24/01
22:09

Las Locas de la Plaza de Mayo, Gelman e Akhmátova

José Lima Santana -  É professor do Departamento de Direito da UFS

 

Um dia elas se reuniram na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Eram poucas. Mas o número só fez crescer. Lá estavam elas com seus panos brancos nas cabeças. Este era o lema delas: “La lucha de las Madres de Mayo contra la dictadura militar y a favor de la vida”. Elas exigiam notícias dos seus filhos e filhas desaparecidos por conta da maldita ditadura militar argentina (para mim, toda ditadura de direita ou de esquerda é maldita). No início, eram mães. E depois, eram mães e avós. Alguns as chamavam “Las Locas de Mayo”. Meu Deus! Netos e netas nascidos nos porões da ditadura foram doados ou vendidos a várias famílias, que, claro, não eram as suas. O filme “A História Oficial”, dirigido por Luis Puenzo, que faturou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986, baseia-se na história de um casal, Alicia Marnet de Ibánez e Roberto, que adotou uma dessas crianças. Ele sabia que a menina adotada era filha de uma desaparecida, mas Alicia, não. Desconfiada, ela luta para saber a verdade. O filme é forte. E pode ser encontrado em DVD.

O poeta Juan Gelman, combatente de esquerda desde a juventude, e, na minha modesta opinião, o melhor poeta argentino de sua geração, pouco depois de exilar-se, em 1976, teve seu filho Marcelo e sua nora, a espanhola Claudia García, grávida de 7 meses, sequestrados por militares argentinos. Marcelo tinha 20 anos e Claudia, 19. Marcelo foi torturado e, 13 anos depois, seus restos mortais foram encontrados em um tambor de cimento e areia junto com outros sete companheiros. Claudia foi levada clandestinamente para Montevidéu, capital do Uruguai, onde desapareceu em 1977, após dar à luz uma menina no Hospital Militar. Segundo uma investigação da Comissão para a Paz, criada pelo presidente do Uruguai Jorge Batlle (2000-2005), Claudia foi assassinada depois do parto. E ainda tem quem defenda as ditaduras, de direita ou de esquerda! Eu as abomino. Todas elas.

A neta de Juan Gelman, Macarena, foi criada pela família de um policial uruguaio, que escondeu dela sua verdadeira identidade, mas, em 2000, o considerado "poeta da dor" a localizou e, a partir daí, ambos, avô e neta, lutaram pelo esclarecimento da verdade. Aliás, no filme “A História Oficial”, a menina Gaby, adotada pelo casal acima citado, refere-se à menina Macarena mais de uma vez, como sua coleguinha de escola. É uma homenagem.

A poética de Gelman “é um desafio contra o esquecimento e a perda da memória de seu povo”. O “seu lirismo pessoal é feito de fúria e de ternura”. Ele recebeu vários prêmios literários. Nascido em 1930, Gelman faleceu em 14/01/2014, no México. Abaixo, um poema “dolorido” de Juan Gelman, “Oração de um desocupado”: “Pai, / desce dos céus, esqueci / as orações que me ensinou minha avó, / pobrezinha, ela agora / repousa, / não tem mais que lavar, limpar, não tem mais / que preocupar-se, andando o dia todo, atrás da roupa, / não tem mais que velar de noite, penosamente, / rezar, pedir-Te coisas, resmungando docemente. // Desce dos céus, se estás, desce então, / pois morro de fome nesta esquina, / não sei para que serve haver nascido, / olho as mãos inchadas, / não têm trabalho, não têm, / desce um pouco, contempla / isto que sou, este sapato roto, / esta angústia, este estômago vazio, / esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, / cavando-me a carne, / este dormir assim, / sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. // Te digo que não entendo, Pai, desce, / toca-me a alma, olha-me o coração, / eu não roubei, nem assassinei, fui criança / e em troca me golpeiam e golpeiam, / te digo que não entendo, Pai, desce, / se estás, pois busco / resignação em mim e não tenho e vou / encher-me de raiva e afilar-me / para brigar e vou / gritar até estourar o pescoço de sangue, / porque não posso mais, tenho rins / e sou um homem, / desce! Que fizeram de tua criatura, Pai? / Um animal furioso /que mastiga a pedra da rua?”.

            Eu li esse poema de Gelman, pela primeira vez, no livro “Pai Nosso”, de Leonardo Boff, na década de 1980. Fiquei encantado. Passei a buscar o autor, mas, no tempo anterior à internet, não encontrei nada. Tempos depois, em Buenos Aires, tomei conhecimento de sua obra. E, mais: de sua vida, de sua luta. Quantos pais, como ele, perderam os seus filhos nas garras das ditaduras de direita ou de esquerda pelo mundo afora, incluindo o Brasil? Milhares? Milhões? Vai-se saber!

