28/12
17:51

Mais um Ano Novo

José Lima Santana*

Entra ano, sai ano, e as esperanças, as mais diversas, continuam a mexer com as pessoas. Passado o Natal, que deveria ser uma festa eminentemente cristã, desde que a Cristandade decidiu absorver a data em que, antes, se celebrava uma festa pagã, a fim de elevar o nome do Salvador da humanidade, na compreensão dos seguidores de Jesus de Nazaré, voltamo-nos para 2015. Que ele venha! E que traga para cada homem e para cada mulher, o que todos esperam. É evidente que, ao chegar o fim do ano, nem tudo que estava no cesto das esperanças das pessoas se concretizou. Para as pessoas de fé, faltou fé? Deus não lhes favoreceu? O que aconteceu, então? As pessoas entram, assim, em desesperanças? E as pessoas que não têm fé, que não se apegam a nada, absolutamente nada, no plano espiritual, o que elas dizem diante da não realização dos seus sonhos, no ano que se finda? Acham que a sorte não lhes favoreceu? Creditam o insucesso ao destino? Acham que não lutaram o suficiente no ano que foi novo e que se acha velho? Complexa é a realidade da vida. Complexas são as pessoas, que se envolvem em tantas complexidades metafísicas ou não. Enfim, complexo se mostra este insosso escriba ao ver findar-se um ano extremamente complexo como foi 2014. Ano de Copa do Mundo. Ano do 7x1, do tétrico 7x1 que amargamos contra a Alemanha, que, aliás, jogou diante dos Canarinhos sem nenhuma complexidade. E quantos gastos complexos com a construção ou reforma de estádios (ou arenas), hein?  


Ano de eleições. Eleições complexas. Resultados complexos. Fatos complexos no decorrer do pleito eleitoral, a começar pela morte de um presidenciável. Ano em que a pérola da Administração Pública federal indireta, desde que foi criada, na década de 1950, a PETROBRAS, desceu a ladeira da forma mais absurda possível. O “mensalão” já está parecendo um “pinto”. Ano também em que os trens do metrô de São Paulo tiveram esqueletos expostos. E que esqueletos! De um lado ou do outro político-administrativo, o país sangrou. O povo brasileiro não merece nada disso. Merece?


Ano complexo este 2014. Na Igreja Católica, este foi o ano em que o Papa, pela primeira vez, ao menos nos últimos séculos, deu uma sacudida formidável na Cúria Romana, encharcada de mazelas. Bravo, Francisco! Que Deus o ilumine, o fortaleça e o defenda! E que a Igreja se toque, por sua hierarquia e por seu laicato, e ponha-se “em saída”. Do contrário, ela vai continuar minguando, fenecendo, fechada como um caramujo. E caramujo só traz doença. Espane, essa Cúria, Francisco! Renove-a! Ela é complexa? Torne-a simples, como simples foram os ensinamentos e a própria vida de Jesus. Simples, mas firmes. Com a mais translúcida autoridade. Eu sei muito bem como será difícil, ou melhor, como está sendo difícil a sua caminhada no comando da Igreja. Mas eis a sua missão: transformar a face da Igreja. O fardo é pesado, eu bem sei. Todavia, os cardeais o foram buscar “no fim do mundo”, em suas próprias palavras, para quê? Para ser mais um sucessor de Pedro? Apenas mais um? Se fosse assim, os purpurados, muitos dos quais devem estar arrependidos, teriam elegido um “de perto”. Aí, sim, tudo ficaria na mesmice de muito tempo. Repito: espane essa Cúria, Santo Padre! Espane a Igreja! 


Ano em que, na terra dos valentes caciques Serigy, Siriri, Aperipê e tantos outros bravos, que lutaram pela liberdade dos seus iguais, um candidato ao governo do Estado venceu a eleição, após tê-la perdido exatos 20 anos antes. A vida política é complexa e complexa foi a carreira do governador eleito, desde o início dos anos 1970. Enfim, ele chegou lá. E terá complexidades políticas e administrativas para vencer nos próximos 4 anos. Aliás, ele encerra 2014 com complexos projetos de lei aprovados pela Assembleia Legislativa. 


Ano igualmente complexo para a administração pública aracajuana. Finalizado com um presentinho (?) de Natal: o aumento de cerca de 14% sobre a tarifa de ônibus, que passou de R$ 2,35 para R$ 2,70. Ou seja, aumento de R$ 0,35. E o povo? Ora, nesse caso e em muitos outros pelo Brasil afora, o povo é apenas um detalhe, como dizia uma comediante na “Escolinha do Professor Raimundo”, liderada pelo inesquecível Chico Anísio. O humor (negro) rolou solto nos três níveis federados da administração pública brasileira, em 2014. É claro, que há sempre exceções. Em tudo ou em quase tudo. 


Amigos e amigas que continuam teimando em ler os meus escritozinhos: não me importam quais são os seus caminhos espirituais. Ou os seus não caminhos. O que me importa mesmo é que vocês possam viver como melhor lhes aprouver. Basta que o seu modo de vida não desfigure as suas preciosas vidas, que não cause danos ao próximo. Vivam as suas vidas em toda plenitude. Carpe diem (aproveite o dia). Aproveitem, pois, cada dia como se ele fosse não o último, mas o melhor dia de suas vidas. E que assim seja nos 365 dias de 2015. 


Teremos mais um ano complexo? Com certeza. Afinal, desde o princípio da vida humana, teria havido um ano não complexo? Em todo tempo e lugar, a vida sempre foi complexa. E continuará sendo. Per omnia saecula saeculorum. E é exatamente isso que nos desfia. Que nos leva à frente. Que nos faz lutar. Lutar para vencer as complexidades da vida. Uns lutam mais e outros lutam menos. Sejam vocês dos que lutam considerando que lutar nunca será em vão. Não se rendam. Não se deixem encurralar por ninguém, nem por nada. Lutem com a dignidade de quem anda com firmeza. Façam o possível para que 2015 possa suplantar 2014. 


Para vocês que me suportaram no Jornal da Cidade e no Blog Primeira Mão, no transcurso deste ano que envelheceu, eu desejo um Ano Novo extraordinário. E que a Luz do Divino Mestre seja a estrela guia de cada um e de cada uma. Isto é, se vocês creem. Se não creem, busquem o caminho que lhes pareça o melhor. Porém, busquem a iluminação, onde quer que vocês possam encontrá-la. 



