01/03
11:38

Quem matou Zé Marmelada?

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS


Não fui eu. Vou logo avisando. Eu não fui nem suspeito remoto. Até porque eu só tinha 10 anos de idade quando ele morreu. Apareceu morto no quintal da casa, afastada e desocupada, de Tibúrcio do Amarante, com um sorriso discreto nos lábios. Morto sorrindo? Mangando da cara dos bestas? Pois foi. Assim mesmo. Taí uma situação que nunca me saiu da memória. Lembro-me como se fosse hoje. O sol ardendo no início de uma tarde de dezembro, bem pertinho do Natal. Foi um alvoroço danado ali no subúrbio Tabaquinho. Gente como formiga em correição queria ver o morto. Ou melhor, o sorriso do morto. Eu nunca vi um defunto tão visitado por causa de um sorriso. Sorriso mais enigmático do que o da Mona Lisa. “Ô Pedrinho Pirulito, você que é um sujeito andado e amolengado, diga-me cá uma coisa: você já viu um defunto com um sorriso misterioso como Zé Marmelada? Seja sincero!”. E Pedrinho respondeu na bucha: “Bem. Eu acho que não. E ainda por cima, um defunto que foi defuntado, que foi assassinado... Nunca vi não”. Assassinado, se é que foi, mas sorridente. Não tinha explicação para tal sorriso.

Antes que os leitores e as leitoras fiquem impacientes comigo, vou logo dando o serviço sobre quem era Zé Marmelada. Era José Simplício das Neves Pereira, filho de Pereirão das Porteiras, este, filho, neto e bisneto de bons e afamados dedos no gatilho, e de jamais negarem fogo. Mas isso foi nos tempos de muito para trás. Zé Marmelada não puxou aos seus ascendentes. Nunca sequer possuiu uma arma de fogo. Era um cabra do bem. Fiscal da Prefeitura. Viúvo sem filhos. Rezador em sentinelas e novenas. Amigo e companheiro em partidas de gamão do padre Fonsequinha. Os dois eram os maiores campeões da cidade naquela modalidade de jogo de tabuleiro. Pronto. Dei o serviço. Eu hoje não estou para enrolar, não. Quer dizer, não estou para não enrolar muito. Deus seja louvado, agora e sempre!

“Ah, mundo ingrato! Ah, mundo velho enganador!”, costumava dizer Zé Marmelada, quando alguma coisa desandava para ele ou para algum conhecido. Se o mundo pode ser ingrato com algumas pessoas, ou a vida pode sê-lo, eu não estou certo. Mas, se for, com certeza o fora com ele. Fora sim. Casado de novo, viu a mulher morrer de parto e a filhinha recém-nascida morreria oito dias depois. Ele não haveria de casar novamente. Viveria sozinho o resto de sua vida. E cuidaria com um zelo extremado da sepultura da mulher e da filha. Ele mesmo, com a ajuda de um parente, que era pedreiro, levantou a carneira azulejada, onde um dia também haveria de repousar.

Algum leitor ou leitora acha que eu estou enrolando? Se por acaso acha, desculpe-se. Não estou não. Só estou querendo situá-los no contexto da vida e da morte de Zé Marmelada. Ah, lembrei-me agora de explicar como José Simplício adquiriu a alcunha de Zé Marmelada. Quando era menino, ele gostava de jogar bola, de bater uma peladinha no campo improvisado de chão duro lá no Tabaquinho, que, por oportuno, eu informo que agora se chama Loteamento Grandeza. Toda vez que ele se sentia lesado numa jogada, que o juiz improvisado não marcava nada que lhe favorecesse, ele berrava: “Marmelada!”. Pronto. Ficou Zé Marmelada.

No peito de Zé Marmelada, um tiro. Um furo na camisa branca manchada de sangue. Um discreto filete de líquido vermelho e viscoso escorreu pela camisa. Por baixo da camisa, porém, o filete era enorme. Uma poça de sangue formou-se no chão, ao lado esquerdo do defunto sorridente. Intrigante sorriso. A polícia, que naquele tempo, ou seja, há 50 anos, não tinha preparo técnico nenhum, mas era diligente, principalmente naquele momento em que o delegado era o tenente João Bispo, jovem talentoso, que se tornaria coronel e comandante da Polícia, e que não descansou para tentar esclarecer o caso. Quem teima em ler os meus pobres escritos domingueiros deve estar ansioso para saber quem matou Zé Marmelada. Chegarei lá.
O delegado João Bispo ponderou os fatos. Colheu alguns dados. Analisou a cena do crime. Ouviu depoimentos preliminares, antes de abrir o inquérito. Mandou recolher o corpo, levando-o à sala do distrito sanitário municipal, sob os protestos de familiares do morto. Afinal, quem aquele delegadozinho pensava que era, para impedir a família, irmãos e sobrinhos, de prantear o defunto, de cuidar do corpo? Nenhum delegado, pelo que o povo se lembrava, jamais fizera aquilo. Apesar das contrariedades familiares, e do disse-que-disse do povaréu, o jovem tenente encarregou o farmacêutico Juvêncio de fazer o laudo de exame cadavérico. O laudo saiu. Aparentemente, nada que pudesse esclarecer aquele assassinato. Ou suposto. A única evidência: o tiro fora desferido à queima roupa. Não havia recursos técnicos que pudessem elucidar o caso. Só restava mesmo liberar o corpo para o velório e o respectivo sepultamento. A sentinela foi muito concorrida. Zé Marmelada era muito bem quisto. Além disso, rezara em incontáveis sentinelas. Era chegada a sua hora de receber as rezas, as excelências, que, na língua grossa do povo, eram ditas “inselenças”.

A morte de Zé Marmelada não foi desvendada. Nenhum indício. Nenhum suspeito. Nada. O delegado encerrou o inquérito e o encaminhou ao Fórum. Todavia, não se deixou convencer daquele suposto homicídio. O padre Fonsequinha confidenciara ao delegado que Zé Marmelada andara apreensivo com alguma coisa. Algo parecia lhe afligir. Mas, embora tentasse algumas vezes, ele não conseguira arrancar nada. Uma sobrinha do morto tivera a mesma impressão. Nada além daquilo. O delegado não tinha elementos para pedir a reabertura do inquérito. Um ano se passou.

Na noite da missa de um ano, o caso seria, enfim, desvendado. Zé Marmelada jurou diante do cadáver da mulher, a quem ele amou como se deve amar a pessoa com quem se partilha a vida, que jamais amaria outra mulher. Nenhuma outra tocaria as cordas invisíveis do seu coração. Para nenhuma outra ele colheria rosas orvalhadas no seu pequeno jardim. Dos lábios de nenhuma outra ele haveria de colher mel, como colhera dos lábios de sua amada. E assim ele o fez. Nunca mais olharia para outra mulher. Contudo, nos seus últimos meses de vida, ele esteve a ponto de quebrar a jura. Estava de cabeça virada por causa de Ana Flora, sua vizinha novata. Uma tentação. Aquela morena azucrinava a sua cabeça e o seu coração. Ele entrou em apavorante angústia. Não poderia quebrar a jura de amor eterno. Escreveu uma carta. Pediu ajuda ao compadre Salvador a quem entregou a carta com uma recomendação. No quintal da casa vazia de Tibúrcio, que se mudara para a capital, ele deu cabo da própria vida, usando um abafador improvisado para abafar o estampido do tiro do revólver recentemente adquirido para aquele fim. Usou luvas para não deixar resíduos de pólvora. O único tiro que dera fora para tirar de sua vida a angústia e o tormento. Para tirar a própria vida. Antes, o compadre não conseguiu lhe demover. Mas, cumpriu o prometido, que era desfazer os indícios do suicídio, para que o padre Fonsequinha pudesse celebrar a missa de corpo presente, pois suicida não tinha direito a esse regalo espiritual. Ele não queria que a sua alma penasse na escuridão. Salvador entregou a carta ao padre, logo após a missa de um ano, no confessionário. Pela letra, o padre confirmou a autenticidade da carta em que Zé Marmelada confessava o suicídio que iria perpetrar. Salvador não fora cúmplice do suicídio. A carta era clara. O padre não podia fazer nada. Recebera a carta em confissão. Caso encerrado.

