20/09
12:20

Fugindo com o namorado da irmã

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

O peculiar cheiro de bananas no fogo rescendeu pela casa e chegou à calçada. Dona Maria José de “seu” Filó, de batismo Filomeno, e, de cartório, Filomeno Pereira Vasconcelos, estava fazendo um doce de bananas em rodelas. Ou de rodinhas. Uma gostosura. Umas quantas dúzias de bananas prata, doces que eram quase como torrões de açúcar mascavo, colhidas no quintal fértil, de areia preta, cheia de minhocas, boa demais para bananeiras. E as bananeiras de “seu” Filó eram bem tratadas. Daí a doçura das bananas. Família grande, doce em quantidade. Dona Maria José caprichava no doce. Aliás, em tudo que ela fazia na cozinha. Cortadas em rodelas da mesma espessura, as bananas maduras, mas não maduras demais, porque, se assim fosse, amoleceriam na fervura da calda, e isso não era bom, pois um doce de bananas que se prezava tinha que ser de rodinhas durinhas, mas não tanto, ou seja, não crespas, não soladas, como se fossem emborrachadas. Ah, como tinha gente que não sabia fazer um doce de bananas de rodinhas! Não sabia dar o ponto certo na calda. Não sabia a quantidade certa de açúcar a depender da quantidade de bananas. Nem a quantidade de água sabia. E aí, ficava colocando um pouco de água agora, um pouco depois. A calda perdia o ponto. Ficava um doce aguado. Com rodinhas amolecidas. Outras vezes, crespas. Um nojo! Não, o doce de dona Maria José não era desse tipo.

Quanto mais o doce fervia, mais o cheiro rescendia. As rodinhas de bananas ganhavam cor. Ficavam coradas. Avermelhadas, como se dizia, se bem que não eram vermelhas propriamente ditas. É claro que a cor dependia do ponto que a doceira quisesse dar: mais coradas ou menos coradas. A mulher de “seu” Filó gostava das rodinhas mais morenas, da calda grossa. Uma lasquinha de casca de canela, na fervura, e um punhado de cravo, na medida certa, ao final do cozimento, eram a tônica do gosto ainda melhor. “Seu” Filó gostava do doce de bananas de rodinhas com farinha de mandioca bem fininha. “Um pozinho de farinha”, como ele dizia. Depois de bater para o bucho o pires do doce, um caneco de água fria de moringa de barro. Moringa velha, que não tinha o ranço da argila. Moringa nova botava a água a perder. 

Naquela tarde, na calçada da casa de Dona Maria José palestravam “seu” Filó e dois vizinhos: Zequinha do Bamburil, dono da padaria e de boa solta de gado mestiço, e “seu” Jonas, antigo carreiro, cujo carro de bois estava aposentado há uns dez anos. Não demorou muito e ao grupo de amigos juntou-se Marcolino de Dodô de João Canguinha. Barbeiro dos bons. E, mais ainda, sanfoneiro. Nisto, porém, não era lá grande coisa, não. Tocava, ou melhor, arranhava um velho fole pé de bode, ou seja, uma sanfona de oito baixos. Folezinho surrado da moléstia. Os quatro amigos estavam na maior prosa, falando de Deus e do mundo, quando o cheiro do doce de bananas cresceu, entrando pelos buracos das ventas dos que ali estavam. “Ê cheirinho bom, ‘seu’ Filó, esse cheiro do doce de dona Maria José. Se ela vendesse o doce, não ia faltar freguesia”, disse Marcolino. Ao que “seu” Filó respondeu: “Você não haveria de ser um bom freguês. Num gosta de gastar. Até parece que tem uma cobra coral no bolso”. Todos riram inclusive o próprio Marcolino. E era a mais pura verdade. Sujeito sovina estava ali. 
A prosa dos amigos continuou e o cheiro do doce, quase no ponto, aumentou. Logo mais, o doce seria retirado do fogo e o cheiro se acomodaria. Restaria a gostosura para quem fosse comer. Aquela era uma tarde de sol brando, começo de primavera. As mangueiras e os cajueiros floresciam nos quintais, que eram uma beleza. Sinal de boa safra.
De repente, chegou esbaforido o filho mais novo de “seu” Filó e dona Maria José, Tutuca. Chegou sem fôlego. “O que foi, meu filho?”, gritou “seu” Filó. E o menino, que tinha doze anos: “Pai, Rosinha disse na escola que vai fugir com Roberto de ‘seu’ Zequinha”, respondeu, apontando para o dono da padaria. “Rosinha vai fugir com quem, Tutuca?”, indagou “seu” Filó. “Com Roberto, pai!”. Espanto geral. Então, Roberto de Zequinha do Bamburil não era namorado de Maria Cândida, outra filha de “seu” Filó? Tutuca, porém, confirmou. Rosinha disse à professora Lídia que iria fugir com o namorado da irmã. A professora Lídia respondeu: “Não faça isso, menina. Tenha juízo!”. E os dois, Rosinha e Roberto, ficaram sentados debaixo do pé tamarindo, no pátio da escola, com uns papeis nas mãos. A professora Lídia, caminhando para lá e para cá, balançando a cabeça, como se estivesse chorando. Tutuca e os colegas ouviram quando Rosinha disse: “Eu aceito fugir com você, agora mesmo”. Tutuca e os colegas saíram às pressas para dar o aviso. Ali estavam dois colegas como testemunhas. 

Quando soube do ocorrido, Maria Cândida, que estudava na sala, caiu em prantos. Maldisse o agora provável ex-namorado e a irmã. Que uma bruxa atravessasse no caminho deles. Que a irmã nunca tivesse filhos. Que o seu ventre secasse como um galho de árvore cortada. Que... Bem, foi um mundão de pragas. Mas ela se esqueceu de um detalhe, que adiante se dirá.
 
Ninguém mais deu conta do cheiro do doce de bananas de rodinhas, que estava na hora de sair do fogo. Alvoroço. Dona Maria José desamarrou o avental, mas não se esqueceu de tirar o caldeirão do fogão à lenha. Tentou acalentar a filha. Foi até a calçada. Não sabia o que dizer. Só repetia: “E agora, hein, Filomeno? E agora, hein, ‘seu’ Zequinha?”. Decerto, era uma perdição. Roberto namorava Maria Cândida há um ano e dez meses. Ela, com dezoito anos, e ele, com vinte. O rapaz era o braço direito nos negócios do pai: a padaria e a solta de gado. Ele próprio já tinha um pequeno pé de meia. O casal de namorados ainda estava no colégio, um pouco atrasados, estudando à noite. O enxoval da moça já estava sendo preparado, aos poucos. Todavia, quanto a Rosinha, ela não passava de uma menina de apenas quatorze anos. Estava terminando o ginásio. À tarde. Era adiantada. E fugir com o namorado da irmã sem quê nem pra quê? Era uma doidice. Bem, ninguém sabia o que dizer. Ninguém tinha o que dizer. Fazer o quê? Esperar por uma notícia mais segura? “Seu” Filó chamou Zequinha às falas. “Sabe, Zequinha, se for assim, a gente tem que se acertar. O que eu não aceito é uma filha desonrada”. O comerciante respondeu: “Vamos cuidar de tudo, Filó. Roberto não pode ter perdido o juízo”.   

Mal disse o que disse, Zequinha do Bamburil apontou para o começo da rua: “Olhe o meu carro ali!”. Com pouco, o Chevrolet parou. Desceram Roberto, Rosinha e a professora Lídia. Todos sorridentes. Tutuca e os colegas ouviram, sim, direitinho, a conversa entre os três, como fora relatado. Só que era o ensaio de uma peça teatral que a professora estava preparando com os alunos, para comemorar o aniversário do Colégio. Detalhe que Maria Cândida esqueceu. Ela não quis participar da peça e indicou a irmã.