            E por falar em poesia e em ditadura, lembro-me da poetisa russa Anna Akhmátova, pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko (1889-1966), na verdade nascida em Odessa, na Ucrânia, que as autoridades ditatoriais stalinistas perseguiram e proibiram a publicação de seus livros. Fuzilaram um de seus maridos e mandaram o outro para um campo de concentração, onde ele morreu. Mantiveram seu único filho, Lev Gumilev, na prisão durante muito tempo. Todavia, nada disso quebrou a sua fibra e nem fez com que o público, que sempre a amara, esquecesse a sua poesia. Akhmátova teve a chance de ser exilada, pois o regime teria preferido, em determinado momento, ver-se livre dela, mas ela jamais quis deixar a sua pátria e o seu povo. Assim, no poema “Réquiem”, do livro “Réquiem: um ciclo de poemas”, que reuniu poemas de 1935 a 1940, ela cantou: “Não, não foi sob um céu estrangeiro, / nem ao abrigo de asas estrangeiras – / eu estava bem no meio do meu povo, / lá onde o meu povo infelizmente estava”. O seu povo estava sob o jugo dos expurgos empreendidos por Josef Stalin, em que milhões foram presos em “gulags”, ou mortos, embora boa parte da população soviética aparentemente apoiasse o estado comunista. Forçosamente ou não. Como todos devem saber, os “gulags” eram campos de trabalho forçado da ex-União Soviética (URSS), criados após a Revolução Comunista de 1917 para abrigar criminosos e “inimigos” do Estado. Gulag era uma sigla, em russo, para “Direção Principal (ou Administração) dos Campos de Trabalho Corretivo” (“Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey”) que se espalhavam por todo o país. Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Pode-se recordar o livro “Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970.

            Voltando a Akhmátova, a sua poesia permaneceu tão viva, que, em 1989, ao comemorar-se o centenário de seu nascimento, o seu nome foi dado a uma estrela que tinha acabado de ser descoberta.

            Não posso acolher a ideia de uma ditadura, venha de onde vier, esteja onde estiver. Como não acolho a ideia de uma “democracia” (?) que se deixa turvar pelo capitalismo selvagem, que faz das pessoas mais fragilizadas apenas “coisas”. A “coisificação” das pessoas dói como se fosse um ferro em brasa atravessando a carne de alguém.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 25 e 26 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
18/01
15:14

Cartas de Jackson de Figueiredo e Araripe Coutinho

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

 

            Foi-se o tempo das cartas. Sobre isso eu já escrevi, no ano passado. Mas houve um tempo em que as cartas eram guardadas e, no caso de escritores, publicadas em livros. A primeira carta que eu li de um escritor foi do filósofo sergipano Jackson de Figueiredo (1891-1928). Intitulada “Carta à Irmã”, essa carta, extraída do livro “Correspondência”, 3ª edição aumentada, página 259, consta do livro “Admissão ao Ginásio”, do qual eu me servi em 1966, no 4º ano primário, no Educandário Nossa Senhora das Dores, regido pela professora Maria Menezes Góis, mais conhecida como D. Menininha, de saudosa memória. Essa carta, datada de 22/23-11-27, Jackson a enviara do Rio de Janeiro. Eis:

            Querida Anaíde: Recebi sua carta de 11 do corrente e não preciso dizer-lhe com que alegria. Sim, mana, eu também jamais esquecerei “aquelas ligeiras horas de S. Cristóvão”; em momento tão turbado e doloroso de minha vida, creio que foi mesmo a única alegria verdadeiramente grande e verdadeiramente pura, que então tive...

            Todos os meus pequenos estão em casa, inclusive a Regina, uma mocinha. Tãotão, esta é um vagalume que brilha em pleno dia. É um raiozinho de luz e de espírito, chega a ser um tormento do meu coração. O Luís, o Sr. Dom Luís é um sujeito inteligente e bom, mas de ideias abstrusas. Ainda hoje, pela manhã, apresentou-me consertado o meu relógio. Não tinha uma peça no lugar. Avalie o lucro do conserto. Não tive coragem de ralhar com ele. Aliás, mana, sou, definitivamente, a negação do pai de família, e se, o que é raro, consigo ter um gesto de energia, isto é para mim mais esgotante que com polêmicas de jornal.

(Segue-se uma linha tracejada).

            Diga ao Mesquita que não esmoreça com a moléstia. Estive gravemente doente mais de seis meses. Ainda não estou bom e sofrendo um tratamento bastante doloroso. Mas, até a hora final, hei de olhar estas coisas como verdadeiras depurações. Adeus, querida Anaíde!