(*) publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º e 2 de março de 2015


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/02
12:37

Os imbecis, Jackson Barreto e a política sergipana

José Lima Santana
Professor do departamento de Direito da UFS 

Um exaltado suposto eleitor do senador Eduardo Amorim, nas últimas eleições, embora, em 2006 e em 2010, esse exaltado tenha votado em Marcelo Déda, de saudosa memória, fez-me uma reclamação em face do artigo “Depois do carnaval, a administração de JB já será velha”, publicado aqui no Jornal da Cidade, edição de 01 e 02 deste mês. O exaltado disse que eu peguei leve contra Jackson Barreto. Ora, eu tinha que pegar leve ou pesado? Nem uma coisa nem outra. Eu escrevo o que eu quero sem dever favor ou desfavor a ninguém. Muito menos aos imbecis. Que isso fique claro. Alguns também não gostaram do último artigo “Nota 6 para João Alves Filho”. E eu com isso? Não escrevo para agradar ou para desagradar. Simplesmente, escrevo. 

Os imbecis estão em todos os lugares e, obviamente, em todos os lados da vida político-partidária em Sergipe, no Brasil e no mundo. Bem. É como eu vejo. Pois não é que um auxiliar do segundo ou do terceiro escalão – sei lá! – do governador Jackson Barreto, um desses que, na hora da bonança é tido como do tipo “segura-peido”, que lambe botas e arrasta o rabinho, como se fora um cãozinho de estimação, ou melhor, cãozinho de adulação (com todo o respeito aos cães), andou, numa roda de amigos, alguns dos quais também meus amigos, dizendo, de forma desgraçadamente suja que Jackson Barreto deveria me dar um “corretivo”, na DESO. O imbecil não sabe que, primeiro, como advogado da DESO, eu não deveria qualquer favor ou obediência ao Chefe do Poder Executivo, qualquer que fosse ele, quando se tratasse de minhas atividades não funcionais, como é o meu pobre ofício de escrever. E, em segundo lugar, eu fui advogado da DESO por 25 anos (1988-2013), tendo me aposentado em 1º de março de 2013, ao completar, ao todo, com acessio temporis, 40 anos de efetiva contribuição previdenciária. Esse sujeito deveria estar informado, para não dizer asneiras.

Pois bem. Permitam-me os editores deste matutino e os leitores, informar ao desavisado lambe-botas, que eu tenho pelo governador Jackson Barreto o mais profundo respeito. Ainda. Respeito pelo que ele representou para a oposição ao regime autoritário, pela luta diuturna que ele travou ao lado de muitos companheiros, alguns dos quais, hoje, dele afastados, e, especialmente, porque fui seu secretário de Administração, na Prefeitura Municipal de Aracaju, quando de sua segunda gestão. E nele eu votei em algumas oportunidades, para deputado estadual, deputado federal, senador e governador (em 1994 e 2014). Não votei nele para vereador ou prefeito da capital, pois sou eleitor em Dores. Aliás, na última eleição, inclusive, discursei em Dores, no palanque, ao seu lado. E assinei uma moção em favor de sua candidatura, ao lado de outros professores da UFS, publicada em alguns órgãos de imprensa. O que eu jamais farei é deixar de cutucar, de comentar ações governamentais ou a falta delas, seja de Jackson Barreto, de João Alves, Valadares, Almeida Lima, com os quais eu também trabalhei, no estado e na capital, ou, seja lá de quem for. Está ouvindo, ó imbecil desinformado? Quer mais, ó tresloucado espinha de peixe podre? Quer saber mais, ó despudorado imbecil? Pois lá vai. 

Peço vênia ao governador Jackson Barreto por expor algo que é estritamente pessoal, mas que ele próprio já expôs em mais de uma ocasião, como, afinal, hei de revelar. Em 1994 – está lendo, ó imbecil carrapatoso? – JB, enquanto candidato a governador contra Albano Franco, foi à SMTU, hoje SMTT, fazer uma visita, como os candidatos costumavam fazer às repartições públicas. Após a visita, de sala em sala, ele foi ter comigo, na Superintendência. E foi então que ele fez algumas ligações do celular, umas três ou quatro, pedindo aos interlocutores que lhe avalizassem um título de crédito junto a um Banco, ou seja, um papagaio, como se diz na gíria bancária. Ninguém se propôs avalizar o documento creditício. Voltando-se para mim, ele disse, com voz lamentosa: “Como é que pode Zé Lima, um candidato a governador, não achar um amigo que avalize um papagaio junto a um Banco, para despesas pessoais?”. Prontamente, eu lhe disse: “Eu avalizo”. Surpreso, ele perguntou: “Você confia em mim?”. E eu: “Confio”. A quantia não era tão grande assim. Na verdade, para um candidato a governador, era uma miséria. De verdade. Para mim, claro, era alguma coisa. À tarde, ele me ligou, para informar que o Banco somente lhe emprestaria a metade do que tinha acertado. Logo mais, um portador foi levar o papel creditício para que eu avalizasse. Após assinar, tomei uma resolução. Liguei de volta para JB e lhe disse: “Jackson, eu vou lhe emprestar a outra metade”. E assim eu o fiz. Está lendo isso, seu imbecil falador? Eu não sou um estranho. 

Quando Jackson Barreto foi candidato a senador, ao lado de Albano Franco, em 1998, numa atividade realizada no Colégio General Calasans, em Dores, Jackson estava conversando com as pessoas que ali se encontravam e, ao me avistar, disse, ao microfone, para todos ouvirem: “Albano, na eleição de 94, que eu disputei com você, Zé Lima avalizou um papagaio num Banco e ainda me emprestou uma quantia”. Do mesmo modo, quando, em 2011, após a inauguração de um complexo residencial, no Lamarão, pelo governador Marcelo Déda, eu estava com o prefeito de Dores de então, Aldon Luiz dos Santos, e ao nos acercar do governador com quem o prefeito, ao lado do deputado federal Valadares Filho, precisava falar, Jackson, mais uma vez, se referiu ao aval e ao citado empréstimo, dizendo, em tom de gracejo, ao governador Déda, o que dissera a Albano e aos dorenses, em 1998. Está lendo, seu imbecil, que de nada sabe, a não ser puxar o saco de quem, momentaneamente, lhe interessa? 

