10/01
12:42

A dor de Filomeno Casca Grossa

José Lima Santana
Professor do departamento de Direito da UFS
Ainda não era meia-noite. Todavia, alguns galos apressados já tinham soltado o canto, um aqui, outro ali, mais um acolá. Dizia-se, então: “Galo cantou fora de hora, moça solteira vai-se embora”. Era no tempo em que moças casadoiras eram raptadas pelos respectivos namorados. Eu não sei quem foi que inventou esse negócio de rapto. Coisa do tempo do carrancismo em que as donzelas eram protegidas como joias do mais precioso metal. Ah, menino...! Quando o pai de alguma mocinha não ia com as fuças do namorado, este se fazia de homem de sangue no olho, de cabelos nos buracos da venta e carregava a pretendente. O verbo carregar para mim soava melhor do que raptar. Afinal, eu nunca ouvi ninguém dizer “raptar”, nos meus tempos de menino, lá no subúrbio João Ventura, onde eu nasci, criei-me e ainda vivo com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Bem. Eu estou enrolando os leitores. Mudei o rumo da prosa. Este é um vício antigo que eu carrego comigo. Adoro enrolar os leitores. Principalmente quando eu não tenho nada para dizer. Agora, porém, eu tenho. E vou ao fato, de rota batida. Ê Filomeno de “seu” Anacleto Pinheiro, pai d´égua mais do que arretado, que botou no mundo um sem-número de meninos, entre machos e fêmeas, que, seguramente, se fossem botados em fila, dobravam um quarteirão! Só casamentos, ele assinou papelada de três. Viuvou duas vezes. A terceira esposa o enterrou já adiantado nos anos. E amancebamento foi uma ruma. Filomeno era filho do último casamento. O primeiro de nove irmãos deste último conúbio. Ao todo, registrados, o velho Anacleto deixou trinta e dois filhos e filhas. Os sem registro, eu não sei direito, mas acho que não dava para contar. Afinal, ele foi homem de várias mulheres ao mesmo tempo. Uma perdição! “Um homem de bom gênio, mas atolado no abismo do pecado”, como dizia o Padre Fonsequinha. 
Filomeno era vendedor de carne de porco salgada nas feiras de Maruim, aos sábados, Siriri, aos domingos e Dores, às segundas-feiras. Torresmo igual ao que Dona Caçula, mulher de Filomeno, preparava, não tinha. E mais limpos vasilhames de guardar banha, para vender às freguesas, também não se encontravam. Dona Caçula caprichava em tudo. Ter uma mulher daquela era o mesmo que laçar uma estrela numa noite enluarada. Pronto. Ali estava uma prova de moça carregada. “Seu” Vicente de Januário do Catolé nunca olhou com bons olhos para Filomeno. Não que ele não fosse um rapaz trabalhador. Não, senhor! Saibam os estimados leitores que Filomeno, desde cedo, começou a cavar o pão de cada dia, embora pão na mesa da casa de “seu” Anacleto nunca haveria de faltar.  
O pai de Dona Caçula tinha cisma era do tipo casca grossa de Filomeno. Sujeito mais bruto. Mais grosso do que o bueiro da passagem do Brejo das Pedreiras, abaixo da saboaria de Chico Costa, que despejava as águas das chuvas, vindas do centro da cidade. Filomeno dava mais coices do que cavalo manhoso. E era do tipo falastrão. Até parecia ter bebido água de chocalho. O ditado de que “filho de peixe, peixinho é”, não valia em se tratando de Filomeno e “seu” Anacleto. O que este tinha de mulherengo,  tinha de ser boa gente. Assim era o pai de Filomeno. 
Ufa! Desta vez eu fui longe demais. Enrolei demasiadamente. Os leitores devem estar danados comigo. Comecei dizendo que “ainda não era meia-noite”, mas não disse nada do que deveria dizer. Como se trata da edição domingueira deste matutino, os leitores têm tempo de sobra para ler. Acho eu. Pensem os leitores num carinha ousado e petulante. Pensaram? Sim, euzinho aqui. Bem. Enfim, vou ao “finalmente”. Agora eu vou. Também, não tenho mais como enrolar mesmo.
Ainda não era meia-noite. Filomeno deu um berro na cama, quase matando de susto a pobre da Dona Caçula, que acordou atordoada, o coração a ponto de sair pela boca. “Minha Virgem das Dores, o que é isso, home?”. Uma dor repentina dilacerava o ventre de Filomeno. Parecia que uma coisa braba tinha se instalado nas tripas. Melhor seria ter engolido um quilo de soda caustica. Filomeno Casca Grossa enrodilhou-se na cama como cobra cascavel na hora do bote certeiro. Só lhe faltavam os guizos da temível serpente. Gemeu e berrou como se o mundo precisasse despertar naquela hora mortiça. Dez mil estrelas pareciam ter caído do céu.  

Um milhão de cavalos galopavam nos intestinos de Casca Grossa. A rotação da Terra estava ao contrário. Aquela era, sem dúvida, a mais maldita das meias-noites. Filomeno sentiu-se caminhar para a morte. Lentamente, mas caminhava. A dor lhe cortava em mil pedaços. Não haveria de ver o sol raiar. Há pouco morrera seu tio Belarmino e sua tia Maria Flor. Haveria de fazer-lhes companhia. Não veria o seu primeiro neto vir ao mundo. A mulher do seu filho Nanando, Ana Cláudia, daria à luz em dois meses. Um homem não deveria morrer sem ser avô. Sem carregar no cangote o rebento do seu rebento. Dona Terezinha, sua mãe, terceira mulher de seu pai, de papel passado e tudo, sempre dizia que meia-noite era a hora em que o diabo se soltava dos portões do inferno, para fazer estripulia mundo afora. Pois parecia que sim.  

A dor aumentou. Não haveria morfina no mundo que lhe aplacasse. Era o Dr. Milton quem falava nos efeitos da morfina. Dr. Milton era o médico da cidade. Dos ricos e dos pobres. Um médico que nem no Aracaju tinha melhor. Filomeno nem sabia o que era morfina. Só pela boca do médico. Mas, a morfina do mundo inteiro não bastaria para arrancar a raiz daquela dor cabrunquenta. 
Em seus instantes finais, ao avizinhar-se a hora perversa em que bateria a caçoleta, em que a iniludível tocaria em seu pescoço a foice afiada, Filomeno Casca Grossa lembrou-se, nem sabia como aquilo lhe ocorrera naquela hora de agonia, da praga que Maria Pula-Pula lhe rogara, uns dez anos faziam. “Tu, Casca Grossa da gota serena da peste, há de morrer com uma dor de barriga tão grande, que vai obrar uma noite inteira, desfazendo-se em merda. Tu vai morrer desmastriado”. Pois sim. A praga lhe alcançara. Sentiu-se todo obrado. E obrando mais e mais, sem parar. Morreria afogado nas próprias fezes. Boiando no mar fedorento. Atolado até os restantes fios de cabelo da cabeça.  

“Filomeno, Filomeno! Ô Filomeno! Acorda home de Deus! Tu tá tresvaliando”. E foi, então, que Filomeno Casca Grossa acordou de verdade. O suor descia-lhe em bicas. Ele arregalou os olhos e, virando-se de lado, perguntou a Dona Caçula: “Eu num tô obrado, não, mulé?”. 
Não, não estava não. Fora apenas um pesadelo. Nada mais. 