A professora estava ali para pedir a dona Maria José que colaborasse com uns doces para a festa. Nada mais. Ora, todos comeram, então, do doce de bananas de rodinhas, ainda morno, que dona Maria José serviu com alegria. E Tutuca não merecia castigo. A peça foi um sucesso. O aniversário do colégio foi uma festança. Doces não faltaram.
Dois meses depois, Rosinha fugiu com Roberto. De verdade. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 20 de setembro de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
13/09
12:03

A raposa e as galinhas

 
José Lima Santana
 
Professor de Direito da UFS
 

 
Dona Margarida do finado Vicente da Malhada do Coqueiro era uma das maiores criadoras de galinhas das redondezas. Vendia dúzias e dúzias de ovos a cada semana. E muitas frangas, frangos e capões a cada feira semanal, além das que vendia em casa. Parte da freguesia batia à porta da casa avarandada e cercada por inúmeras fruteiras. No sítio herdado de seu pai, Manoel Pedreira, vulgo Manuca Tangedor, a orquestra de galos apresentava-se o dia todo e todos os dias. Cacarejos de galinhas? Era uma festança. Galinha espantada ao pôr o ovo era figurinha fácil. Galinhas de capoeira, que davam as melhores cabidelas e cujos ovos de gemas bem amareladas eram os preferidos pelas doceiras, para o indefectível doce de leite, que de cada dez casas da cidade, dez o tinham em grande conta. Um doce de leite bem corado, amorenado, de bolotas, com um tilisco de suco de laranja, derramado no momento da fervura, para tirar o gosto acentuado dos ovos, sempre foi a sobremesa predileta das pessoas dali. Nas casas, nos bares e restaurantes o doce de leite não podia faltar. Um punhado de cravo da Índia dava um sabor além de especial. Idêntica iguaria talvez somente o maná dos céus, nos tempos de Moisés, como dizia Zé Júlio do “Bar Corno Aqui Não Entra”, o mais procurado da cidade. Se, deveras, cornos ali não entravam, nunca que se haverá de saber. Mas... Eu duvido.

Uma penosa era sempre bem-vinda no almoço domingueiro. E, além da galinha de cabidela e do pirão de capão, nada como uma titela de galinha bem temperada e assada no espeto. O padre Francisco, por exemplo, lambia os beiços, quando era convidado para almoçar na casa do prefeito. A titela de galinha, que geralmente era de capão, marinada em suco de limão e um dedal de vinho, com alho amassado, pimenta do reino, cominho e ervas, como manjericão, salsinha e hortelã miúdo, além de uma pitada de gengibre, que Nicolina assava no braseiro brando era, deveras, para qualquer cristão afrouxar a fivela do cinto e esparramar-se numa espreguiçadeira após o lauto almoço. E, claro, não podia faltar um docinho de leite para adoçar o bico, como dizia o padre comilão. Sem querer dizer que o pároco era dado ao pecado da gula. Longe disso.


Dona Margarida também criava alguns patos, perus e guinés, também chamadas de galinhas de angola e, igualmente, no popular, denominadas de “tou-fraco”, que é uma onomatopeia recriadora do canto desses bichos de penugem pintada, não faltavam no sítio. De vez em quando, um saruê, animalzinho de hábitos majoritariamente noturnos, feio e fedorento, dava de comer alguns pintos. Era um alvoroço nos poleiros, que eram muitos, para abrigar tantos bichos de pena, além do que muitos deles se arranchavam nos galhos mais baixos das árvores.


Um dia, uma raposa deu a cara no sítio de dona Margarida. O marido, “seu” Aloísio de Lió Gorda tratou de botar uma armadilha para a raposa. Uma grande arapuca com uma franga raquítica ali amarrada, do tipo mutuca, e um caco com cachaça. Pois não era que raposas gostavam de aguardente? Bebiam que era uma graça. E, uma vez bêbadas, uivavam como lobos em noites de corridas de lobisomens. Não deu outra. A raposa deu com a mutuca e o caco de cachaça. Comeu e bebeu até se fartar. E uivou até umas horas. Pela manhã, “seu” Aloísio deu cabo da ladra de galinhas. Nunca mais apareceu outra raposa. E, assim, salvo um ou outro saruê, os galináceos de dona Margarida só faziam dar lucro e aumentar a população.


É costume dizer-se que “quem gosta, torna”. Não a raposa anterior, que foi imolada, pobre coitada, no tempo em que os animais silvestres eram mortos sem nenhuma comiseração e sem a efetivação de leis que lhes dessem valia. Pois então. Frangos gordos e capões começaram a levar sumiço do sítio de dona Margarida. Por coincidência, aos sábados. Até parecia que a raposa era dada à dieta domingueira de galinhas. Raposa fina. De muito bom gosto e de boas etiquetas. Afinal, domingo era domingo. Um almoço refinado fazia bem a qualquer um. Até às raposas. E como se sabia que era uma raposa que estava dando fim às galinhas? Um vizinho novato, um tal de Domingão da Mão da Onça, sujeito metido a caçador, andejando dia e noite pelos matos, acompanhado por um cachorrinho gué do rabo fino, jurou em cruz que viu uma raposa com um capão de penas avermelhadas no último sábado, de madrugadinha. Era exatamente o terceiro capão a sumir.


E os frangos e capões continuaram sumindo, apesar das armadilhas que “seu” Aloísio de Lió Gorda espalhou no sítio. Não teve jeito. A raposa daquela vez era ladina demais. Driblava as armadilhas. O filho mais velho de dona Margarida e de “seu” Aloísio, Joãozito Durango Kid, tal era o apelido do rapaz, que, montado num cavalo branco, gostava de imitar o cowboy do cinema, com roupa parecida e tudo, exceto a máscara, deu para desconfiar. No cacete armado de Pinduca Meu Nêgo, uma birosca que ficava na curva da estrada da Serra do Besouro, de uns dias para cá deu para acontecer uma cachaçada aos domingos. Durango Kid andou “farejando” por aquelas bandas. Numa segunda-feira, ele deu com um monturo cheio de penas de galinhas, no valado de Pinduca. Penas de todas as cores. Mais ou menos iguais às penas dos frangos e capões que sumiram do sítio nas últimas oito semanas.


No domingo seguinte, nem bem o sol deu o primeiro sinal, lá longe, vindo do mar distante umas doze léguas em linha reta, Durango Kid, no seu fardamento completo de tela cinemascope, escondeu-se num matinho dos fundos do cacete armado de Pinduca Meu Nêgo. O cavalo ele o deixou a pouca distância, amarrado e comendo um molho de capim. Logo, o caçador Domingão aproximou-se da porta da birosca. Vinha com um belo capão pedrês na mão, dependurado pelos pés. Da tela fictícia saltou-lhe à frente o destemido Durango Kid, que, eufórico, gritou, contagiado pelo poder de fazer justiça de arma em punho: “Mãos ao alto!”. Domingão espantou-se e deixou cair o capão. Recobrando-se, gritou o caçador: “Mas oia se não é o menino Joãozito de dona Margarida de “seu” Aloísio de Lió Gorda! Foi Deus quem mandou aqui o amigo. Apois num é que eu tomei esse capão dos dentes de uma raposa, que ia numa carreira desabalada ali adiante? Eu ia atirar na dita quando me dei conta de que aquela raposa era minha conhecida. Ela, então, jogou o capão aos meus pés, que eu devolvo ao menino Joãozito. Tá’qui o que é seu”. Teria Domingão cativado a raposa, como fizera o Pequeno Príncipe? Joãozito Durango Kid recebeu o capão, olhou na butuca dos olhos de Domingão e disse: “Ora ‘seu’ Domingão, já que o senhor é aparentado da raposa, até o pôr do sol eu quero os outros capões e frangos que a sua amiga roubou lá de casa. Até o pôr do sol, viu ‘seu’ Domingão? Ou os bichos ou o dinheiro que eles valiam. Senão, eu lhe entrego ao xerife”.


