. As mercadorias recebidas na tarde anterior estavam sendo conferidas pelo gerente e por dois empregados. Os negócios iam tão bem, que já pensava em expandir. Abriria outra loja. Estava nos acertos. Por outro lado, Raquel também estava bem estabelecida como esteticista. Ambos progrediam. Uma selfie não haveria de pôr termo à relação entre eles. Lutaria por ela até o fim. Não a poderia perder. Ela mudara o seu modo de vida, fizera-o endireitar-se. 

No escritório, tomou do celular e ligou para Raquel. O telefone tocou. O coração acelerou um pouco. Continuou tocando. Acelerou ainda mais. Tocou. Ele coçou a cabeça. Tocou. Repentinamente, ele se lembrou de uma frase dita por uma jovem mulher ao jovem esposo, num filme ao qual ele assistiu com Raquel, na TV por assinatura: “Amar é não ter jamais que pedir perdão”. O telefone continuou tocando. 

(*) Continuação do texto “A escova e a barata”, publicado anteriormente.
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/02
16:32

A Escova e a Barata

José Lima Santana
Professor da UFS

Que dia terrível! Foi um daqueles dias em que nada, absolutamente nada, daria certo. Não deu. Três anos e meio de namoro jogados na lata do lixo. E tudo por culpa dele. Um deslize. Uma coisa pouca. Mas, um deslize, que mulher nenhuma costumava perdoar. E os homens perdoavam? Também aquela Cíntia não dava trégua. Que prima que ele tinha! Prima em segundo grau, mas, prima. Aporrinhou-o o tempo todo. Conseguiu o que queria. E ele, agora, a ver navios. Aliás, a não ver nada. Haveria de ter um jeito de reconquistar a mulher com a qual ele foi moldando a vida, deixando de ser o descarado que fora até aquela tarde, no Shopping, quando a encontrou pela primeira vez. Três anos e meio sem sobressaltos. Ajeitando-se na vida. Aprumando-se ao lado dela. Até voltar à faculdade, ele voltou. Tudo por insistência dela. Tinha largado o curso no sétimo período, para se dedicar ao comércio. Afinal, ia bem nos negócios. Mas, foi muito importante ter um diploma. Ajudava na hora de fazer as coisas, de acertar os custos etc. Formou-se em Contábeis. Uns professores “malas”, ele conseguiu, enfim, driblar. Antes, fora reprovado por dois deles. Discussões bestas na sala de aula. Invejosos. Ganhavam pouco, enquanto ele já estava bem situado nos negócios. Por isso, largara o curso. 

Preparando-se para casar no início do ano novo. Agora, tudo parecia ter ido de água abaixo. Seria preciso reverter a situação. Aquela Cíntia! Uma descarada, uma pervertida! Também, como ele foi cair na jogada dela? Um absurdo. Onde estava com a cabeça quando aceitou ir à casa dela e ficar lá de bobeira, para ela fazer aquelas fotos sem pé nem cabeça? Sim, sem pé nem cabeça. Ele, lá, sentado no sofá, e ela aproveitou-se dele, sentou na sua perna esquerda, ele descamisado, ela de roupas íntimas, e fez uma selfie. Maldição. Uma selfie! E ali estava a derrota de um homem. Como dizia a sua mãe, “quem mais suja a casa são os pombos e os primos”. 
Hora maldita. E a prima ainda achou de enviar as fotos para o “zap-zap” de outra prima, a da namorada, ou, agora, ex-namorada. E a prima, claro, repassou para a outra. Bomba. Bomba atômica. O mundo desabando ao redor dele. Uma prima. Uma selfie. E o mundo desandando. 

Que noite terrível! Dormir? Não tinha como. Voltou aos tempos da adolescência, quando tinha insônia, noites após noite. Não dormia um segundo. Amanhecia com a cara inchada e os olhos remelentos. A mãe procurou tratamento, mas, de quase nada adiantaram as consultas médicas, os exames e os medicamentos. Medicamentos pesados, traja preta. Ainda assim, pouco dormia. Quase nada. Insônia. Insônia. Insônia. O tempo venceria a insônia dos tempos de adolescente. 