(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 10 de janeiro de 2016


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/01
17:54

O Ano Novo de Francisquinha

José Lima Santana*
Professor do departamento de Direito da UFS

Francisquinha estava para morrer. Ao menos, era assim que eu pensava. Porém, o que eu poderia saber sobre doenças, sobre a vida e a morte? Ora, eu tinha apenas sete anos de idade. A minha família tinha mudado de casa há menos de um ano. Aquela menina de uma cor sem cor definida era nossa vizinha. Ela tinha muitos irmãos. Não sei por que, mas eu fiz amizade mesmo, logo no começo, foi com ela e com o irmão, Cidinho. Pensem os leitores numa menina bonita e sabida! Sabida era, para mim, sinônimo de fazer artes, antes mesmo que eu soubesse o que era um sinônimo. O que, em 1962, um menino suburbano de sete anos de idade, que, até então, morava em um sítio ainda mais longe da área central da cidade, que não tinha em casa luz elétrica nem água encanada, podia entender de coisas da gramática, esse terror de muita gente boa, ainda hoje? Nada vezes nada. Ao bem da verdade, a cidade ainda não tinha água encanada, naquela época. Somente a teria nove anos depois. Ah, calçamento a paralelepípedo? Não, não tinha. Não ali no subúrbio. Tínhamos, sim, bons candeeiros a querosene, água comprada dos aguadeiros com os seus jericos, ou buscada em potes nas Pedreiras do Brejo e muita, mas, muita poeira, no verão, e lama em demasia, no inverno. Vida de pobres em um subúrbio igualmente pobre. 

Francisquinha e mais quatro irmãos estudavam na única escola existente naquele subúrbio. E, claro, eu também. A escola era pertinho de casa. Funcionava na casa da professora, na sala de estar, que, ali, se chamava varanda. Era tudo muito pobre, muito acanhado. Mas, a vida seguia assim mesmo. Aquela menina sem cor definida, cheio de irmãos barulhentos, apanhou uma doença feia. Ficou tísica. Tuberculosa. A minha mãe não pronunciava essas duas palavras. Eu as aprendi na rua. Mamãe dizia: “A filha de dona Eudócia tá com a ‘fina’. Você não pode mais brincar com ela, nem com os irmãos dela. A ‘fina’ pega no vento”. Não brincar com a minha amiguinha e seu irmão Cidinho seria doloroso. E como foi! 

A minha amiga foi levada para Aracaju, para um lugar chamado Sanatório, ou sei lá o quê. Todo mundo da casa dela teve que ir a Aracaju, para bater chapa dos pulmões. Porém, somente ela estava contaminada. Passaram-se semanas. Meses. As notícias vinham de vez em quando, pois a cada mês ‘seu’ Afonso ia ver a filha. Às vezes ele dormia na casa de uma irmã, que morava perto do Sanatório, no “Sontontonho”, como dizia dona Eudócia. ‘Seu’ Afonso voltava sempre esperançoso. Ao menos, era o que ele deixava transparecer nas conversas com o meu pai. Um dia, porém, eu vi ‘seu’ Afonso chorando no quintal, debaixo do pé de fruta pão. Eu nunca tinha visto um homem chorar. E ele parecia chorar como um desesperado, embora chorasse baixinho. Deu-me um aperto no coração e eu corri para dentro de casa, assustado. Foi, então, que eu pensei que Francisquinha estava para morrer. E se Cidinho também apanhasse a ‘fina’? Eu não poderia perder os meus dois amigos. Aí, sim, o meu desespero seria do tamanho do fim do mundo. Não sei bem a razão, mas, para mim, o fim do mundo de que me falava minha madrinha de apresentar, irmã de criação do meu pai, seria a coisa mais feia do mundo. E como dizia dindinha Carminha, o mundo se acabaria sob uma chuva de fogo. Para mim, na minha santa inocência, perder Francisquinha e Cidinho, meus melhores amigos, seria, sim, o fim do mundo. Coisa mais feia. Coisa mais triste. 

Uma boquinha da noite, depois do Natal, chegou à casa de ‘seu’ Afonso, pedalando uma velha bicicleta, Aloísio de Hilda, prima do meu pai, com um bilhete da irmã de ‘seu’ Afonso. Aloísio era o cobrador da marinete que fazia as viagens de Dores para Aracaju. Dona Eudócia caiu em prantos. ‘Seu’ Afonso também. Logo, a família inteira chorava. Mamãe foi acudir dona Eudócia. Ela disse que a notícia vinda com o bilhete era boa demais para ser verdade. Ela disse isso. E foi isso mesmo que mamãe disse a papai. Eu não acreditei. Eu nunca tinha ouvido ninguém chorar por causa de uma notícia boa. Nunca. Ou os meus sete anos eram ingênuos demais. Na minha cabecinha sem miolos ajuizados, somente uma coisa tinha acontecido: Francisquinha estava morta, ou estaria para morrer. Cidinho, eu e ela éramos como irmãos. Íamos juntos à escola. Fazíamos artes juntos. Ela era da minha idade. Cidinho era um ano e pouco mais velho. Perder Francisquinha seria uma coisa muito ruim. Naquela noite, depois do café, fui para o quarto que eu dividia com o meu irmão, e chorei debaixo do lençol, para que mamãe não pudesse ouvir e me fizesse um monte de perguntas sem pé nem cabeça. Chorei como um desvalido. E no meu choro inocente eu repetia baixinho: “Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!”. Deus ainda teria como socorrer Francisquinha?

O Natal tinha passado. A festa de Ano Novo seria dali a dois dias. ‘Seu’ Afonso foi a Aracaju. Na minha cabecinha confusa, ele traria o corpinho de Francisquinha dentro de um caixãozinho branco. Igualzinho ao da filhinha de Perolina, que morreu ainda bebê, comida pelos vermes. Naquele tempo, morriam muitas crianças. Os cemitérios e as santas-cruzes eram cheios de covinhas de anjos. 

Como nós estávamos em férias escolares, eu passei o dia todo na calçada lá de casa. Mal e mal entrei em casa para comer, ao meio-dia. Continuei na calçada. Sem sossego. A tarde caiu. O sol começou a ir-se embora. Umas nuvens de chuva se formaram, mas não choveu, apesar de uns poucos trovões. A noite deu sinais de sua chegada. Súbito, do beco de tio Dadá, saíram ‘seu’ Afonso e uma pirralhinha que ele segurava pela mão. Não tive dúvida. Era Francisquinha. Viva. Mais viva do que nunca. Eu girtei: “Mamãe, é Francisquinha!”. Quis correr ao encontro deles, mas as pernas começaram a doer. Doíam muito, de repente. O meu coraçãozinho de apenas sete anos disparou. Bateu, bateu como se fosse estourar. Não chorei, mas tive vontade. Quando eles chegaram à calçada da casa deles, ela me deu adeus. Acenou com a mãozinha esquerda. Eu não lembro bem, mas acho que derramei umas lágrimas. Corri para o interior da casa berrando: “Mamãe, a senhora não ouviu? ‘Seu’ Afonso trouxe Francisquinha!”. A minha mãe, que estava atarefada, fazendo o café da noite, não tinha ouvido o meu alarme anterior. 

Francisquinha não pôde ir à feirinha de Ano Novo. Ela estava curada da ‘fina’, mas precisava tomar cuidados. Eu fui e trouxe para ela uma cestinha de confeitos de castanhas de caju, que, em geral, quase toda criança adorava. Eu nem sabia se ela gostava de confeitos. Comprei porque ela era minha amiga e estava de volta. Contudo, ela adorou. E comeu todos os confeitos, menos uns poucos que ela me deu, que colocou em minha boca. Aquele foi o primeiro Ano Novo que Francisquinha passou ao meu lado. Quero dizer, que ela passou comigo ali como seu vizinho. E companheiro de artes. Eu, ela e Cidinho. Ainda hoje nós somos amigos. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 03 de janeiro de 2016.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
27/12
17:09

Zé de Totico

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

            Último artigo do ano. Exatamente este. Fechando a conta e passando a régua. 2015 está se escafedendo. Já vai tarde. Não sei por que, eu não gosto de números ímpares. Todavia, eu nasci em um dia ímpar, mês ímpar e ano ímpar. Não gosto de ímpares. Pronto. Quem gostar, que goste! Não eu. Nesse ponto, eu sou igual a Zé de Totico, meu vizinho há muito tempo. E lá se vai um magote de anos. Mais de quarenta. Ora, muito mais... Éramos meninos quando fomos vizinhos. Zé de Totico detestava números ímpares. Ele não contava 1, 2, 3, 4... Ele contava de 2 em 2. Era uma mania lá dele, ou sei lá o quê.

