28/05
13:46

Que a Corja Daninha seja banida da vida pública

Amigos e amigas do Blog “PRIMEIRA MÃO”,
 
Na manhã do sábado, dia 27, eu recebi um telefonema do Frei Antônio Góis, franciscano, dizendo que não leu o meu artigo (o conto ou causo, como queiram), que, como todos sabem, eu publico no Jornal da Cidade, nos fins de semana, e que é reproduzido na minha página do Facebook, além deste Blog “PRIMEIRA MÃO” e do site "Clicksergipe". 
 
Ocorre que eu passei a semana quase toda em São Paulo. Ao chegar, em plena madrugada da quinta-feira, não tive tempo, até a madrugada da sexta-feira, para escrever o artigo. Confesso que ainda tentei, no começo da madrugada da sexta-feira, depois de retornar de Propriá, onde fui abraçar o estimado amigo e companheiro cenecista, Dom Mário Rino Sivieri, na celebração dos seus 75 anos de idade e dos 20 anos de ordenação episcopal. Com o notebook no colo, na cama, fui vencido pelo sono. Não deu. Não escrevi. 
 
Frei Antônio, que é meu leitor assíduo, ficou sem a sua leitura preferida, como ele o diz sempre. Sou infinitamente grato a ele e a quem mais tem coragem de ler o que eu escrevo. 
 
Aguardemos o próximo fim de semana. 
 
Por oportuno, o Brasil precisa ver-se livre de todos os seus malfeitores, de todos os corruptos e corruptores, especialmente de todos que recebem os votos do povo, para servi-lo, mas enveredam pelos descaminhos da vida pública, desmerecendo a confiança que lhes foi creditada. Espoliadores dos cofres públicos. Bandidos. Ladrões. 
Que todos eles, de todos os partidos e de todas as empresas velhacas, sejam rigorosamente punidos. Que toda essa laia suja não suje ainda mais o nosso país. O Brasil não os merece. Nós, brasileiros, precisamos nos ver livres de todos eles, sem exceção. Que essa corja daninha e miserável seja para sempre banida da vida pública brasileira. 
 
Boa semana. Que a bênção de Deus recaia sobre todos. 
 
 José Lima Santana


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/05
16:52

Lágrima de cobra e áudio demolidor

José Lima Santana
Professor da UFS

Não, não é lágrima de crocodilo. É, sim, lágrima de cobra. Alguém já viu? Não. Nem vai ver. Lágrima de cobra é o que se diz quando alguém não é capaz de derramar lágrima nenhuma. Afinal, cobra não chora. Nem teria porque chorar. Cobra chorando? Meu Deus! Seria o fim dos tempos. Pois não era que o fim dos tempos estava próximo, no entender de Cida de Tonho Rufino, presidente do diretório municipal do Partido Socialista dos Trabalhadores Brasileiros Autônomos. Este Partido era, deveras, uma agremiação partida ao meio. Aliás, partida em muitos pedaços. Partido de aluguel. A cada eleição, aliava-se a quem pagasse mais. Uma lástima. Não era o único partido político que se vendia. Uma vergonha!

Cida era a irmã caçula de Tonho Rufino, presidente do partido e vereador. Sujeitinho mais enrolado do que Bombril. Mais enrolado do que sabão em jornal velho, no balcão de bodega de ponta de rua. Ah, por falar em bodega, no meu tempo de menino, minha mãe comprava sabão Aurora, na bodega de “seu” Américo, nas Dores. Um dia, apareceu um representante querendo vender um sabão barato de nome Caçote. Tinha, gravada, a figura de uma rã, que também era chamada de caçote. Caçote de beira de fonte, verde, almoço ou jantar de cobra. Sabão ruim, que se desmanchava no primeiro esfregão. A freguesia não gostou do sabão. “O barato sai caro”, dizia minha mãe, que experimentou, mas não gostou do sabão molenga. “Seu” Américo, na visita seguinte do representante do sabão com nome de rã, despediu o sujeito e preferiu ficar com o bom gosto das freguesas. 

Voltando ao presidente do partido de aluguel, Tonho Rufino, também conhecido, nas rodas da malandragem da cidade como Toinho do Pó, fora denunciado por conta de uma delação premiada. O dono de um açougue de periferia fizera revelações bombásticas contra Tonho Rufino e meio mundo de políticos locais. A republiqueta de bananas de terceira, como um jornalista da capital denominara a cidade sertaneja, na qual, nas últimas três décadas, nenhum político sério tinha surgido, andava de mal a pior. Ali se encontrava uma laia só. De todos os partidos. De todos os lados. Se um era rato velho, e roubava, o rato novo acabaria roubando mais. Havia uma sucessão de ladrões, que roubavam os parcos recursos da municipalidade, oriundos dos tributos que o povo suava para pagar. Porém, eleição após eleição, o povo votava no mesmo grupo de ladrões, que dominavam os partidos políticos locais. O mundo estava perdido. Tudo estava perdido. 

Cida fora presa porque uma delatora dissera que pagava propinas para Tonho Rufino e, mais ainda, pagava as despesas de Cida com o cabeleireiro. Até o cabeleireiro era pago com o dinheiro da corrupção, dos contratos superfaturados, da lavagem de dinheiro e do escambau todo. Lama. Toneladas de lama enchiam a cidade, como se o lamaçal de uma barragem arrombada escorresse ladeira abaixo, atingindo, em cheio, praças, ruas e avenidas. O cabeleireiro subiu nas tamancas, rodou a baiana. Ou melhor, rodou o quimono. O sujeito era da raça dos japoneses. Na cidade havia dois tipos daquela gente lá do Oriente: um policial, que andou na moda, sumiu por uns tempos e tinha voltado à cena, e o cabeleireiro. 

Cida, coitada, gostava de mudar de penteado a cada semana. Tentava ajeitar-se, mas não tinha jeito. Dizia-se na cidade que ela não precisava de um cabeleireiro, mas, sim, de um arquiteto, que lhe repaginasse. Línguas ferinas...! 

A Justiça afastara do cargo o vereador Tonho de Rufino. Usava de dois pesos e de duas medidas. Antes, em idêntica situação, outro vereador fora preso. Era de outro partido, tão corrupto quando o de Tonho de Rufino. Eram, todos, gatos do mesmo saco, ratos da mesma toca. Ladrões. Sanguessugas do povo. 

Na cidade, muita gente estava enredada com uma operação policial denominada “Avião a Jato”. Um ex-presidente estava atolado. Ex-presidente da Câmara Municipal. Outros antes dele, também. Assessores, empresários, gente daqui e dali. Uma cambada da desgraça. Até o presidente da Câmara de plantão, que ali chegara de forma mais ou menos espúria, na visão dos seus opositores, estava na berlinda. Algumas prisões já tinham sido efetuadas. As delações se sucediam. Conflitos judiciais. Bate-bocas. O mundo jurídico estava entrando num processo de destrambelhamento. Nem todos falavam a mesma língua. Alguns nem falavam: balbuciavam, grunhiam. 