À boquinha da noite, Domingão, o caçador aparentado da raposa, foi pagar no contado o valor de três frangos e cinco capões. Os que tinham sumido do sítio de dona Margarida.


(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 13 de setembro de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/09
09:13

O fuzil e o bico do urubu

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Antero olhou para o mundo. Mundo jogado, perdido. Aflito, ele fez da mão esquerda uma viseira. Apertou os olhos. Tentou olhar em direção ao sol. A vista cansada, embora sob a proteção da mão encostada à testa, não suportou o fogo excessivo do astro-rei. Mais um verão prolongado. As vaquinhas mal podiam com o peso do chocalho e dos carrapatos. Com as costelas quase perfurando o couro, as rezes, as poucas rezes, ainda babujavam umas poucas folhas de jurema e juá. Logo, o mundo inteiro estaria coberto de ossadas. As moscas varejeiras dariam conta dos animais mortos de fome e sede. 

Os dois filhos de Antero ganharam o mundo para as bandas do “Son Palo”. A cidade grande arrastava levas de sertanejos. Os caminhões pau-de-arara iam e vinham, iam e vinham. Levas e mais levas de pobres diabos que procurariam endireitar-se na vida, lá nas terras paulistas, onde, diziam, sobravam empregos. O novo governo tinha como lema “Cinquenta Anos em Cinco”. Iria construir uma nova capital. Por lá também sobrariam empregos. Antero viu a cara sorridente do presidente numa folha de jornal na bodega de “seu” Américo, no Beco de Baixo. Ele era freguês antigo do bodegueiro. Ali, Antero e a mulher faziam as compras semanais. Nos tempos de vacas gordas, Dona Maria José comprava bolinhos de ovos que Dona Berila os fazia e que se desmanchavam na boca. Um mimo! 

Em casa, além dele e da mulher, Antero tinha três filhas. Todas solteiras. A mais velha já caminhava para o caritó. Beirava os trinta anos. Já, já seria uma balzaquiana. Lembrando que esse adjetivo derivava do romance de Honoré de Balzac, “Mulher de Trinta Anos”. O pequeno fazendeiro mantinha as filhas em rédeas curtas. Namoro? Só se fosse com moço direito, de família, trabalhador, que pudesse sustentar mulher e filhos. Não deixaria suas filhas à mostra como rãs em beira de fonte, para servirem de comida às cobras. 

Do alto sertão começaram a descer algumas famílias. A seca era o maior flagelo do sertão. Comparável com a peste negra nos tempos distantes. Com a maldição do cólera que matou muita gente em Sergipe, como lembravam os avós de Antero. A maior parte dos retirantes buscava a Cotinguiba ou Aracaju. Na cidade conhecida como “a porta do sertão” e nos seus povoados de beira de estrada, pouquíssimos procuravam se arranchar. Uma família, trazida no caminhão de Jessé deixou-se ficar no Cajueiro. Era onde Antero morava e lutava para tentar salvar as poucas e fracas rezes que morriam um pouquinho a cada dia. Família pequena: a mãe quase entrevada, uma filha e um filho. O rapaz, em bons tempos, teria boas feições. O mesmo se diga com relação à moça. Porém, naquele tempo de secura, até as feições das pessoas se desmanchavam, sumiam e as faces ficavam escavadas. As pessoas envelheciam com tanto sofrimento. Zé Roberto era o nome do rapaz, que por ali ficara com a mãe e a irmã, até que a mãe quase entrevada pudesse se recompor, para, enfim, seguirem em frente numa jornada sem destino. 

Maria Cecília, a filha balzaquiana de Antero, botou os olhos negros nos olhos verdes do rapaz, que os desviou como se temesse que flechas mortais lhe pudessem ferir. “O moço é tímido”, pensou aquela que se encaminhava para o canto das vitalinas, das solteironas sem solução à vista. Antero arranjou trabalho para Zé Roberto, em troca de comida para ele, a mãe e a irmã. Ele o ajudaria na peleja com o gadinho por ora sobrevivente. Eram mãos que serviam mutuamente. 

Passaram-se três semanas. Nuvens de trovoada se formaram nos últimos dias. Notícias vindas da Bahia davam conta de chuva caída na região da Serra Negra e redondezas. Antero encheu-se de esperança. Quem sabia se os relâmpagos vistos ao longe não seriam cambiados juntamente com trovões para aquelas bandas, trazendo uma boa chuvarada? Quem sabia se o ano novo não entraria debaixo de um aguaceiro como aquele de 1941, que arrombou tanques e aguadas? Enganou-se Antero. As nuvens que se formaram eram do tipo andejas. Ventos fortes as levaram para longe, sabia Deus para onde. 

O moço Zé Roberto andava sempre de olhos baixos. Era de pouca conversa com Antero e sua mulher. E de nenhuma com as filhas deles. Nem as olhava direito. Maria Cecília, entretanto, o olhava esperançosa. Cidinha, a do meio, era muito encabulada. Era a que mais ajudava o pai na lida do gado. E era a mais graciosa das três. Ao passo que Maria Júlia, a caçula, era muito sonsa e parecia pronta a arrastar asas para o lado do rapaz, se o seu pai não fosse Antero. Ela e as irmãs sabiam muito bem que não deviam se insinuar para homem nenhum. Moça direita não se dava ao desfrute de sacudir as nacas diante de um homem. Um fim de tarde de sábado, Antero surpreendeu-se com Zé Roberto azeitando o cano de um fuzil. Era uma bela arma. Segundo disse o rapaz, Lampião, em 34, o dera ao seu pai, há um ano falecido. Arma antiga, mas em boas condições de tiro. 

Mais duas semanas se passaram. Naquele meio tempo, Antero perdeu cinco rezes, duas vacas, um novilho e dois bezerros. Se não chovesse dentro de trinta dias, não sobraria uma semente bovina sequer. A mãe de Zé Roberto não adquiria melhora. E a família ia ficando até que Deus desse bom tempo.

Era o dia de Santos Reis. No meio da manhã, dois sujeitos mal-encarados acercaram-se de Antero, que lidava no curral, tentando levantar uma vaca de quartos caídos. Os dois estavam armados com facas peixeiras. Exigiram dinheiro. Antero disse que não tinha. Um deles cortou um pedaço da orelha direita de Antero. O sangue espirrou. Antero não deu um gemido. Naquele momento, Cidinha, a filha do meio, entrou no curral sem saber o que ali ocorria. O sujeito que cortou a orelha de Antero sorriu maliciosamente ao ver a moça e para ela se encaminhou de faca na mão. “Uma belezinha dessa vale mais do que o seu dinheiro, velho”, disse. A moça deu um grito. O cortador de orelhas a fez calar-se. Ameaçou-a. Quando o tipo fez menção de colocar a mão em Cidinha, ela caiu em prantos. Nisso, entrou Zé Roberto, com o fuzil nas mãos. “Arrede da moça”, ele disse. E emendou seguro, sem piscar: “Onde eu boto o meu fuzil, urubu também bota o bico. Eu faço defunto e ele come a carniça”. Os dois sujeitos largaram as facas. Tremeram. O moço do fuzil presenteado por Lampião ao seu pai botou os dois bandidos para correr. “Se vortá aqui, eu esparramo os miolo d’ôcêis no chão, pras galinhas fazê bom proveito”. 