            Zé de Totico era, ou é, pois dele eu não tenho notícias, José Ferreira dos Santos Souza, filho de Antônio dos Santos Souza e de Maria Júlia Ferreira. Neto do velho Totonhão do Baburubu, povoado na pista que sobe de Dores para Glória e o sertão todo. Não sei qual a razão de os vereadores, um dia, desses dias em que os sujeitos amanhecem com as cuecas às avessas, terem mudado o nome do povoado para Bravo Urubu. Ôia! Eu nunca vi um urubu bravo. Dizia-se, no passado, que Baburubu era o nome de um antigo chefe indígena dali das bandas das terras extensas dos Enforcados, primitivo nome de Nossa Senhora das Dores. Quando eu era menino, as pessoas mais velhas não gostavam desse antigo nome. Eu ainda gosto. Totonhão, antigo cambalafoice de políticos do começo do século XX, era o avô de Zé de Totico pelo lado paterno. Diziam até que Totonhão andou matando uns sujeitos no Dandá e nas Caraúnas, que na boca do povo soa “Craúna”, povoados que foram fenecendo, a ponto de quase desaparecer. Do lado materno, ele era neto de “seu” Jaconias de Mané Pulo de Gato. Este, o Mané Pulo de Gato, era amansador de burros e cavalos brabos, como poucos foram vistos de Dores a Canindé.

            Zé de Totico... Devia ser uns três ou quatro anos mais velho do que eu. Mas era mirrado, sonolento, parecendo um bem-te-vi com sono. Porém, quando se tratava de pular cerca ou valado de macambira para apanhar frutas em quintais ou sítios alheios, ele era um gato. Sujeito arisco danado. E quando ele encrencava com alguém? Não respeitava tamanho. Não tinha sobrosso de pernas de calça. De caqui ou de mescla. De nada. Mirradinho enxofrado da moléstia! Canela de sabiá, braço de graveto, mas tinha um soco certeiro e dolorido, diziam, possivelmente em face da mão ossuda. Vi Zé de Totico botar pra correr muito moleque mais velho do que ele. Devia ser o sangue azougado de Totonhão, o avô paterno. Não era de puxar brigas, mas era turrão. Se mexessem com ele, o pau quebrava.

            Festa de Ano Novo em Dores. Festança afamada, que batia de longe a festa de Natal, ambas na Praça da Matriz. A praça cheia. Entupida de gente. Gente de todo tamanho. Gente de vários lugares. Festa de amanhecer o dia fervilhando de gente, na praça e nas ruas. Muita gente voltando pra casa, nos povoados e nas cidades vizinhas. Como se dizia no vulgo, festa acabada, tabaréu na estrada. Pois foi numa festa de fim de ano que Zé de Totico fez história. Eu estava com ele. Eu e um magote de meninos da nossa idade, uns mais e outros menos, mas todos já adolescentes. É que os leitores não conheceram a casa da quina da Praça da Matriz descambando para a pracinha de “seu” Tota, onde ficava a casa de Valdete, irmã de Ismael, que era dono de um bem-te-vi que cantava o Hino Nacional. Valei-me! Diziam que ele tinha vendido o passarinho a um gringo, no Aracaju. Disso eu não dou prova. Vejam bem os leitores: eu sei de muita coisa da minha terra! E ainda dizem os meus amigos Artêmio Barreto, desembargador aposentado com raízes nos Enforcados, e Carlos Pina, conselheiro do TCE, que eu invento esses causos. Eles não sabem o quanto eu sei! Das coisas da minha terra, claro. E só. De outras coisas, sim, eu não devo saber mesmo não.

            Pois bem. Só conheceu a tal quina quem era de Dores. Hoje, é a casa de dona Ivanilde do finado Berilo. A casa é outra. Foi ali, na quina. Descendo rente à casa de Valdete ia-se dar num beco, que ainda existe, pra onde vão dar os fundos de algumas casas da Praça da Matriz, do lado em frente à igreja e das casas da Rua da Prefeitura. Nesse beco, os meninos e os homens se desapertavam, quando tinham necessidade de fazer um pipizinho. Pois naquela noite de Ano Novo, uns adolescentes tomaram a direção do beco para despejar um tanto das bebidas ingeridas: jade, gasosa e refresco de tintura de groselha, que eram adquiridas nos botecos de guloseimas. Coisas que as crianças e os adolescentes adoravam. Foi na quina que os adolescentes pararam para uma conversa. Bem no meio da calçada de Valdete, Zé de Totico estava parado, dizendo coisas pra os outros rirem. É que ele também era dado a contar lorotas, piadas, e o fazia com uma graça inigualável. Quando ele fazia aquilo, nem parecia que tinha aquela cara de bem-te-vi com sono. Animava-se todo e animava os companheiros. Então, estava ele contando uma léria quando Bertino de Sá Florinda de Pedrinho da Maria do Ó, que já devia ter bebido umas cinco ou seis doses de erva cidreira no boteco de Poin Quente, pediu passagem. Zé de Totico fez que não ouviu. Os outros se afastaram, pois Bertino era dado a malvadezas. Não era um cabra valente. Não. Era malvado. Ele insistiu: “Vai sair da frente, ou quer levar pancada?”. Zé de Totico parou. Olhou pra cara do malvado e soltou essa, fazendo um gesto de giro com a mão direita: “Tu tá avexado? Arrodeie!”.

            Dito isso, Zé de Totico fechou o punho esquerdo, que ele chamava de cemitério. O direito, menos potente, ele o chamava de hospital. Imaginem! Um sujeito seco, um varapau desses que uma boa ventania seria capaz de tanger lá pras bandas do Ceará de um tanjo só. Porém, disposto quando era preciso ser. Bertino, o malvado, fez que ia agarrar Zé de Totico pelo pescoço, quando recebeu um direto de esquerda no nariz achatado. Pancada seca, certeira. O sangue desceu. Um dos outros adolescentes catou logo uma pedra que se achava ali perto e ficou com a mesma na mão, caso fosse necessário ajudar o companheiro. Ninguém correu. O malvado urrou e praguejou: “Fio do cabrunco da peste. Vou comer seu ‘figo’ cru!”. E foi então que recebeu uma pedrada no quengo. Cambaleou zonzo. Já não praguejou. Só urrou. Nisso, o pai de um dos adolescentes voltava do beco onde fora despejar a cerveja consumida e tomou conta do pedaço. Ciente do ocorrido, o recém-chegado deu uns chutes no traseiro gordo de Bertino e o mandou dormir mais cedo: “Se eu ainda lhe encontrar por aqui, vou lhe dar uma surra de botar salmoura no seu lombo, cabrunquento. E se mexer com os meninos, eu vou vazar seus olhos”. Não era ninguém não: era o cabo Fortunato, pai de Janjão, o que tinha atirado a pedra. Êh, cabo Fortunato! Dizia-se que ele tinha dado conta de uma família inteira de ladrões de gado na Boca da Mata. Ele sozinho. Matou um por um.

            Que Ano Novo inesquecível! A partir dali, quando a gente queria encarnar em um dos companheiros de folguedos e traquinagens, dizia: “Tu tá avexado? Arrodeie!”. Era gargalhada na certa.

