16/07
13:53

Chico Miséria

José Lima Santana
Professor da UFS

Era no tempo em que os delegados de polícia eram cidadãos comuns, remunerados pelas municipalidades. Comunidade pequena, feita cidade sabe Deus como. Coisas da política. Um deputado estadual, sobrinho do chefe político local, conseguiu elevar a vila à categoria de cidade. Um disparate. Uma afronta. Ninguém ali foi contrário à elevação. Afinal, todos queriam ver a vilazinha com cara de dorminhoca virar cidade. O progresso viria. O simples fato de ser cidade já deixava a povoação com outra roupagem. O moral da população subiria à estratosfera. A Intendência daria um jeito de melhorar as ruas, as estradas e os serviços. Aliás, parcos serviços públicos: duas ou três escolas de meninos e meninas magricelas com professorinhas que mal sabiam soletrar as palavras. Um cemitério quase abandonado. Um posto de saúde que só recebia a visita do médico de dois em dois meses. Por lá dava plantão diário, quando não surgia a oportunidade de uma boa pescaria, o guarda sanitário Omar Pereira, vulgo Omar Zarolho. O olho direito do guarda sanitário tinha um defeito que o fazia olhar para o lado que a besta correu, como dizia o populacho. 

Na vila transformada em cidade havia uma igrejinha do tipo cai não cai. O padre da cidade vizinha rezava missa um domingo por mês. Era preciso, então, um padre fixo. O intendente deveria socorrer-se do sobrinho deputado para arrancar do senhor bispo um padre para lá. Não seria problema. O deputado acabara de conseguir uma boa verba para as obras da diocese. 

Na nova cidade, dois grupos políticos se engalfinhavam pelo controle do poder municipal. De um lado, o grupo do intendente, tio do deputado, chefe político há mais de vinte anos, que elegia gatos e ratos. Ele, claro, no meio. Do outro lado, Chico Miséria, sucessor do sogro, o finado Tertino Fonseca, cujo poder de mando ele o perdera para o intendente João de Maria, sem sucesso na recuperação. João de Maria mandava e desmandava desde 1912. Mas, Chico Miséria vinha fazendo cócegas em João de Maria nas duas últimas eleições municipais. Diferenças pequenas de votos. Uma de vinte e seis votos e a outra de apenas oito votos. Claro que o grupo de Chico Miséria arrotava que fora roubado na contagem dos votos. O juiz era sobrinho de João de Maria. E estava estacionado na comarca, cuja sede ficava na cidade vizinha, há quase quinze anos. 

Na eleição daquele ano, 1930, eleição, inclusive, presidencial, Chico Miséria estava do lado fraco. Votaria num gaúcho de nome Getúlio Vargas da Aliança Liberal. No estado, as forças governistas estavam do lado oposto, com o paulista Júlio Prestes. E com as forças estaduais estava João de Maria, que prometia esmagar Chico Miséria nas urnas. Aliás, diga-se de passagem, que o apelido de Chico Miséria derivava de um jargão usado por Francisco Dória Macedo. Para ele, tudo era uma “miséria”. Daí o Chico Miséria. 

Eleições quentes. Ao bem da verdade, por ali não havia eleições frias. Era um verdadeiro pega para capar das seiscentas. Por aquelas bandas, político frouxo não vingava. Se não tivesse sangue no olho e tutano nos ossos, não aguentava a primeira boca de urna. Então, quem não se lembrava do velho Tonho Pinote de Vavazinho das Caraíbas? Meteu-se contra João de Maria, em 1920, foi encurralado por uns capangas, no beco da malhada de Zefride, e borrou-se todo. Serviu de mangação por um lote de tempo. Saiu da política e debandou da vila. 

As forças policiais foram aumentadas para garantir a eleição. Ora, na verdade, era para facilitar a fraude praticada pela gente de João de Maria. Os eleitores de Chico Miséria foram perseguidos. Muitos não conseguiram chegar a tempo para votar. Alguns apanharam da polícia. Outros foram detidos. Um verdadeiro escarcéu. Desde o meio-dia, João de Maria contava vantagem, abancado na frente da casa, os eleitores entrando e saindo pelo portão do lado, para comer. Era no tempo em que os políticos podiam oferecer comida à vontade aos eleitores. E somente ia à casa do chefe político quem nele votava. As pessoas tinham lado certo, tinham caráter. Nem os políticos trocavam de lado, nem os eleitores trocavam de chefe. 

Na nova cidade e no estado, a eleição do candidato situacionista foi de lavada. Em Brejo das Almas, a nova cidade, a turma de João de Maria soltou foguetes, fez baderna nas portas dos eleitores contrários, pintou o sete. O delegado de polícia e abastado fazendeiro, Firmino da Lagoinha, ele próprio, comandava uma trupe de baderneiros. Passando em frente à casa de Chico Miséria, na Praça da Bandeira, os baderneiros do delegado soltaram alguns rojões. Um deles feriu a perna de D. Francisquinha, esposa de Chico. Foi aí que a garapa ferveu. 

Chico Miséria estava no bar de Valfrido Boca de Caçapa quando Zominho de Sinhá Terta levou-lhe o ocorrido com D. Francisquinha. Sem pestanejar, Chico Miséria, sacou do revólver, manejou o tambor, deixou uma bala na agulha e tomou o rumo dos baderneiros de Firmino da Lagoinha, conforme descrição de Zominho. Atrás de Chico foram uns seis ou sete amigos. Todos armados. O ar da boca da noite cheirava a morte. 

Na Rua da Tramela, Chico Miséria e seu bando toparam com o bando do delegado. Chico adiantou-se. “Seu Firmino, você sabe que eu nunca fui com a sua fuça, nem você com a minha. Nisso nós estamos empatados. A diferença é que eu sou um homem de verdade e você não passa de um cabra safado, pau mandado de João de Maria, outro cabra safado. Alguém do seu bando feriu a perna da minha mulher com um rojão. Mas, quem me paga é você”. Todos sacaram as armas. Dos dois lados. O tiroteio seria dos brabos. O sangue de muitos lavaria a rua sem calçamento. Sangue empapando o chão. A beata Maria de Sá Fulô, que estava à janela, recolheu-se. Nos poucos postes da iluminação pública, a luz dos lampiões bruxuleava como se estivesse com medo.  