A política é, deveras, algo a merecer a atenção de todos os cidadãos e de todas as cidadãs. Desde a velha Grécia. Desde muito antes. Enfim, desde sempre. Porém, a cada dia que passa, as pessoas se desencantam com a política. Melhor seria dizer, com a forma com que a política é exercida por alguns políticos, mandatários ou auxiliares destes. E entre os auxiliares há os rastejantes e imbecis. Que Deus nos livre dessas bestas espumosas! 

Quanto aos meus artigos, que venham a falar sobre política ou administração pública, eu os farei como me der na telha, sem, contudo, hostilizar nenhum político ou governante. Quando eu quiser falar, falarei o que for preciso. Falarei sobre o que sinto. Sobre o que eu compreendo. Sobre meus pontos de vista. Sem ferir deliberadamente quem quer que seja: Jackson Barreto, João Alves etc. Mas, também, sem ocultar fatos, quando for preciso expô-los. Para que a verdade seja conhecida. E para que os imbecis lambe-botas continuem lambendo. Desafortunadamente. “Burro por onde passa, deixa a marca da ferradura”. Tenho dito. Por enquanto. 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 e 23 de fevereiro de 2015


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
15/02
18:49

Nota 6 para João Alves Filho

 José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Li, no Facebook, que o deputado federal André Moura teria atribuído nota 6 (seis) à gestão do prefeito de Aracaju, João Alves Filho, em entrevista ao jornalista André Barros (TV Atalaia). Se for verdade, e deve ser, entrando no terceiro ano de mandato, João Alves precisa, se puder e souber, fazer crescer sua imagem junto à opinião pública. E imagem de administrador só cresce administrando. E administrando muito bem. Não é isso, contudo, o que vem ocorrendo com o prefeito da capital. Pelo contrário. João Alves ainda não acertou o passo da administração aracajuana, em alguns setores. A administração alvista, em parte, continua tonta, igual a barata que comeu Baygon ou SBP. 

João Alves ganhou a eleição de 2012 por causa do desencanto dos eleitores com a gestão de Edvaldo Nogueira, que, a bem dizer, não foi uma lástima, embora não tenha sido uma “belezura”. Mas o povo queria mudar. Para melhor. Conseguiu? Só Jesus na causa! Quantos desacertos...! Meu Deus! A situação de João Alves é aflitiva. Ele tem somente este ano. Parece ser pouco. Muito pouco, para recuperar o tempo perdido. Do jeito que a máquina administrativa anda, a passo de cágado, João tenderá a amargar uma derrota acachapante. É claro que os fatos de hoje podem não reverberar amanhã. O prefeito poderá dar a volta por cima. Não será fácil, mas também não se pode dizer que será impossível. 

A nota 6 (seis) é muito pouco para um governante que pretende alçar-se à reeleição. E quem deu tal nota não foi um adversário. Não. Foi um aliado. Isso prova que a situação dele não é boa. E não é mesmo. A gestão de João é do tipo gangorra. Sobe e desce. Mais desce do que sobe. Está embolada no meio do campo. Não tem ataque. Ou seja, não avançou. Não avança. Avançará neste que, na prática, é o “último” ano de gestão? Sim, porque 2016 é ano eleitoral. Ano de tentativas de arrumações políticas. Administração para valer? Adequação na prestação de serviços? Obras necessárias, que encham os olhos dos eleitores? Quando? Aonde? João tem dinheiro para tocar obras? Tem como melhorar mesmo os serviços públicos, sem ser através de paliativos, a exemplo da saúde? Tem como melhorar a mobilidade urbana? Tem como cumprir o que prometeu? Seria bom. Para o povo e para ele. 

Por outro lado, divulgou-se uma pesquisa, que coloca João um pouco atrás do ex-prefeito Edvaldo Nogueira. Quem diria! Edvaldo com 19,7% contra 19,2% de João. Meio ponto percentual do ex-prefeito à frente do atual prefeito. Como diria o saudoso colunista social, João de Barros, o Barrinhos, “sinal dos tempos”. E, ainda por cima, o 3º colocado é Valadares Filho, que perdeu apertado para João, em 2012. Ele aparece com 17,5%. Em 4º lugar, aparece Robson Viana, com 4,5%. E em quinto, Ana Lúcia, com 2,5%. Em suma, afora João, só dá a oposição. Somando os percentuais da oposição, João está na lona. Ora, dirão os alvistas, estamos em 2015. A eleição será dentro de 20 meses. É verdade. Porém, daqui para lá, tanto João poderá subir, quanto poderá cair. 

Normalmente, eu escrevo os artigos entre a quarta-feira e a quinta-feira, que é o dia em que devo enviar à redação do Jornal da Cidade. Após escrever este, eis que, na manhã do dia 12, saiu outra pesquisa: João Alves com 20,8%; Edvaldo com 15,3%; Valadares Filho com 13,7%; Eliane Aquino com 12,1%, Robson Viana com 6,9% e Ana Lúcia com 4,3%. Embora João apareça na liderança, a soma dos percentuais dos outros citados, que são todos de oposição a ele, representaria uma goleada, igual à pesquisa anterior. É claro que na eleição a conta não seria bem essa. De qualquer forma, João terá que mostrar serviço. Muito, muito mais. 

Já há quem diga que a oposição poderá sair com dois candidatos, com possibilidade de ambos chegarem ao segundo turno, deixando João Alves amargar o atoleiro eleitoral do terceiro lugar, como fruto do atoleiro administrativo. Atoleiro? Ora bolas, nem chovendo está, dirão os alvistas. Estão certos. Porém, ainda vai chover. João Alves que se cuide. Que se proteja, procurando melhor servir ao povo aracajuano. Do contrário, poderá sair encharcado da Prefeitura, enfrentando um ou dois candidatos do bloco liderado pelo governador Jackson Barreto. 

Nota 6 (seis). João chegará a 8 (oito)? Ou a 4 (quatro)? O tempo nos dirá. Todo tempo é tempo de lutar. Tempo de correr atrás do trio elétrico, ou melhor, do que ficou para trás e ainda pode ser recuperado. O carnaval está querendo me atrapalhar. Que quero eu estar falando, aqui, em trio elétrico? Entretanto, pegando a deixa, “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, como canta Caetano Veloso. Assim, em busca do tempo perdido (não a obra imortal de Marcel Proust), também só não vai quem já esticou a canela. E João ainda vive. Precisa de musculatura para se movimentar. Ele e a equipe, ou parte dela, que ainda anda ciscando, juntando terra nos próprios pés. O prefeito tem ao seu lado um braço forte, ágil, bom para pensar e para executar, que se chama José Carlos Machado. Mas, Machado parece meio amarrado. Não por culpa dele, provavelmente. O que falta para Machado ajudar muito mais ao prefeito? Sabe-se lá! 

De qualquer forma, o jogo para 2016 pode ser antecipado. Há quem torça por essa antecipação. Para que os debates nas emissoras de rádio, por exemplo, comecem já. A mesa está pronta. O baralho também. Baralho novo? Que nada! Baralho velho com cartas marcadas, manchadas pelo uso, pela ação do tempo etc. É preciso um baralho novo. Mesmo que alguns jogadores sejam velhos. O baralho novo das ideias novas. E será possível que algum pré-candidato se apresente ao público com ideias novas, factíveis, e não mirabolantes como são do gosto de muitos homens públicos, nesse momento de crise política, econômica e ética em que vive o país? Sim. Nas crises as pessoas de bom senso se exercitam bem mais em busca de soluções para o que parece ser insolúvel. Alguém já disse, lá atrás, que “crise se vence com trabalho”. Os leitores devem se lembrar. O problema é que, mesmo para quem disse isso, o trabalho nem sempre é bem executado. Aí, então, a jiripoca pia. Deixe piar.
 
