05/04
14:55

Pinico de Ouro

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Quem, em sã consciência, que andejou pras bandas da boca do sertão, e do sertão mesmo, pros lados dos tabuleiros e mais léguas, não se lembra de Pinico de Ouro? Sujeito falador, que xingava todo mundo com ou sem motivo. Era o jeito dele. Todavia, era de fino no trato com quem ele se dava. Tangedor de tropa de burros de carga nos tempos em que caminhão era coisa rara. Um ou outro rodavam pelas estradas de chão batido, poeirão avermelhado levantando no verão. E lama da mesma cor espanando no inverno. Ladeiras difíceis de subir. Mas, nenhuma se comparava à ladeira dos Cinco Paus, entre Dores e Siriri. Quantos acidentes! Pois bem. As tropas de burros estavam com os dias contados nos tempos de Pinico de Ouro, mas ainda tinham um fôrgozinho, isto é, um folegozinho. Eu gosto mesmo é do linguajar bruto do povo. Linguajar que soa bonito. Errado? Que o diga o poeta Manuel Bandeira, um dos maiorais da poesia deste país, ultimamente tão carente de maiorais noutros campos e noutras artes. O que andeja por aí é um bando de minorais. “Te arrenego, gota serena da peste!”, como bem diria Pinico de Ouro. Mas por falar no linguajar do povo, disse Bandeira, no poema “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”. E eu, embora professor desde os 18 anos de idade, adoro ouvir as falas do povo, as distorções linguísticas e assim por diante. E o que dizer do sotaque sergipano, arrastado, cantado a não mais poder? Eu sou um sergipano genuíno. Interiorano. Suburbano. E tento escrever macaqueando o linguajar do povo de cujo seio eu não passo de um fruto mais ou menos peco. 

Algum leitor deve estar dizendo: “Ih, começou a enrolar!”. Pois não é verdade? Eu quero falar sobre Pinico de Ouro e me bandeio para falar do linguajar arretado do povo e da poesia brasileiríssima do grande poeta pernambucano. Isso, claro, é enrolação. 

Porém, deixe estar que eu vou me danar a falar de José Lourival Machado dos Santos, vulgo Pinico de Ouro. Eh, cabra azucrinado na medida! Sujeito avultado, como gostava de dizer Maria do finado Sinhô de Filomena. E por falar em Filomena, a velha Filó era a rapa da peste no pisado do samba de coco. Lembro-me dela. Da finada Juju de Manelão da Taboca, de Julinho do Catolé, de Mimita de “seu” Amaro de Zefinha de Tonha e de uma ruma de gente boa, naqueles já distantes festejos juninos dos meus tempos de moleque. Acabou. Tudo acabou. E eu, novamente, enrolando. Tenha calma, leitor amigo. Eu haverei de chegar a Pinico de Ouro, uma horinha dessas. É que eu dei de garra desse modo de sair por aí, dando uns tanjos no palavreado. Encomprido a conversa para ganhar tempo e assuntar o que dizer. Mania de quem tem a cabeça fraca, com os dois únicos neurônios prestáveis, os indefectíveis “tico” e “teco” se chocando, um batendo no outro e desalinhando os miolos. É uma agonia para mim.

José Lourival era Machado pelo lado da mãe, Dona Mariquinhas de Pedro do Candeal, e Santos pelo lado do pai, Valdomiro da Coitezeira, fazendola de boa água corrente, mas de uma terrinha carrasquenta da miséria, cheia de altos e baixos. Prestante mesmo só o baixio do riacho. Riachinho tísico no verão, mas que nunca deixou de correr. Da boca do sertão para cima, quem tinha água tinha grandeza. E assim continua. Rapazinho, mal tinha completado quinze anos, José Lourival danou-se para São Paulo, no pau-de-arara. Esse era o pau-de-arara salutar, ou quase. O outro, não. Muito nêgo bom sofreu nos porões da ditadura, sendo lascado nesse outro pau-de-arara. Tempos azedos, que tem gente com titica de galinha nos miolos pregando a sua volta. Haveria de dizer João Calisto, se vivo fosse: “Com fé em meu Padim Ciço, nunca mais!”. Arribando para São Paulo, José Lourival por lá passou bem uns dez anos. Voltou taludo. Um dinheirinho no bolso, que deu para comprar cinco burros de carga, tropa pequena, mas de grande presteza e serventia. Transportou de tudo: algodão, nos tempos de safras abastadas; melaço dos engenhos da Capela; cachaça do alambique Santa Cruz; sebo de boi derretido para a saboaria da Capela; sacos de milho debulhado de Glória e de Feira Nova; açúcar do Central. E por aí vai. Ou por aí foi. Enfim, cheguei ao máximo da enrolação. Vamos ao desfecho, que o caso é simples e deveria ser breve. 

José Lourival voltou de São Paulo com a boca cheia de ouro. Dentes de ouro em riba e em baixo. Quando ele falava e, mais ainda, quando sorria, que sorridente ele era por natureza, apesar dos bofes quentes, a boca facheava. Reluzia que nem o sol da manhã, numa manhã de céu limpo. O que havia de errado em José Lourival? A falação. O palavreado sujo. Os xingamentos. Era, contudo, o jeito dele. Não era má pessoa. Não pisava em ninguém. Não se dizia maior nem menor do que todo mundo. Era só loroteiro. Meio arrumado na vida, botou-se para uma filha de Tinoco do Baburubu. Não sei por que mudaram o nome do povoado para Bravo Urubu. Alguém já viu um urubu bravo? Eu não. Tinoco era um sujeito igrejeiro. Andava na cola da batina do Cônego Miguel. Não perdia missa, novena ou procissão. A filha dele, Maria Clara, tinha empacado. Era a mais velha dentre cinco irmãs, porque Tinoco era galo femeiro. E a filha estava no caritó. Nenhum homem botara os olhos nela. Ou ela rejeitara os que pisaram no terreiro de sua casa. Não sei ao certo. O certo mesmo foi que José Lourival engraçou-se dela. E homem quando se engraçava, não tinha jeito: sentava no tamborete na porta do pai da moça ou a carregava numa noite de galos cantando fora de hora. 

Tinoco, ao saber da pretensão de José Lourival, abriu a boca no mundo e disse que no batente dele não tinha lugar para um cabra que só dizia besteira, que era folozado de goela, que tinha, enfim, um pinico de ouro na boca. E que a boca suja do pretenso futuro genro só poderia ser limpa com água benta, na procissão do domingo da Ressurreição, quando Jesus venceu a morte. Maria Clara, todavia, queria deixar a donzelice atrás da porta. A Páscoa estava longe e ela não tinha tempo a perder. Não rejeitou a proposta do pretendente. Já ia completar vinte e sete anos. Dali a pouco já seria uma balzaquiana. Mulher de trinta, para quem leu o romance de Honoré de Balzac. Não teve jeito. Tinoco teve que engolir um genro de boca suja. E foi assim que José Lourival passou a ser chamado de Pinico de Ouro. Apelido sempre foi danado para pegar. Aquele pegou. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 05 e 06 de abril de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
29/03
16:09

Minha professora e o “Direito de Nascer”

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Pontualmente, às 8 horas da matina, a porta era aberta. Um pouco barulhenta, a meninada entrava na sala de estar, que se dizia varanda, e que era também a sala de aula. Sala caiada com uma porta e duas janelas, na cor azul. A sala era acanhada, mas abrigava alunos do ABC ao terceiro ano primário. Ali, eu fora alfabetizado. Passei pelo ABC, cartilha e primeiro ano. Passei com média 5,0 (cinco). Tendo passado arrastado, como minha mãe me disse, em conversa dura e séria, eu fui mudado de escola e obrigado a repetir o ano, para aprender que filho de minha mãe não deveria passar arrastado. Grande lição. Todavia, eu retornaria àquela escolinha pública municipal para cursar o terceiro ano, embora eu também estivesse matriculado noutra escola, à tarde. A professora recebeu-me de braços abertos. 