O delegado Firmino da Lagoinha, bêbado, cego de um olho, mas muito bem enxergando pelo outro, vociferou: “Cabra safado é você e sua laia, verme nojento, lombriga de bucho de pobre. Vou arrancar sua cabeça a bala e vou beber o seu sangue imundo, só pelo prazer de cuspir fora o restinho com gosto de vinagre azedo”. 
Ninguém teve tempo para disparar uma bala sequer. Naquele instante, irrompeu na rua a mulher de Chico Miséria, capengando, um filete de sangue escorrendo da perna direita. Vinha com outras senhoras. E eram muitas. Colocaram-se entre os dois bandos. Dona Francisquinha dirigiu-se, primeiro, ao marido: “Chico, pelo amor de Nossa Senhora, me ouça. Eu estou bem, foi só um arranhão. Quem disparou o rojão que me feriu foi aquele cabrinha ali”, disse, apontando para um sujeito sardento, que estava ao lado de Firmino da Lagoinha. Era um neto de Maneca Queixada, vaqueiro do delegado. E, voltando-se para Firmino, ela disse: “Procure o seu caminho, ‘seu’ Firmino. Hoje não vai ter matança em Brejo das Almas. O tempo de vocês acabou. O Dr. Getúlio vai ser o presidente do Brasil. João de Maria e vocês todos vão baixar a crista. Arredem daqui!”. As mulheres aplaudiram. Fez-se um silêncio danado. Um bando foi para lá, o outro para cá. Não teve mais entreveros, nem mortes, nem nada. 

A revolução de 30 se fez. Getúlio tornou-se presidente. E Chico Miséria, uma vez de cima, reinou na política da nova cidade até a morte, em 1952. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
09/07
12:00

A Orelha do Cachorro

José Lima Santana
Professor da UFS

“Gostar de conversa mole, eu não gosto. Sou daqueles cabras do tipo pé de boi, marrento, cosquento, amuado e lá se vai. Não sou de bulir com ninguém, mas espero que ninguém bula comigo. Do contrário, o carvão pega fogo sem querosene e sem sopro de bochechas. Sou assim. Nasci assim. E assim hei de morrer. Sou do bem. Só gosto de gente do bem. Não molesto ninguém, nem um bichinho de Nosso Senhor. Cachorro, então, é bicho de grande valia para mim. Naçãozinha de bicho amigueiro está ali. Cachorro é bicho que quase parece com gente na afeição, no agrado. Balançar o rabo, latir e se enroscar por entre as pernas da pessoa afeiçoada são modos dessa naçãozinha de bicho caseiro”. Esta fala foi de Zé de Fausto, na barbearia de Chico Nanico do finado Edgar do Taquaral, que, coitado, morreu botando sangue por tudo que era orifício lá dele, após ser picado por uma cobra coral das verdadeiras. Sim, porque tem também a cobra coral falsa, cuja picada não ofende. É o que diziam. 

Deveras e provado restava que Zé de Fausto era um sujeito brioso, dono de sua casa e de seu nariz. Trabalhador. Bom filho, bom marido e bom pai. Meter-se com a vida alheia? Jamais. Botar os pés numa bodega, só na mais alta precisão. Demorar-se ao pé de um balcão lavado com cuspe gosmento de cachaceiro? Nunca, nunca, nunca. 
Zé de Fausto morava no subúrbio da cidade, distante da Praça da Matriz, que era o ponto mais central da cidade, coisa de um terço de légua. Casa avarandada, sítio esparramado por boas cinco tarefas de terra. Dali tirava o sustento da família, que tinha muito bem do que passar, do que comer e vestir. 

Na Praça da Matriz morava Aristides, dono de loja de tecidos e padaria. E dono, também, de boa solta de gado mestiço. Era quase vizinho de terra de Zé de Fausto. Aristides, porém, era um novato na cidade. Ali chegara há menos de cinco anos, já botando loja e padaria. A solta de gado era herança de sua mulher, que ali nascera e se criara, filha do afamado fazendeiro Benildes de Totonho Tapioca, mão de figa infeliz, que passava fome para juntar dinheiro. 

Aristides Vilela da Fonseca Pimenteira. Esse o nome de cabo a rabo do comerciante e criador de gado mestiço. Era aparentado com gente graúda da política e da justiça. Sujeito pançudo. A pança mais parecia duas barricas encangadas. Gostava de vestir ternos de linho branco, daquele linho de primeira, cuja queda da calça já mostrava a qualidade e o preço. 

O vaqueiro de Aristides, Maneco de Bastião de Margarida de Sá Dorinha, era também um bom caçador de espingarda, tocaia e arapuca. Caçava tudo que era tipo de caça, graúda e miúda. Caçava bicho de pena e de pele. E de casco também, como tatus-pebas, vezeiros em cavar defuntos, para se empanturrarem, como muita gente acreditava. Maneco tinha, então, bons cães de caça. Cachorros perdigueiros de muita valia. Um deles, que atendia pelo nome de Veludo, era achegado a Aristides. Não podia vê-lo, que logo lhe fazia graças na espera de mimos. Aristides gostava de alisar o pelo negro e aveludado do cachorro de Maneco. Aristides gostava de estumar o cão, batendo palmas: “Êcô... êcô...”. Explicando para quem não é da roça, estumar é açular, incitar, e é palavra encontrada nos bons dicionários. Não é, pois, palavra criada pelos tabaréus. 

Tarde invernosa. Há dias, chovia à vontade. Inverno tardio, mas promissor. Os pastos, em todos os lugares, estiveram no casco, na areia pura. Isso há coisa de dois meses. De lá para cá, as chuvas começaram a cair. De início, uns pés d’água ligeiros, mal e mal molhando o beiço seco da terra. Depois de três semanas naquele chove-não-molha, eis que o inverno pegou de vez. Uma grandeza de Deus! Homens, mulheres e meninos jogaram-se no plantio de milho, feijão, fava e mandioca, nos quintais, sítios e malhadas. Os pastos enverdeceram novamente. Os riachos fizeram-se rios. Estradas enlameadas dificultavam a passagem dos transeuntes. 

Naquela tarde, Zé de Fausto estava na casa de Maneco, seu vizinho. Conversavam sobre o inverno que prometia boas colheitas. Num dado momento, eis que Aristides riscou no terreiro de Maneco no Jeep azul com tração nas quatro rodas, bom danado para rodar naquelas estradas encharcadas. Ao descer do veículo, Aristides foi saudado por Veludo, que encostou as patas sujas na calça de linho branco do visitante. Quanto mais Maneco chamava Veludo e quanto mais Aristides tentava se desvencilhar do animal, mais este lhe lambuzava a calça de linho branco. “Saia daqui, seu peste!”, vociferava Aristides. Sem sucesso. A calça de linho branco de Aristides ficou com listas escuras.

