13/01
11:41

Um Santo de Pau Oco

José Lima Santana
Professor da UFS

Naquele ano, ano de mais uma seca horrenda, e que era 1932, o povo do sertão do Poço do Boi a Gruta da Onça, das cabeceiras do Riacho do Alecrim ao encontro deste com as águas sempre barrentas do córrego do Morcego, enfrentou fome e sede. Mais uma vez. Desde os tempos de Dom Pedro II que vinha sendo daquele jeito.

Promessas de acabar com a seca vinham desde que o Coronel Afonso de Brotas e Alencastro se tornou o Barão do Alecrim. Como? Ninguém jamais soube. Deduzia-se que o título de nobreza a ele concedido por favor de sua Majestade foi em razão de o Coronel Afonso ter mandado fazer uma estrada que ligava Borda do Alecrim, cidadezinha enxofrada, de pouca valia, ao Matão de Dentro, esta, sim, uma cidade de peso e nome no sertão. A estrada estendia-se por umas três léguas e meia. Deduzia-se também que o genro do Coronel, deputado à Assembleia da Corte com prestígio junto aos ministros de sua Majestade, teria conseguido o título de nobreza para o sogro, pai de filha única a deixar terras, engenhos, gado e comércio de algodão para engrossar o já grosso patrimônio do genro deputado com carreira política garantida, quem sabe para ser ministro do Império, algum dia. Título de nobreza mais esquisito só mesmo o do Barão da Patioba. Para este é que nunca teve explicação.

A seca de 32 foi mais braba do que a de 1911, a pior desde a de 1872. Era o que se dizia. Os mais velhos, os sertanejos de raiz enterrada na terra como árvore graúda, baraúna e jequitibá, por exemplo, mas, ainda, rijos como pau-ferro, lembravam muito bem daquelas secas celeradas. Porém, ninguém dizia o contrário em relação àquela de 32. A besta fera parecia ter-se soltado nos desvãos do tempo e ali estava ela a atiçar o sol e a esconder as nuvens carregadas de chuva. O sertão pegava fogo, como nunca visto antes. Até urubu, aproveitador de tudo que é tipo de carniça, precisou mudar de ares. Uma calamidade se abateu sobre o sertão. Aquela seca tinha cara de herege, como bem o disse Sá Donana de Teodoro Pena de Brotas, aparentado com o velho Barão do Alecrim, que há muito se mudou para a cidade de pés juntos.

Levas e levas de sertanejos desciam todos os dias para a região do Brejo em busca de, no mínimo, uma cuia de farinha para saciar a fome e uma cabaça de água para matar a sede. As estradas e as veredas enchiam-se de gente magra, que mal caminhava, bamboleando como espantalhos sacudidos pelo vento. As cidades do Brejo não podiam conter tantos retirantes. E estes continuavam a bambolear no rumo da capital. O governo do estado não sabia o que fazer. A oposição lascava o interventor federal, através dos jornais. Enquanto isso, o povo continuava sofrendo com o descaso das autoridades.

Em Caçambinhas, povoado com pretensões de virar cidade, apareceu no início de outubro daquele ano, 32, um sujeito de Bíblia na mão, dizendo-se mensageiro de Deus. Era um tipo magricela, alto, dentuço, vestido num terno preto surrado, sem gravata, cabelos desgrenhados. Voz de trombeta, anunciava o fim do mundo. O mundo, dizia o tipo, seria destruído pelo fogo. O sol aproximar-se-ia da Terra e soltaria labaredas imensas que destruiriam tudo em poucas horas. Mas, segundo a sua pregação, se o povo tivesse fé, se deixasse de lado as maledicências, se dobrasse os joelhos diante de Deus, o mundo poderia ser salvo. E ele, o missionário João Miguel, esse era o seu nome, estava ali enviado por Deus, que escolheu aquele lugar perdido no sertão afogueado para dali mostrar o seu poder e a sua misericórdia para salvar a humanidade.

Às pregações do missionário acorriam magotes de gente. Os desvalidos tentavam agarrar-se ao que lhes vinha à frente. E ali estava o salvador do mundo, o emissário do Senhor, com orações fortes, para desfazer o desmantelo que estava para ocorrer a qualquer momento. Mais que depressa, o missionário João Miguel tornou-se santo. O povo assim o quis. Milagres começaram a ser relatados. Visões do céu se abrindo, e lá nas alturas via-se o missionário ao lado de Jesus, que estava ao lado direito do Pai. Uma velhinha quase morta de fome viu duas rolinhas caldo-de-feijão cair-lhes no colo. Ela as depenou e as assou num espeto improvisado e matou a fome que lhe devorava. As rolinhas caíram após uma oração do missionário. Eram muitos os relatos de milagres creditados ao missionário magricela com voz de trombeta. Se a seca tangia levas de gente do sertão para a região do Brejo, levas ainda maiores começaram a chegar a Caçambinhas.

A fama de santo do missionário João Miguel já se tinha espalhado por todo o estado. Até um deputado com interesse na emancipação de Caçambinhas passou a dar guarida ao santo do sertão. E levou mantimentos, farinha de mandioca e carne seca do Rio Grande, para distribuir com o povo, aglomerado em torno do santo missionário. Era o deputado Leonardo Monteiro, que tinha ali nas redondezas um bom curral eleitoral e esperava emplacar um seu irmão como futuro prefeito da nova cidade.

O missionário convocou o povo para orar no dia 30 de outubro. Era o dia em que Deus ouviria as súplicas dos fiéis, contendo o fim do mundo. O sol haveria de parar no centro da abobada celeste, como ocorreu, em Gabaon, no tempo de Josué, que lutava com os seus valentes contra cinco reis: o rei de Jerusalém, o rei de Hebron, o rei de Jarmut, o rei de Laquis e o rei de Eglon. Assim como Josué, o missionário invocaria o santo nome de Deus, pedindo-lhe que fizesse o sol parar. A partir dali o mundo estaria salvo. As chuvas cairiam abundantemente sobre todo o sertão e nunca mais haveria seca.

No dia aprazado pelo missionário, Caçambinhas mais parecia um formigueiro. Uma romaria imensa, como as águas de um rio caudaloso, tomou conta do povoado e de seus arredores. As estradas e as veredas entulhavam-se de peregrinos. O missionário de cabelos desgrenhados agitava as pessoas com sua voz de alto-falante. A glória de Deus seria manifestada diante do povo. Ao meio-dia, o sol estacionaria sobre o povoado. O mundo estaria salvo. Por volta das onze e meia, as pessoas entraram em frenesi. Aproximava-se o momento em que Deus mostraria o seu poder e a sua misericórdia. O sertão tinha o seu santo.

Meio-dia. Delirando, muita gente viu o sol se deter no céu. “Glórias a Deus” e “Aleluias” irromperam no povoado. Gritos, choros e gemidos. Devotos caíram de joelhos diante do missionário, cujo suor escorria pelo rosto como água de bica. Afinal, a temperatura devia estar na casa dos trinta e tantos graus. Todos suavam em bicas. O tempo passou. Porém, o sol também passou. Não tinha se detido nem por um segundo sequer. A certo momento, alguém gritou: “O sol não parou, não”! Outras pessoas repetiram o grito. O frenesi, este, sim, parou. Zezinho de Zé Geraldo, adversário do deputado Leonardo Monteiro e que, como tal, era contra a emancipação de Caçambinhas, descrente, desde o primeiro instante, das orações do missionário, alardeou: “Esse missionário é um santo de pau oco”.

