24/05
14:57

A bengala

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

D. Catarina estava sentada no sofá da sala. O televisor ligado, mas ela não via nem ouvia nada. O pensamento e o olhar se voltavam para o canto da sala, ali ao lado do janelão pintado de verde. Lá estava a intrusa. Encostada na parede. Imóvel. Parecia que a dita cuja tinha olhos fixos na viúva que lhe hostilizava. A intrusa entrara em casa contra a vontade de D. Catarina. Esta não desejara aquela. Não tinha por ela nenhuma simpatia. Ao contrário, só não a jogava fora por causa de seu neto, que, pensando em fazer-lhe um agrado, trouxera a intrusa. A dita cuja até que era bem aprumada. Corpo retilíneo, cabeça prateada em forma horizontal.

O telefone tocou. Era o filho. Queria jantar com ela. Queria tomar a canja que a mãe preparava com mãos de fada. Como aprendiz de escrivinhador, eu imagino se já houve fadas cozinheiras. Quem sabe? Tudo é possível no mundo do faz de conta. Após atender ao telefone, D. Catarina lembrou-se que, nalgum canto da casa, escondia-se uma velha agenda, provavelmente dos fins dos anos 1990, que ela esquecera e que guardava anotações de telefones de pessoas amigas, algumas das quais ela não tinha notícias há muito tempo. Aracaju parecia ter crescido além da conta. Ela queria manter contato com um amigo dos velhos tempos da Aliança Francesa. Não se lembrava do número do telefone do dito. Nem sabia onde poderia estar a bendita agenda. Já tinha revolvido a casa toda, a bem dizer. E nada. Quem sabe se uma fada sapeca não lhe escondera a agenda que, àquela altura, estaria com as páginas bem amareladas pelo tempo?

Ela olhou mais uma vez para a intrusa. Imóvel. Muda. Se a intrusa falasse, a viúva ensimesmada lhe diria poucas e boas. Embora ela, a intrusa, não tivesse culpa nenhuma por estar ali, como que a lhe desafiar. O médico a recomendara. Ela recusara. O neto, porém, levara-a. A avó, que se desdobrava pelo neto, o único neto, não lhe quisera desagradar. Teria que suportar a intrusa, ali no canto da sala. Sequer poderia escondê-la. Guardá-la no depósito dos bagulhos, no fundo da casa. O neto, que com ela almoçava dia sim e dia não, notaria que a intrusa não estaria ali na sala. Só lhe restava mesmo suportar a cara lisa da intrusa.

O médico, que era um bom médico, acabara lhe fazendo dois despropósitos. Recomendara a intrusa e, pasmem os leitores, um namorado. “Arranje um namorado, Dona Catarina. A senhora precisa continuar vivendo”. Como se viver fosse estar ao lado de um homem. Já não lhe chegara o seu finado marido? O que, ao lado dele, ela passou de bom ou de ruim, enterrou-se com ele. Outro homem? Nem pensar. Embora ainda não estivesse à beira de um mausoléu na Colina da Saudade, que Deus disso lhe livrasse, não poderia conceber a ideia de voltar a dividir a vida, a casa e a cama com outro homem. Ouvir, à noite, um ronco? De novo? Um homem catarrento, tossindo o dia todo? “Tosse, tosse, tosse...”. Um sujeito cheio de manias. Jesus Cristo a livrasse daquilo! Lembrou-se de uma prima, que sempre lhe dizia coisas politicamente incorretas: “Catarina, um velho e uma velha juntos, só servem para criar mofo”. Pois não era? Teve vontade de sorrir. E acabou sorrindo. Dobrou o sorriso. Já era uma gostosa gargalhada. Estaria ficando lelé da cuca, para gargalhar daquele jeito sem um motivo que valesse a gargalhada? Não, não estava. Até que era bom desopilar o
Virgínia, a vizinha do lado direito, tinha uma irmã, divorciada, que adotara um boy. Virgínia tinha boa aposentadoria, gorda mesmo. Ela com sessenta e seis, e o moço com vinte e nove anos. Coisas da modernidade. Se os homens gostavam de mulheres novas, por que as mulheres também não podiam ter a preferência por jovens mancebos? Dona Catarina não recriminava ninguém, mas passava ao largo daquilo.

O Dr. Shimamoto, misto de japonês com alguma coisa, fizera duas recomendações despropositadas. Um namorado ela não queria. Nem novo nem velho. Nem maduro nem peco. Nova ela não era. Mas ainda tinha vigor. Andava nas cercanias dos setenta. Afora uma dorzinha no joelho direito, daí a recomendação de usar a intrusa, a viúva não sentia nada. Ou melhor, sentia uns “chegas-prá-lá” aparentemente sem importância. Nada que uns bons chás não resolvessem. Se o corpo tinha certos queixumes, o espírito mantinha-se jovial. Não tinha do que reclamar de mais sério, a não ser da presença da intrusa ali encostada no canto da sala, como que lhe esperando pacientemente. Esperando para lhe oferecer ajuda. Ajuda que ela cismava em não querer. Que nunca viesse a precisar dela, da intrusa! E que jamais voltasse a cabeça para outro homem, como sugerira o doutor misto de japonês com alguma coisa. Duas recomendações que sem elas Dona Catarina passava muito bem.

Dona Catarina levantou-se. Desligou o televisor. Tomou um livro nas mãos. Um romance lido nos tempos do Atheneu Sergipense. Graciliano Ramos. Vidas Secas. Depois de tantos anos, o que ela mais lembrava era do papagaio que a família de retirantes comera, para aplacar a fome. Aquele exemplar ela o comprara há pouco. Cristiano, o atendente da livraria, sempre solícito, tinha sido aluno do amigo cujo telefone estava anotado na agenda amarelada que ela não sabia por onde andava. Haveria de reler o romance em um átimo. Depois ela o repassaria ao neto, para uma tarefa escolar. Os jovens deveriam ler muito mais as obras dos bons autores brasileiros. Era o que ela achava. No seu tempo de escola lia-se muito. Agora, o Google resolve muita coisa. “Uma pena”, pensou Dona Catarina.

Novamente, ela olhou a intrusa no canto da sala. Que Deus a livrasse de, um dia, ter que usar aquilo. O joelho não haveria de demorar a ficar bom. Era só uma dorzinha de nada. O ortopedista, misto de japonês com alguma coisa, fosse fazer suas recomendações a outras pacientes. Não a ela. Um namorado e uma bengala. Que absurdo!

Dias depois, Dona Catarina, com o joelho direito aparentemente curado, a dorzinha tendo ido passear pelo mundo afora, disse ao neto, que tanto amava: “Meu filho, sua outra avó, Dona Eulália, não estaria precisando de uma bengala? Eu a vi outro dia no shopping e ela me pareceu andando com dificuldade. Você poderia levar essa bengala para ela”. O rapaz respondeu: “Não sei. Ontem à tarde eu a deixei no Dr. Shimamoto. Ela estava reclamando de dores na perna”.

A esperança de Dona Catarina era que o médico, misto de alguma coisa com japonês, fizesse à outra avó de seu neto as mesmas recomendações que lhe fizera. Só assim ela se livraria da bengala sem causar constrangimento ao neto. Quanto a recomendar um namorado a Dona Eulália, ela haveria de adorar. Já viuvara duas vezes. E acabara com o terceiro namoro nem faziam dois anos da última viuvez. A idade dela? Setenta e três anos. Uma viúva fogosa como a rapa da peste.

