17/09
07:27

Advocacia algemada e dois outros casos

José Lima Santana
Professor da UFS

Segunda-feira, dia 10 deste mês. Fórum de Duque de Caxias (RJ), cidade que eu conheci em 1989, e onde, por sinal, ainda reside o meu afilhado Victor Vilar Gomes, filho do meu compadre Beto (in memoriam) e de minha comadre Lídia. 

Uma advogada inconformada com uma situação sobre a qual a juíza leiga do 3º JEC tinha entendimento diverso e, provavelmente, equivocado. No mínimo. Logo depois, a advogada seria algemada por policiais militares acionados pela juíza. Qual o crime cometido pela advogada, para ser algemada? Ora, ela cometeu o “crime” de ser altiva, de lutar pelo direito da sua constituinte, de não se sujeitar a uma decisão errônea da juíza, no que era direito seu. A juíza leiga (e, claro, nada contra os juízes leigos, que atuam nos Juizados Especiais e, que, via de regra, prestam bons serviços, na forma da lei) foi intolerante. Não agiu com razoabilidade, com prudência. Acabou, assim, causando um problema sério, um desatino, que ganhou as redes sociais, a imprensa, e deixou indignada, como não poderia deixar de ser, a classe advocatícia de todo o Brasil. 

A advogada, após não se ter obtido êxito na proposta de conciliação, pediu para acessar e impugnar pontos da contestação da ré, mas foi informada de que a audiência já havia sido encerrada.A juíza leiga teria solicitado que a advogada aguardasse fora da sala, mas, como ela insistiu em permanecer até a chegada de um representante da OAB, como é de praxe, a polícia foi então chamada para forçá-la a se retirar. Ela insistiu na presença do representante da OAB, para aquele procedimento. Ela tinha um mandato procuratório e por ele deveria zelar. Um (a) advogado (a) que se preza age assim mesmo. A ação era de danos morais contra uma empresa de telefonia. A advogada defendia uma cliente da tal empresa. 

Valéria Lúcia dos Santos é o nome da advogada ultrajada. Em entrevista prestada depois, ela disse que é mulher, negra, e que precisa trabalhar. Bravo! Bravo!

O estatuto da advocacia – Lei nº 8.906/1994, determina, no art. 2º, § 3º, que, “no exercício da profissão, o advogado é inviolável por seus atos e manifestações”. 

Diversas entidades que congregam advogados e, particularmente, advogadas, emitiram notas de repúdio. Uma enxurrada delas. Oportuníssimas. 

Depois de o porta-voz do TJ do Rio de Janeiro ter tentado “botar panos quentes”, em torno do episódio reprovável e vergonhoso, enfim, o Juiz Titular do 3º JEC houve por bem de emitir o seguinte despacho no processo: “Tendo em vista o ocorrido na audiência do dia 10 de setembro e resguardar o direito da parte autora, torno sem efeito a assentada, redesignoaij[audiência de instrução e julgamento] para o dia 18/09/2018 às 11:00 a ser presidida pelo juiz togado. Intimem-se as partes. Duque de Caxias, 11/09/2018. Luiz Alfredo Carvalho Junior - Juiz Titular”. Bravo!!

O feito foi chamado à ordem. Que a advocacia nunca mais seja algemada. Sim, porque não somente a advogada foi algemada. Foi a própria advocacia, em tese. Um absurdo! Afinal, a advocacia é a defesa do exercício livre de todos os direitos das pessoas, consubstanciados no ordenamento jurídico. 

Diante do ocorrido, a OAB/RJ realizará, na próxima segunda-feira, 17, às 15h, um ato de desagravo à advogada. Eis a convocação:“A Diretoria da OAB/RJ convoca toda a advocacia fluminense para ato de desagravo, que acontecerá na porta do juizado de Duque de Caxias e contará com a presença do presidente do Conselho Federal da OAB, Claudio Lamachia”. O presidente da Seccional fluminense, Felipe Santa Cruz, afirmou: “Sabemos que toda advocacia foi aviltada e algemada juntamente com a nossa colega. Sofremos juntos e juntos diremos NÃO”. Bravo!!!

******

Em Redmond, no Oregon, EUA, uma cadela da raça labrador salvou Joshua Horner de cumprir a pena de 50 anos de prisão, acusado de abusar sexualmente de uma menor de idade. Ele foi condenado em abril do ano passado. Durante o julgamento, a suposta vítima alegou que ele havia ameaçado atirar em seus animais se ela contasse o caso à polícia, e afirmou que viu o homem atirar em sua cadela e matá-la como forma de intimidação.Seis meses depois da condenação, o americano pediu ajuda ao Oregon Innocence Project, que contou com a ajuda do promotor do condado de Deschutes, John Hummel. Horner insistiu que nunca atirou no cão e que encontrar o animal provaria que a acusadora havia mentido sob juramento.As buscas foram feitas e as informações eram de que a labradora teria sido entregue à doação. O grupo tentou encontrar o novo dono do animal, mas não teve sucesso. Até que Lucy, a cadela, foi localizada na cidade de Gearhart, em Portland.

A descoberta da labradora indicou que a acusadora de fato havia mentido ao testemunhar, segundo o procurador distrital. O juiz do condado de Deschutes, Michael Adler, decidiu então anular o caso.Depois que Lucy foi encontrada, a acusadora faltou a um encontro em agosto para discutir seu testemunho. Na última quarta-feira, um dos investigadores soube que ela estava em uma casa perto de Redmond. Quando ele encostou o carro na entrada da garagem, para a contatar, ela saiu correndo. O caso foi encerrado e Joshua Horner declarado livre. Bravo!!!!

******

Uma mulher foi estupidamente esmagada por um carro na avenida São João, no centro da capital paulista. Morte instantânea. O seu nome era Iracema. O chofer não teve culpa. O amado de Iracema fez uma música em sua homenagem, cuja letra diz assim:“Iracema, eu nunca mais que te vi / Iracema meu grande amor foi embora / Chorei, eu chorei de dor porque / Iracema, meu grande amor foi você // Iracema, eu sempre dizia / Cuidado ao travessar essas ruas // Eu falava, mas você não me escutava não / Iracema você travessou contramão // E hoje ela vive lá no céu / E ela vive bem juntinho de nosso Senhor / De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos / Iracema, eu perdi o seu retrato”.