Muitas vezes, a professora interrompia os afazeres escolares para cuidar da cozinha, avivar o fogo no fogão a lenha, botar água no feijão etc. No inverno, como a lenha geralmente estava molhada, não raro a fumaça enchia a sala de aula. O abano e as próprias bochechas da professora eram os instrumentos utilizados para fazer a lenha pegar fogo. Assim também eram muitas escolas daquele tempo, na minha cidade e em tantas outras. O ano? 1965. 

A professora Maria Lídia de Lima sofria de uma doença degenerativa, que lhe causava atrofia progressiva num dos lados. Uma perna era mais curta. Ela caminhava com ligeira dificuldade. Cursara tão somente até o quarto ano primário. Por isso mesmo, só ensinava até o terceiro ano. Mas, que professora sublime! Como testemunho do que eu digo, tenho guardada a minha prova final daquele ano: Português, Geografia, História, Ciências e Matemática. Média Final 9,8. Cinquenta anos depois, eu me delicio admirando aquela prova. Não o meu rendimento, mas a sua elaboração, que era resultado do bom ensino ministrado. E como aquela professora franzina, frágil, doentia, ensinava! Que disciplina! E que desvelo! 

Solteirona, ela morava com a mãe, Dona Melânea, mas que, na boca do povo, era Dona Melonia, e a irmã, Enelde, que vivia de Aracaju para Dores e de Dores para Aracaju, onde moravam Carolina e Ester, as outras irmãs. Dona Melonia vivia atarefada na roça que mantinha no vasto quintal cheio de fruteiras e com uma ampla área para o plantio de feijão, milho, fava e mandioca. Família de católicas fervorosas. O irmão, André, morava pros lados de São Paulo. 

No recreio, que começava quando ia ter início o capítulo da novela radiofônica, que ela ouvia no radinho de pilhas, os meninos e as meninas se danavam na estrada de areia solta ou embaixo do pé de araticum que ficava em frente à escola, rente à cerca da malhada de “seu” Dadá do Queijo, meu tio-avô. A ninguém era dado ficar na sala de aula durante a oitiva da radionovela. Ninguém, a não ser eu. Que privilégio! Às vezes, eu ficava. Era que eu, aos dez anos de idade, auxiliava a professora, nas lições dos alunos do primeiro ano. Eu lhes tomava a lição da leitura soletrada e de “carreirinha ou por cima”. Passava contas e tomava a tabuada. Ela achava que eu levava jeito para ser professor. E eu pensava, sim, em ser professor, porém, para ganhar presentes, como as professoras daquele tempo ganhavam dos seus alunos, no último dia de aula. Como eu era ingênuo!

Um dia, ao voltar da cozinha, a professora portava um pano sujo de carvão, o chamado pano de fundo de panela, ao ombro. Coitada! Esquecera-se de retirar o infeliz, provavelmente ao tirar a panela de feijão da boca do fogão fumacento. A turma caiu na gargalhada, que foi, de pronto, contida. Então, Dina, minha colega do terceiro ano, advertira a mestra sobre o pano. Ela ficou vermelhinha e retornou à cozinha para ali, no borralho, deixar o impertinente intruso. De outra vez, ela voltou da cozinha com uma mancha amarela na blusa branca, bordada a ponto de cruz, como ela gostava de usar. Sempre de blusa branca. A mancha parecia ser de caldo de carne frita. Novamente, Dina dera o aviso: “Professora tem uma manchinha na sua blusa”. E a professora: “Obrigada. Volte ao estudo porque senão a sua nota é que vai ficar manchada!”. Ela disse isso rindo. E nós rimos também. Dina ficou encabulada que só! 

Duas novelas eu lembro bem que ouvi na sala de aula: “O Direito de Nascer” e “O Egípcio”. A primeira arrancou muitas lágrimas da professora. E como ela fazia caretas ao chorar! Da segunda eu pouco tenho lembranças. Contudo, “O Direito de Nascer” era um novelão. Aliás, essa novela também ficaria marcada por conta de uma marchinha de carnaval (marcha-hully-gully), de 1966, composta por Blecaute e Brasinha, glosando o sucesso alcançado pela novela. Diz a música: “Ai, Dom Rafael / Eu vi ali na esquina / O Albertinho Limonta / Beijando a Isabel Cristina. // A mamãe Dolores falou: / Albertinho, não me faça sofrer! / Dom Rafael vai dar a bronca / E vai ser contra / O direito de nascer...”. A novela “O Direito de Nascer” foi produzida e exibida pelas extintas TV Tupi São Paulo e TV Rio, entre 7 de dezembro de 1964 e 13 de agosto de 1965, tendo 160 capítulos. E cujo áudio também foi exibido no rádio. Adaptação de Thalma de Oliveira e Teixeira Filho, com direção de Lima Duarte, José Parisi e Henrique Martins. Foi a primeira das três adaptações para a televisão brasileira da radionovela homônima do escritor cubano Félix Caignet.

Os bancos da escola eram daqueles compridos e sem encosto. Pobres de nós alunos! A espinha dorsal de cada um de nós haveria de sofrer, mais ou menos, alguns danos irreversíveis. Assim era a maioria das escolas municipais da minha cidade. Na classe multisseriada contavam-se uns trinta e tantos alunos. Do terceiro ano eram apenas três: eu, Jorge de tio Carivaldo e Dina de Joãozinho de Nila. A escola ficava na estrada do Gonçalão, que, hoje, se chama Rua Floro da Silveira Andrade, médico dorense, que faleceu em Fortaleza, como médico dos Portos, formado na Escola de Medicina da Bahia, no começo do século XX. Jornalista e autor de um livro sobre tema médico: “A irite e seu tratamento”. O único dorense a constar do Dicionário Biobibliográfico de Armindo Guaraná, que eu fui encontrar um exemplar em ótimas condições num Sebo de São Luiz do Maranhão. Bom. Isso é outro assunto.

Naquele tempo, era comum a escola funcionar na casa da própria professora, que, além do minguado salário, percebia o aluguel. Era uma “intera”, no linguajar do povo, isto é, um valor que servia para inteirar o salário. Ah, como esquecer as sabatinas? Eu adorava. E gostava de dar bolos nos outros, que erravam as respostas às perguntas formuladas pela professora. Eu nunca errava. Não que eu fosse inteligente ou muito estudioso. Eu era apenas esforçado. Entretanto, eu era meio perverso: batia nos dedos, e não na palma da mão. E aquilo doía à beça. Um dia, percebendo a minha malandragem, a professora Lídia me deu uns bolos na mão esquerda, para que, segundo as suas palavras, eu aprendesse a bater. Aprendi. Fácil, fácil... 