(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 e 29 de dezembro de 2014. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
27/12
19:20

A nova iluminação na UFS

José Lima Santana
ADVOGADO, PROFESSOR DA UFS, MEMBRO DA ASL E DO IHGSE

 

 

Desde que, um dia, o homem acendeu uma tocha para iluminar a escuridão da caverna, onde ele habitava com a sua família, a iluminação noturna tem sido uma preocupação de todas as comunidades, dos administradores e dos administrados. A escuridão da noite primitiva trouxe dissabores ao homem, dentre eles, a reclusão, angústia, o medo. O homem primitivo era frágil. Precisava vencer as intempéries do tempo e as feras, algumas carnívoras, que o acossavam noite e dia. E à noite, ele se mostrava ainda mais frágil. Quando ele soube se aproveitar do fogo, quando ele aprendeu a acender uma fogueira à porta da caverna ou uma tocha com a qual iluminou o interior da caverna ou um caminho que ele teve que percorrer, a sua vida começou a ganhar uma minúscula partícula de qualidade. Lá atrás, cada passo dado em frente, cada avanço, cada conquista, era tudo muito incipiente. Partículas. Minúsculas partículas. Mas tudo teve o seu começo. E cada passo dado era como se fosse um toque de avançar.

Não era à toa que o homem primitivo adorava o Sol. O deus Sol. A luz, a claridade, que lhe dava segurança, que, do romper estonteante da aurora aos inenarráveis matizes crepusculares, lhe possibilitava uma visão nítida do que estava ao seu redor. A luz solar dava esperança. Na claridade estava o bem. Na escuridão estava o mal. Bem e mal: luz e treva. Era preciso, pois, vencer a escuridão. O homem que aprendeu a domar e a conter o fogo, aprendeu também a buscar meios mais eficazes para iluminar o breu da noite.

Se até hoje, porém, o homem não pode vencer por completo os véus da noite, ao menos pode mitigá-los. O processo da iluminação noturna passou por diversas etapas e vários foram os meios utilizados até chegar à iluminação por meio da energia elétrica, nos fins do século XIX. De lá para cá, o processo só faz evoluir, incluindo novas e alternativas fontes de energia. A iluminação de áreas públicas, ou que servem ao público, tornou-se não apenas uma questão de comodidade, de conforto, mas, também, e, sobretudo, de segurança. Em suma, uma questão de necessidade pública. De qualidade de vida. E tornou-se, enfim, um direito das pessoas. Nenhum gestor público pode descuidar disso.

A Universidade Federal de Sergipe, no Campus de São Cristóvão, deixava muito a desejar no quesito iluminação de suas áreas: vias de circulação, estacionamentos etc., como também acontecia em outras áreas de sua infraestrutura, a exemplo do esgotamento sanitário com o respectivo tratamento, cuja obra está em franco andamento. Urgia uma tomada de posição, para recuperar o tempo perdido. Os reclamos vinham de todas as categorias formadoras da comunidade acadêmica: corpos docente, técnico-administrativo e discente. Era inegável que a situação não podia continuar como estava por anos a fio. Enfim, a decisão foi tomada no início do ano, após cuidadosos estudos técnicos a cargo da antiga Prefeitura do Campus, hoje Superintendência de Infraestrutura. Os arquitetos, engenheiros e técnicos do DOFIS (Departamento de Obras e Fiscalização) conceberam o projeto que redundou na licitação para o melhoramento da iluminação. A execução do contrato está em fase adiantada. E a nova face da iluminação da Cidade Universitária Professor José Aloísio de Campos já pode ser contemplada. A semiescuridão de antes já começa a ficar como uma sombra do passado.

De acordo com dados coletados junto ao DOFIS, o objeto do contrato ora em execução é a obra de reforma e ampliação do sistema de iluminação pública do Campus de São Cristóvão, com vistas a implantar 229 novos postes com 4 pétalas, 2 postes com 3 pétalas e 1 com 2 pétalas, todos com 16 metros de altura. A iluminação será à base de lâmpadas de vapor de sódio de 400w, totalizando 924 lâmpadas. A obra contará também com 176 postes com 4 metros de altura, para as localidades onde as copas das árvores atrapalhariam a incidência luminosa, refratando assim grande parte dos lúmens emitidos pelas lâmpadas. Nesses locais serão empregadas 704 lâmpadas de vapor de sódio de 250w. Para fazer a interligação dos postes serão utilizadas 375 caixas de passagem de variadas dimensões. Será também realizada a obra de reforma da iluminação da quadra próxima ao Colégio de Aplicação - CODAP, onde serão instalados 8 projetores com lâmpadas de vapor metálico de 400w, de modo que contemple uma iluminação bem distribuída por toda a área da quadra poliesportiva. Ainda farão parte da obra 4 subestações aéreas com um transformador de 225 KVA, um de 150 KVA e dois de 112,5 KVA. Quanto à parte de reforma, a obra tem por objetivo a reforma de 67 postes de 21 metros que já fazem parte da iluminação da Universidade. A execução da obra começou em 18/08/14 e está prevista para ser concluída em 13/02/15, ao custo de R$ 4.356.677,30.

Para o professor Angelo Roberto Antoniolli, reitor da UFS, “o compromisso da gestão atual é dotar a Universidade, em todos os seus campi, de uma infraestrutura que possibilite a comunidade acadêmica cumprir o seu papel, no processo ensino/aprendizagem, com a qualidade que se faz necessária. Professores, pessoal técnico-administrativo e alunos merecem trabalhar num ambiente de segurança e comodidade, que lhes possibilite rendimento e qualidade”. E arremata: “Aos poucos, os desafios vão sendo vencidos, como, um dia, o homem aprendeu a vencer os dissabores trazidos pela escuridão noturna”. É o que a comunidade universitária espera. Nos dois anos da gestão atual, completados no mês passado, o processo de melhoramentos na infraestrutura da UFS tem avançado, apesar de algumas dificuldades. Mas estas devem ser paulatinamente debeladas, e mais facilmente serão com a conjugação de esforços de todos os setores e agentes que têm uma fração de dever funcional. Afinal, numa gestão comprometida com o bem estar coletivo, ninguém trabalha sozinho ou para que o seu trabalho individual se destaque. O trabalho coletivo é destacado no conjunto. E é nisso que acredita o reitor da UFS.

Com a remodelação de sua iluminação, no Campus que lhe serve de sede, a Universidade Federal de Sergipe demonstra que continua a fazer o que lhe compete: iluminar vidas e caminhos. Em todos os sentidos.



Coluna José Lima
Com.: 1
Por Eugênio Nascimento
21/12
20:05

O canto de Araripe Coutinho

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

O poeta Araripe Coutinho tomou o barco que o haveria de levar “ao frio silêncio”, como dissera o poeta alemão Friedrich Adolf Axel Detlev von Liliencron (1844-1909), no poema “Calefrio Aquerôntico”, em tradução de Manuel Bandeira. Eu soube do passamento do amigo quando, na manhã da terça-feira, dia 9, estava para embarcar no aeroporto de Recife, de volta a Aracaju, após o feriado de 8, isto é, do dia consagrado à Padroeira de Aracaju, Nossa Senhora da Conceição. Aliás, no sábado, dia 13, dia de Santa Luzia, o poeta, carioca de nascimento e sergipano de alma e coração, completaria 46 anos. Dias antes do seu passamento, através do Facebook eu lhe mandei duas mensagens, assim que soube do seu estado de saúde, internado que ele estava no Nestor Piva. Surpreendeu-me, pois, a notícia de sua morte.

