26/07
11:01

A viúva

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Maria Rosa do finado Zé Julião, seu defunto marido, que se foi depois de ter comido uns torresmos com tapioca e refresco de cajá, estava de novo casamento marcado. Ela ainda era jovem, tendo viuvado aos trinta anos e há menos de três. As línguas de matraca diziam que nem bem o calor do defunto dera sinal de sumiço, a viúva já botava brasas debaixo da cama. Viúva das coisas quentes. “Potranca esperando sela”, como diria Sebinho meu primo, que tinha um linguajar politicamente incorreto, como hoje se diz. Para Dona Marinalva de “seu” Joca de Maria de Fulô, porém, Maria Rosa estava certa. Defunto que se foi não tinha mais direito a cama e mesa. Além disso, Maria Rosa não tinha filhos. Zé Julião fora, antes do casamento, coiceado por uma vaca, enquanto tirava leite, e o coice atingira suas partes fracas. Coitado! Daí, para alguns, ele não poderia embuchar mulher. A viúva, uma vez casada de novo, poderia provar ou não o dizer do povo, ou seja, que os balangandãs do finado não valiam mesmo nada.

O noivo de Maria Rosa era mais novo do que ela. Tinha vinte e dois anos. Tratava-se de Marcos Fagundes, filho de Pedrinho do Gravatá, vendedor de carne de bode no Talho de Carnes da cidade, às segundas-feiras. A mãe do noivo, Germana de Almerinda, era prima de Maria Rosa, lá por trás das nuvens. Por conta desse parentesco distante, houve quem alardeasse que o casamento era de acerto, pois a viúva ficara bem do seu, com boa casa, bom sítio e uma pequena propriedade de criar gado bovino. Dizia-se até que tinha bons trocados no Banco. Disso, contudo, provas eu não dou, embora não tenha motivo para duvidar. Já o noivo, que, antes, andara enrabichado para o lado de Gegeca de Carlinhos Galego, era motorista da Prefeitura Municipal. Ou seja, mal começava a vida. Mas, não tinha nada a ver. Quando o amor chegava com flechas certeiras, não havia nada que o impedisse de alvejar o alvo mirado. Com ou sem acerto.

O certo era que os preparativos para o casório estavam adiantados. Casamento de viúva não era casamento de moça virgem, para ser de vestido branco, de véu e grinalda enfeitada com flores de laranjeira. Maria Rosa escolhera um vestido simples, cor de marfim, comprado em Aracaju. Não haveria guardas de honra, mas apenas uma porta alianças, que era sobrinha da viúva-noiva. Ela era uma mulher bem apanhada, de corpo retilíneo, rosto formoso, pele amorenada e bem cuidada, olhos vivos e negros, como negros eram os longos cabelos, que ela os tinha à altura da cintura. O noivo, Marcos, era alto, forte, rosto sardento, saudável, zagueiro do Risca Faca Futebol Clube. E não era má pessoa. Pelo contrário. Motorista da rural da Prefeitura, ele se mostrava muito prestativo. Não tinha dia nem hora para atender as pessoas encaminhadas pelo prefeito, carentes de viajar para ali ou para acolá. Possivelmente, daria um bom marido. A julgar pela idade, ele haveria de tacar fogo na alcova de Maria Rosa. E esperava-se que lhe desse os filhos que Zé Julião não pôde dar.


O casamento ocorreu num sábado de muito calor. Até na hora da celebração, por volta das dezenove horas, o suor encharcava o padre, os noivos e todos os outros presentes na igreja. O noivo pareceu sentir-se mal na hora de dizer o “sim”. Disse-o sufocado. O “sim” saiu com voz ofegante. Afora o padre e a noiva, ninguém ouviu. Marcos afrouxou o nó da gravata. Precisava respirar. Em bicas, o suor escorria em seu rosto. O padre sentiu que havia algo estranho e apressou a cerimônia. Papéis assinados e fotos tiradas, restava a recepção aos convidados na casa do novo casal. Marcos sentiu-se melhor. O sufoco parecia ter sido ocasionado pela emoção. Não era raro alguns noivos emocionarem-se mais do que as noivas, na hora “h”. Havia até os que choravam. E quem disse que choro era algo exclusivo de mulheres? Afinal, todo mundo tinha e tem lágrimas nos olhos, essa secreção límpida, incolor e salgada, produzida pelas glândulas lacrimais, que limpa e umidifica a conjuntiva e a córnea.


Os convivas comiam e bebiam com grande animação. O prefeito, padrinho do noivo, era dos mais animados. Tirava algumas pilhérias pesadas pelo fato de que Marcos Fagundes deveria mostrar que não seria outro Zé Julião, galo de ovo goro, que não conseguiu engravidar a mulher. Inconveniências à parte, tudo corria na mais perfeita ordem. Comida e bebida não haveriam de faltar. Os pais do recém-casado demonstravam grande alegria. Um rapazola, primo de Marcos Fagundes, de apelido Bagatela, filho de Amâncio de Mariquinhas, saltou com esta gaiatice: “Não vá morrer antes de fazer um menino, ouviu, Marcos? Senão já tem quem ocupe seu lugar. Euzinho”. Todos riram à larga.


O calor definitivamente tinha invadido a noite. Nenhuma brisa soprava. A casa, porém, era bastante arejada. Dava para suportar a quentura da noite de janeiro. O verão estava no auge. Muitas formações de trovoadas, que não deveriam demorar. Maria Rosa recebia cumprimentos, ouvia cochichos das amigas, mas não tirava o rabo do olho do novo marido. Oxalá, todos se fossem. Quanto a Marcos, que tinha pela frente uma semana de descanso, para deleitar-se com a lua de mel, estava numa roda de conversa em que o prefeito, ao invés do novo dono da casa, era a figura principal. Prefeito era prefeito. Enfim, autoridade dentro e fora da Prefeitura. Besta era quem dizia que “era melhor ser corno do que ser prefeito”. Era nada!


Finalmente, festa acabada, tabaréu na estrada. Marcos e Maria Rosa estavam sós. A noite seria deles. Ou melhor, a madrugada, pois fecharam a porta pouco depois da meia-noite. No quarto, o casal que só teve cinco meses de namoro, preparava-se para a primeira noite de amor, pois o namoro correra no maior respeito, como convinha a pessoas de boas famílias e com as melhores intenções. Naquele tempo ainda era assim. Estou falando de 1961. Maria Rosa fora ao banheiro arrumar-se para o marido forte e em ponto de bala. Demorou-se o tempo suficiente para ouvir um barulho, um baque e um grito lancinante. Correu para o quarto. Encontrou o marido morto, fulminado por um ataque do coração. Mal se casara de novo, de novo viuvara. O mal súbito sentido na igreja retornou mortal, para levar Marcos Fagundes, prestimoso motorista da Prefeitura, à cidade de pés juntos. Morte sentida pelo povo e, ainda mais sentida, em face do jeito como ocorrera. A bem dizer, Marcos era um menino. Outra vez, Maria Rosa cobriu-se de preto, como era próprio a uma viúva naqueles idos.


Um ano depois, a viúva tornaria a se casar. Exatamente com aquele rapazola, Bagatela, primo do finado Marcos, que soltara a gaiatice durante a recepção após o segundo casamento de Maria Rosa. Viúva que não baixava o facho... “Você, cara, tem coragem de mamar em onça”, brincavam os amigos dele. “Casar com uma viúva dessas? Só sendo muito macho ou muito doido”. Casaram-se, sim. Ela beirando os 35 e ele mal tendo chegado aos 20 anos. Bagatela não morreria, como o primo Marcos. Nem como Zé Julião, comedor de torresmo com tapioca e refresco de cajá. Um veneno. O casal teve tempo para botar no mundo três filhos, um homem e duas mulheres. O filho, que fora estudar em Minas Gerais, lá morando com uma tia, tornou-se padre e, depois, bispo. E as filhas deram aos avós quase uma dezena de netos. Maria Rosa ficaria viúva pela terceira vez, aos 75 anos. E casou 2 anos depois com um sargento reformado de 60 anos. Na última terça-feira, o sargento fez a viagem definitiva. Meus pêsames a Maria Rosa. Ela vai fazer 87 anos em outubro. Será que a viúva ainda vai querer chamego? Alguém duvida?