Ora, isso é a simplicidade da belíssima música “Iracema”, composição de Adoniran Barbosa, gravada pelo conjunto “Demônios da Garoa”, em 1956, e pelo próprio compositor, sendo a última gravação por Adoniran datada de 1974, pela Odeon. Adoniran, o maior sambista da terra da garoa, tinha um modo peculiar de compor. Suas composições são crônicas que retratam a alma da “inocente” marginália paulistana. 

Adoniran era filho de Francesco Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos da localidade de Cavárzere, província de Veneza. Nasceu a 6 de agosto de 1910, em Valinhos (SP) e faleceu a 23 de novembro de 1982, na capital paulista, aos 72 anos. Quem poderá esquecer de “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” etc.? Bravíssimo!!!!!
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
09/09
19:06

"O Papa Francisco não é digno da cadeira de Pedro"

José Lima Santana
Professor da UFS

“O Papa Francisco não é digno da cadeira de Pedro”. Eu ouvi esta frase idiota de uma pessoa, um dia após um arcebispo italiano, que atuou no corpo diplomático do Vaticano, ter divulgado uma carta à imprensa na qual acusa o Papa Francisco de ter acobertado um cardeal norte-americano, acusado de pedofilia. Na carta, inclusive, o prelado italiano pede a renúncia do Papa à cadeira de Pedro. O caso do cardeal é notório, mas, a acusação contra Francisco carece de provas. O italiano não apresentou nenhuma. Aliás, recuso-me, neste artigo, a citar o nome deste infeliz denunciante. 

As tormentas que Jesus Cristo enfrentou, enquanto esteve neste mundo, Francisco as enfrenta agora, guardadas as devidas proporções. Porém, Francisco não é o único Papa a ser contestado dentro da própria Igreja. Outros também o foram, mais ou menos. Com Francisco a situação de contrariedade por uma parte do “alto clero”, mas, também, no “baixo clero”, é gritante. Por que será? Por ele ser jesuíta (o primeiro Papa inaciano), por ser cá do fim do mundo, como ele mesmo o disse, quando de sua primeira fala ao povo, como Sumo Pontífice, por ser, então, latino-americano, isto é, do terceiro mundo desprezado pelos purpurados do hemisfério norte, especialmente da Europa, branca, rica, dita civilizada, mas, que, arrastou o mundo para duas grandes guerras, além de, como continente predador, colonizou o resto do mundo, explorando-o o quanto pôde e matando milhões de nativos, na América, na África, na Ásia e na Oceania? 

Francisco não agrada pela sua simplicidade, vista pelo clero conservador e ultraconservador como liberal demais para estar onde o colocaram? Por que, então, o elegeram, dentre dezenas de cardeais? Estes que o acusam disso ou daquilo não crêem na assistência do Santo Espírito, quando da eleição papal? Estariam contestando um ensinamento da Igreja? Foi no que deu eleger um cardeal que cozinhava a própria comida, que não viajava na primeira classe dos aviões de carreira, que andava com uma pasta surrada, que dispensou os sapatos vermelhos, o palácio pontifício, o carrão de luxo, que tem se preocupado com os pobres de Roma e do mundo. Um Papa desse não serve aos “bem nascidos”, que esqueceram que o Filho de Deus nasceu numa manjedoura e não fazem de seus corações novas manjedouras para acolher, no dia a dia, o mesmo Menino, que veio a nós como Luz para vencer as trevas, e que se encarna nos irmãos e nas irmãs que mais sofrem. Estes clérigos (ou leigos, quando é o caso) malfadados vivem nas trevas das suas mesquinharias, do seu desamor, do seu espírito de porco. Que Deus na sua infinita misericórdia tenha pena de suas almas, quando chegar a hora de cada um deles. 

O arcebispo italiano deveria ter apresentado provas de que Francisco acobertou o celerado cardeal pedófilo. Ele não as deve ter. Não as tem, com certeza. E por que, então, fez o que fez? Estará agindo a soldo de alguém, de algum grupo dentre os contestadores de Francisco? Sendo um serviçal de última categoria daqueles que o usaram, porque ainda mantêm-se em cargos eclesiásticos no Vaticano ou fora dele? Dá nojo só de pensar nessa gentalha, que se acoberta no manto da Igreja para engendrar as suas maléficas elocubrações. Estejam onde estiverem. 

É evidente que uma pessoa não agrade a todas as outras. E não se poderia querer que fosse diferente. Há quem não goste de Francisco, como há quem não gostava de Bento XVI, de João Paulo II, de Paulo VI, de João XXIII, de Pio II etc.  Até de João Paulo I, que viveu tão pouco como Papa. Ora pode-se não gostar do estilo do Papa, ora da sua doutrina etc. Isso é mais do que natural. Agora, chegar-se ao ponto de dizer besteiras e maldades contra o sucessor de Pedro, é um desatino. Mentes medíocres, maléficas, ancoradas no passadismo, tradicionalistas ao extremo, que, sendo consideradas as devidas distâncias, formariam, se fosse o caso, no grupo de apóstolos que, centrados em Israel, após a ressurreição do Cristo, entendiam que Ele veio apenas para salvar os judeus, daí o atrito com Paulo, que entendeu corretamente que Jesus veio para todos. Francisco é um homem de todos, embora, também corretamente, volta-se para os que estão à margem das benesses da vida, que sejam de ordem espiritual, que sejam de ordem material. A Igreja é porta de entrada para todos. E por ser porta de entrada, não pode nem deve fechar-se em suas quatro paredes. Ela precisa seguir o caminho do Salvador, que saiu pelo mundo, anunciando o Reino e a sua Boa Nova. 

Dizem alguns que Francisco é, teologicamente, frágil. Meu Deus! Francisco é um jesuíta. Os inacianos não são frágeis em teologia. Não são. E Francisco não o é. Ele pode até, na ânsia de ver a Igreja em saída, querer antecipar ou mudar situações incômodas para alguns. É um Papa com os pés no chão, que deve muito bem ter assimilado esta frase de Jesus Cristo: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20; Lc 9,58). Muitos, contudo, não assimilaram. Com certeza. Por isso, dizem e fazem muitas besteiras e maldades. 