Ah, a agenda com o telefone do amigo ela o encontrara, enfim. Estava no meio de umas tralhas. Ligou para o amigo. E este lhe disse que tinha visto Dona Eulália, que ele a conhecia, tomando café numa livraria, acompanhada por um garotão malhado, cheio de sacolas de loja de grife masculina. Virou moda. Para Dona Catarina, só faltava mesmo a bengala, que Dona Eulália haveria de receber. “Fogo de viúva quando reacende, não há cristão que apague”, dizia sua velha mãe. “Vôte!”, digo eu.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 24 e 25 de maio de 2015.
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
20/05
14:29

A revolta das almas

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Valdemar de “seu” Tonico do Beija-Flor dos Gravatás, povoado perdido nos confins do Raso da Catarina, mas desde meninote morador nas Fontinhas do finado Juca do Caípe, começou a construir uma casinha encostada ao cemitério, no tempo em que a morada dos mortos era isolada. Hoje, não. É arruado por todos os lados. Virou área nobre. Mas até a década de 1970 não era assim. Pois bem. Valdemar era fraco de bolso e contou com a ajuda do prefeito de então e de várias pessoas. Levantou a casinha de pé direito baixo como eram as casinhas de pessoas desendinheiradas. Uma varandinha, um quarto, uma pequena sala e uma cozinha. No lado de fora, um banheiro, para tomar banho de cuia, pois ainda não havia água encanada por ali. Sanitário? Nem pensar. Valdemar atendia as necessidades fisiológicas como podia. O número dois ele o fazia sobre papeis de jornais, que ele os pegava, depois de lidos, com “seu” João da Farmácia, para quem trabalhava, e que era assinante de um diário da capital, que os Correios entregavam com três dias de atraso. Fazia o serviço e jogava o embrulho por sobre o muro do cemitério, no frescor da madrugada, antes que a cidade acordasse. Ele ficou useiro e vezeiro em tanger pacotes. Defunto não acordava. Defunto não sentia o fedor do número dois de Valdemar. Ah, mas Vardo, o coveiro, sentia. Ele e Zefa, sua mulher, que o ajudava no zelo das catacumbas e das covas rasas. Aliás, o cemitério, no tempo deles, era de dar inveja a casas de ricaços, no que se referia à limpeza. Um brinco! 

Toda manhã, Vardo se deparava com o pacote do número dois. Quem estaria tangendo aquela defecção todo dia, fizesse chuva ou fizesse sol? Ocorre que Valdemar, para que dele não desconfiassem, tangia o “bolo” fora do limite de sua casa. Ele o tangia na quina, vizinha ao terreno de “seu” Juca. Ora, quem faria aquilo? Não se poderia saber. E assim ele continuou fazendo por semanas a fio. Defecava, empacotava e tangia para o outro lado. Uma atitude merecedora de toda reprovação. Sobre todos os sentidos.

Vardo, o coveiro, praguejava e limpava a sujeira, pois o “pacote” se desmanchava no chão limpinho, às vezes se espatifando sobre covas e catacumbas. Os defuntos eram desrespeitados em sua “dignidade defuntosa”, como dizia Vardo. Pobres defuntos! 

É evidente que em face da ocorrência diária, Vardo desconfiava que o artífice de tamanha porcaria, seria mesmo Valdemar de “seu” Tonico. O sujeito morava sozinho e ao redor dele ninguém mais morava. Mesmo tangendo o número dois a partir da quina, fora dos limites de sua casa e de seu quintal, não poderia haver outro suspeito. O problema era que Vardo não se dava com ele, por causa de um entrevero ocorrido no Bar Cana, de Edmundo Leite, no qual Vardo trabalhava nos momentos de folga. Bate- boca besta por causa de uma conta. Ficaram sem se falar. Por essa razão, Vardo não tiraria a situação a limpo com o desafeto. Mas tudo tinha o seu tempo. 

De tanto limpar a sujeira diária do número dois, ali jogado, Vardo tomou a decisão de pôr cobro àquela sem-vergonhice. Como ele faria? Bem. Numa noite de verão, o mormaço do dia penetrando na noite estrelada, o orvalho dando de beber às bem cuidadas plantinhas que adornavam algumas catacumbas e algumas covas rasas, as fazendo florir, Vardo resolveu pernoitar no cemitério, perto da quina receptora dos pacotes. E assim ele o fez. Gozou do silêncio de morte daquele lugar que ele zelava como ninguém o poderia fazer melhor. Protegido do sereno, que lhe poderia trazer um resfriado, ele fumou um sem-número de cigarros de fumo bruto, comprados na bodega de “seu” Jove. Fumo do bom, que fazia o mel escorrer pelo canto da boca. Cigarro pé duro enrolado por Dona Júlia de Tonho Miúdo, na estrada do João Ventura para o Gonçalão. 

O coveiro não pregou o olho. Ouviu grilos e rãs chamadoras de chuvas. Estavam próximas as trovoadas. Acolá, um cachorro ladrava. Por todo lado, galos cantavam. Um puxava o canto e outros respondiam. Uns cantavam bem perto, outros muito longe. Cantavam em cadeia. Cada um queria dizer alguma coisa. Enfim, todos diziam a mesma coisa. Lá pelas tantas, Vardo ouviu o baque. Ploft! O pacote espatifou-se. Mais que depressa, ele esgueirou-se sobre o muro baixo e viu o vulto de Valdemar dirigir-se lentamente para casa. Era ele, sim. E não poderia ser outro. Confirmada estava a suspeita do coveiro zeloso. Agora, era pensar no que fazer, numa artimanha, para desmascarar o sujão nojento. 

Vardo, então, contou o sucedido a uns vizinhos e amigos, todos com entes queridos dormindo o sono eterno. Juntaram-se uns doze sujeitos. Todos vestindo a túnica branca de penitente. Quem não a tinha, tomou de empréstimo. Uns poucos, dois ou três, pois a maioria saía na Procissão dos Penitentes, na Sexta-feira da Paixão. Eles não ficaram a noite toda de atalaia, como Vardo o fizera. Por volta das três horas da madrugada, todos se acharam no cemitério serenado. Acoitaram-se junto ao muro, mas em distância segura da destinação final do arremesso de Valdemar. O muro do cemitério era baixo, o suficiente para demarcar o território do campo santo e de eterno silêncio. 

No horário mais ou menos habitual, ali por volta das quatro e tanto, o baque. Ploft! Eis, então, que os sujeitos pularam o muro com as túnicas levantadas acima dos joelhos, para facilitar os pulos. Caíram de cipó em cima de Valdemar, que pensou que as almas dos defuntos tinham se revoltado contra ele. As “almas” deram nele, no tronco e nas pernas. Só pouparam a cabeça. Deixaram-no moído. Uma sova para jamais ser esquecida. 

Manhã de sol já alto na imensidão azul, manchada por uma ou outra nuvem, Valdemar dirigiu-se à farmácia para comprar um remédio que lhe aliviasse as dores e os inchaços. Domingos, que o atendeu, indagou: “Andou brigando, Valdemar?”. E ele narrou o ocorrido. Domingos ponderou: “Ora, Valdemar, o que você fez não era direito. Jogar sujeira nos defuntos!?”. Ao que Valdemar respondeu: “E por acaso é direito enterrar defunto com cipó nas mãos?”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 17 e 18 de maio de 2015.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/05
22:45

Tarde de “trevoada”

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Aos poucos, o vento lá em cima fez um ajuntamento de nuvens escuras. Elas vinham do Leste, tangidas do Oceano. Agruparam-se como se estivessem em assembleia. Talvez acertassem a hora de cair, de fazer chover sobre a terra ressequida, tão carente de água que escorresse sobre sua face e penetrasse em suas entranhas. Enfim, que lhe fecundasse. Primeiro, caíram uns pingos de água. Um aviso. Um cheiro forte levantou do solo em agonia. Era a primeira trovoada do fim do ano. Dona Lalá de “seu” Virgílio do finado Secundino gritou no quintal: “Mariinha! Ô Mariirnha! Venha cá me ajudar a catar essas roupas, que vai cair trevoada, minha filha!”. A “trevoada”, como ela dizia, estava chegando. O mundo escureceu de vez. As nuvens ainda confabulavam. Parecia que umas diziam: “É agora!”, ao passo que outras respondiam: “Tenham calma!”. Cá embaixo, Dona Lalá, avexada, e todos mais aguardavam a pancada d’água. As notícias corriam pelo rádio, que o aguaceiro já estava caindo em várias cidades. Algumas, na Cotinguiba, estavam alagadas. Chuvarada de tinir.
 