E foi assim que o missionário João Miguel sumiu de Caçambinhas. Naquele mesmo dia, muita gente desorientada e desiludida retirou-se do povoado. O sol também acabou se retirando para dar lugar a mais uma noite. A seca continuou até junho de 33, quando os primeiros chuviscos começaram a refrescar a terra.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/01
12:06

Revelação na véspera do Ano Novo

José Lima Santana
Professor da UFS

Totinha de João de Maria Goré era o tipo de sujeito descrente de tudo. Ateu, ateu ele não era. Afinal, de vez em quando ele dizia um “se Deus quiser”, ou um “Deus lhe pague”. Quando advertido, ele dizia ser por força do hábito, do costume, da cultura cristã impregnada em sua vida pela própria família e pelo povinho dali.

Embora descrente dos mistérios do céu, como costumava dizer Dona Celina de Maria Goré, tia de Totinha, esta, sim, crente até demais, igrejeira de dar comichão no sacristão Zé Perneta, sempre que ele a via aproximar-se da Igreja Matriz, pois ela o fazia até nas horas mais inconvenientes, como nos momentos em que o sacristão, dada a hora, tinha a obrigação de fechar a casa de Deus, Totinha era por demais solícito nas precisões do padre Malaquias. E dona Celina tinha uns rompantes para rezar diante da imagem de Santa Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis, na religiosidade popular católica. 

Aproximava-se o fim do ano. A caminho estava 1999. Ano em que dona Celina esperava que o sobrinho lhe desse umsobrinho-neto. Casado há quatro anos, o rapaz era citado nas prosas dos amigos como galo de ovo goro. Não tinha tutano para fazer um filho. E ninguém dissesse que o problema era lá da mulher dele, Ceicinha, que filho ela já tinha, do primeiro casamento dela com Marcelo de Pedro Costa, que, coitado, morreu chifrado por um boi guzerá, que marchante ele era. O pobre homem nem viu o filho nascer. Ao morrer o marido, Ceicinha, que tinha apenas 18 anos, estava grávida de três meses. Marcelo Costa morreu no alto dos seus vinte anos. A morte causou uma comoção pouco vista igual na cidade. Ele era muito querido. Pessoa do bem, dado com todo mundo, direito como o pai, os tios e o avô, Severino Costa, o primeiro comerciante de tecidos da jovem cidade, na década de 1950. 

Então, se no decorrer de quatro longos anos, longos no dizer e sentir de dona Celina, tia e madrinha de batismo de Totinha, este não fora capaz de emprenhar a mulher, que mãe já era, o problema estava com ele. Nenhum homem da família Goré tinha, até aqueles dias, faltado com o seu dever de macho, de pai d’égua testado e aprovado. As rezas para Santa Rita não tinham adiantado de nada. Ainda não. Para dona Celina, a santa poderia estar dando voltas até chegar no ponto de favorecer Totinha. 

O casamento de Totinha com Ceicinha, viúva de Marcelo Costa, ocorreu cinco anos e meio depois da viuvez dela. Totinha era quase um bronco em termos escolares, pouco tendo estudado, mas, já bem postado na vida, como comerciante de cereais, na feira da cidade e em feiras da região. Seguiu os passos do pai. Desde muito cedo, acompanhou o pai nas feiras. Aprendeu com facilidade a vender e comprar feijão, fava e milho em caroço. Aos quinze anos, já tinha o começo de um pé de meia. Dali em diante, foi só prosperar. Era um sujeito apessoado. Não fazia feio diante de moça nenhuma. O casamento com Ceicinha foi bem recebido pelas duas famílias. E também pela família do finado Marcelo, que confiava nos cuidados de Totinha para com o enteado, Lucas Matheus. 

As agonias da tia e madrinha de Totinha em relação à falta de um filho por ele gerado, não estava nas preocupações dele e da mulher. Mãe ainda muito jovem, e sem ter tido tempo para bem viver a vida de casada com o primeiro marido, ela aproveitava a vida a dois atual para viver um namoro prolongado. Era feliz com o marido e o filho do casamento anterior. Se Marcelo foi um bom companheiro no tempo de menos de um ano que durou a vida em conjunto dos dois, Totinha excedia em zelo e demonstração de felicidade ao lado dela. E Lucas Matheus encontrou em Totinha um paizão. Em suma, família feliz estava ali. 

Dona Celina fez e refez promessas. Pediu e rezou para vários santos. Agarrou-se com o Senhor dos Aflitos. Apelou para o “santo” do Juazeiro, PadimCiço Romão Batista. Nada. Diante de tudo aquilo, não lhe restava dúvida: o caso de Totinha só poderia ser resolvido com o adjutório de um bom médico, daqueles que faziam mulher com o ovário destrambelhado parir dois ou três filhos de uma vez. Na Bahia, dizia-se, havia um médico que fazia milagres. Era para lá que Totinha deveria tomar rumo. O padre Malaquias seria consultado, para saber se o tratamento médico era conforme a lei de Deus. 

Consulado, o padre viu-se num beco quase sem saída. De um lado, ele poderia fazer crer que os santos não tinham operado o milagre que Dona Celina esperava. Do outro lado, não poderia negar os benefícios da medicina moderna, na área da genética, até onde a bioética permitia. O padre titubeou. Pediu um tempo para consultar o bispo e para, ele mesmo, orar pelo bem do casal. Não iria consultar o bispo coisa nenhuma. Era só para ganhar tempo, para ver se algo aconteceria naturalmente. E foi então que o pároco, já andado nos anos de sacerdócio, intuiu de ter uma conversa com Totinha e Ceicinha. Ele, descrente. Ela, devota do Sagrado Coração de Jesus. Umas semanas depois, dinate dos muitos afazeres, o padre, que fez lá suas orações, foi ter com o casal. 

A conversa a três deu-se na casa do casal, num sábado à noite, depois da missa. Ofereceu-se o padre para jantar com eles. Não era a primeira, nem a segunda vez, que o padre Malaquias se alimentava na casa de Totinha e Ceicinha. A bem da verdade, o padre era freguês da boa comida de Ceicinha, que, deveras, era uma senhora cozinheira. Naquela noite, foram servidos um assado na brasa de carne de sol, um lombo velho de frigideira, recheado, que era uma delícia, uma fritada de maturi, que era um verdadeiro manjar dos deuses, e que o padre tanto adorava. Arroz temperado, farofa de ovos e banana da terra. Suco de jenipapo para o padre, que ele bebia um ou dois litros. 