Naquela noite, quase encheu a cara. Tomou uns uísques, apenas. Três ou quatro cowboys. Puros, descendo na garganta, tirando a sujeira, rasgando a goela. Zanzou de carro por aí. Quis ir à casa da cínica. Da desgraçada que desgraçou a sua vida. Ele? Não, não teve culpa de anda. Nunca dera em cima da prima em segundo grau. Nem mesmo antes do namoro. Quanto mais depois! Apenas a olhara uma vez ou outra com um pouco de malícia, um olharzinho despretensioso, na verdade. Nada mais. Mas, ela, Cíntia, dava em cima dele como carrapato em cima de lombo de burro magro. Os homens eram sempre uns santos. Eram provocados [assim eles se sentiam; pobres diabos]. 

Noite perdida. Consultou o relógio na cabeceira da cama. Passava das duas horas da madrugada. Deitara-se pouco antes de uma hora. O sono secou nos olhos. Levantou-se por volta das três horas. Estava suado. O ar-condicionado estava em 20 graus. Por que tanto suor? Tomaria um banho. A água fria esfriaria a cabeça. Quem sabia, não o ajudaria a dormir umas duas ou três horas. Precisaria estar de pé ainda cedo. Exames da mãe para fazer. Ele a levaria à clínica, como sempre o fazia. Foi ao banheiro. Tomou uma ducha. A água fria o aliviaria. Demorou uns vinte minutos debaixo do chuveiro. Enxugou-se. Não, a água fria não esfriaria a cabeça. Os miolos ferviam. Voltou para a cama. Revirou-se para um lado e para o outro, incontidas vezes. Uma selfie! Uma maldita selfie. A namorada (ex-namorada, bem entendido, ao menos por enquanto) já tinha ciúmes da prima em segundo grau. Uma sentada na perna esquerda. Apenas uma sentadinha. E tudo foi posto a perder. 

No passado, tivera muitas namoradas, “ficantes” e o diabo a quatro. Nenhuma mulher lhe tinha feito pensar a vida de modo diferente, antes de Raquel. Uma mulher para fazer a felicidade de um homem, para fazê-lo criar juízo, para ajudá-lo a tocar a vida com seriedade e serenidade. Não a poderia perder daquele modo. Ela lhe devolvera o anel de noivado. Uma frase. Apenas uma frase dita com determinação: “Jamais serei mulher de um homem de duas mulheres”. Porém, ele não tinha duas mulheres. Tinha apenas uma. Não queria outra. Nenhuma outra. 

O dia amanheceu, encontrando-o como tinha caído na cama, pouco depois da uma da madrugada. Que dia ele haveria de ter! Dois caminhões de mercadorias tinham chegado na tarde anterior. Na tarde fatídica. Tudo aconteceu tão de repente. Um rolo compressor passara por cima dele, deixando-o moído. Mercadorias a ser conferidas pelos empregados sob a orientação dele. Com qual cabeça? 

Levantou-se. Tornou a tomar banho. Fez a barba. Precisava fazer a higiene bucal. Foi quando se deu conta de que só lhe faltava aquela: uma barata lambendo a escova de dentes. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/02
12:29

Choro pelos que morrem, na esperança da devida responsabilização

José Lima Santana
Professor da UFS

Desculpem-me os amigos internautas, mas, eu preciso confessar um dos meus defeitos, dentre tantos que os tenho: eu não sei ser corporativista. É claro que estou, ainda, tocado pela emoção e pela comoção. Depois de Brumadinho, quando sequer temos regatado os corpos de dezenas de trabalhadores que perderam suas vidas, eis que mais uma tragédia se abate sobre nós. Os jovens que sonhavam com um futuro radiante nos gramados, que, nalguns casos, esperavam dar uma vida melhor aos seus familiares, tiveram suas preciosas vidas ceifadas no Ninho do Urubu. Com eles, alguns empregados do Clube.