Uma nova operação policial estava em marcha: era a Operação Lágrima de Cobra. Uma “jararaca” ainda estava solta. Forças ocultas, mas nem tanto, aglutinavam-se para agarrá-la. Seria questão de tempo. Apostas eram feitas na cidade. Muita gente poderosa, que não tolerava a tal “jararaca”, grunhia para acertar-lhe a cabeça e, assim, matá-la de uma vez por todas, ou, no mínimo, bater-lhe na espinha, para aleijá-la. O que importava era não permitir que a tal “jararaca” voltasse à toca, que tanto almejava. Até ali, contudo, só tinham acertado o rabo da “jararaca”. Por isso, as forças ocultas, mas não tanto, roíam as unhas, morriam de raiva e de desespero. O cerco se fechava contra a “jararaca”, mas novas provas alcançavam outras cobras. Se a Justiça agisse de maneira isonômica, haveria de faltar veneno no mercado. 
Nenhuma obra restaria solta. 

Cida de Tonho Rufino, enfim, foi levada para depor junto ao juiz Mororó. Este começou perguntando: “A senhora confirma que teve despesas do cabeleireiro pagas pela dona da agência de publicidade Mourisco Santanense?”. A interrogada arregalou os olhos e disparou: “Doutor, com todo o respeito, o senhor não me está confundindo com outra pessoa, não?”. O juiz fez de conta que não entendeu. 

A Operação Lágrima de Cobra haveria de prosseguir. Neguinho tremia pela cidade afora. Cortava prego com o dito cujo. E ainda tinha um áudio demolidor rolando e causando rebuliço. Pobre cidade! Estava tudo prestes a se desmontar. Quanto ao povo, tadinho dele. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
14/05
11:41

Operação Leva-Jacas

José Lima Santana
Professor da UFS

Pois é. Levaram as jacas. Tardezinha de quinta-feira. Solzinho de fim de tarde, modorrento, no prenúncio do inverno. Calorzinho de fornalha se apagando. Ventinho preguiçoso, descendo do Morro do Preto Forro, fazendo dançar, no ar, galhos e flores. Na subida da ladeira do Vintém, eis ali o sítio de Pedro Macambira, sortido de tudo que era tipo de árvores frutíferas. No tempo de cada fruta, era uma fartura. Dava gosto de ver o sítio do velho oficial de justiça, há muito aposentado. Cabra bom de prosa estava ali. Porém, um verdadeiro unha de fome. Diziam as más línguas, e olhe que más línguas existem em todo canto, que ele aproveitava o outro lado do papel higiênico. Um disparate!

Naquele fim de tarde, Perobinha de Chico Martelo, Fininho de Sá Maria do finado Vavá e Curiboquinha de Mamede Curibocão fizeram-se donos do sítio de Pedro Macambira. Era o tempo de jacas maduras de dar gosto. E que jacas ali eram encontradas! Jacas duras e moles. Mas, o gosto dos três ocasionais proprietários era pelas jacas moles. Jacas ouro. Bagos pequenos, pouco visgo e uma doçura de fazer frente ao melhor mel de abelha jataí. Melhor do que o açúcar outrora produzido pelo engenho Santa Cruz do velho Maurício Prado. Deliciar-se, manhãzinha, com uns bagos de uma jaca mole daquelas era começar o dia com o pé direito. Pedro Macambira vendia as jacas ainda verdosas. Vendia a carga inteira de cada jaqueira, que eram duas, as moles. Vendia-as a Deba, que as revendia na feira livre da cidade e noutras duas cidades circunvizinhas. Feiras aos sábados, domingos e segundas-feiras.

O trio que adentrou no sítio de Pedro Macambira retirou duas jacas. Maduras. Cheirosas. De dar água na boca. Eles as comeriam no dia seguinte, quando o sol da manhã ainda se fizesse brando. Comeriam debaixo do pé de tamarindo da frente da casa de Perobinha, casado com a filha de Gilberto Coceira, Maria Cecília, uma das mulheres mais bonitas do lugar. Zefa Parteira, que tinha a língua afiada, dizia que era mal empregado que um tipo como Perobinha tivesse casado com moça tão bonita e prendada. Ela era afamada costureira. Ele, por sua vez, era um bom oficial de marcenaria, mas, deveras, muito preguiçoso. Trabalhava quando queria. Preferia viver metido nos matos à procura de passarinhos canoros. Ele os tinha em grande quantidade. E, vez por outra, os vendia por um bom dinheiro, pois ele só criava aqueles que cantavam de assobio ou de corrida. Quem entende de canto de pássaro sabe muito bem o que é isso. 

E lá foram os três com as duas jacas. Levaram-nas para a casa de Perobinha. A casa dele era pequenina, mas muito bem cuidada. Há um ano, ele aproveitou as férias de um cunhado, que morava em Salvador, e que era um bom pedreiro, para bater duas lajes sobre a casa. Fez o que se poderia chamar de um triplex do tipo “Minha Casa, Minha Vida”. Sem querer, aqui, fazer ilações. Qualquer semelhança é mera coincidência. As jacas estavam madurinhas, no ponto. Porém, o mel delas somente escorreria nos cantos das bocas dos três amigos, na manhã seguinte. 

Ocorre que, enquanto os três saiam do sítio de Pedro Macambira, este chegava ao sítio pelo outro lado, ou seja, pela estrada do Rastro da Égua, ao passo que os três saíram pela frente, isto é, pela ladeira do Vintém. Pedro viu os três. Os três não viram Pedro.

O dia amanheceu radiante. O sol parecia ter pressa de brilhar naquela manhã. A aurora parecia ter-se feito mais cedo do que de costume. Os matizes da manhã davam como quê um ar de vida nova ao mundo. Assim que amanheceu, Fininho de Sá Maria do finado Vavá e Curiboquinha de Mamede Curibocão bateram o ponto na casa de Perobinha. Este, prestimoso, já os recebeu debaixo do pé de tamarindo, com as duas jacas no banco de madeira lavrada. Para cada comensal, ele preparou um espetinho de galho de goiabeira. O bom cheiro das jacas rescendia no ar. Logo, o mel já descia pelo canto da boca de cada um deles. Uma das jacas foi devorada num instante. Quando a segunda jaca estava sendo aberta, no exato momento em que Perobinha começava a puxar o patacho, eis que desceu da velha bicicleta vermelha da delegacia o soldado Zé Mochila. Pessoinha querida na cidade, o soldado José Francisco Vilar, era muito mais conhecido por Zé Mochila, porque, no dia da feira semanal da cidade, ele enchia uma mochila com variados donativos, que ajudavam a alimentar os seus doze filhos.