Francisco é o homem certo, neste momento tão crucial da nossa querida Igreja. Ele é mais do que digno, sim, de ocupar a cadeira de Pedro. Que Deus o abençoe e o livre das serpentes e dos escorpiões. 
 


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
02/09
08:27

A Corrida Eleitoral e os Cantos das Sereias

José Lima Santana
Professor da UFS

Começou a corrida. Lembro-me da acadêmica Maria Thetis Nunes, que, quando havia uma vaga na Academia Sergipana de Letras, muitas vezes os postulantes empreendiam uma espécie de corrida, antes mesmo que o corpo do acadêmico falecido baixasse à terra mãe, no que ela chamava de “corrida de cavalos”. Deveras, para ser suave no uso da palavra, tal situação era, e ainda é, uma tristeza! Todavia, a corrida, agora, é pela presidência da República e pelas governadorias, além dos cargos para os Parlamentos federal, distrital e estaduais. Um rolo! Um rolo, que se desenrola a cada quatro anos e, ao que parece, fica cada vez mais difícil para o povo desenrolar. 

O que será de nós, eleitores, nas eleições que estão às portas, especialmente no plano federal? Ou, quem sabe, o que é que nós queremos e o que é que nós haveremos de fazer nas urnas? As opções que temos são as melhores? Em quaisquer eleições, pode haver bons e maus candidatos. É normal que assim o seja. Ou deveria ser. Não vou citar nomes, até para não comprometer o Jornal da Cidade, que me serve o espaço nos fins de semana. Os nomes de maior relevância nas pesquisas eleitorais atendem realmente aos interesses da Nação? Não falo em interesses de grupos, sejam dos “coxinhas”, dos “mortadelas”, ou, seja lá de quem for. E, nessas eleições, há grupos ou defensores de certos candidatos que são de arrepiar. E botem-se arrepios nisso! 

O país está fragilizado politicamente. E moralmente. Cenário perfeito para os chamados “salvadores da pátria”. Nesse caso, pátria com “p” minúsculo mesmo. Esfacelaram o país. E o povo, ou parte dele, vai a reboque de quem quer que seja, e que se apresente com uma mensagem que satisfaça a necessidade de ouvir-se o “canto da sereia”. E as sereias, desde os tempos de Homero, sempre cantam canções tenebrosas, mas que cativam os “marujos” que se entregam de corpo e alma a tais cantos, até afundarem nos seus abismos. Coisa medonha!

A “direita” e a “esquerda” (se é que elas ainda existem, ao menos com a formação do passado) apresentam as suas sereias. Sereias velhas e novas. Sereias que já causaram malefícios. Sereias que tendem a também causar. Estaremos num beco sem saída? É difícil dizer. Ou, talvez, nem o seja, olhando bem o que temos diante dos olhos. Parece que há uma escuridão a caminho. E ela tanto pode vir da “direita”, quanto da “esquerda”. Luz no fim do túnel? Impossível! Nós não estamos nem no meio do túnel, quanto mais no fim. 

As margens já não mais plácidas do Ipiranga precisam ouvir o som de um novo brado. Um brado ritmado, pois nos fizeram perder o ritmo. O povo continua heróico, mas, cada vez mais sofrido, enganado, ludibriado por todos os lados. 

Os fúlgidos (até nisso nos colocam dificuldades, pois melhor teria sido dizer “brilhantes”) raios de sol da liberdade não brilham, pois não brilham a cidadania e a dignidade da pessoa humana, ambas sempre desrespeitadas por quem as deveria respeitar. 

O penhor da igualdade... Num país em que cresce a pobreza, a igualdade está restrita aos que se igualam pelos atos de corrupção ativa ou passiva. Uma nojeira! 
Sim, a morte nos desafia. Que o digam os pacientes do sistema público de saúde, que o digam as famílias dos mais de 50.000 que anualmente padecem de morte violenta. 

Pátria (esta, sim, com “P” maiúsculo) amada, idolatrada (muitos já não a amam nem a idolatram), o que será de ti, diante de tantas sacanagens que contra os teus filhos são praticadas? 

Não, não devemos perder o sonho intenso. Nem devemos deixar fugir de nós o raio vívido. Que o amor e a esperança, um dia, possam vir por nossas mãos, por nossas vontades, por nossas inteligências. 

Que o nosso céu não seja de tormentas. Que ele nos possa sorrir de verdade com a limpidez com que miramos a imagem resplandecente do Cruzeiro do Sul, nas noites estreladas. 

O gigante não deve ter a aparência de um nanico diante das outras nações. Precisa tornar-se, de fato, belo e forte, como um Colosso impávido. Que a grandeza há tanto esperada possa desdobrar-se agora. Não podemos mais esperar o futuro. Chega de espera! 

Que a mãe gentil seja mesmo adorada entre todos os milhares de mães e por todos os seus filhos que não comungam com as vilanias de alguns dos “filhos” de mau caráter. 

Não mais deitado eternamente em berço esplêndido. Que busque inspiração no som do mar e na luz do céu profundo, para, deveras, fulgurar em toda a América, como o mais belo dos florões iluminado pelo sol das terras que, desde Colombo, ficaram conhecidas como terras do Novo Mundo. 

Que a nossa terra seja, sim, mais garrida. Adornada pela ética, em todos os seus espaços. Que floresçam nos campos e nas cidades as flores da inclusão e do respeito, banindo-se os preconceitos e as discriminações. Que sejam preservadas nos bosques e em quaisquer lugares todas as formas de vida, desde as entranhas. Que o amor fraterno e a solidariedade nos encham a vida. 

Que o seu rastro inapagável deixe em nós o amor eterno e o amor pelo Eterno. Que tremule, cobrindo-nos a todos, o lábaro estrelado, essa Bandeira tão bela, nas cores verde, amarela, azul e branca. O passado, o presente e o futuro entrelacem-se para que possamos resgatar as nossas glórias e firmar a paz que todos almejamos.
 