Eu sou flamenguista desde não sei quando. Acho que já nasci flamenguista. Ou, quem sabe, já fui gerado rubro-negro. Fui eleito conselheiro, na eleição de 8 de dezembro. Mais uma vez. Porém, estas condições de torcedor, sócio e conselheiro, não me dão o direito de ser corporativista. Repito que ainda estou tocado pela emoção e pela comoção, mas, fiquei estarrecido, ao longo do dia, na sexta-feira, ao tomar conhecimento das irregularidades que se arrastavam há anos, nas dependências que alojavam os jovens atletas, as promessas de novos craques da bola, no CT do meu Clube. O maior campeão do futebol carioca (Taça Guanabara e Campeonato Estadual), cinco vezes campeão brasileiro (alguns dizem “seis”), campeão do mundo. O que significa tudo isso, se há gravíssimas responsabilidades a serem apuradas? Erros. Falhas. Pouco me importam. Houve irresponsabilidades dos dirigentes que, desde alguns anos, não cuidaram de zelar, primeiro, pelas pessoas que abrigavam, e, depois, pelo nome do Clube.

Agora, depois da tragédia, vêm à tona as irregularidades. Muitas delas. Onde estavam os sucessivos dirigentes? Onde estavam aqueles que nós, sócios, elegemos em sucessivas eleições, ao menos nos últimos anos. Pelo menos, desde 2004 foram detectadas irregularidades. Por que não foram resolvidas? Por que a Prefeitura do Rio de Janeiro não interditou, de vez, o CT do Flamengo? Também o Ministério Público detectou problemas. Há um processo que se arrasta... Meu Deus! Esperaram que vidas fossem ceifadas para, cada um dizendo o que bem quer, tomarem providências.

Vejamos algumas aberrações:
1. “Em uma publicação no Diário Oficial do Município em janeiro de 2012, o auto de infração de número 569057 informava que o clube teria que arcar com uma multa de R$ 399,39”. Pasmem: uma multa menor que R$ 400,00. Uma piada de mau gosto. Quem liga para uma multa dessa? Bem, pessoas sérias ligam, sim.

2. “A Secretaria Especial da Ordem Pública (SEOP) do Rio de Janeiro determinava ainda que o Rubro-negro sofreria o ônus de R$ 570,56 diários caso decidisse abrir as portas”. E daí? As portas foram abertas.

3. “Em janeiro de 2012, a SEOP informou que o mesmo CT que foi palco de tragédia nesta segunda-feira (8) fora notificado seis vezes desde 2004 por falta de alvarás. A Secretaria e o clube não especificavam quais eram os problemas”. Notificado seis vezes por falta de alvarás. Mas, não interditaram. Deveriam ter feito.

4. “Em nota divulgada nesta sexta, o Tribunal Regional do Trabalho da 1º Região (TRT) afirma que, segundo o MP, as condições do CT onde os jovens estavam alojados (pessimamente alojados) eram comparáveis à de centros de detenção para menores infratores. ‘Precárias condições oferecidas pelo Clube de Regatas do Flamengo a seus atletas são inferiores até mesmo àquelas ofertadas aos adolescentes que cumprem medida socioeducativa de semiliberdade em unidades do Departamento Geral de Ações Educativas (DEGASE), o que revela o absurdo da situação’, diz o comunicado. Ao longo da ação, foram determinadas diversas vistorias no local, e houve concessão de prazo para que o Flamengo sanasse as irregularidades”. Meu Deus! E deixaram que essas condições absurdas continuassem. Sim, deram prazo...! Ridículo!