            Bem. Para todos os leitores, um Ano Novo arretado de bom!

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 27/12/2015.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
20/12
16:33

A cadela do padre Fonsequinha

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Meninos, foi um rebuliço! Pensem os estimados leitores num rebuliço das seiscentas...! Mexeu com a cidade inteira. E com as redondezas. Povoados e cidades vizinhas. Afinal, era o padre Fonsequinha, querido e respeitado por todos os homens e mulheres de boa vontade. E também respeitado por quem era de má vontade. O padre Fonsequinha? Além de ser um presbítero renomado no clero diocesano, era um sujeito de peia. Quem era besta tirar lorota com ele? Houve um tempo em que certo vigário, três antes dele, naquela Paróquia, passou por muitos vexames por conta das más línguas de beatas e políticos, que lhe infernizaram a vida, levando um magote de conversa fiada ao senhor Bispo, que, coitado, meio cansado e indolente, caiu no conversê daqueles tipos e mudou o pobre padre Virgílio de lugar, mandando-o para a Paróquia mais distante. Um castigo imerecido. Todavia, por lá ele encontrou guarida, sossego e paz. E ali ele veio a entregar a alma a Deus, uns vinte anos depois, quando já beirava os noventa janeiros. Que Deus o tenha na sua mansão de vida eterna! Língua de gente? Às vezes, é tição aceso, urtiga endiabrada, cansanção do brabo. 
Volto ao padre Fonsequinha. Aliás, ele quase chegou a bispo. Recusou. E apesar de certas e aleivosas intrigas de irmãos no sacerdócio, ou seja, de alguns deles, o velho Fonsequinha teria, sim, alcançado o episcopado em face de uma segunda comunicação da Nunciatura Apostólica. Recusou de novo. Mas, ele nunca se incomodou com o fato de não ter o báculo nas mãos e a mitra na cabeça. Afinal, como ele dizia e repetia, nascera para ser um pastor provinciano. O que lhe fez ficar uma arara, uma tiririca foi o modo de agir sorrateiro, inditoso de alguns confrades, que o queriam longe das faias episcopais. E ele os desancou. Disse-lhes um bocado de desaforo. 
Porém, como ele tinha o pavio curto, por isso mesmo, o fogo logo apagava. Pavio curto queimava fácil e facilmente se consumia. Pronto. Tudo voltou às boas, embora os seus detratores pisassem sempre macio com um pé na frente e outro atrás, quando se tratava de qualquer assunto ligado ao padre Fonsequinha, que não tinha papas na língua. “Minha santa mãe dizia que eu não queimei a língua com papa, quando era bebê”, costumava proclamar para Deus e o mundo inteiro ouvir. Tinha rompantes, mas era um homem de bom coração. Porém, vir a ser bispo? Nem pensar. 
O velho padre tinha uma cadela dessas de raça miúda, branquinha como flocos de algodão. Era uma novidade ali na cidade. O único canino da raça poodle. Na rua em que o padre morava, a vizinhança delirava com Mimi. Esse o nome da cadela de estimação do padre Fonsequinha. Pois não é que, um dia, Mimi se soverteu no mundo? Sumiu sem deixar rastro. Alguém teria surrupiado Mimi, enquanto ela estava na janela, observando as pessoas e o mundo? Alzira, a serviçal da casa paroquial, viu Mimi pela última vez, na janela, lá pelas nove horas da manhã, pouco mais ou menos, enquanto varria a ampla sala de estar, onde o vigário recebia as pessoas, ricas ou pobres. Quando o padre retornou para casa, pouco depois do meio-dia, após visitar alguns enfermos, procurou por Mimi. Qual nada! Nem sinal. Nem sombra da cadelinha da cor do algodão. Foi um vexame. Foi um corre-corre. Um procura daqui e dali. Nada. 
Os vizinhos se alvoroçaram. Meia cidade foi revolvida. O sacristão Dieguinho de dona Fausta berrou no aparelho de alto-falante da igreja: “Atenção, atenção todos. A cachorrinha Mimi do padre Fonsequinha sumiu. Quem a encontrar, será bem recompensado. E se alguém carregou a cadelinha do padre, ele disse que tal pessoa desalmada vai arder no fogo do inferno”. O sacristão disse essa barbaridade por conta própria. Depois, o padre o repreendeu. Bem feito. 
Até a polícia foi mobilizada para encontrar Mimi. A tarde foi perdida. Vasculharam-se ruas e becos. Nada. Ninguém sabia de nada. Ninguém tinha uma pista. Mimi sumiu como que por encanto, para o desespero de Alzira, que se sentiu culpada pelo sumiço da cadela. O padre tentou acalmá-la, mas ela não teve consolo. Chorou a tarde inteira. Chorou a noite inteira. E amanheceu chorando. Cuidou no desjejum do padre ainda derramando lágrimas. Até parecia que os seus olhos eram duas torneiras abertas. De Mimi, nenhuma notícia, nenhum rastro. 
O tempo passou, e nada. O padre Fonsequinha, todavia, não perdia a esperança de reaver a sua preciosa Mimi. “Um dia, ela voltará”, dizia. Bem. Se Mimi saiu para um dia voltar, o passeio foi longo. Entrou semana e saiu semana. Ninguém sabia nada sobre o paradeiro de Mimi. Dois meses se passaram. Nada. Nadica de nada. Às escondidas, Alzira fez promessas, rezou ladainhas. Ela ainda se sentia culpada. Não tivera o devido cuidado com Mimi. Não fora vigilante. O padre tinha um coração maior do que o mundo, por isso a perdoara. Ela assim pensava. Quanto ao padre, esperava pela ocorrência de um verdadeiro milagre: a volta de Mimi, passados dois meses. Ninguém acreditava que a cadelinha voltasse à casa do padre. Só ele não perdia a esperança. Afinal, era padre, tinha uma fé sólida. Assim diziam os paroquianos. Os que o conheciam mais amiúde. 
Naquele meio tempo, bateu às portas da cidade as primeiras chuvas do inverno. O povo estava carente de boas chuvas. Os dois últimos invernos foram fracos. Lavoura pouca, a maior parte perdida por falta de chuva no momento da floração do feijão e no tempo das bonecas de milho se encher de caroços. Tinham sido invernos vasqueiros de chuvinhas sem vergonhas. Invernos que demoraram a chegar e pouco custaram para ir-se embora. Àquela altura, chovia há quatro dias. Pancadas de chuva das boas. Prevenido, o padre Fonsequinha tinha comprado três carroçadas de lenha. Lenha de candeia e pirunga, tirada na Caiçara. Alzira não reclamaria pela falta de lenha, nem que a lenha era fumaçenta e fazedora de muita cinza. Candeia e pirunga? Madeiras boas de fogo e brasa. 
Era quase a hora da ave-maria. O padre preparava-se para ir à Igreja. Enquanto procurava o breviário, na sala de leitura, ouviu um grunhido na porta. Um latido. Outro. E mais outros. Latidos mais do que conhecidos. Correu à porta. Abriu-a. E lá estavam Mimi e três filhotes. Parecidos com ela. Nunca se soube por onde Mimi andara. O certo foi que cruzara com um cãozinho poodle. A prova estava nos filhotes. Não se conhecia outro poodle na cidade, além de Mimi. Mistério. Mistério que nunca seria desvendado. Verificou-se, depois, que os filhotes de Mimi eram três cadelinhas. Elas se chamariam Lalá, Lili e Loló. As cadelinhas latiam quase sem parar. Por isso, a vizinhança linguaruda denominou-as de Bila, Mila e Sila, igualzinho às irmãs costureiras e solteironas, do Oco do Pau, que, sem piedade, falavam de todo mundo e queimavam pacotes de velas aos pés da imagem de Santo Expedito. Elas só não eram bestas para falar do padre Fonsequinha. Com ele, as más línguas tinham limites. 
Dizem boas línguas que o padre Fonsequinha ainda vive. Onde? Não sei. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 20 de dezembro de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/12
15:09