Uns riscos no céu. Uns estrondos de lascar. Trovões e relâmpagos traziam a “trevoada”. Ou a “trevoada” os traziam? Minha avó Lourdes correu a cobrir os espelhos. Desligou o rádio. Era o medo de que um raio caísse. Com pouco tempo, as torneiras do céu se abriram com vontade. Era água grossa. “Parece até um dilúvio!”, gritou minha avó, assustada. Nas valetas da rua a água descia num torvelinho só, tomando a rua de ponta a ponta. Aliás, não eram valetas, era um ribeirinho recém-formado, descendo em direção ao açude. Nas telhas, a água tilintava. As biqueiras faziam-se pequenas cachoeiras. O fogo do céu cortava os ares, fazia piruetas serpenteadas. E os anjos com suas trombetas e tambores faziam festa no céu. Era o que dizia Dindinha Carminha. Festa no céu! E eu me perguntava se os anjos não tinham outro modo de fazer suas festas sem assustar as pessoas. Era cada estrondo, que fazia estremecer a cristaleira de minha avó. Eu não sabia para que tanta brabeza dos anjos. Seria raiva que eles tinham das pessoas? Porém, no catecismo, na escola, a professora ensinava que os anjos eram espíritos puros de Deus. E por que Deus deixava os seus anjos fazerem tanta folia? Eu não entendia. Mas, eu não tinha medo dos trovões. Ao contrário, gostava dos estrondos. Só não entendia porque os anjos os produziam assim com tanta raiva. E os relâmpagos? Eram mais do que bonitos. Eu os espreitava por uma fresta da janela. Vovó não permitia portas e janelas abertas, nas “trevoadas”. E se um raio buliçoso tivesse a veneta de entrar porta ou janela adentro? Era um perigo mortal! 

A chuvarada continuou sua pesada cantilena. O quintal não deu vencimento a tanta água. As galinhas já tinham corrido para o poleiro, debaixo da mangueira espada. Os bacorinhos pareciam sufocados pelo aguaceiro. Mas os patos danavam-se a grasnar, nadando para lá e para cá. Para eles, era uma festa. 

O ribombar dos trovões era sequenciado. Primeiro, um estrondo maior. Depois, um longo estalar sequenciado. Prummmm! Praparapapá... Em casa, todos calados. Fazia mal conversar ao cair de “trevoadas”. Vovó recolheu-se ao quarto. Pôs-se diante do nicho de seus santinhos, a orar. Orou para Santa Bárbara amenizar o furor da “trevoada” e para Santa Clara fazer clarear o tempo. Ao que parece, vovó entendia que chegava de chuva. Mas, meu avô sempre dizia que chuva era sempre bem-vinda, desde que viesse em paz, que não desmantelasse as casas dos mais pobres, que eram casas de sopapo, de taipa. Aquela chuva, porém, uma hora depois, já era demais. As orações de vovó haveriam de ter bom efeito. Deus haveria de fazer parar a festa de seus anjos. Eles estavam mesmo danados. E anjos ficavam danados? E eu lá sabia dessas coisas! 

Ora, as preces de minha avó não estavam sendo ouvidas. Ia-se ver, ela não estava rezando com muita fé. Ela precisava apressar a ave-maria e o padre-nosso. Era o que se chamava de rosário apressado. Rezar de carreirinha, ligeiramente, quase atropelando as palavras. Nos meus oito anos, eu não entendia direito a lição da professora: como era que a água subia dos rios e dos mares e se sustentava lá em cima, para, depois, cair, às vezes assombrando o mundo, como naquele momento?  

Teria mais gente rezando, além de minha avó, para fazer as chuvas darem uma trégua? O padre Miguel também rezava? Para mim, o padre deveria ter umas rezas mais fortes que as de minha avó. Sabia-se lá. O certo era que a chuva continuava no mesmo tom. Os trovões e os relâmpagos também. As águas carregavam muita bagaceira. A rua de minha avó era de chão batido. Haveria de ficar um lamaçal da desgraça. O açude não comportaria tanta água. O sangradouro do trampolim botaria jatos de água com mais de um metro de altura, fazendo o riacho, que ali nascia, lamber suas margens, pular para fora delas, arrancar cercas e até carregar animais desatentos. Uma vez, o vizinho de terras de avô perdeu um bezerro, que as águas do riacho carregou para longe. O bicho apareceu morto no terreno de “seu” Oscar, na Caiçara. 

Enfim, após mais de uma hora e meia de dilúvio, a “trevoada” serenou. Os trovões e os relâmpagos foram amainando. Tomaram outro rumo. Subiram para o sertão. Foram se danar noutras paragens. Levaram as chuvas para outras terras sedentas. As orações de minha avó deviam ter ajudado. Da janela, que vovó permitiu que eu abrisse, vi a água descendo com força. Garranchos e até peças de roupa miúda eram arrastados. Sapos pulavam no terreiro. Desentocaram-se. No tempo seco eles sumiam. Mas, bastava uma chuvinha de nada, e eles apareciam, pulando. E tinha cada cururu grandão!  

Meu avô Dioclécio não tardou a chegar do pasto. Como eu previa, ele disse que a cheia do açude fez do sangradouro do trampolim uma cachoeira. Imaginei o aguaceiro descendo pelos degraus de cimento, feitos no fim dos anos 1930. Uma notícia triste, muito triste, meu avô nos deu. A bezerrinha da vaca Mimosa foi apanhada pelo riacho e sumiu. Era uma linda bezerra branca, que eu dava de comer na mão. Quase desmamada, ela gostava de palhas de milho verde lambuzadas com cabaú. Era a minha bezerra, que vovô me deu assim que ela nasceu. Perdi a minha bezerra. Chorei. 

Não tomei café naquela noite. Chorei como um desvalido. Meu avô disse que, no dia seguinte, iria procurar a bezerra. Quem sabia se ela não conseguira escapar da fúria das águas do riacho? Minha avó, para me consolar, disse que compraria outra bezerra para mim. Não tive consolo. Eu queria a minha bezerra branca, a que comia em minha mão. Dindinha, que gostava de me azedar, disse, então, que a minha sorte era curta. Por isso a bezerra fora carregada pelas águas. Diante da constatação fatídica de que minha sorte era curta, meu choro só fez aumentar. De meus olhos as lágrimas caíram em cachoeira, como as águas descendo pelos degraus do trampolim do açude. Aos oito anos, eu não passava de um menino de sorte curta. Aquilo, para mim, soou de forma terrível, como terrível fora aquela tarde de “trevoada”. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 10 e 11 de maio de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
26/04
18:58

Implante capilar

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

O causo eu conto como o causo se deu. Alguém já disse isso. E eu digo o mesmo. Afinal, causos não são criados. São contados. Às vezes, claro, com umas pinceladas de verniz, para lustrar o dito cujo. Vernizinho de avaluemos, coisa de pequena monta.