Sem nada dizer, mas, fulo da vida, Aristides agarrou Veludo pela coleira e, dando cabo de uma faca, que estava no banco do passageiro, meteu-a na garganta do cachorro. O sangue espirrou na calça de linho branco, espirrou na grama verde. Maneco amarelou, agoniado. Não disse nada diante da cena grotesca. Sobre a grama verde, o corpo de Veludo, que se esvaia. Com pouco tempo, o cão bom de caça esticou a canela. 

Aristides esbravejava. O filho mais novo de Maneco, um galeguinho magricela, apegado ao cachorro, chorava agarrado na saia da mãe. 

Até então, Zé de Fausto estava quieto. Enquanto Aristides tentava limpar-se com um lenço, Zé de Fausto sacou da cintura uma faquinha de cortar sola, pois ele mesmo fazia suas alpercatas e as dos meninos, e cortou uma orelha do cachorro Veludo. Nisso, aproximou-se de Aristides, encostou a faquinha em sua goela e disse: “Um cabra que mata um cachorro desse jeito, cachorro também é. Cachorro gué do rabo fino. Você vai comer esta orelha. Engula sem fazer careta!”. Aristides gaguejou. A faquinha já riscando a pele do seu gogó. Um filete de sangue saindo. “Engula, seu gordo fio duma porca parideira!”. Zé de Fausto apertou mais ainda a faquinha na goela de Aristides. 

No fim daquela tarde, muita chuva caiu. Invernão. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
02/07
17:03

Dom João José Costa e o Pálio

José Lima Santana
Professor da UFS

É tradição antiga na Igreja Católica que os Arcebispos recebam do Papa o pálio. Mas, o que é o pálio, e qual o seu significado? O pálio é uma espécie de colarinho de lã branca, com cerca de 5 cm de largura e dois apêndices, sendo um na frente e outro nas costas. Possui seis cruzes bordadas em lã preta: quatro no colarinho e uma em cada um dos apêndices. É confeccionado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. Para fazer os pálios, elas utilizam a lã de dois cordeiros que são ofertados ao Papa anualmente, no dia 21 de janeiro, pois neste dia, celebra-se a Solenidade de Santa Inês, jovem mártir cristã do século IV (ela nasceu em 304).

“Uma vez confeccionados, os pálios são abençoados pelo Santo Padre, guardados numa arca junto ao túmulo do Apóstolo São Pedro, o primeiro Pontífice, e entregues pelo próprio Papa, no dia 29 de junho de cada ano, na Solenidade de São Pedro e São Paulo, aos Arcebispos nomeados após a celebração do ano anterior. O uso do pálio, que nos primeiros séculos do Cristianismo era exclusivo dos Papas, passou a ser usado pelos Metropolitas a partir do século VI, tradição que vigora até os nossos dias. Qual o significado do pálio usado pelo Arcebispo? Para entendê-lo, é importante ter presente que a Igreja Católica está organizada pelo mundo afora em províncias eclesiásticas. Cada uma é formada por algumas dioceses (não há número determinado) e uma arquidiocese. À frente dela esta o Metropolita, que é o Arcebispo da diocese-sede. As palavras “arqui” e “arce”, colocadas junto às palavras diocese e bispo, vêm da língua grega, e significam “a primeira”, “o primeiro”. Assim, a Arquidiocese e o Arcebispo são “a primeira” e “o primeiro”, não em linha de importância, mas para serem aquela e aquele que devem estar a serviço e promoção da comunhão.” (Dom Jacinto).

Após a sua nomeação de Arcebispo, deve o Metropolita pedir ao Bispo de Roma, o Papa, o pálio, símbolo de seu “poder” (o serviço e promoção da comunhão) na própria Província Eclesiástica e de sua comunhão com a Sé Apostólica. Uma vez recebido o pálio, o Arcebispo usa-o unicamente dentro das funções litúrgicas, sobre os paramentos pontificais, dentro da Província a que preside, e unicamente nela, como diz Dom Jacinto. Como todos o sabem, a Província Eclesiástica de Sergipe é composta pela Arquidiocese de Aracaju e pelas Dioceses de Propriá e Estância.

Vejamos o que disse o Papa Bento XVI sobre o pálio na homilia que ele fez, no dia 29 de junho de 2005, ao entregá-los aos Arcebispos daquele ano: “Estais para receber o palio das mãos do Sucessor de Pedro. Fizemo-lo abençoar, como pelo próprio Pedro, pondo-o ao lado do seu túmulo. Agora ele é expressão de nossa responsabilidade comum diante do ‘supremo pastor’, Jesus Cristo, da qual fala Pedro na sua Primeira Carta. O pálio é a expressão da nossa missão apostólica. É expressão da nossa comunhão, que no ministério petrino tem a sua garantia visível”. Citação feita em artigo publicado na internet por Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas, no Rio Grande do Sul. (https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/palio-a-expressao-da-missao-apostolica/ Acesso em 25 de junho de 2017).

Que todos nós católicos na Arquidiocese de Aracaju possamos, ao nosso modo e como pudermos, ajudar Dom João a ser sempre digno do pálio que ele está recebendo das mãos do Papa Francisco, nesta quinta-feira, 29 de junho de 2017, dia da Solenidade de São Pedro e São Paulo – e a usá-lo com toda a consciência do seu significado. Certamente, ele o fará com prudência, firmeza e determinação. Em Roma, Dom João optou por receber o pálio sem comitiva. Possivelmente, por dois motivos: primeiro, a impossibilidade de convidar membros do clero que pudessem viajar às expensas da Cúria Metropolitana, por absoluta impossibilidade financeira momentânea para tal; e, segundo, dada a sua simplicidade, que não se coaduna com as pompas. Para Dom João, receber o pálio não se trata de uma festa, mas da confirmação de sua missão, que é o amor, a caridade pastoral em relação ao rebanho que lhe foi confiado. E, obviamente, a sua ligação fraterna com os bispos da Província Eclesiástica da qual ele é o Metropolita. Mas, acima de tudo, a sua estreita relação com o Papa, o sucessor de São Pedro.

Que o clero aracajuano possa se unir em torno do seu pastor. Precisamos de unidade. Que o laicato também se integre cada vez mais ao seu pastor. Com cinco meses e dez dias, à frente da Arquidiocese de Aracaju, Dom João procura dar sequência ao profícuo trabalho desenvolvido por Dom Lessa, em duas décadas à frente da mesma Arquidiocese. Cada pessoa, em qualquer atividade, tem o seu ritmo e o seu estilo de trabalho. E não seria diferente entre Bispos e Arcebispos que vão se sucedendo. Ademais, assim é a vida. Embora nem todos o queiram compreender. Infelizmente.