No fim do ano, ela enfeitava as provas com um cartãozinho de Boas Festas, comprado na loja de “seu” Humberto ou na de Dona Olga de “seu” Manoel José. A primeira, na Praça da Matriz, e a segunda na Praça do Comércio. Além do cartão, o indefectível laço de fita verde-amarelo. Este não podia faltar. E não era por causa da ditadura, não, como os esquerdizantes poderão pensar. Quando eu fui seu aluno, entre 1961 e 1962, também foi assim. Era uma forma inocente de afirmação da brasilidade, tão pouco cultuada nestes tempos eticamente bicudos que, hoje, vivemos. 

Eu sou fruto de uma escola antiga, de ensino tradicional, sem recursos didáticos, disciplinadora, mas que ensinava muito. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 29 e 30 de março de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/03
12:34

O inocente

José Lima Santana

Diz sabiamente o dito popular que “papagaio come milho e periquito leva a fama”. Ora, como o periquito é extremamente barulhento, com ele fica a fama, embora quem devore o milho seja o sujeito mais quieto, que pouco grita e muito come. Na vida humana, muita coisa segue esse ritmo. 

Quinta-feira. Passando um pouco do meio-dia. Bar do Bel, no Iate Clube de Aracaju. Ali eu me encontrava com um grupo de pessoas, discutindo sobre o I Encontro de Filhos e Amigos de Dores em Aracaju. Na mesa ao lado, encontravam-se austeros homens que, nos seus misteres profissionais, envergam beca ou toga. Ou seja, profissionais de carreiras jurídicas. Austeros nos afazeres jurídicos, mas não tanto nos momentos de descontração, quando dos costumeiros almoços semanais, por exemplo. Nada mais justo. Todos eles são meus amigos. Cumprimentei-os, um a um, com ênfase na saudação e no abraço. Naquele ínterim, lorotamos e mexemos uns com os outros. Rimos muito. O vento adentrando pelas portas, vindo da barra do rio Sergipe, assanhava os cabelos prateados, um pouco mais ou um pouco menos, de cada um de nós. Sobre a mesa entoalhada, a bebida predileta de cada um, além de uns tira-gostos para a turma babujar, enquanto se aguardava a comida. Por um razoável lapso de tempo, eu deixei a mesa que dividia com conterrâneos e outros amigos, para um rápido bate-papo naquela mesa de homens austeros. Em parte.
 
Ao abraçar um deles, desses quietinhos, eu disse: “Diga aí, namorador!”. Enquanto ele tentava dissimular a pecha de namorador, proclamando, entre risos: “Que nada, que nada!”, outro conviva rebateu: “Esse aí é o famoso come-quieto. Danadinho, viu?”. Outro mais complementou: “Lembra a história do papagaio e do periquito? Aí está o papagaio!”. Tornamos a rir muito. Ele próprio riu, mas com aquele risinho amarelo de desfaçatez, de quem comeu e quer esconder que comeu e o que comeu. “Sim, me engane, que eu gosto”, pensei. De pronto, um, até então calado, e apenas sorrindo, disse: “O nosso amigo aqui – apontando para outro – é quem tem levado a fama”. Ao passo que este outro respondeu: “Pobre de mim!”. Aí, sim, todos nós rimos à larga. Gargalhada geral. Este último, assim apontado, nos áureos tempos, não foi moleza em termos do mulherio. E assim lorotamos, cada um tendo, claro, o que dizer. Afinal, tem coisa melhor do que um bom bate-papo entre amigos, que se reúnem em costumeiros comes e bebes? Ali, naquele momento, eu era uma espécie de intruso, todavia, muito bem-vindo. Sem dúvida. 

O vento continuava soprando para amainar a brabeza do calor de março, do mormaço abrasador que se abatia sobre a capital sergipana, que, naquele dia, estava a cinco de completar 160 anos. E salve Aracaju, nossa menina-moça urbana! Pois bem. Aquele que eu saudei como namorador, provavelmente para escapar das nossas brincadeiras, porém, carregadas de verdades, disse que o seu avô contava que um antigo senhor de engenho da Cotinguiba costumava vestir uma capa preta para se passar por um bicho, um “maçone”, e, assim, entreter as negrinhas, minhas irmãzinhas de cor, que trabalhavam no eito dos canaviais. Segundo ele, a cabroeira do eito, supersticiosa, corria quando o avistava ao longe, metido na capa preta, com chapéu preto e botas pretas, mas as negrinhas prediletas dele mostravam-se corajosas e não arredavam pé. Sabiam o que as esperava. Cada uma tinha o seu dia. Ele só se vestia assim quando estava com o capeta no corpo, segundo diziam aquelas mulheres com as quais ele se deitava. Ele tinha um pacto com o tinhoso, e era este tal que lhe dava fogo e potência, diziam elas. Nas casinhas simplórias, que substituíram a antiga senzala, as negras velhas, agarradas a terços e patuás, como é próprio do sincretismo religioso, persignavam-se e proferiam palavras de esconjuros na língua iorubá e na distorcida língua portuguesa, quando avistavam o apadrinhado do demo metido naqueles trajes: “Áà! Ábuku afaiyá-korin! Pelo siná da Santa Cruz, vade retro!”. Ora, todo mundo sabe que histórias desse tipo rolavam à largueza nos engenhos. E não só nos engenhos, nos tempos da escravidão e depois da abolição. Hum...! Quanto ao amigo que nos contou essa história, também ele descendia da classe senhoril rural. Logo, um dos companheiros de algazarra (àquela altura, já fazíamos uma contida algazarra) não perdoou: “Ah, doutor Fulano, você sabe o que diz e, mais ainda, sabe o que faz. Você tem boa raiz”. E quem disse isso foi exatamente o neto de um sujeito apaideguado da minha terra, que lotou casas e mais casas com magotes de meninos. Quantos tios, por exemplo, tem esse nosso amigo? Dezenas. Apenas dentre os conhecidos. E ele mesmo não é quietinho não. 

Santo Deus! Foi assim, nos eitos e noutros cantos, que parte significativa da população mestiça brasileira, especialmente a nordestina, se formou e proliferou. Numa sociedade permissiva para os homens, em que, não raro, os pais diziam dos filhos, quando o assunto era namoro ou amigação: “Quem tiver suas cabras que segure, porque os meus bodes estão soltos”. Pura danação. Muita gente atolada nos encantos da carne, almas entregues à perdição, como diria o velho Cônego Miguel Monteiro Barbosa, lá nas Dores. Sociedade machista, que também apregoava: “Em homem nada pega, mas em mulher, tudo gruda”. ‘Eitha’ bagaceira no meio da feira! Fazer o quê? Todavia, os tempos mudam. Só não mudam mesmo as boas conversas, as lorotas boas, quando os amigos se encontram, como naquela quinta-feira, só para lembrar a polca “Lorota Boa”, de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira (gravada pelo Rei do Baião, em 7 de junho de 1949, pela RCA Victor, em 78 rpm, sob nº 80-0604-A, matriz S-078887). 