Que a clava forte da Justiça caía sobre aqueles que nos devem, porque de nós eles muito roubaram. É claro que não fugiremos à luta de dar ao Brasil o destino que, desde 1822, o nosso povo almeja. Um dia, haveremos de chegar lá. Afinal, nós adoramos o nosso país e, por ele, e por nós mesmos, não tememos a morte, como não deveremos temer “matar” nas urnas os funestos cantos das sereias. Das novas e das velhas. 

O que nos restará sem os cantos das sereias? Qualquer canto, que não sirva para nos ludibriar. Esse existe? Bem. O mundo gira. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/08
20:18

Redemoinhos

José Lima Santana
Professor da UFS

As ruas da cidade foram varridas por um redemoinho, que se formou no Beco do Fedor e saiu rodopiando pelas ruas e pelas duas pracinhas da cidade, que mais parecia um povoado dos confins do sertão. Cidade pobre e de gente paupérrima. Nela, o prefeito, aliás, o primeiro prefeito, pois se tratava de uma cidade nova, recentemente constituído o município, desmembrado de Baixão dos Negros, por obra e graça (ou desgraça?) da política tupiniquim. À cidade, o prefeito comparecia quando as verbas federais chegavam ao Banco do Brasil da cidade vizinha, ou seja, Baixão dos Negros. 

O coronel Neneca Teles de Biaxão dos Negros mandara na política local por mais de trinta anos, elegendo-se e elegendo seus prepostos, intercalados entre dois dos seus mandatos por muitas vezes repetidos. Perdera, porém, a eleição de 1962. Para prestigiá-lo, o governador do estado, que era do mesmo partido de Neneca, aprovara na Assembleia Legislativa a constituição do município de Alvorada. Pobre município! A sede municipal de Alvorada era um povoado paupérrimo. Uma coisa à toa. Na verdade, não era nada mais do que um arruado que se perdia entre cinco becos e dois arremedos de praças. Somente num país sem jeito poderia ser criado um município como Alvorada. Um desastre!

Naquela manhã, o redemoinho que se formou do nada, como sói acontecer com todo e qualquer redemoinho. No Beco do Fedor, onde o bicho nasceu, Dona Cristina de Zequinha Martelo persignou-se. Para ela, e para muita gente, o diabo estava encravado nos redemoinhos, para fazer estripulias. Roupas que quaravam nas cercas de arame farpado ou nas cercas de pau-a-pique foram arremessadas no ar e tangidas para certa distância. Mulheres que estavam por onde o redemoinho passava, seguravam as saias e vestidos. O diabo gostava de deixá-las em situação vexatória. 

Na Rua Coronel Neneca Teles, que era, na verdade, o principal Beco da nova e precária cidade, Tililico de Maria Gorda praguejou com o redemoinho: “Ô diabo do inferno, se soverta nas profundas, satanás de chifre e rabo”! Ao dizer isso, Tililico foi sugado pelo redemoinho e elevado à altura de uns dez metros. Quem viu o pobre ser arrastado, assegurou que o viu espetado pelo diabo com um tridente de fogo. Dele, ninguém mais teria notícias. 

Dona Maria Gorda tinha em Tililico o seu único filho. Viúva, entrevada, dependia do filho para o seu sustento. Tililico era empregado da Fazenda São Francisco. Vaqueiro e tirador de leite. Ganhava uma mixaria, mas era como se sustentava e sustentava a mãe entrevada. 

O prefeito da cidadezinha perdida nos cafundós de Judas era Rodolfo Teles, filho do coronel Neneca. Ao tomar conhecimento do ocorrido com Tililico, o prefeito apresentou-se na casa de Dona Maria Gorda. Prometeu à pobre mulher que mandaria um grupo de pessoas procurar o sumido. Mandaria o padre Gregório Alencar de Baixão dos Negros celebrar dez missas, se preciso fosse. Mandaria buscar no Morro do Cotovelo o afamado xangozeiro Pai Paulinho do Bamburi, que era vezeiro em desmanchar artes do zambeta. O que fosse necessário para trazer Tililico de volta, o prefeito haveria de fazer. Políticos...! O que eles, ou muitos deles, não eram capazes de fazer, para enganar o povo! 

Rodolfo Teles deixou o dito pelo não dito, como era de se esperar. Afinal, promessas de muitos políticos não eram para ser levadas a sério. 
Coitado do Tililico. Passaram-se as horas. Passou-se um dia. Passaram-se alguns dias. Nada. Nenhuma notícia de Tililico. Boatos, porém, eram muitos. Houve quem dissesse que ele estava espetado no para-raios da igreja do Bonfim, na cidade de Rancho Alegre, quinze léguas distante de Alvorada. Outros diziam que ele fora arrebatado para os confins do inferno por ter matado um indefeso gatinho, quando era menino, para se vingar da dona do bichano, Dona Eulália do finado Zenóbio Pé de Pato, que fizera Dona Maria Gorda dar-lhe uma surra desgraçada por causa de umas mangas que ele surrupiara da mangueira espada do quintal da mulher de Pé de Pato. E muitos outros boatos rolaram. Nada de concreto, porém.

Um ano. Dois, três, quatro, cinco anos se passaram. Nada de Tililico. Dona Maria Gorda foi-se entrevando cada vez mais, desde que Tililico fora carregado pelo redemoinho. Dela cuidava a caridade dos vizinhos, especialmente Margarida de Tina Fuxico, benemérita senhorita que zelava pela igrejinha da jovem cidade. 

Manhã de março. Fim de verão. Os primeiros ventos do outono começavam a levantar poeira. Era o prenúncio do inverno que costumava se antecipar, invadindo o outono. Nos trópicos, as estações do ano seguiam o seu próprio curso. A cidade sonolenta parecia cada vez mais com sono. Uma leseira dominava a cidade naquela manhã. De chofre, um redemoinho veio vindo da estrada das Bananeiras, principal entrada da cidade. Era quase um pequeno tufão. Portas e janelas foram cerradas. Ninguém se atreveu a enfrentar o redemoinho. Todos se lembravam de Tililico. O diabo voltava a Alvorada. 