No dia15 de setembro vindouro, o Núncio Apostólico virá a Aracaju para fazer a entrega definitiva do pálio a Dom João José Costa, como manda a tradição. Aguardemos.


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
25/06
15:13

Guloseimas de São João

Professor da UFS
José Lima Santana


    Zuleica de Timóteo Meia Garrafa era uma doceira afamada em toda a região do Brejão de Cima ao Catolé de Dentro, uma extensão de doze léguas ou mais. Ela dava feira em três cidades, no sábado, no domingo e na segunda-feira. Além disso, vendia guloseimas no dia a dia, em casa. Na janela de largo batente cimentado, vários frascos: cocada branca e preta, pés de moleque, bolinhos de ovos, saquarema (bolachinha de goma), manauê de milho, de arroz e de macaxeira. Os pedaços destes últimos, todos cortados na mesma régua. Iguaiszinhos. Que talho perfeito tinha Zuleica!

    O marido, Timóteo Meia Garrafa, era, por assim dizer, o gerente da doceria. Sujeito miúdo, que se esqueceu de crescer, daí o apelido de Meia Garrafa. Porém, meio azougado. Meio? Azougado todo, ele era. Nunca se registrava que Meia Garrafa tivesse puxado um bate-boca, uma briga, um furdunço. Não! Sujeito de paz, que, todavia, virava uma cascavel choca se lhe pisassem nos calos. Então, quem não se lembrava do labafero no qual ele se meteu contra uns cabras do Capim do Boi, na feira do Sapé? Era por volta do meio dia, quando chegaram à banca da doceira Zuleica três rapazes, querendo comprar manauê de milho. As duas formas rasas e largas de alumínio já tinham ido embora. Assim mesmo eram os doces de Zuleica. Não demoravam na banca. Freguesias certas, encomendas entregues logo cedo.

    Aqueles três rapazes eram primos, filhos de Zeca Braço Forte e Tonico Bafo de Onça, dois sujeitos encrenqueiros, que criaram os filhos no mesmo ritmo. Homem da raça dos Oliveira Bastos não levava desaforo para casa. Desde pequenos, os meninos eram orientados a nunca apanhar na rua e a jamais chorar. Se apanhassem na rua, apanhariam em casa. Se chorassem, cairiam no cipó caboclo. Pois bem. Os três rapazes não costumavam se contentar com um “não”. Ao ouvirem Zuleica dizer que já tinha acabado o manauê de milho, que eles procuravam, um deles começou a bater a mão com certa violência na tábua da mesa de cedro fornido. Outro deles, aos berros, ameaçou derrubar a cobertura da banca, feita de matéria plástica, como se dizia. O terceiro apenas gargalhava diante da cara de susto de Zuleica.

    Os transeuntes passavam, tirando o corpo de banda. Quem queria se meter, sequer se deter para olhar e ouvir o furdunço ali criado? Passado o susto momentâneo, Zuleica deu garra de uma faca luminosa com boas polegadas de lâmina e gritou: “Bando de moleques, vocês pensam que eu sou dessas que a sua laia bota pra correr? Eu vou cortar os seus possuídos!”. Naquele instante, Timóteo Meia Garrafa, que tinha ido desbeber no fétido banheiro do mercado, acabava de chegar à banca. “O que é isso, Zuleica?”. Nem tempo houve para a resposta da doceira. Um dos rapazes, Pedro Beiço Caído, que tinha lábio leporino, tentou dizer um gracejo. Não teve tempo. Zuleica, que já tinha saído de detrás da banca, agarrou os compadres lá do Beiço Caído e disse: “Seu fio da gota serena, vou cortar seus documentos e dar pro gato comer”.

A faca luminosa fez réstia no rosto do sujeito, que conseguiu se desvencilhar. Assustado. E não era para menos. Foi quando Meia Garrafa, subindo no tamborete no qual Zuleica tomava assento, acertou uma caçarola nas fuças de um dos três. O sangue desceu. Tingiu a camisa branca. Meia Garrafa tinha-lhe partido as ventas. O atingido era primo dos outros dois, que eram irmãos. Um dos irmãos disse ao outro: “Vá chamar papai!”. Não foi, não. Ao tentar sair, foi alcançado por Timóteo Meia Garrafa, que lhe deu uma caçarolada no baixo ventre. E, dando um pinote, alcançou o terceiro na boca do estômago. Em suma, Meia Garrafa deu nos três. Aí, sim, juntou gente. Meia Garrafa foi aplaudido. E ainda ouviu o seu apelido gritado por várias bocas. 

Alguém chamou a polícia. O quartel era bem próximo. Chegaram o sargento Lauro Cicatriz e dois soldados. O primeiro atingido por Meia Garrafa estava sentado no chão, com a tinta vermelha descendo das ventas. Os outros dois contorciam-se. Meia Garrafa não tinha 1,60 m de altura, mas tinha braços fortes, mais parecendo com duas mãos de pilão de pé, daqueles que naquele tempo se usava para pilar café, torrado em casa. O melhor café! Concomitante com a polícia chegou o pai dos dois irmãos e tio do outro, do ensanguentado. A polícia já o conhecia. Conhecia a laia toda. Zuleica adiantou-se e explicou tudo ao sargento. Os três rapazes foram levados para o quartel. Meia Garrafa e Zuleica, também. O pai dos irmãos e tio do outro, esbravejando, seguiu o cortejo. Falou em vingança. O sargento ouviu. E o colocou junto com os filhos e o sobrinho. Estava comprovado o crime de ameaça da parte deste. O que se sabia mesmo era que foi um rebuliço das seiscentas naquele sábado, dia de feira no Sapé. Meia Garrafa e Zuleica saíram do quartel cerca de meia hora depois. Os quatro sujeitos do Capim do Boi ficaram detidos.

Véspera de São João. No último dia da novena na casa de “seu” Vangelo, a fogueira com quatro metros de altura ardia, desde o início da noite. A novena acabou por volta das oito horas. Iria começar o arrasta-pé, que nunca faltava. Um meninote do Currupio, povoadozinho de pouca gente, tinha os dedos afiados. Em suas mãos, o fole velho gemia como se fora em mãos do Gonzagão. O menino tocava demais. E cantava de menos. Mas, valia o chiado ligeiro do fole.