Depois da comilança, Lucas Matheus foi dispensado para brincar na rua pacata com os vizinhos de sua idade, Valtinho de Cecílio de Pai João, Dudu de Catarina e Pituca de dona Célia de Jaime Porto. O casal, então, pôs a ouvir o padre que, sem rodeios, entrou na conversa franca. Após ouvir tudo o que o padre lhes disse, os dois entreolharam-se, sorriram, até que Totinha disse: “Seu padre, tia Celina não anda bem da bola. Como ela é solteirona, não arranjou um homem para casar, ou não quis ter marido, ela nos aperreia, querendo um sobrinho-neto, embora já tenha muitos. É que ela me tem como filho, minha madrinha que é. Eu compreendo os aperreios dela. Mas, aqui pra nós, e o senhor vai guardar segredo, como se a gente estivesse em confissão, eu e Ceicinha vamos dar de uma vez dois irmãozinhos a Lucas Matheus. Ceicinha está grávida de gêmeos. A gente soube esta semana. E só vai dizer aos parentes na noite da véspera do Ano Novo. Vai ser uma festa, com certeza. Lucas Matheus tem cobrado um irmão. Vai pular de alegria com dois”. 

Ah, o padre Malaquias saiu esfregando as mãos de contentamento e agradecendo a Deus! E dona Celina haveria de pagar todas as promessas feitas. Haveria, sim. Como dito, na noite de 31 de dezembro, quase toda a parentela dos dois lados reunida na casa do casal, que a todos tinha convidado para celebrar a passagem do ano, eis que a revelação foi feita: Ceicinha daria à luz a gêmeos. Alegria geral. 

No dia seguinte, dona Celina bateu-se para a casa do padre. Foi agradecer-lhe. A reza do padre era mais forte do que a dela. Ou os santos teriam demorado de propósito para lhe atender? Ela ficou na dúvida. Porém, estava feliz. Era o que importava. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/12
11:53

Os brincos da defunta

José Lima Santana - É padre e professor do Departamento de Direito da UFS


O padre Toinho tinha a pretensão de instalar um bazar permanente numa das salas do prédio onde funcionavam as pastorais e os movimentos eclesiais. Era para vender a preços simbólicos produtos diversos, coletados entre as famílias, que doassem peças usadas de vestuário, mas, em boas condições de uso, e lojas que descartassem artigos encalhados, sobras dos famosos “saldões”.

Que padre inventivo era o padre Toinho! Com vinte e tantos anos de sacerdócio, ele estava na sua quarta Paróquia. Por onde passou, deixou um rastro benigno de realizações, de atendimento e de estreita camaradagem até com pessoas de outros credos. Um homem de Deus, na melhor compreensão do termo. A Paróquia Nossa Senhora das Graças tinha um território imenso, cobrindo, além da cidade, quase trinta povoados. Um mundão largado com gente deveras precisada da Palavra. Não tinha tempo ruim para o padre Toinho. Chovesse ou fizesse sol, lá estava ele atendendo a todos com paciência. “Um padre é ordenado para servir”, costumava dizer.

Dona Cecília Amarante, viúva do tabelião Jerônimo Rivas Amarante, era a presidente da Ação Social da Paróquia e encarregada de mobilizar um grupo de senhoras para dar início ao processo de criação do “Bazar das Graças”. Na segunda-feira depois da procissão da festa da Padroeira, Dona Cecília procurou o padre Toinho na casa paroquial. Era por volta das quatro da tarde. A caridosa senhora foi encontrar o padre cuidando de um magote de sapos, no quintal àquela hora sombreado. Eram muitos sapos. O padre os criava para dar conta dos insetos. O padre a recebeu animado, como sempre. A diligente senhora levou uma boa notícia. A família de Dona Zéfira Cardoso de Barros Mesquita, beata solteirona e bem aquinhoada de bens, herança dos pais, que foram donos de quase metade da cidade, resolveu doar roupas e vários outros pertences de uso pessoal, vez que a ricaça tinha batido as botas há dois meses.

O tanto de pertences em geral da finada Dona Zéfira já era suficiente para dar início ao “Bazar das Graças”. Eram caixas e caixas. Roupas, sapatos, bolsas, joias, bijuterias e o diabo a quatro. Tudo da melhor serventia.

Duas semanas depois, o Bazar estava com as portas abertas. Abriu no domingo, depois da missa das sete da manhã. A sala ficou pequena para tanta gente à procura de bons produtos. Não durou duas horas, e a maioria dos pertences da finada Dona Zéfira tinha sido comprada.

Dona Izaldina de Chico Fanhoso comprou um par de brincos. Assim que ela botou os olhos na joia, achou que era coisa fina. De ouro maciço. Discretamente, ela levou os brincos à boca, para conferir a dureza. Não havia dúvida. Era ouro do bom. Os brincos haveriam de lhe cair muito bem. Discretos, bem talhados, uma lindeza. Melhor aquisição não poderia ter feito. A felizarda compradora haveria de aposentar os brincos de bijuteria que ganhara de uma comadre.

O que Dona Izaldina não sabia era que os brincos adquiridos pertenceram à avó materna da finada Dona Zéfira, a também finada Dona Amélia, neta do Barão da Patioba, um sujeito que, no século XIX era metido a fazer químicas num arremedo de laboratório que explodiu umas quatro vezes, sem maiores danos. Da avó, os brincos passaram para a mãe da finada Dona Zéfira, Dona Caçulinha, e desta para a última defunta da família Barros Mesquita. Ou seja, era uma joia de família, que na família deveria ter sido preservada.

Diziam as boas línguas, para não dizer outra coisa, que a finada Dona Amélia era conhecida, em vida, como a rapa da peste. Malvada, mandona, que aplicava castigos infernais nos serviçais de sua casa, aliás, um velho sobrado, que se dizia na cidade que era mal-assombrado. Invencionices do povo. A velha era odiada por todos. O contrário dela era o irmao, o finado Joaquim Francisco de Barros Mesquita. Homem de coração extremamente bondoso, foi o primeiro empresário a pagar a gratificação natalina no estado, que, depois, viraria o 13º salário, além de ter dado assistência a centenas de pessoas carentes, todos os meses. A finada Dona Zéfira desdenhava da filantropia do marido.

Numa noite de trovoada repentina em que Dona Izaldina voltava de uma festa de aniversário, chegando em casa ao roncar dos primeiros trovões, ela como que viu, entre os clarões dos relâmpagos, que não eram poucos, a silhueta de uma mulher de cara enfezada, sentada na sua cadeira de balanço, que ficava na sala de estar. Um arrepio assustador percorreu o seu corpo por inteiro. Ela sentiu uma presença malfazeja na sala.

Persignou-se. Uma mão esquálida e gélida parecia tentar tocar-lhe o rosto. Um bafo esquisito e de cheiro ruim, se fez sentir. Com voz trêmula, ela gritou: “Cruz-credo!”.

A mão esquálida e gélida pousou sobre a sua orelha direita, como se lhe fosse arrancar o brinco de ouro. Ela levou a mão à orelha tocada. O brinco desprendeu-se e caiu no chão com um barulho tão forte como um trovão. A silhueta na cadeira de balanço pareceu agigantar-se de forma demoníaca. Era um monstro. Dona Izaldina deu garra do terço benzido pelo padre Toinho e, corajosamente, marchou para a silhueta maldita. Começou a rezar com voz esganiçada. A sala tremeu. A casa tremeu. Os trovões e os relâmpagos aumentaram. O outro brinco desprendeu-se também e fez um barulho ainda maior que o primeiro. A oração de Dona Izaldina continuou. Duas mãos esquálidas e gélidas pareciam lhe asfixiar. Logo, a oração ficou entalada na garganta.