Em frente à igrejinha zelada pela senhorita Margarida de Tina Fuxico, o redemoinho despejou um fardo e seguiu viagem. As pessoas foram saindo de suas casas. A senhorita Margarida, benemérita e fina flor da cidadezinha, abriu a porta da igrejinha dedicada a Nossa Senhora do Desterro. Ela foi a primeira pessoa a ver e a reconhecer o fardo despejado pelo redemoinho. Era ninguém mais do que Tililico. Um milagre! E ele estava em perfeitas condições físicas. Todavia, parecia um tanto quanto envelhecido. Cabelos grisalhos, barba grande, quase batendo no peito. Sim, só podia mesmo ser um milagre. Deus tinha atendido as preces de Dona Maria Gorda, que durante todo aquele tempo não se cansou de desfiar o terço, dia e noite. 

Aos poucos, as pessoas foram se chegando para junto de Tililico. Logo, um cortejo se formou até a casa de Dona Maria Gorda. A pobre senhora entrevada abraçou o filho, aos prantos. “Nossa Senhora ouviu as minhas preces, meu filho. Ela ouviu”, disse a mãe de Tililico, entre lágrimas. A cidade inteira entrou em rebuliço. Todo mundo, que não era tanta gente assim, acorreu à casa de Dona Maria Gorda. Afinal, tratava-se de um milagre. O redemoinho soverteu no mundo, levando Tililico e o devolveu cinco anos depois. Só podia ser um milagre. 

Nem tudo, porém, estava consumado. Seguindo o seu caminho, com ou sem o diabo no seu meio, o redemoinho topou, na estrada do Boqueirão, com o prefeito Rodolfo Guedes, cujo Jeep estava com um pneu furado. O olho do redemoinho, quase tufão, pegou o prefeito de cheio e o carregou. Até hoje aguarda-se a volta do prefeito fazedor, mas não pagador de promessas. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/08
14:52

Arrumações políticas e futurologia

José Lima Santana
Professor da UFS

As candidaturas estão postas. Arrumações tão comuns entre os partidos políticos foram costuradas. Algumas costuras são péssimas para os eleitores e para o país. Forjam-se a partir de interesses individuais deste ou daquele político, ou partidários, mas, jamais se levando em conta os interesses da nação. Coligações nem sempre são coligações na essência da palavra. Afinal, etimologicamente, o que vem a ser coligação? Vejamos. Coligação significa o “ato ou efeito de coligar; união, ligação; associação, liga ou aliança de várias entidades ou pessoas para um fim comum”.

Muito bem. Aliança para um fim comum. Porém, nem sempre para o bem comum. Na vida político-partidária as coligações têm em vista facilitar o alcance do poder. Todos os políticos e todas as agremiações políticas objetivam alcançar o poder. Alcançado o poder, todos têm em mente lutar pelo bem comum? Ora, o que é o bem comum? Ensinou-nos o mestre Miguel Reale, o pai, e não o filho, que o bem comum é a composição harmônica do bem de cada um com o bem de todos. Será que é isto mesmo que os políticos e os seus partidos levam em consideração? Seria muito bom que assim fosse. 

É inegável que no meio do turbilhão da política, alguns políticos trabalhem para o bem do povo, para o engrandecimento do seu município, do seu estado e da nação. Repito o que disse no artigo da semana passada: estes são poucos, mas eles existem. E se não existissem, seria o caos definitivo na vida pública. 

Entretanto, há políticos em todos os escalões que esbravejam, que arrotam laivos de honestidade, de trabalho em prol do povo, mas, tão somente, da boca para fora. Quantas vezes eu vi e ouvi isso. Quantos eu conheci ao longo dos meus 45 anos de vida profissional! Na minha cidade, no meu estado e no país. Acredito que todos os leitores e todas as leitoras conhecem políticos desse tipo. São os piores. Os travestidos de “santos”. São horríveis. Conseguem posar de bons moços e de boas moças. Derrapam feio. Fazem dos eleitores, ou de muitos deles, massa de manobra. Descaradamente, compram votos, e, às vezes, sob o argumento de que os outros também compram. Quando não o fazem diretamente junto aos eleitores, fazem-no junto aos chamados cabos eleitorais. Se eles compram os votos, cometendo crime eleitoral, fazendo uso do abuso do poder econômico, não se sentem no dever de assumir compromissos em favor do bem estar da coletividade. Compraram, pagaram, tchau e bênção, como se diz no vulgo. Uma vergonha. 

O país necessita ser reerguido. Não dá mais para suportar os desacertos morais, econômicos, sociais e políticos, sendo que estes últimos têm, em grande parte, causado os demais. Já passou da hora de pegarmos a vassoura para fazer uma exaustiva faxina na política. No mínimo, para reduzir o quadro dos maus políticos, dos maus administradores públicos, eleitos ou nomeados, dos devastadores dos recursos públicos, encastelados no Legislativo e no Executivo. 

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, que se dizia que havia um bloco político essencialmente ético no país, que se erguia contra o bloco antiético. Hoje, sabe-se que não há, se é que realmente houve, esse bloco político ético. Todos os blocos caíram na vala comum. Ainda é possível que se salvem algumas pessoas nos diversos blocos, ou partidos políticos. Pessoas individualmente consideradas. Todavia, blocos ou partidos, na sua inteireza, não. 

As pessoas e entidades da sociedade civil organizada precisam estar atentas ao desenrolar do processo eleitoral. As enganações estarão à vista. Será preciso considerá-las, analisá-las, para, enfim, combatê-las.

O que acontecerá com O Brasil e com os brasileiros a partir de janeiro de 2019? Algum leitor ou alguma leitora arrisca-se a fazer um exercício de futurologia? Eu não me arrisco. Especialmente, diante da “bagaceira” que virá por aí, na campanha eleitoral. Federal e estadual. 

Uma coisa, porém, é certa: precisamos melhorar como pessoas, como sociedade civil organizada, como povo, como nação. Melhorar eticamente. Melhorar no processo de alta estima. Melhorar nas cobranças, ou seja, no controle social da administração pública. Sem tréguas. 

Como padre, eu tenho o dever de alertar os fiéis para a necessidade de votar em candidatos que defendem os valores cristãos, que se põem contra práticas e ideias que contradizem o Evangelho de Jesus Cristo.