Araripe era irrequieto. Surpreendente. Irreverente. Como pessoa, como poeta e como comunicador. Viveu ao seu modo. Ao seu modo, enfrentou a vida. Mostrou a cara. Fez estripulias. Incomodou alguns, com o seu jeito de ser e com o seu canto sem amarras. Querido por muitos, não bem visto por alguns. Isso lhe incomodava? Não sei ao certo, mas é possível que não. O que sei é que eu tive por ele grande apreço. Um poeta que alguns não compreenderam, mas que muitos apreciaram. E que eu, desde cedo, reverenciei. A tal ponto que, ainda no corpo do seu terceiro livro, “Sede no Escuro”, publicado em 1994, pela Editora João Scortecci (São Paulo), que reuniu os poemas do primeiro livro e outros inéditos, escrevi o seguinte texto, intitulado “Um porto sob as estrelas”, nas páginas 88/89:


Araripe Coutinho é um jovem irrequieto, um poeta irrequieto. Está sempre buscando... E o caminho do qual ele se serve para as buscas constantes é o caminho da poesia. A poesia de Araripe, que, em livro, estreou com “Amor sem Rosto” (1990), passando por “Asas da Agonia” (1991), e tendo sequência, agora, com “Sede no Escuro”, reflete, no conjunto, a mensagem de quem não teme desnudar-se nem desnudar. É poesia que freme, que queima, que contagia.


São marcas presentes no seu poetar: o erotismo, a angústia, as dores do mundo, mas também o aconchego, a ternura... O seu canto é atual. Como bem disse Núbia Marques, Araripe “é poeta dos nossos dias”. Poeta sem compromissos formais. O seu verdadeiro compromisso é pôr a poesia nas mãos do leitor. Nas mãos? No coração e na mente. Os seus poemas são chamas que ele acende para vê-las queimando pudores e queixumes, isto é, para vê-las devorando a hipocrisia do mundo. A obra poética de Araripe chega a escandalizar? Oxalá assim seja! Os lúcidos estão sempre escandalizando: “As galheta sobre o altar / O círio aceso / Eu de joelhos / Comungando da cólera de Deus e do diabo”, ele verseja. Tais versos, por certo, escandalizam alguns.


O poeta tem sede no escuro. Sede de amor e de amar, de percorrer caminhos novos, iluminados, pois a poesia é luz que irrompe no escuro, que clareia as trevas das consciências humanas. Mas o poeta também busca respostas para as suas indagações mais íntimas, nos momentos de angústia e incerteza. Diz ele, por exemplo: “Por que haveremos de continuar / nós que estamos / tão cansados de rever / os barcos e as náuseas?”. Todavia, ele continua. Continua porque o poeta vive para buscar, para dar do seu canto e para doar-se. Barcos e náuseas são partes do mar e do ato de navegar. E o poeta Araripe Coutinho navega por mares revoltos ou de calmaria, na incessante procura de um porto sob as estrelas. As estrelas são as guias mestras dos poetas. Dos poetas que, como Araripe, ousam exclamar: “Deixo para amanhã o despertar / Do outro. E enquanto dormes / Eu canto”.


Eis, assim, o texto que eu escrevi 20 anos atrás, saudando um poeta que viveu em constante busca. Os caminhos que ele percorreu, na vida pessoal, profissional ou literária, foram vários. Dissolutos ou não. Infindáveis caminhos. A sua poesia foi profana, iconoclasta, com laivos de sacralidade, sim(bólica), dia(bólica)? Foi, simplesmente, poesia.


Certa vez, perguntaram ao poeta Mário Quintana o que se deveria fazer para ser poeta. Ele respondeu: “Ler, ler, ler. Escrever, escrever, escrever”. Araripe foi um leitor voraz. Ele leu muitos e bons poetas. Nacionais e estrangeiros. Leu muito e muito escreveu. Ele produziu versos e poemas de cunho literário menor, como sói acontecer com qualquer um. E escreveu versos e poemas de espantar pelo estilo, pela linguagem empregada, pela ousadia. Em “Lírica” (“Sede no Escuro”) o poeta escreveu algo que, na minha compreensão, ele mesmo jamais pôde superar: “Quem se lembraria / de trazer-me um pêssego / numa tarde de angústias?”. Forte. Contundente. Melancólico. Dilacerante.


Não foi numa tarde de angústias, mas, sim, numa noite, numa madrugada, quem sabe, de desalento, de dor, de agonia, que ele se foi sem que alguém lhe trouxesse um pêssego. Vida breve...? No livro “Como Alguém Que Nunca Esteve Aqui”, de 2005, ele escreveu: “Viver não acaba nunca”. Eis a ideia do eterno. No livro “Passarador”, de 1997, ele disse: “Meu verso morreu de fome / morreu de amor / morreu de sede”. De que morreu o poeta Araripe Coutinho? De fome de amor? De sede de poesia? Como é o amor? No mesmo “Passarador” ele responde: “O amor é violáceo como a morte”.


O poeta que se foi, mas que não se foi completamente, vez que a obra há de ficar e perdurar, tinha a correta compreensão da dimensão da poesia: “As dores dos homens não cabem no poema” (Poema “Entre o Voo e o Pouso”, do livro “Asas da Agonia”). A poesia não contém o mundo. Não contém os homens. Não pode conter as suas dores imensas. O poeta também pareceu ter sempre a exata dimensão da própria vida. Vida que passa. No poema “Tempo de Silêncio” (“Asas da Agonia”) está dito: “Quando veio o tempo de silêncio / Eu já estava preparado para o sacrifício”. E no poema “Meia Luz” (“Asas da Agonia”) ele vaticina: “Na meia luz meus olhos fecham sós”. Os olhos do poeta se fecharam. Sós. No poema “Para um poeta é difícil” (“Sede no Escuro”) ele se antecipou ao tempo: “Para um poeta é difícil morrer em meio a todos / Melhor no silêncio, numa ponte deserta”. Até parece que ele sabia. Salve poeta! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 21 e 22 de dezembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
14/12
09:40

Testa de arrombar navio

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

            A testa de Zé Pingo era proeminente. Parecia antecipar-se ao resto da cabeça. Era, sim, uma “testona” danada. Ou, no melhor vernáculo, uma testaça. Ele era mais velho do que eu uns cinco anos. Quando se jogava peladas no improvisado campo da Praça João Ventura todo mundo tinha medo de subir para cabecear a bola, se ele subisse junto. Uma testada dele seria como uma cabeçada de carneiro. Fatal. Mas ele era um bom companheiro, líder das brincadeiras de “mãos ao alto”, em que os meninos imitavam cenas dos filmes de faroeste, das disputadas linhas de futebol com bola de borracha, das alegres fintas de piões, que a gente os comprava a Vangelino do Barreiro, que ficara maluco após ser espancado na cabeça, nunca se soube por quem. Ele bebia e quando estava ébrio, sentava numa calçada qualquer e ria quase sem parar. Quando via alguém se aproximando, dizia: “Ô arrepiado!”. E ria. Vangelino era, porém, um exímio artesão. E fazia mil e uma utilidades com a madeira.  