Era hora de despedir-me dos amigos daquela mesa e retornar à mesa onde outros me esperavam para continuar a discussão sobre o I Encontro dos dorenses. Antes de deixar o animado e estimado grupo, eu disse, tocando no ombro daquele que eu chamei de namorador: “Este aqui é inocente!”. Em uníssono, todos responderam como se fossem membros de um coro de igreja, afinado: “Inocente, não. Culpado!”. Novamente, rimos muito. Naquela mesa de homens austeros, nenhum era inocente em termos de vadiação. 

E o vento continuou soprando, trazendo das águas do rio abraçado à maré o cheiro carregado de maresias, naquele ensolarado começo de tarde. Tarde de março. Águas de março. Tudo tão propício para não inocências... Vôte! 

Um deles pediu-me para escrever sobre aquele encontro. E o título deveria ser exatamente “O inocente”. Eis aqui. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 e 23 de março de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/03
13:24

Safadeza no cemitério

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Era uma noite de lua cheia. Noite de sexta-feira. Dia treze. Mês de agosto. Noite de lua cheia era noite de encantamentos. E naquela data, então... João de Firmino de Dona Francisca de Lelê era um cabra destemido, que não se deixava amedrontar por nada deste mundo. Nem do outro. Nada lhe fazia tremer um músculo sequer. Briga de faca ou de berro cuspidor de marimbondos de fogo, que não os do Sarney? Já tinha enfrentado muitas, nos tempos brabos da UDN e do PSD. Eleições danadas! Visagem, alma penada, lobisomem, fogo-corredor ou mula de padre, que corria sete freguesias? Ele dizia: “Nunca nem vi rastro de lobisomem e muito menos retrado de alma penada”. Sujeito de coragem estava ali. Sem tirar nem pôr. Pois ele vinha das bandas dos confins do Cruzeiro das Moças, com a noite andando a meio. Vinha de bicicleta. A lua solta no céu jogava pedaços de prata em cada ruga da Terra. Lua bonita. Uma ou outra nuvem navegava de um lado para o outro na vastidão do espaço, como barcos desengonçados no mar suspenso. Eram fiapos de nuvem, mas bem carregados na cor. Por baixo da prataria lunar o escuro das nuvens se fazia menos escuro. O inverno ainda lacrimejava de vez em quando. Inverno sergipano normal findava em agosto. Naquele mês, os ventos sopravam para enxugar a terra ensopada. E no sertão fazia um pouco de frio. 

Naquela noite, no descampado do Cruzeiro das Moças, a fresca estava boa. Fresca de brejo. E lá vinha João de Firmino fumando um cigarro “astória”, cujo maço era de papel amarelo. A brasa do cigarro, consumindo o tabaco, parecia um vagalume piscando, preso na boca do fumante, a cada tragada que ele dava. O cabra tinha partes com jia e sapo. Não sentia frio. A camisa aberta no peito recebia lufadas de vento. Ventinho maneiro, como costumava ser o vento de agosto naquelas paragens. Ele voltava da casa de Maria de Belo, mãe de dois dos seus oito filhos reconhecidos. Solteirão. Namorador apaideguado. Beirava os cinquenta anos, mas ainda era um sujeito forte, aparentando menos dez. Vendedor de miudezas nas feiras de Dores e Muribeca. Aquela, na segunda-feira, e esta, no domingo. Tinha de seu um bom sítio de areia fértil. Boa mandioca, bom milho e bom feijão. Fruteiras as tinha para danar. Juntando uma coisa e outra, os oito filhos não passavam necessidade, embora dispersos em cinco casas. Em ordem de pobre, todos iam vivendo, que pai cuidadoso, dentro de suas posses, ele era. Mas a sua santa mãe, Dona Francisca, costureira, zeladora das “Filhas de Maria”, na Igreja Matriz, não se conformava com a vida dissoluta do filho, que vivia em estado de pecado com várias mulheres ao mesmo tempo, sem nunca se dignar em receber o santo sacramento do matrimônio, como convinha a um homem nascido e criado numa família de pessoas tementes a Deus. Pobre mãe, que, logo cedo, não pôde botar cabresto no filho! 

João de Firmino, nos tempos idos, fora eleitor da UDN. Gente, pois, de “seu” Maneca do Poção. Portanto, um cara-preta. Do outro lado, era o povo de “seu” Tota, chefe do PR, aliado ao PSD de Juca do Caípe, os “rabos-brancos”. Mas João de Firmino era, naqueles tempos danados, morador do então povoado Aleixo, que viraria Município. Ali, no Aleixo, ele enfrentou adversários fogosos. Topou com brigas feias. Não suas, mas de correligionários udenistas que acabavam se engalfinhando com os contrários. E ele estava do lado dos seus. Teve vezes de enfrentar tormenta de faca ou bala. Feridos, uns dois ou três. Mortos, nenhuns. Juras de mortes? Diversas, embora nunca concretizadas. Louvado fosse o nome de Jesus! Dona Francisca era quem velava por ele e por todos da família. Apesar da vida dissoluta para o lado do mulherio, ele não seria um endiabrado, um Barrabás. Até ajudava o Padre Miguel nas precisões da Igreja. Não era, porém, um devoto, para desgosto de sua santa mãe. A vida, porém, é assim: de tudo há. 

Ao aproximar-se do cemitério dali, do Cruzeiro das Moças, João de Firmino ouviu uns gritos miúdos, que mais pareciam gemidos. Apurou as “oiças”. Colocou a mão em concha na orelha esquerda. O barulhinho parecia vir do muro do lado direito do pequeno cemitério. Ouvindo melhor, lhe pareceu barulho de gente fazendo safadeza. Coisa de homem e mulher, em descarado desvario num lugar daquele, que merecia todo o respeito. Safadeza em noite de lua cheia. Freando a bicicleta e dela descendo, foi-se chegando de mansinho. Já, agora, podia ouvir nitidamente os gemidos: “Ai!”. “Ui!”. “Ai!”. “Ui!”. Era mesmo coisa de sem-vergonhice. De público descaramento, apesar de ser noite. Mas, ali, não era lugar para tamanho desmantelo. Quase chegando à quina do cemitério, pôde ouvir melhor e distinguir os tipos de vozes, que, intercaladas, sussurravam: “Ai!”. “Ui!”. “Ai!”. “Ui!”. Eram vozes de dois homens. Danou-se. Logo dois sujeitos em desatinada perversão? Pensou logo em tirar o cinturão e meter no lombo dos dois descarados. Refletiu. O que era que ele tinha a ver com aquilo, com aquela pouca vergonha dos dois celerados? Deixasse para lá! Cada um tomasse conta de sua vida, que da dele tomava ele. Devagarzinho, para não espantar os descarados, montou na bicicleta e foi tirando o corpo fora, afastando-se da quina. Mas os continuados gemidos lhe causavam uma agonia danada. Ali, encostado ao cemitério, lugar do sono profundo de tantos defuntos, que não mereciam ser molestados. Como se realmente o pudessem ser. Voltou. Silenciosamente, voltou. Desceu. Armou o pé de apoio da bicicleta. Tomou a calçada de pedra bruta. Dirigiu-se de novo ao muro direito. E eis que lá estavam os dois. Pendurados no vício, do qual só podiam desfrutar escondidos. Gozando com o mesmo gosto. De um e do outro, a baba caindo da boca. 