Na agonia, Dona Izaldina pôde lembrar do que lhe dizia sua mãe de saudosa memória: um artefato de metal punha em fuga uma assombração. Ela sacou do cabelo um grampo pontiagudo de metal, “enfiando-o” na cabeça da silhueta maldita. Um urro medonho fez-se ouvir. Dona Izaldina caiu no chão diante da força do urro. Desmaiou.

Ao dar cor de si, ela estava com os brincos nas orelhas. Não havia nada de anormal.

Subitamente, a trovoada cessou. Mas, por precaução, ela nunca mais usou os brincos da defunta. 

Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
09/12
13:24

Alma Penada

José Lima Santana
Professor da UFS

A Praça João do Capucho tinha forma triangular. Rodeavam-na vinte e um eucaliptos frondosos, plantados pela Municipalidade há mais de quarenta anos. Acima da praça, um tiquinho, ficava a casa de Julião de Zé de Jonas, pai de Paulo de Julião, adolescente meio rueiro, que, às vezes, varava a noite em longas conversas com os amigos na Praça da Matriz. Era um bom rapaz, estudioso e trabalhador, que ajudava o pai na solta de gado, no Engenho de Baixo. O fato de ser meio rueiro não dizia nada. Era por causa dos encontros com os colegas do Ginásio Padre Cabral, para falarem dos namoricos, dos filmes de bangue-bangue ou de espadachim etc., a que assistiam no velho Cine São José. Nada demais. Era no tempo em que violência exacerbada e drogas, por exemplo, não faziam morada em Capão Redondo, cidade em franco progresso depois que a estrada de rodagem foi asfaltada, passando nas costas do arruado. Corriam os meados dos anos 1970.

Numa noite fresca, prenúncios do inverno, a lua cheia reinando no céu estrelado, que mais parecia um bordado de pipocas cintilantes, Paulo de Julião demorou-se além da conta, ou seja, da hora que deveria chegar em casa, pois Julião tinha hora marcada para tudo, até para o filho chegar em casa, à noite, depois das sessões de cinema, do momento dançante, no Hi-Fi do Clube Eldorado, dos bate-papos com os colegas, dos espetáculos circenses ou das touradas que aportavam na cidade, quando era o caso. 

Naquela noite, a conversa entre os ginasianos fora demasiadamente acalorada. Política. Eleição municipal à vista. Aqueles alunos do Ginásio Padre Cabral não eram eleitores. Nenhum dos integrantes do grupo de bate-papo de Paulo de Julião tinha dezoito anos. Porém, não eram alheios às questões políticas, locais ou não. O grupo dividia-se entre os pró-americanos e os pró-russos. Então, alguns defendiam o governo militar e outros o combatiam. Entre eles, todavia, reinava a mais absoluta união, exceto no caso de Jorginho de Valter Gordo e Abelardo de Maninho Alfaiate, que, vez ou outra, batiam boca por causa de algumas meninas, que eles disputavam platonicamente, sem que elas lhes dessem bola. Eram, como todo o respeito, os babacas do grupo. 

Paulo de Julião era destemido para qualquer tipo de situação. Disso já tinha dado provas sobejas. Um dia, só para ilustrar, dois marmanjos armados com facas tentaram arrancar a bolsa de Dona Fatinha de Manoel de Juca, mas eis que Paulo, armado com uma retranca de janela, botou os dois para correr. Ao cabo do ocorrido, Dona Fatinha disse: “Este menino é peia. É do tipo que caga no sapato e não mela a meia”. O rapaz era, sim, destemido, menos para as coisas do além. Falasse em situações do outro mundo, do mundo dos mortos, e ele se afrouxava todo. Não tinha quem o fizesse assistir a um filme de terror. Os filmes de Drácula com Christopher Lee? Nem pensar. Olhar a cara de um defunto acomodado no pijama de madeira? Nem em sonho. Num daqueles anos, mais uma vez, rolou a conversa de que um lobisomem andava de corrida pelo Beco de Zuzinha, que era ponto de passagem de Paulo de Julião. Ele passou a encompridar o caminho, mas não atravessou mais o tal beco, ao menos enquanto durou a conversa. Aliás, conversas de corridas de lobisomens eram comuns. E havia até mesmo quem afirmasse que tivera um encontro com tais bichos bebedores de sangue. Contudo, rastro deles, pelos deles extraídos, ou fosse lá o que fosse em termos de provas, ninguém jamais mostrou. Porém, crença era crença, por mais absurda que fosse. 

Uns dias antes daquela noite, tinha falecido uma moça balzaquiana, na esquina do Beco de “seu” Dadá com a Praça João do Capucho. Paulo de Julião demorou-se, como já foi dito, na conversa acalorada com os colegas. Quem deveria ser o candidato a prefeito do atual prefeito, Joãozinho da Flor da Índia? Alguns dos rapazes achavam que quem o prefeito indicasse, ganharia folgadamente a eleição. Outros achavam que a oposição, formada pelos principais fazendeiros do município, tiraria, daquela vez, o poder de mando do prefeito, que contava com três mandatos, intercalados por dois prefeitos por ele indicados. Ao todo, pois, eram vinte anos de mando, somados os cinco mandatos. Joãozinho era do tipo populista, mas que procurava servir os mais pobres. Daí o seu mandonismo na política local. A maioria dos ricos o detestava. 

A conversa foi-se aprofundando. Naquela noite, o grupo contava com nove rapazes. Um deles era sobrinho de Totoinho do Salobro, pretenso candidato a prefeito pela oposição. Os dois grupos políticos da cidade eram da ARENA, o partido governista. O governo dos militares arranjou um jeito de controlar a maioria dos cargos eletivos, em todos os níveis, criando uma situação esdrúxula, que era a sublegenda: ARENA I e ARENA II. Nalguns lugares havia até a terceira sublegenda. Bastava que três grupos obtivessem um número mínimo tal de votos na eleição para a composição do Diretório Municipal. Assim, os militares conseguiam sufocar o partido oposicionista, o MDB, elegendo a maioria esmagadora dos prefeitos do país inteiro. 

Quando Paulo de Julião resolveu ir para casa já passavam alguns minutos da meia-noite. Despediu-se e tomou o rumo do subúrbio onde morava, logo depois da Praça João do Capucho. Atravessou a Rua da Mangueira, a Rua do Melão e a Rua do Xixi. Todas de chão batido. Na confluência do Beco da Cruz do Carira o vento fez um ligeiro redemoinho, levantando poeira e folhas secas. O rapaz assustou-se. Um calafrio tomou-lhe o corpo. Apressou o passo, olhando para trás a cada instante, sinal de medo. Enfim, chegou à Praça dos vinte e um eucaliptos. Alívio. Estava a alguns passos de casa. Ainda assim, não deixava de olhar para trás, como se alguém o estivesse seguindo.  