5. “Com problemas constantes nos últimos anos, o Ninho do Urubu foi alvo de ação recente do Ministério Público do Rio de Janeiro pelas más condições oferecidas aos atletas de base que aplicava. O processo, iniciado em 2015, faz menção a irregularidades no centro de treinamento”. O processo vem se arrastando... E se arrastaria até quando, se não fosse a ocorrência dessa tragédia inominável?

Em face dos cinco itens acima elencados, estávamos diante de uma tragédia anunciada. Ninguém se deu conta disso? Ninguém?

Este país não é mesmo sério. Há muito bocó onde deveria estar gente comprometida com a vida e com a seriedade dos atos públicos e das atividades privadas.

Estou de luto pelas vidas que perdemos, desafortunadamente. Estou de luto pelas famílias que perderam seus entes queridos. Estou de luto pelo meu Clube, que não deveria passar por isso.

Como torcedor, sócio e conselheiro, vou aguardar respostas. Tardias, é bem verdade. Como cidadão, espero a apuração de responsabilidades. Durissimamente. É o mínimo que posso esperar.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/02
12:35

Duas situações absurdas:Brumadinho e as doenças negligenciadas

José Lima Santana
Professor da UFS
 
Depois de Mariana, e sem que ainda fossem reparados os danos causados às pessoas e ao meio ambiente, eis que a Vale do Rio Doce, na verdade, amarga, muito amarga, entregue ao mundo capitalista (nada contra o bom emprego do capital), que é tentado a pensar muito mais no cumprimento da remuneração dos capitais investidos, produziu o mais bizarro, triste e vergonhoso crime ambiental, seguido de homicídios cometidos com dolo eventual, na visão de alguns juristas. Espera-se que outra não deve ser a tese do Ministério Público ao denunciar os crimes cometidos contra as pessoas, a maioria delas formada por trabalhadores da própria Vale. 

Uma tragédia humana sem precedentes no país, considerado o tipo e a forma do lamentável acontecimento. Serão centenas de mortos, dado o número de mortos já contabilizados e o grande número de desaparecidos. Crimes hediondos. Assim deveriam ser considerados, embora, na raiz da legislação penal, assim não o são. 

As terríveis e temíveis barragens do tipo a montante não são fiscalizadas de forma adequada. Na Bolsa de Valores, a Vale, de início, despencou. Mas, como o capital vive de oportunidades, especialistas aconselham os investidores a comprarem ações dessa empresa, enquanto estão com preços em queda, para poder ganhar amanhã, quando tudo se normalizar. No mercado, é claro. Nas vidas das famílias atingidas, do município onde a tragédia ocorreu e ao longo de uma vasta área devastada, a normalização não se dará ou demorará muito tempo para ocorrer. 

Os governos não aprenderam. As autoridades que se sucederam no poder e nos cargos, não aprenderam. Teimaram em não aprender. Teimam. Teimarão? As mineradoras jamais aprenderão, se não forem cobradas devidamente como devem ser. A mediocridade dos órgãos e entidades que regulam, controlam e fiscalizam, ou, melhor, que deveriam fazer tudo isso em nome da decência, da ética, das leis, do respeito ao povo, haverá de continuar assim?  Até quando nós suportaremos isso? De que adianta chorar, lamentar, condoer-se, fazer campanhas humanitárias? A nossa raiva haverá de dissipar. Até que outra tragédia, pior, muito pior, volte a acontecer.  

Um país em que tragédias com causas idênticas se repetem, não é mesmo um país sério. É uma pena que este é o nosso país. Não é sério, porque quem deveria dar exemplo não o faz. E o povo acaba pagando o "pato", acaba “dançando”, ainda sem o querer. Somos um povo apático? Somos o povo do futebol e do carnaval? 

Sem fiscalização, sem a devida e dura responsabilização, outras catástrofes ocorrerão e os responsáveis continuarão impunes, prontos para ensejar o aumento do capital, para distribuir maiores dividendos aos investidores. Maior produção com menor custo. Resultado: maiores lucros. O que mais importa? A ganância não tem tamanho. A falta de ética é infinita. 