As chuvas só cairiam dois meses depois. Antero perdeu quase tudo. Não perdeu, todavia, a coragem para recomeçar. Seis meses depois das primeiras chuvas, ele e a mulher ganhariam um genro. O moço do fuzil desposaria Cidinha. Os olhos verdes dele cederam aos encantos dos olhos cor de mel da moça graciosa. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 06 de setembro de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
30/08
12:17

Beiço de Jegue

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Há um dito popular que diz: “Quem pensar que beiço de jegue é arroz doce, está enganado”. Pense numa bagaceira seria alguém desavisado confundir o beiço de um jegue com arroz doce!”. Eitcha atropelo da gota que haveria de ser! Um fim de festa. Uma danação. Bagaceira no meio da feira. 
Nos tempos brabos da UDN e do PSD eis que aportou na cidade um delegado mais bruto do que coice de jegue amuado. O cabra era perverso. Pau mandado do povo da UDN. Capitão. Diziam as boas línguas da oposição que o delegado era um matador fino. Diziam. Provar, ninguém provava nada. Ia-se ver o cabra seria mais inocente do que um arcanjo. Meu Deus, que sacrilégio de minha parte! 

O capitão, recentemente promovido por bravura, isto é, por ter metido fogo nuns sujeitos que andaram falando mal do governador da UDN, mal e mal chegara à cidade e já fora botando regras contra os pessedistas. De pronto, deu um bacolejo na moçada. Só do PSD. Meteu uns três no xilindró e deu-lhes de cipó caboclo, além de uns bolos de palmatória. 

Tinha o perverso delegado o lábio inferior um pouco descaído, como beiço de jegue velho, na derradeira muda. Aliás, já sem muda nenhuma. Zé de Naninho, ferreiro, batedor de foice e enxada, sapecado das faíscas do fogo avivado no puxar do fole na forja, era acostumado a botar apelidos em todo mundo. Ele era um entusiasta piolho de chefe político. Da turma dos rabos-brancos. Todo cara-preta graduado tinha sido agraciado com um chistoso apelido: Sagui Com Fome, Peçonha de Mosquito (este devia ser um pobre coitado), Penico de Mulher Dama, Toucinho Defumado e por aí afora. Pois não é que o delegado precisara de seus préstimos? Mandara que Zé de Maninho desse um jeito num fuzil emperrado. O ferreiro também fazia as vezes de armeiro. Fuzil consertado, nem “muito obrigado” ele recebeu do delegado. Porém, este recebeu o apelido de Beiço de Jegue. À surdina. E Zé de Maninho tinha lá costelas para aguentar cipó caboclo ou pano de sabre? Tinha não. Era mais magro do que um caniço. Uma boa coça lhe partiria ao meio. Um pessedista desaforado daquele nas garras do capitão Beiço de Jegue, aí, sim, haveria de virar arroz doce, mingau de pele e osso em poucos minutos de malvadeza. 

O tempo foi passando e os próceres da UDN foram gostando do “serviço” do delegado, que era bem diferente do anterior, igualmente udenista, mas um oficial de primeira linha, que nunca cometeu um desatino, nos poucos meses que ali oficiara. Por isso mesmo fora mudado. Diga-se de passagem, aquele outro delegado chegaria a coronel e, merecidamente, ao comando geral da Briosa, no final da década de 1960.

Com o novo delegado, não tinha um dia que algum pessedista não comesse cana e bolo. Um desmantelo do cabrunco. Uma peste. Os chefes políticos do PSD não podiam fazer nada. O prefeito era da UDN. O governador, idem. O juiz e o promotor vinham de famílias de políticos da zona centro-sul do Estado. Da cambada udenista. A cidade estava entregue à sanha dos cara-pretistas. Uma miséria! A quem recorrer? Ao bispo? Manuquinha de Tibúrcio Corno Manso, apelido, claro, dado por Zé de Maninho, tomara uma surra tão grande no quartel, numa segunda-feira à tarde, que passou dias e dias urinando sangue. A sua sorte foi o valimento do médico, Dr. Milton, que o tratara com a sua costumeira eficiência. Médico dos tempos antigos, cujos diagnósticos não eram tirados à base de um sem número de exames, mas do ato de auscultar e do toque do dedo ou das mãos no corpo do paciente. O filho mais novo de Manuquinha, um menino de dez anos, foi obrigado a assistir à sessão de tortura contra o pai. Trauma para o resto da vida. Até hoje, avô de cinco netos, ele corta voltas quando se depara com um soldado. Até mesmo um sobrinho, major, ele o abençoa meio cabreiro. O que não faz um trauma! 

De “serviço” em “serviço” o delegado foi ficando e os udenistas gostando. Era no tempo em que o jogo de azar corria frouxo. Praticamente, em toda bodega havia uma furna de jogo. O baralho era traçado ao torto e à direita. E havia as furnas próprias, como a de Domingos Peixeiro e a de Déde Coceirinha. As bodegas de eleitores da UDN continuaram com a jogatina. Nas de eleitores do PSD o jogo foi proibido. Por coincidência, Domingos e Dedé também eram do PSD. Tiveram que fechar as furnas. Até o rádio receptor da bodega de “seu” Vange era para ser desligado no horário dos programas sobre política da emissora dos pessedistas/perrepistas, a Rádio Jornal. Mas, foi aí que o delegado se estrepou. O velho Vange armou os homens da família. Eram poucos. Apenas uns cinquenta. Armados e entrincheirados na noite em que se anunciou que a polícia iria quebrar o rádio, dado o desaforo do velho e respeitado bodegueiro em não atender a “ordem” de desligamento. Beiço de Jegue tomou tento por um instante. Correu da parada. Prova de que nem todo jegue é bom de coice. 

Chego, agora, ao ponto nevrálgico. Um dia, algum dedo duro comunicou ao delegado que Zé de Maninho o apelidara de Beiço de Jegue. O delegado subiu nos tamancos. Azedou. Espumou. Praguejou. Jurou ao dedo duro que o ferreiro teria as costelas quebradas, o quengo partido, os dedos arrancados. Disse “as do fim”, como se dizia em Pernambuco, terra natal do delegado. 

Era uma ensolarada manhã de sexta-feira. O famoso curió “Chico Alves” se esgoelava cantando na gaiola nova, que Zé de Maninho comprara a Dodô Galego. O ferreiro magricela enjeitara um dinheirão pelo passarinho cantador. Vender? Não se venderia uma preciosidade daquela. Por dinheiro nenhum do mundo. Enquanto tocava o fole na forja e ouvia o curió de estimação, Zé de Maninho recebeu a visita pouco amistosa de dois soldados. Um deles era filho de uma prima distante e avisou: “O delegado vai lhe moer, Zé”. Ora, Zé de Maninho não fizera nada. Não devia nada ao delegado nem a ninguém. 

No quartel, o delegado recebeu Zé de Maninho batendo compassadamente no coturno o velho cipó caboclo ensebado de novo. Sobre a mesa, o quepe, os óculos escuros, a palmatória, que ele chamava de “divina” e o coldre. “Então, seu ferreiro de merda, o senhor anda me apelidando pelo meio da rua, hein?”. E Zé de Maninho, calmo como era de seu proceder: “Nem pelo meio da rua eu ando, “seu” delegado. Eu só ando pela calçada”.  