Enfim, vamos brincar em paz neste carnaval. E que todos, governantes e governados, despertem para as mais duras realidades da vida após os embalos de Momo. E como saudou o poeta Manuel Bandeira, no poema “Bacanal”: Evoé, Baco! Porém, que ninguém se dê ao desfrute de quaisquer tipos de bacanais. Que venham boas ideias e bom trabalho. Que o povo não seja esquecido. Na planície e no planalto. Amém. 


(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 15 e 16 de fevereiro de 2015. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
08/02
09:22

A paixão de Tânia

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS


Castelinho amava Tânia. Mas Tânia só tinha olhos para Alfredo de Pedro Castelo. Este, Pedro Castelo, era primo do pai de Castelinho. Ou seja, era uma “castelada” só. Sim, até porque Tânia era sobrinha de Pedro, irmão de sua mãe. Ela era, então, prima carnal de Alfredo e prima em segundo grau de Castelinho. Uma confusão como nem eu seria capaz de criar melhor nos causos que escrevo. E a “castelada” se esparramava por uns dez dos quase trinta povoados do município, além dos que já moravam na cidade, principalmente no subúrbio Saquinho, depois do Pinga-Fogo e antes da Gameleira. Isso é apenas para situar o leitor que não conhece a região de Timbira. 
Por coincidência, Castelinho, Tânia e Alfredo tinham a mesma idade. As três mães receberam a visita da cegonha (cegoinha danada que trabalhava!) no mesmo mês de maio. Maio era, no passado, um mês de muita parição. Razão? Somente uma me vem à mente: de agosto a maio decorriam nove meses. E agosto era – e é, quando o inverno é bom – o mês do frio, naquelas bandas. E no friozinho, os corpos se enroscavam. Nove meses depois, berços e redes embalavam bebês. Da mesma idade, estudavam os três na mesma escola, na mesma sala de aula. E eram, além de parentes, bons amigos. Castelinho amava em silêncio. Aguardava uma boa oportunidade para se declarar a Tânia. E esta não sabia o que fazer para chamar a atenção de Alfredo, que, pelo andar da carruagem, parecia que ainda não olhava com olhos pidões para ninguém, nem para Margarida, da 7ª série, que quase não o largava. Eram apenas bons amigos. E vizinhos. Os três parentes eram da 8ª. Como visto, era o desabrochar das paixões juvenis. E por Tânia, um bando de meninos arrastava asas. E um bando de meninas sonhava com Alfredo, o mais bonito da escola, segundo elas comentavam. Quanto a Castelinho, baixo, mas não muito, meio gordinho, sorriso sempre aberto, o mais estudioso da sala. Só tirava notas acima de 9. Tânia era aluna regular. E também regular era Alfredo. Ele gostava mesmo era de desenhar. Desenhava de tudo, mas tinha uns desenhos que ele não mostrava a ninguém. 
Nos últimos meses, Alfredo aprendeu a desenhar rostos, a fazer retratos, usando grafite. Servia-se de fotos 3x4, principalmente das meninas que ele mais gostava. Fotos tiradas por Zé Retratista, na Rua da Conceição, perto do antigo vapor de algodão de Juca de Dominguinhos. E ele dava os desenhos de presente ou os fazia por encomendas pelas quais cobrava. Outra atividade do gosto de Alfredo era organizar festas na escola. São João? Dia das mães e dos pais? Gincanas? Ele estava à frente de tudo, ajudando a direção da escola. E Margarida era, por assim dizer, o seu braço direito. Daí muita gente achar que, se eles não eram namorados, ainda haveriam de ser. Eram grudados, para o temor de Tânia. Em casa, o agarramento de Alfredo com Margarida era visto com simpatia pelos pais dele, que eram compadres dos pais dela. Quanto a estes, sobre tal agarramento, não se sabia dizer. Verdade era que, à boca miúda, a mãe de Margarida dizia coisas de Alfredo. Porém, na rua onde eles moravam a fama de linguaruda da mãe de Margarida, D. Lucinha de Fausto, era voz corrente. 
Tânia jurou a si mesma que acabaria com a sua agonia, que tiraria Alfredo das garras da magricela Margarida, custasse o que custasse. E haveria de ser na semana da Festa da Padroeira. No baile do Recreativo. Como os pais de Margarida não a deixavam frequentar os bailes, Tânia estaria livre, leve e solta para dançar com Alfredo, o garoto que mais gostava de dançar. E o baile daquele ano seria com a orquestra “Los Guaranis”. A melhor do estado. Tânia era tímida. Linda, modelada com esmero, mas tímida. As irmãs a chamavam de tabaroa. Nunca tivera um namoradinho na escola ou fora dela. Bem, naquele tempo não era como hoje em que as garotas e os garotos começam a namorar, a bem dizer, ainda usando fraldas. Tânia queria namorar o primo Alfredo e haveria de achar coragem para dizer isso a ele. Qual a reação dele? Ela temia ser rejeitada pelo único garoto que enchia os seus belos olhos castanhos. Fez até promessa para Santo Expedito, o santo de devoção de sua mãe, que era responsável, ano após ano, pela liderança da noite dedicada às famílias, na Novena da Padroeira, na festa de novembro. Festança, aquela de Nossa Senhora. A promessa feita era para acender uma dúzia de velas aos pés da imagem do santo, que sua mãe mantinha em ornamentado nicho, no quarto do casal. Pelo que ela sabia Santo Expedito jamais deixara sua mãe na mão, embora D. Constância, a mãe, sempre dizia que Deus era quem valia as pessoas e só a Ele era cabível adoração. O Santo seria apenas uma espécie de intermediário, dada a sua reconhecida vida de santidade, embora, dizia ela, o intermediário por excelência era Jesus, o Salvador. E a imagem não passava de uma simples representação do Santo, como a fotografia de alguém de quem se gosta. Nada mais. Todavia, tudo isso é o que menos importa agora. O que me interessa mesmo é chegar ao desfecho sobre a pretensão de Tânia. 
Veio a noite do baile, no sábado, exatamente a noite das famílias. A noite em que o foguetório só perdia para a noite anterior, a sexta-feira, que era a noite dos motoristas. Esta era imbatível em fogos de artifício. Noite das famílias. Noite do baile. Noite em que Tânia haveria de ser valida em face da promessa feita. Em que ela diria a Alfredo o que o seu coraçãozinho sentia. O “sim” de Alfredo acabaria com a sua agonia. Haveria de lhe propiciar uma noite de Cinderela. No baile estaria o seu príncipe encantado. E com ele, enfim, desencantado (ou ela era quem desencantaria?), ela teria a melhor de suas noites no clube. O melhor dos bailes. A mais bela noite de sua vida. 
Na vida real os sonhos nem sempre se realizam. A noite dos sonhos de Tânia não se realizaria. No fim daquela tarde, a avó materna de Tânia teria um “piripaque”, deixando a família em alvoroço. A senhora ficara morre não morre. Fora levada ao hospital, na capital. D. Constância e Tânia tiveram que acompanhá-la. E aquela era a avó da predileção da mocinha. Tudo viera por águas abaixo. A promessa feita a Santo Expedito não incluía a saúde da avó. Porém, diante da doença de ente tão querido, Tânia não ficou desalentada por não ter dado certo o que houvera planejado. O desalento viria duas semanas depois que a avó saíra do hospital. No fim de uma aula de matemática, Alfredo entregou uns desenhos para Tânia avaliar. Eram desenhos de flores e paisagens. Contudo, no meio deles, Tânia se deparou com o que jamais gostaria de se deparar. Não acreditava no que estava vendo. Não era possível! Alfredo e Jorginho? Não! No meio dos desenhos de flores, Alfredo esqueceu um que não tinha nada a ver com paisagens ou flores. Era um retrato a grafite de Jorginho, da 7ª série, alto e forte, apesar da idade, e o melhor jogador de futebol da escola, com a seguinte inscrição: “Te amo!”. Tânia devolveu os desenhos sem dizer nada. Não tinha o que dizer. Chorou a noite inteira. Nem quis jantar. Já madrugada, ainda banhada em lágrimas e sem conseguir dormir, ela pensou: “E se o retrato não fosse presente de Alfredo para Jorginho? E se fosse encomenda de alguma menina, para presentear o garoto bom de bola?”. E assim ela adormeceu com os galos cantando o último canto naquela madrugada. 
 