João de Firmino reconheceu os dois. O luar ajudou a identificá-los. Eram dois irmãos. Sim, dois irmãos, filhos de um morador dali mesmo, cuja casa, situada no meio de uma malhada, ficava quase rente ao muro esquerdo do cemitério. Eles, como se disse, estavam encostados no muro direito, ou seja, do outro lado, afastados da casa. Dois rapazolas. Por uma ironia do destino, ou sabia-se lá por qual razão, os dois nasceram cegos, com diferença de um ano e pouco. E estavam fumando um charuto, coisa que o pai, decerto, não aprovava, crente da lei batista que era. Daí o fumarem às escondidas. Sem enxergar, quando um passava o charuto para o outro, este, tocando na brasa do charuto, gritava: “Ai!”. Ao retornar o charuto para o primeiro, este também tateava e tocava na bendita brasa e também gritava: “Ui!”. Nada demais. João de Firmino saiu de mansinho. E foi-se embora, rindo às escâncaras. Em noite de lua cheia, tudo podia acontecer. Até dois irmãos cegos fumando um charuto às escondidas. Coisas da vida, hein João de Firmino? 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 15 e 16 de março de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
08/03
18:06

Educação e política em tempos bicudos

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS


O governo federal de Dona Dilma Rousseff escolheu como slogan “Brasil, Pátria Educadora”. Uma beleza de marketing. Talvez uma beleza de boa intenção. Talvez. Todavia, vimos, nos últimos dias, a reação de alguns reitores de Universidades Federais por conta do corte nos gastos com o custeio da educação universitária. O último grito foi a nota expedida pelo reitor da Universidade Federal de Minas Gerais. Faturas de água e energia elétrica sem pagamento. Redução do pessoal terceirizado. E lá se vão. “Pátria Educadora!”. Na televisão e no rádio, as propagandas sobre a pesquisa que o governo está fazendo acerca do ENEM cita o slogan poderoso de um governo fadado ao desastre. Ao menos, está a caminho. Oxalá consiga recuperar-se para o bem do país e do povo. 

Na política, mais uma vez o braço da Justiça deverá estender-se sobre dezenas de senadores e deputados federais, dentre eles os presidentes do Senado e da Câmara Federal. Ainda estão arrolados políticos sem mandato. Mandatários do PP, PT, PMDB, PTB e PSDB. É o fim. Todos envolvidos, até prova em contrário, na sujeira da Operação Lava-Jato. É evidente que com o andar da carruagem, ou seja, do processo, nem todos sejam realmente culpados. De qualquer forma, Pobre Brasil, cuja cara mostrada, para lembrar Cazuza, é a mais feia possível. E poderá vir mais sujeira por aí. Dizem que a sangria na PETROBRAS superou a casa de 1 bilhão de reais. Uma “tuliça”! 

O dragão da inflação arreganhou os dentes. Soltou fumaça e fogo. A inflação de fevereiro último assustou. Os preços públicos se danaram. Pularam a cerca. O dólar pegou um balão colorido e foi às alturas. Os juros ditados pelo Banco Central, lá de cima dão adeus aos que dependem do crédito. Em suma e no melhor linguajar sergipanês, é o cabrunco da peste. 

Mas, na terra do cacique Serigy, tudo vai bem, obrigado. O secretário da Educação, Jorge Carvalho, foi criticado porque, exatamente em minha terra natal, Nossa Senhora das Dores, comparou a educação sergipana ao inferno, diante das péssimas avaliações oficiais. Membros do governo estadual e da imprensa bateram pesado no secretário. Aqueles, à surdina; estes, de bocas escancaradas. Alguns até disseram que o governador deveria tê-lo exonerado. Afinal, disseram eles, a situação da educação vem dos 8 anos da administração levada a cabo pelo mesmo grupo político: o que continua no poder. E não se deve falar mal da própria casa. Ou do próprio quintal. E é? Muito bem.

O que dizer, então, da matéria exibida por uma televisão do Paraná, a TV Tarobá, que reproduziu imagens da Escola Estadual Governador Lourival Baptista, no interior de Porto da Folha? Alunos da escola citada enviaram, via Facebook, fotos da escola, que se encontra em condições deploráveis. O apresentador da TV Tarobá bateu pesado no governo sergipano. Diante das condições mostradas, como não bater? Como dizer que Jorge Carvalho está errado? Só porque o grupo político situacionista é o mesmo desde 2007? Dever-se-ia, então, continuar jogando o lixo para debaixo do tapete? Ocorre que o tapete já está mais do que cheio. Por baixo. 

Na Prefeitura Municipal de Aracaju, aí, sim, não há nada que mereça um pito, um comentário negativo. Está tudo às mil maravilhas! Êpa! Já ia me esquecendo do probleminha do IPTU. Um desastre! Enfim, depois de tantas idas e vindas, como sói acontecer no mundo político-administrativo, e após sucessivas prorrogações, o prefeito da capital teve que dizer diante de câmeras televisivas que os prováveis erros cometidos, ou seja, os aumentos individuais acima de 30% (trinta por cento) serão corrigidos. Bem que o Negão poderia passar sem essa, no momento que ele tenta se reerguer, com os olhos postos no ano que vem. 

Afora essas e outras besteirinhas, tudo vai muito bem, no Brasil, em Sergipe e na jovem Aracaju, que completará 160 anos no próximo dia 17. 
Ora, deixemos rolar. E salve-se quem puder. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
01/03
11:38

Quem matou Zé Marmelada?

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS


Não fui eu. Vou logo avisando. Eu não fui nem suspeito remoto. Até porque eu só tinha 10 anos de idade quando ele morreu. Apareceu morto no quintal da casa, afastada e desocupada, de Tibúrcio do Amarante, com um sorriso discreto nos lábios. Morto sorrindo? Mangando da cara dos bestas? Pois foi. Assim mesmo. Taí uma situação que nunca me saiu da memória. Lembro-me como se fosse hoje. O sol ardendo no início de uma tarde de dezembro, bem pertinho do Natal. Foi um alvoroço danado ali no subúrbio Tabaquinho. Gente como formiga em correição queria ver o morto. Ou melhor, o sorriso do morto. Eu nunca vi um defunto tão visitado por causa de um sorriso. Sorriso mais enigmático do que o da Mona Lisa. “Ô Pedrinho Pirulito, você que é um sujeito andado e amolengado, diga-me cá uma coisa: você já viu um defunto com um sorriso misterioso como Zé Marmelada? Seja sincero!”. E Pedrinho respondeu na bucha: “Bem. Eu acho que não. E ainda por cima, um defunto que foi defuntado, que foi assassinado... Nunca vi não”. Assassinado, se é que foi, mas sorridente. Não tinha explicação para tal sorriso.