Líder era também Zé Pingo nos folguedos de dar cambalhotas nas águas do tanque, vizinho ao açude. Neste, as mulheres lavavam roupas. Naquele, os homens tomavam banho e lavavam os animais de montaria. Mas, eu falei em cambalhotas? Ora, bolas! Cangalapés. Era assim que as pessoas diziam. E líder igualmente ele era na “arte” de surrupiar frutas nos sítios e quintais alheios. Na adolescência, beirando a juventude, ele também liderava as idas às casas de ponta de rua, que eram casas de pobres mulheres que vendiam o que lhes restava do próprio corpo consumido por anos de sofrido mercadejar. Pobres coitadas, que ensinavam aos meninos a fazerem “coisa feia”, como se costumava dizer. Mulheres excluídas da sociedade e da religião.

Dona Filó, mãe de Zé Pingo, recebia um volume acentuado de reclamações. “Zé Pingo fez isso, Zé Pingo fez aquilo”. Todavia, eram só umas traquinagens próprias da idade. Nada demais. Naquele tempo, não havia drogas, a não ser um ou outro cigarro que se fumava escondido e em conjunto, cada um dando uma tragada. Não havia furtos da parte da meninada, salvo os “assaltos” às fruteiras. Não havia falta de respeito aos mais velhos. A autoridade dos pais não era contestada. E ainda por cima, havia as aulas de catecismo na escola, onde se ensinava à meninada o amor a Deus sobre todas as coisas, o conhecimento dos dez mandamentos, dos pecados capitais e das rezas básicas, como o padre-nosso, a ave-maria, o credo e a salve-rainha, além de belas e comoventes histórias bíblicas, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Instrução para o que era bom não faltava. Quanto a tirar frutas dos sítios e quintais alheios não se constituía em pecado, crime ou falta grave. Era algo corriqueiro, embora alguns proprietários encrencassem para valer e botassem a meninada para correr. E quanto às primeiras estripulias carnais, bem, isso era da natureza das pessoas, como dizia o mestre Tertú, ferreiro e avó de Zé Pingo. Pecado, porém, na visão do Cônego Miguel Monteiro Barbosa, que bradava em alguns sermões: “Ai dos fornicadores!”. Menino de calças curtas, eu lá sabia o que era fornicador?

            Zé Pingo. Por que o nome? Porque ele nascera franzino, um pingo de gente, e assim crescera. Acabou virando um varapau de testa saliente. Um verdadeiro “canela seca”. Porém, quando era preciso, ele se mostrava valente como nenhum outro menino daquele tempo. Lembro-me de quando um valentão das bandas do sertão, segundo se apurou, apareceu no tanque para dar de beber a uma tropa de burros de carga. O tal sujeito, fazendo uso de um relho com ponta revestida de chumbo, cismou de botar uns oito meninos para correr, que estavam nadando nas águas do tanque. Tinha mesmo acertado dois dos meninos com a ponteira cortante do relho de estalar. Aquele, contudo, não era o dia de sorte do valentão tangedor de burros. A razão? Ora, Zé Pingo era um dos oito que ali estavam. Sendo o rei do cangalapé, e ao ver os dois irmãos açoitados, ele deu uma voadora na caixa dos peitos do valentão, que caiu na beira d’água, ciscando como uma galinha velha e choca. Tomou-lhe o relho e lhe cobriu de lapadas. Incontáveis. A camisa do sujeito ficou em petição de miséria. Juntos, os meninos espantaram os burros e botaram o valentão para correr, açoitando-lhe com galhos de ingazeira, que era árvore por ali abundante, mas já não é mais. O relho de ponteira de chumbo? Ficaria nas mãos de Zé Pingo, como um troféu. Naquele tempo, os meninos aprendiam muito cedo a ser homens. Como se dizia no vulgo, a precisão fazia a ocasião.

            Dona Filó, mãe de Zé Pingo, tinha uma vizinha chamada Domitila, que era mãe de três filhas: Florisa, Florinete e Florina. Todas elas eram sardentas. Mas não eram feias. Eram, ao contrário, graciosas. Uma delas enfeitiçou Zé Pingo. Feitiço brabo, desses de desancar qualquer cabra. O problema era que a feiticeira parecia não dar bolas para ele. Melhor dizendo, ela não o enfeitiçara: ele se deixara enfeitiçar. Sem mais nem menos. Caprichos de um músculo incompreensível, que se chama coração. E peço vênia a quem ousa ler este escritozinho para rememorar os seguintes versos de Menotti Del Picchia, no poema “Juca Mulato”, uma das pérolas da poesia brasileira, no meu pobre entendimento: “Ter a um sonho de amor / o coração sujeito / é o mesmo que cravar / uma faca no peito. // Esta vida é um punhal / com dois gumes fatais: / não amar, é sofrer; / amar, é sofrer mais”.

            Pobre Zé Pingo. Adolescente. Ainda cheirando a mijo, como diziam algumas mulheres de ponta de rua. Apaixonado. E o pior, sem ser correspondido. A menina sardenta jamais teve olhos para ele, que passou a viver pelos cantos da casa, amolengado. O coração sendo ferido devagarzinho. A cada dia, uma punhalada. Uma agonia. Um sofrimento. De tudo isso, eis o pior: ele jamais tivera coragem para confessar o que sentia por Florina, a mais nova das três irmãs. Amor platônico. O mais temível dos amores. Amor que é, e não é ao mesmo tempo. Amor unilateral, por isso mesmo o pior dos amores. Amor que nem Eros dava jeito. Um dia, porém, ele criou coragem e mandou um bilhete para Florina, no qual estava escrito com sua letra garranchenta e errática: “Eu ‘qero’ ser ‘fêliz’ ‘comtigo’. Mim responda”. Ah, Zé Pingo, que, hoje, eu não sei por onde anda: melhor teria sido não mandar bilhete nenhum! Bem melhor teria sido passar sem aquela resposta, que acabaria por despedaçar o que restava do seu coração afoito e sofrido.

            A resposta veio na forma oral. Florina, cruel, disse à irmãzinha de Zé Pingo: “E eu quero namorar um sujeitinho da testa de arrombar navio?”. Como Val, a irmã menor, lhe dera a resposta na presença de outros meninos, que foram, naquela tarde, tentar arrancar o amigo de casa, a resposta correu pelo bairro. E foi, então, que, na boca dos descarados, e pelas costas dele, o apelido mudou de Zé Pingo para Testa de Arrombar Navio.

            Tempos depois, eu lembrei que assistira a um filme sobre guerras romanas em que as naus dos filhos de Rômulo e Remo tinham uma espécie de aríete (cabeça de carneiro), que destroçava as naus inimigas. Provavelmente, Florina também o assistira. Afinal, as sessões das segundas-feiras, no Cine São José, eram cheias da meninada do meu bairro. E as três irmãs eram frequentadoras assíduas, acompanhadas do irmão mais velho, Filadelfo, que desposaria uma irmã de Zé Pingo.