(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 08 e 09 de fevereiro de 2015. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
01/02
16:32

Depois do carnaval, a administração de JB já será velha

 José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

            Eu tenho recusado ir aos Shoppings de Aracaju. Ao menos, por esses dias. Não aguento mais as mesmas conversas, os mesmos assuntos, ou melhor, o mesmo assunto: a administração de Jackson Barreto, que, dizem, ainda não deu o sinal de partida. Continua no “pit stop”. Uns dizem que ele só vai botar a máquina para andar depois da eleição do presidente da Assembleia, que ocorrerá exatamente neste domingo. Se for assim, a partir de segunda-feira, dia 2, o pau quebra. Outros se dizem decepcionados com o secretariado, ou com parte dele. Outros mais acham que JB está perdido nesse que é, sim, o seu próprio mandato governamental. O mandato que ele concluiu não era dele, na origem. Os “analistas políticos” de plantão conjecturam muito.

Como as pessoas botam a boca no mundo! É por isso que eu vou dar um tempo nas idas aos Shoppings da cidade: quando eu encontro um desses “analistas políticos” o papo é o mesmo: JB... JB... JB... E eles, os “analistas”, são muitos. Em cada metro quadrado de qualquer Shopping é possível encontrar uns cinco ou seis. A densidade deles é muito maior do que a densidade da jararaca-ilhoa na ilha Queimada Grande, litoral de São Paulo, que possui um veneno quinze vezes mais potente do que o veneno da jararaca continental. E como tem jararaca-ilhoa naquela ilha... Vôte! Os “analistas” sabem de tudo. Ou inventam de tudo.

            Alguns falam que o segundo escalão está na “maré mansa”, aguardando a eleição de Luciano Bispo para a presidência da Assembleia Legislativa. Depois da eleição, a distribuição dos cargos. É o que se convencionou chamar de “assegurar a governabilidade”. Infelizmente, ou não. O Brasil inteiro está assim, contaminado. O governo federal, os governos estaduais e os governos municipais. Uma “beirinha” para um, uma “beirinha” para outro e assim vai-se levando a vida político-administrativa neste país tão sério. Que Charles De Gaulle não me ouça, ou melhor, não me leia, na sua morada “defuntória”.

            Os “analistas” dizem que o ano não começou bem para Sergipe, mas muitas eram e ainda são as esperanças do povo. Afinal, o ano está apenas começando. Carro velho subindo ladeira, engrenando a pulso. Ora sobe, ora desce. Ora sobe, ora desce. Deus seja louvado! E assim os sergipanos atravessaram janeiro. Ainda bem que não temos os problemas de abastecimento de água, na capital, que São Paulo vem enfrentado há meses. Pelo menos isso. A segurança pública, a saúde e outras áreas do governo estão no “avaluemos”, como se diz por aí. Mas, tem nada não. Estamos somente no comecinho, gente. É preciso ter paciência. Nem sempre as coisas acontecem de fio a pavio, ligeirinho, como a ligeireza de coelhos para fazer filhotes. O papa que o diga. Não! Há coisas que só andam na maciota. É que o povo é apressado. Gosta, pois, de comer cru. Tem que cozinhar, minha gente. O que é isso? Está cedo. Ou não? No geral, o povo é falador. Até parece que todo mundo é “analista político”. Cruz-credo! Gosto disso não. Não mesmo. Eu tenho paciência. Posso não ser outro Jó, aquele da Bíblia, mas sou paciente. Deixo a coisa correr. Só não pode correr frouxa. Aí também já é demais.

            O governador Jackson Barreto precisa, sim, chamar certos feitos à ordem. Tomar medidas. Botar o carro para rodar. Nada de roda presa. Tem que desatravancar isso ou aquilo. Janeiro seria o mês do planejamento geral do governo. Tin-tin por tin-tin. Tudo se arrumando, pois é no sacolejar da carroça que as abóboras se ajeitam, como diz o dito popular. Janeiro se foi. Tem que ajeitar as coisas. A administração. Todos os setores. É o que o povo está esperando. A situação encontrada na educação é vexatória, diante de índices e mais índices que deixam a desejar. A segurança pública está altamente comprometida. A bandidagem age solta. Aracaju está em 39º lugar dentre as cidades mais violentas do mundo, segundo uma ONG mexicana (administradores.com.br). O índice de homicídios (total de 40) por grupo de cada 100 mil habitantes em Sergipe é o 4º maior do Brasil (exame.com). Assaltos, roubos e furtos campeiam ao Deus dará. Na capital e no interior. A saúde está desmantelada. E, tudo isso, depois de oito anos com o mesmo grupo à testa do governo. Logo, tentar jogar a culpa somente nos governos anteriores a esses oito anos, é absoluta vulgaridade, falta de senso administrativo e de tato político. Não dá para tapar o sol com uma peneira. Abrindo um parêntese, o mesmo se diga da administração aracajuana, em que alguns auxiliares do prefeito ainda ficam culpando as administrações ligeiramente anteriores pelo seu próprio fracasso em algumas áreas. As administrações contrárias, estadual e municipal, igualam-se no que podem ter de pior: culpar os outros pelo que não têm mostrado competência e rapidez para resolver. Ora, basta desse tipo de argumentação. Chega dessa baboseira toda! De lado a lado. No passado, remoto ou recente, cada gestão teve acertos e desacertos.

            No artigo “Jackson Barreto na cabeça”, publicado aqui no Jornal da Cidade, em 8 de outubro último, após o resultado da eleição, eu lembrei que quando Jackson foi prefeito de Aracaju, na sua segunda gestão, quando ele fez a primeira reunião com o secretariado, nos meados de janeiro de 1993, concitou os secretários a mostrarem serviço, dizendo que: “Depois do carnaval, para o povo de Aracaju a minha administração já será velha”. Ele mostrava, assim, que tinha pressa em ver as coisas acontecendo. E agora, governador? Meta a mão na massa, bicho! De verdade. Mostre que você não veio para brincar.