Antônio Aurelino de Bastos Pereira. Eis o nome do suplicante. Boêmio, tocador de violão, namorador, deu-se mal por ter dado em cima de uma jovem senhora há pouco casada, porém sibite como ela só. O maridão, desses de pança de barril, sujeito sebento, mas brabo que nem caninana soube do arrastar de asas de Totoinho, como era chamado. Aliás, Totoinho de Zé Leleco. Zé Leleco era o pai. O maridão correu dentro de Totoinho de revólver em punho, no bar de Euvaldo. O tocador de violão escapou, e pernas pra que as quero, papocou no oco do mundo. Bandeou-se para o Rio de Janeiro, onde morava uma irmã, que trabalhava na TV Rio. Ih, faz tempo! Na Cidade Maravilhosa, Totoinho andou tocando em barzinhos, em cabarés da Lapa e, assim, foi-se fazendo como instrumentista, até chegar ao Cassino da Urca. E o danado era bom mesmo. Fez carreira e amizades. Por lá recebeu em santo matrimônio uma jovem, filha de um coronel do Exército. Logo, veio o golpe militar e o coronel subiu a general. O sogrão tornou-se um dos milicos da chamada linha dura. Àquela altura, Totoinho já tinha se endireitado na vida. Não era mais de aventuras amorosas, ao menos do conhecimento da mulher e do sogro general. 

Ditadura é ditadura, embora alguns incautos, dentre eles jovens, que não sabem nada dos tempos de chumbo, gritam pregando a volta do regime da tortura e do escambau. O sogrão general conseguiu uma colocação para o genro artista numa empresa do governo. Lá ele fez carreira. Mudou para Brasília e acabou como técnico do Senado. Ele se aposentou anos depois que o general já tinha batido os coturnos e um pouco depois que os milicos voltaram para a caserna. Aposentado, voltou para o Rio, onde moravam três de seus filhos. Pai de cinco filhos e avô de oito netos, Totoinho viu, para o seu desespero, a mulher, Dona Quitéria, ser vencida pelo câncer. Às vezes, o tempo e a convivência moldam as pessoas. Totoinho moldara-se à vida de casado, aos rigores da mulher, que comandava a família com pulso firme. Sentiu-se desamparado. As portas para novo casamento estavam abertas e pretendentes não faltavam. Todavia, Totoinho não se aqueceu para novo matrimônio. Andou macambúzio por uns tempos. Os filhos e as filhas pouca assistência lhe davam. Andou pelos cantos da casa. Mergulhou em depressão. Socorreu-lhe um médico amigo, morador no mesmo prédio, na Rua Barata Ribeiro, esquina com a Rua Paula Freitas, em Copacabana. 

Refeito da depressão, criou novo ânimo para a vida e começou a cuidar-se. Dentre os cuidados, procurou um dermatologista, para fins de rearranjos capilares. A vasta cabeleira da mocidade dera lugar à calvície. Acertou para fazer um implante capilar. Os cabelos grisalhos ganhariam um reforço. E ganharam. Não é que a cirurgia estética foi de lascar? Milhares de fios implantados com extrema perícia. A cabeleira de outrora parecia ter voltado, quase completamente. Os fios implantados em nada diferiam dos fios naturais. Grisalhos por grisalhos. E a cirurgia não foi paga pelo Senado como outras o foram. Totoinho, ou melhor, o novo Totoinho começou a frequentar uma academia, na Av. Nossa Senhora de Copacabana, pertinho de casa, entre as Ruas Siqueira Campos e Figueiredo de Magalhães. Fez novas amizades. De uns tempos para cá, os filhos e netos passaram a procurá-lo com maior frequência. Família, enfim, feliz. Faltava-lhe uma companheira. Os filhos incentivavam.  

Eis que, numa tarde, na Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, centro do Rio, degustando os famosos acepipes ali servidos, que já encantaram Deus e o mundo, incluindo-se a rainha da Inglaterra, ele conheceu uma mulher encantadora, que lhe causou rebuliço no coração carente de aconchego. Coincidência: ela era de Aracaju. Conversaram. Trocaram amabilidades. Trocaram telefones. Jantaram na noite seguinte. Casaram-se três meses depois, na Igrejinha do Santo Antônio. E Totoinho retornou ao seu Sergipe, que ele jamais esqueceu, pois nordestino da gema não se esquece do seu pedaço de chão. Ele era apaixonado por praia. A orla da Atalaia lhe cativou. Os bares da Sarney, a água quente de nossas praias, tão diferentes das águas das praias do Rio, o forró eterno do Cariri, tudo isso aliviou a saudade do Rio. De vez em quando, ele e a nova esposa iam à cidade de suas duas paixões, além da família: o Flamengo e a Estação Primeira de Mangueira. Em baixa ou em alta, para ele o Flamengo e a Mangueira não tinham rivais. Ele sempre dizia, quando o Flamengo perdia um jogo: “O Flamengo não perde; apenas adia a vitória”. Fazer o quê? 

A nova esposa, Dona Francisca, que ele chamava Kika, era aposentada do serviço público, funcionária graduada que fora. Como ele, era viúva, porém sem filhos. A irmã dela, Dona Efigênia, também viúva, mas já pela terceira vez, os maridos, coitados, morreram todos de ataque cardíaco, era metida no espiritismo, embora só frequentasse casas não recomendadas pelos adeptos de Alan Kardec. Eram casas de pessoas que se diziam espíritas, mas que nada sabiam da doutrina kardecista, professando uma mistura de tudo, mas que resultava em nada. Assim era, por exemplo, Dona Anita Timbaúba, minha vizinha, católica de fachada e que levava a vida a tapear os incautos, dizendo-se espírita e “botando mesa”. Não era. Eu também não sou, ao contrário, sou católico, por convicção e não por convenção, mas respeito a todos de quaisquer crenças. Aos direitos dos outros se seguem os meus deveres. 

Ora, ocorre que Totoinho deu para ter umas visões noturnas. Uns sonhos meio doidos, uns pesadelos. Aparecia-lhe um senhor cadavérico, reclamando-lhe o que seriam seus. Dizia a visagem: “Vim buscar os meus cabelos”. Foram duas ou três semanas nesse batido. Totoinho, que, quando criança, tinha medo de almas penadas, entrou em parafuso. O que seria aquilo? Pronto. Dona Efigênia tinha a resposta na ponta da língua. Os cabelos implantados em Totoinho pertenceram a alguém que devia ter morrido. Daí os sonhos e pesadelos. O defunto descabelado viera reclamar o que lhe pertencera. O sujeito devia ter vendido ou doado os cabelos antes de morrer, mas, agora, buscava o que era seu, para ter descanso. Dona Efigênia pediu para abrir mesa, em uma das casas que frequentava. Foram umas três sessões, às quais Totoinho recusara-se a comparecer. Mas Dona Kika fora no lugar do marido. Nenhum contato, porém. Dona Efigênia argumentou que o espírito do antigo dono de parte da cabeleira de Totoinho somente faria contato no Rio de Janeiro, na clínica onde fora feito o implante. Dona Kika acreditou. Totoinho, não. De qualquer forma, os sonhos e pesadelos sumiram em pouco tempo. Alívio total.

Carnaval de 2013. Totoinho e Dona Kika foram ao Rio de Janeiro. Iriam à Sapucaí, para torcer pela Estação Primeira. No domingo, Totoinho amanheceu morto. Dona Kika quase morreu também ao vê-lo teso na cama, os olhos esbugalhados e uma expressão de horror no rosto. Na cabeça faltavam os cabelos implantados.  

O causo eu conto como o causo me foi contado. Sem mais nem menos. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 26 e 27 de abril de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
19/04
10:32

Pedrinho Bunda de Fora

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS


O causo se deu nos tempos das touradas armadas na Praça de “seu” Juca do Caípe, hoje Praça José Barreto de Souza, situada entre a Praça da Matriz e a Rua Petronilho Menezes Cotias, a rua que leva à cidade de pés juntos, ou seja, ao cemitério municipal. 