O candidato e os votos voláteis

José Lima Santana*
Professor do Departamento de Direito da UFS

A família era dada às atividades políticas. Tios e primos já tinham sido eleitos para cargos eletivos, no Executivo e no Legislativo. Ora, por que não ele, também? Por que não tentar uma cadeira na Edilidade da capital? Afinal, além da boa performance familiar, no seu entendimento a Câmara precisava de novo alento, de sangue novo. Ele tinha a seu favor o fato de ser sobrinho do candidato a prefeito. Tinha também os serviços prestados aos colegas de trabalho e à própria comunidade. E tinha, vale dizer, certos apoios externos. Um dinheirinho, talvez, vindo daqui e dali. Seria, enfim, um candidato a ser levado em consideração. Outra coisa: tinha disposição para se largar no mundo em busca de apoio e votos. Logo, logo, certamente, as ruas estariam cheias de cartazes e santinhos com o nome R. (vou ocultar o seu nome, senão ele é capaz de me xingar). E o boca a boca se espalharia do Lamarão à Terra Dura, do Mosqueiro ao Aribé. 

Nome homologado na convenção partidária. Campanha a ser tocada. Todavia, de saída, ele sofreu um duro golpe. O tio candidato não lhe permitiu usar o nome de família, ou seja, o patronímico familiar que o ligava ao tio pelo lado materno. Ele teve, então, que usar o outro nome de família, no caso, da família paterna. Fazer o quê? Ao invés das iniciais R. A., usaria as iniciais R. R. Cauteloso, o tio não queria desgostar os demais candidatos a vereador que estavam na coligação. Candidato a vereador com raiva abandonava o candidato majoritário. Isso era o que mais ocorria. “Ora, sujeito, você não é meu sobrinho? Todo mundo não já sabe disso? Basta!”. E assim foi feito. Ah, mas poder usar o nome que o ligava ao tio candidato a prefeito seria, deveras, uma mão na roda! Votos haveriam de cair na urna como mangas espadas caiam no sítio do avô, madurinhas, amarelinhas de dar gosto, no seu tempo de menino. Porém, já que não podia ser, paciência. 

Campanha nas ruas, o computador começou a encher-se de listas de possíveis eleitores. Ele nominou cada colega ou ex-colega de trabalho: uma imensidão de terceirizados e comissionados, além dos empregados da empresa municipal na qual ele tivera cargo de direção. Dentre estes, contabilizou mais de dois mil possíveis eleitores. E os votos que viriam de fora? Dos amigos. Das lideranças de bairros que ele conquistara? De pessoas diversas às quais ele teria prestado um obséquio? Sabia-se mais de quem... Haveria de ser uma eleição garantida. Ele contou e recontou. Fez e refez contas. Não tinha como perder a eleição. A esposa, cautelosa, o advertira, contudo, sobre a infidelidade dos eleitores, a enganação de muitas pessoas, que diziam: “estamos juntos”, mas que haveriam de estar mais separadas do que as margens do rio Amazonas nas grandes enchentes. Entretanto, ele estava empolgado. A cada dia, o computador recebia mais nomes nas listas de eleitores dados como certos. Já ultrapassavam dois mil e quinhentos nomes. 

A campanha para prefeito pegava fogo. Eram três os principais candidatos, palmilhando o chão eleitoral, buscando conquistar cada voto, no dia a dia. E os candidatos a vereador deslizavam pelo chão como cobras em mil e uma sinuosidades. Um dia, o candidato sobre quem eu falo chegou à casa onde morava um comissionado de outrora, que fora seu subordinado, e este lhe garantiu: “Aqui o senhor tem 4 votos: o meu, o da esposa, o do meu filho Mikael Magaive e o da minha filha Meg Maricleya. Aqui é no contado. É tudo do senhor”. Ai, Jesus! Um eleitor assim tão decidido era de encher os olhos do candidato. Naquele, ele confiava. Sempre tivera nele um auxiliar competente e leal. Aquele, sim, não lhe negaria fogo. Jamais. Se tivesse lenha molhada para acender o fogo, aquele seria capaz de entortar as bochechas de tanto soprar para acalentar o fogo. Ah, aquele era mesmo de tinir!

E a campanha andou de vento na popa. Eleição garantida. Comprar um terno novo, para a posse, isso ficaria para depois. Naqueles dias, o que importava mesmo era continuar chegando junto ao eleitor. As cobras criadas rastejavam muito ligeiramente. Muitos votos saiam de um para outro candidato com uma rapidez de espantar. Bichinho danado de volátil era o voto de alguns eleitores. Batia asas mais depressa do que o mais veloz dos passarinhos. 

Quanto mais se aproximava o dia da eleição, mais candidatos arrastavam-se sorrateiros, como cobras peçonhentas, prontas para dar o bote. Votos mudavam de direção como água de enxurrada, que não tinha trilha certa. Na casa de uma eleitora que se dizia fiel, o candidato fora encontrá-la vestindo a camisa de outro candidato a vereador. A eleitora mais amarela e mais desfigurada do que dente cariado, ainda tentou se explicar: “Foi um doido quem me deu essa camisa, que eu só estou usando agora porque vou fazer uma faxina”. Ah, bicho manhoso era eleitor! Era o que pensavam certos candidatos. E dos candidatos, o que diriam os eleitores? Não tirariam por menos.

Noutro dia, na casa do eleitor que tinha quatro votos, o candidato chegou para uma prosa. O eleitor fiel foi logo dizendo: “O senhor sabe, né ‘seu’ R.? Passou por aqui uma candidata e deu umas coisas a minha mulher, fez a cabeça dela, e eu acho que ela vai votar nessa candidata. Mas, não se preocupe não, que os outros três votos são seguros. São do senhor. Eu garanto”. Assim era a vida do candidato. Um voto a menos aqui, talvez um voto a mais acolá. 

No Mané Preto, um cachorro gué do rabo fino rasgou a calça do candidato. E ele ainda teve que fazer festa para o dono do cachorro, que nem seu eleitor era. Vida de candidato... No Japãozinho, ele teve que comer uns torresmos e beber um copo de cerveja quente. Os torresmos estavam passados. Deu-lhe uma disenteria da gota! Ele evacuou uns três dias, por várias vezes ao dia. Eleição... Na Baixa da Cachorrinha, ele foi dar com uma conhecida de sua mãe, lá do interior, que lhe pediu uma máquina de costura e um fogão. Em troca, ela lhe garantia de seis a oito votos. De quem, se ela morava sozinha? Ah, bicho danado era eleitor!

Aquele eleitor fiel de quatro votos, mas que se resumiam a três, disse-lhe que outro candidato prometeu pagar o dobro ao seu filho, para trabalhar como “boca de urna”. O rapaz que era meio sem juízo, aceitou. Porém, o voto dele e da filha estavam seguros. Eram, agora, apenas dois. Eleição? Era coisa bruta. E assim a campanha transcorreu. Uma decepção aqui, uma injeção de ânimo ali. Um líder comunitário do Bugio lhe garantiu apoio, somente porque gostou do palavreado dele, numa reunião da qual o líder participara. “Vou votar no senhor. O senhor tem uma fala que me agrada”. Era assim. Uns iam, outros vinham.