Ao atravessar a boca do Beco de “seu” Dadá, exatamente na esquina onde se situava a casa da moça há pouco falecida, Paulo de Julião olhou para o oitão da casa. As pernas tremeram. Ele quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta. Quis correr, mas as pernas não responderam ao comando do cérebro. Encostada na parede caiada, eis que estava a morta lhe acenando com as duas mãos. Igualzinha como ela era. Ou quase. Vestida com um vestido marrom claro, mas, cadavérica. Ele pôde ver nitidamente o rosto sem cor de gente viva, que a pobre defunta apresentava, pois tinha virado assombração, alma penada. Nenhum sinal de viva alma por ali. Ninguém que lhe pudesse socorrer. E a defunta não parava de lhe acenar. Quantos minutos tinham se passado? Ele não atinava. Sentiu o suor frio, gélido, escorrendo da testa. A defunta lhe acenava com as duas mãos, como se estivesse lhe chamando para os seus braços. Lembrou-se, sabia-se lá como, mas, lembrou-se, de que, um dia, sua prima Gequinha, amiga em vida da defunta, lhe dissera que ela o achava bonito, um pão, como na época se dizia. Naquele instante, ela o chamava. Não deveria ser um bom sinal ser chamado por uma pessoa morta. E ela emitia uns sons de lamento, agudos, arrastados, como se estivesse sofrendo. 

De repente, como se algo tivesse desanuviado seus olhos, na parede caiada do oitão da casa da defunta, Paulo de Julião viu apenas a réstia dos galhos de um eucalipto balançando-se, naquela noite de lua cheia. E ele ouviu o sussurro do vento nas galhadas. Nada mais.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/12
09:54

Recibo de Galinhagem

José Lima Santana
Professor da UFS

Tarde invernosa aquela em que João Fuinha resolveu dar uma de macho arretado. Afinal, em que pesava o seu porte de graveto, um homem, largo de ombros ou murcho de muques, não deixava de ser homem. Naquela tarde chuvisquenta, um novo Davi enfrentaria um novo e malvado Golias.

Recuando um pouco no tempo, anterior àquela tarde, João Fuinha era um vendedor de louça de barro, que ele mesmo produzia juntamente com a mãe, Dona Corália do finado Petrônio Zambeta, e duas irmãs de menor idade. O pai falecera uns três anos antes, vítima de uma jararaca, que lhe picara à altura do calcanhar, no caminho do açude. Lugarzinho brejento, onde cobras pareciam brotar dos fundos da terra. Zeloso com a família, João tornara-se o homem da casa com a morte do pai. Tinha quatorze anos quando o pai se fora. 

João Fuinha tinha pela mãe verdadeira veneração. Mulher franzina de quem ele herdara o porte chocho, mas de uma fibra de fazer inveja a qualquer mulherão. E em relação às duas irmãs, Cordélia e Carolina, gêmeas de treze anos, o rapaz velava como um valente cão de guarda. 

Em Matão das Almas, cidade antiga, mas que adormecera no tempo, deixando que antigos povoados, como Mamoeiro e Candeias, lhe tomassem a dianteira em crescimento, vivia um tal de Tertino de João Cadú, sujeito de bofes ruins como a peste. Antigo capanga do coronel Benildes dos Pastos Novos, arruaceiro, acostumado a dar surras em pobres coitados, a desmanchar namoros e casamentos, para tomar mulheres alheias, contumaz deflorador de donzelas. “Um dia, ele há de achar um graveto que lhe fure os dois olhos”, disse Esmeralda de Toninho de Pedro Tinoco, cuja sobrinha perdera para ele, à força, os três vinténs.

Cordélia e Carolina voltavam da escola de Dona Maninha por volta do meio-dia e pouco, no comecinho do inverno, que prometia ser bom, para compensar os três últimos anos de seca verde, quando, no Beco de Tatá, que ligava as Ruas do Melão e da Pomba, eis que o famigerado Tertino de João Cadú apareceu atrás delas, riscando o chão com os cascos do cavalo alazão, que lhe servia de montaria, chovesse ou fizesse sol. E dirigiu-lhes a palavra suja nestes termos: “Oceis é tudo fulô no ponto pra conxambrar”. Amedrontadas, as meninas saíram em disparada. O valentão ficou a rir como uma hiena no cio. Risada debochada de capeta disfarçado de homem. 

As meninas disseram à mãe o que lhes tinha sucedido no Beco de Tatá. Dona Corália excomungou o coisa ruim. Preveniu as filhas que não voltassem mais da escola por aquele beco. Atravessassem a Ruas da Pimenta e do Cotovelo de Maria, caminho mais longo, mas muito mais seguro, cheio de gente o tempo todo. As irmãs também disseram a João Fuinha o que ocorreu. O irmão ouviu calado. Apenas acendeu um cigarro de palha com fumo bom de fogo. Fumo do velho Otacílio, que nunca negava fogo. Tirou umas baforadas. Olhou fixamente para as irmãs. Cuspiu longe. “Nada haverá de ser”, disse de si para si mesmo.

Não se passaram dez dias, e o arruaceiro passou a cavalo na porta de Dona Corália, que estava secando panelas de barro no terreiro, aproveitando uma manhã de sol, naquele começo de inverno. “Ô véia, tu num quer um macho só pra suas duas fia, não?”, indagou o debochado, ao que a mãe das gêmeas respondeu, colocando as mãos nos quartos: “Tenha vergonha, seu descarado!”. Nisso, o maldito botou-se para o terreiro e pisoteou muitas panelas, chegando a derrubar a pobre mulher com uma pesada. Dona Corália estatelou-se no chão, quebrando a munheca direita. O bandido deixou um recado: “Diga a seu fio, que parece um caniço de pescar, que se quiser conversa comigo, pra tratar do meu chamego com as duas fulô, que me procure no bar de Aloizio Boca de Caçapa”. 

João Fuinha chegou em casa no começo da tarde. O sol da manhã já se fora. Encontrou a mãe na cadeira de balanço com o braço na tipoia. As irmãs caíram em prantos ao ver o irmão. Duas mulheres, Lourdes de Manequinha e Odete de Floriano Costela Seca, faziam companhia às vizinhas. Uma delas narrou o acontecido, tin-tin-tin por tin-tin-tin, inclusive o recado deixado pelo celerado. João Fuinha não disse nada, além de perguntar se a mãe estava bem. Sim, estava. Dantinhas da Farmácia lhe dera uma injeção e fizera uma mistura de breu derretido com clara de ovos, para encanar a munheca quebrada. Sim, Dona Corália estava bem, embora o coração sangrasse. Temia pelas filhas. Que Deus não permitisse que elas caíssem no bico de urubu de Tertino. 

O tinhoso parecia ter feito morada no corpo de Tertino de João Cadú. Só podia ser, pensou João Fuinha. As irmãs ameaçadas. Duas flores desabrochando. Que jamais chegariam para o bico do carniceiro. Não enquanto ele, João, fosse vivo. A mãe naquele estado, arrebentada por uma pesada do vagabundo. As panelas quebradas. Dali vinha o sustento da família. Por uma situação daquelas, um homem perdia a cabeça, fazia uma desgraça e botava-se no mundo. 

João Fuinha sentou-se no batente da porta da cozinha. Acendeu um cigarro de palha. Fumo bom, queimando sem parar. Tão diferente do fumo de Antenor Biriba, que se apagava, tantas vezes o cigarro fosse aceso. Fumo ruim, uma lástima. Ruim como aquele cabra safado do Tertino. A mãe naquele estado, as irmãs amedrontadas. E as panelas. Um desaforo, que um homem não podia engolir. Mas, como enfrentar o valentão, o antigo capanga do coronel Benildes? Ele, João, era um tico de gente. Nunca usara uma arma, nunca brigara com ninguém, não tinha os bofes quentes como uns seus parentes da parte do pai, lá do Coração do Nêgo, povoado da beira do rio das Antas. 