Como advogado e professor de Direito, eu tenho o dever de não me calar diante das sem-vergonhices e das mentiras de muitos candidatos. Não induzo ninguém a votar nestes ou naqueles candidatos. Todavia, toco o sino, faço soar o alarme, alerto. Afinal, como diz minha mãe, eu não queimei a língua com papa quente (mistura de leite com farinha, ou seja, mingau de criança pobre). Fui alimentado tão somente com o leite materno até os seis meses de vida. Depois disso, com o mesmo leite e outros alimentos próprios para a idade. Se a língua não foi queimada, está firme. Não posso me calar. Não devo. Nem quero. 

O futuro do nosso estado e do nosso país está em nossas mãos, nas mãos de todos nós eleitores. Se não podemos fazer exercícios de futurologia, podemos ao menos fazer com que o nosso voto não sirva para ser causa de arrependimento. Escolher o que pensamos ser o melhor. Ou, no mínimo, o que provavelmente parece ser o menos ruim. É duro ter que dizer isso, mas é preciso dizer. O voto é um risco. Por isso, devemos ser ariscos na hora de votar. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
29/07
18:25

Eleições de 2018: O que será de nós?

José Lima Santana
Professor da UFS

Quem nos poderá defender dos bandidos travestidos de políticos? Esta pergunta foi-me feita por um aluno, na semana passada. E eu lhe respondi: Nós mesmos! 

Sim, não temos alternativa. O problema é que nós não temos sabido (ou querido) nos defender desses vermes que se apoderam dos mandatos eletivos, e, como representantes indignos do povo, ferindo a Constituição, as leis e a confiança dos eleitores, cometem os crimes mais absurdos, no que diz respeito a se locupletarem dos suados recursos públicos, que sem suor algum eles embolsam, dando bananas ao povo. Para eles, dar bananas já é muita coisa. Puxa!

Eu quero, desde logo, ressalvar os políticos que agem com dignidade no exercício de seus mandatos populares, nos dois Poderes, cujos cargos são ocupados por agentes públicos eleitos. Estes ainda existem. Podem não ser muitos, mas existem, sim. No meio do joio, há também algum trigo. Nem tudo é escuridão na vida política. Há alguns lampejos. Há luzes tremulando. Porém, precisamos de tochas, de muitas tochas acesas, que não se deixem apagar. 

A situação política do país é muito séria. Muito grave. Para onde possamos olhar, há sinais de perigo. Eles estão aí. São um magote, os bandidos que se dizem políticos. Uma boiada imensa. Ou melhor, uma matilha. Lobos vorazes. E eles se abrigam em quase todos os partidos, sobretudo nos partidos ditos maiores, de mais fôlego, de maior capilaridade. Estes partidos acabaram sendo espécies de tocas gigantes, que dão guarida aos lobos. Na direita e na esquerda. Eles contaminaram tudo, ou quase tudo. 

Malas cheias de dinheiro em mãos ou em apartamentos. Dólares nas cuecas são míseras moedas diante de contas multimilionárias descobertas nos paraísos fiscais. Joias adquiridas nas melhores joalherias pagas por empresas de bandidos que servem aos outros bandidos encastelados no poder. Dizem até que apartamentos e sítios foram sub-repticiamente recebidos como propina. Uns afirmam que disso há provas cabais. Outros contestam veementemente tais provas. Na verdade, o que não deve haver mesmo são muitos inocentes no meio de tantas estripulias. Mas, haveremos de ver, ao se tirar a prova dos nove, nos últimos escalões do Judiciário.

E por falar em Judiciário, nem sempre poderemos esperar muita coisa deste Poder. Não do jeito que as coisas têm andado nas bandas de lá, especialmente de lá de cima, bem de cima. 

Eleições presidenciais. Em quem votaremos? Que opções confiáveis nós temos para escolher? Lembro-me de um amigo de Nossa Senhora das Dores, já falecido, que numa das eleições municipais, alguém lhe perguntou: “Em quem você vai votar, barbeirinho”? E ele respondeu sem pestanejar: “Homem, eu estou em cima do muro. Olho para um lado e vejo pregos. Olho para o outro e vejo cacos de vidro. Nessa situação, eu sou doido para sair do muro”? Pois é. Quais as opções que nós temos, à direita, ao centro e à esquerda? Opções confiáveis ou, no mínimo, que não nos assustem tanto assim? 

Vamos aguardar o horário eleitoral? As mídias sociais? Os candidatos haverão de se “desnudarem” diante dos eleitores, ou seja, de nós pobres cordeiros que seremos cortejados pelos lobos? Ora, ora, nós não somos um bando de “chapeuzinhos vermelhos”. Não somos mesmo. Temos o dever cívico de não sermos. Porém, conseguiremos não o ser? Ou, mais uma vez, cairemos nas armadilhas que não queremos ver? 

Quem nos salvará? Um exército medieval não nos salvará. Uma corte angelical não nos salvará. E quanto a nós, queremos de verdade nos salvar?
Direita. Volver! Que desastre...! Esquerda. Vou ver! Que dilema...! Não estamos num beco sem saída? Oxalá não estejamos. Há que nos restar uma luzinha no fim do túnel. Ou este túnel não tem fim, ao menos tão cedo? O que poderemos esperar?

Ah, e ainda teremos que pagar a conta! Financiamento público para os lobos nos engolirem. Nós pagaremos para ser enganados. Para ser pisados. Para ser zombados. Para nos fazer de trouxas. Para... para... para... 

Chega! Basta! Precisamos acertar o passo. Tem que haver uma saída. Ou estamos encurralados? Matilhas adoram encurralar suas presas. Contudo, nós não deveremos nos deixar encurralar. Precisamos ter pernas ágeis como as de cabritos, para pular sobre as armadilhas e para escapar dos cercos. 

Uma coisa é certa: não deveremos deixar de votar. Deveremos fazer escolhas. Com o coração na mão, mas deveremos votar. Não em branco. Não nulo. Nem nos abster. 