            Mais uma coisa: a situação financeira do estado parece ser mesmo crítica. Basta dar uma olhada no artigo “O crescimento da dívida estadual em Sergipe”, escrito pelo professor de Economia da UFS, Emerson Souza, e publicado noutro jornal, no início da semana finda. Lá está dito, por exemplo, que “o custo da dívida passiva – encargos e amortizações contabilizados junto às despesas centralizadas pela Sefaz – foi da ordem de R$ 548,4 milhões (7,6% da arrecadação executada), em 2013. É muita grana. Em 2010, apenas para efeito de comparação, esse montante era de R$ 88,1 milhões, ou seja, 1,5% da arrecadação total”. Sendo assim, as amortizações de empréstimos antigos estariam pipocando agora, comprometendo as finanças do estado, ou somam-se também empréstimos novos e de curto prazo? Há outro dado alarmante, no artigo: “em 2009, o total da dívida interna e externa do governo do estado de Sergipe era de 1,32 bilhões” (6,7% do PIB sergipano). Mas, em 2012, a dívida chegou a 2,4 bilhões (8,65% do PIB estadual). Quase dobrou em apenas três anos? Os dados citados pelo professor Emerson foram tirados do relatório de contas anuais da Secretaria da Fazenda. São terríveis!

A gestão fazendária de JB terá que ser muito boa. A herança financeira que ele recebeu, de longa ou de curta data, é que não é boa. Além de competência e agilidade, Jackson Barreto e sua equipe vão precisar de reza forte. Muito forte. 

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 01 e 02 de fevereiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
24/01
22:09

Las Locas de la Plaza de Mayo, Gelman e Akhmátova

José Lima Santana -  É professor do Departamento de Direito da UFS

 

Um dia elas se reuniram na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Eram poucas. Mas o número só fez crescer. Lá estavam elas com seus panos brancos nas cabeças. Este era o lema delas: “La lucha de las Madres de Mayo contra la dictadura militar y a favor de la vida”. Elas exigiam notícias dos seus filhos e filhas desaparecidos por conta da maldita ditadura militar argentina (para mim, toda ditadura de direita ou de esquerda é maldita). No início, eram mães. E depois, eram mães e avós. Alguns as chamavam “Las Locas de Mayo”. Meu Deus! Netos e netas nascidos nos porões da ditadura foram doados ou vendidos a várias famílias, que, claro, não eram as suas. O filme “A História Oficial”, dirigido por Luis Puenzo, que faturou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986, baseia-se na história de um casal, Alicia Marnet de Ibánez e Roberto, que adotou uma dessas crianças. Ele sabia que a menina adotada era filha de uma desaparecida, mas Alicia, não. Desconfiada, ela luta para saber a verdade. O filme é forte. E pode ser encontrado em DVD.

O poeta Juan Gelman, combatente de esquerda desde a juventude, e, na minha modesta opinião, o melhor poeta argentino de sua geração, pouco depois de exilar-se, em 1976, teve seu filho Marcelo e sua nora, a espanhola Claudia García, grávida de 7 meses, sequestrados por militares argentinos. Marcelo tinha 20 anos e Claudia, 19. Marcelo foi torturado e, 13 anos depois, seus restos mortais foram encontrados em um tambor de cimento e areia junto com outros sete companheiros. Claudia foi levada clandestinamente para Montevidéu, capital do Uruguai, onde desapareceu em 1977, após dar à luz uma menina no Hospital Militar. Segundo uma investigação da Comissão para a Paz, criada pelo presidente do Uruguai Jorge Batlle (2000-2005), Claudia foi assassinada depois do parto. E ainda tem quem defenda as ditaduras, de direita ou de esquerda! Eu as abomino. Todas elas.

A neta de Juan Gelman, Macarena, foi criada pela família de um policial uruguaio, que escondeu dela sua verdadeira identidade, mas, em 2000, o considerado "poeta da dor" a localizou e, a partir daí, ambos, avô e neta, lutaram pelo esclarecimento da verdade. Aliás, no filme “A História Oficial”, a menina Gaby, adotada pelo casal acima citado, refere-se à menina Macarena mais de uma vez, como sua coleguinha de escola. É uma homenagem.

A poética de Gelman “é um desafio contra o esquecimento e a perda da memória de seu povo”. O “seu lirismo pessoal é feito de fúria e de ternura”. Ele recebeu vários prêmios literários. Nascido em 1930, Gelman faleceu em 14/01/2014, no México. Abaixo, um poema “dolorido” de Juan Gelman, “Oração de um desocupado”: “Pai, / desce dos céus, esqueci / as orações que me ensinou minha avó, / pobrezinha, ela agora / repousa, / não tem mais que lavar, limpar, não tem mais / que preocupar-se, andando o dia todo, atrás da roupa, / não tem mais que velar de noite, penosamente, / rezar, pedir-Te coisas, resmungando docemente. // Desce dos céus, se estás, desce então, / pois morro de fome nesta esquina, / não sei para que serve haver nascido, / olho as mãos inchadas, / não têm trabalho, não têm, / desce um pouco, contempla / isto que sou, este sapato roto, / esta angústia, este estômago vazio, / esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, / cavando-me a carne, / este dormir assim, / sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. // Te digo que não entendo, Pai, desce, / toca-me a alma, olha-me o coração, / eu não roubei, nem assassinei, fui criança / e em troca me golpeiam e golpeiam, / te digo que não entendo, Pai, desce, / se estás, pois busco / resignação em mim e não tenho e vou / encher-me de raiva e afilar-me / para brigar e vou / gritar até estourar o pescoço de sangue, / porque não posso mais, tenho rins / e sou um homem, / desce! Que fizeram de tua criatura, Pai? / Um animal furioso /que mastiga a pedra da rua?”.

            Eu li esse poema de Gelman, pela primeira vez, no livro “Pai Nosso”, de Leonardo Boff, na década de 1980. Fiquei encantado. Passei a buscar o autor, mas, no tempo anterior à internet, não encontrei nada. Tempos depois, em Buenos Aires, tomei conhecimento de sua obra. E, mais: de sua vida, de sua luta. Quantos pais, como ele, perderam os seus filhos nas garras das ditaduras de direita ou de esquerda pelo mundo afora, incluindo o Brasil? Milhares? Milhões? Vai-se saber!

            E por falar em poesia e em ditadura, lembro-me da poetisa russa Anna Akhmátova, pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko (1889-1966), na verdade nascida em Odessa, na Ucrânia, que as autoridades ditatoriais stalinistas perseguiram e proibiram a publicação de seus livros. Fuzilaram um de seus maridos e mandaram o outro para um campo de concentração, onde ele morreu. Mantiveram seu único filho, Lev Gumilev, na prisão durante muito tempo. Todavia, nada disso quebrou a sua fibra e nem fez com que o público, que sempre a amara, esquecesse a sua poesia. Akhmátova teve a chance de ser exilada, pois o regime teria preferido, em determinado momento, ver-se livre dela, mas ela jamais quis deixar a sua pátria e o seu povo. Assim, no poema “Réquiem”, do livro “Réquiem: um ciclo de poemas”, que reuniu poemas de 1935 a 1940, ela cantou: “Não, não foi sob um céu estrangeiro, / nem ao abrigo de asas estrangeiras – / eu estava bem no meio do meu povo, / lá onde o meu povo infelizmente estava”. O seu povo estava sob o jugo dos expurgos empreendidos por Josef Stalin, em que milhões foram presos em “gulags”, ou mortos, embora boa parte da população soviética aparentemente apoiasse o estado comunista. Forçosamente ou não. Como todos devem saber, os “gulags” eram campos de trabalho forçado da ex-União Soviética (URSS), criados após a Revolução Comunista de 1917 para abrigar criminosos e “inimigos” do Estado. Gulag era uma sigla, em russo, para “Direção Principal (ou Administração) dos Campos de Trabalho Corretivo” (“Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey”) que se espalhavam por todo o país. Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Pode-se recordar o livro “Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970.