 

 

 

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 14 e 15 de dezembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
07/12
07:36

A calcinha que deu o que falar

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

“Fim de mundo. Decerto, fim de mundo”. Estas foram palavras de Pedrinho do Taborda quando soube, inicialmente, do sucedido. Velho carreiro, dono das três melhores juntas de bois da região e do carro de melhor chiado, de melhor cantoria. Ora, dava gosto ver os seis bois encangados, não pelas cangas que os oprimiam, mas pela beleza do sexteto: Melado, Fina Flor, Dengoso, Rojão, Vermelho e Véio Manso. Mais bonitos não podia haver. Mais ativos também não. Pedrinho do Taborda, povoado de nascimento, mas já não mais de residência do carreiro, era pai de cinco filhos, todos eles homens. E disso ele se gabava: “Sou galo de crista vermelha e levantada. Sou galo macheiro. Galo de crista descorada e caída é galo femeiro. Não sou desse tipo”. Politicamente incorreto, dir-se-ia hoje. Sua voz era discriminatória contra as mulheres? Não era isso. Era apenas o seu modo rude de pensar. Tanto era que não se conhecia nas redondezas homem mais zeloso com a sua família, com a sua casa e com a sua mulher. Rude, sim, mas homem de dar o braço a Dona Estelinha nas idas à feira semanal da cidade ou nas ocasiões de missas e de festas religiosas na capela do povoado, quando lá ainda morava, ou nas missas e procissões na igreja matriz. Besteira? Naquele tempo, não era não. O machismo desalmado dos homens não permitia, normalmente, essa folgança. Poucos homens do interior, dos raquíticos povoados, davam o braço às suas respectivas mulheres, fora de casa. Então, pensar que Pedrinho era discriminador era pensar bobagem. E ninguém está isento de pensar umas bobagens de vez em quando. Mas a ninguém é dado dizer bobagens a vida inteira.

O fato, contudo, que levou Pedrinho do Taborda a pensar no fim do mundo ocorreu na cidade, quando ele já estava em idade avançada e já não tinha mais o seu carro de bois, que eu conheci na minha infância e nas estradas da Caiçara, da Cobra d’Água e do Itaperoá. Deu-se o fato numa tarde prenunciadora de chuva, com vento soprando e levantando poeira nas ruas sem calçamento, ou fazendo rodopiar em pouca ou média altura nacos de papéis, nas ruas pavimentadas. Vez ou outra, formavam-se pequeninos e ligeiros redemoinhos. Pessoas supersticiosas diziam, à época, que o diabo traquinava nos redemoinhos. E até havia quem, diante deles, fechava portas e janelas.


Ah, como eu adoro enrolar os leitores! Todo mundo deve estar esperando que eu fale sobre a calcinha. E eu nem aí até agora.


Naquela tarde, um aglomerado de pessoas, e melhor é dizer logo, de homens, postava-se na calçada da Pensão Comercial. Era dia de campeonato de gamão. Pessoas iam e vinham, passavam em frente aos jogadores e eles não tomavam conhecimento de ninguém. Cinco tabuleiros espalhavam-se na calçada. Além dos jogadores tinha os perus. Perus eram os que peruavam os jogadores, ou seja, assistiam e torciam por uns ou por outros. Concentração total.


Era dezembro. Ainda não tinha caído nenhuma trovoada. Mas os sinais já eram fortes. Uma boa pancada de água era esperada há uns dez ou doze dias. Luciana Maria, filha de Maneca Jurubeba, capitão reformado da Aeronáutica que resolveu retornar à terra natal após o merecido descanso, atravessava a Praça do Comércio, vindo da Prefeitura Municipal, onde trabalhava. Luciana Maria era casada com Fifito de Zélia do Sapé, dono da loja de miudezas “Novo Horizonte”, situada na Rua do Melão. Mulher aprumada, muito bem possuída de apetrechos corporais, espécime morena clara de longos cabelos castanhos, cintura do tipo violão, ancas na medida certa do corpo, rosto mourisco e olhos da cor do mel mais mel que se poderia conhecer. Em suma, uma mulher e tanto. Boa esposa, boa mãe, boa funcionária. Boa de tudo, ao menos assim parecia. Ela tinha nas mãos duas pequenas sacolas. E foi apanhada de supetão. Pobre mulher! Não teve tempo para esboçar defesa. Um vento buliçoso, vadio, traiçoeiro vento de fim de tarde, como que vindo do baixio do açude, não muito longe dali, levantou a saia rodada godê de Luciana Maria, justo quando ela passava em frente à Pensão Comercial. Tudo bem que foi num átimo. Mas o pano de baixo ficou à vista. Cena igual, ali, não se tinha notícia. Foi, sem dúvida, o primeiro alumbramento daquele tipo, naquele pedaço da cidade, diante daqueles homens. Nem todos viram a calcinha de Luciana Maria. Mas quem disse que viu, garantiu que era de cor vermelha, ou amarela, ou estampada, ou branca, ou preta, ou de listas. Cada um que disse que viu a vestimenta miúda da surpreendida mulher, afirmava de pés juntos que era dessa ou daquela cor. Houve até quem disse que ela estava sem. Sem calcinha, claro. Um sujeito de boca suja andou dizendo que a mulher de Fifito era uma vagabunda porque não usava calçola. Andou dizendo à boca miúda, mas o dito chegou aos ouvidos do marido zeloso. Uma surra de cipó caboclo fez com que o falastrão nunca mais abrisse a boca porca para falar mal de mulher alheia. Uma surra bem dada de cipó caboclo era para deixar marcas inapagáveis. E deixou.


E foi assim que a notícia alcançou os ouvidos de Pedrinho do Taborda, enquanto, naquela mesma tarde, ele pitava o seu cigarrinho de palha, pé duro, de fumo por ele picado e por ele enrolado. Disseram-lhe que uma mulher teria ficado com as partes fracas ao Deus dará, na frente de um magote de homens, no centro da cidade. Uma mulher com as encomendas à mostra no meio da rua era, sim, o fim do mundo. A notícia chegou ao telheiro do velho carreiro de forma completamente distorcida. Disseram-lhe que a mulher tinha levantado a saia, tirado e mostrado o pedaço de pano. “Miséria! Uma sujeita assim num vale uma casca de siri podre!”, ele disse. Quando, porém, ele ficou sabendo, dias depois, do fato nu e cru, como deveras sucedeu, exclamou: “Vento levantando saia de mulher no meio da rua não é assunto que mereça comentário de homem que tem vergonha na beirada do focinho”. E fulminou: “Quem ouve o que diz o Filho de Deus, só toma conta de sua própria vida, o que já tá de bom tamanho”.