Foi uma chuva de bolos e de cipoadas. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 30 e 31 de agosto de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
23/08
11:15

Capadinho

José Lima Santana
Professor de Direito da UFC

Mundo que gira. Vida que anda. O céu naquela tarde era de faíscas por todos os lados. Literalmente. Faíscas solares numa tarde de calor brabo. Faíscas do fogaréu que parecia consumir o mundo inteiro. Era o que pensava o velho Balbino de Sá Donana Parteira. Esta era responsável pela vinda ao mundo de dez dentre dez crianças num raio de seis léguas, circundando a Mata Verde, o Timbira, o Arvoredo, o Riacho do Meio, a Serra Miúda, a Serra Grande, o Dendezeiro, o Gameleiro, a Lagoinha e o Gravatá. Graça era quando mais de uma mulher, distante uma da outra, eram atacadas pela dor de menino. Era um Deus nos acuda. Com o tempo, Sá Donana foi preparando umas ajudantes: comadre Creusa de Maria Dió, comadre Jardelina de Totoinho Beiçudo e comadre Cecília Gorda. As duas últimas aprenderam num triz. Mas, a comadre Creusa demorou um tempão para se ajeitar na nova empreitada. Oh, cabecinha dura! Para entrar uma coisa naquela cabeça de meu Deus, era um desvalimento. Uma tourada, como dizia Sá Donana. Porém, quem foi que disse que eu quero falar de Sá Donana e dos parimentos das mulheres daqueles lugarejos perdidos na boca do sertão? Quero não! O assunto é bem outro. Embora no fundo, bem lá no fundo, talvez tenha algo de aparentado. 

O mundo parecia incendiar-se naquela tarde de faíscas por todos os lados. Um fogo danado levantou-se pras bandas do Gravatá, numa distância calculada pelo velho Balbino de légua e meia. A vermelhidão tomou conta de tudo. E o calor veio se chegando, se chegando, como se já não fosse demasiado. Labaredas levantaram-se da terra ressequida como se quisessem acabar com o céu. “T’esconjuro!”. Pensou de si para si, Sá Donana, que estava no terreiro da casa, ao lado do marido e do escrivão Tinoco Bufa-Bufa, que tinha um sítio por ali. Aliás, Bufa-Bufa era um apelido que ninguém ousava proferir nas fuças de Tinoco. Quem se atreveria? O bicho era mais grosso do que tolete de feijoada. Todavia, era o maior soltador de flatulências da galáxia. Ele incendiava mais do que o fogaréu daquela tarde. 
De repente, o terreiro de Sá Donana, a casa de Sá Donana, a estrada e tudo o mais ficaram tomados por bagaço queimado de capim. Na amplidão do espaço afogueado, bagaços eram tangidos pelo vento. Parecia um enxame de negras e grandes abelhas. Arapuás gigantes bamboleando no ar. Logo mais, tudo estaria preto, coberto de bagaço queimado. As capineiras de Décio de Secundino pegaram fogo. O fogo começou no pé de uma elevação. E fogo de morro acima com o vento soprando não tem cristão que apague. Duzentas tarefas de capim sempre-verde, entre maduro e seco, se foram. Pedrinho do Gameleiro, vizinho de cerca, ainda perdeu umas vinte tarefas de capim gordura. O capim que era o mimo dos seus pastos. Capim cheiroso e engordador de bois que era uma beleza. 

Sinto que estou dando voltas. E o leitor volteia comigo. Entro por aqui, saio por ali e o leitor segue comigo. Quanto ao Capadinho, nada. Até agora. Contudo, hei de chegar nele. Com calma, tudo se resolve. E se escreve. 

Décio. Décio de Secundido, seu pai, duas vezes prefeito. O filho não gostava de política. Gostava de terra. De capim. De boi no pasto e na balança. O mais próspero da família. Mais do que o pai. Do que os cinco irmãos. Do que os tios e os primos. Mais do que todos os membros da família Pinheiro Peixoto. Família imensa de homens trabalhadores e de mulheres bonitas. Princesas sem títulos de nobreza. Décio foi chamado às pressas pelo filho do vaqueiro Elesbão Papudo. Estava na Lagoinha, um povoadozinho mixuruca, mal e mal formado por uma dúzia de casas e casebres tristes de dar pena. Um aglomerado menos vistoso do que um urubu com sono. Nem cemitério tinha. Nem igrejinha. Nem escola. Nem nada. Um lugar onde o Cão perdeu as botas. Décio de Secundino tinha naquele lugarejo sem futuro um bom motivo para passar tardes inteiras, quando o tempo era favorável. Amancebação das boas. Amigação de primeira. Morena de cabelos lisos e negros como fios de seda tecidos numa noite escura. Olhos igualmente negros, como frutos de um pé de maria-preta. O rosto... O rosto era um pedaço do céu estrelado e enluarado de tão formoso. Corpo? Ora, pensei uns dez minutos para descrevê-lo. Não encontrei palavras à altura. Desculpe-me o leitor. Sou um escritorzinho fubeca. O corpo de Liz, como Décio chamava Lizete, sua estonteante capa de sela, não tinha como ser definido. Capa de sela era um artefato fofinho, feito de lã de ovelha, que se punha sobre a sela. Um mimo! Coisa de dar gosto. Capa de sela era também uma belezura como Liz. Fruta silvestre desmanchando-se em puro mel. 

Pois Décio fora avisado do fogaréu quando estava nos braços de Liz, morrendo sem morrer direito. Afogando-se. Desmilinguindo-se. Morrendo e ressuscitando. Uma perdição! Que ele buscasse penitência no confessionário do Padre João Maria. Mais que de repente, estava ele no Jipão, comendo poeira na estrada e já avistando a vermelhidão da queimada. Muitos homens já cuidavam de fazer barreiras para impedir o avanço do fogo. Sem resultado. Fogo e vento formavam uma mistura endiabrada. Não teve jeito. Duzentas tarefas queimadas do melhor pasto que Décio tinha. Além da queimada no vizinho. Prejuízo danado. O prejuízo maior, porém, ainda estava por vir. 

Décio era casado com Maria Auxiliadora, filha de Maurício Guerra, da família Tostes Guerra das Alagoas. Um mundaréu de gente rica e politiqueira. Gente de valentia a toda prova. Casamentão fizera Décio com a menina Maria Auxiliadora, que era silenciosa, mas dura como todos da família Guerra. Filha única. Herdeira única de uma fortuna sem medida. Naquela tarde do fogaréu, uma amiga lhe dissera que o seu marido tinha uma amante nas brenhas da Lagoinha. Dissera em segredo. Segredo maior do que o de confessionário. “Pelo amor de Deus, mulher, num me bote em precipício”, pediu a amiga fofoqueira. Ficasse tranquila. O casal tinha três filhos. Dois meninos e uma menina. Maria Auxiliadora não queria mais filhos. Ao contrário, Décio queria mais um ou dois. “Não comigo, meu nêgo!”. Dizia Maria Auxiliadora. No pensamento dela, o marido procurou a tal rapariga para lhe dar filhos, como ele ainda queria. “Nem comigo, nem com ela”, pensou. “Nem com nenhuma outra”, pensou novamente.

Décio chegou ao lar, doce lar, tarde da noite. Abatido. Não era para menos. O ocorrido do fogaréu já era do conhecimento de todos na cidade. Maria Auxiliadora consolou o marido. Os filhos também consolaram o pai. 