Antes que os leitores e as leitoras fiquem impacientes comigo, vou logo dando o serviço sobre quem era Zé Marmelada. Era José Simplício das Neves Pereira, filho de Pereirão das Porteiras, este, filho, neto e bisneto de bons e afamados dedos no gatilho, e de jamais negarem fogo. Mas isso foi nos tempos de muito para trás. Zé Marmelada não puxou aos seus ascendentes. Nunca sequer possuiu uma arma de fogo. Era um cabra do bem. Fiscal da Prefeitura. Viúvo sem filhos. Rezador em sentinelas e novenas. Amigo e companheiro em partidas de gamão do padre Fonsequinha. Os dois eram os maiores campeões da cidade naquela modalidade de jogo de tabuleiro. Pronto. Dei o serviço. Eu hoje não estou para enrolar, não. Quer dizer, não estou para não enrolar muito. Deus seja louvado, agora e sempre!

“Ah, mundo ingrato! Ah, mundo velho enganador!”, costumava dizer Zé Marmelada, quando alguma coisa desandava para ele ou para algum conhecido. Se o mundo pode ser ingrato com algumas pessoas, ou a vida pode sê-lo, eu não estou certo. Mas, se for, com certeza o fora com ele. Fora sim. Casado de novo, viu a mulher morrer de parto e a filhinha recém-nascida morreria oito dias depois. Ele não haveria de casar novamente. Viveria sozinho o resto de sua vida. E cuidaria com um zelo extremado da sepultura da mulher e da filha. Ele mesmo, com a ajuda de um parente, que era pedreiro, levantou a carneira azulejada, onde um dia também haveria de repousar.

Algum leitor ou leitora acha que eu estou enrolando? Se por acaso acha, desculpe-se. Não estou não. Só estou querendo situá-los no contexto da vida e da morte de Zé Marmelada. Ah, lembrei-me agora de explicar como José Simplício adquiriu a alcunha de Zé Marmelada. Quando era menino, ele gostava de jogar bola, de bater uma peladinha no campo improvisado de chão duro lá no Tabaquinho, que, por oportuno, eu informo que agora se chama Loteamento Grandeza. Toda vez que ele se sentia lesado numa jogada, que o juiz improvisado não marcava nada que lhe favorecesse, ele berrava: “Marmelada!”. Pronto. Ficou Zé Marmelada.

No peito de Zé Marmelada, um tiro. Um furo na camisa branca manchada de sangue. Um discreto filete de líquido vermelho e viscoso escorreu pela camisa. Por baixo da camisa, porém, o filete era enorme. Uma poça de sangue formou-se no chão, ao lado esquerdo do defunto sorridente. Intrigante sorriso. A polícia, que naquele tempo, ou seja, há 50 anos, não tinha preparo técnico nenhum, mas era diligente, principalmente naquele momento em que o delegado era o tenente João Bispo, jovem talentoso, que se tornaria coronel e comandante da Polícia, e que não descansou para tentar esclarecer o caso. Quem teima em ler os meus pobres escritos domingueiros deve estar ansioso para saber quem matou Zé Marmelada. Chegarei lá.
O delegado João Bispo ponderou os fatos. Colheu alguns dados. Analisou a cena do crime. Ouviu depoimentos preliminares, antes de abrir o inquérito. Mandou recolher o corpo, levando-o à sala do distrito sanitário municipal, sob os protestos de familiares do morto. Afinal, quem aquele delegadozinho pensava que era, para impedir a família, irmãos e sobrinhos, de prantear o defunto, de cuidar do corpo? Nenhum delegado, pelo que o povo se lembrava, jamais fizera aquilo. Apesar das contrariedades familiares, e do disse-que-disse do povaréu, o jovem tenente encarregou o farmacêutico Juvêncio de fazer o laudo de exame cadavérico. O laudo saiu. Aparentemente, nada que pudesse esclarecer aquele assassinato. Ou suposto. A única evidência: o tiro fora desferido à queima roupa. Não havia recursos técnicos que pudessem elucidar o caso. Só restava mesmo liberar o corpo para o velório e o respectivo sepultamento. A sentinela foi muito concorrida. Zé Marmelada era muito bem quisto. Além disso, rezara em incontáveis sentinelas. Era chegada a sua hora de receber as rezas, as excelências, que, na língua grossa do povo, eram ditas “inselenças”.

A morte de Zé Marmelada não foi desvendada. Nenhum indício. Nenhum suspeito. Nada. O delegado encerrou o inquérito e o encaminhou ao Fórum. Todavia, não se deixou convencer daquele suposto homicídio. O padre Fonsequinha confidenciara ao delegado que Zé Marmelada andara apreensivo com alguma coisa. Algo parecia lhe afligir. Mas, embora tentasse algumas vezes, ele não conseguira arrancar nada. Uma sobrinha do morto tivera a mesma impressão. Nada além daquilo. O delegado não tinha elementos para pedir a reabertura do inquérito. Um ano se passou.

Na noite da missa de um ano, o caso seria, enfim, desvendado. Zé Marmelada jurou diante do cadáver da mulher, a quem ele amou como se deve amar a pessoa com quem se partilha a vida, que jamais amaria outra mulher. Nenhuma outra tocaria as cordas invisíveis do seu coração. Para nenhuma outra ele colheria rosas orvalhadas no seu pequeno jardim. Dos lábios de nenhuma outra ele haveria de colher mel, como colhera dos lábios de sua amada. E assim ele o fez. Nunca mais olharia para outra mulher. Contudo, nos seus últimos meses de vida, ele esteve a ponto de quebrar a jura. Estava de cabeça virada por causa de Ana Flora, sua vizinha novata. Uma tentação. Aquela morena azucrinava a sua cabeça e o seu coração. Ele entrou em apavorante angústia. Não poderia quebrar a jura de amor eterno. Escreveu uma carta. Pediu ajuda ao compadre Salvador a quem entregou a carta com uma recomendação. No quintal da casa vazia de Tibúrcio, que se mudara para a capital, ele deu cabo da própria vida, usando um abafador improvisado para abafar o estampido do tiro do revólver recentemente adquirido para aquele fim. Usou luvas para não deixar resíduos de pólvora. O único tiro que dera fora para tirar de sua vida a angústia e o tormento. Para tirar a própria vida. Antes, o compadre não conseguiu lhe demover. Mas, cumpriu o prometido, que era desfazer os indícios do suicídio, para que o padre Fonsequinha pudesse celebrar a missa de corpo presente, pois suicida não tinha direito a esse regalo espiritual. Ele não queria que a sua alma penasse na escuridão. Salvador entregou a carta ao padre, logo após a missa de um ano, no confessionário. Pela letra, o padre confirmou a autenticidade da carta em que Zé Marmelada confessava o suicídio que iria perpetrar. Salvador não fora cúmplice do suicídio. A carta era clara. O padre não podia fazer nada. Recebera a carta em confissão. Caso encerrado.