(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 7 e 8 de dezembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
30/11
11:40

Resguardo de mulher parida

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

Desculpem-me os redatores do Jornal da Cidade. Desculpem-me os leitores e as leitoras, incluindo internautas. Eu hoje, neste último domingo de novembro, não tenho o que lhes dizer. Estou com a cabeça ruinzinha. Mas, ruinzinha mesmo. Não sai nada de proveito. Nenhum assunto que mereça a atenção de quem lê. Que tenha algum atrativo, ainda que mínimo. Aliás, preciso fazer uma correção: a cabeça não está ruinzinha neste domingo, a bem da verdade. Isso foi na quinta-feira, dia 27, que é o meu prazo para enviar o artigo à redação do Jornal. Amanheci com a cabeça oca. E oca ela permaneceu até a meia-noite. Vi, atônito, os ponteiros se juntarem num abraço de enamorados. Abraço apertado de tirar o fôlego, se fôlego os ponteiros tivessem. Abraço mais sem-vergonha. Mais safadinho. Uma colada das seiscentas! Pronto. Já era meia-noite. Logo, meia-noite e um minuto. Sexta-feira. Nada. Pensei: é hora de pedir arrego. De deixar de lado as páginas do Jornal aos domingos. Afinal, desde 2010 eu tento tapear os leitores com um bolodório danado. Não consegui me acertar como “escrivinhador”. Não segui uma linha estética. Não busquei sedimentar os escritos – pobres escritos! – em torno de uma linha apropriada. Escrevi sobre o que quis. Sobre o que foi possível escrever. Às vezes, de última hora eu inventei causos. Outras vezes, busquei causos ouvidos na minha infância. E noutras mais, eu escrevi sobre assuntos do momento, a exemplo de questões políticas. A preferência de quem ousa me ler – e isso para mim é uma honra – parece que, na ordem, recai sobre os causos e a política. Os causos divertem, e mais divertiriam se o contador tivesse veia, tivesse tutano. Os assuntos políticos chamam a atenção de alguns que gostam dos enredos da política tupiniquim. Ademais, outros escritos, outros assuntos não chamaram tanto a atenção, salvo um ou outro.

Entreguei os pontos. Vou-me embora pra Pasárgada, como sugeriu Manuel Bandeira, embora nem lá nem aqui eu seja amigo do rei. Porém, onde estará a minha Pasárgada? Decerto, não estará no Irã. Pasárgada, como muitos devem saber, obviamente, era uma cidade da antiga Pérsia, e atualmente é um sítio arqueológico na província de Fars, no país citado. Foi a primeira capital da Pérsia Aquemênida, no tempo de Ciro II. É também um Patrimônio Mundial da UNESCO. E alguém quer saber disso? Ou relembrar, quem já o sabe? É possível que não. Deixo Pasárgada para lá. E aí, vou deixar de publicar um escritozinho qualquer, assim no vapt-vupt? Que dilema! Para que serve uma cabeça oca? Será que o jornalista Luiz Melo, que recebe os meus escritos, desde que Marcos Cardoso de lá se afastou, me arranjaria de graça, na base do 0800, um anúncio miúdo do tipo: “Procura-se enchimento para uma cabeça oca”? Ou, então, “Oferece-se uma cabeça oca a preço de ocasião”. Psiu! Ô Luiz Melo, dê as caras, cara! Arranje-me aí o espaçozinho para um classificado. E não venha pra cá me dizer que isso é assunto do setor comercial. Nem venha que não tem! Ah, mas pensando bem, quem vai ler um anúncio dos tipos acima citados? Nem um nem outro. E se alguém o ler, não lhe dará a mínima. Estou ferrado.

O tempo vai passando. A madrugada da sexta-feira chegou ao meu quarto, onde eu escrevia essa besteira, por absoluta falta de assunto, por não saber o que escrever, que pudesse servir como artigo, crônica, causo ou fosse lá o que fosse. Senti-me seco como a nascente do rio São Francisco. Seco como o reservatório da Cantareira, em São Paulo. Seco como os peitos da cadelinha Miumiu, que já está bem velhinha e dorme o dia quase todo, na casa de D. Ceicinha do finado Caçulo Varandão, que foi dono da fazenda Mulungu e do famoso cavalo ruço Peido de Velho. Que nome, hein? Estou mesmo seco. Sem assunto, sem assunto, sem assunto. Todavia, por falar em secura lembrei-me de Severino do Velame, marido da professora Mariinha e pai de Tutuca, Biribinha, Tontonca, Zibelina, Coriboca, Beibei, Mirucha, Teco e Mocinha. Nos idos de 1970, Severino fez uma aposta com Marciano de Sá Mirandinha, como a mulher de Fausto de Maria Preta jamais engravidaria. “Ela tem o útero seco”, dizia Severino. “Não tem como segurar a semente do marido. Não tem como gerar menino. Ela é mais seca do que cuia de farinha em casa de quem não fez feira”.

Meu Deus! Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Deus que vela por mim e por quem também Nele acredita. O que tinha Severino a ver com o embuchamento ou não de Isaurinha, mulher de Fausto de Maria Preta? Nada. Aparentemente, nada. Ocorre que ele era apostador nato. Apostava em tudo. Inventava no que apostar. E inventava mirabolantes justificativas quando perdia algumas apostas. Desafiou Marciano estipulando o prazo de dois anos como Isaurinha não pegaria barrigada. O casal estava casado há exatos outros dois anos. Seriam quatro anos de vãs tentativas, no conjunto. Ora, se havia se passado dois anos sem sinal de choro de menino novo, não custava apostar em mais dois. A aposta foi feita. Um bezerro pé duro de Severino contra um potrinho castanho de Marciano. Aposta selada na palavra. Melhor cartório não havia. Palavra de homem versus palavra de homem. Antigamente era assim. Valia o dito.

Um ano e meio se passou e eis que Isaurinha apareceu embuchada. Severino perdeu a aposta. No dia em que D. Eurides, parteira afamada, aparou dois meninos da barrigada de Isaurinha, logo dois, como se fosse para recuperar o tempo perdido, Severino levou ao sítio de Marciano o garrote pé duro, que, a bem dizer, já era um boi feito. Aposta perdida era aposta a ser paga. Chegando à porteira do sítio, Severino encontrou o vencedor da aposta, atarefado em consertar uma cerca de arame farpado. “Olhe aqui o seu garrote”, disse o perdedor. Ao que respondeu Marciano: “É, “seu” Severino, parece que Fausto de Maria Preta tem partes com São Pedro: ele molhou direitinho o útero seco de Isaurinha”. Severino, então, mandou ver: “São Pedro num tem nada a ver com isso, não. Dizem por aí que quem molhou foi o carinha novato da DESO, que é vizinho do casal”. E Mariano, mostrando espanto: “O quê? Mas o carinha da DESO é o meu filho Zezinho”. Severino emendou de primeira: “Então, você ganhou um garrote e dois netos”.