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 26 e 27 de julho de 2015



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
19/07
18:25

Encontro de amigos do facebook

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Amigos do facebook são apenas amigos do facebook. Nada mais. Muitos nem se conhecem pessoalmente e alguns jamais se conhecerão. Há, porém, amigos que começaram a se relacionar nessa rede social e acabaram se tornando grandes amigos. É possível algo mais? Quase tudo na vida é possível. Pois bem.

Eles se conheceram, sim, no facebook. Ela, fisioterapeuta. Morena, bonita, corpo bem delineado, sorriso de flor que se abria na madrugada para beber do orvalho e explodir em cor e perfume sob o brilho da manhã. Ela sempre curtia as postagens dele. Poemas e pequenos textos em prosa. Alto astral, como diziam alguns por aí, nesse mundo de redes sociais que se alastravam. Quem estava fora delas, estava fora do mundo. Diziam. Havia, porém, quem disso discordasse. O mundo, para estes, era muito mais do que redes sociais. Muito, muito mais. Ela sempre comentava as postagens dele. Comentários curtos, mas graciosos. Comentários de amiga recente, que parecia se achegar passo a passo. Outra amiga a indicara para ele adicionar. Coisas do facebook. Desde que fora adicionada, ela o curtia semana após semana. Ele postava um texto em prosa todo fim de semana. Ao longo de algumas semanas, apareciam outros textos, poesia ou prosa. Ela curtia todos eles. E comentava um por um. 

Ele... Bem, ele era um misto de escritor bissexto, desses que teimavam em chamar atenção para um talento que, deveras, não o possuía, apesar do reconhecido esforço, além de ser profissional liberal. Um sujeito simples, que, fisicamente, não chamava a atenção de ninguém, nem se destacaria se ao seu lado estivesse apenas mais um sujeito ou um milhão de sujeitos. Não era nenhum deus grego. Nem mesmo um semideus. Nem... Nem nada do tipo. Também com a Grécia quebrada como está...! Mensagem vinha, mensagem ia, e eis que ela deixou escapar: “A gente ainda não se conhece... Quem sabe se a gente não se esbarra por aí...”. Era como se ele esperasse por aquilo desde os tempos pré-socráticos. E devolveu em mensagem reservada: “Pois é. Quem sabe se a gente não se esbarra por aí, no shopping, na paria... A gente já conhece a cara um do outro, das fotos daqui do facebook...”. E ela: “Quem sabe... Hehehehe...”.

Os dias se passaram. Os meses se passaram. O inverno chegou. O inverno esteve a meio caminho, preparando-se para, mais tarde, ir-se embora. Era um sábado de céu manchado de nuvens. Não chovia. Nem fazia sol. Dia a meio termo. A manhã para ela passou a passos de cágado. Em tempo de crise, de dinheiro curto para muitos, embora não para ela, mesmo sabendo-se que sobrar muito não sobrava, uma boa ajeitada nos cabelos era possível fazer em casa mesmo. Uma boa escovada. O penteado de costume. Uma maquiagem discreta. O perfume preferencial. Roupa? A casual. Era sábado. Um sábado comum dentre tantos sábados comuns. Nada de especial a esperava. Tão bom seria, contudo, se rolasse algo não usual. Seria tão bom! Almoço em casa. À tarde, daria uma volta no Shopping. Talvez uma sessão de cinema. Uma colega de trabalho, recentemente separada, sem filhos, seria a sua companhia. O problema era que a amiga gostava de filmes bobinhos, tipo água açucarada com uma leve pitada de sumo de limão, apenas para dar um gostinho sem gosto. Quanto a ela, sua preferência por filmes era daqueles arrebatadores. Dos grandes dramas.  

O sábado dele foi só um pouquinho mais agitado. Uma ida ao mercado para comprar uns trecos. Passou num bar de esquina para cumprimentar alguns amigos e degustar um caldinho de sururu. Na verdade, degustou três. Dois de sururu e um de mocotó. Beber? Não bebia. Só sucos e água de coco. Estava bem servido. Almoçou um pouco mais tarde que de costume. Um peixinho ao molho de camarão. Não tinha nada de programado para a tarde. Haveria de ler um bom livro dentre os três que tinha comprado ultimamente. Escreveria um pouco? Deixasse a tarde rolar. Súbito, decidiu ir ao Shopping verificar os preços de um HD externo. Tarde de nuvens no céu.

A amiga dela entrou numa loja. Recentemente separada, o marido a deixara por uma antiga namorada, igualmente separada. Quanta separação! Talvez a amiga estivesse numa fase de compulsão. Precisava comprar e comprar. Enquanto a amiga revolvia peças e coisas, a morena dirigiu-se ao quiosque dos sorvetes. Pediu um dos grandes. Uma casquinha de quatro bolas, sortidas. Uma delícia! Verdadeiro maná dos céus! Retornando ao encontro da amiga consumidora, a morena deu um esbarrão numa quina. Um encontrão com um homem. Susto. Balbuciou um pedido de desculpa, que, inopinadamente, também veio da boca daquele homem. O sorvete espanou na camisa do homem. Camisa branca manchada de sorvete colorido. Reconheceram-se. Ela disse: “Surpresa!”. Ele disse: “Surpresa. Kkkkk...”. Um sorriso sem graça, misto realmente de surpresa e desconforto. Cara a cara. Um olhando para o outro. Era como se estivessem petrificados. Corpo a corpo. Ele pensou em convidá-la para irem ao cinema. Para tomarem um café na livraria. Para qualquer coisa. Ela não dispensaria qualquer coisa, ali mesmo. O porte dele, como se fora um hindu salpicado com alguma coisa, fascinava-a. Não era belo. Não tinha dotes físicos atraentes como muitas mulheres prefeririam. Tinha o olhar profundo. O sorriso discreto. E os textos que ela tanto gostava... Num átimo, ela se lembrou do poema “Ardência”: “O corpo arde e fascina como a estrela da manhã...”. E do final do conto “Brancas Areias”: “Eu caminhava por areias finas e brancas, à procura de suas pegadas, mas o vento já as tinha apagado. Meus passos perdidos em busca de suas perdidas pegadas. Esperanças, talvez, perdidas. Brancas areias que eu jamais esqueceria. Desalento”. 

Ali se encontraram os dois amigos do facebook. Ele e ela. Enfim, se esbarraram. Ambos almejaram aquele encontro. Ambos queriam que ele durasse. Eles teriam muito o quê conversar. Quem sabia se... Ele pensou mil coisas. Mil coisas ela pensou. Cara a cara. Corpo a corpo. Pareciam petrificados. Grudados. “Quem sabe se a gente não se esbarra por aí...”. Ela dissera isso. Ele almejara isso. E ali estavam. Hálito puro. Ele o sentia. Perfume discreto. Olho no olho. Sorriso atravessando sorriso. Corações prestes a voarem, a pularem das caixas torácicas, a darem-se mãos imagináveis e saírem por aí. 

De repente, um grito. Outro ainda mais forte. A amiga dela vinha apressada, quase correndo. O telefone ao ouvido. “Lindinha!!!”, exclamou a amiga. “Aconteceu uma desgraça. Um carro acaba de atropelar Júlio César. Minha mãe está desesperada. Está em prantos. Temos que ir”.

E elas se foram. Não houve tempo para despedidas. Nem para marcar um encontro. Marcariam pelo facebook? Bem. Ele teria que limpar a camisa manchada pelo sorvete. Passou a mão. Levou o dedo à boca. Jabuticaba! Era o seu sorvete preferido. A sua fruta predileta, desde que ele era menino, no quintal da casa dos avós, lá no interior. Jabuticaba...! O mais doce dos sabores. Para ele. 

Depois, ele ficou sabendo, por uma mensagem que ela mandou via facebook, que o Júlio César atropelado era o cãozinho poodle da mãe de sua amiga. Outros sábados viriam. Ah, vida...! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 19 e 20 de julho de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/07
16:30

Aos 60 anos, estou prestes a cometer suicídio

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Não se espantem os amigos que agora me leem. Este poderá ser o meu último artigo. Por quê? Ora, estou descachimbado, aos 60 anos. A vida para mim não tem mais sentido. Estou à beira de cometer suicídio a qualquer momento. Este poderá ser o meu “adeus” aos leitores do Jornal da Cidade e do Blog Primeira Mão. “ADEUS mundo cruel!”. Desculpem minha fraqueza. Desculpem minha covardia. Eu não mereço mais a vida. O mundo não tem mais lugar para mim. Enganou-se quem pensou que eu era forte. Que eu estava de bem com a vida. O meu bom humor era pura fantasia. Eu estava vivendo uma farsa. Desculpem-me! Se puderem, caros leitores desculpem-me! Vocês não sabem o que é chegar a essa idade cheio de traumas. Um transatlântico do tipo cargueiro de traumas acumulados, não na vida inteira, mas apenas nos últimos dias. Ou nos últimos meses. Pelo visto, não conseguirei vencê-los. Entreguei-me à desolação. Caí e não sei se poderei levantar-me. Sacudir a poeira e dar a volta por cima? Não tenho ânimo. Não tenho consolo. Nada mais me resta. Precocemente ou não, a vida deu-me um tombo sem tamanho. Sou um homem arrasado. Estou no buraco.

Dói-me dizer tudo isso. E eu sei que dói para alguns amigos terem que ler isso. Ninguém merece ler um desabafo desses. Por favor, não me escrevam. Não me telefonem. Não me mandem e-mails. Não me mandem mensagens pelo facebook. A não ser as usuais. Muito menos pelo whatsapp. Eu detesto muitas das mensagens sem pé nem cabeça que vêm pelo zap-zap. São tantas besteiras...! Deixem-me em paz, por favor! Eu lhes agradeço. Quero ficar só com o meu infortúnio. Com o mal terrível que me aflige. Todavia, serei eternamente grato (ih, já estou falando na Eternidade!) aos que se preocuparem comigo. Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Estou acabado, amigos leitores. Aos 60 anos, eis que eu pifei de uma vez. E, o que é pior, eu estou mais para baixo do que cabeça de morcego, na dormida. Mais por baixo do que a Seleção Brasileira, que se lascou na Copa do Mundo e na Copa América. Nesta, mais uma vez, nem pênaltis os mocorongos souberam cobrar. Estão iguais a mim, ou piores. Aliás, eles estão bem piores do que eu: na semana da degola, quase todos estavam com virose. Pois é... A culpa pelo último fracasso foi uma virose geral. De qualquer forma, estou mais para baixo do que Felipão e Dunga, juntos. Cheguei ao fundo do poço. Do poço mais profundo do mundo. Mais fundo do que um poço de petróleo nas águas profundas do pré-sal. Estou de fogo morto. Lembram-se do romance “Fogo Morto” de José Lins do Rego? Caiu no meu vestibular, em 1977. Lembro-me dos personagens principais: Mestre José Amaro, Sinhá, sua esposa, e Marta, a filha; Capitão Vitorino Carneiro da Cunha e sua mulher, Dona Adriana; Capitão Tomás Cabral de Melo; Coronel Lula de Holanda Chacon, a esposa, Dona Amélia, e a filha Neném; Coronel José Paulino; Capitão Antônio Silvino; Tenente Maurício; o negro Floripes.

Mal e mal, eu só estaria prestando para levantar aleive. Nada mais. Mas não sou de levantar aleive não. Não presto nem para isso! É o fim. Tornei-me imprestável. Preciso de um tratamento psicológico. Urgente! Será que dará tempo? Preciso recorrer a um sem-número de drogas farmacêuticas para recuperar a autoestima. Sinto-me, sim, completamente liquidado. Porém, o pior mesmo é que tem gente que eu não conheço e que sabe dessa minha situação periclitante. Gente que nem me conhece, mas que se dá ao desfrute de meter-se na minha vida. Ou melhor, no meu caco de vida. Como isso é possível? Vamos lá. Ao menos, ainda me resta um pouquinho de ânimo para detalhar o que vem me acontecendo.

Nos últimos meses, eu tenho recebido recorrentemente vários e-mails com ofertas para a cura do mal maior que estaria me afligindo, na visão de quem os manda. Na visão deles, bem entendido! Um desses e-mails diz: “FAÇA BONITO NA CAMA!”. Outro diz: “NÃO NEGUE FOGO!”. E outro mais: “COMO SE TORNAR UM LEÃO NA CAMA!”. Tem mais: “VOLTE A SER O QUE ERA!”. Outro mais: “PÍLULA DO SEXO: EFITO PROLONGADO E INSTÂNTANEO! PASSO A PASSO PARA ATINGIR O CLÍMAX!”. Mais outro: “SINTA-SE CONFIANTE, CONHEÇA O ESTIMULANTE NATURAL QUE VAI DEIXAR SUA VIDA SEXUAL MUITO MAIS INTENSA!”. E também: “MAIS ENERGIA E LIBIDO NA CAMA!”. Vejam este: “KIT (omito o nome do fabuloso Kit)... É A MELHOR SOLUÇÃO PARA PROBLEMAS COMO IMPOTÊNCIA, DISFUNÇÃO ERÉTIL, FRIGIDEZ OU FALTA DE APETITE. GRAÇAS A SUA ESTIMULAÇÃO NEUROSSEXUAL, ELE AUMENTA DRASTICAMENTE A LIBIDO E INCREMENTA A EXCITAÇÃO SEXUAL, AS SENSAÇÕES E AS RESPOSTAS”. Vamos em frente: “NÃO DEIXE SUA COMPANHEIRA NA SOFRÊNCIA!”. E tem mais, muitos mais. É o fim da picada. Pelo visto, eu sou o sujeito mais infeliz do mundo. Não valho uma casca de siri podre. Nem um bago de jaca mole do tipo gosmenta. Nem uma titaca de mel de furo. Nem um dedal do vinho de jenipapo que “seu” Júlio Costa fabricava no Maruim. Nem um fiapo da cocada-puxa de Perolina de Isídio, ambos de saudosa memória, nas Dores. Nem uma raspa de tacho das deliciosas canjicas que minha avó Lourdes fazia nos tempos juninos, que eu só comia quentinha, queimando os beiços e a língua, e sem canela. Qualquer hora dessas, eu haverei de enforcar-me numa rama de maxixe. Ou afogar-me num pires com água. Será, num ou noutro caso, um suicídio ameno, se é que existem suicídios amenos. Deveras, não tenho coragem (e seria coragem?) para um suicídio grandioso. Uma rama de maxixe, por exemplo, já estaria de bom tamanho. Para que tanto alarde? Um tiro no peito, para abrir o coração em bandas... Um tiro na cachola, para espalhar miolos como geleia... Eu, hein?

Resta-me um consolo: outros sujeitos por aí também estão recebendo os mesmos e-mails que eu recebo. Portanto, somos muitos. E somos fracos! Ao contrário de outros, que são muitos e são fortes. Precisamos de ajuda. Ao menos, na visão daqueles que nos mandam essas estúpidas mensagens. Porém, como a carne é fraca, se continuarem insistindo, eu sou bem capaz de aceitar a oferta. Afinal: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que não faz nenhum furo mesmo”. Melhor seria tomar chá de baba de raposa azeda. Putz!

Ô sofrência! JESUS é mais. Muito mais. Enfim, um bom dia para todos. E até mais ver.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 12 e 13 de julho de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/07
18:27

Dona Vilma e a mandioca de “seu” Davi

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Tinha quem gostava de plantar mandioca, ou seja, de fincar na coveta um pedaço de maniva ou manaíba. Tinha quem gostava de arrancar mandioca. Isso, na roça. Já nas casas de farinha, tinha quem gostava de raspar ou descascar a mandioca. Tinha quem gostava de ralar a mandioca. Tinha quem gostava de peneirar a massa da mandioca. Tinha quem gostava de mexer a massa da mandioca no forno, fornada após fornada. Em toda farinhada era assim. E ao bem da verdade, todo dia era dia de festa na casa de farinha de “seu” Davi, de terça-feira a sábado. O dono da casa de farinha nem sempre era o dono da mandioca. “Seu” Davi de Marieta do finado Tonho de Crôa recebia mandioca (no bom sentido, claro!) de muitos sitiantes, que não tinham onde transformar seu produto agrícola em boa farinha, fina e sequinha, como convinha, e convém, a uma boa farinha, nas bandas da minha terra. É de se lembrar da farinha de Zé Gato, de Isaías de Tide, de Zé de Amélia, de Teté, de “seu”, Firmino, de Sil de Dagraça e tantos outros farinheiros. Parte da mandioca vinda de sitiantes não era comprada por “seu” Davi, mas, sim, recebida para a transformação à custa de um quinto da produção deixada para o dono da casa de farinha. Era a regra. 

“Seu” Davi era um sujeito que envelhecia sem que o coração perdesse a jovialidade. Era do tipo “avozão”, sempre devotado aos netos, que formavam um “cardume”. Também pudera, pois ele era pai de nove filhos, sem contar os três que morreram em tenra idade, como acontecia muito naqueles tempos. Bom patrão, misturado no serviço com as mulheres que para ele trabalhavam. Homem de prosa fácil. Brincalhão como ele só. 

Para Dona Vilma a vida ia e vinha, semana após semana, sempre na casa de farinha de “seu” Davi, na bifurcação do João Ventura com o Cruzeiro da Missão, onde, outrora, fora a bodega de Zé Pequeno, que era primo de minha avó materna, e era, também, barbeiro e fazedor de malas de madeira pintadas a tabatinga e com fechaduras fabricadas por ele mesmo. Bem. Dona Vilma cresceu trabalhando em casas de farinha. Era, por assim dizer, uma mulher sapiens. Meu Deus! Desde menina, acompanhando sua falecida mãe, Dona Tereza de Secundino de Maria Piá, de início nas casas de farinha de “seu” Pedro Pimenta e de Dona Sinésia, e, depois, na de “seu” Davi. Quantos anos ela tinha de farinhadas? Nem ela sabia dizer. Mas, o que ela mais gostava de fazer era peneirar a massa da mandioca. E não se cansava de cantarolar a música “Farinhada”, composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas: “Tava na peneira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. / Na farinhada lá da Serra do Teixeira / Namorei uma cabôca nunca vi tão feiticeira / A mininada descascava macaxeira / Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira. // Tava na peineira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. // O vento dava sacudia a cabilêra / Levantava a saia dela no balanço da peneira / Fechei os óio e o vento foi soprando / Quando deu um ridimuinho sem querer tava espiando. // Tava na peneira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. // De madrugada nós fiquemos ali sozinho / O pai dela soube disso deu de perna no caminho / Chegando lá até riu da brincadeira / Nós estava namorando eu e ela, na peneira...”. Pois sim. Farinhar era coisa boa. 
Dona Vilma criou a família, entrando dia e saindo dia, labutando nas casas de farinha. Além do dinheirinho semanal, ganhava três cuias de farinha e os beijus que podia fazer no sábado: de tapioca, misturado, de amendoim, de coco com açúcar. Os meninos adoravam. O marido foi-se embora com uma catraia sem-vergonha e nunca deu notícia. Também não precisava. Ela soube criar os quatro filhos, três meninos e uma menina. Todos ajustados na vida. Ela, todavia, não conhecia tempo ruim. Também, tempo pior não poderia haver do que uma vida inteira metida nas farinhadas, raspando, servando no caititu, rodando no rodete, botando e tirando prensa, peneirando e mexendo no rodo, para uma mulher sem marido e com quatro filhos para dar de um tudo, em ordem de pobre. Apesar de toda luta, Dona Vilma era uma mulher de bom humor. Sorridente. Contadora de lérias. “Ô Dona Vilma, como vai a mandioca de “seu” Davi?”, perguntava Edelzuita, colega de farinhada. “E eu lá sei, minha filha! Pergunte a Dona Sinhá. Ela é quem deve saber da mandioca do marido. A única coisa que eu sei é ter que raspar a danada”. E ria à larga. Farinhadas... Ah, comer um bocado de farinha mole com sal e pimenta! Ela gostava por demais. Para quem não sabe, farinha mole era a farinha que estava sendo mexida no forno antes de ficar seca. A massa peneirada ia sendo revolvida no forno e secando aos poucos até ficar no ponto. No meio termo estava a chamada farinha mole. Comer muito, porém, era ter dor de barriga, na certa. 

Além das farinhadas, Dona Vilma ainda tinha que cuidar das plantações que fazia no quintal de meia tarefa de terra. Ali ela semeava macaxeira e feijão, milho e fava, além de hortaliças. Para tanto, na época apropriada para tal, ela se virava no domingo e na segunda-feira, dia da feira semanal e, por isso mesmo, dia de folga nas farinhadas. Como dizia a vizinhança, ela trabalhava como um homem. Aliás, muito mais do que muitos homens. A barra de sua saia valia mais do que muitas bocas de calças. De verdade. Mulher daquele tipo jamais desceria ao volume morto. Não, ela não! 

Um dia, “seu” Davi comprou sem ver uma partida de mandioca. Comprou-a de Maurício de Filomena, sujeito ladino, que enfiou folhas nas ventas do comprador. E “seu” Davi não era homem de se deixar levar pelo gogó de ninguém. Porém, até parecia que o tal Maurício tinha benzido o farinheiro com ramo de vassourinha salpicado em água de pó de asa de morcego. “Seu” Davi comprou sem ver. Comprou mandioca plantada em brejo, boa parte imersa em água ferrosa. Dinheiro perdido. “Quem compra o que não vê, dor de cabeça há de ter”, dizia Dona Vilma. “Seu” Davi mandou arrancar a mandioca que comprou sem ver. Pela manhã, ele teve que ir ao povoado Saco Grande em visita a um primo arruinado da saúde. Ao retornar para casa, à tarde, foi ver a mandioca comprada a Maurício de Filomena. Na casa de farinha estava Dona Sinhá, que lhe disse: “Davi, você tá mesmo de cabeça amolengada. A sua mandioca num tem prestança. Tá podre!”. E ele, espirituoso como sempre: “Depois de tanto tempo, o que era que você ainda queria Sinhá?”. As seis mulheres que se encontravam no trabalho, dentre elas Dona Vilma, caíram na gargalhada. “Seu” Davi as acompanhou na galhofa. E a pobre da Dona Sinhá ficou sem terra nos pés, vermelha como pimenta malagueta madura. Não se deu conta do que disse até ouvir o estrondo da gargalhada geral. Trabalhar com mandioca podia ser duro, mas era divertido. 

Uma coisa era certa: Dona Vilma sabia muito bem, diferentemente de certas pessoas, que não vivem na planície, mas, sim, no planalto, que a mandioca, embora de grande utilidade, não era, e nunca haveria de ser, uma das maiores conquistas do Brasil, como, dias desses, se disse por aí. Mandioca... Uma das maiores conquistas... Assim seria dilmais. Ou melhor, demais. Estão metendo a mandioca onde não se deveria metê-la. Ô sofrência! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 05 e 06 de julho de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/06
14:37

O enterro de Eudália

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Eudália era natural de Poço Redondo. Diziam os vizinhos que ela era uma velha rabugenta. Há anos morava na Praça da Matriz de São João Evangelista, na cidade de Cumbe, outrora povoado de Nossa Senhora das Dores, de cujo município emancipara-se na década de 1950. Eudália mudara-se para Cumbe ainda jovem. Solteirona, não tinha papas na língua e criava muita confusão com quem gostava de confusões ou com quem delas fugia. Especialmente com os meninos que brincavam na praça, em frente a sua casa, ela ralhava. Ela os botava para correr. E com os jovens casais que namoravam nos bancos da praça, igualmente em frente a sua casa? Ah, ela os escorraçava. Não podia ouvir barulho de crianças brincando de bola de futebol, pião ou bola de gude. Simples assim. Quanto aos jovens enamorados, ela não se dispunha a assistir sem-vergonhices de ninguém. Imaginem, uns garotos ainda cheirando a mijo, agarrando-se com meninas que deveriam estar brincando de bonecas, bem diante de suas fuças! Não, não chegara aos oitenta anos para dar-se ao desfrute de aceitar aquelas perversões. Beijos na boca! Eudália benzia-se. “Credincruz! Armaria!”. Fossem se agarrar noutro canto, onde o diabo lambia os beiços quando os via assim entregues ao descaramento. 


A octogenária era igrejeira. Mas não se dava ao gosto das fruticas tão comuns no meio das carolas dali e de todos os lugares. Não era dada a fofocas. Não engolia hóstias por brincadeira. Aceitava o corpo de Jesus, ali presente na Sagrada Eucaristia. No fim da década de 1960, entrara em pânico. O velho Cônego Miguel aposentara-se. Não era muito velho, mas estava doente. Chegaram a Dores e, por conseguinte, a Cumbe, uns padres modernos. Eudália assustou-se. A Igreja estava desandada. Diziam que iriam tirar os santos dos altares. Os padres vestiam calça e camisa como homens comuns. O que era aquilo? O Papa endoidecera? Um furacão varria a Igreja de Cristo. Entretanto, ela ficaria na Igreja, para a missa, quando tivesse missa. Rezaria para que as coisas retomassem seu lugar. 

Um dia, o padre apresentou ao povo um seminarista, que deveria passar uns dias ali no Cumbe, em missão pastoral. E onde se viu seminarista, que nem padre era, fazer missão? Missão, santa missão, ela vira, em menina, no Poço, pregada por uns frades vindos de Pernambuco. Ela viu gente amancebada cair de joelhos diante dos frades. Viu moça com os tampos arrancados se sujeitarem ante a pregação poderosa do mais velho dos capuchinhos. Viu uma velha desdentada, lá da Guia, estrebuchar e rolar por terra, cheirando a enxofre. O diabo entrara nela, mas os frades deram conta dele, que se soverteu nas profundas. Viu muita coisa. Agora, chegava ali um seminarista varapau, magricela, com pintas de pregador. Hum! Eudália não botava fiança naquele tipo. Jesus que a perdoasse! 

O padre queria que uma família acolhesse o seminarista. Ninguém se dispôs. Mas, alguém, alguma frutiqueira, com certeza, dera com a língua nos dentes e a indicara ao padre, para dar guarida ao seminarista. Mal Eudália chegara à sua casa, após a missa, ouviu o toc-toc na porta. Era o padre acompanhado do varapau. Ah, não! Ela era sozinha. Poderia dar as três refeições ao rapaz. Porém, não lhe poderia dar pernoite. O que haveriam de dizer a gentalha dali, ao saber que uma mulher sozinha, donzela de respeito, dera dormida a um homem? Fosse ele seminarista ou não. Não convinha. Arranjasse onde dormir, que a boia ela lhe daria de bom grado. O padre quis insistir, mas ela não lhe deu trela. Comida, sim. Dormida, não. Eudália era mulher de uma só palavra. Com ela era sim, sim e não, não. 

Bem, o seminarista arranjou-se na sacristia da Igreja. Um banho por dia ele poderia tomar na casa do prefeito. A primeira-dama lhe favoreceria no banho. Apenas um. Afinal, naquele tempo a cidade ainda não tinha água encanada. Nem Dores a tinha. A primeira refeição do tal seminarista seria o jantar. Eudália marcou com o dito cujo para as 6 horas da noite. Não queria um homem em sua casa, tarde da noite. Na pouca conversa que tiveram, ele disse que era de Poço Redondo. E que seus pais eram da Guia, mas moravam em Aracaju. Aquilo, contudo, não impressionou Eudália. Fosse ver alguém lhe dera a informação de que ela era do Poço, que tinha ido à santa missão, na Guia, quando menina. Tinha gente dali de Cumbe que sabia daquelas coisas sobre sua vida. O varapau deveria estar a fim de lhe convencer a dar-lhe pousada. Jamais! Com guia ou sem guia, ele só teria comida. O mais não seria com ela. 

O seminarista fez umas reuniões, na Igreja. Disse um bocado de bolodório. Puxou ladainhas e rezas. Ora, para quem só tinha missa uma vez por mês, não foi nada mal. Teve algum proveito. Pouco, a bem da verdade, mas teve.

Passaram-se os anos. Eudália, doente, bateu as botas. Ou melhor, os tamancos. Morreu em 1975. Cumbe ainda não era Paróquia. Continuava como Curato da Paróquia de Dores, cujo pároco provisório era exatamente, há apenas dois dias, aquele seminarista varapau, agora padre, que já tinha passado por duas outras Freguesias. Um sobrinho da defunta fresca, que viera de Glória com o caixão, queria a celebração da missa de corpo presente. Afinal, a tia falecida era igrejeira e formava fila na Legião de Maria. Sua alma haveria de ficar satisfeita com a missa. Mandaram buscar o padre de Dores. Oh, surpresa para ele! Ali espichada no caixão barato, embora encarquilhada, estava Eudália, a mesma que, fazia tempo, lhe enchera o bucho por uma semana, três vezes ao dia, além das merendas no intervalo entre as refeições. Como o mundo dava voltas! Celebrada a missa, o padre acompanhou o cortejo fúnebre até o cemitério, afastado da cidade. O sol a pino, embora já fossem cinco da tarde. 

Quando o féretro deixou a avenida calçada e entrou no caminho de chão batido, eis que um dos carregadores do meio trupicou numa pedra agarrada ao chão, com ele levando o carregador da dianteira. E lá se foi Eudália. Ao bater no chão, a tampa do caixão se abriu. Espanto. A “defunta” abriu os olhos e bocejou. Alvoroço. Susto geral. Teve gente que correu. O padre, também assustado, acercou-se do caixão. Benzeu-se. Eudália não podia entender o que estava acontecendo, mas reconheceu o antigo seminarista. E balbuciou: “Tá de volta?”. Pois foi. Eudália teve um acesso de catalepsia, doença que aparentemente faz a pessoa adormecer como se estivesse morta. Ataca, dentre outras, pessoas com distúrbios do sono. Eudália sofria disso. Ela, porém, estava vivinha da silva. E só morreria, de verdade, cinco anos depois, aos oitenta e cinco. Muitas outras vezes, o antigo seminarista haveria de encher o bucho com a comida de Eudália. Aliás, para ela, barriga de padre era cemitério de galinha. 

Depois de tudo serenado, o sobrinho da quase defunta tentou devolver o caixão à funerária, em Glória, mas o dono alegou que o pijama de madeira já tinha sido usado. E não poderia ser aceito de volta. Os leitores acham que ele tinha razão?

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 e 29 de junho de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/06
15:33

O Papa Francisco contra a pedofilia

José Lima Santana

“Vida longa ao rei!”, dizia-se (ou ainda se diz?) quando da sucessão imediata de um rei por outro, que acabara de falecer. 

“Vida longa ao Papa Francisco!”, digo eu. Não poucos torcem a cara para Francisco, fora da Igreja Católica, especialmente os ardorosos defensores do capitalismo bruto, e, também, dentro da Igreja, especialmente os ultraconservadores, que ainda sonham com os Concílios de Trento e do Vaticano I, e não aceitam o Concílio Vaticano II, sem compreender, lamentavelmente, que os Concílios se sucedem e procuram avançar sem perder a essência da Palavra, da Tradição e do Magistério. Além dos ultraconservadores, há os “criadores de caso” que, sabe-se lá porque ainda estão na Igreja, dando vexames, causando horrores a inocentes e descumprindo os misteres do Sacerdócio que abraçaram apenas na formalidade, mas não na substancialidade. E dentre esses “criadores de caso” encontram-se aqueles que descumprem frontalmente o princípio e mandamento da castidade da forma mais vil. Estes são, por assim dizer, os perniciosos, isto é, os pedófilos. Pedófilos serão sempre perniciosos em quaisquer lugares e em quaisquer atividades que exerçam. Há pedófilos em todos os cantos, dentro de lares, em escolas, nas ruas etc. Mas não deveriam, por diversos fatores, estar na Igreja. Não! Jamais! 

“Vida longa ao Papa Francisco!”. Que o Espírito Santo o ilumine. Que Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o conduza. Que o Pai Eterno o abençoe com uma vida longa, sadia e frutuosa, para que sua coragem e firmeza na condução da Igreja ponham “a Casa a limpo”.

Na quarta-feira, dia 9 do corrente, o Papa Francisco deu mais uma prova de que a Igreja “em saída”, como ele o disse em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, deve buscar os caminhos da origem do Cristianismo. Que busque, pois, a retidão. Que busque a pureza dos ensinamentos de Cristo. Que a hierarquia seja constituída apenas pelos que fazem do Sacramento da Ordem o vestíbulo santo do Templo Sagrado, que é a própria Igreja constituída pelo Verbo Encarnado: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18).

O Papa Francisco autorizou o julgamento por “abuso de poder” de bispos que eventualmente acobertaram padres denunciados por abuso sexual de menores, como informou a Santa Sé. Já era hora de acabar com o nefasto corporativismo. Bispos em diversas dioceses espalhadas pelo mundo descumpriram seus deveres canônicos. Descumpriram os mandamentos da Boa Nova de Jesus de Nazaré. Padres doentes, que jamais deveriam oficiar no altar do Senhor, que jamais deveriam compor o Corpo Místico de Cristo como ministros ordenados, e que deveriam estar na cadeia, foram acobertados vergonhosamente por seus superiores. “Chega!”, disse o Papa Francisco! “Basta!”, disse o Servo dos servos. 

Os casos serão julgados por um novo Tribunal, uma seção judiciária que estará a cargo da Congregação para a Doutrina da Fé, o braço da Santa Sé para doutrinamento, explicou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi. Segundo ele, os bispos poderão ser julgados se falharam em tomar medidas que preveniriam os atos de abuso. A partir de agora, a Congregação para a Doutrina da Fé será a responsável por julgar os bispos em relação ao delito de “abuso de poder episcopal”. Esse delito foi revisado porque já existia no Direito Canônico, mas agora estão estabelecidos os mecanismos para abordar os casos, completou Lombardi.

A pedofilia é um transtorno de sexualidade, ou seja, transtorno da preferência sexual, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como doença, que consiste na preferência sexual por crianças – meninas ou meninos – do mesmo sexo ou de sexo diferente, geralmente pré-púberes (que ainda não atingiram a puberdade) ou no início da puberdade, de acordo com a OMS.  

Entre nós, a pedofilia em si não é crime. Contudo, o Código Penal Brasileiro considera crime a relação sexual ou ato libidinoso (todo ato de satisfação do desejo, ou apetite sexual da pessoa) praticado por adulto com criança ou adolescente menor de 14 anos. O Código Penal, alterado, diz, no Art. 217-A, referente ao chamado “estupro de vulnerável”: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos”.

Normalmente, os pedófilos esperam ser aquinhoados com a inimputabilidade penal trazida pelo artigo 26 do Código Penal, pois para alguns doutrinadores, em minoria, tais indivíduos, como portadores de transtorno da personalidade sexual, fazem jus à inimputabilidade. Porém, a maioria dos doutrinadores, no campo do Direito Penal, inclina-se para reconhecer que a prática da pedofilia (como um tipo de parafilia), apesar de estar intimamente relacionada com o indivíduo que sofre de desvio da personalidade de preferência sexual, não merece o acolhimento da inimputabilidade penal prevista no art. 26 do CP, vez que tal comportamento ali não se enquadra. O pedófilo tem plena consciência dos atos que comete, não exteriorizando qualquer arrependimento pela prática dessa conduta ilícita e amoral. Logo, deve ser contido. Punido. Violência sexual contra criança e adolescente é crime, sim. 

Os pedófilos não escolhem fixamente carreiras profissionais tais ou quais. Eles podem ser encontrados em todas elas. O padre, ou qualquer outro profissional ou vocacionado, por exemplo, não se torna um pedófilo. O pedófilo, ao contrário, pode tornar-se padre ou outro líder de qualquer religião, médico, advogado, professor, motorista, pedreiro, juiz, engenheiro etc. Os pedófilos estejam onde estiverem, na Igreja ou fora dela, acabam sendo criminosos. Devem ser punidos na forma da legislação penal de cada país. Não devem ser acobertados. Na Igreja, o Código de Direito Canônico é claro quando trata dos deveres dos ministros ordenados. Quando cuida dos princípios que cingem as atividades eclesiásticas. Os cristãos católicos, ordenados ou leigos, devem ser sal na Terra, luz do mundo. Devem dar exemplos. E quando não os dão, escandalizam. Comprometem a imagem da instituição pela qual deveriam zelar, para poder servir com dignidade. A Igreja Católica não deve ser vista como um celeiro de pedófilos. A maioria esmagadora de seus ministros ordenados é de servos que não praticam nem concordam com os atos de pedofilia de alguns desvairados.  

Quantos, todavia, na hierarquia da Igreja em todo o mundo, estão em perfeita sintonia com a Igreja “em saída”, tão almejada pelo Papa Francisco? Com a verdadeira Igreja de Jesus Cristo? A Igreja que não tem medo de olhar, frente a frente, a Face do Filho de Deus. Que, por exemplo, não se enclausura no fausto, não condizente com a vida e os ensinamentos do Nazareno. Que não olha diferentemente para os filhos de Deus, ricos ou pobres, negros ou brancos etc. Igreja, sim, que possa acolher a todos como Jesus acolheu, sem, contudo, negar ou desfigurar a Palavra Sagrada, a Tradição e o seu próprio Magistério. Pilares da fé católica. Igreja que não deve acobertar desvios. Uma Igreja sã e de pessoas sadias. 

“Vida longa, sim, ao Papa Francisco!”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 21 e 22 de junho de 2015, sob o título “Vida Longa ao Papa Francisco”. Publicação neste site autorizada pelo autor.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/06
01:07

O choro de Mariana

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Mariana chorou o grande chora de sua vida, naquela tarde de setembro. O local era a pista de treino da fazenda do tio de seu namorado. No chão, Pablo Milk estava imóvel. Alvoroço na pequena plateia, que assistia aos treinos. Dali a duas semanas seria o momento da afirmação de seu namorado, momento de fazer bonito na pista de vaquejada, para a derrubada de bois, na faixa traçada para isso. O primo dele, Marquinhos, este, sim, peão de nascimento, como o pai e o avô, era seu parceiro. Filho de fazendeiro, que fazendeiro se tornou aos vinte e poucos anos de idade, claro, com um bom empurrão do pai. Largara a faculdade no segundo período de Arquitetura, para dedicar-se à vida no campo. Já o namorado de Mariana, também filho de fazendeiro, era estudante de Ciências da Computação, que ela conhecera no Odontofest, dois anos atrás. Por sua vez, ela estudava Direito. 

A preocupação foi geral. Alguns dos assistentes pularam da cerca em que estavam tomando assentos nas tábuas. Procuraram avaliar de perto a situação de Pablo Milk. Para Totoinho, vaqueiro-gerente com muitos anos de labuta na fazenda São Lourenço, Pablo estava morto. E ele gritou a plenos pulmões: “O Pablo morreu!”. Foi naquele momento que Mariana deixou escapar um lancinante grito de dor. E o choro compulsivo se seguiu. Que terrível instante! Que tarde tenebrosa haveria de ser aquela! Uma tarde para ser esquecida, se ela pudesse esquecer. Não haveria de ser fácil. 

Tereza Rachel, irmã de seu namorado, a amparou, também chorando. Mariana desvencilhou-se e correu ao encontro do namorado, embora o novilho nelore estivesse solto na pista. Ela não teve tempo nem tino de perceber o bovino. O namorado de Mariana era o seu primeiro namorado sério. Os dois anteriores foram do tempo do colégio, namoricos de adolescentes, que não criaram raízes nem deixaram saudades. Com o atual, tudo era diferente. Ligaram-se um ao outro como carne e unha. De um lado, para desespero de Vinícius, seu colega de sala de aula, que era louquinho por ela. Do outro lado, para Cíntia, ex-namorada dele, com quem tinha rompido uns oito meses antes de conhecer Mariana, naquela noite de festa e fantasia. Mariana estava vestida de fada cintilante, acompanhada por primas e amigos. Ele vestia-se de cowboy estilizado. Refletia na fantasia uma parte de sua própria vida, dedicada que era às vaquejadas desde menino, como o pai, o tio e o primo mais velho, com quem corria, ora fazendo fita para o primo, ora o primo fazendo fita para ele. 

A morte de Pablo Milk era o fim do sonho de vencer a vaquejada em Batalha, nas Alagoas, para a qual o namorado se preparara como nunca. Já tinha corrido em várias vaquejadas com alguns prêmios conquistados, inclusive dois primeiros lugares. Corria desde cedo. O primeiro prêmio viera aos quinze anos, correndo com veteranos e campeões. Ele tinha o dom de montar cavalos e derrubar bois. Tinha uma técnica invejável, para colocar-se atrás do boi, na distância certa, de jogar o corpo para o lado, com firmeza e ligeireza, a fim de agarrar no rabo do bicho e derrubá-lo no espaço da faixa onde, caindo o boi, o locutor gritava: “Valeu o boi!”. E as palmas se seguiam. 

Naquela tarde fatídica, o fogo do sol pareceu esmorecer no céu. Desaqueceu. Ainda não eram quatro horas. Era como se o sol compartilhasse a dor de Mariana, que, na pista, abraçou o namorado, aumentando o choro. Já era um pranto desesperado. Ela nunca fora ligada ao tipo de esporte que o namorado praticava. Tinha mesmo aversão aos esportes que envolviam animais, como rodeios e vaquejadas. Touradas? Nem pensar. Numa viagem à Espanha com os pais e outros parentes, há cinco anos, recusara-se ir à Plaza de Toros. Ficara no hotel, sozinha. Não gostava de música country ou sertaneja. Nem via com bons olhos a indumentária dos cowboys, estilizados ou não. Isso até conhecer o namorado naquela noite em que a fada despertou a atenção do cowboy e este a seduziu. O cowboy moreno claro, de olhos verdes a levara a nocaute. Diga-se o mesmo dele em face da fada cintilante, com seu talhe bem moldado. Lindo corpo, belo rosto, olhos e cabelos castanhos escuros, sorriso que falava por si. Um encanto de garota. Do tipo de deixar um homem arreado dos quatro pneus, como se dizia no vulgo e no passado. Os dois formavam um belíssimo par. E estavam juntos, sem querelas, desde aquela noite de festa. Eram felizes. Davam prova disso, um ao outro. 

Mariana e o namorado tinham programado a viagem a Batalha. Com eles iriam os pais dele, a irmã, o primo, o pai deste e Totoinho, que era uma espécie de técnico dos dois jovens vaqueiros, ele que, no passado, também fora derrubador de bois em pistas de vários estados do Nordeste. Ganhador de muitos prêmios. 
Naquele tarde, o namorado de Mariana fazia os últimos preparativos para enfrentar a pista em Batalha. A secura do rapaz por aquela competição dava-se porque, no ano anterior, ele ficara em segundo lugar por erro dos juízes, fato constatado e comentado por todos os conhecedores do esporte, que ali estiveram durante toda a competição. O declarado vencedor foi o filho de um senador alagoano. Que erro! 

Não seria possível disputar e vencer naquele ano. Fora-se o sonho. O choro compulsivo de Mariana tinha sentido. Ela chorava por causa de seu namorado, do jovem que, em dois anos, só lhe propiciara momentos de felicidade. O caráter, a dedicação e o respeito dele para com ela eram tudo que uma garota poderia pretender. Ela confiava na caminhada que os dois estavam empreendendo e que tinha tudo para continuar daquele jeito. Ambos eram dedicados aos estudos. Eles haveriam de ter, em suas respectivas profissões, o sucesso almejado. Ela estagiava em um grande escritório de advocacia. Era elogiada pelo advogado-chefe e professor. O namorado trabalhava na área de informática, como programador de uma entidade federal. Passara no concurso em primeiro lugar. 

Tarde terrível aquela. Mariana foi consolada. Um abraço forte, carinhoso. Depois, beijos em suas faces molhadas por lágrimas que continuavam a descer. O namorado, Paulo César, a consolou com a ternura tão própria dos homens que, viris, não se entregam ao machismo truculento, mas à macheza que se traduz por aconchego, por presença firme e amor que se constrói passo a passo, de lado a lado, sem dominação.  

Paulo César conseguiu pular do cavalo no exato momento em que ele meteu a pata dianteira esquerda num buraco, que, sabia-se porque carga d’água estava ali, e começou a tombar. Sorte dele, que não correu o risco de ter caído sob o peso do animal. Pablo Milk era o nome do cavalo do namorado de Mariana. Era Pablo em homenagem ao próprio universitário/cowboy. E Milk em homenagem a Mariana, que tinha Leite no sobrenome. Pablo Milk morrera. Na queda, quebrara o pescoço. Paulo César não poderia participar da vaquejada em Batalha dentro de duas semanas sem o cavalo com que treinava há mais de um ano. De última hora, outro cavalo não lhe daria o mesmo rendimento. Cavalo e cavaleiro precisavam estar em sintonia. Outras vaquejadas viriam, porém. Ele consolou a namorada: “Tudo pode ir embora. Eu sinto muito perder meu cavalo e a possibilidade de ganhar em Batalha. Mas se eu tenho você a meu lado, posso renascer das cinzas”. Ainda soluçante Mariana beijou o namorado. Um beijo demorado fez os jovens corações baterem no mesmo compasso. 

E o sol voltou a aquecer a Terra. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 14 e 15 de junho de 2015. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
31/05
12:55

As pererecas de Jandira

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Jandira estava de casa nova. Enfim, um sonho de muitos anos se realizara. Durante muito tempo, ela morou em apartamento. Ou, como ela dizia, em “apertamento”. Aposentada de pouco, sozinha, conseguiu comprar uma casa em condomínio fechado de classe média. Era uma casa modesta, mas confortável. Tudo que ela queria. Tinha passado a infância e a juventude no interior, numa casa ampla com um quintal fabuloso onde se contavam inúmeras árvores frutíferas. Era um quintal e tanto. Jovem estudiosa que era, passou no vestibular para Serviço Social. De início, morou numa república para moças estudantes universitárias, que a UFS mantinha, para moças e rapazes, separadamente. Depois de formada, conseguiu uma colocação no estado. Comprou, com financiamento da Caixa Econômica, o tal “apertamento”. Exerceu a atividade de assistente social por trinta e dois anos. Aposentou-se. E, agora, estava bem do seu, na casa estalando de nova. Conhecia poucos vizinhos. Tinha maior contato com uma senhora, que vivia com o filho portador de tinha síndrome de down, e que era mãe de uma ex-colega de trabalho. Um casal de idosos, cordial e esbanjando alegria, morava na casa em frente, e sempre lhe cumprimentava.

E ali estava Jandira, beirando os sessenta anos, solteira, amante de um bom filme, de um bom livro, de um bom prato e de seus dois gatos, Marisco e Momota. Os pais ainda viviam, no interior. As duas irmãs moravam no Rio de Janeiro, cidade que ela adorava. Com as manas, ela passava todos os réveillons, desde sabe-ia-se lá quando. Os três sobrinhos desmanchavam-se por ela. Um cunhado era como o irmão mais velho que ela não teve. O outro nem cheirava nem fedia.

A assistente social aposentada cuidava de um pequeno jardim, zelava da casa, fazia sua comida, tomava um cafezinho no shopping, tarde sim, tarde não, com umas amigas, ia ao cinema, lia, ia à missa dominical, fazia crochê para passar parte do tempo ocioso. E ajudava, aos sábados, no asilo. Tinha, em termos, uma vida cheia. Vida de aposentada, que vivia sozinha, sem arrependimentos de ter permanecido solteira e intacta. Não que ela não teve, no passado, alguns pretendentes. Teve-os, sim. Porém, amar mesmo de verdade, ela só amou a um deles. Zeferino Maia. Um jovem gerente do Banco do Brasil. Viúvo. Ele viuvou ainda muito novo, aos vinte e nove anos. A mulher morreu apenas dois anos após o casamento. Jandira o conheceu três anos depois do início da viuvez. Cortejaram-se por uns meses. Engataram o namoro. Ela tinha acabado de assumir o cargo na administração pública estadual. O namoro respeitoso ia muito bem até que o gerente foi transferido para a Bahia, terra de múltiplas variações de fé. Terra de santos e orixás. Terra de igrejas e terreiros. Terra de mulatas de mil requebrados. De tabuleiros cheios e apetitosos. Terra de mil encantos. E de mil tentações.

Longe estava o namorado. Falavam-se ao telefone quase todos os dias. Vez ou outra, ele vinha para um fim de semana. Hospedava-se no Hotel Jangadeiro, perto do “apertamento”. Um dia, após dois anos e meio da transferência do namorado, ela recebeu uma carta dele, na qual dizia que estava noivo da filha de um deputado federal baiano, dono de fazendas de cacau e gado. Pois é: o cacau e os bois valiam muito. Nunca mais ela namorou. Entrincheirou-se, como dizia sua avó, Dona Domitila. Por uns dias, sofreu muito. Depois, foi-se acostumando com a solteirice. Nunca mais confiaria em homem nenhum. Desilusão? Bastava uma.

Aquele era o primeiro inverno na casa nova. Afinal, mudara-se há apenas dois meses. Na sexta-feira antepassada, um aguaceiro desabara dos céus. Aracaju não podia ver água. E com a maré cheia, então... Choveu a madrugada toda. Choveu o dia todo. Interiorana, ela gostava de dormir ouvindo a música da chuva no telhado, gosto que não pôde ter durante os muitos anos em que morou no “apertamento”, que ficava no segundo andar. Agora, na primeira madrugada muito chuvosa que passou na casa nova, ela voltou aos tempos da infância e adolescência. A chuva tilintando nas telhas, escorrendo pelas biqueiras. Temperatura gostosa, que a fazia abraçar-se ao travesseiro. Companheiro de uma vida solitária.

No fim da tarde daquela sexta-feira, ela se deparou com uma rã no banheiro. Não tinha medo de rãs, mas elas lhe davam nojo. Encontrou mais duas delas na cozinha. Depois, já eram cinco. Jandira nunca mais tinha visto tantas pererecas. Lembrou-se do filme “A invasão das rãs” (“Frogs”), um filme pavoroso, tipo B, de 1972, dirigido por George McCowan, ao qual ela assistira no antigo Cine Aracaju.

À noite, recolhida ao quarto, na cama aconchegante, eis que ela, antes de apagar a luz, contou nas paredes quatro rãs. Era, sim, uma nova invasão daquela espécie de anfíbio anuro da família Ranidae. Ligou para uma amiga bióloga, dizendo-lhe que tinha algumas rãs de estimação. A outra respondeu, inocentemente (?): “Amiga, pra que é que você quer um magote de pererecas? Basta uma!”. As duas riram. Lorotaram um pouco mais. Despediram-se. Jandira encolheu-se na cama. Cobriu-se. E rezou para que as rãs ficassem onde estavam.

O sábado também amanheceu chuvoso. Ao acordar, ela acendeu a luz. As rãs não estavam nas paredes. Estariam no banheiro? Estariam no chão, nos chinelos? Sentando-se na cama, ela olhou o par de chinelos. As rãs não estavam ali. Jandira fez a costumeira oração matinal. Desceu da cama. Calçou os chinelos. Quando ia dar o primeiro passo, uma rã pulou em seu pé esquerdo. Ela deu um grito, que deve ter assustado a metade do condomínio. Caiu na cama, a rã agarrada ao pé. Sacudiu o pé com veemência. A rã não se moveu. Aquela coisa fria grudada em sua pele quase a fez desmaiar. Criou coragem. Lembrou que seu pai dizia: “Em cima de medo, coragem!”. Ela não tinha medo. Tinha nojo. Levantou-se. A rã ainda estava lá. Curvou-se e, rapidamente, tentou agarrar a rã, que pulou para os seios, depois para a cabeça e foi-se embora, saltitando, saltitando até agarrar-se na parede, ao lado da porta do banheiro.

Refeita do susto e do nojo, ela se deixou cair na cama. Uma casa nova também tinha das suas. Nada na vida era perfeito. Jandira não tinha fazendas de cacau. Não tinha fazendas de gado. Tinha apenas uma vida decente. E, agora, tinha suas novas visitas. As rãs. Nojentas, sim, mas inofensivas. Não lhe fariam mal algum. O inverno parecia mesmo ter chegado. Ela ouviria muitas vezes, na casa nova, a música da chuva tilintando no telhado. O seu coração era livre, como livres eram as pererecas saltitantes, que vinham sem marcar hora ou sem ser chamadas. E, livres, ir-se-iam embora, quando bem quisessem. Naquele sábado, a chuva continuaria cantando. E ela ouviria, muitas vezes, Louis Armstrong interpretando “Wonderful World”. Sua canção preferida. Lembranças... Lembranças...

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 31/05 e 1º/06 de 2015.
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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