Nossa Senhora das Dores é terra de pecuária. Depois do ciclo do algodão, que o município produziu muito e de boa qualidade, o gado bovino de corte voltou a imperar. Cidade apropriada, pois, para a realização dos espetáculos de touradas, que alguns abominam. Nos meus tempos de menino, destacava-se o toureiro Geraldo Sem Medo, que, andava e girava, acabava aportando em Dores para uma temporada de algumas semanas. Outro toureiro de quem eu lembro o nome era Didi Power, baixinho e destemido, tal e qual Geraldo, que era alto e magro. Geraldo, todavia, era o rei das touradas e acabaria com um olho perfurado por uma pontada certeira. Os espetáculos geralmente ocorriam dos sábados às segundas-feiras. Em cada noitada, um fazendeiro cedia o gado. Alguns resistiam em ceder, pois, como diziam, e nisso tinham razão, o espetáculo machucava os bovinos. O fazendeiro que mais cedia bois para os espetáculos era o saudoso Juca Barreto, que, a bem dizer, era um sujeito de mão cheia. Cordato, risonho, amigueiro, diferia muito da maioria dos seus pares. Pena que morreu tão cedo! De ataque cardíaco. 

Eu também me lembro de algumas poucas touradas, antes, na Praça da Bandeira, hoje Praça Joel Nascimento, mas que o povo só chama Praça do Jacaré, porque, quando o prefeito Juquinha a urbanizou, entre 1969 e 1970, ali foi construída uma fonte ornamental e nela foi colocado um filhote de jacaré que acabaria sumindo. Uns dizem que o bicho foi surrupiado e passado à panela por um grupo de cachaceiros. Outros dizem que, numa noite de forte trovoada, a fonte transbordou e o jacaré ganhou o mundo. A verdade? Vai-se saber. Entretanto, a Praça da Bandeira, também chamada, outrora, Praça Mauricéa, era mais reservada aos espetáculos circenses. Ainda falarei sobre os circos.

Uma vez, e pelo que eu me recordo, somente uma vez, um toureiro foi morto. Pontada fatal. Boi azucrinado. Noite terrível. Espetáculo suspenso. Caixão roxo de João de Pucina devidamente providenciado. Mundo perigoso aquele das touradas. E perverso para os bois. Aliás, como esquecer, neste momento, “Sangue e Areia”, filme americano, lançado mundialmente em 22 de maio de 1941, do gênero drama, com duração de 125 minutos, dirigido por Rouben Mamoulian e com roteiro baseado na obra homônima de Vicente Blasco Ibáñez? No elenco, dentre outros, Tyrone Power, Rita Hayworth, Linda Darnell, Anthony Quinn e Alla Nazimova. Do ator Tyrone Power, talvez, foi tirada a alcunha de Didi, o toureiro que toureou por estas bandas. Bem lembrando, está em Aracaju, armado na vizinhança de um shopping, e após percorrer várias cidades do interior, inclusive Dores, o Circo Irmãos Power. Com eles, o patriarca Didi. Aquele mesmo dos meus tempos de menino. 

As touradas daquele tempo eram pobres em acomodações para os espectadores. Às vezes, as próprias cercas que separavam a arena improvisada do público eram frágeis. Teve ocasiões em que um ou outro boi conseguiu abrir uma brecha na cerca e invadir o local do público. Um Deus nos acuda! Tudo, porém, acabava em farra. Era uma gritaria danada. Enfim, o boi era controlado. Quando eu ia às touradas, por recomendação de papai, ficava no mais alto do “poleiro”, como eram chamadas as arquibancadas de touradas e circos, e que na boca do povo soava “puleiro”. Precaução para o caso de algum boi desejar cortejar o público. 

Em alguns espetáculos, notadamente às segundas-feiras, noites de casa cheia, alguns espectadores eram convidados para adentrar na arena. Não faltavam alguns corajosos. E, dentre estes, alguns tungados. Ou seja, truviluscos, meio-lá, meio-cá, queimados, quase chapados. Eram momentos de assanhamentos do público. E de temeridade para os convidados dos toureiros. Estes, porém, procuravam dar àqueles a devida cobertura. 

Numa noite de segunda-feira, a lua minguante minguando cada vez mais, parecendo uma tripa prateada manchando o céu, o parco serviço de som do espetáculo, uma boquinha de alto-falante engasguenta, convidou dois destemidos dorenses a adentrarem na arena, mostrando, assim, que “nesta cidade tem homens de coragem”. O primeiro a subir na cerca foi Pedrinho de “seu” Alonso da Cobra D’Água. Aliás, o povoado Cobra D’Água, desde 1920, por Lei estadual (a mesma Lei que elevou Dores à categoria de cidade, em 23 de outubro daquele ano), passou a chamar-se Floresta, mas há quem ainda pronuncie o antigo nome, como eu. Pedrinho estava sóbrio, até porque, ao que me constava, ele não bebia. Era um cabra novo, se muito com vinte anos de idade, magrinho de dar dó, presepeiro, de bem com a vida, vaqueiro de “seu” Aristóteles, na Caiçara, de onde meu avô materno carreava lenha no carro de bois, tendo Zé Luiz, meu primo, vulgo Sebinho, como chamador dos bois. Para quem não sabe e não é da roça, chamador de bois era o sujeito que ia à frente dos animais portando uma pequena vara. Na mesa do carro, como era nominado o lugar onde ficava o carreiro, este impelia os bois, cutucando-os com uma vara longa de ponta de ferro, o ferrão. Um suplício para os bois.
 
Muito bem. Pedrinho, com o indefectível pano vermelho nas mãos, aguardava a abertura da porteira e a entrada do boi na arena. Depois da morte do toureiro que eu mencionei lá atrás, a Prefeitura Municipal passou a exigir que os chifres dos bois fossem embainhados, sob pena de não liberar o local para armar a tourada. Era o poder de polícia administrativa municipal em ação. Diga-se de passagem, uma boa precaução. Isso não impedia, claro, que algumas bainhas se desprendessem dos chifres. Naquela noite, não se desprenderam, mas o boi preto deu com Pedrinho ao chão. Fez o cabra comer terra. Pedrinho rolou e, ainda beijando a areia, recebeu uma pontada nas nádegas. O boi, furioso, babando, o pegou de lado, mas metendo o chifre por debaixo da calça, exatamente na junção dos dois lados do bumbum, no que vulgarmente se chama regada. Não feriu. A ponta entrou na calça sem tocar a carne glútea. O boi levantou Pedrinho. A calça rasgou. Ele estava desprevenido por baixo. Pelado como viera ao mundo. E ficou com a bunda chocha à mostra. Os toureiros o socorreram. E o público, passado o susto, caiu na gritaria. Imaginem os leitores, como o pobre Pedrinho ficou, segurando a calça rasgada debaixo de estrepitosa gargalhada. Algum espirituoso gritou: “Cubra essa bunda seca, Pedrinho!”. 

E foi assim que o populacho dorense passou a apelidar o pobre rapaz de Pedrinho Bunda de Fora. Que coisa, hein? 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 19 e 20 de abril de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/04
16:14

Torrado no Pau Que Chora

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Sim, é isso mesmo. Pau Que Chora. Quem não é de Nossa Senhora das Dores não sabe o que é isso. Pois é um antigo lugarejo, hoje progressista bairro, que se esparrama no cruzamento da saída da cidade com direções a Capela e Nossa Senhora da Glória, ali onde tem um posto de gasolina, e adjacências. E por que Pau Que Chora? Ora, ali, como nos tempos idos, se situavam algumas casas de lenocínio, coletivas ou individuais, muita gente pensava que o “pau que chora” era outra coisa. Não era não. Dizem os moradores mais antigos que um sujeito aboletou-se para as bandas da Amazônia, no início do século XX, nos tempos do ciclo da borracha e por lá andejou por um magote de tempo, vencendo malárias e outros males. Voltou depauperado, mas trouxe uma lembrança dos dias amargos que por lá viveu: uma muda de seringueira. A árvore cresceu e o povo espantava-se porque a dita cuja “chorava”, quando lhe davam um talho. E ficou desse modo: Pau Que Chora. Simples assim. 