(*) publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º e 2 de março de 2015


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/02
12:37

Os imbecis, Jackson Barreto e a política sergipana

José Lima Santana
Professor do departamento de Direito da UFS 

Um exaltado suposto eleitor do senador Eduardo Amorim, nas últimas eleições, embora, em 2006 e em 2010, esse exaltado tenha votado em Marcelo Déda, de saudosa memória, fez-me uma reclamação em face do artigo “Depois do carnaval, a administração de JB já será velha”, publicado aqui no Jornal da Cidade, edição de 01 e 02 deste mês. O exaltado disse que eu peguei leve contra Jackson Barreto. Ora, eu tinha que pegar leve ou pesado? Nem uma coisa nem outra. Eu escrevo o que eu quero sem dever favor ou desfavor a ninguém. Muito menos aos imbecis. Que isso fique claro. Alguns também não gostaram do último artigo “Nota 6 para João Alves Filho”. E eu com isso? Não escrevo para agradar ou para desagradar. Simplesmente, escrevo. 

Os imbecis estão em todos os lugares e, obviamente, em todos os lados da vida político-partidária em Sergipe, no Brasil e no mundo. Bem. É como eu vejo. Pois não é que um auxiliar do segundo ou do terceiro escalão – sei lá! – do governador Jackson Barreto, um desses que, na hora da bonança é tido como do tipo “segura-peido”, que lambe botas e arrasta o rabinho, como se fora um cãozinho de estimação, ou melhor, cãozinho de adulação (com todo o respeito aos cães), andou, numa roda de amigos, alguns dos quais também meus amigos, dizendo, de forma desgraçadamente suja que Jackson Barreto deveria me dar um “corretivo”, na DESO. O imbecil não sabe que, primeiro, como advogado da DESO, eu não deveria qualquer favor ou obediência ao Chefe do Poder Executivo, qualquer que fosse ele, quando se tratasse de minhas atividades não funcionais, como é o meu pobre ofício de escrever. E, em segundo lugar, eu fui advogado da DESO por 25 anos (1988-2013), tendo me aposentado em 1º de março de 2013, ao completar, ao todo, com acessio temporis, 40 anos de efetiva contribuição previdenciária. Esse sujeito deveria estar informado, para não dizer asneiras.

Pois bem. Permitam-me os editores deste matutino e os leitores, informar ao desavisado lambe-botas, que eu tenho pelo governador Jackson Barreto o mais profundo respeito. Ainda. Respeito pelo que ele representou para a oposição ao regime autoritário, pela luta diuturna que ele travou ao lado de muitos companheiros, alguns dos quais, hoje, dele afastados, e, especialmente, porque fui seu secretário de Administração, na Prefeitura Municipal de Aracaju, quando de sua segunda gestão. E nele eu votei em algumas oportunidades, para deputado estadual, deputado federal, senador e governador (em 1994 e 2014). Não votei nele para vereador ou prefeito da capital, pois sou eleitor em Dores. Aliás, na última eleição, inclusive, discursei em Dores, no palanque, ao seu lado. E assinei uma moção em favor de sua candidatura, ao lado de outros professores da UFS, publicada em alguns órgãos de imprensa. O que eu jamais farei é deixar de cutucar, de comentar ações governamentais ou a falta delas, seja de Jackson Barreto, de João Alves, Valadares, Almeida Lima, com os quais eu também trabalhei, no estado e na capital, ou, seja lá de quem for. Está ouvindo, ó imbecil desinformado? Quer mais, ó tresloucado espinha de peixe podre? Quer saber mais, ó despudorado imbecil? Pois lá vai. 

Peço vênia ao governador Jackson Barreto por expor algo que é estritamente pessoal, mas que ele próprio já expôs em mais de uma ocasião, como, afinal, hei de revelar. Em 1994 – está lendo, ó imbecil carrapatoso? – JB, enquanto candidato a governador contra Albano Franco, foi à SMTU, hoje SMTT, fazer uma visita, como os candidatos costumavam fazer às repartições públicas. Após a visita, de sala em sala, ele foi ter comigo, na Superintendência. E foi então que ele fez algumas ligações do celular, umas três ou quatro, pedindo aos interlocutores que lhe avalizassem um título de crédito junto a um Banco, ou seja, um papagaio, como se diz na gíria bancária. Ninguém se propôs avalizar o documento creditício. Voltando-se para mim, ele disse, com voz lamentosa: “Como é que pode Zé Lima, um candidato a governador, não achar um amigo que avalize um papagaio junto a um Banco, para despesas pessoais?”. Prontamente, eu lhe disse: “Eu avalizo”. Surpreso, ele perguntou: “Você confia em mim?”. E eu: “Confio”. A quantia não era tão grande assim. Na verdade, para um candidato a governador, era uma miséria. De verdade. Para mim, claro, era alguma coisa. À tarde, ele me ligou, para informar que o Banco somente lhe emprestaria a metade do que tinha acertado. Logo mais, um portador foi levar o papel creditício para que eu avalizasse. Após assinar, tomei uma resolução. Liguei de volta para JB e lhe disse: “Jackson, eu vou lhe emprestar a outra metade”. E assim eu o fiz. Está lendo isso, seu imbecil falador? Eu não sou um estranho. 

Quando Jackson Barreto foi candidato a senador, ao lado de Albano Franco, em 1998, numa atividade realizada no Colégio General Calasans, em Dores, Jackson estava conversando com as pessoas que ali se encontravam e, ao me avistar, disse, ao microfone, para todos ouvirem: “Albano, na eleição de 94, que eu disputei com você, Zé Lima avalizou um papagaio num Banco e ainda me emprestou uma quantia”. Do mesmo modo, quando, em 2011, após a inauguração de um complexo residencial, no Lamarão, pelo governador Marcelo Déda, eu estava com o prefeito de Dores de então, Aldon Luiz dos Santos, e ao nos acercar do governador com quem o prefeito, ao lado do deputado federal Valadares Filho, precisava falar, Jackson, mais uma vez, se referiu ao aval e ao citado empréstimo, dizendo, em tom de gracejo, ao governador Déda, o que dissera a Albano e aos dorenses, em 1998. Está lendo, seu imbecil, que de nada sabe, a não ser puxar o saco de quem, momentaneamente, lhe interessa? 

A política é, deveras, algo a merecer a atenção de todos os cidadãos e de todas as cidadãs. Desde a velha Grécia. Desde muito antes. Enfim, desde sempre. Porém, a cada dia que passa, as pessoas se desencantam com a política. Melhor seria dizer, com a forma com que a política é exercida por alguns políticos, mandatários ou auxiliares destes. E entre os auxiliares há os rastejantes e imbecis. Que Deus nos livre dessas bestas espumosas! 