            Beije por nós os pequeninos, e abrace o Mesquita (se quiser, beije-o também), abrace-o com a maior amizade.

            Laura a beija como se beija a irmã querida do Jackson e ele próprio a beija muitas vezes com saudosa ternura.

            Jackson.

Hei de anotar que a correspondência de Jackson (apenas uma parte dela) foi publicada postumamente, em 1946, com reedições posteriores. Convertido, ele se tornaria grande defensor do catolicismo conservador, e foi o inspirador de ações laicas de sucesso. Segundo Alfredo Bosi, “a humanidade e o estilo vigorosos garantem a Jackson de Figueiredo um lugar entre nossos grandes prosadores”.

Quem, entre nós, também gostava de escrever cartas, já no tempo final das cartas, era o poeta Araripe Coutinho, que há pouco nos deixou. Sempre que ele viajava, enviava-me cartas. Revolvendo documentos e papéis avulsos, nos dias do fim do ano, eu reli uma dessas cartas, de quando ele passava uma temporada com a escritora Hilda Hilst, no interior de São Paulo. E quando ocasionalmente releio essa carta, especialmente essa, eu me comovo, por vários motivos. Vamos à carta:

Casa do Sol, quase primavera de 1993.

Prezado amigo poeta José Lima:

Não é necessário lhe dizer que todas as coisas estão mortas. Afinal, 111 no Carandiru, 10 na Candelária, 21 no Vidigal, e em nós, quantos?

Lembro-me do seu lançamento e espero realizar um aqui, na UBE, e no Terraço Itália. É só você ligar para mim.

Por enquanto, tenho escrito muito e me preparado para o meu lançamento, que, segundo o Massao Ohno sai mesmo este ano. Em se tratando de um japonês com o nome dele, vale a pena esperar.

Por outro lado, procuro me revigorar, já que na terra dos cajueiros e papagaios não é fácil, principalmente quando você tem uma sensibilidade fantástica e um talento singular. Enfim.

Espero que tudo tenha corrido bem consigo no Rio, e que os contactos tenham sido dos mais proveitosos. A poesia é mesmo uma estrada espinhosa a se seguir.

Peço-lhe mais uma vez, que converse com Almeida Lima, que diz gostar muito de mim, para que ele me consiga alguma coisa na PMA; não posso ficar neste desespero, neste vazio, enquanto a mediocridade de tantos grassa como grama. Mesmo. Por favor. Sou um poeta. Volto agora em outubro e não dá mesmo para sobreviver das sobras dormidas do pão – como canta Cazuza.

O prof. Ariosvaldo disse-me por fone ter gostado demais do seu livro e disse-me que ia fazer um artigo. É muito importante, Zé Lima, manter um contacto com ele. É um sábio perdido nestas plagas sergipanas.

No mais, desejo-lhe toda sorte e sucesso. E quando eu voltar aguarde novos lançamentos. Com toda luz que for possível e impossível.

Grato sempre, amigo-irmão.

Araripe Coutinho.

Algumas observações: 1) O meu livro, sobre o qual ele fala, é o romance “A Morte Fora de Hora”, lançado em Aracaju, em agosto de 1993, e, no mesmo mês, no Rio de Janeiro, durante o I Congresso de Literatura das Américas, promovido pela UFRJ, e que teve a participação de escritores e professores de Literatura do Canadá à Argentina, além de Portugal e Itália. 2) Massao Ohno (SP) deveria editar o livro “Sede no Escuro”, do nosso saudoso poeta, mas que acabou sendo editado, em 1994, pela Editora Scortecci. 3) Araripe refere-se ao acadêmico Ariosvaldo Figueiredo que, deveras, escreveu um artigo sobre o meu romance, que muito me sensibilizou, sob o título “José Lima Santana na Boca do Sertão”, publicado no jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 02 a 08 de outubro de 1993, que circulou em Aracaju entre 1993 e 1995. No artigo, permitam-me os leitores, disse, por exemplo, o professor Ariosvaldo: “José Lima Santana pensou em escrever romance; na verdade fez história e sociologia... Na linha do mais sadio nativismo, José Lima sente que o universal passa pelo nacional, ponto de partida do internacional, tal como visualizava Gramsci”. Foi exatamente Araripe Coutinho quem fez a aproximação entre mim e o saudoso acadêmico. 4) O poeta Araripe acabaria nomeado pelo prefeito José Almeida Lima para a direção da Biblioteca Municipal Clodomir Silva.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 18 e 19 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
11/01
10:40

Educação, um problema histórico

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

 

 