Pela manhã, Maria Auxiliadora, serena, mas se roendo por dentro, como barriga de cobra com fome, sem maiores delongas disse a Décio: “Eu tenho uma proposta pra lhe fazer. Você vai fazer uma vasectomia, ou meu pai vem aqui pra lhe capar. Escolha. Isso é por causa da quenga da Lagoinha”. Disse assim. Bem assim. Secamente. Tranquilamente. Ou melhor, aparentemente tranquila. Décio assustou-se, não com a proposta em si, mas quando ela se referiu a quenga da Lagoinha. O mundo caiu. Foi pior do que o fogaréu da tarde anterior. Não teve jeito. Ele optou, obviamente, pela vasectomia, que seria feita dois meses depois. E os amigos, então, o apelidaram de Capadinho. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 de agosto de 2015. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
16/08
14:04

Uma casa para Tininha

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Aquele inverno veio no tempo certo. Primeiro, umas chuvas ligeiras, como se fossem ressacas de trovoadas. Eram os meados de março. O milho de São José foi plantado nos quintais e malhadas. Juntamente com os caroços de milho, jogados na cova rasa, de quatro em quatro, com dois de fava casta, meu pai semeou uns caroços de abóbora de leite, que foram doados pelo meu avô. Depois, vieram as chuvas regulares. Poucas em abril, bem mais em maio, e em junho e julho as torneiras do céu se abriram com vontade. Aliás, muito mais do que se esperava. Julho, o mês de Senhora Santana, era o que mais chovia. Já agosto era o mês do frio. Isso era regular no passado. Agora, o clima anda incerto em todo o mundo. Estamos destruindo o ambiente de forma acelerada. Os reflexos estão aí, embora os céticos, os gananciosos, que destroem as riquezas da natureza para ganhar sempre mais, encontram meios para continuar destruindo e ganhando mais dinheiro. A flora e a fauna são dizimadas. Os recursos hídricos escasseiam. Os países mais pobres continuam sendo explorados como nos tempos do colonialismo, perdendo a preços muitas vezes vis seus recursos naturais. E seus povos continuam cada vez mais pobres. Males econômicos e sociais degradam vários povos da América Latina, da África e de parte de Ásia. Além disso, a corrupção dilacera muitos países, como o nosso, aliás. 
Naquele inverno, o de 1968, eu tinha treze anos. Papai tinha acabado de comprar a Caiçara, pequena propriedade rural, bem perto da cidade, com água corrente e boa terra. No riacho, debaixo das ingazeiras, havia piau gordo, um tipo de peixe cheio de espinhas, e camarão de água doce em boa quantidade. O inverno foi muito chuvoso. Por todo canto, os riachos botaram cheias estupendas. Num fim de tarde, papai quase morreu afogado ao tentar atravessar o riacho do Mulungu, afluente do rio Sergipe, que corta o território de Dores, e que também é cortado, no lado oposto, pelo rio Japaratuba. Riachos em Dores? São muitos. E já foram bem taludos. Hoje, são tísicos. Já não botam grandes cheias nos invernos. As matas ciliares há muito se foram. Os minadouros encontram-se a descoberto e vão secando. Uma lástima! 
A casinha de taipa de Tininha, filha de “seu” Otacílio do finado Zeca Molambo, antigo feitor da fazenda Candeias do coronel Francisco Azevedo Porto, ruiu. Veio abaixo, parede por parede. A cumeeira cedeu. Madeira branca, ruim. A sorte de Tininha e de seus cinco filhos foi que ela deixou o casebre assim que a primeira parece veio abaixo. Encontrou abrigo na casa de farinha de Cecílio, primo de sua falecida mãe. Tininha era viúva. O marido, Pedro de Maria Gorda, tinha sido assassinado numa cachaçada pros lados do Boqueirão, há uns dois anos. Morte por causa besta, ou, como diriam os advogados, por motivo fútil. Mas o assassino era filho de um rico fazendeiro de Divina Pastora, dono de plantações de cana de açúcar, chefe político e o escambau. Saiu livre do júri. Tininha ficou sem nada, a não ser o casebre testa de bode e os cinco filhos. Ela vivia de lavar roupas no açude da cidade, como muitas mulheres pobres o faziam, para ganhar o sustento. Como dizia a cantiga infantil, ela era pobre de marré-marré-marré.
A casa de farinha não era um local apropriado para abrigar Tininha e seus cinco filhos, todos de cobrir com um cesto. Pequenos. Pobres tinham filhos como preás, um atrás do outro, sem descanso. Era a vida. Precisava-se dar um jeito na vida de Tininha, assim que as chuvas dessem uma trégua. De setembro em diante. 

Enfim, chegou o tempo das estiagens. Os ventos sopraram para enxugar a terra. Com o vento vinha o frio, que, logo, ia-se embora, no máximo, em meados de setembro. Era tempo, pois, de construir a nova casa de Tininha. Os vizinhos cuidaram de arranjar a madeira necessária. Na Caiçara de papai foram achadas boas peças para a cumeeira, demais madeiramentos e caibros. Madeira para os enchimentos e ripas foi tirada da Caiçara de Oscar Andrade. O arame para amarrar as varas transversais aos enchimentos foi dado por Edinaldo da bodega. De início, numa terça-feira, a casa foi levantada. A madeira vertical e horizontal foi posta. O pagamento do carpinteiro, das portas e das tintas estava garantido como adiante se verá. Auxiliares do carpinteiro eram vizinhos sem remuneração. Na terça-feira da semana seguinte, mais de cinquenta homens, mulheres e meninos acorreram para a tapagem. O barro foi tirado do barreiro de Zefinha de Duda do Gonçalão. Selão do bom. Grosso, avermelhado. Não podia faltar uma cachacinha para boas bicadas. Era assim mesmo que ocorria numa tapagem de casa, que, a bem da verdade, era uma festa. Yeyé de tia Joana encarregar-se-ia de rebocar a casa com a ajuda de alguns. Como a casa era pequena, em dois dias, o serviço seria completado. Uma demão de cal e tabatinga seria dada. Portas e janelas seriam pintadas. O dinheiro para isso, para o carpinteiro e para as telhas viera de um leilão que foi feito na porta da bodega de Edinaldo, três semanas antes. Eu fui o presidente da mesa do leilão, encarregado de anotar os valores dos prêmios arrematados. Como presidente da mesa, sinceramente, eu me achava. Que coisa mais tola! Mas, eu só tinha treze anos. Há de se compreender. A partir dali e por causa das contas bem feitas, eu fui presidente de várias mesas de leilões. 

O levantamento da casa foi feito sem nenhum problema. E sem problemas a mesma foi caiada e barrada a tabatinga. Ficou um mimo. Eram somente quatro pequenos compartimentos. Casa de pobres, mas que tanto bem haveria de fazer a Tininha e seus cinco filhinhos. Maria de Nou, prestativa vizinha de Tininha, e amiga de minha mãe, que fazia para mim beijus misturados, numa composição de tapioca e massa prensada e peneirada, que eu gostava de comer com leite, admirou-se da rapidez com que a casa de Tininha ficou pronta e exclamou para mamãe, numa linguagem que lhe era peculiar: “Ô Pastora, tu viu que ligeireza na casinha de Tininha? Num instante, o povo levantou-la, tapou-la, rebocou-la, caiou-la, barrou-la e pintou-la”. Foi assim mesmo. Houve um tempo em que a solidariedade era uma espécie de “vício” entre muitas pessoas. 

Quando a casinha ficou pronta, apareceu, no sábado à tarde, o vereador Zezito Costa, para fazer um discurso sem pé nem cabeça. A eleição municipal estava próxima. O que ele tinha a ver com a casa de Tininha? Nada. Os vizinhos de Tininha o botaram para correr. O vereador, atônito, desequilibrou-se na bicicleta e caiu numa tulha de esterco de boi. Chico Bicudo, bêbado landrino, gritou para o vereador lambuzado: “Vereador Zezito Costa / Escorregou caiu na bosta”. Coisas da terrinha.  