Quanto aos meus artigos, que venham a falar sobre política ou administração pública, eu os farei como me der na telha, sem, contudo, hostilizar nenhum político ou governante. Quando eu quiser falar, falarei o que for preciso. Falarei sobre o que sinto. Sobre o que eu compreendo. Sobre meus pontos de vista. Sem ferir deliberadamente quem quer que seja: Jackson Barreto, João Alves etc. Mas, também, sem ocultar fatos, quando for preciso expô-los. Para que a verdade seja conhecida. E para que os imbecis lambe-botas continuem lambendo. Desafortunadamente. “Burro por onde passa, deixa a marca da ferradura”. Tenho dito. Por enquanto. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 e 23 de fevereiro de 2015


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
15/02
18:49

Nota 6 para João Alves Filho

 José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Li, no Facebook, que o deputado federal André Moura teria atribuído nota 6 (seis) à gestão do prefeito de Aracaju, João Alves Filho, em entrevista ao jornalista André Barros (TV Atalaia). Se for verdade, e deve ser, entrando no terceiro ano de mandato, João Alves precisa, se puder e souber, fazer crescer sua imagem junto à opinião pública. E imagem de administrador só cresce administrando. E administrando muito bem. Não é isso, contudo, o que vem ocorrendo com o prefeito da capital. Pelo contrário. João Alves ainda não acertou o passo da administração aracajuana, em alguns setores. A administração alvista, em parte, continua tonta, igual a barata que comeu Baygon ou SBP. 

João Alves ganhou a eleição de 2012 por causa do desencanto dos eleitores com a gestão de Edvaldo Nogueira, que, a bem dizer, não foi uma lástima, embora não tenha sido uma “belezura”. Mas o povo queria mudar. Para melhor. Conseguiu? Só Jesus na causa! Quantos desacertos...! Meu Deus! A situação de João Alves é aflitiva. Ele tem somente este ano. Parece ser pouco. Muito pouco, para recuperar o tempo perdido. Do jeito que a máquina administrativa anda, a passo de cágado, João tenderá a amargar uma derrota acachapante. É claro que os fatos de hoje podem não reverberar amanhã. O prefeito poderá dar a volta por cima. Não será fácil, mas também não se pode dizer que será impossível. 

A nota 6 (seis) é muito pouco para um governante que pretende alçar-se à reeleição. E quem deu tal nota não foi um adversário. Não. Foi um aliado. Isso prova que a situação dele não é boa. E não é mesmo. A gestão de João é do tipo gangorra. Sobe e desce. Mais desce do que sobe. Está embolada no meio do campo. Não tem ataque. Ou seja, não avançou. Não avança. Avançará neste que, na prática, é o “último” ano de gestão? Sim, porque 2016 é ano eleitoral. Ano de tentativas de arrumações políticas. Administração para valer? Adequação na prestação de serviços? Obras necessárias, que encham os olhos dos eleitores? Quando? Aonde? João tem dinheiro para tocar obras? Tem como melhorar mesmo os serviços públicos, sem ser através de paliativos, a exemplo da saúde? Tem como melhorar a mobilidade urbana? Tem como cumprir o que prometeu? Seria bom. Para o povo e para ele. 

Por outro lado, divulgou-se uma pesquisa, que coloca João um pouco atrás do ex-prefeito Edvaldo Nogueira. Quem diria! Edvaldo com 19,7% contra 19,2% de João. Meio ponto percentual do ex-prefeito à frente do atual prefeito. Como diria o saudoso colunista social, João de Barros, o Barrinhos, “sinal dos tempos”. E, ainda por cima, o 3º colocado é Valadares Filho, que perdeu apertado para João, em 2012. Ele aparece com 17,5%. Em 4º lugar, aparece Robson Viana, com 4,5%. E em quinto, Ana Lúcia, com 2,5%. Em suma, afora João, só dá a oposição. Somando os percentuais da oposição, João está na lona. Ora, dirão os alvistas, estamos em 2015. A eleição será dentro de 20 meses. É verdade. Porém, daqui para lá, tanto João poderá subir, quanto poderá cair. 

Normalmente, eu escrevo os artigos entre a quarta-feira e a quinta-feira, que é o dia em que devo enviar à redação do Jornal da Cidade. Após escrever este, eis que, na manhã do dia 12, saiu outra pesquisa: João Alves com 20,8%; Edvaldo com 15,3%; Valadares Filho com 13,7%; Eliane Aquino com 12,1%, Robson Viana com 6,9% e Ana Lúcia com 4,3%. Embora João apareça na liderança, a soma dos percentuais dos outros citados, que são todos de oposição a ele, representaria uma goleada, igual à pesquisa anterior. É claro que na eleição a conta não seria bem essa. De qualquer forma, João terá que mostrar serviço. Muito, muito mais. 

Já há quem diga que a oposição poderá sair com dois candidatos, com possibilidade de ambos chegarem ao segundo turno, deixando João Alves amargar o atoleiro eleitoral do terceiro lugar, como fruto do atoleiro administrativo. Atoleiro? Ora bolas, nem chovendo está, dirão os alvistas. Estão certos. Porém, ainda vai chover. João Alves que se cuide. Que se proteja, procurando melhor servir ao povo aracajuano. Do contrário, poderá sair encharcado da Prefeitura, enfrentando um ou dois candidatos do bloco liderado pelo governador Jackson Barreto. 

Nota 6 (seis). João chegará a 8 (oito)? Ou a 4 (quatro)? O tempo nos dirá. Todo tempo é tempo de lutar. Tempo de correr atrás do trio elétrico, ou melhor, do que ficou para trás e ainda pode ser recuperado. O carnaval está querendo me atrapalhar. Que quero eu estar falando, aqui, em trio elétrico? Entretanto, pegando a deixa, “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, como canta Caetano Veloso. Assim, em busca do tempo perdido (não a obra imortal de Marcel Proust), também só não vai quem já esticou a canela. E João ainda vive. Precisa de musculatura para se movimentar. Ele e a equipe, ou parte dela, que ainda anda ciscando, juntando terra nos próprios pés. O prefeito tem ao seu lado um braço forte, ágil, bom para pensar e para executar, que se chama José Carlos Machado. Mas, Machado parece meio amarrado. Não por culpa dele, provavelmente. O que falta para Machado ajudar muito mais ao prefeito? Sabe-se lá! 

De qualquer forma, o jogo para 2016 pode ser antecipado. Há quem torça por essa antecipação. Para que os debates nas emissoras de rádio, por exemplo, comecem já. A mesa está pronta. O baralho também. Baralho novo? Que nada! Baralho velho com cartas marcadas, manchadas pelo uso, pela ação do tempo etc. É preciso um baralho novo. Mesmo que alguns jogadores sejam velhos. O baralho novo das ideias novas. E será possível que algum pré-candidato se apresente ao público com ideias novas, factíveis, e não mirabolantes como são do gosto de muitos homens públicos, nesse momento de crise política, econômica e ética em que vive o país? Sim. Nas crises as pessoas de bom senso se exercitam bem mais em busca de soluções para o que parece ser insolúvel. Alguém já disse, lá atrás, que “crise se vence com trabalho”. Os leitores devem se lembrar. O problema é que, mesmo para quem disse isso, o trabalho nem sempre é bem executado. Aí, então, a jiripoca pia. Deixe piar.
 
Enfim, vamos brincar em paz neste carnaval. E que todos, governantes e governados, despertem para as mais duras realidades da vida após os embalos de Momo. E como saudou o poeta Manuel Bandeira, no poema “Bacanal”: Evoé, Baco! Porém, que ninguém se dê ao desfrute de quaisquer tipos de bacanais. Que venham boas ideias e bom trabalho. Que o povo não seja esquecido. Na planície e no planalto. Amém. 


(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 15 e 16 de fevereiro de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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