Chamando uma das vizinhas, João pediu que cuidasse da mãe e das irmãs, se algo lhe acontecesse, logo mais. Porém, por ora, não dissesse nada a ninguém, nem à mãe, nem às irmãs. A ninguém mesmo. Ele confiava em Dona Lourdes, que era sua madrinha de fogueira de São João. Tomou da faquinha de ponta e de picar fumo. Era uma lâmina pequena, fina, mas muito afiada. Uma coisa daquela faria um estrago no bucho seboso de um cachorro sarnento do rabo fino. 

João Fuinha saiu de casa. Passos miúdos, mas firmes. Sabia que não era páreo para Tertino, um bandoleiro da pior espécie. Porém, não poderia passar recibo de galinhagem. Não haveria de se acovardar diante do valentão. Parou um instante. Enrolou um cigarro na palha de milho cortadinha. Fumo do bom. Tirou a primeira baforada. Sentiu um alívio. Se fosse vivo, o seu pai não faria diferente. A honra de suas irmãs não haveria de ficar na lama. Vingada, a sua mãe haveria de ser. Nunca mais alguém haveria de quebrar panelas no seu terreiro. Medo? Não, ele não tinha. Nem passaria um recibo de galinhagem, de covardia. Um homem de sangue no olho e tutano nos ossos. Era assim que ele se sentia. Era franzino, mas era um homem. Desde menino, ele ouvia dizer que graveto era que furava olho. Um chuvisco começou a cair. E foi aumentando. A chuva parecia lavar as dores do mundo. Resoluto, ele dirigiu-se ao bar de Aluízio. 
No dia seguinte, as pessoas ouviram os dobres do sino de finados, na Igreja Matriz. A cidade estava em paz. 


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
12/11
00:16

Maneco Bosta Seca

José Lima Santana
Professor da UFS

Sim. Era este o apelido de Manoel Correia de Souza, agente da Estação Experimental do Algodão, nos tempos em que o algodão era o ouro branco do sertão do Chorrochó. Algodão de qualidade não suplantável dentre todos os produtores era o de Julinho do Pau Ferro, seis vezes vereador e uma vez vice-prefeito de Curral dos Bois, cidadezinha em franco crescimento depois que a estrada de rodagem passou a poucas braças do começo do arruado, na entrada da banda do Sul da povoação. 

Julinho do Pau Ferro era cunhado de Maneco Bosta Seca, casado com a irmã deste, Dona Florinda, que lhe deu quinze filhos, todos vivos, graças a Deus, como se fosse um milagre, numa época e numa região onde os cemitérios enchiam-se de covas miúdas de anjos, como se dizia com os pequeninos que morriam aos magotes, atacados por doenças diversas, sendo as principais delas as que decorriam da água de beber sem nenhum tratamento. Água de tanques, barrenta, carregada de coliformes fecais e toda sorte de imundícies. Dona Florinda estudou até o ginásio e aprendeu a ferver e filtrar a água da cor de suco de maracujá, enlameada nos verões prolongados. 

Maneco Bosta Seca foi empregado na Estação por obra e graça do cunhado, o mais próspero plantador de algodão e o único dono de uma fábrica de descaroçar o referido produto. Além do algodão, a riqueza de Julinho provinha também da criação de gado bovino em três boas fazendas de criar. Ele tinha boas aguadas e extensa plantação de palma forrageira, para aguentar os rigores das secas prolongadas. Porém, os anos de bons invernos suplantavam os anos de estiagem. Mas, darei conta de Maneco. Este recebeu o em nada atrativo apelido nas bancas de jogatina. Numa noite em que ele estava ganhando uma bolada no bacará, começou a caçoar dos parceiros, a contar pabulagem, a sentir-se rico e soltou esta frase: “Do jeito que a sorte me quer esta noite, vou acabar deixando Julinho meu cunhado para trás no quesito riqueza”. 

Ao ouvir a eloquente frase de Maneco, Zé de João de Porfírio de Maria Rita esbravejou: “Fique calado, Maneco. Você parece bosta seca. Não fede, mas é bosta!”. Todos caíram na mais estrepitosa gargalhada. O próprio Maneco sorriu. Claro, a noite era sua. A bolada de dinheiro em sua frente, na mesa, assim o mostrava. Mas, apelido é como erva daninha: quando pega, não sai mais. Maneco Bosta Seca não saiu. Da jogatina, o apelido saiu para todas as bocas. Até o padre João Fagundes, tão circunspecto, o chamava de Manoel Bosta Seca. Jamais de Maneco. Por quê? Sabia-se lá! Cisma de padre velho. 

Julinho candidatou-se a prefeito. Querido por todos na cidade, na situação e na oposição, acabou sendo candidato único. Era a primeira vez que o município teria um único candidato a prefeito em mais de sessenta anos de emancipação. Dele diziam ser “algodão entre cristais”, tal era a sua postura de camaradagem, de saber acomodar confusões. Naquela eleição, Maneco Bosta Seca apresentou-se como candidato a vereador. Também ele era benquisto na comunidade. Provavelmente, teria eleição garantida. Nisso todos apostavam. 

Sendo uma eleição de candidato único a prefeito, o pleito transcorreu na mais perfeita normalidade. Nem seria preciso fazer comícios de povoado em povoado. Apenas um comício na cidade, nas vésperas do pleito, para animar os eleitores. Abdias Sanfoneiro foi contratado para fazer a festa. Naquele tempo, podia. Cada candidato a vereador faria um discurso de dez minutos. Tonho Martelinho, locutor do Serviço de Alto-falante Vera Cruz, era o animador do comício e o controlador do tempo da fala de cada candidato à Câmara Municipal. 

Cada candidato a vereador foi fazendo o seu discurso. Uns eram por demais hilários. Outros não diziam coisa com coisa. Apenas dois deles, jovens ginasianos, filhos de fazendeiros, falaram direitinho. Todos falaram dentro do tempo previsto. Enfim, chegou a vez de Maneco Bosta Seca. Àquela altura, muita gente já tinha bebido todas. Tudo, porém, transcorria em paz. Maneco deitou falação. No tempo certo, Tonho Martelinho deu aviso, puxando na camisa do candidato, que não deu por aquilo. Continuou falando. Quinze, vinte, trinta minutos. O candidato a vice-prefeito, Miguelão de Zacarias do Brejo soprou no ouvido de Maneco: “Tu tem que parar, Maneco!”.
 
Em resposta ao dito de Miguelão, Maneco sapecou: “Estão tentando me impedir de continuar falando. Pois é agora que a garapa vai azedar. Não me chamam de Bosta Seca? Nesta noite, a Bosta está fresca, fresquinha, fresquinha. E só vou parar quando a bosta secar”. Naquilo, um gaiato gritou no meio do povo: “Pare de falar, seu Bosta Seca de bosta. Sua bosta tá mais seca do que a minha goela, que tá precisada de um gole. Desça daí e venha pagar uma bicada pra gente, senão tu vai perder a bosta da eleição”. 