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
09/08
17:14

A falta do meu pai, na nossa mesa

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Sérgio Bittencourt compôs a belíssima canção “Naquela Mesa” em homenagem ao seu pai, então falecido, o extraordinário bandolinista, Jacob do Bandolim. Disse Sérgio: “naquela mesa está faltando ele / e a saudade dele está doendo em mim”. Saudade que dói. E que dói demais. Eu jamais consigo segurar as lágrimas quando ouço essa música. Lembro-me, claro, do senhor, meu pai. Rude, de ínfimas letras, farrista, trabalhador, marchante, um dos melhores feitores de carne de sol da nossa terra. Respeitado no fazer dos talhos precisos ao retalhar a carne, com a exata profundidade para que o sal penetrasse no nível certo: nem tanto para salgar demais, nem tão pouco para que viesse a apodrecer. Eu ainda me lembro da sua ligeireza com a faca na mão, retalhando cada manta de carne. Que agilidade! E que precisão! 

Como eu lembro meu pai, das tardes de sábado, quando o senhor expunha as mantas de carne ao sol, sobre grossos varais, a fim de besuntá-las com o tutano derretido, tirado dos mocotós dos bois, que mamãe trazia numa tigela de estanho. Era para dar gosto e cor. Das mantas de carne eram tiradas as pelancas e só depois elas recebiam o tutano. Ficavam por algum tempo expostas ao sol, para enxugar. Daí advém a expressão carne de sol, e não carne do sol, como alguns restaurantes desavisados expõem em seus cardápios. Ninguém come um pedaço do sol, para ser carne do sol. 

Mas, tornando ao senhor, pai, como eu poderei esquecer a ansiedade que me invadia no começo das tardes de domingo, quando eu esperava pelo malcasado, pelas balas de leite e pelas bolachas secas que o senhor trazia de Muribeca? Desde cedo, após tomar banho e vestir a camisa e o calção de tecido barato como nós, os pobres do subúrbio, vestíamos, eu me postava na cancela do sítio onde morávamos e onde tínhamos curral de abate e salgadeira. Ficava à sombra da sucupira. E como eu gostava, nos meus 4 a 5 anos, de ouvir o senhor ler os livros de poesia de cordel, tomados de empréstimo a Dudúa (D. Júlia de “seu” Antônio Miúdo), que morava em frente à nossa casa! Naquele tempo, o senhor, pai, e outros parentes, irmãos e primos, todos eles marchantes, viajavam em tropa de burros, para a feira de Muribeca. Viajar em caminhão veio depois. E foi exatamente num caminhão que o senhor quebrou as duas pernas, em 29 de março de 1964. Quanta agonia lá em casa! Noventa dias na cama. E minha mãe e meu tio trabalhando para prover a casa. Os seus fregueses não ficaram sem carne de sol. 

Aos 45 anos de idade, a 9 de março de 1979, o senhor, que não estava doente, não levantou da cama, naquela manhã. Infarto fulminante. Partiu tão cedo. E a minha formatura em Direito, um ano depois, que o senhor tanto acalentou, não pôde ver, pai. E como o senhor não estava lá, eu fiz questão de não tirar nenhuma fotografia daquele momento com o qual eu tanto sonhei e tanto lutei para alcançar. Quantas dificuldades para ter chegado ali! E os meus livros, que o senhor não leu? O senhor queria tanto que eu escrevesse livros... A vida nem sempre segue o rumo que nós gostaríamos que seguisse. Ela tem os seus próprios caminhos. 

Mais uma vez, a trigésima sexta, eu passarei o Dia dos Pais, sem o senhor, meu pai, que se estivesse aqui, estaria prestes a completar 82 anos (25/10). Porém, como o senhor não está aqui, em seu nome, pai, eu abraço cada filho que ainda tem o seu respectivo pai. E abraço e acalento aqueles que, como eu, não podem mais abraçar, neste fim de semana, os seus próprios pais. E abraço, sobretudo, os pais, que serão abraçados pelos seus filhos. E oro por todos: pelo senhor, pai, pelos outros pais, que deixaram os seus filhos envoltos em lágrimas, e pelos que ainda estão por aqui, sorrindo ao lado dos seus filhos e netos. É verdade que a morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nisso eu creio. Todavia, há o desenlace. Há uma partida. Tão doída! O absurdo da morte, disse-me um professor de Teologia, não é a morte em si mesma, mas, sim, a partida do ente querido. Toda partida, definitiva ou não, dói. É a dor da separação...

Eu não tive a graça, pai, de vê-lo envelhecer. De contemplar a sua face enrugada. De alisar os seus cabelos brancos, como os meus estão agora. De continuar comendo o “resto” da carne com farinha, que o senhor trazia nos dias em que ia à Caiçara, a sua pequena propriedade rural, que eu ainda mantenho. O senhor trazia para mim, porque eu gostava de lombo velho de frigideira, frio e lambuzado de farinha. E quando D. Morenita fazia cocada e colocava a “folha” de alumínio sobre o balcão da bodega, quentinha e mole, os bolachões da padaria de “seu” Nita chegavam à bodega, no meio da tarde, e o senhor, se por lá estivesse, mandava me chamar. Bolachão com cocada mole! Um maná dos céus, no meu tempo de menino. O senhor sabia que eu tanto gostava daquela mistura. Tudo passa. Tudo isso, e muito mais, passou, pai. Entretanto, eu tenho a graça, dada por Deus, de não me esquecer do senhor. Nunca! Nunca! Nunca! 

Meu pai, na nossa mesa está faltando o senhor. E isso dói. Tantos anos depois, pai, ainda dói muito. Repito o que diz Sérgio Bittencourt: “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava a gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã // Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída não doía assim / Agora resta uma mesa na sala /E hoje ninguém mais fala do seu bandolim // Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim / Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim”.  

Eu, que acredito que a vida ultrapassa a morte, e que “o Senhor é a nossa luz e a nossa salvação” (Sl 27,1), peço: continue olhando por mim, pai, com aquele seu olhar duro e terno ao mesmo tempo. Que as lágrimas que agora rolam pelo meu rosto, ao finalizar este texto, sirvam para lavar a minha dor pela sua ausência, papai. Era assim que eu lhe chamava: PAPAI. Sempre. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 09 e 10 de agosto de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
02/08
13:33

O feitiço

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Sá Tunina de Aparício da Cobra d’Água subiu nos tamancos, entocou-se no ódio e no desejo de vingar-se. Custasse o que custasse. A desfeita seria cobrada em dobro. Se fosse preciso, até juntaria dinheiro para saciar a sua sede de vingança. Pagaria a um pistoleiro dos cafundós das Alagoas, lugar de sujeitos destemidos, que não deixavam cair cisco na butuca dos olhos. “Aquele desinfeliz não tarda por esperar”, dizia a mulher de Aparício, que tinha, como se dizia por ali, um instinto de cobra. Dizia-se que ela mandou surrar uma pobre mulher da vida livre porque a coitada olhara com olhos compridos para Aparício, na feira. Uma única vez. Surra de rabo de teiú. 