Na última quinta-feira, 31, o presidente da mineradora Vale, Fábio Schvartsman, afirmou que as sirenes que deveriam alertar sobre o rompimento da barragem de Brumadinho não soaram porque foram atingidas de forma rápida pela lama antes que pudessem disparar o alarme. “Em geral, pelo que o histórico de rompimento de barragem demonstra, em geral isso acontece aos poucos, e aqui aconteceu um fato que não é usual, houve um rompimento muito rápido da barragem e o problema da sirene é que a sirene que iria tocar foi engolfada pela queda da barragem antes que ela pudesse tocar”, disse o executivo.  Onde se situavam essas sirenas? No caminho nefasto da lama. Meu Deus! E ainda temos que ouvir isso do presidente. Uma infâmia! 

Agora, Schvartsman quer acelerar o processo das indenizações. Por bondade da mineradora? Qual nada! É para tentar se restabelecer perante o mercado, especialmente, o internacional. O executivo afirmou que o valor das indenizações será o "necessário" para a reparação dos danos.  “O valor dos acordos é o valor que tiver que ser, não existe um valor definido, vai ser aquilo que for necessário. Quando for definido a extensão das vítimas o valor será decorrente disso”, afirmou Schvartsman.  O que significa o valor “necessário”? Necessário para quê? Para quem? Isso ele não disse. Nem diria. 

O outro tema deste artigo diz respeito a que cerca de um bilhão de pessoas no mundo, ou seja, um sexto de todos os humanos no planeta, são afetados pelas chamadas “doenças negligenciadas”: enfermidades que a indústria farmacêutica não tem interesse em pesquisar, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). O motivo? “Elas estão relacionadas à pobreza, não têm muito interesse para o mercado porque não dão um retorno lucrativo”, explica Sinval Brandão, pesquisador da Fiocruz e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT).  

A OMS classifica 17 patologias como doenças tropicais negligenciadas. Elas são diferentes uma da outra, mas têm em comum o fato de atingirem principalmente pessoas de baixa renda ou em condição de miséria, em lugares pobres e em países em desenvolvimento. Algumas das patologias são conhecidas há séculos, explica Ethel Maciel, epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Várias delas você já deve ter estudado na escola: teníase, lepra, doença de Chagas, esquistossomose, doença do sono, tracoma, oncocercose, filariose linfática, entre outras.  

Para muitos que vivem em grandes centros urbanos no Primeiro Mundo, há a impressão (errônea) de que são doenças do passado, que já foram erradicadas. Afinal, em extensas partes do mundo nas quais as condições de vida e de higiene melhoraram, elas não são mais um problema. Mas elas continuam bem presentes, concentradas em regiões pobres do mundo, em áreas rurais remotas, em favelas e áreas urbanas sem saneamento, e, inclusive, no Brasil, onde aparecem em grande quantidade.

Por exemplo, “O Brasil foi responsável por 70% das mortes no mundo por doença de Chagas em 2017; contribuiu com 93% dos novos casos de hanseníase e 96% dos casos de leishmaniose visceral do continente, só para citar alguns exemplos”, diz Jardel Katz, gerente de pesquisa e desenvolvimento da DNDI (Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas). Se tanta gente é afetada, por que não se fala mais dessas doenças? Elas são silenciosas, diz a OMS, “porque as pessoas afetadas ou em risco tem pouca voz política”. E quando às vezes “chamam a atenção é quando saem do circuito de baixa renda e locais pobres em que normalmente são endêmicas e atingem a classe média, bairros ricos”, diz Ethel Maciel. “É o caso da dengue, por exemplo”. Algumas entidades consideram um grupo maior de enfermidades na lista das negligenciadas. O projeto G-Finder cita 33 enfermidades em seu relatório anual sobre doenças negligenciadas, incluindo tuberculose e malária na lista. O projeto é organizado pelo centro de estudos Policy Cures Research, dedicado a buscar formas de promover avanços na saúde da população mais pobre no mundo, e patrocinado pela fundação Bill & Melinda Gates.