Bem. Jornalista Luiz Melo, deixe o espaço do meu anúncio para depois. E vamos marcar um dia para uma cervejinha. Lembrando que Eugênio Nascimento agora só bebe cerveja zero álcool. Cerveja sem álcool... Até parece resguardo de mulher parida. Vôte!

 

 

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, sob o título “Sem assunto”, edição de 30/11 e 1º/12/14. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
23/11
10:13

Pano de’nágua

José Lima Santana*
Professor do Departamento de Direito da UFS

Segunda-feira é um dia preguiçoso. Ou melhor, é um dia que dá preguiça em muita gente. Afinal, nenhum dia poderia ser dado a espreguiçamentos. Afora o bicho chamado preguiça, lento demais da conta, quem tem preguiça é o bicho homem, enquanto espécie. Embora digam por aí que tem animais irracionais também dados a uma vadiança. O cachorro Pituca, vira-lata rabugento de Pedro de Clarinha de Osório Gato, era desse tipo preguiçoso. E imaginem os leitores e as leitoras que o danado era tido como cão de caça. Valei-me! O bicho só vivia deitado, deixando escapar um magote de pulgas e soltando bufas pra danar. Para acompanhar o dono numa caçada de preás, quando ainda se podia fazer isso, ou seja, quando inadvertidamente se matava à larga os bichinhos do mato, era um Deus nos acuda. Pituca era do tipo que nem servia para rodopiar atrás do próprio rabo. “Fio” da gota molenga! Mas, na hora de bater para o bucho uma tigela de estanho cheinha de café com farinha, que sempre foi comidinha de cachorro de pobre, ele era ativo como só vendo. Comia e deitava. Coçava as pulgas e bufava. Um horror! Afora isso, preguiçoso mesmo é o bicho homem. Isto é, alguns sujeitos e algumas sujeitas o são. Ah, segunda-feira, dia mais pachorrento...! Dia que nem deveria existir no semanário de atividades. Então, a semana começaria na terça-feira? Daria no mesmo.

O primeiro dia de batente, para quem é do batente, é ruinzinho pra danar. E se o sujeito é dado a tomar todas no domingo, de ir, por exemplo, à praia de Atalaia, quem é de Aracaju, empanturrar-se com não sei quantos caranguejos, entupindo o casco com vinagrete, para dar aquela chupada, que faz barulho, aí então a segunda-feira vira um suplício. Deve ter até quem, ao acordar na segunda-feira, às vezes cutucado pela madame, diga ou pense em dizer: “Pai, afasta de mim este cálice”. E aqui, claro, eu não cometo nenhuma heresia, nenhum sacrilégio ao rememorar a frase angustiante do Verbo Encarnado, naquele momento, talvez, tormentoso, em que a humanidade do Filho apelou para a misericórdia do Pai, para, a seguir, entregar-se por completo à salvação de todos nós, ao proferir: “Seja feita a tua, e não a minha vontade”.

Segunda-feira. 17 de novembro de 2014. Acabei de chegar de viagem. Depois de uma semana inteira em Brasília (Vôte! Três vezes vôte!), em intermináveis reuniões, fui assistir ao meu Flamengo escapar de vez do rebaixamento, para, assim, continuar, ao menos por enquanto, como o único grande clube de futebol do Rio de Janeiro a não descer os degraus com destino à “segundona”. Tenho que dar uma batidinha na madeira. Batidinha uma ova! Dei foi uma “batidona”! Pra lá, azar... Cheguei à sede de uma entidade pública federal e fiquei, numa fila, ouvindo as pessoas lorotando enquanto cada uma aguardava a vez de ser atendida. Conversa daqui, conversa dali, e eis que um sujeito vestindo a farda de uma empresa de terceirização de mão de obra, dialogava com outro da mesma empresa, que vestia a mesma farda. Conversa animada de quem estava, no começo da tarde, ainda tentando se acostumar com aquela segunda-feira. Depois de frases e risos, um indagou ao outro: “Quando será que a firma vai dar pra gente uma camisa decente? Essa parece que foi comprada na sulanca”. E o outro: “Essa firma que t’aí? Nunca que ela vai dar uma coisa que preste!”.

Fiquei pensando, e quase o fiz em voz alta: “A terceirização de mão de obra não é de toda má, na Administração Pública, mas se os gestores não tomarem cuidado, recebem cada bucha, cada furada! E os empregados também”. No momento lembrei-me de vários casos de algumas empresas desse tipo de prestação de serviços, que acabaram “quebrando”, deixaram os empregados a ver navios e a Administração Pública contratante com encargos dobrados. Responsabilidade solidária.

Mas, tornando aos dois sujeitos, que continuavam em animada conversa vespertina, o que fizera a indagação comentou: “O motorista Piaba disse que esse tecido da camisa parece pano d’nágua”. E o outro: “E que cabrunco é pano d’nágua?”. Ao que o interlocutor respondeu: “E eu lá sei o que é pano d’nágua!”. Os dois gargalharam. Outras pessoas na fila também sorriram, principalmente uma senhora pra lá de sexagenária. Esta riu às escâncaras. Era uma mulher simples do povo, dessas que, achando graça em algo, não têm pejo de lascar uma estrepitosa gargalhada, que tanto deve lhes fazer bem, e que tanto, também, são censuradas por certas pessoas que parecem viver de mal com a vida. Ah, como soa bem uma sonora gargalhada, dessas de dobrar e redobrar o riso, num fôlego só!

Aquela senhora mais do que risonha e que estava logo atrás de um dos sujeitos, que vestiam camisas do tal pano, explicou: “Com licença, meus filhos, o cara lá quis dizer que a camisa de vocês é parecida como pano de anágua. Vocês são jovens, mas devem saber o que é, ou o que era uma anágua, não é não?” E tornou a gargalhar. Aí ninguém se conteve, nem mesmo uma patricinha de bermuda mais do que justa e curta, deixando à mostra mais de um palmo de coxas, e blusinha azul do tipo fiapinho de pano, que, até então, estava compenetrada, completamente alheia ao mundo, pois teclava com sofreguidão no smartphone cor de rosa, entregue aos prazeres virtuais do “zap-zap” (whatsapp), essa endiabrada febre maculosa virtual, que é mais contagiosa do que a gripe aviária ou o ebola.

Pois era. Era, sim, pano de anágua a que o tal Piaba se referiu, ao comparar o pano ralo das camisas dos dois sujeitos. “Pano d’nágua!”. Ah, como eu adoro esse linguajar coloquial, gostoso e espontâneo do povo! A língua falada, errada ou não, tem lá os seus encantos, quando é a língua genuína do povo, com sotaques e falares tão diferentes, espalhados por esse “Brasilzão” de meu Deus, que nem a operação Lava-jato conseguirá passar a limpo. Limpo como anáguas brancas com rendinhas, bicos e babados, passadas no anil, como antigamente faziam as lavadeiras, no açude de Nossa Senhora das Dores, que as espalhavam nos arbustos para quarar, separadas das outras roupas multicoloridas.