A desfeiteada que o infeliz deixou na casa de Sá Tunina atendia pelo nome de Marcinha. Márcia Florisbela de batismo e cartório. Filha única. Mimosa e mimada. Criada pela mãe para ser esposa e mãe exemplar. Sá Tunina pagara escola primária, professora de corte e costura, e de bordados também. A moça aprendeu na escola o suficiente para ler uma carta e escrever outra. Mais do que isso não precisava para arranjar um bom partido, que lhe fizesse subir ao altar de Nossa Senhora. Para que mais? Durvalina, irmã de Sá Tunina, mãe de três filhas letradas, cada uma com diploma de professora, queria ver a sobrinha estudando, como suas filhas. Mas a irmã mais velha não se dava por isso. Filha de Sá Tunina não se daria ao desfrute de estudar à noite. Estudo ginasial em diante só à noite, na cidade. 

Vamos, agora, ao infeliz. Chamava-se Eduardo Barros de Faro. Era da família Faro de muitos lugares da Cotinguiba e dos Barros dali mesmo. Gente sem desmerecimentos dos dois lados. Dudu, como era chamado pelos parentes e amigos, era um moço trabalhador, cuidando das terras que o pai deixou para a esposa e os dois filhos, ainda menores de idade, quando ele, o pai, despachou-se para o chão frio do cemitério de Maruim, sua terra de nascimento, mortalmente ferido por uma pontada certeira de uma vaca parida e mais braba do que cascavel choca.

Dudu conheceu Marcinha numa quermesse. Marcinha nunca tivera um namorado. Também, ainda não tinha completado quinze anos. Olhou de soslaio para o moço. Nele pousou o canto do olho, um olhar sonso, de quem procura sem procurar direito, de mentirinha. Olhar maroto. Sonhador. Preso, doido para se soltar. Marcinha... Marcinha... Os venenos do mundo cabem num olhar. Não no de Marcinha, mas no olhar que podia perceber o seu olhar. Que o captaria como se capta água de chuva ligeira em tempos brabos de seca. Mais do que depressa, para não se perder uma gota sequer. Dudu não perdeu um lance do olhar de soslaio, faceiro, de quem queria se entregar, mas temia fazê-lo. Ele retribuiu o olhar, mas de frente, decidido, sem esconderijos. A íris brilhando muito mais do que o sol de verão. E não foi só o olhar. Ele deixou irradiar um sorriso, que quase lhe saiu dos lábios, para, à média distância, lançar-se nos lábios dela, onde abelhas jataís deviam ter depositado favos de mel. 

Coisa de dois meses depois daquele encontro casual, eis que os dois pombinhos estavam de namoro na porta. Namoro que durou o tempo de duas estações do ano: verão e outono. Na estação outonal, depois das brasas do verão, as folhas começam a morrer. As árvores desnudas, especialmente nas terras frias, mostram muitos braços secos, agitados ao vento, quais espantalhos. No amor, o outono não tem a relva verde do inverno. Não tem as flores da primavera, que perfumam vales e montanhas, jardins e alamedas. Não tem os brasis do verão em que as areias das praias são para o aconchego e a curtição. Outono... O fim. O namoro de Marcinha feneceu como nascido havia. Num átimo. Dudu encantara-se por uma prima distante, que morava em São Paulo. Para lá o rapaz se aboletou. Foi estudar e ficar ao lado do novo amor. Despachou Marcinha por carta, no tempo em que ainda se escreviam cartas. Não foi, claro, uma carta de amor ridícula, como diz o poema de Fernando Pessoa. Foi simplesmente uma carta sem amor. 

Marcinha caiu em prantos. Sá Tunina alvoroçou-se. O enxoval da filha já estava quase pronto. Era no tempo em que as mães cuidavam pessoalmente dos enxovais das filhas casadoiras. Às vezes, muito antes das meninas arranjarem pretendentes. A parentela, as comadres e as vizinhas deitaram falação. “Onde já se viu moço de posses se enroscar pra valer com moça que, além dos três vinténs, pouco tem de seu?”. Que línguas! Que feras! Mas, Sá Tunina não deixava por menos. Lascava todas elas. 

Sá Tunina sentiu-se ferida. Amarga demais. O rapaz parecia tão sério, tão decidido a casar-se com a sua filha, que ela, como mãe zelosa de filha única, já contava com o genro de bom proceder. E de bons haveres. Por que não? Marcinha recolheu-se em casa. Se lágrimas enchessem um rio, as delas encheriam o rio São Francisco. Definhou. Quase morreu. O primeiro amor lhe trouxera o primeiro desalento. O primeiro desencanto. Mal sabia ela que a vida não era feita apenas de torrões de açúcar. Sá Tunina vingar-se-ia da vergonha que Dudu infligira à sua filha. A morte dele seria o seu lenitivo. Ela era, sim, uma mulher de bofes muito ruins. Tivera a quem puxar: o pai era afamado pistoleiro do Pão de Açúcar. Um tio e dois irmãos, também. Ninguém entendia como Aparício, tão pacato, fora se meter com uma raça de víboras daquela. Bem. Só a morte do atrevido acalmaria o coração de Sá Tunina, que procurou agir. 

O casebre de Faustino Rezador era lúgubre. Caindo aos pedaços, numa bifurcação da estrada da Boa Vista, recuado, escondido. E muito mal cheiroso. Cheirava a coisa ruim. Cheirava a morte. O velho mandingueiro fez o feitiço. Para matar Dudu, onde ele se encontrasse. Meia-noite em ponto. Uma encruzilhada. Um pé de dedo-do-cão. Um sapo com a boca cozida e dentro dela o nome de Dudu num papel ensebado e salpicado com pelos de aranha caranguejeira. Feitiço certeiro, que Faustino não falhava. Foi o que ele garantiu. E era a sua fama. 

Uma semana depois, chegou por conhecidos da família de Dudu, a notícia da sua morte. Morreu de bala perdida, lá em São Paulo. Sá Tunina foi ter com Faustino, o mandingueiro. Agradecer-lhe? Não! Foi buscar o dinheiro do pagamento pelo feitiço. Ora, Dudu fora atingido pela tal bala uma semana antes do feitiço ter sido encomendado. Ou seja, não foi o feitiço que fez a bala atingi-lo. Faustino era um charlatão, como ela sempre pensou. Onde estava com a cabeça, quando foi procurá-lo? 
Faustino Rezador deu duas tragadas no cachimbo de bola de barro. Soltou umas baforadas. A fumaça fez voltas no ar. Ele atirou longe uma cusparada, do tipo cagada de pato. E disse: “Sá Tunina, este preto véio tem mais artes do que todos os feiticeiros da Bahia. O que eu sei veio da África, trazido pelo meu avô, Nungund’Elê Mobá. Quando vosmecê pensou em vir aqui, foi um mês antes de vir de fato. Num foi?”. Ela assentiu com o balançar da cabeça. E ele tornou: “Apois então! Eu soube antes de vosmecê vir, o que vosmecê queria. Matar o moço por causa de um namoro acabado? O que é isso, Sá Tunina? Vosmecê num tem coração. É pior que cobra corá. Na boca do sapo debaixo do pé de dedo-do-cão eu botei foi um fio do seu cabelo, que eu tirei quando lhe dei um passe, aqui mesmo, naquela tarde. Se alembra do dia que vosmecê me negou um caneco d’água e me tangeu do seu terreiro, feito um cachorro sarnento? Se alembra? E ainda mandou a puliça aqui, pra me engaiolar, mentindo que eu lhe desfeiteei”. Sá Tunina estremeceu. Aquilo fora há tanto tempo... Entretanto, o escorraçado nunca esqueceu. 

Dali a duas semanas, Sá Tunina deixou Aparício viúvo e Marcinha órfã. 

Publicado no Jornal da Cidade, edição de 02 e 03 de agosto de 2015.


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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