Zuleica e Meia Garrafa estavam a poucos metros da fogueira. A banca com guloseimas juninas atraía muita gente. Dois caldeirões gigantes de mungunzá. Duas travessas com pamonha. Vários pratos de canjica com canela. Pés de moleque de puba. Manauês de todo tipo que se podia fazer. Broas. Milho assado e cozido. Com Zuleica e Meia Garrafa, estavam as duas filhas, no adjutório. Outras duas bancas de guloseimas estavam postadas por ali. Nestas, pouca freguesia. Doceira mesmo era Zuleica. Afamada com razão.

Quatro anos tinham se passado desde aquele entrevero na feira do Sapé, com os rapazes do Capim do Boi. Vingança não houve como apregoada pelo pai dos dois irmãos, dentre os três que apanharam de Meia Garrafa. Dizia-se que ao tomar ciência do ocorrido, como tudo se dera, o pai dos dois e tio do outro, desceu o cinturão nos três, quando o sargento os liberou, ali mesmo na frente do quartel. Bem feito.

Enquanto Zuleica, Meia Garrafa e as duas filhas se desdobravam para atender os fregueses, um sujeito, bêbado, afirmou com voz empastelada: “Esse mungunzá tem baba de velha. Essa velha deixa a baba cair quando está cozinhando o mungunzá. Diz ela que é pra engrossar o caldo”. Apesar de embriagado, falou em alto e bom som. “Baba no mungunzá? Seu fio duma égua manca!”. O bêbado media uns dois metros e pouco. Era um homenzarrão. Corpulento. Na mão direita, um rebenque de couro cru. Na cintura, por cima da camisa, um revólver. Aquela faca luminosa, usada por Zuleica, na feira do Sapé, ou outra igual, facheou na mão de Meia Garrafa. O bêbado fez menção de sacar a arma. Não sacou. Eronildes de Jucundino do finado Vavá de Maria Zélia meteu um tição, tirado da fogueira, na mão do sujeito. Revólver no chão. Uns dez homens caíram em cima do cabra. Deram nele até deixá-lo moído. Botaram-no para correr. Sem a arma, que seria entregue ao delegado de polícia, ainda naquela noite.

Onde já se viu alguém dizer que a baba de Zuleica engrossava o caldo do mungunzá? Um despropósito. Nem babar, Zuleica babava. Oxente!


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
18/06
05:36

O pagador de promessa

José Lima Santana
Professor da UFS

O que um casamento não fazia? Essa indagação não saía da cabeça de César Ramalho, jovem advogado, casado com a irmã de Jorge Rivera. Nada a ver com a esposa. Nem pensar. O penar de César tinha outro nome. Ele se sentia o verdadeiro pagador de promessa. Entrava ano, saía ano, e ele no mesmo sufoco. Um desmantelo de vida. Madeiro pesado para carregar. Mas, pensando bem, ninguém contraía núpcias com um madeiro, com um tronco fornido de baraúna ou árvore que o valha. Ah, não? Quem disse que não? Haveria de indagar o próprio César.
 
Cunhado não era parente? Alguns diriam que sim, outros diriam que não. O advogado César Ramalho diria coisa pior. No caso do seu cunhado, o tal Jorge Rivera, cunhado era um motivo de consumição. Uma constante dor de cabeça. Uma enxaqueca. E das brabas. Um cunhado daquele não era parente nem aderente. Era uma tragédia, como diria um político interiorano. Sujeito aporrinhador. Um cisco grande no olho. Um sabia-se lá o quê! Enfim, um madeiro infeliz. Por isso, o advogado César Ramalho sentia-se um pagador de promessa. Promessa que nunca terminava de ser paga. 

Vésperas de São João. A cidade e, porque não dizer, o estado inteiro estava em acentuada animação. O dia de Santo Antônio já se fora. O santo casamenteiro era festejado em várias cidades e povoados, que o tinham como padroeiro. Porém, os festejos populares mais vigorosos ficavam para os dias de São João e São Pedro, naquele mais do que neste. O santo do carneirinho era popular em demasia. Festa de arromba era dedicada ao seu dia, ou melhor, à véspera. Festa de tinir. Em todo o estado? Qual nada! Em todo o Nordeste. “Festança, môfio!”, como haveria de dizer Antero do Gavião. E era mesmo. Era e ainda é. E haverá de o ser enquanto o mundo for mundo, enquanto o apocalipse não vier arrasador. Aliás, diante do destrambelhamento do mundo, aí incluído o cunhado Rivera, o advogado César Ramalho acreditava que o fim dos tempos estava próximo. Só podia ser. Vôte! 

Naquelas vésperas do dia do santo mais festejado dentre os três santos juninos, o cunhado do advogado César Ramalho riscou na porta deste. Metido na política, necessitava, segundo suas próprias palavras, de um adjutório para a compra de fogos de artifício, para meninos e homens. Uma tranqueira! A soma em dinheiro que ele solicitou ao cunhado advogado, não era baixa. A quantidade de fogos dava para encher um caminhão. Bem. Não se diz que era um caminhão, literalmente, mas que dava para abarrotar uma caminhonete, isso lá dava, sim. 

O advogado perdeu as estribeiras diante do pedido estapafúrdio do cunhado metido na política, lá nos confins de Judas. Ele passara dos limites. “Os tempos estão bicudos, Jorge. Você sabe muito bem disso. Aliás, você é o melhor retrato de que as coisas não andam bem para ninguém”, disse César. O cunhado não se fez de rogado: “Você acha pouco o que eu tenho feito por você? Quantas causas boas de grana eu lhe consegui? Uma ruma danada! Quanto você não ganhou às minhas custas?”, devolveu o cunhado Raspa de Tacho. Esclareça-se, por oportuno, que Raspa de Tacho era o apelido do cunhado do advogado. Apelido que lhe fora impingido pela gentalha da cidade interiorana onde ele morava e dava-se ao luxo de perder eleições. Candidatara-se a quase tudo. Ele era um verdadeiro sorvedouro de dinheiro. Ainda bem que por lá não tinha nenhuma JBS. 