Descendo da bicicleta, o soldado cumprimentou a todos: “Bom dia rapaziada!”. Todos responderam, alegremente. A autoridade policial foi logo dizendo que estava em diligência por conta da Operação Leva-Jacas. “Oxente, homem! Que diabo é isso aí?”, indagou Perobinha. O soldado Zé Mochila explicou que Pedro Macambira, na noite anterior, deu queixa contra três sujeitos, embora só tivesse reconhecido um deles, qual seja exatamente Perobinha, por conta das duas jacas que eles tinham surrupiado do sítio do oficial de justiça aposentado. Os três que, sim, seriam os que ali estavam, deveriam ser conduzidos à presença do capitão Lacerda, o novo delegado. Com eles, as duas jacas deveriam ser levadas. Daí o nome da Operação: Leva-Jacas. 

Os três amigos papa-jacas caíram na gargalhada. “Ô soldado Zé Mochila, desde quando matar a fome de jaca de três homens de bem passou a ser crime?”. Perguntou Curiboquinha, rindo às escâncaras. E Fininho emendou: “Amigo Zé, diga ao capitão que você nos encontrou, mas que as jacas já tinham sido devoradas. E sem jacas, não pode haver Operação Leva-Jacas”. O soldado coçou a cabeça, tirando o quepe cáqui. “Eu conduzo vocês três, esta jaca mal e mal aberta e o bagaço daquela ali”, respondeu o soldado Zé Mochila, apontando com o beiço o bagaço da jaca já devorada. 

Naquele instante, Perobinha levantou-se e dirigiu-se à goiabeira, no oitão da casa. Retirou um pequeno galho e moldou um espetinho, oferecendo-o ao soldado. “Zé, coma esta jaca com a gente. Tá uma delícia. Depois, a gente vai consigo e leva os dois bagaços das jacas. É muito melhor a gente comer a jaca do que desperdiçá-la, levando-a à delegacia”. Outra vez, o soldado Zé Mochila coçou a cabeça. “É... Num faz mal comer uma doçura dessas, não é mesmo?”. E foi assim que o soldado Zé Mochila meteu o pé na jaca, naquela hilária “Operação Leva-Jacas”. 

Após os quatro terem devorado a segunda jaca, os três amigos foram conduzidos à delegacia, levando com eles os dois bagaços das jacas. Iam gargalhando. Afinal, Fininho de Sá Maria do finado Vavá era simplesmente filho de Pedro Macambira, isto é, Pedro Guedes, esposo, de papel passado no padre e no escrivão, de Dona Maria do Carmo Vieira Guedes, filha do finado Valdemar do Gravatá de Dentro. Por certo, Pedro Macambira não reconhecera o próprio filho no meio dos outros dois. O sol do fim da tarde decerto turvara-lhe a vista. Na delegacia, o capitão Lacerda fez cara feia porque a Operação Leva-Jacas não daria em nada. Afinal, seria a sua primeira Operação naquela delegacia, para a qual ele fora designado há apenas dois dias. Ele e um policial com cara de japonês. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/05
14:39

A greve dos aguadeiros

José Lima Santana
Professor da UFS

Meados da década de 1960. Naquele tempo, não tinha água encanada na cidade de Brejo das Almas. Promessas, sim, choviam. Prefeito após prefeito, todos prometiam colocar água encanada na cidade que crescia a olhos vistos. Ali estavam instalados importantes estabelecimentos comerciais, indústrias de descaroçar algodão e de curtir couros e peles. Banco do Brasil, Coletoria Federal, IBGE e muito mais. 

A população era abastecida pelos aguadeiros, que faziam uso de jumentos portando quatro ancoretas, que eram pequenos barris onde a água das fontes do Brejo do Padre era levada para as casas e todo tipo de estabelecimento. Os aguadeiros eram Tito de Bernardino, Gurungu Alemão, Filipinho, Totonho de Zé Coveiro, Belchior de Maria Preta, Zominho Bicudo, Elias de Adolfo, Irmãozinho do Cafofo, Lenço Branco, Manezinho Coice de Jegue e Anselmo de Dioclécio. Esqueci algum? Não sei. 

Os aguadeiros tinham suas freguesias. Eles botavam água a semana toda e recebiam a paga no sábado, na boquinha da noite. Pois bem. Naquele primeiro sábado de janeiro, quando fazia o maior calor, tudo estando esturricado tal era o verão daquele ano, os aguadeiros comunicaram aos seus fregueses que estariam em greve a partir da segunda-feira. A cidade entrou em polvorosa. Não daria para ficar sem água. E onde já se ouvira dizer que aguadeiros entravam em greve? Eles comiam porque botavam água para quem pudesse pagar. Em greve, passariam fome. Foi como pensou o povo besta da cidade, acostumado a pagar para ter conforto. 

O líder da greve anunciada era Totonho de Zé Coveiro. O prefeito mandou logo chamar o subalterno, pai do líder do movimento grevista. Ou o pai mandava o filho acabar com o movimento sem pé nem cabeça, ou iria para o olho da rua. Zé Coveiro ainda argumentou que o filho Totonho era maior de idade e casado, logo, não se sujeitava mais às suas ordens. O prefeito, porém, retrucou: “Tu é o pai. Na minha casa, da mulher ao cachorro, quem manda sou eu, viu? Tu faça a mesma coisa. Chame seu filho na chincha e bote freio na língua dele. É isso ou rua!”. 

Zé Coveiro viu-se acuado. Tinha votado no prefeito nas três vezes que ele se candidatou, ganhando todas. A família dos Gomes Lima não desviava um voto. Era nele que todos votavam. Naquele momento, o prefeito o deixou agoniado. Totonho e seus companheiros tinham razão em fazer greve. A carga de água custava Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros). Barata demais. Os aguadeiros queriam aumentar para Cr$ 7,00 (sete cruzeiros). A proposta fora apresentada um mês antes, mas o povo se recusou pagar mais caro do que estavam pagando. O preço cobrado era o mesmo de cinco anos atrás. Não dava mais!

O coveiro José Benildes dos Santos nem teve coragem de conversar com o filho. Para quê? Não! Ele não faria aquilo. O filho estava coberto de razão. Ele e os outros aguadeiros. Cada um tinha a sua família para dar de um tudo. Pedir para que eles fizessem o gosto dos fregueses? Estava fora de cogitação. 

Werneck Figueiredo, o maior fazendeiro da região, dono de terras sem fim e gado da melhor qualidade, sem falar na imensa quantidade de bovinos, gritou no bar de Jovino Perneta que os aguadeiros deveriam ir para a cadeia. Aquilo de fazer greve era um caso de polícia. Ele mesmo falaria com o tenente Geraldo Peixoto, delegado de polícia. Pediria para prender a corja toda. Para meter o sabre no lombo de cada um deles. Cobrar Cr$ 7,00 (sete cruzeiros) por uma carga de água, que eles não compravam. Era só encher as ancoretas nas fontes do Brejo do Padre e pronto. A água era abundante. Aumentar a água...! Um desaforo. Um roubo! 