Sobre os espertalhões da política, esta frase do Padre Antônio Vieira: “Aquele a quem convém mais do que é lícito, sempre quer mais do que convém”. Eles mergulham na ilicitude e, então, não conhecem a medida de encher. Enchem cada vez mais os bolsos que parecem não ter fundos. Roubam. Descaradamente, roubam. 

Está na hora de dar ouvidos a Eça de Queirós: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

Eleições de 2018. O que será de nós? 

Post Scriptum: A nós líderes religiosos cristãos, cabe-nos anunciar os ensinamentos de Jesus Cristo. Quem anuncia, denuncia. E como disse o célebre reitor da Universidade de Salamanca, Miguel de Unamuno, “Há momentos em que calar é mentir”.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/07
12:00

Minha decepção com um certo Juiz de Direito

José Lima Santana
Professor da UFS

Houve um tempo em que tudo era assim. Como? Vejamos. O Dr. JonalterVieira Andrade era Juiz de Direito da Comarca de Nossa Senhora das Dores. O Promotor de Justiça erao Dr. José Arquibaldo Mendonça de Araújo, que faleceu, aos 42 anos de idade, enquanto exercia o múnus público naquela Comarca, tendo, por conseguinte, virado nome de uma das artérias da cidade, nos meados da década de 1970. No começo, o Juiz e o Promotor chegavam de ônibus, o famoso “buzú”. Aliás, isso era comum. Que o diga o Desembargador aposentado Cláudio DinartDéda Chagas, quando jurisdicionava em Gararu, no começo da década de 1980, onde eu, advogado iniciante na profissão, o conheci.Ele mesmo datilografava numa máquina de escrever mais velha do que a gente. Em Dores, o Juiz e o Promotor hospedavam-se na Pensão Comercial, de Carmelita de Delson, na Praça Mal. Deodoro da Fonseca. Enturmavam-se com as pessoasda cidade. Não me consta que favoreceram ninguém. Não sei de alguém que os desrespeitou como autoridades que eram.

Aliás, eu devo um pouco da decisão que tomei em querer ser advogado, à sugestão de Jonalter e Arquibaldo. Em 1970, quando eu cursava o 4º ano do curso ginasial, o 9º ano do ensino fundamental II de hoje, realizou-se um júri simulado no Colégio Cenecista Regional Francisco Porto, para julgar um personagem da História Geral: Napoleão Bonaparte. Eu funcionei como representante do Ministério Público. Fiz uma acusação “arrojada”, como eles me disseram. O Juiz e o Promotor foram convidados pelo diretor do Colégio, Pe. José Araújo Santos. Compareceram e assistiram a todo o embate. Venci o júri. Os dois, então, chamaram-me e disseram que eu era um advogado nato. Orientaram-me que fizesse Direito. Eu já tinha uma inclinação para o Direito, em face de um debate que tinha ouvido da rua, em frente à Prefeitura Municipal, onde funcionava o Fórum, no andar de cima (prédio que, infelizmente, foi demolido na década de 1980, e que era uma construção do fim do século XIX). Era um júri no qual funcionou como advogado de defesa José GiltonPinto Garcia. Mas, eu tinha outra paixão: História. Direito e História dividiam-me. Até aquele momento do júri simulado e da conversa que Jonalter e Arquibaldo tiveram comigo. Aos 15 anos, então, firmei-me no Direito.

Tudo era muito simples. Todavia, ao mesmo tempo, tudo era muito cordato. Juízes e Promotores, embora próximos de muitas pessoas nas sedes das Comarcas, mantinham uma autoridade inabalável. Prova disso foi o anúncio à boca graúda quando o Dr. José Nolasco de Carvalho estava para ser transferido da Comarca de Nossa Senhora da Glória para a de Nossa Senhora das Dores. Os comentários davam conta de que ele não tolerava furnas de jogatina, não permitia que menores de idade dirigissem nem frequentassem bares etc. Era duro em suas sentenças. Ele, dizia-se, teria feito uma limpeza em Glória. Lembro-me muito bem que as mulheres, dentre elas a minha mãe, ansiavam para que ele chegasse logo à Comarca. A fama o precedia. Era que o meu pai gostava de jogar baralho. Perdia e ganhava dinheiro. E mamãe queria ver se ele parava com o vício da jogatina. Embora ainda menino, eu também gostava de um carteado, de um bom pif-paf, que, em Dores, se chamava “cunca”. E nas festas de fim de ano, na bodega de Ednaldo, rolavam soltas as rifas, no carteado 31. Ainda tinha o 21 e o 9, corrido ou bancado. Muitas eram as furnas de jogatina existentes na cidade.

O novo Juiz de Direito era aguardado com ansiedade e com certo temor por algumas pessoas. O sujeito era brabo mesmo. Era o que se alardeava. Eu imaginava a figura do magistrado. Na minha inocente projeção, ele seria um homenzarrão, de voz de trovão, portando um bigodão parecido com um bocado de lagartas de fogo sobre o lábio superior e abaixo do nariz. Só a sua figura pura e simples deveria meter medo. Era o tipo do sujeito que a gente deveria guardar distância, passar ao largo, caso o visse na rua. Era exatamente assim que eu imaginava ser o Dr. Nolasco, tal a fama que dele fora espalhada. Jocosamente, algumas pessoas diziam que ele era tão brabo que até o seu nome começava com um “Nó” de Nolasco.

Entretanto, aí veio a decepção quando eu o vi. Eu e outros colegas do Colégio fomos à sua posse, todos com farda de gala. O Juiz que eu imaginava grandão era, porém, pequeno na estatura física, mas um gigante na estatura moral e judicante. Um dia, ele já desembargador, eu lhe disse da minha decepção. Ele riu à vontade. E sempre que me encontrava, ele dizia, sorrindo: “Eis o juiz que lhe decepcionou, Dr. Zé Lima”.

Nos últimos tempos, há juízes fazendo porcaria em todas as instâncias. É evidente que a maioria dos magistrados estaduais ou federais ainda mantêm “o passo certo”. Porém, há os que destoam. Que proferem decisões monocráticas ou votos de arrepiar, nos colegiados. Quebram princípios jurídicos consagrados. Pisam nas leis. Criam inseguranças jurídicas. Deixam atônitos os que lidam com o Direito. Arvoram-se em ser “juristas”, mas nem chegam a ser magistrados de verdade. Até na Corte Suprema há exemplos escabrosos. A Corte é Máxima, mas há ministros cuja qualidade jurídica das decisões é mínima.