Enfim, na véspera da eleição, o candidato a vereador, sobrinho do candidato a prefeito retornou à casa daquele fiel eleitor, que tinha quatro votos certos, mas que acabaram se resumindo a apenas dois. Ele encontrou o velho amigo desolado. “O que foi ‘seu’ Tonico, que tristeza é essa?”, indagou o candidato. “É que eu num tenho cara pra olhar para a butuca dos seus olhos, ‘seu’ R.”. E emendou: “Pois num é que minha filha ganhou uns tênis de Fulano? Disse que vai votar nele. Mas, o senhor fique descansado, que o meu voto ninguém tira do senhor”. Abertas as urnas, o candidato que esperava obter, por baixo, uns mil e quinhentos votos, obteve apenas oitocentos e quarenta e dois votos. Quatrocentos a menos do que ele precisaria para se eleger. À noite, ao chegar à casa, derrotado, amargurado, traído, ele ouviu esta pérola da esposa: “Eu bem que lhe avisei!”. Era a pá de cal no candidato “defunto”. 

*Advogado, membro da ASL e do IHGSE


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
06/12
14:24

A galinha de pescoço pelado

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Era no que dava confiar em todo mundo. Mas, dona Zica era assim mesmo: botava fiança em tudo que era gente de saia ou calça. Pessoa boa estava ali. Prestativa, rezadeira e, embora fosse católica enviesada, é bem verdade, gostava de atender quem a procurava para fazer um despacho. Despacho caprichado, botado em encruzilhada, na hora perigosa da noite. Era a hora em que o capeta e toda a sua coorte endiabrada corria a “lacoxia”, atanazando as pessoas de coração bamboleante, que não se firmava na palavra do Criador. Todavia, dona Zica, mulher de “seu” Paulino Curiboca, mais índio do que outro tipo de gente, daí o apelido, e filha de Manelão da Mão da Onça, antigo tocador de rebeca em festa de pobre, não fazia despacho para prejudicar ninguém. Eram umas coisinhas brandas, para ajuntar casais separados, aproximar bem mais depressa enamorados, conseguir emprego, dar um jeito em eleição de vereador. Nenhum candidato a prefeito jamais pedira o seu adjutório. Candidatos a vereador, sim. E tudo se arranjava a contento. 

Na casa de dona Zica não se tocavam atabaques ou tambores. As sessões dela eram somente na base da cantoria. Uns cantos que misturavam candomblé com toré. Era, a bem da verdade, uma mistura sem pé nem cabeça, mas que acontecia muito por aquelas bandas. Onde ela aprendera aquelas traquinagens com arremedos de caboclos e pretos velhos? Com uma preta centenária, moradora nas Piranhas, pras bandas do Pé do Banco, ou seja, Siriri. Essa preta velha se chamava Sá Laurinda. Diziam pessoas antigas que ela se “envurtava”, de tal forma que ninguém dava conta de encontrá-la. Era uma mulher de certos poderes adquiridos, ao que parecia, com o seu pai, um antigo escravo dos eitos de canas da Cotinguiba, lá pras bandas das Laranjeiras e de sua mãe, filha de uma índia, não se sabia donde. 

Dona Zica morava no Itperoá, povoado que era e é metade de Siriri, metade de Dores. E já fora bem mais movimentado. Ali ficava a bodega de “seu” Osmar, sempre sortida, e onde havia boa festa de São João com forró dos bons. Ainda à base do candeeiro. Uma festança de pé de pau, como, então, se dizia. Gente dali, da Cobra d’Água, da Maçaranduba, do Campo Grande, do Tauá, do Barro Vermelho, de Sabinópolis, da Fazendinha, da Mata do Cipó, das Dores, do Pé do Banco acorria à casa de dona Zica. Encomendas de despachos, rezas e garrafadas eram muitas. 

Zé de Balbino cismou de meter-se em política. O que queria um pobre se metendo com chamego de eleição? Era o que perguntava a própria mãe dele, dona Carolina de Matilde do finado Felisberto das Porteiras. E ela mesma respondia: “Pobre pra ganhar ‘inleição’ só vendendo os cabelos da cabeça pra gastar com os ‘inleitô’. Fora disso, é ser mangado pelo povo”. Talvez ela tivesse razão. A compra de votos vinha de longe. Do Império? Da Roma antiga? Sabia-se lá! Contudo, Zé de Balbino não estava nem aí para o que dizia a sua mãe. Ele candidatou-se, sim, a vereador. Estava no partido do prefeito. Bateria de porta em porta. Ele era muito benquisto por todos. Não fazia mal a ninguém, e até servia a muitas pessoas, tinha um time de futebol amador, do tipo esfria sol, que não lhe faltaria nas urnas. Conhecia muita gente. Fazia muitos favores. Era festeiro. Na época, cento e alguns votos eram sinal de eleição garantida. Ele esperava juntar mais de duzentos votos. Caderno e lápis nas mãos, Zé de Balbino anotava nomes de eleitores tidos como certos. Rua por rua, povoado por povoado, biboca por biboca. Duzentos votos? Oxente! Seriam favas contadas. 

Apesar do otimismo, Zé de Balbino, amigo de Pinto Pelado filho mais novo de dona Zica, apelou para o rapazola magricela e este o levou até a mãe rezadeira. Não custava se acautelar. Qualquer reforço em eleição deveria ser bem aceito, sempre. Dona Zica lhe receitara sete banhos de descarrego. Água com sal grosso, um frasco de alfazema, sete espadas de são Jorge, sete ramos de alecrim cheiroso, sete folhas de comigo-ninguém-pode, raspa de aroeira, sete penas de urubu e sete pétalas de rosa branca. Um banho e tanto. Afora isso, ela faria um despacho. Para tanto, seria preciso uma galinha preta de pescoço pelado. Uma oferenda para abrir de vez os caminhos das urnas. O pretenso futuro vereador ficou de conseguir a tal galinha preta de pescoço pelado naqueles dias. Procurou como se procura uma agulha num palheiro. Vasculhou Dores inteira e Siriri inteiro. Cidades e povoados. Não achou uma pra remédio. Na casa de Sá Valdivina, no Sarongongo, achou uma galinha pedrês. Não servia. No quintal do velho Dioclécio aguadeiro, Zé de Balbino foi encontrar uma galinha preta de pescoço pelado, mas com uma pouca penugem traseira esbranquiçada. Dona Zica descartou. Tinha que ser preta sem mancha. Nada. Não encontrou nada. 

Ora, faltavam três semanas para a eleição. Zé de Balbino contou e recontou os votos anotados no caderno. Andara para cima e para baixo. Gastara o solado de duas alpercatas. Até vendera dois porcos gordos e cinco marrãs, para dar uns mimos a umas moças do Pau Que Chora. E para pagar umas e outras bicadas em várias bodegas por onde passara. Para as suas posses, fizera um gasto tremendo. Estava confiante. Era necessário, porém, contar com alguma proteção. Dona Zica o ajudaria se ele conseguisse a galinha preta de pescoço pelado. Foi, então, que ela lembrou que Evilásio de Marcolina vendia carne de sol na feira da Boca da Mata, isto é, Glória. A feira de lá já era uma grande feira. Quem sabia se por lá não seria fácil de arranjar a tal galinha preta sem mancha. Na feira do sábado seguinte, nada. Na outra feira, eis que Evilásio conseguiu a galinha como Zé de Balbino precisava. Seria a garantia da eleição. Dona Zica fizera o despacho. Farofa de dendê, cachaça e a galinha preta com uma fita vermelha envolvendo o pescoço pelado. A encruzilhada escolhida foi a da confluência da estrada da saboaria de Chico Costa

Urnas, enfim, abertas, Zé de Balbino contaria com cento e trinta e três votos. O vereador eleito com a menor votação obtivera cento e trinta e quatro votos, apenas um voto a mais que Zé de Balbino. Ele censurou o despacho de dona Zica. Diziam que com ela era pau, casca. Não foi. Dona Zica, apesar da fama, não foi de grande valia.  A rezadeira nunca tinha sido contestada antes. Ninguém jamais fora à sua casa para reclamar de um despacho mal feito, sem valimento. Era a primeira vez que isso acontecia com ela. De qualquer forma, ela se sentiu acabrunhada diante do vexame. Poderia perder a confiança das pessoas diante daquele fracasso. Faltou apenas um voto. Um voto!