Maneco ainda falou por mais dez minutos, até que se deu por satisfeito. Desceu do palanque e tomou o rumo de casa, que pão-duro ele era. Pagar uma bicada para alguém? Nem pensar. 

A eleição transcorreu na maior normalidade. A contagem dos votos era feita na sede da Comarca, em Piedade. Na única Junta Apuradora, uma única mesa escrutinadora. A contagem dos votos começava pelos dois Termos da Comarca, a fim de liberar as pessoas, para que mais cedo retornassem às suas cidades. Na vez de Curral dos Bois, e contados os votos do único candidato a prefeito, o Juiz Eleitoral, Dr. Aristides de Souza Ramalho, proferia os nomes dos candidatos a vereador, voto a voto. Nas nove urnas eleitorais, a votação de Maneco Bosta Seca não passaria de uns votos pingados. Logo, não seria eleito. Na verdade, amargou um desastroso décimo sexto lugar dentre vinte e um candidatos, para sete vagas na edilidade municipal. 

Terminada a apuração, “seu” Valter Exator, que fez parte da Junta Apuradora, e era amigo de Maneco, disse-lhe: “Maneco, meu amigo, você vai ter que passar uma aguazinha na Bosta Seca. Ela está seca demais da conta e por isso os seus votos secaram.

O candidato derrotado respondeu: “Se passar uma aguazinha quiser dizer gastar dinheiro, a bosta vai continuar seca. E ademais, ‘seu’ Valter, bosta molhada fede”. 

Maneco Bosta Seca nunca mais quis saber de candidatar-se. Há mais de vinte anos, aposentou-se do Ministério da Agricultura. Mudou-se, então, para a capital sergipana, onde os filhos, formados, dois médicos e uma engenheira, residiam. Em Curral dos Bois ficou o apelido. Terça-feira passada, informaram-se que ele veio a falecer aos 96 anos de idade. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/11
13:00

Colégio Tradicional, Ensino Moderno

José Lima Santana
Professor da UFS

A educação tem sido um desafio ao longo dos milênios, tanto para os governos, quanto para os que se têm lançado no campo da iniciativa privada. Desde a Edubba sumeriana, tida por muitos estudiosos como a mais antiga instituição escolar formal, a educação vem desafiando os educadores. Sistemas de ensino surgiram e desapareceram ao longo dos séculos. De início, no Ocidente, a educação somente chegava aos nobres. Aos poucos, os governos foram se dando conta da necessidade de educar o povo ou parte deste. Camadas imensas da população por muito tempo não puderam pôr os pés numa escola, pública ou privada. Naquela, não havia vagas para todos; nesta, não tinham os pais suficientes recursos para custear o estudo dos filhos. Um dilema que se arrastou pelos tempos afora.

Na contemporaneidade, ou, como queiram, na época pós-moderna, especialmente da segunda metade do século XX para cá, muitas instituições de ensino foram surgindo no Brasil. Em Sergipe não seria diferente. Entre nós, em 1960, o Mons. José Carvalho de Souza houve por bem, e sob os auspícios da Arquidiocese de Aracaju, fundar o Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus, tão popular e carinhosamente nominado de ARQUI. Do Colégio Arquidiocesano saíram gerações de profissionais do maior respeito e da mais escorreita competência, nas mais diversas áreas, proporcionando inestimáveis serviços à sociedade sergipana. 

Nos últimos anos, o ARQUI passou e vem passando por mudanças no seu corpo administrativo e pedagógico, após a saída do seu fundador. No momento, por exemplo, apesar de especulações infundadas, ou de falas incompreendidas, mal interpretadas e distorcidamente divulgadas, o ARQUI está procurando se renovar. Na Unidade da Farolândia, diga-se de passagem, o Colégio está em franca expansão com a construção de novas e modernas salas de aula, para abrigar, em 2019, turmas até o 9º ano do ensino fundamental. Na Unidade do Centro, que vozes agourentas disseram que iria fechar, uma nova e moderna biblioteca está sendo aparelhada. Logo mais, e até o início das aulas no próximo ano letivo, será a vez da remodelação do ginásio de esportes, também no Centro. E assim por diante. Os investimentos continuarão em 2019 e 2020, dentro do planejamento que está sendo elaborado.

Enquanto “olhos vesgos”, que provocam “maus olhados”, anseiam pela derrocada do ARQUI, o Colégio fundado pelo Mons. Carvalho, agora entregue à gestão do padre Valtewan, com o apoio de todos que formam os corpos de coordenação, docente e administrativo, seguirá o caminho que foi traçado há quase seis décadas e que está sendo aprimorado, paulatinamente, para corresponder à confiança que lhe vem sendo depositada pelos seusinestimáveisalunos e respetivos pais. 

A luta dos últimos anos tem sido dura, mas firme e consistente. As dificuldades inicialmente enfrentadas pela atual diretoria vêm sendo vencidas com esforço e dedicação. Há, internamente, pontos a serem ajustados e, com certeza, o serão no menor lapso de tempo possível. 

Na parte pedagógica, ajustes continuarão a ser feitos, nas duas Unidades (Centro e Farolândia) com vistas a ensejar ainda mais o melhor aprendizado dos alunos como os pais almejam e os alunos merecem. O ARQUI prepara-se para continuar a atender os princípios da BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que, como todos os leitores bem o sabem, é um documento oficial de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica (ensino fundamental e médio).

As adequações e inovações estão previstas para ser desenvolvidas no biênio 2019-2020. Depois das adequações legais a serem implementadas em 2019, no ano seguinte, ou seja, em 2020, por exemplo, o ARQUI estudará a possibilidade de ingressar no rol das escolas que trabalham com o sistemahigh school, para a dupla certificação de alunos do ensino médio, que assim o desejarem, bem como de trabalhar com o sistema de ensino bilíngue. São expectativas. 

Do mesmo modo, em 2020, buscar-se-á trabalhar com o sistema Bernoulli nas três séries do ensino médio, pois até 2019 trabalhar-se-á apenas na 3ª série, como se vem trabalhando nos últimos anos, por força de contratos anteriormente assumidos (antes da atual direção) com algumas editoras. E, se até lá, outro sistema de ensino parecer mais eficiente e adequado ao aprendizado dos alunos, o Colégio não medirá esforços para adotá-lo, mas, antes, consultando os maiores interessados, ou seja, os alunos e os pais, que desembolsam os recursos financeiros necessários para a educação de seus filhos. 

Também na prática esportiva, que, no passado, fez do ARQUI o grande campeão dentre todas as escolas públicas e privadas de Sergipe, o Colégio está encontrando novo rumo. Nas competições dos Jogos da Primavera, o ARQUI saltou do 12º lugar, em 2017, para o 7º lugar geral em 2018. Avançou 5 posições em apenas um ano. E assim será até ter de volta a hegemonia que lhe pertenceu. 
Como visto, o ARQUI não está inerte. Tem avançado. E irá avançar muito mais. Uma modificação estrutural mais ampla, no Centro, deverá vir mais tarde, modernizando suas instalações. São aspirações a serem concretizadas. 

O ARQUI continuará sendo a escola tradicional da família cristã sergipana, porém, com um sistema de ensino cada vez mais moderno. É assim que o ARQUI é. E é assim que o ARQUI continuará a ser, para prosseguirna formação de bons cristãos, honestos cidadãos e competentes profissionais do futuro. 