Que saudade dos tempos em que os juízes e promotores pagavam de seus próprios bolsos as diárias dos quartos de pensões e viajavam de “buzú”!E, diga-se de passagem, não ganhavam tão bem assim.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/07
11:59

A vida como ela é

(Os setenta e sete anos do ex-governador João Alves Filho)

 

José Lima Santana - É padre, advogado e professor da UFS

 

Nem sempre sabemos por onde haveremos de ir ou o que poderemos encontrar ao longo da caminhada. Não temos à nossa disposição uma eficiente bola de cristal. Ainda bem. No último dia 3, uma filha postou no Facebook uma foto do pai e uma mensagem sobre o seu aniversário. Segundo a filha, o pai nem sabia que estava completando 77 anos de vida. Mas, neste momento, há de se perguntar: que modo de vida? Uma vida carcomida por uma grave enfermidade. A expressão de alheamento do fotografado com o olhar perdido é constrangedora. Especialmente para quem o conheceu de perto, para quem com ele conviveu por longo tempo, na vida privada ou pública.

As pessoas dizem que “a vida não é nada”. Ou seja, estamos sujeitos a qualquer situação, inclusive, claro, à morte. A qualquer tempo. A vida é, sim, um sopro. Pode se extinguir em um décimo de segundo. Pode se deteriorar lentamente, por curto ou longo= tempo. É por isso que a vida deve ser vivida intensamente enquanto dela pode-se dispor em toda a sua plenitude. Porém, nesse viver intensamente, a vida não deve ser desperdiçada. Deve ser palmilhada palmo a palmo, partilhada, momento a momento. Um dia, a pessoa pode estar nos píncaros da atividade laboral, nos solavancos da vida política, no estrelato da vida social, enfim, no auge da glória momentânea de que muita gente gosta. Tudo, todavia, se torna efêmero. A vida passa como as águas de um regato que se hão de perder na imensidão do mar. Sem que uma só gota das águas daquele regato possa ser distinguida depois que elas se entregam ao oceano. Águas absorvidas, diluídas, sem guardar a identidade de outrora. Assim mesmo é a vida.

Para quem não tem fé, a vida é uma marcha autônoma, que se há de findar quando o corpo deixar de ter movimento, por completo. Exauriu-se o corpo, adeus vida! Contudo, para quem tem fé, para quem almeja cruzar a linha do não vir a ser, para deveras continuar a ser, numa vida essencialmente espiritual, a vida ganha nova dimensão. Para os cristãos diretamente apegados aos ensinamentos dos quatro Evangelhos (católicos, protestantes, ortodoxos etc.) essa outra dimensão traduz-se na ressurreição. Para os espíritas e alguns diferentes segmentos religiosos orientais, é a reencarnação.

Mas, eu não me proponho, aqui, a dissertar sobre questões de fé. Eu tenho a minha, muito bem sedimentada no Evangelho de Jesus Cristo, e, por isso mesmo, inabalável, graças a Deus. O que quero levar à discussão é a constatação que fiz e que muitas pessoas fizeram com relação à foto do pai, que a filha expôs e ao seu comentário.

O gesto da filha não deixa de ter sido nobre ao falar do pai com o carinho demonstrado. Disse a filha, no seu texto postado no Facebook: “Confesso, para mim é muito difícil ver meu pai com os olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”. E mais: “Não é fácil para mim (sic) ver MEU PAI o maior homem da vida pública Aracajuana / Sergipana, com Alzheimer, sem se lembrar de coisas e fatos, como seu aniversário de casamento, de idade, pessoas e fatos históricos da sua biografia”.

De fato. Que doença terrível é essa do tal “doutor alemão”, como se costuma dizer no vulgo, o Alzheimer! Entretanto, toda doença incurável ou de difícil cura é horrenda. Aliás, basta ser doença para ser uma coisa imprestável. O mal de Alzheimer aprisiona a pessoa num mundo de alheamento, de esquecimentos. A mente aprisionada de alguém dilacera muito mais as pessoas que convivem com o portador da doença do que o próprio doente. Este está ao desabrigo da normalidade da memória, mas os seus circundantes estão ao desabrido da impotência, pois não podem fazer muito pelo ente querido que, em parte, “deixou de viver” na sua plenitude.


Ainda são palavras da filha desalentada: “Lembro do marido e pai, que largou a família por um POVO que ele tanto amou, mas tanto, tanto, causando raiva na família, pois estava sempre ausente nos momentos mais importantes para todos nós”. Não é fácil fazer tal afirmação. Mas, ela não deixa de ser verdadeira. Quem se dedica a uma atividade ou a uma causa, quem se deixa absorver por uma ou por outra, acaba, sim, caindo no desgaste da falta de convivência familiar mais estreita.


Quem viu de perto o dinamismo de João Alves Filho, nos seus três mandatoscomo governador (e eu trabalhei com ele, nesses três mandatos), sem falar do administrador público municipal que desabrochou à frente da Prefeitura de Aracaju, na segunda metade da década de 1970, levado pelas mãos do governador José Rolemberg Leite, não poderá jamais conceber o homem de “olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”, como disse a filha Aninha. Não falo de sua última participação na vida administrativa, como prefeito de Aracaju. Tanto não falo que não aceitei o seu convite para ajudá-lo. José Carlos Machado, por exemplo, então vice-prefeito, sabe disso, ele que tanto insistiu para que eu colaborasse com o prefeito. Eu tinha outros propósitos: a vida eclesial me chamava e eu não me sentiria bem na gestão municipal por alguns motivos de ordem pessoal, que nada tinham a ver com a pessoa do prefeito.


A vida é como ela é. Ninguém escapa de seus tentáculos. Uns são mais enlaçados do que outros. Uns mais cedo; outros mais tarde. Há laços frouxos; há laços muito apertados. Há laços terrivelmente apertados.




Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
1 2 3 4 5 6 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos