05/07
18:27

Dona Vilma e a mandioca de “seu” Davi

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Tinha quem gostava de plantar mandioca, ou seja, de fincar na coveta um pedaço de maniva ou manaíba. Tinha quem gostava de arrancar mandioca. Isso, na roça. Já nas casas de farinha, tinha quem gostava de raspar ou descascar a mandioca. Tinha quem gostava de ralar a mandioca. Tinha quem gostava de peneirar a massa da mandioca. Tinha quem gostava de mexer a massa da mandioca no forno, fornada após fornada. Em toda farinhada era assim. E ao bem da verdade, todo dia era dia de festa na casa de farinha de “seu” Davi, de terça-feira a sábado. O dono da casa de farinha nem sempre era o dono da mandioca. “Seu” Davi de Marieta do finado Tonho de Crôa recebia mandioca (no bom sentido, claro!) de muitos sitiantes, que não tinham onde transformar seu produto agrícola em boa farinha, fina e sequinha, como convinha, e convém, a uma boa farinha, nas bandas da minha terra. É de se lembrar da farinha de Zé Gato, de Isaías de Tide, de Zé de Amélia, de Teté, de “seu”, Firmino, de Sil de Dagraça e tantos outros farinheiros. Parte da mandioca vinda de sitiantes não era comprada por “seu” Davi, mas, sim, recebida para a transformação à custa de um quinto da produção deixada para o dono da casa de farinha. Era a regra. 

“Seu” Davi era um sujeito que envelhecia sem que o coração perdesse a jovialidade. Era do tipo “avozão”, sempre devotado aos netos, que formavam um “cardume”. Também pudera, pois ele era pai de nove filhos, sem contar os três que morreram em tenra idade, como acontecia muito naqueles tempos. Bom patrão, misturado no serviço com as mulheres que para ele trabalhavam. Homem de prosa fácil. Brincalhão como ele só. 

Para Dona Vilma a vida ia e vinha, semana após semana, sempre na casa de farinha de “seu” Davi, na bifurcação do João Ventura com o Cruzeiro da Missão, onde, outrora, fora a bodega de Zé Pequeno, que era primo de minha avó materna, e era, também, barbeiro e fazedor de malas de madeira pintadas a tabatinga e com fechaduras fabricadas por ele mesmo. Bem. Dona Vilma cresceu trabalhando em casas de farinha. Era, por assim dizer, uma mulher sapiens. Meu Deus! Desde menina, acompanhando sua falecida mãe, Dona Tereza de Secundino de Maria Piá, de início nas casas de farinha de “seu” Pedro Pimenta e de Dona Sinésia, e, depois, na de “seu” Davi. Quantos anos ela tinha de farinhadas? Nem ela sabia dizer. Mas, o que ela mais gostava de fazer era peneirar a massa da mandioca. E não se cansava de cantarolar a música “Farinhada”, composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas: “Tava na peneira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. / Na farinhada lá da Serra do Teixeira / Namorei uma cabôca nunca vi tão feiticeira / A mininada descascava macaxeira / Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira. // Tava na peineira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. // O vento dava sacudia a cabilêra / Levantava a saia dela no balanço da peneira / Fechei os óio e o vento foi soprando / Quando deu um ridimuinho sem querer tava espiando. // Tava na peneira eu tava peneirando / Eu tava num namoro eu tava namorando. // De madrugada nós fiquemos ali sozinho / O pai dela soube disso deu de perna no caminho / Chegando lá até riu da brincadeira / Nós estava namorando eu e ela, na peneira...”. Pois sim. Farinhar era coisa boa. 
Dona Vilma criou a família, entrando dia e saindo dia, labutando nas casas de farinha. Além do dinheirinho semanal, ganhava três cuias de farinha e os beijus que podia fazer no sábado: de tapioca, misturado, de amendoim, de coco com açúcar. Os meninos adoravam. O marido foi-se embora com uma catraia sem-vergonha e nunca deu notícia. Também não precisava. Ela soube criar os quatro filhos, três meninos e uma menina. Todos ajustados na vida. Ela, todavia, não conhecia tempo ruim. Também, tempo pior não poderia haver do que uma vida inteira metida nas farinhadas, raspando, servando no caititu, rodando no rodete, botando e tirando prensa, peneirando e mexendo no rodo, para uma mulher sem marido e com quatro filhos para dar de um tudo, em ordem de pobre. Apesar de toda luta, Dona Vilma era uma mulher de bom humor. Sorridente. Contadora de lérias. “Ô Dona Vilma, como vai a mandioca de “seu” Davi?”, perguntava Edelzuita, colega de farinhada. “E eu lá sei, minha filha! Pergunte a Dona Sinhá. Ela é quem deve saber da mandioca do marido. A única coisa que eu sei é ter que raspar a danada”. E ria à larga. Farinhadas... Ah, comer um bocado de farinha mole com sal e pimenta! Ela gostava por demais. Para quem não sabe, farinha mole era a farinha que estava sendo mexida no forno antes de ficar seca. A massa peneirada ia sendo revolvida no forno e secando aos poucos até ficar no ponto. No meio termo estava a chamada farinha mole. Comer muito, porém, era ter dor de barriga, na certa. 

Além das farinhadas, Dona Vilma ainda tinha que cuidar das plantações que fazia no quintal de meia tarefa de terra. Ali ela semeava macaxeira e feijão, milho e fava, além de hortaliças. Para tanto, na época apropriada para tal, ela se virava no domingo e na segunda-feira, dia da feira semanal e, por isso mesmo, dia de folga nas farinhadas. Como dizia a vizinhança, ela trabalhava como um homem. Aliás, muito mais do que muitos homens. A barra de sua saia valia mais do que muitas bocas de calças. De verdade. Mulher daquele tipo jamais desceria ao volume morto. Não, ela não! 

Um dia, “seu” Davi comprou sem ver uma partida de mandioca. Comprou-a de Maurício de Filomena, sujeito ladino, que enfiou folhas nas ventas do comprador. E “seu” Davi não era homem de se deixar levar pelo gogó de ninguém. Porém, até parecia que o tal Maurício tinha benzido o farinheiro com ramo de vassourinha salpicado em água de pó de asa de morcego. “Seu” Davi comprou sem ver. Comprou mandioca plantada em brejo, boa parte imersa em água ferrosa. Dinheiro perdido. “Quem compra o que não vê, dor de cabeça há de ter”, dizia Dona Vilma. “Seu” Davi mandou arrancar a mandioca que comprou sem ver. Pela manhã, ele teve que ir ao povoado Saco Grande em visita a um primo arruinado da saúde. Ao retornar para casa, à tarde, foi ver a mandioca comprada a Maurício de Filomena. Na casa de farinha estava Dona Sinhá, que lhe disse: “Davi, você tá mesmo de cabeça amolengada. A sua mandioca num tem prestança. Tá podre!”. E ele, espirituoso como sempre: “Depois de tanto tempo, o que era que você ainda queria Sinhá?”. As seis mulheres que se encontravam no trabalho, dentre elas Dona Vilma, caíram na gargalhada. “Seu” Davi as acompanhou na galhofa. E a pobre da Dona Sinhá ficou sem terra nos pés, vermelha como pimenta malagueta madura. Não se deu conta do que disse até ouvir o estrondo da gargalhada geral. Trabalhar com mandioca podia ser duro, mas era divertido. 

Uma coisa era certa: Dona Vilma sabia muito bem, diferentemente de certas pessoas, que não vivem na planície, mas, sim, no planalto, que a mandioca, embora de grande utilidade, não era, e nunca haveria de ser, uma das maiores conquistas do Brasil, como, dias desses, se disse por aí. Mandioca... Uma das maiores conquistas... Assim seria dilmais. Ou melhor, demais. Estão metendo a mandioca onde não se deveria metê-la. Ô sofrência! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 05 e 06 de julho de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/06
14:37

O enterro de Eudália

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Eudália era natural de Poço Redondo. Diziam os vizinhos que ela era uma velha rabugenta. Há anos morava na Praça da Matriz de São João Evangelista, na cidade de Cumbe, outrora povoado de Nossa Senhora das Dores, de cujo município emancipara-se na década de 1950. Eudália mudara-se para Cumbe ainda jovem. Solteirona, não tinha papas na língua e criava muita confusão com quem gostava de confusões ou com quem delas fugia. Especialmente com os meninos que brincavam na praça, em frente a sua casa, ela ralhava. Ela os botava para correr. E com os jovens casais que namoravam nos bancos da praça, igualmente em frente a sua casa? Ah, ela os escorraçava. Não podia ouvir barulho de crianças brincando de bola de futebol, pião ou bola de gude. Simples assim. Quanto aos jovens enamorados, ela não se dispunha a assistir sem-vergonhices de ninguém. Imaginem, uns garotos ainda cheirando a mijo, agarrando-se com meninas que deveriam estar brincando de bonecas, bem diante de suas fuças! Não, não chegara aos oitenta anos para dar-se ao desfrute de aceitar aquelas perversões. Beijos na boca! Eudália benzia-se. “Credincruz! Armaria!”. Fossem se agarrar noutro canto, onde o diabo lambia os beiços quando os via assim entregues ao descaramento. 


A octogenária era igrejeira. Mas não se dava ao gosto das fruticas tão comuns no meio das carolas dali e de todos os lugares. Não era dada a fofocas. Não engolia hóstias por brincadeira. Aceitava o corpo de Jesus, ali presente na Sagrada Eucaristia. No fim da década de 1960, entrara em pânico. O velho Cônego Miguel aposentara-se. Não era muito velho, mas estava doente. Chegaram a Dores e, por conseguinte, a Cumbe, uns padres modernos. Eudália assustou-se. A Igreja estava desandada. Diziam que iriam tirar os santos dos altares. Os padres vestiam calça e camisa como homens comuns. O que era aquilo? O Papa endoidecera? Um furacão varria a Igreja de Cristo. Entretanto, ela ficaria na Igreja, para a missa, quando tivesse missa. Rezaria para que as coisas retomassem seu lugar. 

Um dia, o padre apresentou ao povo um seminarista, que deveria passar uns dias ali no Cumbe, em missão pastoral. E onde se viu seminarista, que nem padre era, fazer missão? Missão, santa missão, ela vira, em menina, no Poço, pregada por uns frades vindos de Pernambuco. Ela viu gente amancebada cair de joelhos diante dos frades. Viu moça com os tampos arrancados se sujeitarem ante a pregação poderosa do mais velho dos capuchinhos. Viu uma velha desdentada, lá da Guia, estrebuchar e rolar por terra, cheirando a enxofre. O diabo entrara nela, mas os frades deram conta dele, que se soverteu nas profundas. Viu muita coisa. Agora, chegava ali um seminarista varapau, magricela, com pintas de pregador. Hum! Eudália não botava fiança naquele tipo. Jesus que a perdoasse! 

O padre queria que uma família acolhesse o seminarista. Ninguém se dispôs. Mas, alguém, alguma frutiqueira, com certeza, dera com a língua nos dentes e a indicara ao padre, para dar guarida ao seminarista. Mal Eudália chegara à sua casa, após a missa, ouviu o toc-toc na porta. Era o padre acompanhado do varapau. Ah, não! Ela era sozinha. Poderia dar as três refeições ao rapaz. Porém, não lhe poderia dar pernoite. O que haveriam de dizer a gentalha dali, ao saber que uma mulher sozinha, donzela de respeito, dera dormida a um homem? Fosse ele seminarista ou não. Não convinha. Arranjasse onde dormir, que a boia ela lhe daria de bom grado. O padre quis insistir, mas ela não lhe deu trela. Comida, sim. Dormida, não. Eudália era mulher de uma só palavra. Com ela era sim, sim e não, não. 

Bem, o seminarista arranjou-se na sacristia da Igreja. Um banho por dia ele poderia tomar na casa do prefeito. A primeira-dama lhe favoreceria no banho. Apenas um. Afinal, naquele tempo a cidade ainda não tinha água encanada. Nem Dores a tinha. A primeira refeição do tal seminarista seria o jantar. Eudália marcou com o dito cujo para as 6 horas da noite. Não queria um homem em sua casa, tarde da noite. Na pouca conversa que tiveram, ele disse que era de Poço Redondo. E que seus pais eram da Guia, mas moravam em Aracaju. Aquilo, contudo, não impressionou Eudália. Fosse ver alguém lhe dera a informação de que ela era do Poço, que tinha ido à santa missão, na Guia, quando menina. Tinha gente dali de Cumbe que sabia daquelas coisas sobre sua vida. O varapau deveria estar a fim de lhe convencer a dar-lhe pousada. Jamais! Com guia ou sem guia, ele só teria comida. O mais não seria com ela. 

O seminarista fez umas reuniões, na Igreja. Disse um bocado de bolodório. Puxou ladainhas e rezas. Ora, para quem só tinha missa uma vez por mês, não foi nada mal. Teve algum proveito. Pouco, a bem da verdade, mas teve.

Passaram-se os anos. Eudália, doente, bateu as botas. Ou melhor, os tamancos. Morreu em 1975. Cumbe ainda não era Paróquia. Continuava como Curato da Paróquia de Dores, cujo pároco provisório era exatamente, há apenas dois dias, aquele seminarista varapau, agora padre, que já tinha passado por duas outras Freguesias. Um sobrinho da defunta fresca, que viera de Glória com o caixão, queria a celebração da missa de corpo presente. Afinal, a tia falecida era igrejeira e formava fila na Legião de Maria. Sua alma haveria de ficar satisfeita com a missa. Mandaram buscar o padre de Dores. Oh, surpresa para ele! Ali espichada no caixão barato, embora encarquilhada, estava Eudália, a mesma que, fazia tempo, lhe enchera o bucho por uma semana, três vezes ao dia, além das merendas no intervalo entre as refeições. Como o mundo dava voltas! Celebrada a missa, o padre acompanhou o cortejo fúnebre até o cemitério, afastado da cidade. O sol a pino, embora já fossem cinco da tarde. 

Quando o féretro deixou a avenida calçada e entrou no caminho de chão batido, eis que um dos carregadores do meio trupicou numa pedra agarrada ao chão, com ele levando o carregador da dianteira. E lá se foi Eudália. Ao bater no chão, a tampa do caixão se abriu. Espanto. A “defunta” abriu os olhos e bocejou. Alvoroço. Susto geral. Teve gente que correu. O padre, também assustado, acercou-se do caixão. Benzeu-se. Eudália não podia entender o que estava acontecendo, mas reconheceu o antigo seminarista. E balbuciou: “Tá de volta?”. Pois foi. Eudália teve um acesso de catalepsia, doença que aparentemente faz a pessoa adormecer como se estivesse morta. Ataca, dentre outras, pessoas com distúrbios do sono. Eudália sofria disso. Ela, porém, estava vivinha da silva. E só morreria, de verdade, cinco anos depois, aos oitenta e cinco. Muitas outras vezes, o antigo seminarista haveria de encher o bucho com a comida de Eudália. Aliás, para ela, barriga de padre era cemitério de galinha. 

Depois de tudo serenado, o sobrinho da quase defunta tentou devolver o caixão à funerária, em Glória, mas o dono alegou que o pijama de madeira já tinha sido usado. E não poderia ser aceito de volta. Os leitores acham que ele tinha razão?

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 e 29 de junho de 2015. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
21/06
15:33

O Papa Francisco contra a pedofilia

José Lima Santana

“Vida longa ao rei!”, dizia-se (ou ainda se diz?) quando da sucessão imediata de um rei por outro, que acabara de falecer. 

“Vida longa ao Papa Francisco!”, digo eu. Não poucos torcem a cara para Francisco, fora da Igreja Católica, especialmente os ardorosos defensores do capitalismo bruto, e, também, dentro da Igreja, especialmente os ultraconservadores, que ainda sonham com os Concílios de Trento e do Vaticano I, e não aceitam o Concílio Vaticano II, sem compreender, lamentavelmente, que os Concílios se sucedem e procuram avançar sem perder a essência da Palavra, da Tradição e do Magistério. Além dos ultraconservadores, há os “criadores de caso” que, sabe-se lá porque ainda estão na Igreja, dando vexames, causando horrores a inocentes e descumprindo os misteres do Sacerdócio que abraçaram apenas na formalidade, mas não na substancialidade. E dentre esses “criadores de caso” encontram-se aqueles que descumprem frontalmente o princípio e mandamento da castidade da forma mais vil. Estes são, por assim dizer, os perniciosos, isto é, os pedófilos. Pedófilos serão sempre perniciosos em quaisquer lugares e em quaisquer atividades que exerçam. Há pedófilos em todos os cantos, dentro de lares, em escolas, nas ruas etc. Mas não deveriam, por diversos fatores, estar na Igreja. Não! Jamais! 

“Vida longa ao Papa Francisco!”. Que o Espírito Santo o ilumine. Que Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o conduza. Que o Pai Eterno o abençoe com uma vida longa, sadia e frutuosa, para que sua coragem e firmeza na condução da Igreja ponham “a Casa a limpo”.

Na quarta-feira, dia 9 do corrente, o Papa Francisco deu mais uma prova de que a Igreja “em saída”, como ele o disse em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, deve buscar os caminhos da origem do Cristianismo. Que busque, pois, a retidão. Que busque a pureza dos ensinamentos de Cristo. Que a hierarquia seja constituída apenas pelos que fazem do Sacramento da Ordem o vestíbulo santo do Templo Sagrado, que é a própria Igreja constituída pelo Verbo Encarnado: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18).

O Papa Francisco autorizou o julgamento por “abuso de poder” de bispos que eventualmente acobertaram padres denunciados por abuso sexual de menores, como informou a Santa Sé. Já era hora de acabar com o nefasto corporativismo. Bispos em diversas dioceses espalhadas pelo mundo descumpriram seus deveres canônicos. Descumpriram os mandamentos da Boa Nova de Jesus de Nazaré. Padres doentes, que jamais deveriam oficiar no altar do Senhor, que jamais deveriam compor o Corpo Místico de Cristo como ministros ordenados, e que deveriam estar na cadeia, foram acobertados vergonhosamente por seus superiores. “Chega!”, disse o Papa Francisco! “Basta!”, disse o Servo dos servos. 

Os casos serão julgados por um novo Tribunal, uma seção judiciária que estará a cargo da Congregação para a Doutrina da Fé, o braço da Santa Sé para doutrinamento, explicou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi. Segundo ele, os bispos poderão ser julgados se falharam em tomar medidas que preveniriam os atos de abuso. A partir de agora, a Congregação para a Doutrina da Fé será a responsável por julgar os bispos em relação ao delito de “abuso de poder episcopal”. Esse delito foi revisado porque já existia no Direito Canônico, mas agora estão estabelecidos os mecanismos para abordar os casos, completou Lombardi.

A pedofilia é um transtorno de sexualidade, ou seja, transtorno da preferência sexual, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como doença, que consiste na preferência sexual por crianças – meninas ou meninos – do mesmo sexo ou de sexo diferente, geralmente pré-púberes (que ainda não atingiram a puberdade) ou no início da puberdade, de acordo com a OMS.  

Entre nós, a pedofilia em si não é crime. Contudo, o Código Penal Brasileiro considera crime a relação sexual ou ato libidinoso (todo ato de satisfação do desejo, ou apetite sexual da pessoa) praticado por adulto com criança ou adolescente menor de 14 anos. O Código Penal, alterado, diz, no Art. 217-A, referente ao chamado “estupro de vulnerável”: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos”.

Normalmente, os pedófilos esperam ser aquinhoados com a inimputabilidade penal trazida pelo artigo 26 do Código Penal, pois para alguns doutrinadores, em minoria, tais indivíduos, como portadores de transtorno da personalidade sexual, fazem jus à inimputabilidade. Porém, a maioria dos doutrinadores, no campo do Direito Penal, inclina-se para reconhecer que a prática da pedofilia (como um tipo de parafilia), apesar de estar intimamente relacionada com o indivíduo que sofre de desvio da personalidade de preferência sexual, não merece o acolhimento da inimputabilidade penal prevista no art. 26 do CP, vez que tal comportamento ali não se enquadra. O pedófilo tem plena consciência dos atos que comete, não exteriorizando qualquer arrependimento pela prática dessa conduta ilícita e amoral. Logo, deve ser contido. Punido. Violência sexual contra criança e adolescente é crime, sim. 

Os pedófilos não escolhem fixamente carreiras profissionais tais ou quais. Eles podem ser encontrados em todas elas. O padre, ou qualquer outro profissional ou vocacionado, por exemplo, não se torna um pedófilo. O pedófilo, ao contrário, pode tornar-se padre ou outro líder de qualquer religião, médico, advogado, professor, motorista, pedreiro, juiz, engenheiro etc. Os pedófilos estejam onde estiverem, na Igreja ou fora dela, acabam sendo criminosos. Devem ser punidos na forma da legislação penal de cada país. Não devem ser acobertados. Na Igreja, o Código de Direito Canônico é claro quando trata dos deveres dos ministros ordenados. Quando cuida dos princípios que cingem as atividades eclesiásticas. Os cristãos católicos, ordenados ou leigos, devem ser sal na Terra, luz do mundo. Devem dar exemplos. E quando não os dão, escandalizam. Comprometem a imagem da instituição pela qual deveriam zelar, para poder servir com dignidade. A Igreja Católica não deve ser vista como um celeiro de pedófilos. A maioria esmagadora de seus ministros ordenados é de servos que não praticam nem concordam com os atos de pedofilia de alguns desvairados.  

Quantos, todavia, na hierarquia da Igreja em todo o mundo, estão em perfeita sintonia com a Igreja “em saída”, tão almejada pelo Papa Francisco? Com a verdadeira Igreja de Jesus Cristo? A Igreja que não tem medo de olhar, frente a frente, a Face do Filho de Deus. Que, por exemplo, não se enclausura no fausto, não condizente com a vida e os ensinamentos do Nazareno. Que não olha diferentemente para os filhos de Deus, ricos ou pobres, negros ou brancos etc. Igreja, sim, que possa acolher a todos como Jesus acolheu, sem, contudo, negar ou desfigurar a Palavra Sagrada, a Tradição e o seu próprio Magistério. Pilares da fé católica. Igreja que não deve acobertar desvios. Uma Igreja sã e de pessoas sadias. 

“Vida longa, sim, ao Papa Francisco!”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 21 e 22 de junho de 2015, sob o título “Vida Longa ao Papa Francisco”. Publicação neste site autorizada pelo autor.


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
15/06
01:07

O choro de Mariana

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Mariana chorou o grande chora de sua vida, naquela tarde de setembro. O local era a pista de treino da fazenda do tio de seu namorado. No chão, Pablo Milk estava imóvel. Alvoroço na pequena plateia, que assistia aos treinos. Dali a duas semanas seria o momento da afirmação de seu namorado, momento de fazer bonito na pista de vaquejada, para a derrubada de bois, na faixa traçada para isso. O primo dele, Marquinhos, este, sim, peão de nascimento, como o pai e o avô, era seu parceiro. Filho de fazendeiro, que fazendeiro se tornou aos vinte e poucos anos de idade, claro, com um bom empurrão do pai. Largara a faculdade no segundo período de Arquitetura, para dedicar-se à vida no campo. Já o namorado de Mariana, também filho de fazendeiro, era estudante de Ciências da Computação, que ela conhecera no Odontofest, dois anos atrás. Por sua vez, ela estudava Direito. 

A preocupação foi geral. Alguns dos assistentes pularam da cerca em que estavam tomando assentos nas tábuas. Procuraram avaliar de perto a situação de Pablo Milk. Para Totoinho, vaqueiro-gerente com muitos anos de labuta na fazenda São Lourenço, Pablo estava morto. E ele gritou a plenos pulmões: “O Pablo morreu!”. Foi naquele momento que Mariana deixou escapar um lancinante grito de dor. E o choro compulsivo se seguiu. Que terrível instante! Que tarde tenebrosa haveria de ser aquela! Uma tarde para ser esquecida, se ela pudesse esquecer. Não haveria de ser fácil. 

Tereza Rachel, irmã de seu namorado, a amparou, também chorando. Mariana desvencilhou-se e correu ao encontro do namorado, embora o novilho nelore estivesse solto na pista. Ela não teve tempo nem tino de perceber o bovino. O namorado de Mariana era o seu primeiro namorado sério. Os dois anteriores foram do tempo do colégio, namoricos de adolescentes, que não criaram raízes nem deixaram saudades. Com o atual, tudo era diferente. Ligaram-se um ao outro como carne e unha. De um lado, para desespero de Vinícius, seu colega de sala de aula, que era louquinho por ela. Do outro lado, para Cíntia, ex-namorada dele, com quem tinha rompido uns oito meses antes de conhecer Mariana, naquela noite de festa e fantasia. Mariana estava vestida de fada cintilante, acompanhada por primas e amigos. Ele vestia-se de cowboy estilizado. Refletia na fantasia uma parte de sua própria vida, dedicada que era às vaquejadas desde menino, como o pai, o tio e o primo mais velho, com quem corria, ora fazendo fita para o primo, ora o primo fazendo fita para ele. 

A morte de Pablo Milk era o fim do sonho de vencer a vaquejada em Batalha, nas Alagoas, para a qual o namorado se preparara como nunca. Já tinha corrido em várias vaquejadas com alguns prêmios conquistados, inclusive dois primeiros lugares. Corria desde cedo. O primeiro prêmio viera aos quinze anos, correndo com veteranos e campeões. Ele tinha o dom de montar cavalos e derrubar bois. Tinha uma técnica invejável, para colocar-se atrás do boi, na distância certa, de jogar o corpo para o lado, com firmeza e ligeireza, a fim de agarrar no rabo do bicho e derrubá-lo no espaço da faixa onde, caindo o boi, o locutor gritava: “Valeu o boi!”. E as palmas se seguiam. 

Naquela tarde fatídica, o fogo do sol pareceu esmorecer no céu. Desaqueceu. Ainda não eram quatro horas. Era como se o sol compartilhasse a dor de Mariana, que, na pista, abraçou o namorado, aumentando o choro. Já era um pranto desesperado. Ela nunca fora ligada ao tipo de esporte que o namorado praticava. Tinha mesmo aversão aos esportes que envolviam animais, como rodeios e vaquejadas. Touradas? Nem pensar. Numa viagem à Espanha com os pais e outros parentes, há cinco anos, recusara-se ir à Plaza de Toros. Ficara no hotel, sozinha. Não gostava de música country ou sertaneja. Nem via com bons olhos a indumentária dos cowboys, estilizados ou não. Isso até conhecer o namorado naquela noite em que a fada despertou a atenção do cowboy e este a seduziu. O cowboy moreno claro, de olhos verdes a levara a nocaute. Diga-se o mesmo dele em face da fada cintilante, com seu talhe bem moldado. Lindo corpo, belo rosto, olhos e cabelos castanhos escuros, sorriso que falava por si. Um encanto de garota. Do tipo de deixar um homem arreado dos quatro pneus, como se dizia no vulgo e no passado. Os dois formavam um belíssimo par. E estavam juntos, sem querelas, desde aquela noite de festa. Eram felizes. Davam prova disso, um ao outro. 

Mariana e o namorado tinham programado a viagem a Batalha. Com eles iriam os pais dele, a irmã, o primo, o pai deste e Totoinho, que era uma espécie de técnico dos dois jovens vaqueiros, ele que, no passado, também fora derrubador de bois em pistas de vários estados do Nordeste. Ganhador de muitos prêmios. 
Naquele tarde, o namorado de Mariana fazia os últimos preparativos para enfrentar a pista em Batalha. A secura do rapaz por aquela competição dava-se porque, no ano anterior, ele ficara em segundo lugar por erro dos juízes, fato constatado e comentado por todos os conhecedores do esporte, que ali estiveram durante toda a competição. O declarado vencedor foi o filho de um senador alagoano. Que erro! 

Não seria possível disputar e vencer naquele ano. Fora-se o sonho. O choro compulsivo de Mariana tinha sentido. Ela chorava por causa de seu namorado, do jovem que, em dois anos, só lhe propiciara momentos de felicidade. O caráter, a dedicação e o respeito dele para com ela eram tudo que uma garota poderia pretender. Ela confiava na caminhada que os dois estavam empreendendo e que tinha tudo para continuar daquele jeito. Ambos eram dedicados aos estudos. Eles haveriam de ter, em suas respectivas profissões, o sucesso almejado. Ela estagiava em um grande escritório de advocacia. Era elogiada pelo advogado-chefe e professor. O namorado trabalhava na área de informática, como programador de uma entidade federal. Passara no concurso em primeiro lugar. 

Tarde terrível aquela. Mariana foi consolada. Um abraço forte, carinhoso. Depois, beijos em suas faces molhadas por lágrimas que continuavam a descer. O namorado, Paulo César, a consolou com a ternura tão própria dos homens que, viris, não se entregam ao machismo truculento, mas à macheza que se traduz por aconchego, por presença firme e amor que se constrói passo a passo, de lado a lado, sem dominação.  

Paulo César conseguiu pular do cavalo no exato momento em que ele meteu a pata dianteira esquerda num buraco, que, sabia-se porque carga d’água estava ali, e começou a tombar. Sorte dele, que não correu o risco de ter caído sob o peso do animal. Pablo Milk era o nome do cavalo do namorado de Mariana. Era Pablo em homenagem ao próprio universitário/cowboy. E Milk em homenagem a Mariana, que tinha Leite no sobrenome. Pablo Milk morrera. Na queda, quebrara o pescoço. Paulo César não poderia participar da vaquejada em Batalha dentro de duas semanas sem o cavalo com que treinava há mais de um ano. De última hora, outro cavalo não lhe daria o mesmo rendimento. Cavalo e cavaleiro precisavam estar em sintonia. Outras vaquejadas viriam, porém. Ele consolou a namorada: “Tudo pode ir embora. Eu sinto muito perder meu cavalo e a possibilidade de ganhar em Batalha. Mas se eu tenho você a meu lado, posso renascer das cinzas”. Ainda soluçante Mariana beijou o namorado. Um beijo demorado fez os jovens corações baterem no mesmo compasso. 

E o sol voltou a aquecer a Terra. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 14 e 15 de junho de 2015. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
31/05
12:55

As pererecas de Jandira

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Jandira estava de casa nova. Enfim, um sonho de muitos anos se realizara. Durante muito tempo, ela morou em apartamento. Ou, como ela dizia, em “apertamento”. Aposentada de pouco, sozinha, conseguiu comprar uma casa em condomínio fechado de classe média. Era uma casa modesta, mas confortável. Tudo que ela queria. Tinha passado a infância e a juventude no interior, numa casa ampla com um quintal fabuloso onde se contavam inúmeras árvores frutíferas. Era um quintal e tanto. Jovem estudiosa que era, passou no vestibular para Serviço Social. De início, morou numa república para moças estudantes universitárias, que a UFS mantinha, para moças e rapazes, separadamente. Depois de formada, conseguiu uma colocação no estado. Comprou, com financiamento da Caixa Econômica, o tal “apertamento”. Exerceu a atividade de assistente social por trinta e dois anos. Aposentou-se. E, agora, estava bem do seu, na casa estalando de nova. Conhecia poucos vizinhos. Tinha maior contato com uma senhora, que vivia com o filho portador de tinha síndrome de down, e que era mãe de uma ex-colega de trabalho. Um casal de idosos, cordial e esbanjando alegria, morava na casa em frente, e sempre lhe cumprimentava.

E ali estava Jandira, beirando os sessenta anos, solteira, amante de um bom filme, de um bom livro, de um bom prato e de seus dois gatos, Marisco e Momota. Os pais ainda viviam, no interior. As duas irmãs moravam no Rio de Janeiro, cidade que ela adorava. Com as manas, ela passava todos os réveillons, desde sabe-ia-se lá quando. Os três sobrinhos desmanchavam-se por ela. Um cunhado era como o irmão mais velho que ela não teve. O outro nem cheirava nem fedia.

A assistente social aposentada cuidava de um pequeno jardim, zelava da casa, fazia sua comida, tomava um cafezinho no shopping, tarde sim, tarde não, com umas amigas, ia ao cinema, lia, ia à missa dominical, fazia crochê para passar parte do tempo ocioso. E ajudava, aos sábados, no asilo. Tinha, em termos, uma vida cheia. Vida de aposentada, que vivia sozinha, sem arrependimentos de ter permanecido solteira e intacta. Não que ela não teve, no passado, alguns pretendentes. Teve-os, sim. Porém, amar mesmo de verdade, ela só amou a um deles. Zeferino Maia. Um jovem gerente do Banco do Brasil. Viúvo. Ele viuvou ainda muito novo, aos vinte e nove anos. A mulher morreu apenas dois anos após o casamento. Jandira o conheceu três anos depois do início da viuvez. Cortejaram-se por uns meses. Engataram o namoro. Ela tinha acabado de assumir o cargo na administração pública estadual. O namoro respeitoso ia muito bem até que o gerente foi transferido para a Bahia, terra de múltiplas variações de fé. Terra de santos e orixás. Terra de igrejas e terreiros. Terra de mulatas de mil requebrados. De tabuleiros cheios e apetitosos. Terra de mil encantos. E de mil tentações.

Longe estava o namorado. Falavam-se ao telefone quase todos os dias. Vez ou outra, ele vinha para um fim de semana. Hospedava-se no Hotel Jangadeiro, perto do “apertamento”. Um dia, após dois anos e meio da transferência do namorado, ela recebeu uma carta dele, na qual dizia que estava noivo da filha de um deputado federal baiano, dono de fazendas de cacau e gado. Pois é: o cacau e os bois valiam muito. Nunca mais ela namorou. Entrincheirou-se, como dizia sua avó, Dona Domitila. Por uns dias, sofreu muito. Depois, foi-se acostumando com a solteirice. Nunca mais confiaria em homem nenhum. Desilusão? Bastava uma.

Aquele era o primeiro inverno na casa nova. Afinal, mudara-se há apenas dois meses. Na sexta-feira antepassada, um aguaceiro desabara dos céus. Aracaju não podia ver água. E com a maré cheia, então... Choveu a madrugada toda. Choveu o dia todo. Interiorana, ela gostava de dormir ouvindo a música da chuva no telhado, gosto que não pôde ter durante os muitos anos em que morou no “apertamento”, que ficava no segundo andar. Agora, na primeira madrugada muito chuvosa que passou na casa nova, ela voltou aos tempos da infância e adolescência. A chuva tilintando nas telhas, escorrendo pelas biqueiras. Temperatura gostosa, que a fazia abraçar-se ao travesseiro. Companheiro de uma vida solitária.

No fim da tarde daquela sexta-feira, ela se deparou com uma rã no banheiro. Não tinha medo de rãs, mas elas lhe davam nojo. Encontrou mais duas delas na cozinha. Depois, já eram cinco. Jandira nunca mais tinha visto tantas pererecas. Lembrou-se do filme “A invasão das rãs” (“Frogs”), um filme pavoroso, tipo B, de 1972, dirigido por George McCowan, ao qual ela assistira no antigo Cine Aracaju.

À noite, recolhida ao quarto, na cama aconchegante, eis que ela, antes de apagar a luz, contou nas paredes quatro rãs. Era, sim, uma nova invasão daquela espécie de anfíbio anuro da família Ranidae. Ligou para uma amiga bióloga, dizendo-lhe que tinha algumas rãs de estimação. A outra respondeu, inocentemente (?): “Amiga, pra que é que você quer um magote de pererecas? Basta uma!”. As duas riram. Lorotaram um pouco mais. Despediram-se. Jandira encolheu-se na cama. Cobriu-se. E rezou para que as rãs ficassem onde estavam.

O sábado também amanheceu chuvoso. Ao acordar, ela acendeu a luz. As rãs não estavam nas paredes. Estariam no banheiro? Estariam no chão, nos chinelos? Sentando-se na cama, ela olhou o par de chinelos. As rãs não estavam ali. Jandira fez a costumeira oração matinal. Desceu da cama. Calçou os chinelos. Quando ia dar o primeiro passo, uma rã pulou em seu pé esquerdo. Ela deu um grito, que deve ter assustado a metade do condomínio. Caiu na cama, a rã agarrada ao pé. Sacudiu o pé com veemência. A rã não se moveu. Aquela coisa fria grudada em sua pele quase a fez desmaiar. Criou coragem. Lembrou que seu pai dizia: “Em cima de medo, coragem!”. Ela não tinha medo. Tinha nojo. Levantou-se. A rã ainda estava lá. Curvou-se e, rapidamente, tentou agarrar a rã, que pulou para os seios, depois para a cabeça e foi-se embora, saltitando, saltitando até agarrar-se na parede, ao lado da porta do banheiro.

Refeita do susto e do nojo, ela se deixou cair na cama. Uma casa nova também tinha das suas. Nada na vida era perfeito. Jandira não tinha fazendas de cacau. Não tinha fazendas de gado. Tinha apenas uma vida decente. E, agora, tinha suas novas visitas. As rãs. Nojentas, sim, mas inofensivas. Não lhe fariam mal algum. O inverno parecia mesmo ter chegado. Ela ouviria muitas vezes, na casa nova, a música da chuva tilintando no telhado. O seu coração era livre, como livres eram as pererecas saltitantes, que vinham sem marcar hora ou sem ser chamadas. E, livres, ir-se-iam embora, quando bem quisessem. Naquele sábado, a chuva continuaria cantando. E ela ouviria, muitas vezes, Louis Armstrong interpretando “Wonderful World”. Sua canção preferida. Lembranças... Lembranças...

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 31/05 e 1º/06 de 2015.
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/05
14:57

A bengala

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

D. Catarina estava sentada no sofá da sala. O televisor ligado, mas ela não via nem ouvia nada. O pensamento e o olhar se voltavam para o canto da sala, ali ao lado do janelão pintado de verde. Lá estava a intrusa. Encostada na parede. Imóvel. Parecia que a dita cuja tinha olhos fixos na viúva que lhe hostilizava. A intrusa entrara em casa contra a vontade de D. Catarina. Esta não desejara aquela. Não tinha por ela nenhuma simpatia. Ao contrário, só não a jogava fora por causa de seu neto, que, pensando em fazer-lhe um agrado, trouxera a intrusa. A dita cuja até que era bem aprumada. Corpo retilíneo, cabeça prateada em forma horizontal.

O telefone tocou. Era o filho. Queria jantar com ela. Queria tomar a canja que a mãe preparava com mãos de fada. Como aprendiz de escrivinhador, eu imagino se já houve fadas cozinheiras. Quem sabe? Tudo é possível no mundo do faz de conta. Após atender ao telefone, D. Catarina lembrou-se que, nalgum canto da casa, escondia-se uma velha agenda, provavelmente dos fins dos anos 1990, que ela esquecera e que guardava anotações de telefones de pessoas amigas, algumas das quais ela não tinha notícias há muito tempo. Aracaju parecia ter crescido além da conta. Ela queria manter contato com um amigo dos velhos tempos da Aliança Francesa. Não se lembrava do número do telefone do dito. Nem sabia onde poderia estar a bendita agenda. Já tinha revolvido a casa toda, a bem dizer. E nada. Quem sabe se uma fada sapeca não lhe escondera a agenda que, àquela altura, estaria com as páginas bem amareladas pelo tempo?

Ela olhou mais uma vez para a intrusa. Imóvel. Muda. Se a intrusa falasse, a viúva ensimesmada lhe diria poucas e boas. Embora ela, a intrusa, não tivesse culpa nenhuma por estar ali, como que a lhe desafiar. O médico a recomendara. Ela recusara. O neto, porém, levara-a. A avó, que se desdobrava pelo neto, o único neto, não lhe quisera desagradar. Teria que suportar a intrusa, ali no canto da sala. Sequer poderia escondê-la. Guardá-la no depósito dos bagulhos, no fundo da casa. O neto, que com ela almoçava dia sim e dia não, notaria que a intrusa não estaria ali na sala. Só lhe restava mesmo suportar a cara lisa da intrusa.

O médico, que era um bom médico, acabara lhe fazendo dois despropósitos. Recomendara a intrusa e, pasmem os leitores, um namorado. “Arranje um namorado, Dona Catarina. A senhora precisa continuar vivendo”. Como se viver fosse estar ao lado de um homem. Já não lhe chegara o seu finado marido? O que, ao lado dele, ela passou de bom ou de ruim, enterrou-se com ele. Outro homem? Nem pensar. Embora ainda não estivesse à beira de um mausoléu na Colina da Saudade, que Deus disso lhe livrasse, não poderia conceber a ideia de voltar a dividir a vida, a casa e a cama com outro homem. Ouvir, à noite, um ronco? De novo? Um homem catarrento, tossindo o dia todo? “Tosse, tosse, tosse...”. Um sujeito cheio de manias. Jesus Cristo a livrasse daquilo! Lembrou-se de uma prima, que sempre lhe dizia coisas politicamente incorretas: “Catarina, um velho e uma velha juntos, só servem para criar mofo”. Pois não era? Teve vontade de sorrir. E acabou sorrindo. Dobrou o sorriso. Já era uma gostosa gargalhada. Estaria ficando lelé da cuca, para gargalhar daquele jeito sem um motivo que valesse a gargalhada? Não, não estava. Até que era bom desopilar o
Virgínia, a vizinha do lado direito, tinha uma irmã, divorciada, que adotara um boy. Virgínia tinha boa aposentadoria, gorda mesmo. Ela com sessenta e seis, e o moço com vinte e nove anos. Coisas da modernidade. Se os homens gostavam de mulheres novas, por que as mulheres também não podiam ter a preferência por jovens mancebos? Dona Catarina não recriminava ninguém, mas passava ao largo daquilo.

O Dr. Shimamoto, misto de japonês com alguma coisa, fizera duas recomendações despropositadas. Um namorado ela não queria. Nem novo nem velho. Nem maduro nem peco. Nova ela não era. Mas ainda tinha vigor. Andava nas cercanias dos setenta. Afora uma dorzinha no joelho direito, daí a recomendação de usar a intrusa, a viúva não sentia nada. Ou melhor, sentia uns “chegas-prá-lá” aparentemente sem importância. Nada que uns bons chás não resolvessem. Se o corpo tinha certos queixumes, o espírito mantinha-se jovial. Não tinha do que reclamar de mais sério, a não ser da presença da intrusa ali encostada no canto da sala, como que lhe esperando pacientemente. Esperando para lhe oferecer ajuda. Ajuda que ela cismava em não querer. Que nunca viesse a precisar dela, da intrusa! E que jamais voltasse a cabeça para outro homem, como sugerira o doutor misto de japonês com alguma coisa. Duas recomendações que sem elas Dona Catarina passava muito bem.

Dona Catarina levantou-se. Desligou o televisor. Tomou um livro nas mãos. Um romance lido nos tempos do Atheneu Sergipense. Graciliano Ramos. Vidas Secas. Depois de tantos anos, o que ela mais lembrava era do papagaio que a família de retirantes comera, para aplacar a fome. Aquele exemplar ela o comprara há pouco. Cristiano, o atendente da livraria, sempre solícito, tinha sido aluno do amigo cujo telefone estava anotado na agenda amarelada que ela não sabia por onde andava. Haveria de reler o romance em um átimo. Depois ela o repassaria ao neto, para uma tarefa escolar. Os jovens deveriam ler muito mais as obras dos bons autores brasileiros. Era o que ela achava. No seu tempo de escola lia-se muito. Agora, o Google resolve muita coisa. “Uma pena”, pensou Dona Catarina.

Novamente, ela olhou a intrusa no canto da sala. Que Deus a livrasse de, um dia, ter que usar aquilo. O joelho não haveria de demorar a ficar bom. Era só uma dorzinha de nada. O ortopedista, misto de japonês com alguma coisa, fosse fazer suas recomendações a outras pacientes. Não a ela. Um namorado e uma bengala. Que absurdo!

Dias depois, Dona Catarina, com o joelho direito aparentemente curado, a dorzinha tendo ido passear pelo mundo afora, disse ao neto, que tanto amava: “Meu filho, sua outra avó, Dona Eulália, não estaria precisando de uma bengala? Eu a vi outro dia no shopping e ela me pareceu andando com dificuldade. Você poderia levar essa bengala para ela”. O rapaz respondeu: “Não sei. Ontem à tarde eu a deixei no Dr. Shimamoto. Ela estava reclamando de dores na perna”.

A esperança de Dona Catarina era que o médico, misto de alguma coisa com japonês, fizesse à outra avó de seu neto as mesmas recomendações que lhe fizera. Só assim ela se livraria da bengala sem causar constrangimento ao neto. Quanto a recomendar um namorado a Dona Eulália, ela haveria de adorar. Já viuvara duas vezes. E acabara com o terceiro namoro nem faziam dois anos da última viuvez. A idade dela? Setenta e três anos. Uma viúva fogosa como a rapa da peste.

Ah, a agenda com o telefone do amigo ela o encontrara, enfim. Estava no meio de umas tralhas. Ligou para o amigo. E este lhe disse que tinha visto Dona Eulália, que ele a conhecia, tomando café numa livraria, acompanhada por um garotão malhado, cheio de sacolas de loja de grife masculina. Virou moda. Para Dona Catarina, só faltava mesmo a bengala, que Dona Eulália haveria de receber. “Fogo de viúva quando reacende, não há cristão que apague”, dizia sua velha mãe. “Vôte!”, digo eu.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 24 e 25 de maio de 2015.
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/05
14:29

A revolta das almas

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Valdemar de “seu” Tonico do Beija-Flor dos Gravatás, povoado perdido nos confins do Raso da Catarina, mas desde meninote morador nas Fontinhas do finado Juca do Caípe, começou a construir uma casinha encostada ao cemitério, no tempo em que a morada dos mortos era isolada. Hoje, não. É arruado por todos os lados. Virou área nobre. Mas até a década de 1970 não era assim. Pois bem. Valdemar era fraco de bolso e contou com a ajuda do prefeito de então e de várias pessoas. Levantou a casinha de pé direito baixo como eram as casinhas de pessoas desendinheiradas. Uma varandinha, um quarto, uma pequena sala e uma cozinha. No lado de fora, um banheiro, para tomar banho de cuia, pois ainda não havia água encanada por ali. Sanitário? Nem pensar. Valdemar atendia as necessidades fisiológicas como podia. O número dois ele o fazia sobre papeis de jornais, que ele os pegava, depois de lidos, com “seu” João da Farmácia, para quem trabalhava, e que era assinante de um diário da capital, que os Correios entregavam com três dias de atraso. Fazia o serviço e jogava o embrulho por sobre o muro do cemitério, no frescor da madrugada, antes que a cidade acordasse. Ele ficou useiro e vezeiro em tanger pacotes. Defunto não acordava. Defunto não sentia o fedor do número dois de Valdemar. Ah, mas Vardo, o coveiro, sentia. Ele e Zefa, sua mulher, que o ajudava no zelo das catacumbas e das covas rasas. Aliás, o cemitério, no tempo deles, era de dar inveja a casas de ricaços, no que se referia à limpeza. Um brinco! 

Toda manhã, Vardo se deparava com o pacote do número dois. Quem estaria tangendo aquela defecção todo dia, fizesse chuva ou fizesse sol? Ocorre que Valdemar, para que dele não desconfiassem, tangia o “bolo” fora do limite de sua casa. Ele o tangia na quina, vizinha ao terreno de “seu” Juca. Ora, quem faria aquilo? Não se poderia saber. E assim ele continuou fazendo por semanas a fio. Defecava, empacotava e tangia para o outro lado. Uma atitude merecedora de toda reprovação. Sobre todos os sentidos.

Vardo, o coveiro, praguejava e limpava a sujeira, pois o “pacote” se desmanchava no chão limpinho, às vezes se espatifando sobre covas e catacumbas. Os defuntos eram desrespeitados em sua “dignidade defuntosa”, como dizia Vardo. Pobres defuntos! 

É evidente que em face da ocorrência diária, Vardo desconfiava que o artífice de tamanha porcaria, seria mesmo Valdemar de “seu” Tonico. O sujeito morava sozinho e ao redor dele ninguém mais morava. Mesmo tangendo o número dois a partir da quina, fora dos limites de sua casa e de seu quintal, não poderia haver outro suspeito. O problema era que Vardo não se dava com ele, por causa de um entrevero ocorrido no Bar Cana, de Edmundo Leite, no qual Vardo trabalhava nos momentos de folga. Bate- boca besta por causa de uma conta. Ficaram sem se falar. Por essa razão, Vardo não tiraria a situação a limpo com o desafeto. Mas tudo tinha o seu tempo. 

De tanto limpar a sujeira diária do número dois, ali jogado, Vardo tomou a decisão de pôr cobro àquela sem-vergonhice. Como ele faria? Bem. Numa noite de verão, o mormaço do dia penetrando na noite estrelada, o orvalho dando de beber às bem cuidadas plantinhas que adornavam algumas catacumbas e algumas covas rasas, as fazendo florir, Vardo resolveu pernoitar no cemitério, perto da quina receptora dos pacotes. E assim ele o fez. Gozou do silêncio de morte daquele lugar que ele zelava como ninguém o poderia fazer melhor. Protegido do sereno, que lhe poderia trazer um resfriado, ele fumou um sem-número de cigarros de fumo bruto, comprados na bodega de “seu” Jove. Fumo do bom, que fazia o mel escorrer pelo canto da boca. Cigarro pé duro enrolado por Dona Júlia de Tonho Miúdo, na estrada do João Ventura para o Gonçalão. 

O coveiro não pregou o olho. Ouviu grilos e rãs chamadoras de chuvas. Estavam próximas as trovoadas. Acolá, um cachorro ladrava. Por todo lado, galos cantavam. Um puxava o canto e outros respondiam. Uns cantavam bem perto, outros muito longe. Cantavam em cadeia. Cada um queria dizer alguma coisa. Enfim, todos diziam a mesma coisa. Lá pelas tantas, Vardo ouviu o baque. Ploft! O pacote espatifou-se. Mais que depressa, ele esgueirou-se sobre o muro baixo e viu o vulto de Valdemar dirigir-se lentamente para casa. Era ele, sim. E não poderia ser outro. Confirmada estava a suspeita do coveiro zeloso. Agora, era pensar no que fazer, numa artimanha, para desmascarar o sujão nojento. 

Vardo, então, contou o sucedido a uns vizinhos e amigos, todos com entes queridos dormindo o sono eterno. Juntaram-se uns doze sujeitos. Todos vestindo a túnica branca de penitente. Quem não a tinha, tomou de empréstimo. Uns poucos, dois ou três, pois a maioria saía na Procissão dos Penitentes, na Sexta-feira da Paixão. Eles não ficaram a noite toda de atalaia, como Vardo o fizera. Por volta das três horas da madrugada, todos se acharam no cemitério serenado. Acoitaram-se junto ao muro, mas em distância segura da destinação final do arremesso de Valdemar. O muro do cemitério era baixo, o suficiente para demarcar o território do campo santo e de eterno silêncio. 

No horário mais ou menos habitual, ali por volta das quatro e tanto, o baque. Ploft! Eis, então, que os sujeitos pularam o muro com as túnicas levantadas acima dos joelhos, para facilitar os pulos. Caíram de cipó em cima de Valdemar, que pensou que as almas dos defuntos tinham se revoltado contra ele. As “almas” deram nele, no tronco e nas pernas. Só pouparam a cabeça. Deixaram-no moído. Uma sova para jamais ser esquecida. 

Manhã de sol já alto na imensidão azul, manchada por uma ou outra nuvem, Valdemar dirigiu-se à farmácia para comprar um remédio que lhe aliviasse as dores e os inchaços. Domingos, que o atendeu, indagou: “Andou brigando, Valdemar?”. E ele narrou o ocorrido. Domingos ponderou: “Ora, Valdemar, o que você fez não era direito. Jogar sujeira nos defuntos!?”. Ao que Valdemar respondeu: “E por acaso é direito enterrar defunto com cipó nas mãos?”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 17 e 18 de maio de 2015.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/05
22:45

Tarde de “trevoada”

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Aos poucos, o vento lá em cima fez um ajuntamento de nuvens escuras. Elas vinham do Leste, tangidas do Oceano. Agruparam-se como se estivessem em assembleia. Talvez acertassem a hora de cair, de fazer chover sobre a terra ressequida, tão carente de água que escorresse sobre sua face e penetrasse em suas entranhas. Enfim, que lhe fecundasse. Primeiro, caíram uns pingos de água. Um aviso. Um cheiro forte levantou do solo em agonia. Era a primeira trovoada do fim do ano. Dona Lalá de “seu” Virgílio do finado Secundino gritou no quintal: “Mariinha! Ô Mariirnha! Venha cá me ajudar a catar essas roupas, que vai cair trevoada, minha filha!”. A “trevoada”, como ela dizia, estava chegando. O mundo escureceu de vez. As nuvens ainda confabulavam. Parecia que umas diziam: “É agora!”, ao passo que outras respondiam: “Tenham calma!”. Cá embaixo, Dona Lalá, avexada, e todos mais aguardavam a pancada d’água. As notícias corriam pelo rádio, que o aguaceiro já estava caindo em várias cidades. Algumas, na Cotinguiba, estavam alagadas. Chuvarada de tinir.
 
Uns riscos no céu. Uns estrondos de lascar. Trovões e relâmpagos traziam a “trevoada”. Ou a “trevoada” os traziam? Minha avó Lourdes correu a cobrir os espelhos. Desligou o rádio. Era o medo de que um raio caísse. Com pouco tempo, as torneiras do céu se abriram com vontade. Era água grossa. “Parece até um dilúvio!”, gritou minha avó, assustada. Nas valetas da rua a água descia num torvelinho só, tomando a rua de ponta a ponta. Aliás, não eram valetas, era um ribeirinho recém-formado, descendo em direção ao açude. Nas telhas, a água tilintava. As biqueiras faziam-se pequenas cachoeiras. O fogo do céu cortava os ares, fazia piruetas serpenteadas. E os anjos com suas trombetas e tambores faziam festa no céu. Era o que dizia Dindinha Carminha. Festa no céu! E eu me perguntava se os anjos não tinham outro modo de fazer suas festas sem assustar as pessoas. Era cada estrondo, que fazia estremecer a cristaleira de minha avó. Eu não sabia para que tanta brabeza dos anjos. Seria raiva que eles tinham das pessoas? Porém, no catecismo, na escola, a professora ensinava que os anjos eram espíritos puros de Deus. E por que Deus deixava os seus anjos fazerem tanta folia? Eu não entendia. Mas, eu não tinha medo dos trovões. Ao contrário, gostava dos estrondos. Só não entendia porque os anjos os produziam assim com tanta raiva. E os relâmpagos? Eram mais do que bonitos. Eu os espreitava por uma fresta da janela. Vovó não permitia portas e janelas abertas, nas “trevoadas”. E se um raio buliçoso tivesse a veneta de entrar porta ou janela adentro? Era um perigo mortal! 

A chuvarada continuou sua pesada cantilena. O quintal não deu vencimento a tanta água. As galinhas já tinham corrido para o poleiro, debaixo da mangueira espada. Os bacorinhos pareciam sufocados pelo aguaceiro. Mas os patos danavam-se a grasnar, nadando para lá e para cá. Para eles, era uma festa. 

O ribombar dos trovões era sequenciado. Primeiro, um estrondo maior. Depois, um longo estalar sequenciado. Prummmm! Praparapapá... Em casa, todos calados. Fazia mal conversar ao cair de “trevoadas”. Vovó recolheu-se ao quarto. Pôs-se diante do nicho de seus santinhos, a orar. Orou para Santa Bárbara amenizar o furor da “trevoada” e para Santa Clara fazer clarear o tempo. Ao que parece, vovó entendia que chegava de chuva. Mas, meu avô sempre dizia que chuva era sempre bem-vinda, desde que viesse em paz, que não desmantelasse as casas dos mais pobres, que eram casas de sopapo, de taipa. Aquela chuva, porém, uma hora depois, já era demais. As orações de vovó haveriam de ter bom efeito. Deus haveria de fazer parar a festa de seus anjos. Eles estavam mesmo danados. E anjos ficavam danados? E eu lá sabia dessas coisas! 

Ora, as preces de minha avó não estavam sendo ouvidas. Ia-se ver, ela não estava rezando com muita fé. Ela precisava apressar a ave-maria e o padre-nosso. Era o que se chamava de rosário apressado. Rezar de carreirinha, ligeiramente, quase atropelando as palavras. Nos meus oito anos, eu não entendia direito a lição da professora: como era que a água subia dos rios e dos mares e se sustentava lá em cima, para, depois, cair, às vezes assombrando o mundo, como naquele momento?  

Teria mais gente rezando, além de minha avó, para fazer as chuvas darem uma trégua? O padre Miguel também rezava? Para mim, o padre deveria ter umas rezas mais fortes que as de minha avó. Sabia-se lá. O certo era que a chuva continuava no mesmo tom. Os trovões e os relâmpagos também. As águas carregavam muita bagaceira. A rua de minha avó era de chão batido. Haveria de ficar um lamaçal da desgraça. O açude não comportaria tanta água. O sangradouro do trampolim botaria jatos de água com mais de um metro de altura, fazendo o riacho, que ali nascia, lamber suas margens, pular para fora delas, arrancar cercas e até carregar animais desatentos. Uma vez, o vizinho de terras de avô perdeu um bezerro, que as águas do riacho carregou para longe. O bicho apareceu morto no terreno de “seu” Oscar, na Caiçara. 

Enfim, após mais de uma hora e meia de dilúvio, a “trevoada” serenou. Os trovões e os relâmpagos foram amainando. Tomaram outro rumo. Subiram para o sertão. Foram se danar noutras paragens. Levaram as chuvas para outras terras sedentas. As orações de minha avó deviam ter ajudado. Da janela, que vovó permitiu que eu abrisse, vi a água descendo com força. Garranchos e até peças de roupa miúda eram arrastados. Sapos pulavam no terreiro. Desentocaram-se. No tempo seco eles sumiam. Mas, bastava uma chuvinha de nada, e eles apareciam, pulando. E tinha cada cururu grandão!  

Meu avô Dioclécio não tardou a chegar do pasto. Como eu previa, ele disse que a cheia do açude fez do sangradouro do trampolim uma cachoeira. Imaginei o aguaceiro descendo pelos degraus de cimento, feitos no fim dos anos 1930. Uma notícia triste, muito triste, meu avô nos deu. A bezerrinha da vaca Mimosa foi apanhada pelo riacho e sumiu. Era uma linda bezerra branca, que eu dava de comer na mão. Quase desmamada, ela gostava de palhas de milho verde lambuzadas com cabaú. Era a minha bezerra, que vovô me deu assim que ela nasceu. Perdi a minha bezerra. Chorei. 

Não tomei café naquela noite. Chorei como um desvalido. Meu avô disse que, no dia seguinte, iria procurar a bezerra. Quem sabia se ela não conseguira escapar da fúria das águas do riacho? Minha avó, para me consolar, disse que compraria outra bezerra para mim. Não tive consolo. Eu queria a minha bezerra branca, a que comia em minha mão. Dindinha, que gostava de me azedar, disse, então, que a minha sorte era curta. Por isso a bezerra fora carregada pelas águas. Diante da constatação fatídica de que minha sorte era curta, meu choro só fez aumentar. De meus olhos as lágrimas caíram em cachoeira, como as águas descendo pelos degraus do trampolim do açude. Aos oito anos, eu não passava de um menino de sorte curta. Aquilo, para mim, soou de forma terrível, como terrível fora aquela tarde de “trevoada”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 10 e 11 de maio de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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