Por falar em eleições, na última que Jorge Rivera disputou, deu-se um caso interessante. Uma pobre mulher, moradora num casebre do povoado Jenipapo, pobre como Jó, aquele sujeito do Livro Santo, que era rico e feliz e tudo perdeu sem renunciar a sua fé em Deus, recebeu, sem que o tivesse pedido, a oferta de uma casinha nova. Promessa feita por ninguém menos do que Jorge Rivera. “Assim que terminar a eleição, ganhando ou perdendo, eu farei a sua casinha, dona Florzinha”. Pobre mulher, viúva com uma récua de filhos de cobrir com um cesto, todos pequeninos e raquíticos de dar pena. O marido tinha morrido pisoteado por um boi, vaqueiro que ele era. O patrão não lhe dera nenhum valimento. A pensãozinha pouco dava para o sustento dela e dos meninos, sem falar na situação de sua saúde. Precaríssima. Uma doença braba, que nem o nome o povo dali gostava de pronunciar, preferindo chamá-la de “essa coisa” corroia-lhe as entranhas. Mais dia, menos dia, ela haveria de bater a caçoleta, deixando sobre a terra os oito filhos, todos eles menores de idade. O mais velho tinha nove anos. Diga-se de passagem, uma menina. Uma quase mocinha, que cuidava da mãe e dos irmãos. 

Casa? A pobre mulher jamais haveria de ver. Não construída pelo político Raspa Tacho. É preciso esclarecer o porquê do apelido. Jorge Rivera costumava raspar o último centavo de alguém de quem ele se aproximasse e, por ventura, lhe facilitasse o bolso ou a bolsa. Ele sugava até o último vintém. Era sempre emprestado. Só que ele nunca pagava. Raspava o tacho e pronto. Até o dia que ninguém mais confiou nele. 

Voltando à casa da pobre mãe de oito filhos, um dia, após mais uma eleição, Jorge Rivera deu de cara com um capeta, na encruzilhada do Matozinho, lugar esquisito lá para as brenhas do Terreiro do Diabo. O capeta tinha a forma, segundo o próprio Jorge narraria, de uma bola de fogo com uma cara de bode de olhos esbugalhados. O fogo ardia e o bode berrava de forma assombrosa: “Cadê a casa, Jorge? Cadê a casa Jorge?”. A bola de fogo rolava na estrada e não dava passagem. Ao tentar retroceder e sair em desabalada carreira, a bola lhe barrou o caminho, no outro lado. E foi assim que ele prometeu construir a casinha para a pobre mulher, viúva do vaqueiro pisoteado. Dessa vez, cumpriu. Claro que não era nenhum capeta em forma de bola de fogo. Era, sim, o fogo da consciência pesada de Jorge, ardendo e cozinhando os miolos.

Naquelas vésperas de São João, o advogado César Ramalho perderia mesmo a estribeira, como se disse, diante do cunhado que teve a falsa visão do capeta com cara de bode, ardendo na bola de fogo. “Jorge, se depender de mim, você vai ficar sem fogos de artifício para dar a quem você pretende. Fazer festa com o chapéu alheio é muito bom. A partir de hoje, você não vai ter de mim nenhum adjutório, como você diz. E se você insistir, eu me viro num capeta de fogo”. 

Jorge Ramalho se foi. Praguejando. Faiscando. Mas, no Natal ele voltaria, com certeza. Precisaria comprar panetones para dar aos seus eleitores. O cunhado advogado, então, deveria invocar o fictício bode da encruzilhada do Matozinho. Ao invés de bacalhau, peru ou leitão, haveria de ser o Natal do bode. 
Bem, contanto que não fosse o Natal do Friboi.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
11/06
14:20

Associação Ordem e Progresso: o presidente cai ou não cai?

José Lima Santana
Professor da UFS

Marcelino de Pedro Tibiriçá do finado Maneca de Chica, este, antigo proprietário da fazenda Lagoa Funda, uma porção de terra cheia de pedregulhos e cascavéis, e aquele, proprietário da Viação São Pedro de Alcântara, ou seja, da única marinete a fazer o transporte regular da cidade de Monte Azul para a capital do estado, entrou em crise. Crise profunda. Marcelino candidatara-se a vice-presidente da Associação Ordem e Progresso, na chapa encabeçada por Zenilma Pindaíba de Maria Rosa de Sá Domitila de Tinoco dos Araçás. Zenilma era uma mulher do tipo jogo duro. Outrora, ela fora ativista do Grupo Bota Pra Quebrar. Um grupo meio incendiário, nos tempos bicudos e de chumbo da ditadura militar. Marcelino fora, assim, o vice-presidente de Zenilma. A chapa passou raspando, mas ganhou a eleição contra Décio Mineiro, que quase comemoraria a vitória. Quase. Derrotado, inconformado, impetrou um recurso contra a eleição de Zenilma/Marcelino por abuso de poder econômico e outros bichos. 

A cidade ficou dividida. Os mais pobres, mas, não só estes, ficaram ao lado de Zenilma. Os mais ricos e os mais ou menos ficaram, em maioria, ao lado de Décio Mineiro. Nas discussões em bares e esquinas, a divisão mostrava-se presente. Na esquina do diabo, confluência das Ruas do Cavaco e do Embeleco, formou-se uma roda de alentada discussão, numa noite de sexta-feira. Bem em frente ao sobrado da vitalina Cícera de João Pinheiro. A velhota botou os faladores para correr, despejando sobre eles um penico de mijo da noite anterior, que ainda estava no bidê do quarto. Imaginem o “cheiro”.

Ora, no decorrer do mandato, Zenilma destrambelhou-se. Adepta de boas pedaladas, ela acabaria caindo da bicicleta numa noite escura. Coitada! O tombo foi tão infeliz que a tirou de circulação. Embora acidentada e de forma grave, com a coluna vertebral seriamente avariada, e sem poder cumprir com as funções inerentes à presidência da Associação, ela insistia em ficar à frente dos negócios. À surdina, Marcelino tramava para o afastamento da presidenta. O Conselho Deliberativo da Associação Ordem e Progresso abriu um procedimento contra Zenilma. E depois de idas e vindas, de muito falar e de muitas tramas, eis que Zenilma caiu. Mancomunados, Marcelino e membros do Conselho vibraram. Marcelino passou a ser o presidente. As más línguas dos puxa sacos de Zenilma apelidaram-no de Mordomo de Drácula. E os adeptos destes apelidaram Zenilma de Bucha de Canhão. Nos dois casos, não sei por quê. 

Nas mãos de Marcelino, a Associação Ordem e Progresso não andou um palmo. Continuou se arrastando como vinha há algum tempo. Os associados chiavam, mas Marcelino fazia vistas grossas. De chofre, surgiram denúncias contra o presidente Marcelino. Denúncias graves. Aliás, gravíssimas. Os membros da Associação e toda a cidade arrepiaram-se. As mídias soltaram os cachorros contra Marcelino. E as mídias daquele tempo eram os pasquins que ocasionalmente e à surdina eram afixados na porta central da igreja matriz. Marcelino ficou encurralado como se numa gangorra estivesse. Cai não cai.