Muita gente mangou de Zé de Balbino graças a sua ingenuidade e, sobretudo, ao caso da galinha preta de pescoço pelado. Ocorreu que Evilásio acabaria confessando na bodega de “seu” Américo de dona Berila, enquanto bebia umas doses de cinzano com coca-cola, que, como não conseguira arranjar uma galinha preta de pescoço pelado, comprara uma galinha preta de pescoço normal e mandou a sua mulher arrancar algumas penas do pescoço da galinha de modo que parecesse uma legítima galinha preta de pescoço pelado. O despacho não poderia ter dado certo. Azar de Zé de Balbino, que ficou de fora da Câmara Municipal por um voto. E de dona Zica que confiou em Evilásio.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 06 de dezembro de 2015.
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
29/11
18:02

O câncer, a dor, as lágrimas...

 José Lima Santana*
Professor do departamento de Direito da UFS

Todos devem compreender que a luta contra o câncer deve ser diuturna. Aliás, a luta por serviços de saúde de qualidade, especialmente dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) deve ser contínua. Sem trégua. 

Existem, hoje, no país, mais de 270 hospitais habilitados no tratamento do câncer. Todos os Estados brasileiros têm pelo menos um hospital habilitado em oncologia, onde o paciente de câncer encontrará desde um simples exame até cirurgias mais complexas. Trata-se da rede credenciada para o atendimento aos portadores do câncer na rede do SUS. Para ser habilitado, o hospital não precisa tratar exclusivamente os pacientes dessa temível e terrível doença. É o que ocorre em Sergipe, por exemplo, onde ainda não há um hospital exclusivo para tratar os pacientes com câncer. Aliás, muitos Estados não possuem hospitais com essa exclusividade de tratamento. Os custos de manutenção são muito altos. Os recursos do SUS são limitados. 

Quando assumimos a titularidade da Secretaria de Estado da Saúde (SES), em 31 de dezembro de 2004, recebemos, algum tempo depois, para uma conversa, o Dr. Carlos Anselmo, médico oncologista do Hospital Governador João Alves Filho, transformado, simplesmente, em HUSE, sabe-se lá por quê. O Dr. Anselmo apresentou-nos a planta baixa de um Hospital contra o Câncer. Havia, inclusive, uma planta anterior, vinda da década de 1980. Tínhamos ouvido falar nessas plantas e solicitamos a sua presença. Ele prontamente nos atendeu. Naquela época, técnicos da área da saúde dividiam-se: uns eram a favor da construção do hospital exclusivo e outros eram contra, defendendo, estes, a tese da necessidade de melhoria e a ampliação dos serviços então prestados no setor de oncologia do Hospital acima citado. De qualquer forma, não havia dinheiro para a construção do hospital. O que havia era apenas a apresentação de uma emenda parlamentar ao OGU (Orçamento Geral da União) de R$ 2 milhões, destinada por um deputado federal. Oposicionista, dificilmente a emenda seria liberada pelo governo federal. E não foi mesmo. Aliás, colocar emendas individuais ou de bancada é sempre fácil. Conseguir a liberação é que é difícil. As emendas de bancada, então, são dificílimas. Há parlamentares que deitam falação quando colocam emendas. Isso não quer dizer dinheiro no caixa do Estado ou do Município a ser beneficiado, como alguns pensam. Longe disso. 

Precisamos de um hospital contra o câncer? Não será fácil construí-lo, equipá-lo, credenciá-lo junto ao Ministério da Saúde e mantê-lo de forma adequada. Porém, não se deve deixar de tentar, de levar à frente a sua construção. É evidente que não teremos um hospital do porte do Sírio Libanês ou do Einstein, ambos em São Paulo. Seria uma rasgada utopia pensar que teríamos. Por outro lado, o câncer aniquila pessoas em qualquer hospital, por melhor que ele seja. Inclusive, políticos e pessoas abastadas vão a óbito em grandes e reconhecidos hospitais, como nós sabemos. É certo, contudo, que oferecer um bom serviço no tratamento oncológico em Sergipe é preciso. É humano. É urgente. 

Na sexta-feira (20), o governador Jackson Barreto, que já viu o câncer atacar na própria família, mostrou-se emocionado ao lado do ministro da Saúde, Marcelo Costa e Castro, em face da instalação do segundo aparelho de radioterapia no Hospital João Alves Filho, prevista para o segundo semestre do próximo ano, após vários anos desde a instalação do primeiro aparelho. Nesses anos, a doença avançou e devastou. Ninguém fez nada? Ninguém construiu o hospital do câncer? Ninguém se comoveu com os pacientes acometidos por essa malfadada doença? Ninguém se importou com o sofrimento, com a dor dos pacientes? Com o desespero e as lágrimas dos familiares? Quantos governadores passaram nesses anos todos, desde a instalação do primeiro aparelho? Todos foram insensíveis? Ouço com pesar o que dizem certos políticos e pessoas outras, ao se referir à construção do hospital contra o câncer, como se isso, por si só, resolvesse os problemas advindos dessa doença. Entretanto, o que dói é saber que certas pessoas, políticos ou não, não passam de oportunistas, mesmo já tendo, algumas delas, a oportunidade de lançarem as mãos em prol de amenizar o sofrimento dos atingidos pelo câncer. Falar é fácil.

A possibilidade de mais um aparelho de radioterapia (acelerador linear) em funcionamento em Sergipe deve ser recebida com alívio e esperança. Outro desses aparelhos deverá ser cedido ao Hospital de Cirurgia. Não é tudo o que queremos e precisamos. Pode até ser apenas um arranjo, mas é algo a ser celebrado em nome dos que sofrem e precisam de alento. Logo, o governo do Estado tem, sim, que comemorar. E tem, igualmente, que continuar despendendo todos os esforços possíveis para que tenhamos um tratamento ampliado e melhorado. Que isso não demore. E que tudo se faça na conformidade legal e técnica. Esperamos que o governador Jackson Barreto esteja atento a isso. 

É preciso lembrar que, embora ainda não tenhamos um hospital exclusivo contra o câncer, a ala de oncologia do Hospital João Alves Filho pode prestar um serviço ainda mais adequado nessa área. As pessoas não conhecem e, portanto, não reconhecem os serviços relevantes prestados por esse hospital na oncologia, no trauma, nas questões relativas aos queimados etc. Normalmente, as pessoas voltam-se mais para a sempre complicada porta de entrada da urgência e emergência. Os serviços contra o câncer precisam melhorar e ser ampliados? Decerto que sim. Disso ninguém duvida. Esperamos isso. Queremos isso. Precisamos disso. 

Todo esforço que se possa fazer para mais e melhor atender aos pacientes com câncer há de ser sempre válido. Dizer o contrário é não dizer nada. 

Prestar melhores serviços. Amenizar a dor. Reduzir as lágrimas. Minorar a sensação de impotência das pessoas diante do quadro gravoso do ente querido que, aos poucos, vai-se embora. Mas, acima, de tudo, lutar, lutar muito, para a recuperação da saúde de quem se ama. 