A carne de boi tinha aumentado. Os fazendeiros aumentaram o preço da arroba da carne. Os marchantes chiaram, mas não tiveram o que fazer. Repassaram o custo para os consumidores. Ora, os fazendeiros podiam ganhar em cima dos pobres, mas alguns destes não podiam ter um ganho melhor, tantos anos depois do último aumento da água? Os poderosos mandavam. Os pobres se ferravam. 

O domingo foi tenso na cidade. Haveria greve ou não, a partir da segunda-feira? Os aguadeiros fecharam questão. Totonho de Zé Coveiro fez uma reunião com os companheiros de profissão. Todos compareceram. A reunião foi no salão paroquial. O padre Maurício Moreira fez questão de estar presente. Ele apoiava o movimento. 
Beatas e benfeitores da Igreja Matriz agoniaram-se. Então, o padre, novato ali, era do tipo comunista? Uma comissão iria ao Bispo, denunciá-lo. Nunca que monsenhor Castro, o pároco anterior, que ali funcionou por vinte e oito anos, que Deus o tivesse em sua glória, ficaria do lado de grevistas. Mas, o novato estava contaminado por um tal de Concílio, que estava virando a cabeça de padres e freiras. A Igreja estava perdida com aquele tipo de gente. O mundo estava perdido. Eram muitas novidades de uma vez só. 

Werneck Figueiredo esperaria o tenente, na delegacia. Ele chegaria segunda-feira, cedinho. Greve era caso de polícia, sim. Chibata e xilindró amansavam qualquer grevista. A peia era um santo remédio. 

Deveras, por volta das sete horas e meia da manhã, o tenente Peixoto chegou dirigindo o Jeep azul da delegacia. Werneck já estava lá. O fazendeiro contou o que estava ocorrendo com os aguadeiros e pediu enérgicas providências. O delegado, porém, disse que achava justa a reivindicação de aumento da carga de água. Aliás, ele mesmo já pagou os Cr$ 7,00 (sete cruzeiros), desde o começo da semana finda. Werneck, sogro de desembargador, subiu nas tamancas. Iria à capital, para falar com o genro. O delegado teria que ser mudado de lugar. Era mais um comunista a ter que prestar contas ao governo dos militares, que estavam consertando o país. Comunistas não tinham mais vez. 

Por volta das oito horas, Zé Coveiro chegou à Prefeitura. Foi ao gabinete do prefeito. Entregou-lhe as chaves do cemitério. “Prefeito, a partir de hoje, eu não sou mais funcionário da Prefeitura. Arranje outro coveiro. Eu comprei um jegue com ancoretas. Agora, eu sou aguadeiro como meu filho Totonho. E também sou grevista”. O prefeito deu um pinote na cadeira: “Até tu, Zé Coveiro? Até tu é comunista? Por esta hora, deve ter defunto se revirando no caixão, debaixo dos sete palmos. Só me faltava esta: um coveiro comunista. Tu era bem capaz de querer enterrar defunto vestido de vermelho!”. 

Foi assim que o coveiro José Benildes dos Santos virou aguadeiro. E a cidade ficou sem coveiro por uns dias. A greve foi deflagrada. A cidade ficou sem água. Uns valentões de meia tigela quiseram pegar os aguadeiros. O delegado manteve a ordem. A carga de água subiu para Cr$ 7,00 (sete cruzeiros). O prefeito mandou chamar de volta Zé Coveiro. Este, contudo, estava bem como aguadeiro. Conhecido como era, fez, logo, boa freguesia. Houve, porém, quem não quisesse comprar água ao ex-coveiro: “Beber água trazida por mãos que enterravam defuntos? Nem pensar! As mãos dele são nojentas. Não há água nem sabão que tire a inhaca que estão nelas acumulada”, dizia-se. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
30/04
15:26

Zé Rico

José Lima Santana
Professor da UFS

Zé Rico nem sempre foi rico. Era um rapaz de classe média baixa, filho de uma professora e de um taxista, que era, também, servidor público municipal aposentado. Faltava-lhe um dedo da mão direita. Aposentara-se, pois, por deficiência, aos 38 anos de idade. Na Prefeitura, ele fora datilógrafo. José Medeiros do Rosário Bijou, esse era o seu nome, o de Zé Rico, de batismo e de registro. O pai era Lafayete do Rosário Bijou. Dizia ele ser descendente de certo Jean François Bijou, comandante de navios mercantes, que, um dia, aportou em terras sergipanas, para nunca mais voltar à França, ao porto de Marselha, de onde era originário. O tal comandante de navios fez nome em Sergipe, como dono de uma casa de jogatina e outras coisas menos dignas, no começo do último século findo. 

O moço Zé Rico era músico. Tocava guitarra elétrica. Ajudava a manter, a duras penas, uma Banda de rock. Eram ele e mais cinco. Banda barulhenta. Heavy Metal. O sonho de Zé Rico era ganhar um bom dinheiro para estruturar a Banda e estourar no mercado de CDs e shows. Porém, naquele sonho somente ele, os companheiros da Banda e a professora Cristina Medeiros, a mãe, acreditavam. Um dia, diziam, a sorte haveria de sorrir para Zé do Rock, como, no início, ele era chamado no bairro empoeirado e lamacento, a depender da estação do ano, onde vivia com a família: os pais e oito irmãos. Ele era o mais velho dentre os manos. 
No colégio, que ele largou ao findar o primeiro ano do então dito segundo grau, havia outros rapazes que tocavam e tinham lá as suas Bandas. Havia, ao menos, duas delas formadas por colegas do colégio onde Zé Rico estudara. Todos sonhavam alto. 

Zé Rico queria acertar na vida através da música. Queria dar uma vida muito mais digna aos pais e aos irmãos. Queria socorrer muita gente precisada que ele conhecia. Queria ajudar as obras do padre Amarildo, que suava pegando na enxada para fazer massa e na colher de pedreiro para levantar paredes. Queria dotar o Colégio “São Francisco de Assis”, onde estudara, de uma banda marcial. Queria poder ir à desforra diante de Maria Júlia, a metidinha com quem flertara e que lhe trocara pelo filho do dono do Mercadinho Estrela da Manhã, que já formava uma pequena rede com lojas em três cidades. Para algumas pessoas, como parecia ser o caso da metidinha da Maria Júlia, a grana tinha cheiro de rosa. Ou de cravo. Ou de alfazema. Sabia-se lá! 

Ah, como Zé Rico almejava tantas coisas! Talvez até ele quisesse desentortar o mundo. Recompor o Brasil, tão surrado por um bando de larápios, que zombavam do povo, chafurdando no lamaçal da corrupção e da ladroagem. Zé Rico era um sonhador. Mas, o que seria do mundo sem os sonhadores e os sonhos? 
Um dia, enfim, José Medeiros do Rosário Bijou tornar-se-ia Zé Rico. De verdade. Alcunha que lhe fora dada após ganhar uma bolada de milhões de reais na Mega Sena. Ele dera de cara com um papel sendo tangido pelo vento, que o colocou aos seus pés. No papel, seis números escritos: 7, 9, 15, 32, 37 e... Hum, esqueci-me do último número! Deixa pra lá. Neste texto e no contexto, o sexto número não tem importância. 