A cidade sofria. A divisão das pessoas em dois blocos antagônicos, apelidados de coxinhas e mortadelas causava confrontos e aborrecimentos. Os ícones de cada bloco estavam enfiados na lama até o cocuruto da cabeça, mas os seus cupinchas os defendiam. Marcelino, Zenilma e Décio, além de muitos outros membros da Associação Ordem e Progresso, como o ex-presidente da Associação, tentavam sobreviver às duras penas. Uma camarilha se espalhara sobre a cidade. Vergonhosamente. Estupidamente. Cada um dos implicados nas mais diversas e graves denúncias deveria comprar para si um frasco de óleo de peroba para lubrificar a própria cara desavergonhada. 

No beco do fedor, lugarzinho miserável onde eram jogadas muitas imundícies e onde sujeitos promíscuos obravam à vontade, um sujeito gozador, Manelito de Justino Boca Preta, tipo de poeta popular debochado, escreveu numa faixa de pano: “O mundo está perdido / Tudo está esculhambado / O povo foi iludido / Mas o troco há de ser dado”. 

Passando pelo beco, Julinha Língua Bendita exclamou: “Que merda! É bosta pra todo lado”. Coitada, sem querer, atolara-se na fedentina. E era assim mesmo como se sentia o povo da cidade. Atolado. Por causa das porcarias que as pessoas da Associação Ordem e Progresso fizeram. Tais porcarias emporcalhavam a cidade e respingava no povo. O povo, por sua vez, embora lascado, dividido em coxinhas e mortadelas, não se unia. Uns, nas janelas, batiam panelas; outros berravam nas ruas. Sem a união do povo, os polvos estendiam os seus tentáculos lamacentos sobre a cidade. Quem os deteria? Um tribunal? Qual? Nenhum, talvez O povo criou-os. Embora eles se deformassem no decurso do tempo. Somente o povo, unido, um dia, sabe-se lá quando, os baniria da Associação Ordem e Progresso. 

Marcelino cairia? As lagartixas de parede haveriam de sustentá-lo? Vitória popular ou vergonha coletiva?

Povo nenhum merecia gente do tipo daqueles miseráveis que tomaram de assalto a Associação Ordem e Progresso. Nem daqueles que da Associação queriam se apoderar. Eram, todos, farinha do mesmo saco. Uma cambada só. 

Que Deus velasse pelo povo.    


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
04/06
12:29

Uma mala cheia de dinheiro

José Lima Santana
Professor da UFS

No sertão não chovia há mais de um ano. Falo de chuva para valer, e não de uns totocos caídos aqui ou ali. Chuva de verdade, daquelas de arrombar barragens, de lavar ruas, levando a sujeira e a imundície que as pessoas deixavam atrás de si. Pois naquela sexta-feira o céu quase desaba sobre o sertão. Chuvarada das boas. Caiu mais água em uma tarde do que se poderia esperar para um mês inteiro em tempos de bom inverno. Chuva de fim de outono. Arrasando meio mundo. Estradas onde rios momentâneos corriam frouxamente. Baixios transformados em lagos. Riachos botando força de rios caudalosos. Cercas de arame farpado sendo arrancadas em muitas braças. Barrancos e árvores sendo arrastados pelas correntezas.
 
Nas cidades, ruas, praças e avenidas praticando mergulho. Zefinha do finado Benvindo de Chico Pilombeta dobrou os joelhos diante do nicho de São Pedro, santo de sua devoção, e rezou quinhentos Pais Nossos e duas mil e quinhentas Aves Maria. Enfim, por volta das dezoito horas, a chuva arrefeceu. Foi, então, a hora de começar a contabilizar os prejuízos. Todavia, maiores seriam os ganhos. O povo da roça já podia começar a lavrar a terra para plantar. Os pastos acabados, a partir dali, seriam recompostos. O capim e a marmelada brotariam da noite para o dia. Com a chuva, a terra mostraria a sua força. 

Naquela noite, Severino de Valdivina de Peixotinho do Limoeiro bateu palmas na porta de Sinhá Margarida de Ponciano das Gameleiras, lugar de antiga engenhoca, outrora pertencente ao pai do Padre Fonsequinha, sacerdote virtuoso e de saudosa memória, cujas prédicas ecoam ainda hoje por todo o sertão. Padre arretado na oração e no destemor, que enfrentou de cajado na mão um bando de malfeitores, que se diziam cabras de Lampião, mas que não passavam de uns larápios de meia tigela, isso nos idos de 1934. Sinhá Margarida acudiu às palmas. Era ninguém menos do que o vereador Severino Calça Frouxa, cujo apelido lhe fora dado quando ele ainda era criança de calças curtas, pois sua mãe, Dona Valdivina, aproveitava nele as roupas do filho mais velho, Vadico, que era gorduchinho. Ao contrário do irmão, Severino, ou Bill, como era chamado, e como, em regra, são chamados no Nordeste todos os Severinos, era magrinho que dava dó. Logo, as calças de Vadico ficavam de fundilhos arreados em Severino. O pobre mais parecia um boneco de mamulengo vestido nas calças do irmão gorducho. 

Severino foi à casa de Sinhá Margarida, tia de Zuleica Olho Esperto, sujeita de belas feições e ancas largas, como era do gosto de Severino. Ele e ela eram namorados. Sinhá Margarida não gostava de Severino e somente o aturava por causa da sobrinha, por quem ela devotava maior afeição dentre as sobrinhas. Após cumprimentar a tia da namorada, Severino pediu para que ela guardasse uma mala de porte médio. A mala estava fechada com fechadura de segredo. Sinhá Margarida fez um muxoxo e mandou colocar a mala no quarto ao lado, que era o de visitas, mas Severino pediu para guardar no quarto dela, que era mais seguro. Ela o atendeu e nada perguntou. 

Na manhã daquele dia, bem antes das chuvas caírem, Pedro de Chico Caroço de Mamede de Julião estava desaconçoado. Andava de um lado para o outro, na calçada da agência do Banco Alvorada. O seu chefe, Roberto Louro, assessor direto do presidente da Empresa Brasil & Cia. Ltda., o Dr. Miguel Terremoto, fora flagrado com uma mala de dinheiro contendo notas novinhas em folha de 100 reais. Roberto Louro tentara, sem sucesso, uma vaga na Câmara Municipal. Ficara na primeira suplência de sua coligação e da qual Severino fora o último eleito. Porém, Roberto Louro assumira uma vaga na Edilidade, quando o vereador Antonino Peroba fora feito secretário municipal. Ele e Severino eram amigos de infância. 