            Voltando a Akhmátova, a sua poesia permaneceu tão viva, que, em 1989, ao comemorar-se o centenário de seu nascimento, o seu nome foi dado a uma estrela que tinha acabado de ser descoberta.

            Não posso acolher a ideia de uma ditadura, venha de onde vier, esteja onde estiver. Como não acolho a ideia de uma “democracia” (?) que se deixa turvar pelo capitalismo selvagem, que faz das pessoas mais fragilizadas apenas “coisas”. A “coisificação” das pessoas dói como se fosse um ferro em brasa atravessando a carne de alguém.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 25 e 26 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
18/01
15:14

Cartas de Jackson de Figueiredo e Araripe Coutinho

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

 

            Foi-se o tempo das cartas. Sobre isso eu já escrevi, no ano passado. Mas houve um tempo em que as cartas eram guardadas e, no caso de escritores, publicadas em livros. A primeira carta que eu li de um escritor foi do filósofo sergipano Jackson de Figueiredo (1891-1928). Intitulada “Carta à Irmã”, essa carta, extraída do livro “Correspondência”, 3ª edição aumentada, página 259, consta do livro “Admissão ao Ginásio”, do qual eu me servi em 1966, no 4º ano primário, no Educandário Nossa Senhora das Dores, regido pela professora Maria Menezes Góis, mais conhecida como D. Menininha, de saudosa memória. Essa carta, datada de 22/23-11-27, Jackson a enviara do Rio de Janeiro. Eis:

            Querida Anaíde: Recebi sua carta de 11 do corrente e não preciso dizer-lhe com que alegria. Sim, mana, eu também jamais esquecerei “aquelas ligeiras horas de S. Cristóvão”; em momento tão turbado e doloroso de minha vida, creio que foi mesmo a única alegria verdadeiramente grande e verdadeiramente pura, que então tive...

            Todos os meus pequenos estão em casa, inclusive a Regina, uma mocinha. Tãotão, esta é um vagalume que brilha em pleno dia. É um raiozinho de luz e de espírito, chega a ser um tormento do meu coração. O Luís, o Sr. Dom Luís é um sujeito inteligente e bom, mas de ideias abstrusas. Ainda hoje, pela manhã, apresentou-me consertado o meu relógio. Não tinha uma peça no lugar. Avalie o lucro do conserto. Não tive coragem de ralhar com ele. Aliás, mana, sou, definitivamente, a negação do pai de família, e se, o que é raro, consigo ter um gesto de energia, isto é para mim mais esgotante que com polêmicas de jornal.

(Segue-se uma linha tracejada).

            Diga ao Mesquita que não esmoreça com a moléstia. Estive gravemente doente mais de seis meses. Ainda não estou bom e sofrendo um tratamento bastante doloroso. Mas, até a hora final, hei de olhar estas coisas como verdadeiras depurações. Adeus, querida Anaíde!

            Beije por nós os pequeninos, e abrace o Mesquita (se quiser, beije-o também), abrace-o com a maior amizade.

            Laura a beija como se beija a irmã querida do Jackson e ele próprio a beija muitas vezes com saudosa ternura.

            Jackson.

Hei de anotar que a correspondência de Jackson (apenas uma parte dela) foi publicada postumamente, em 1946, com reedições posteriores. Convertido, ele se tornaria grande defensor do catolicismo conservador, e foi o inspirador de ações laicas de sucesso. Segundo Alfredo Bosi, “a humanidade e o estilo vigorosos garantem a Jackson de Figueiredo um lugar entre nossos grandes prosadores”.

Quem, entre nós, também gostava de escrever cartas, já no tempo final das cartas, era o poeta Araripe Coutinho, que há pouco nos deixou. Sempre que ele viajava, enviava-me cartas. Revolvendo documentos e papéis avulsos, nos dias do fim do ano, eu reli uma dessas cartas, de quando ele passava uma temporada com a escritora Hilda Hilst, no interior de São Paulo. E quando ocasionalmente releio essa carta, especialmente essa, eu me comovo, por vários motivos. Vamos à carta:

Casa do Sol, quase primavera de 1993.

Prezado amigo poeta José Lima:

Não é necessário lhe dizer que todas as coisas estão mortas. Afinal, 111 no Carandiru, 10 na Candelária, 21 no Vidigal, e em nós, quantos?

Lembro-me do seu lançamento e espero realizar um aqui, na UBE, e no Terraço Itália. É só você ligar para mim.

Por enquanto, tenho escrito muito e me preparado para o meu lançamento, que, segundo o Massao Ohno sai mesmo este ano. Em se tratando de um japonês com o nome dele, vale a pena esperar.

Por outro lado, procuro me revigorar, já que na terra dos cajueiros e papagaios não é fácil, principalmente quando você tem uma sensibilidade fantástica e um talento singular. Enfim.

Espero que tudo tenha corrido bem consigo no Rio, e que os contactos tenham sido dos mais proveitosos. A poesia é mesmo uma estrada espinhosa a se seguir.

Peço-lhe mais uma vez, que converse com Almeida Lima, que diz gostar muito de mim, para que ele me consiga alguma coisa na PMA; não posso ficar neste desespero, neste vazio, enquanto a mediocridade de tantos grassa como grama. Mesmo. Por favor. Sou um poeta. Volto agora em outubro e não dá mesmo para sobreviver das sobras dormidas do pão – como canta Cazuza.

O prof. Ariosvaldo disse-me por fone ter gostado demais do seu livro e disse-me que ia fazer um artigo. É muito importante, Zé Lima, manter um contacto com ele. É um sábio perdido nestas plagas sergipanas.

No mais, desejo-lhe toda sorte e sucesso. E quando eu voltar aguarde novos lançamentos. Com toda luz que for possível e impossível.

Grato sempre, amigo-irmão.

Araripe Coutinho.