Assim que conferiu os números sorteados e recebeu a bolada, José Medeiros do Rosário Bijou passou a ser chamado de Zé Rico. Apelido que lhe dera a moça sardenta da Casa Lotérica com quem ele foi conferir o bilhete, que ela lhe revelou ser o premiado. Único ganhador. A Mega Sena estava acumulada por seis semanas, ou seja, por doze concursos. Dinheiro de sobra. Aliás, para muita gente nenhuma soma de dinheiro jamais seria de sobra. Que o dissessem os ladrões de casaca da República. Mas, isto é outro papo. 

Zé Rico sempre admirou o casarão do velho desembargador Morais, que fora encontrado morto no vaso sanitário. Ataque do coração. Era um casarão avarandado de quatro águas com mais de quatrocentos metros quadrados de área construída, além do  belo jardim e do vasto pomar, onde eram encontradas dezenas de árvores frutíferas. O casarão vivia fechado. Os filhos do desembargador, que moravam na capital, nem iam ao casarão. Um desperdício! Zé Rico o comprou. Dona Cristina, sua mãe, adorou a nova casa. Ela a merecia. Se ela era boa mãe, Zé Rico era ainda melhor filho. 

O pai taxista não quis largar a praça, o ponto de táxi, onde estavam os amigos. Ganhou um carro novo, top de linha. A banda marcial do Colégio foi comprada e entregue em meio a uma grande festa. Os alunos exultavam. A diretora não conteve as lágrimas. O seu ex-aluno não esquecera a promessa feita anos atrás. Que Deus o protegesse! Acenderia velas para São Francisco. Mandaria celebrar uma Missa em ação de graças. O menino José Bijou bem merecia. 

Zé Rico comprou um carro de lascar. Carrão, como mandava a cartilha dos novos ricos. Mandou ver em São Paulo, na Santa Ifigênia, o que havia de melhor em instrumentos musicais para a Banda Mega Sky, como passou a se chamar a Banda que não tinha nome, tão chinfrim que era então. Agora, contudo, a Banda tinha nome. Ganharia asas. Faria o sucesso que a metidinha da Maria Júlia, que trocara o seu amor pelo “amor” do filho do dono do Mercadinho Estrela da Manhã, jamais imaginaria. No momento, a estrela dele, Zé Rico, brilhava mais forte. Cintilava muito mais do que o Estrela da Manhã com suas três lojas. 

A vida de algumas pessoas queridas começaria a mudar. Zé Rico não era como uma ferida braba, que comia sozinha as carnes de sua vítima. Se Deus lhe dera tanto dinheiro, não lhe custava dividir uma parte, pequena que fosse, com quem dele merecia atenção e cuidado. 

Dois irmãos de Zé Rico gostavam de terras. Eram Dudu e Jubinha. O irmão comprou para eles uma fazenda de gado nelore. Os demais irmãos ainda eram menores de idade. Haveriam de esperar um pouco mais por algumas benesses. 

Até os avós dos dois lados de Zé Rico, todos falecidos, ganhariam mimos do neto. Dois belíssimos mausoléus de mármore negro, no cemitério da cidade. As obras de reforma da Igreja Matriz do padre Amarildo seriam concluídas. Zé Rico revelava-se, assim, um benfeitor como muitos poucos foram vistos iguais na região. Talvez, no estado. 

Seis e meia da manhã. José Medeiros do Rosário Bijou, o Zé Rico, precisava ir ao Mercadinho Estrela da Manhã. Ele tinha uma entrevista de emprego marcada para as 8 horas. Dona Cristina Medeiros, a mãe, o acordou: “José, meu filho, hora de acordar!”. 

Fora tudo um sonho. O sorteio da Mega Sena acumulada fizera, sim, um milionário. Mas, muito longe dali. E, como sonhar não era crime nem pecado, José Bijou continuaria a sonhar. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
23/04
18:45

Uma canção desesperada

José Lima Santana
Professor da UFS

Jota Pinto de Felismina de Chico Caroço andava amorrinhado. Assim de repente. Andava mais do que jururu. Cabisbaixo. Até parecia um rolete de cana chupado no meio da feira. Ruinzinho, ruinzinho. Dava dó. Quem foi Jota Pinto! Num tava sendo nem uma sombra distante do que ele tinha sido até pouco tempo. Tornara-se assim de uns dias para cá. Até meio remelento ele andava. Os olhos andavam mosquitentos. Um horror! Mais dia, menos dia, haveria de bater a caçoleta. Logo, logo seria envelopado num pijama de madeira. A cidade de pés juntos o aguardava para breve. À vista de todos, assim de repente, ele era um homem sem salvação.

Viúvo há pouco, não tinha decorrido nem um ano que Dona Julinha tinha se transferido para o jardim de folhas mortas, onde o silêncio reinava absoluto. Tadinha! Sofreu muito mais do que sovaco de aleijado, quando a feira era longe, como no passado se dizia. Uma doença infeliz a devorou em poucos meses. Naquele tempo, especulava-se que era “nó nas tripas”. Hoje, se diz câncer no intestino. Bicho fatal. 

Os filhos e as filhas, noras e genros de Jota Pinto o cercavam com mesuras, aflitos com o seu estado de falta de ânimo. Pouco comia, pouco dormia. Até o netinho mais novo, Filipinho, que era o xodó do avô, olhava-o desconfiado. A vizinhança maldava isto e aquilo. E tinha quem maldava demais. Teria ele a mesma doença da finada? Ou a morte da velha, meses depois, o teria deixado em continuado desconsolo? Ora, bem casados eles foram. Casaram-se ainda muito jovens, envelheceram juntos sem maiores discordâncias e dissabores. Um exemplo de casal afinado por aquelas bandas, a merecer os maiores encômios do Monsenhor Cláudio Fontes, pároco por mais de trinta anos da localidade. 

Alguma coisa muito séria Jota Pinto tinha. Não era um bagaço de homem. Longe disso. Aos setenta anos, ainda era um tronco de baraúna. Ao menos parecia ser, não fosse, naquele momento, aquele aparente estado lastimável. O homem definhava como os galhos de um pé de pau sapecado pelo fogo. Em poucos dias, começou a andar meio curvado. Porém, indagado pelos parentes, dizia não estar doente. Como não?  Os filhos achavam que ele deveria aconchegar-se numa mulher de meia idade, que lhe respeitasse e lhe aproveitasse no fim da vida. Ele não respondia aos estímulos dos filhos. 