Tempo houve em que o Pau Que Chora era mal afamado. Quer por conta das casas de lenocínio, sendo o “Inferno Colorido” a mais famosa dentre elas, quer por causa das constantes cachaçadas, que, muitas vezes, geravam brigas e uma ou outra morte. Mistura explosiva: mulher de vida livre e cachaça. Barril de pólvora. É só riscar um “fofe”, que é como o povaréu pronuncia fósforo. Eh, linguajar arretado do raio da silibrina! Pois bem. Ali morava Maria Lindete, viúva do finado José dos Santos Malaquias, vulgo Zé Caxico, antigo pedreiro de mão torta e olho vesgo. Era porque as casas por ele levantadas – e ele as levantava numa rapidez nunca vista em lugar nenhum – dentro de poucas horas começavam a entortar. Com ele não tinha parede que entrasse no prumo. Era um diabo. Maria Lindete era conhecida por Lili, para os mais chegados, ou Sá Lili, para os mais distantes. Pessoinha pacata, vivendo da sua casa para a feira, e vez ou outra, quando um cego perdia um vintém, ela ia à Igreja, se a saúde lhe permitisse, pois era sempre atacada por um reumatismo danado, que lhe entrevava por dias e dias, especialmente no inverno. A friagem de junho a agosto às vezes lhe botava prostrada no catre. Um sofrimento, coitada! Sozinha, a única filha morava no Aracaju e pouca ligança lhe dava. Na janela da casa tinha quase sempre um frasco grande com uma cocadinha amorenada, que era de lamber os beiços. Daquilo mais ou menos ela vivia, tirava o sustento, ou parte dele. 

Ali também morava Gilson de Felismina de Tonico, antigo morador do Risca Faca, outro lugarejo nosso. Adoro os nomes dos nossos lugarejos: Acoita Manhoso, Galo Assanhado, Sarongongo, Cachorrinhas (hoje, Cachoeirinha), Penca da Orelha (hoje, Pega na Orelha) e tantos outros. Não sei por que mudam os nomes dos lugarejos e das ruas. Um absurdo! Tradição é tradição. Porém, “ortoridade” é sempre autoridade. Tire com um gancho. E Gilson? Eu vou deixar de lado, é? Que mania esquisita essa minha de começar a falar sobre alguém ou alguma coisa e, de repente, dar para torar de banda, torcer de lado, tirar o corpo fora, enrolando os meus pacientes leitores, mas que, com certeza, me lascam, ao menos alguns de bofes mais quentes. Não ligo não. Eu gosto de instigar as pessoas. É um defeito (?) que carrego desde os tempos de menino franzino, batedor de pernas nas bodegas do João Ventura, meu subúrbio, quando ouvia as lorotas dos homens que costumavam molhar a goela ao pé dos balcões. E eu anotava tudinho em velhos cadernos, alguns até hoje guardados. Dizem, contudo, alguns amigos, que certos causos eu os invento. E daí, se for verdade? Mas, sinceramente, invento não. O povo é que inventa. Eu só registro. Hum, já fugi demais do assunto que eu trouxe hoje. Mãos à obra, pois. Embora no meu tempo de menino, já ficando frangote, “mãos à obra” era outra coisa. Deixe pra lá. Voltemos ao Pau Que Chora, a Lili e Gilson. Vou logo esclarecendo que os dois não tinham nem nunca tiveram nenhum xodó. Isso não. A coisa é bem outra. Sabem os leitores como são as coisas no interior: uma conversinha daqui, outra conversinha dali e as coisas vão acontecendo, amiudando ou se avolumando, conforme sejam. Igualzinho às minhas enrolações nesses escritos domingueiros. Definitivamente, agora chega.

Algum dos leitores por “um se acauso”, como dizia meu avô Jonas, já tomou uma narigada de torrado, também dito rapé? Já? Ah, mas alguém, se é que tomou mesmo, experimentou o torrado de Mané Grande, pai de Juca Grande da Maria do Ó? Com certeza não experimentou. O torrado da tabaqueira de Mané Grande era, dizia-se nas Dores, um torrado de lascar o cano. Matéria de primeira qualidade. Um ou outro velhinho loroteiro dizia até que o produto era afrodisíaco. Vai ver que era mesmo. O que tinha de velhinho sibite naqueles tempos...! 

Já estou enrolando de novo. É uma mania desgraçada. Do começo ao finalmente é uma viagem de nunca mais acabar. Mas, prometo que agora eu chegarei ao fim. Gilson de Felismina gostava de atormentar as pessoas com ditos, apelidos e mangações. Toda vez que ele passava em frente à casa de Sá Lili, gritava: “Lili, tem torrado aí?”. A frase era a primeira estrofe de uma musiquinha ligeira do Rei do Baião, o velho Lua, que não é muito conhecida, mas é uma belezura de forrozinho agoniado, intitulada “O torrado da Lili”. A viúva Lili se atrepava nos tamancos, praguejando a não mais poder. “Seu fio duma égua, vá procurar o torrado de sua mãe”, bradava ela em resposta à gritaria dele. Não poderia haver cristã, por mais devota que fosse que aguentasse aquela chateação. Aliás, a letra da musiquinha, composta por Miguel Lima e Helena Gonzaga é assim: “Lili, tem torrado aí? / Me dê uma narigada / Que eu quero dormir (bis) // Eu tenho / Mas, porém não dou / Meu torrado é bom / Mas é de meu amor (bis) // O seu torradinho é bom / E o seu cheirinho / Logo se destaca / O mais difícil / É arrumar o fumo / Fumo de rolo de Arapiraca”. O difícil era, pois, arrumar o fumo de rolo de Arapiraca. Mané Grande arrumava. E do bom. 

Um dia, quando Gilson perguntou se Lili tinha torrado, ela tangeu nele um pinico de mijo, que lhe banhou cabeça e tronco, escorrendo pelas calças de brim Coringa. Surpreso e sem ação, ficou Gilson mijado no meio da rua de chão batido, a vizinhança rindo em altas e compridas gargalhadas. A inhaca mijenta entrando de ventas adentro, se é que não entrou também na boca porca. E o pacote de pães comprados na bodega de João de Aurelino, que ele ia comer no café da manhã com a família? Pão com mijo? E, ainda por cima, mijo de viúva, dormido, ou seja, mijo da noite anterior, guardado debaixo da cama até o sol abrir o olho. Sá Lili preveniu-se, deixou a vasilha infame à mão e ficou postada na porta, à espera do gracejo diário do vizinho chegado a bolodórios. E tome-lhe mijo nas fuças. 