* Advogado, membro da ASL e do IHGSE


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/11
11:51

O terror de volta a Paris

José Lima Santana

Um dia, o Terror foi implantado em França. Isso se deu entre agosto de 1792, quando ocorreu a queda dos girondinos, e 27 de julho de 1794, quando Maximilien de Robespierre, ex-líder dos jacobinos, foi preso. Durante esses dois anos as garantias civis foram suspensas. O governo revolucionário nas mãos dos membros da Montanha, a facção mais exaltada do partido jacobino, perseguiu seus adversários, levando muitos deles à guilhotina. Aproximadamente 17 mil pessoas tiveram os respectivos pescoços entregues à lamina da guilhotina. A face mais dura do terror fez-se notar entre meados de 1793 e meados de 1794. Até dezembro de 1794, outras 5 mil pessoas ainda foram guilhotinadas. De início, os jacobinos exerceram uma perseguição velada aos girondinos e, depois, a perseguição tornou-se sistemática, alcançando todos os que fossem considerados inimigos da Revolução, aí incluídos alguns jacobinos ou apoiadores desde sempre da Revolução, dentre os quais Danton. 

Um órgão revolucionário, o Comitê de Salvação Pública, conduziu a política do Terror. A figura proeminente dessa fase negra foi Robespierre. Dizia-se, então: “A Revolução engoliu os próprios filhos”. 

2015. O terror voltou à França. Paris foi banhada de sangue. Lamentavelmente. 13 de novembro. Uma sexta-feira para jamais ser esquecida. O dragão do terror inflou suas narinas e despejou fogo sobre Paris. Mais de uma centena de vidas ceifadas. Centenas de feridos. Milhões de pessoas atônitas em França e no mundo. O Estado Islâmico, esse agrupamento político selvagem que pretende instituir um califado sob o mais rígido e delirante controle religioso, assumiu a autoria dos atentados brutais. Nem precisava. Estava à vista. 

O mundo fala em fanáticos religiosos. Não, eles não são religiosos. Eles são apenas fanáticos. São simplesmente animais. O sagrado Alcorão dos islamitas não ampara o que foi feito em Paris. Fanatismo, qualquer que seja ele, cega as pessoas. Em nome de um suposto fanatismo religioso, líderes políticos (?) bestiais maldizem o Ocidente, além de se lançarem também contra outros muçulmanos. E o Ocidente tem, sim, a sua parcela de culpa, cuja raiz mais recente encontra-se, dentre outras, em operações bélicas levadas a efeito pelos ocidentais, sob a liderança dos Estados Unidos da América, a exemplo da deposição de Saddam Hussein, no Iraque etc. etc. etc. Criou-se um estado fragilizado, o novo Iraque. Uma porta aberta aos criminosos aproveitadores, que se encastelaram, sobretudo, em parte do território desse país e da Síria, esta há muito vivendo sob uma guerra civil sanguinária. Aliás, toda guerra é sanguinária. Inclusive, a guerra urbana cotidiana que vivemos no Brasil. 
Na mesma sexta-feira, 13/11, o Estado Islâmico também atacou em Beirute, capital do Líbano. Já não foi o Ocidente o alvo dos terroristas, mas muçulmanos xiitas. Oriente versus Oriente. A luta por lá é, também, fratricida. 
O estado islâmico, uma horda tão brutal que, talvez, deixe os exércitos de Átila, o temível destruidor huno do século V, o “flagelo de Deus”, como foi chamado, sendo vistos, hoje, como uma legião de anjinhos, tem sido, a partir de uma propaganda sedutora, um atrativo para jovens de origem muçulmana, espalhados por alguns países da Europa. Tais jovens se veem sem perspectivas de vida em terras de uma cultura diferente da cultura dos seus pais e avós. Sentem-se discriminados e “sem futuro”. Não somente se sentem, mas, na verdade, o são. Daí a aderir ao estado islâmico, é um pulo. Eles são atraídos por uma “causa”. Oferecem-se para combater por essa “causa”. Para morrer por ela. Para matar por ela. Esses jovens aliciados descendem de famílias que foram levadas para a Europa, a fim de servirem aos ricos europeus naqueles trabalhos que os colonizadores brancos e “civilizados” não se sentiam bem em executá-los. A maioria dos descendentes dessas famílias primitivamente para lá levadas ou por lá admitidas não foi integrada às respectivas sociedades. 
Os ocidentais matam orientais com mísseis disparados a partir de drones, ou seja, das aeronaves não tripuladas. Os orientais não usam drones. Eles se usam. Para matar. Para implantar o terror. Os ocidentais têm matado muitos orientais, inclusive civis. O que fazemos, quando isso acontece? Pedimos desculpas. Lamentamos. E só. 
O mundo deveria estar cansado de guerras, de morticínios. Todavia, é preciso fabricar armas. O mundo dito civilizado, altamente industrializado, vende suas armas para o ainda chamado “terceiro mundo”. E, então, o mundo dito civilizado acaba, querendo ou não, ajudando a fomentar a barbárie. E recebe as consequências. Ninguém, em sã consciência, quer a guerra, a mortandade, a barbárie, o terrorismo. Porém, tudo isso está na ordem do dia. E tudo acaba tendo um preço. Brutal, às vezes. 
A Liga das Nações, criada para assegurar a paz, após a Primeira Grande Guerra (1914-1918) fracassou. Criou-se a Organização das Nações Unidas – ONU – com idêntico objetivo, bem mais burilado, é verdade. Erros? Muitos. Como é que, nos dias atuais, podemos aceitar a composição do Conselho de Segurança da ONU? Somente as maiores potências do mundo, ou seja, as chamadas potências aliadas da Segunda Guerra Mundial, quais sejam, EUA, Reino Unido, França e Rússia, além da China, integram o bloco dos membros permanentes do referido Conselho. Um absurdo! Essas potências são as donas desse pedaço do Universo, chamado Terra? 
A ONU diz lutar para acabar com conflitos pelo mundo afora. Contudo, ela não luta para acabar com a fabricação de armas, com o tráfico de armas pesadas, de fuzis modernos a tanques e outros apetrechos bélicos. Por quê? Ora, quais os países que sustentam financeiramente os programas da ONU? Ou, quais os que mais financiam? Eis o problema. Exatamente, os que mais fabricam e vendem armas. 
Os fanáticos estão por aí. Eles vêm aumentando em número. Aumentam os grupos radicais sanguinários (Talibãs, Al Qaeda, Boko Haram, Estado Islâmico etc.). Aumentam os seus seguidores. Quem os financia? De onde provém o dinheiro que eles pagam pelas armas que adquirem no “mercado negro”? Aliás, dizem alguns especialistas que o Boko Haram mata mais do que o Estado Islâmico. Bem, nesse caso, matam pobres negros africanos. O que temos a ver com isso? Nada? Que absurdo! 
Bem. Muitas são as perguntas. E muitas respostas são esperadas. 
Não podemos admitir a barbárie. Venha de onde vier. Do Oriente ou do Ocidente. Os dois lados têm se mostrado selvagens. Desde quando? Desde sempre. Não queremos defender os ocidentais, mas, a bem da verdade, a barbárie promovida pelos terroristas espanta pela frieza, pela crueldade desmedida. É preciso, entretanto, que nos voltemos, nós ocidentais, para o que fizemos e, também, sofremos, no passado e para o que ainda fazemos contra os orientais, hoje. Não somos donos do mundo. Não somos donos da verdade. Não somos donos dos destinos de todos os povos. Somos donos de muitas armas. Das mais mortais. E as vendemos a quem tem dinheiro para comprá-las. As consequências? Nós estamos experimentando. Dolorosamente. 
Por outro lado, o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, em 7 de janeiro passado, parecia ser o clímax da ação terrorista em França? Qual nada! O pior estava por vir. Ou ainda estará? Queira Deus que não! Abaixo o terror! Abaixo a morte! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 de novembro de 2015. 
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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