Jota Pinto, ou seja, José Mascarenhas de Souza Pinto era dos Souza Pinto do Morro Alto, povoado de boas terras de massapê preto e escorregadio como quiabo nos tempos de bons invernos ou de boas trovoadas, que, aliás, andavam vasqueiras nos últimos três anos. Os homens da família Souza Pinto eram de viver muito tempo. Houve até um deles, Humberto de Zé Grande, que passou dos cem anos. E não foi somente ele, não. Uma aparentada daquele povo, uma tal de Joaninha, viveu mais de cento e dez anos, tomando uma pinga de vez em quando e pitando um cachimbo de bola de barro, o mel do fumo de rolo escorrendo pelo canto da boca. A raça dos Souza Pinto não era de moleza. Mas, naqueles dias, Jota Pinto destoava da parentela, como nunca ocorrera antes. 

Por aquele tempo, um pouco antes de Jota Pinto andar de crista baixa, tinha chegado um circo na cidade. Era uma diversão de que Jota Pinto gostava. Mesmo amargando a viuvez recente, vestindo luto fechado, como convinha naquele tempo, ele levou os dois netos mais taludos para assistirem ao espetáculo, que tinha bons palhaços, bons trapezistas, bom mágico, boas rumbeiras, que faziam os homens irem ao delírio, especialmente os mais jovens, um globo da morte e o indefectível drama, ao final do espetáculo, que, às vezes, arrancava lágrimas das mulheres. Os netos de Jota Pinto deram boas gargalhadas com as peripécias dos palhaços Pinga Fogo e Chulapa. 

Jota Pinto, discretamente, pareceu ter gostado de uma bela rumbeira de pernas bem fornidas. Ao passar o lenço vermelho no seu pescoço, como era de costume, na tentativa de conseguir algum dinheiro, ela recebeu a nota mais graúda então existente. Dinheiro enrolado na mão direita dele, diretamente para a mão direita dela. Um neto de Jota Pinto, o mais taludo, Chiquinho, notou um leve sorriso na boca do avô. A rumbeira, que se chamava Florbela, bem que valia a nota graúda e o sorriso de Jota Pinto. Como deveras mereceu de outros homens. Lenço no pescoço, dinheiro na mão. O único homem que não meteu a mão no bolso para agraciar a rumbeira Florbela, nem nenhuma outra, foi Waldeck Felizola, o homem mais rico da cidade. Arrancar um tostão furado daquele ali era trabalho impossível, mesmo para a rumberia bonitona e de pernas fornidas.

O circo agradou em cheio ao povo da cidade. Dos povoados e das cidades circunvizinhas, todas elas bem menores, as pessoas acorriam para os espetáculos dos fins de semana. Casa cheia aos sábados e domingos. E, assim, o circo foi ficando. Jota Pinto foi ao circo duas outras vezes seguidas. O lenço vermelho e perfumado de Florbela não deixou de ser lançado no pescoço do viúvo, como no de tantos outros. Era o costume. 

Na terceira semana, Jota Pinto não foi mais ao circo. Foi quando começou a amolecer. Os netos insistiram, mas ele não cedeu. E foi amolecendo cada vez mais. 
Um dia, Cirilo de Maria Chica, compadre de Jota Pinto, indagou, em ligeira visita: “Compadre, tu num tá assim macambúzio, assim jururu, num seria a falta de sustança pra garantir dengo a uma mulher? Num será isso, não? Esse tipo de coisa é que deixa um homem nesse estado, compadre, remoendo pelos cantos, sem poder acender o pavio do candeeiro”. Jota Pinto apenas maneou a cabeça em sinal de negação. Não era aquilo que o compadre Cirilo maldava, não. Era não. Até que sustança ele ainda tinha. Tava tinindo como um bode pai de chiqueiro. Até o padre lhe recomendou casar. 

Os dias se passaram e Jota Pinto foi envergando o corpo, derreando os ombros, parecendo um bem-te-vi com sono. Nada lhe doía no corpo surrado de tanto pelejar desde menino. Corpo até bem pouco tempo rijo como uma pedra. Ir ao médico, Jota Pinto se recusava. Fazer o quê, se dor nenhuma ele sentia? A família dele não sabia o que fazer, nem o que dizer. Todos se preparavam para o pior. A prosseguir naquele estado, Dona Julinha não demoraria a vir buscar o marido. Dizia-se.

O circo de Zé Bezerra ainda estava na cidade. Já tinham se passado dois meses e dias. No domingo próximo seria o último espetáculo. Aliás, dois espetáculos. À tardezinha e à noite. Com certeza, casa mais do que cheia. Um velho Cadillac rabo de peixe com duas bocas de alto-falante apregoava os dois espetáculos. Jota Pinto chamou os netos para irem ao circo. Enfim, animou-se, embora emborcado feito um anzol. 

O espetáculo da noite foi um delírio para o público. No da tarde não deveria ter sido diferente. A rumbeira Florbela estava mais bonita do que nunca. Porém, somente um cavalheiro teve o seu lenço vermelho e perfumado roçando-lhe o pescoço. Foi Salustiano, dono da mais sortida loja de tecidos da cidade, outro viúvo, mais novo e muito, muito mais endinheirado do que Jota Pinto. Desde a terceira semana que o circo estava na cidade, a rumbeira Florbela só lançava o lenço vermelho e perfumado no pescoço do lojista. Os comentários na cidade davam conta de um caso amoroso entre Salustiano e a rumbeira Florbela. 

Naquela noite de despedida do circo, os olhos do velho Jota Pinto derramaram duas lágrimas muito longas. E no seu íntimo, ele entoou uma canção desesperada. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
16/04
11:08

O que um homem truvilusco é capaz de ver

José Lima Santana
Professor da UFS

Foi duro de engolir. Mas, um sujeito truvilusco, meio lá e meio cá, depois de beber umas boas lapadas de pinga na bodega de Francisquinho do velho Barroso de Sá Doninha e dali sair chamando cachorro de “meu tio”, estava mais apto do que tudo e todos para ver coisas do arco da velha. Aliás, de qualquer arco. 
Fidelino de Dona Juvita, filha, neta e bisneta de afamados contadores de lorotas, não puxou aos antepassados. Era um homem sério, normalmente calado, trabalhador, bem casado em ordem de pobre. Pai de dois filhos, Pipito e Pereba, dois pestinhas danados de sabidos. Zé Bezerra, pai de Fidelino e marido de Dona Juvita de quem ela era viúva, fora, em vida, tal e qual Fidelino, um homem muito sério, que não gostava de jogar conversa fora. Não era dado a lorotas ou lambanças. Fidelino só tinha um senão: gostava de morder uma boa pinga, toda segunda-feira, dia da feira semanal da cidade. Afora esse dia, não botava um tiquinho sequer de álcool na boca. Era homem do seu trabalho e da sua casa. 