Uma roubalheira danada fora descoberta na Prefeitura Municipal de uns vinte anos para cá. Basicamente, todos os ex-prefeitos e o atual, cada um ao seu modo, estavam incriminados. Secretários e ex-secretários, assessores e ex-assessores. Uma penca de empresários de ramos diversos da atividade privada. Uma cambada de ladrões que se apoderaram do poder e dos recursos públicos, do dinheiro suado dos tributos que o povo pagava. A cada novo dia, novas falcatruas eram descobertas. Um lodaçal fétido. Na operação policial denominada “Capinzão”, até os bois de alguns indiciados foram arrolados nos inquéritos para futuro sequestro. O fazendeiro Joselito armou para cima do presidente Miguel Terremoto. Gravou uma conversa entre eles, sigilosamente. Antes, o fazendeiro arrumou a vida de amigos de Terremoto em troca de facilidades indizíveis. 

A mala cheia de dinheiro fora entregue a Pedro de Chico Caroço de Mamede de Julião por um preposto do fazendeiro Joselito, afamado dono de fazendas de gado e muito mais. Era exatamente aquela a mala que Pedro pediu a Severino para guardar, em nome de Roberto Louro. Ocorre que a polícia, com autorização judicial, rastreava os passos da mala, ou de seus condutores. Pedro seria preso, no sábado pela manhã. Severino logo mais, à tarde. Roberto Louro, dias depois. E até Sinhá Margarida deu com as fuças no xadrez. Pobre mulher, que de nada sabia!

Passaram-se os dias. Mais falcatruas foram descobertas. Muita gente, àquela altura cortava prego. O fazendeiro Joselito aboletou-se no mundo. Dizia-se, na cidade, que ele estava passeando de lancha no mar da Flórida, nos States. Muito mais gente já se encontrava no xilindró. Tinha vereador afastado do Parlamento Municipal por determinação judicial. De três partidos diferentes, ex-prefeitos estavam presos. Um rolo desgraçado. A cidade estava em polvorosa. A imprensa desenrolava o rolo, ora pendendo para um lado, ora pendendo para o outro. As mídias sociais fervilhavam de notícias, verídicas ou não, e de comentários. Todos tinham o que dizer. Era uma farofada danada. Partidários de uns ou de outros se esguelavam para defendê-los. Vermelhos e verdes se engalfinhavam nas mídias. 

Enquanto os advogados ingressavam com pedidos de habeas corpus em favor dos endinheirados, Sinhá Margarida fora esquecida. Logo mais, somente ela restaria presa. Tico de Martelinho de Maria Chica, neto do famoso rábula, dos anos 50, Duda Capote Preto, não era rábula como o avô, pois rábula provisionado já não havia mais, contudo, como tinha ele a língua ferina como a língua do avô, disse em alto e bom som, no cartório de Zé Albuquerque, que a Constituição Federal assegurava que todos eram iguais perante a lei. Mas, Sinhá Margarida, inocente em toda aquela roubalheira, não era igual a Pedro, nem a Severino, nem a Louro, nem a Miguel Terremoto, nem ao fazendeiro Joselito. Aquela pobre mulher, que apenas prestara um obséquio ao namorado da sobrinha, acabaria sendo a única hóspede do xilindró. A única. Coitada!

Tico de Martelinho disse que, um dia, só Deus sabia quando, ladrão, de colarinho branco, ou não, haveria de ser visto e julgado simplesmente como ladrão. Simples assim. E que a cidade seria passada a limpo. Para tanto, dizia ele, o povo deveria deixar de servir apenas para povoar. Berrar nas ruas, já era alguma coisa, mas só isso não adiantava. Bater panelas era muito pouco. Somente uma revolução, uma verdadeira revolução de cidadania e de dignidade seria capaz de endireitar a cidade. Ouvindo o palavreado de Tico, neto do rábula Duda Capote Preto, o jovem padre Alberto Rocha, exclamou: “Que Deus te ouça, ‘seu’ Tico. Que Deus te ouça!”. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/05
13:46

Que a Corja Daninha seja banida da vida pública

Amigos e amigas do Blog “PRIMEIRA MÃO”,
 
Na manhã do sábado, dia 27, eu recebi um telefonema do Frei Antônio Góis, franciscano, dizendo que não leu o meu artigo (o conto ou causo, como queiram), que, como todos sabem, eu publico no Jornal da Cidade, nos fins de semana, e que é reproduzido na minha página do Facebook, além deste Blog “PRIMEIRA MÃO” e do site "Clicksergipe". 
 
Ocorre que eu passei a semana quase toda em São Paulo. Ao chegar, em plena madrugada da quinta-feira, não tive tempo, até a madrugada da sexta-feira, para escrever o artigo. Confesso que ainda tentei, no começo da madrugada da sexta-feira, depois de retornar de Propriá, onde fui abraçar o estimado amigo e companheiro cenecista, Dom Mário Rino Sivieri, na celebração dos seus 75 anos de idade e dos 20 anos de ordenação episcopal. Com o notebook no colo, na cama, fui vencido pelo sono. Não deu. Não escrevi. 
 
Frei Antônio, que é meu leitor assíduo, ficou sem a sua leitura preferida, como ele o diz sempre. Sou infinitamente grato a ele e a quem mais tem coragem de ler o que eu escrevo. 
 
Aguardemos o próximo fim de semana. 
 
Por oportuno, o Brasil precisa ver-se livre de todos os seus malfeitores, de todos os corruptos e corruptores, especialmente de todos que recebem os votos do povo, para servi-lo, mas enveredam pelos descaminhos da vida pública, desmerecendo a confiança que lhes foi creditada. Espoliadores dos cofres públicos. Bandidos. Ladrões. 
Que todos eles, de todos os partidos e de todas as empresas velhacas, sejam rigorosamente punidos. Que toda essa laia suja não suje ainda mais o nosso país. O Brasil não os merece. Nós, brasileiros, precisamos nos ver livres de todos eles, sem exceção. Que essa corja daninha e miserável seja para sempre banida da vida pública brasileira. 
 
Boa semana. Que a bênção de Deus recaia sobre todos. 
 
 José Lima Santana


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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