O ARQUI lutará, como tem lutado. E jamais se renderá. Continuará trabalhando com todo ardor ecom todo amor pela educação, em prol de seus alunos. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/10
15:45

Cocô de elefante

José Lima Santana
Professor da UFS

Américo de Galdino Fontes era o tipo de sujeito metido a ser o rei da cocada preta, da morena e da branca. De todas as cocadas. Até mesmo da cocada baiana, que só Perolina fazia naquela cidadezinha morrinhenta. Américo era pabo, inflado de vaidade, a ponto de quase não pisar no chão. Ele parecia levitar levemente quando caminhava, apesar de ser grandalhão. De tanta pabolice era o sujeito cheio, que nele botaram o apelido de Cocô de Elefante. Apelido mais do que apropriado para quem era inflado de gabolices. 

Mas, quem era mesmo o tal Cocô de Elefante? Um sujeito que não tinha, a bem dizer, eira nem beira. O pai, porém, Galdino Fontes das Embiribeiras era um pequeno proprietário rural, dono de umas poucas, mas, muito boas, tarefas de terra e de um gadinho miúdo, que também se dedicava ao comércio ambulante de cereais nas feiras de três cidades: Matão de Dentro, onde morava, Tijuquinha e Pau d’Arco. Todas elas cidadezinhas poeirentas, largadas nos sertões da Bocaiuva.

Cocô de Elefante tinha se arrastado nos bancos escolares da professorinha Dona Amélia de Vicente Gogó de Ouro, tocador de rabeca e cantador de baiões e xaxados. Não passara, todavia, do segundo ano primário. Lia e escrevia sofrivelmente. Lendo, gaguejava mais do que Tito Gaguinho do finado Zacarias Pançudo. Como o pai, Galdino Fontes, era muito chegado a Manequinha de Belmiro Alagoano, e este Alagoano era mesmo nome de família, embora pernambucano ele fosse, foi concedido a Américo Cocô de Elefante o cargo de fiscal da Prefeitura. Nem os talõezinhos com os quais se cobrava as taxas de feira ele os preenchia de forma legível. Era, a bem dizer, um verdadeiro tabacudo. 

O cargo de Cocô de Elefante, no qual ganhava uma miséria, fora-lhe concedido nos fins dos anos 1950, quando um genro de Manequinha, da UDN, era o prefeito municipal de Matão de Dentro. Manequinha de Belmiro Alagoano era o chefe inconteste da União Democrática Nacional desde a instalação do partido no município. Era, portanto, um “cara-preta” legítimo de carabina e cartucheira. Nos idos dos 30, ele e dois irmãos assentaram lugar na Volante do tenente Isaías Cospe Fogo, que combateu Lampião de três estados. Era do tipo que não aguentava subacada de ninguém. Homem nenhum lhe fazia cócegas na política. Antes, fora getulista. Depois, tornou-se brigadeirista, eleitor do Brigadeiro Eduardo Gomes. Para ele, os homens de bem deviam andar armados, especialmente na roça, para enfrentar os bandidos que por ventura aparecessem, vindos de outras plagas. Afinal de contas, em Matão de Dentro bandidos tinham vida curta e sujeitos mofinos morriam de caganeira, ainda nos cueiros. Manequinha era belicoso, violento. 

Nas eleições de 1962, depois de muito tempo sem aparecer um adversário que ameaçasse o poderio de Manequinha, eis que um neto de Tertuliano Sampaio, finado já em pó transformado, engenheiro formado nas Minas Gerais, deu para meter a cara na política local. O avô, Tertuliano, homem de paz, mas, nem por isso, um zé mané, fora chefe da oposição a Manequinha, liderando o Partido Republicano, que, no estado, era eterno aliado do PSD. 

Jovem bem apessoado, funcionário público federal, lotado no DNOCS, Geraldo Mota Sampaio começou a arrebanhar jovens e adultos para a sua fileira. Manequinha, octogenário, mas, ainda com pulso forte, começou a sentir-se incomodado com a presença do engenheiro. “Ainda sou muito homem pra botar esse frangote pra correr daqui com as calças na mão”, disse o velho líder aos seus apadrinhados. Ocorre que o neto de Tertuliano Sampaio era também neto do Coronel Francisco Tenório, chefe político no interior das Alagoas e, mais do que isso, antigo chefe de jagunços, cuja linhagem vinha desde os tempos do Império, nas pessoas de seus diretos antepassados, o Barão da Boa Morte, o Coronel Peregrino Tenório, que, um dia, fechou à bala a Assembleia Legislativa, em Maceió, e do também Coronel Aristides Tenório, este coronel da Polícia Militar alagoana, e não coronel de patente comprada da antiga Guarda Nacional. Portanto, peco Geraldo Sampaio não era. Descendia, pois, de boa ninhada.
 
Por onde anda Cocô de Elefante? Teria sumido no oco do mundo? Não, não e não! Ei-lo de volta à narrativa. Numa sexta-feira, véspera da feira semanal de Matão de Dentro, após duas semanas em que Geraldo Sampaio instalara-se de vez na cidade, arranchando-se na casa da avó viúva, Dona Terencinha Sampaio, e de ter aberto noutra casa da avó a sede do Partido Republicano, Manequinha de Belmiro Alagoano convocou uma reunião dos seus apaniguados. Estava chegando a hora de dar uma lição no doutorzinho. O plano era simples. Alguém iria à tal sede do partido opositor para desferir uns tiros para o alto, desmantelando algumas telhas e botando os da corriola do engenheiro para correr. Pensava Manequinha que apenas uns tiros fariam Geraldo Sampaio encolher o rabo entre as pernas e voltar para a capital, para cuidar da mulher e dos dois filhos. 

Manequinha escolheu logo quem para executar o serviço? Sim, ele mesmo: Cocô de Elefante. Afoito, cheio de si, a própria empáfia em pessoa. Um servicinho daquele era moleza e, ainda por cima, lhe daria crédito de montão junto ao chefe. Ah, mas olheiros os há em todos os lugares! Pois não era que Geraldo Sampaio tinha um olheiro infiltrado nas hostes de Manequinha? O plano lhe fora passado tin-tin por tin-tin. O serviço sujo do qual Américo de Galdino Fontes fora encarregado era para ser executado no sábado, por volta das dez horas, quando a feira estaria no auge. E a sede do PR ficava na Praça do Comércio, local de maior atração da feira. 

No horário combinado, Cocô de Elefante dirigiu-se à sede do PR. Portava na cintura um três-oitão canela seca carregado até a boca. Alguns paus-mandados de Manequinha ficaram aperuando ali por perto, para ver o rebuliço. O rei de todas as cocadas aproximou-se da calçada. Meteu a mão na cintura por baixo da camisa. De dentro da casa para a calçada, uns vinte homens surgiram, à frente o engenheiro Geraldo Sampaio, armados até os dentes. Cocô de Elefante parou. Tremeu. Gaguejou. Mijou-se e cagou-se todo. 

Américo de Galdino Fontes não passava mesmo de um cocô de elefante. Só tinha tamanho.

As eleições daquele ano, 1962, botaram por terra o mandonismo de Manequinha de Belmiro Alagoano. A paz reinou em Matão de Dentro. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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