Passado o susto, Gilson quis dar de cipó caboclo na pobre senhora, já que ele não se apartava de um cipó de bom valimento. Mas, aí, ele se estrompou. A vizinhança, que dele riu à larga, tomou as dores de Sá Lili e um ajuntamento de homens e mulheres o botou pra correr. Mijado e desmoralizado, nunca mais ele tomou subacada com Sá Lili, nunca mais ele perguntou se ela tinha torrado. Imaginem os leitores, uma viúva de respeito, dar-se ao desfrute de fazer uso de torrado de fumo de rolo de Arapiraca! Não convinha. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 12 e 13 de abril de 2015


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/04
14:55

Pinico de Ouro

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Quem, em sã consciência, que andejou pras bandas da boca do sertão, e do sertão mesmo, pros lados dos tabuleiros e mais léguas, não se lembra de Pinico de Ouro? Sujeito falador, que xingava todo mundo com ou sem motivo. Era o jeito dele. Todavia, era de fino no trato com quem ele se dava. Tangedor de tropa de burros de carga nos tempos em que caminhão era coisa rara. Um ou outro rodavam pelas estradas de chão batido, poeirão avermelhado levantando no verão. E lama da mesma cor espanando no inverno. Ladeiras difíceis de subir. Mas, nenhuma se comparava à ladeira dos Cinco Paus, entre Dores e Siriri. Quantos acidentes! Pois bem. As tropas de burros estavam com os dias contados nos tempos de Pinico de Ouro, mas ainda tinham um fôrgozinho, isto é, um folegozinho. Eu gosto mesmo é do linguajar bruto do povo. Linguajar que soa bonito. Errado? Que o diga o poeta Manuel Bandeira, um dos maiorais da poesia deste país, ultimamente tão carente de maiorais noutros campos e noutras artes. O que andeja por aí é um bando de minorais. “Te arrenego, gota serena da peste!”, como bem diria Pinico de Ouro. Mas por falar no linguajar do povo, disse Bandeira, no poema “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”. E eu, embora professor desde os 18 anos de idade, adoro ouvir as falas do povo, as distorções linguísticas e assim por diante. E o que dizer do sotaque sergipano, arrastado, cantado a não mais poder? Eu sou um sergipano genuíno. Interiorano. Suburbano. E tento escrever macaqueando o linguajar do povo de cujo seio eu não passo de um fruto mais ou menos peco. 

Algum leitor deve estar dizendo: “Ih, começou a enrolar!”. Pois não é verdade? Eu quero falar sobre Pinico de Ouro e me bandeio para falar do linguajar arretado do povo e da poesia brasileiríssima do grande poeta pernambucano. Isso, claro, é enrolação. 

Porém, deixe estar que eu vou me danar a falar de José Lourival Machado dos Santos, vulgo Pinico de Ouro. Eh, cabra azucrinado na medida! Sujeito avultado, como gostava de dizer Maria do finado Sinhô de Filomena. E por falar em Filomena, a velha Filó era a rapa da peste no pisado do samba de coco. Lembro-me dela. Da finada Juju de Manelão da Taboca, de Julinho do Catolé, de Mimita de “seu” Amaro de Zefinha de Tonha e de uma ruma de gente boa, naqueles já distantes festejos juninos dos meus tempos de moleque. Acabou. Tudo acabou. E eu, novamente, enrolando. Tenha calma, leitor amigo. Eu haverei de chegar a Pinico de Ouro, uma horinha dessas. É que eu dei de garra desse modo de sair por aí, dando uns tanjos no palavreado. Encomprido a conversa para ganhar tempo e assuntar o que dizer. Mania de quem tem a cabeça fraca, com os dois únicos neurônios prestáveis, os indefectíveis “tico” e “teco” se chocando, um batendo no outro e desalinhando os miolos. É uma agonia para mim.

José Lourival era Machado pelo lado da mãe, Dona Mariquinhas de Pedro do Candeal, e Santos pelo lado do pai, Valdomiro da Coitezeira, fazendola de boa água corrente, mas de uma terrinha carrasquenta da miséria, cheia de altos e baixos. Prestante mesmo só o baixio do riacho. Riachinho tísico no verão, mas que nunca deixou de correr. Da boca do sertão para cima, quem tinha água tinha grandeza. E assim continua. Rapazinho, mal tinha completado quinze anos, José Lourival danou-se para São Paulo, no pau-de-arara. Esse era o pau-de-arara salutar, ou quase. O outro, não. Muito nêgo bom sofreu nos porões da ditadura, sendo lascado nesse outro pau-de-arara. Tempos azedos, que tem gente com titica de galinha nos miolos pregando a sua volta. Haveria de dizer João Calisto, se vivo fosse: “Com fé em meu Padim Ciço, nunca mais!”. Arribando para São Paulo, José Lourival por lá passou bem uns dez anos. Voltou taludo. Um dinheirinho no bolso, que deu para comprar cinco burros de carga, tropa pequena, mas de grande presteza e serventia. Transportou de tudo: algodão, nos tempos de safras abastadas; melaço dos engenhos da Capela; cachaça do alambique Santa Cruz; sebo de boi derretido para a saboaria da Capela; sacos de milho debulhado de Glória e de Feira Nova; açúcar do Central. E por aí vai. Ou por aí foi. Enfim, cheguei ao máximo da enrolação. Vamos ao desfecho, que o caso é simples e deveria ser breve. 

José Lourival voltou de São Paulo com a boca cheia de ouro. Dentes de ouro em riba e em baixo. Quando ele falava e, mais ainda, quando sorria, que sorridente ele era por natureza, apesar dos bofes quentes, a boca facheava. Reluzia que nem o sol da manhã, numa manhã de céu limpo. O que havia de errado em José Lourival? A falação. O palavreado sujo. Os xingamentos. Era, contudo, o jeito dele. Não era má pessoa. Não pisava em ninguém. Não se dizia maior nem menor do que todo mundo. Era só loroteiro. Meio arrumado na vida, botou-se para uma filha de Tinoco do Baburubu. Não sei por que mudaram o nome do povoado para Bravo Urubu. Alguém já viu um urubu bravo? Eu não. Tinoco era um sujeito igrejeiro. Andava na cola da batina do Cônego Miguel. Não perdia missa, novena ou procissão. A filha dele, Maria Clara, tinha empacado. Era a mais velha dentre cinco irmãs, porque Tinoco era galo femeiro. E a filha estava no caritó. Nenhum homem botara os olhos nela. Ou ela rejeitara os que pisaram no terreiro de sua casa. Não sei ao certo. O certo mesmo foi que José Lourival engraçou-se dela. E homem quando se engraçava, não tinha jeito: sentava no tamborete na porta do pai da moça ou a carregava numa noite de galos cantando fora de hora. 

Tinoco, ao saber da pretensão de José Lourival, abriu a boca no mundo e disse que no batente dele não tinha lugar para um cabra que só dizia besteira, que era folozado de goela, que tinha, enfim, um pinico de ouro na boca. E que a boca suja do pretenso futuro genro só poderia ser limpa com água benta, na procissão do domingo da Ressurreição, quando Jesus venceu a morte. Maria Clara, todavia, queria deixar a donzelice atrás da porta. A Páscoa estava longe e ela não tinha tempo a perder. Não rejeitou a proposta do pretendente. Já ia completar vinte e sete anos. Dali a pouco já seria uma balzaquiana. Mulher de trinta, para quem leu o romance de Honoré de Balzac. Não teve jeito. Tinoco teve que engolir um genro de boca suja. E foi assim que José Lourival passou a ser chamado de Pinico de Ouro. Apelido sempre foi danado para pegar. Aquele pegou. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 05 e 06 de abril de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
29/03
16:09

Minha professora e o “Direito de Nascer”

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Pontualmente, às 8 horas da matina, a porta era aberta. Um pouco barulhenta, a meninada entrava na sala de estar, que se dizia varanda, e que era também a sala de aula. Sala caiada com uma porta e duas janelas, na cor azul. A sala era acanhada, mas abrigava alunos do ABC ao terceiro ano primário. Ali, eu fora alfabetizado. Passei pelo ABC, cartilha e primeiro ano. Passei com média 5,0 (cinco). Tendo passado arrastado, como minha mãe me disse, em conversa dura e séria, eu fui mudado de escola e obrigado a repetir o ano, para aprender que filho de minha mãe não deveria passar arrastado. Grande lição. Todavia, eu retornaria àquela escolinha pública municipal para cursar o terceiro ano, embora eu também estivesse matriculado noutra escola, à tarde. A professora recebeu-me de braços abertos. 