Se havia no mundo uma criaturinha de Deus que não fazia mal a ninguém, nem quando se encontrava truvilusco, era Fidelino de Dona Juvita. Como ele mesmo dizia, sabia beber. Nunca arreganhou os dentes para bater boca com a mulher. Esta, de seu lado, nunca reclamou da leve bebedeira das segundas-feiras. Vida pacata, ajustada. 
Fidelino não tinha amigos de copo. Não se enturmava com os bebinhos de pé de balcão na bodega de Francisquinho. Dava-se com todo mundo, mas não era de dar trela a ninguém. Entrava na bodega, entornava uma bicada, acendia um cigarro da marca Continental sem filtro. Dali a pouco tomava outra, acendia mais um cigarro. Soltava, no ar, uma fumaça tortuosa, que se ia subindo e, depois, sumindo, mas deixando atrás o odor do fumo queimado. Um pouco mais, o terceiro gole. Outro cigarro. Outras baforadas. Fumaça subindo e sumindo. Entre uma e outra bicada, um cumprimento, uma resposta, um começo de conversa. Nada demais. O terceiro gole era, quase sempre, a saideira. Vez ou outra, muito raramente, contudo, a saideira só vinha com o quarto gole. 

Tinha gente, especialmente quem tinha o fígado curtido pela cepa, que bebia o dia inteiro e se segurava em pé. Fidelino não era desses. Ele, ao contrário, tinha o fígado de mal com o álcool. Por isso bebia moderadamente. Cicinho de Maria Júlia, por exemplo, não bebia, comia com farinha. Era um alcoólatra de carteirinha. Amarelo empapuçado. Coitado. Largado pela mulher por quem era apaixonado, ele caiu na bebedeira após ela ter-se ido embora, poucos meses depois de casados, com um caixeiro viajante, com quem ela tivera uma demorada troca de olhares, meses antes do casamento. Fazia cinco anos que Cicinho levava a vida na cachaça. Trabalhava. Era, aliás, um mestre de primeira no manejo da colher de pedreiro. Outro que bebia demasiadamente sem cair era Terto do finado Pedro Zambeta. Este, porém, não era da turma que gostava da pinga, como Fidelino e Cicinho. Terto era da cerveja. Bebia caixas, podia-se dizer. Os dois, Cicinho e Terto, eram quase vizinhos de Fidelino. Davam-se bem, mas não jogavam no mesmo time. Fidelino era comedido. 

Uma noite de sábado, a bodega de Francisquinho animou-se. Um leilão. Teve até música com bom sanfoneiro. Música e dança. Meninos e meninas se soltaram no fim da tarde no salão anexo à bodega. Era assim que todos se iniciavam no aprendizado dos passos do forró. À noite, depois do leilão, depois da arrematação dos prêmios, homens e mulheres dançaram até o raiar do dia. 

Fidelino e Maria Zilda, sua esposa, foram ao leilão com os meninos, que, pela idade, ainda não eram forrozeiros iniciantes. Ele arrematou uns prêmios, para a alegria da mulher. Eram enfeites de casa. Perto de findar o leilão, para ter início o arrasta-pé, Pipito e Pereba já morriam de sono. Maria Zilda foi para casa com os filhos e os prêmios arrematados pelo marido. Fidelino ficou no leilão. Ficaria no forró. Maria Zilda não se incomodava. Não tinha ciúmes. Por ali, muitas mulheres eram assim. Submissão. Sociedade machista. Uma pena! 

Naquela noite de domingo, diferente das segundas-feiras, Fidelino excedeu-se um pouco. Só um pouco. Acabou mesmo truvilusco. E, naquele estado, por volta das duas horas da madrugada, ele foi levar em casa, uma tia viúva e suas duas filhas adolescentes. Elas moravam num sítio que ficava logo depois da curva do “S”, no beco de Sabino Cabeça de Currupio. Fidelino deixou as parentas em casa. Tomou a bênção da tia Luduvina, afamada bordadeira de rendendê, ponto de cruz e ponto de marca. As duas meninas seguiam na mesma trilha. 

Voltando da casa da tia, Fidelino pressentiu alguém ou alguma coisa lhe seguindo. Por precaução, passou a mão no cabo da faca, que portava ao lado esquerdo da cintura. Sabia-se lá! Não olhou para trás, nem para os lados, que ele não era um covarde. Tinha a proteção do seu anjo da guarda, por um lado, e da faca luminosa, comprada há pouco tempo, do outro lado. Sentia-se seguro.

Ao chegar de volta na curva do “S”, onde as galhas de dois frondosos cajueiros se entrecruzavam no meio da estrada, um vulto passou ao lado de Fidelino. Este sacou da faca. Noite escura. Não dava para enxergar muita coisa com nitidez. Beco sem iluminação. De chofre, eis que o vulto pôs à frente de Fidelino. Era uma coisa muito grande. E parecia com o macaco que Fidelino viu num filme, no velho Cine São José, quando era menino, na primeira vez que o pai lhe levou para ver uma fita de cinema. Fita velha, em preto e branco, que quebrava a cada dez ou quinze minutos. Era o filme de um macacão que morava numa ilha e uns homens o levaram para a cidade. Lá, o bicho se soltou e fez uma bagaceira danada, até ser morto. Pois aquele macaco gigante estava ali, à sua frente. 

Fidelino não se fez de rogado. Apertou os olhos para poder enxergar melhor. Ele sentia que estava truvilusco. Mas, não estava com as pernas bambas. Ainda se sentia preparado para enfrentar o macacão. E o bicho botou-se para ele. Foi um atropelo da desgraça. Por duas vezes, o macacão quase o pegou. Numa, ele se jogou debaixo das pernas peludas do animal. Noutra, ele rolou por terra e escapou do celerado. Luta daqui, luta dali, Fidelino conseguiu cortar a orelha do bicho, cujo pedaço cortado ele reteve na mão. Porém, o sangue do macaco gigante derreteu a faca luminosa, que ele deixou cair. Cortado na orelha, o macacão afastou-se quebrando galhos no pequeno matagal de Sabino Cabeça de Currupio. 

A orelha do macaco gigante, como aquele do filme que Fidelino o assistiu em 1950 e alguma coisa, estava em sua mão. Com cuidado, para que o sangue que gotejava não derretesse a sua mão, como fizera com a faca. E assim ele chegou à sua casa, cansado de tanta peleja. Caiu na cama e dormiu como uma pedra.

Pela manhã, Zefinha de Mané Preto andava praguejando porque alguém tinha cortado a orelha do seu bode Mimoso. E Mané Cacetinho gabava-se na bodega de Francisquinho que tinha acabado de achar uma faca luminosa novinha em folha, na curva do “S”. Um homem truvilusco é capaz de ver muitas coisas. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
09/04
13:34

O Boi Azucrinado e a Caipora Lambanceira

*José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Joaquim de “seu” Pedro Costa, apelidado, sabia-se lá porque de Costinha Bosta Seca, estava dormitando na rede armada no alpendre da casa. Pouco passava das três horas da tarde. Joaquim estava cansado. Passara a noite anterior de tocaia, no mato, à espera de uma caça graúda. Caçador ele fora no tempo em que caçar não era nada politicamente incorreto. Bem. Ele e seus dois companheiros de caçada, Zezito de Malaquias do finado Dodoca e Miguelão de Sá Rosa de Zé Catunga, um meio índio, que sumiu no oco do mundo numa noite de tempestade, tinham feito boas caçadas nos últimos dias. Bichos de penas e bichos de pele, os três tanto caçaram que as caças dariam para algumas semanas de farta comilança. Da limpeza dos bichos, acabaria sobrando muitas penas, peles, cascos e muito sangue. 