Os pobres continuam a morrer sem que os ricos, os poderosos, os governos dos países ditos civilizados, a grande indústria farmacêutica, se deem conta disso. Todos estes não estão nem aí para os pobres. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
27/01
12:03

O Interrogatório de Miguel

José Lima Santana
Professor da UFS

Miguel Teixeira de Gouveia Lino era o dono da Gráfica Lino & Sons. Velho tipógrafo dos tempos antigos. Um homem liberal. O pai, Romualdo de Gouveia Lino tinha sido um livreiro apaixonado por política. Dizia-se socialista. A mãe, Dona Gertrudes Teixeira de Gouveia Lino, era professora do Ginásio Amâncio Liberato. Ensinava História Geral. Uma família, pois, dedicada aos estudos e às letras. O irmão mais velho de Miguel andou de namoro com o Partidão, nos fins dos anos 1950. Bandeou-se para o Rio de Janeiro. Foi preso mais de uma vez, quando os militares chegaram ao poder, montados nos tanques, em 1964. Montados nos tanques, mas com o apoio do empresariado ávido por dinheiro e com a guarida de juristas ultraconservadores. Os coturnos foram amparados e ampararam. Foi um dos momentos de troca-troca mais acentuados da República no país, que, um dia, se chamou Pindorama. 

Uma noite de janeiro de 1969, Miguel foi intimado a comparecer ao Quartel do Exército para prestar depoimento. Aliás, ele não foi intimado, na precisão da palavra, considerando o termo jurídico apropriado, mas, sim, foi conduzido de chofre por um cabo e um soldado com farda verde-oliva. Os militares não lhe disseram a razão da condução. Quem haveria de dizer-lhe seria o oficial encarregado. E este era o capitão Jandir Guedes Mourão, filho, neto e bisneto de generais. Era da banda mais dura da chamada linha dura. 

O jipe estacionou no pátio do Quartel. Miguel foi conduzido para uma sala no andar de cima. Na verdade, um cubículo com uma porta de frente e uma minúscula janela nos fundos. O calor era intenso, mesmo sendo noite. Passava um pouco das vinte horas. O conduzido foi deixado sozinho. Trancaram a porta. Numa mesa pequena, uma máquina de escrever antiga. Não demorou muito para adentrarem o capitão e um cabo. Já era outro. Sem cumprimentos, o capitão tomou assento ao lado direito e, na outra cadeira, atrás da máquina, sentou-se o cabo. Começou o interrogatório, feito pelo Guedes Mourão. “O senhor sabe por que está aqui?”, indagou. “Ninguém me disse.”, respondeu o interrogado. “O senhor já vai saber”, replicou o oficial. 

O cabo iniciou a bater na máquina a qualificação do interrogado. Batia com agilidade. Devia ter feito o curso de datilografia da professora Carlota Ribeiro, o único da cidade que dava diploma após seis meses de curso. O outro existente só diplomava com 12 meses. Era um roubo. “O senhor emprega em sua gráfica, Luiz Roberto Bretas e Manoel Pinto Galvão?”, perguntou o capitão. “Sim, senhor”, respondeu Miguel. “O senhor sabe que ambos são comunistas?”. O capitão tinha alterado a voz e pronunciou a palavra “comunistas”, sílaba por sílaba. Miguel não titubeou, apenas franziu a testa: “Não, senhor. Não sabia”. 