Algumas observações: 1) O meu livro, sobre o qual ele fala, é o romance “A Morte Fora de Hora”, lançado em Aracaju, em agosto de 1993, e, no mesmo mês, no Rio de Janeiro, durante o I Congresso de Literatura das Américas, promovido pela UFRJ, e que teve a participação de escritores e professores de Literatura do Canadá à Argentina, além de Portugal e Itália. 2) Massao Ohno (SP) deveria editar o livro “Sede no Escuro”, do nosso saudoso poeta, mas que acabou sendo editado, em 1994, pela Editora Scortecci. 3) Araripe refere-se ao acadêmico Ariosvaldo Figueiredo que, deveras, escreveu um artigo sobre o meu romance, que muito me sensibilizou, sob o título “José Lima Santana na Boca do Sertão”, publicado no jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 02 a 08 de outubro de 1993, que circulou em Aracaju entre 1993 e 1995. No artigo, permitam-me os leitores, disse, por exemplo, o professor Ariosvaldo: “José Lima Santana pensou em escrever romance; na verdade fez história e sociologia... Na linha do mais sadio nativismo, José Lima sente que o universal passa pelo nacional, ponto de partida do internacional, tal como visualizava Gramsci”. Foi exatamente Araripe Coutinho quem fez a aproximação entre mim e o saudoso acadêmico. 4) O poeta Araripe acabaria nomeado pelo prefeito José Almeida Lima para a direção da Biblioteca Municipal Clodomir Silva.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 18 e 19 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
11/01
10:40

Educação, um problema histórico

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

            Neste início de ano, com as posses dos novos governantes nos planos federal e estadual, a educação mereceu boas citações. Oxalá, tais citações não fiquem apenas como retórica. A presidente Dilma Rousseff achou por bem definir o slogan de sua nova gestão como “Brasil, Pátria Educadora”. Para alguns, o slogan é vago. Para outros, não poderia ser melhor. Porém, a escolha para chefiar o Ministério da Educação tem gerado polêmica. O ex-governador do Ceará, Cid Gomes, não é da área da Educação, mas deu alguma ênfase ao setor nos seus oito anos de mandato governamental, embora a sua relação com o magistério estadual não foi pacífica. Entretanto, é cedo para dizer qualquer coisa. Aguarde-se, pois. Afinal, ele poderá cercar-se de bons técnicos e elaborar um plano educacional que contemple de forma consentânea o slogan governamental, no que ele possa ter de positivo. De palpável. E resolúvel.

            Em Sergipe, o novo secretário da Educação, o professor e acadêmico Jorge Carvalho tem tudo para realizar o trabalho com o qual todos sonham. Jorge é experimentado como educador e como gestor público. Aliás, ele disse que pretende acabar com o analfabetismo, que ainda campeia em nossas plagas, ou deixá-lo perto de zero. É preciso, sim, fazer isso e muito mais. Outra meta do novo secretário é impulsionar a qualidade do ensino de modo a melhorar indicadores nacionais, como o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Mas, Jorge Carvalho tem consciência, como ele o disse ao Jornal da Cidade, edição do último domingo, de que o processo educativo não se restringe ao interior da escola. É preciso a participação da família, da qual é dever conjuntamente com o estado, e a colaboração da sociedade, como, inclusive, estabelece o art. 205 da Constituição Federal.

            Desde o Brasil Colônia, a educação não foi direcionada para todos. De início, era preciso catequizar os índios, tarefa que caberia aos jesuítas. Para catequizar era preciso ensinar a língua dos colonizadores e catequistas. Mas, para ensinar, foi preciso, primeiro, aprender. E, assim, o padre José de Anchieta aprendeu com os curumins a língua nativa e escreveu uma gramática. Aprendeu para ensinar. Hoje, muitos contestam a ação catequista e educadora da Igreja, que, dizem, acabou por aculturar os nativos, afastando-os de sua cultura tradicional.

            De qualquer forma, a educação inicialmente dada pelos jesuítas era cercada das mais graves dificuldades. A esse propósito, deixou-nos Anchieta esta página memorável, enviada a Santo Inácio: “Aqui estamos, às vezes, mais de vinte dos nossos, numa barraquinha de caniço e barro, coberta de palha, longa de quatorze pés, larga de dez. É isto a escola, a enfermaria, o dormitório, a cozinha, a dispensa. Quando a fumaça da cozinha incomoda os professores e alunos, a educação prossegue ao ar livre; porque é preferível sofrer o incômodo do frio de fora do que o fumo de dentro”.

            Deixando de lado os nossos irmãos silvícolas, a educação colonial era voltada, apenas, para alguns. Para os filhos da classe dominante, embora eu não goste desta expressão “classe dominante”, tão surrada, mas, nem por isso, menos real. Poucas eram as escolas e, logo, poucos seriam os alunos contemplados. Na zona rural, nos engenhos e nas fazendas de gado bovino, ou, mais tarde, nas zonas de mineração, as escolas não chegavam. Elas se circunscreveram apenas às cidades e vilas durante um tempo duradouro. E as mulheres, por exemplo, ficaram, durante muito tempo, afastadas das salas de aulas. Segundo relata o educador e historiador José Antônio Tobias, “Alcântara Machado, que investigou os 450 inventários da Vila de São Paulo de 1578 a 1700, constatou que, dos milhares de mulheres neles mencionadas, ‘somente duas sabem assinar o nome: Leonor de Siqueira e Madalena Holsquor, que parece flamenga. Bem significativa a forma por que nos documentos do tempo se declara o motivo de ser o ato assinado por outrem: a pedido da outorgante, por ser mulher e não saber ler’”. Pela redação final do texto, vê-se que as mulheres eram duplamente discriminadas. Um absurdo!

            Ainda assim, a escola que se tinha era apenas a “escola de ler e de escrever”, na maioria dos casos. Era muito pouco.

            Na era monárquica, apesar de muitas leis, resoluções e decretos, imperiais ou provinciais, a educação ainda capengou. Não foram poucas as tentativas de regulamentar o processo educacional. Contudo, foram poucas as conquistas diante das necessidades do povo. Do povo que não era contemplado, pois os contemplados com a educação continuavam sendo uns poucos. E durante um bom lapso de tempo, meninos e meninas estudavam separadamente. Houve poucos progressos diante de uma população que crescia. Quanto aos negros, estes foram discriminados por longo tempo em termos educacionais. Dizia-se, então, que eles vieram da África para trabalhar, e não para estudar. A situação era tão crítica que, na Província do Rio Grande do Sul, uma lei de 1837 prescrevia taxativamente: “São proibidos de frequentar as escolas públicas: 1º - as pessoas que padecem de moléstias contagiosas; 2º - os escravos e pretos ainda que sejam livres ou libertos” (Apud Tobias, José Antônio. História da Educação Brasileira. São Paulo: Editora Jurisdicredi, 1972, p. 133). Pobres negros!

            Com a República, não se pode desconhecer, a educação ganhou novo impulso. Todavia, de 1889 até hoje, muito ainda se tem para fazer, apesar do que já foi feito. Aliás, com esta frase eu devo estar copiando os discursos de alguns políticos. Bem, ninguém é perfeito.

            Sempre houve dificuldades para resolver o problema da educação brasileira. E nem sempre se pôde contar com a boa vontade dos governantes. Certo estava Darcy Ribeiro quando disse: “As elites brasileiras são cruéis, elas asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância. As escolas não cumprem o seu papel de educar os meninos do Brasil. Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da Educação”. A educação não deve continuar sendo privilégio de alguns, mas deve ser direito de todos.

            Há muito, sim, para ser feito na educação brasileira e sergipana. Não será preciso, aqui, registrar problemas a carecer de soluções. Cid Gomes e Jorge Carvalho saberão quais são eles. Logo, logo. E que possam achar os caminhos que levem a impulsionar a educação no país e no nosso estado. Por enquanto, votos de confiança. Depois, a depender do desempenho, aplausos ou cobranças. A sociedade estará vigilante.

P.S. Cortar cerca de 7 bilhões do orçamento de custeio do Ministério da Educação foi bola fora para um governo que pretende fazer do Brasil uma Pátria Educadora.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 11 e 12 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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