Rezava a lenda que a caipora castigava os caçadores que abusavam nas caçadas, matando bichos em demasia, além de suas necessidades de alimentação. Mas, Joaquim, Zezito e Malaquias não davam guarida às crendices do povo. Caipora? Lenda dos nossos índios tupis-guaranis. Ainda segundo a lenda, a caipora era a guardiã da vida animal. Aprontava toda sorte de ciladas para o caçador, sobretudo aquele que abatia animais além de suas necessidades, como já se disse. Afugentava as presas, espancava os cães farejadores, e desorientava o caçador simulando os ruídos dos animais da mata. Assobiava, estalava os galhos e assim dava falsas pistas fazendo com que o caçador se perdesse no meio do mato. 

Sonhando com belas e gordas avoantes, Joaquim de Costinha Bosta Seca foi despertado naquela tarde de vento brando, prenunciador do inverno que deveria chegar dentro de uns trinta dias, mais ou menos, por um alarido das seiscentas. Algum lambanceiro parecia, montado, correr para lá e para cá. O caçador e pequeno criador de gado bovino mestiço, acordou enfezado. Sem saber quem lhe tinha acordado, praguejou, disse uns mil e tantos impropérios. “Quem é o fio d’uma égua que num me deixa tirar um cochilo?”. Ergueu-se. Espreguiçou-se. Levantou-se. 

Um boi corria na manga, espécie de cercado onde as vacas leiteiras pernoitavam, aguardando o raiar do dia, para que os bezerros pojassem em suas tetas entumecidas, antes que Joaquim as ordenhasse. “Este mestiço tá doido, Aristides?”, indagou, gritando, o que acabara de acordar. E estava mais mal humorado do que macaco que perdeu o cacho de bananas. O vaqueiro Aristides deu de ombros. Nunca tinha visto um boi correr daquele jeito. Azucrinado. 

O boi mestiço não parava de correr de um lado para o outro. Era uma carreira desabalada, estranha. Quase em cima da cerca, de um e do outro lado, o boi freava, que dos cascos parecia sair fogo, como se fosse um grande isqueiro que o animal carregasse nos ditos cascos. 

Joaquim atirou no terreiro uma baita cusparada do tipo cagada de pato. Daquela bem catarrenta. Splesh...! Foi o barulho da cusparada, que uma galinha pedrês do pescoço pelado tratou de aproveitar como saborosa iguaria. Naquele instante, chegou ali, vindo das matas da Zabelê um sobrinho de Joaquim. O rapaz era moreno claro, mas parecia que tinha saído de uma cova, mais amarelo do que um cravo de defunto, fulôzinha mais fedida do que sovaco que não via água há mais de quinze dias. Enquanto isso, o boi mestiço corria para lá e para cá. “Ocê, por mal pergunte, viu alguma assombração, hein, Pitoco de minha irmã Das Dores?”. O rapaz mal podia respirar. Com algum custo, ele respondeu ao tio, como se estivesse dando cor de si: “Uma desgraça, meu tio. Uma desgraça”. Joaquim não acreditava. Parecia que estava tudo uma doideira só. “Num tou alcançando o seu intento, meu fio”.

Pitoco, ou melhor, Joaquim Costa Dória Sobrinho, narrou os sucessos daquela tarde. “Tio, o senhor num vai acreditar. Tem uma caipora montada no boi mestiço. É por isso que o bicho está correndo como um louco, para lá e para cá. A caipora me perseguiu na mata e veio dar até aqui. O senhor deve tomar uma providência”. 
E foi assim, simples assim, que Joaquim de Pedro Costinha Bosta Seca ficou sabendo que uma caipora vingativa estava castigando o boi mestiço, fazendo-o correr como um desalmado, para lá e para cá. Quando um caçador fazia um pacto com a caipora, prometendo-lhe uma capa de fumo, que era deixada sobre um toco seco, mas não cumpria o acertado, ou quando o caçador exagerava na caçada, matando animais para além de suas necessidades diárias, a guardiã da floresta e protetora dos animais silvestres cuidava de dar trabalho ao caçador. A prova do que o povo intuía estava às claras. A caipora montava o boi mestiço, que era devagarzinho quase parando. Naquela tarde, porém, o boi mestiço estava nos azeites. 

Joaquim acreditou tim-tim por tim-tim no que lhe dissera o sobrinho. “Eu vou dar um jeito de desencantar essa caipora. Ela vai ter que se ver comigo, ou não me chamo Joaquim de Costinha”. 

Joaquim de Costinha Bosta Seca entrou em casa, mais que depressa. Por uns dez minutos, ele deixou o sobrinho a ver navios, como se navios ali os houvesse. Na volta, ele trazia na mão direita uma garrafa de cachaça Murici. “Esta é da boa. Logo mais, a gente bebe”. Na mão esquerda, Joaquim trazia um embrulho. Era uma pedra azul e um pó vermelho. Açafrão. Ele colocou um punhado do pó sobre a pedra. Aproximou-se do boi mestiço azucrinado. O boi rodopiou, elevou-se sobre o chão. Levitou. Vozes de animais, os mais diversos, foram ouvidas. O boi mestiço desceu. Joaquim soprou de novo o pó vermelho de açafrão sobre a pedra azul da cor do céu. 

O boi mestiço mugiu como se algo o atormentasse. Empinou-se como boi de rodeio. Deu uns pinotes. Bufou. O pó vermelho o atingiu, em cheio. Foi então que Joaquim viu um indiozinho avermelhado, com cara de lambanceiro, montado no boi mestiço. O indiozinho deu língua a Joaquim. Era uma língua enorme e bifurcada como língua de cobra. Caiporas existiam, sim. Ali estava a prova. O pó de açafrão sobre a pedra azul desencantou a caipora, como, um dia, lhe dissera o seu avô materno, Pedro Mameluco. Joaquim soprou mais pó vermelho sobre a pedra azul. E sobre o boi mestiço, que deixara de correr como um louco. A caipora saltou do lombo do boi mestiço. Com cara de mau, avançou para Joaquim, que recuou dois passos. Ele soprou o último punhado do pó vermelho, que cobriu o rosto da caipora. Esta, por sua vez, sumiu. E pronto. Escafedeu-se por completo. Uma gargalhada zombeteira cortou o ar daquela tarde que findava. 

Nunca mais Joaquim Costa Dória, Joaquim de Costinha Bosta Seca, foi caçar. Nunca mais. E nunca mais a caipora apareceu. Melhor assim. Acabada a folia daquela tarde, Joaquim abriu a garrafa de aguardente Murici. E dela tomou dois bons goles. O sobrinho e Aristides também. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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