Muitas vezes, a professora interrompia os afazeres escolares para cuidar da cozinha, avivar o fogo no fogão a lenha, botar água no feijão etc. No inverno, como a lenha geralmente estava molhada, não raro a fumaça enchia a sala de aula. O abano e as próprias bochechas da professora eram os instrumentos utilizados para fazer a lenha pegar fogo. Assim também eram muitas escolas daquele tempo, na minha cidade e em tantas outras. O ano? 1965. 

A professora Maria Lídia de Lima sofria de uma doença degenerativa, que lhe causava atrofia progressiva num dos lados. Uma perna era mais curta. Ela caminhava com ligeira dificuldade. Cursara tão somente até o quarto ano primário. Por isso mesmo, só ensinava até o terceiro ano. Mas, que professora sublime! Como testemunho do que eu digo, tenho guardada a minha prova final daquele ano: Português, Geografia, História, Ciências e Matemática. Média Final 9,8. Cinquenta anos depois, eu me delicio admirando aquela prova. Não o meu rendimento, mas a sua elaboração, que era resultado do bom ensino ministrado. E como aquela professora franzina, frágil, doentia, ensinava! Que disciplina! E que desvelo! 

Solteirona, ela morava com a mãe, Dona Melânea, mas que, na boca do povo, era Dona Melonia, e a irmã, Enelde, que vivia de Aracaju para Dores e de Dores para Aracaju, onde moravam Carolina e Ester, as outras irmãs. Dona Melonia vivia atarefada na roça que mantinha no vasto quintal cheio de fruteiras e com uma ampla área para o plantio de feijão, milho, fava e mandioca. Família de católicas fervorosas. O irmão, André, morava pros lados de São Paulo. 

No recreio, que começava quando ia ter início o capítulo da novela radiofônica, que ela ouvia no radinho de pilhas, os meninos e as meninas se danavam na estrada de areia solta ou embaixo do pé de araticum que ficava em frente à escola, rente à cerca da malhada de “seu” Dadá do Queijo, meu tio-avô. A ninguém era dado ficar na sala de aula durante a oitiva da radionovela. Ninguém, a não ser eu. Que privilégio! Às vezes, eu ficava. Era que eu, aos dez anos de idade, auxiliava a professora, nas lições dos alunos do primeiro ano. Eu lhes tomava a lição da leitura soletrada e de “carreirinha ou por cima”. Passava contas e tomava a tabuada. Ela achava que eu levava jeito para ser professor. E eu pensava, sim, em ser professor, porém, para ganhar presentes, como as professoras daquele tempo ganhavam dos seus alunos, no último dia de aula. Como eu era ingênuo!

Um dia, ao voltar da cozinha, a professora portava um pano sujo de carvão, o chamado pano de fundo de panela, ao ombro. Coitada! Esquecera-se de retirar o infeliz, provavelmente ao tirar a panela de feijão da boca do fogão fumacento. A turma caiu na gargalhada, que foi, de pronto, contida. Então, Dina, minha colega do terceiro ano, advertira a mestra sobre o pano. Ela ficou vermelhinha e retornou à cozinha para ali, no borralho, deixar o impertinente intruso. De outra vez, ela voltou da cozinha com uma mancha amarela na blusa branca, bordada a ponto de cruz, como ela gostava de usar. Sempre de blusa branca. A mancha parecia ser de caldo de carne frita. Novamente, Dina dera o aviso: “Professora tem uma manchinha na sua blusa”. E a professora: “Obrigada. Volte ao estudo porque senão a sua nota é que vai ficar manchada!”. Ela disse isso rindo. E nós rimos também. Dina ficou encabulada que só! 

Duas novelas eu lembro bem que ouvi na sala de aula: “O Direito de Nascer” e “O Egípcio”. A primeira arrancou muitas lágrimas da professora. E como ela fazia caretas ao chorar! Da segunda eu pouco tenho lembranças. Contudo, “O Direito de Nascer” era um novelão. Aliás, essa novela também ficaria marcada por conta de uma marchinha de carnaval (marcha-hully-gully), de 1966, composta por Blecaute e Brasinha, glosando o sucesso alcançado pela novela. Diz a música: “Ai, Dom Rafael / Eu vi ali na esquina / O Albertinho Limonta / Beijando a Isabel Cristina. // A mamãe Dolores falou: / Albertinho, não me faça sofrer! / Dom Rafael vai dar a bronca / E vai ser contra / O direito de nascer...”. A novela “O Direito de Nascer” foi produzida e exibida pelas extintas TV Tupi São Paulo e TV Rio, entre 7 de dezembro de 1964 e 13 de agosto de 1965, tendo 160 capítulos. E cujo áudio também foi exibido no rádio. Adaptação de Thalma de Oliveira e Teixeira Filho, com direção de Lima Duarte, José Parisi e Henrique Martins. Foi a primeira das três adaptações para a televisão brasileira da radionovela homônima do escritor cubano Félix Caignet.

Os bancos da escola eram daqueles compridos e sem encosto. Pobres de nós alunos! A espinha dorsal de cada um de nós haveria de sofrer, mais ou menos, alguns danos irreversíveis. Assim era a maioria das escolas municipais da minha cidade. Na classe multisseriada contavam-se uns trinta e tantos alunos. Do terceiro ano eram apenas três: eu, Jorge de tio Carivaldo e Dina de Joãozinho de Nila. A escola ficava na estrada do Gonçalão, que, hoje, se chama Rua Floro da Silveira Andrade, médico dorense, que faleceu em Fortaleza, como médico dos Portos, formado na Escola de Medicina da Bahia, no começo do século XX. Jornalista e autor de um livro sobre tema médico: “A irite e seu tratamento”. O único dorense a constar do Dicionário Biobibliográfico de Armindo Guaraná, que eu fui encontrar um exemplar em ótimas condições num Sebo de São Luiz do Maranhão. Bom. Isso é outro assunto.

Naquele tempo, era comum a escola funcionar na casa da própria professora, que, além do minguado salário, percebia o aluguel. Era uma “intera”, no linguajar do povo, isto é, um valor que servia para inteirar o salário. Ah, como esquecer as sabatinas? Eu adorava. E gostava de dar bolos nos outros, que erravam as respostas às perguntas formuladas pela professora. Eu nunca errava. Não que eu fosse inteligente ou muito estudioso. Eu era apenas esforçado. Entretanto, eu era meio perverso: batia nos dedos, e não na palma da mão. E aquilo doía à beça. Um dia, percebendo a minha malandragem, a professora Lídia me deu uns bolos na mão esquerda, para que, segundo as suas palavras, eu aprendesse a bater. Aprendi. Fácil, fácil... 

No fim do ano, ela enfeitava as provas com um cartãozinho de Boas Festas, comprado na loja de “seu” Humberto ou na de Dona Olga de “seu” Manoel José. A primeira, na Praça da Matriz, e a segunda na Praça do Comércio. Além do cartão, o indefectível laço de fita verde-amarelo. Este não podia faltar. E não era por causa da ditadura, não, como os esquerdizantes poderão pensar. Quando eu fui seu aluno, entre 1961 e 1962, também foi assim. Era uma forma inocente de afirmação da brasilidade, tão pouco cultuada nestes tempos eticamente bicudos que, hoje, vivemos. 

Eu sou fruto de uma escola antiga, de ensino tradicional, sem recursos didáticos, disciplinadora, mas que ensinava muito. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 29 e 30 de março de 2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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