Àquela altura, o calor da noite de verão fazia escorrer suor da cara cheia do capitão e dos demais. Ele tirou um lenço do bolso traseiro do lado direito da calça e enxugou o rosto e o pescoço. “O senhor não sabia mesmo ou está escondendo o jogo? As forças da Revolução sabem que o seu irmão é comunista. Ele foi preso duas vezes, no Rio de Janeiro. Vocês comunistas devem ir para Cuba ou para a União Soviética. Aqui não é lugar de vermelhos. A bandeira daqui é verde-amarela. Vocês não vão conseguir implantar a foice e o martelo no solo cristão brasileiro. Não, enquanto as Forças Armadas existirem. E elas vão existir sempre”. Naquele momento, o capitão Guedes Mourão deu um murro na mesa. Estava vermelho, quase da cor da bandeira dos comunas. Enxugou, mais uma vez, o rosto e o pescoço.

Miguel manteve-se impassível. Precisava controlar-se e controlar as palavras. Disse de si para si mesmo: “Cavalo esperto não espanta boiada”. O interrogatório prosseguiu. A todo custo, o capitão queria a confissão de Miguel de que estava acobertando comunistas em sua gráfica. O passado recente do irmão levou o capitão a esmiuçar as vidas dos pais de Miguel e Roberto. O pai também devia ter sido comunista. A mãe, professora de História, não devia ter ficado por menos. O casal já era falecido. Estava tudo anotado na pasta do capitão. Porém, Miguel foi respondendo cada pergunta com firmeza. Em momento nenhum perdeu o controle. “Cavalo esperto não espanta boiada”, repetia para si mesmo.

Passava da meia-noite quando o cabo informou que a fita da máquina de escrever tinha acabado. Mas, o interrogatório, ainda não. O almoxarifado estava fechado. O cabo não sabia onde poderia haver outra máquina igual, para retirar a fita em uso. Então, o oficial só encontrou uma solução: “O senhor vai pernoitar aqui, para, pela manhã, a gente concluir o interrogatório”. Miguel pensou que dormir ali poderia ser o início de um período de prisão. E ponderou: “Capitão, o cabo não poderia usar o outro lado da fita, para a gente concluir isso logo mais”? Foi, então, que o capitão destemperou-se: “O senhor quer acabar com a minha carreira, com a minha vida? Quer que eu use o lado vermelho da fita? O que o major Sérgio Morretes haverá de dizer, quando receber este depoimento, metade em tinta vermelha? O senhor quer me entregar, eu que odeio comunistas, ou o senhor está se entregando, está declarando que também é comunista, como seu irmão, como seus pais, como esses dois empregados seus? Vocês todos são camaradas. Não é isso”? Estava possesso.

Àquela altura, Miguel tinha certeza que se pernoitasse ali não sairia facilmente. Jogou uma última cartada: “Capitão, não é nada disso. Veja bem: a tinta da fita é vermelha. O papel é branco. A tinta da caneta com a qual eu vou assinar o meu nome é azul. Vermelho, branco e azul são as cores da bandeira americana. Não tem nada de comunista, por favor. Além disso, veja o senhor o nome da minha gráfica: “Lino & Sons”, ou seja, como o senhor sabe, “sons” quer dizer “filhos”, em inglês. Eu não tenho nada a ver com os russos. Eu sou pró Tio Sam”. 

O capitão Jandir Guedes Mourão levantou-se. Empertigou-se. Leu o cartão que Miguel acabara de lhe entregar. Lá estava: “Gráfica Lino & Sons”. Sim, ele sabia muito bem. Tinha estudado inglês no Ginásio, no Científico e na Academia Militar. Estava certo. Quem usava uma palavra em inglês no nome da firma não poderia ser adepto dos russos. Além do mais, também fazia sentido a tríplice coloração: vermelho, azul e branco. Eram, sim, as cores da bandeira dos aliados ianques. O major Sérgio Morretes não teria o que reclamar. Mandou virar a bobina da fita. O interrogatório prosseguiu bem mais ameno. Às duas e vinte da madrugada o jipe levou Miguel para casa. Por enquanto, estava salvo. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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