“Pano d’nágua...”. Pensando bem, acho que a República brasileira está vestindo um pano d’nágua. Ai de nós!

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 23 e 24 de novembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
16/11
12:25

Juiz não é Deus?

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

            Parte da imprensa e das redes sociais entrou em polvorosa. Uma agente de trânsito, num ano qualquer e num lugar qualquer, disse que um juiz não era Deus. Que servidora pública mais insensata! Ela não tinha o direito de dizer isso. Essa moça agiu indelicadamente. Deus é Onipotente e Onisciente. Logo, a agente de trânsito não soube reconhecer que estava diante de Deus. Embora de um “deus” que se apresentava dirigindo um veículo sem a devida habilitação e sem as placas policiais. Essas identificações são exigidas de qualquer um, na forma do que dispõem as leis do trânsito. Sim, mas não exigível no caso de Deus. Afinal, Deus é Deus. Como, ó insensata servidora pública, exigir quaisquer documentos de Deus numa blitz de trânsito, ou fosse lá onde fosse? Mais uma vez eu asseguro: faltou bom senso à zelosa agente de trânsito. Primeiro, ela errou em exigir a documentação “divina”. Depois, ela errou em não reconhecer que estava diante de um “deus” que sabe que tudo pode. Ou melhor, que pensa que tudo pode.

            É comum no cotidiano deste tão rico, mas, ao mesmo tempo, e em parte, tão paupérrimo Brasil (paupérrimo em ética, por exemplo), a gente ouvir dizer que “há juízes que pensam que são deuses; e há outros que têm certeza de que o são”. Tudo bem. Todavia, há bons juízes. E não são poucos. Ao contrário, estes são a maioria. Estes são os que jamais se sentiram “deuses”. Sentem-se exatamente o que são de verdade: autoridades a serviço do povo. Do povo do qual, retoricamente ou não, todo o poder político-jurídico emana. Ao menos, é como está escrito na Constituição Federal.

            A agente de trânsito em foco pecou feio. Sim, não foi só um erro cometido no exercício legal de sua função pública. Foi um pecado contra um “deus”. E o pecado reside exatamente no fato de ter-lhe negado a divindade da qual ele se sentia revestido. Aquele magistrado que, segundo a imprensa apurou mais tarde, depois que veio a lume uma condenação indenizatória que agora pesa sobre a agente de trânsito, já tinha cometido outros deslizes no trânsito.

            A agente de trânsito ingressou com uma ação contra o... Êpa! O bicho pegou. Devo dizer contra o “juiz-deus” ou o “deus-juiz”? Bem, uma ação contra o infrator. E, surpreendentemente, o “mal” virou contra a “feiticeira”, para usar um jargão popularíssimo. Eis que a autora da ação vê-se, agora, condenada a indenizar o infrator, que, aliás, lhe dera voz de prisão e exigira que ela fosse algemada. A condenada recorreu. Perdeu o primeiro recurso. Ainda há outros recursos a serem apresentados. E a condenada os usará. É seu direito legítimo. Como disse um velho moleiro na capital da Prússia: “Ainda há juízes em Berlin”. Ou seja, ainda há juízes em Brasília, no STJ, no STF e no CNJ. É a esperança da moça. E a sua confiança. A minha também. Aliás, segundo a imprensa noticiou, no dia 10, o presidente do STF afirmara em Florianópolis, sem emitir qualquer juízo de valor sobre o caso, que o juiz, naquela situação, era um cidadão comum. E era mesmo. Só ele não sabia disso.

            A servidora pública foi condenada civilmente porque “desacatou” (valha-me Deus, o Verdadeiro!) a autoridade do magistrado, que se encontrava em flagrante ato legalmente reprovável: sem habilitação e sem as placas do veículo que dirigia. Só isso. Como se diz no “interiorzão” de meu Deus (de novo, o Único e Verdadeiro!), isso é meramente uma “tuliça”. Coisa de importância nenhuma.

            Eu sou radicalmente contra a agente de trânsito insensata. Onde ela estava com a santa cabeçinha, quando disse, do alto da digna autoridade de quem faz o correto, de quem age dentro dos parâmetros legais, que o juiz não era Deus? Ela desacatou a autoridade. Só assim ela aprendeu que juiz é juiz, e, claro, aquele flagrado por ela era também “deus”. Ele poderia estar fora dos seus afazeres judicantes. Ele poderia estar dirigindo de modo absolutamente errado, como estava mesmo, mas, ainda assim, deveria ser respeitado como autoridade que era. Autoridade judicante é autoridade até debaixo d’água. Errada ou não. Aquela moça não entendeu isso. Portando, está “sofrendo” uma penalidade absurda. Vergonhosa. Contudo, o juiz infrator de trânsito foi desrespeitado por ela. A agente de trânsito falou com desdém, com ironia, que ele não era Deus. Mas ele pensava que era. E ainda teve colegas seus que lhe deram asas, conferindo-lhe direito a uma indenização. Por enquanto. Que não lhe deem mais asas os seus eminentes pares nas instâncias superiores. Que estes encarnem a personificação dos juízes nos quais confiava o velho moleiro alemão.

            Há muitos anos, uns 15, mais ou menos, um soldado da Polícia Militar da Bahia flagrou um motorista conduzindo o carro de placa preta da presidência do Tribunal de Justiça, em pleno domingo de sol, na altura do Farol da Barra, em Salvador, na contramão. O condutor era um juiz. Filho do então presidente do Tribunal. Confusão. Sobrou para o digno e atuante policial. Na segunda-feira, o comandante da Polícia Militar foi instado pelo governador do Estado a conduzir o soldado ao presidente do Tribunal, a fim de apresentar um pedido formal de desculpas. E, provavelmente, jurar de pés juntos que nunca mais voltaria a fazer aquilo, ou seja, deter o douto filho do presidente do Tribunal, quando ele voltasse a dirigir na contramão o carro oficial da Presidência do Tribunal, que era “ocupada por papai”, e cujo veículo somente deveria ser conduzido pelo motorista oficial, eis que essa era a função de quem exercia tal cargo.

            Logo, a agente de trânsito não está sozinha. E mais do que isso, com ela estão milhões de brasileiros, que se orgulham dos seus bons magistrados, mas abominam aqueles poucos (e espero que sejam poucos mesmo!) que, embora se achando “deuses”, se sintam feridos quando alguém apenas declara o que eles pensam e têm medo de declarar. E abominam aqueles que erram como cidadãos comuns e querem se safar sob o manto da autoridade que legalmente ostentam. Mas, autoridade em erro, não passa de autoridade em erro.

            A essa servidora pública condenada, os meus cumprimentos efusivos, a minha solidariedade. Aos bons magistrados brasileiros, alguns dos quais foram meus alunos, o meu apelo para que continuem retos e equânimes na sua vida judicante e na vida civil. E aos que cometem infrações no trânsito, ou quaisquer outras, o meu repúdio.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 16 e 17 de novembro de 2014. Publicação neste blog autorizada pelo autor. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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