            Neste início de ano, com as posses dos novos governantes nos planos federal e estadual, a educação mereceu boas citações. Oxalá, tais citações não fiquem apenas como retórica. A presidente Dilma Rousseff achou por bem definir o slogan de sua nova gestão como “Brasil, Pátria Educadora”. Para alguns, o slogan é vago. Para outros, não poderia ser melhor. Porém, a escolha para chefiar o Ministério da Educação tem gerado polêmica. O ex-governador do Ceará, Cid Gomes, não é da área da Educação, mas deu alguma ênfase ao setor nos seus oito anos de mandato governamental, embora a sua relação com o magistério estadual não foi pacífica. Entretanto, é cedo para dizer qualquer coisa. Aguarde-se, pois. Afinal, ele poderá cercar-se de bons técnicos e elaborar um plano educacional que contemple de forma consentânea o slogan governamental, no que ele possa ter de positivo. De palpável. E resolúvel.

            Em Sergipe, o novo secretário da Educação, o professor e acadêmico Jorge Carvalho tem tudo para realizar o trabalho com o qual todos sonham. Jorge é experimentado como educador e como gestor público. Aliás, ele disse que pretende acabar com o analfabetismo, que ainda campeia em nossas plagas, ou deixá-lo perto de zero. É preciso, sim, fazer isso e muito mais. Outra meta do novo secretário é impulsionar a qualidade do ensino de modo a melhorar indicadores nacionais, como o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Mas, Jorge Carvalho tem consciência, como ele o disse ao Jornal da Cidade, edição do último domingo, de que o processo educativo não se restringe ao interior da escola. É preciso a participação da família, da qual é dever conjuntamente com o estado, e a colaboração da sociedade, como, inclusive, estabelece o art. 205 da Constituição Federal.

            Desde o Brasil Colônia, a educação não foi direcionada para todos. De início, era preciso catequizar os índios, tarefa que caberia aos jesuítas. Para catequizar era preciso ensinar a língua dos colonizadores e catequistas. Mas, para ensinar, foi preciso, primeiro, aprender. E, assim, o padre José de Anchieta aprendeu com os curumins a língua nativa e escreveu uma gramática. Aprendeu para ensinar. Hoje, muitos contestam a ação catequista e educadora da Igreja, que, dizem, acabou por aculturar os nativos, afastando-os de sua cultura tradicional.

            De qualquer forma, a educação inicialmente dada pelos jesuítas era cercada das mais graves dificuldades. A esse propósito, deixou-nos Anchieta esta página memorável, enviada a Santo Inácio: “Aqui estamos, às vezes, mais de vinte dos nossos, numa barraquinha de caniço e barro, coberta de palha, longa de quatorze pés, larga de dez. É isto a escola, a enfermaria, o dormitório, a cozinha, a dispensa. Quando a fumaça da cozinha incomoda os professores e alunos, a educação prossegue ao ar livre; porque é preferível sofrer o incômodo do frio de fora do que o fumo de dentro”.

            Deixando de lado os nossos irmãos silvícolas, a educação colonial era voltada, apenas, para alguns. Para os filhos da classe dominante, embora eu não goste desta expressão “classe dominante”, tão surrada, mas, nem por isso, menos real. Poucas eram as escolas e, logo, poucos seriam os alunos contemplados. Na zona rural, nos engenhos e nas fazendas de gado bovino, ou, mais tarde, nas zonas de mineração, as escolas não chegavam. Elas se circunscreveram apenas às cidades e vilas durante um tempo duradouro. E as mulheres, por exemplo, ficaram, durante muito tempo, afastadas das salas de aulas. Segundo relata o educador e historiador José Antônio Tobias, “Alcântara Machado, que investigou os 450 inventários da Vila de São Paulo de 1578 a 1700, constatou que, dos milhares de mulheres neles mencionadas, ‘somente duas sabem assinar o nome: Leonor de Siqueira e Madalena Holsquor, que parece flamenga. Bem significativa a forma por que nos documentos do tempo se declara o motivo de ser o ato assinado por outrem: a pedido da outorgante, por ser mulher e não saber ler’”. Pela redação final do texto, vê-se que as mulheres eram duplamente discriminadas. Um absurdo!

            Ainda assim, a escola que se tinha era apenas a “escola de ler e de escrever”, na maioria dos casos. Era muito pouco.

            Na era monárquica, apesar de muitas leis, resoluções e decretos, imperiais ou provinciais, a educação ainda capengou. Não foram poucas as tentativas de regulamentar o processo educacional. Contudo, foram poucas as conquistas diante das necessidades do povo. Do povo que não era contemplado, pois os contemplados com a educação continuavam sendo uns poucos. E durante um bom lapso de tempo, meninos e meninas estudavam separadamente. Houve poucos progressos diante de uma população que crescia. Quanto aos negros, estes foram discriminados por longo tempo em termos educacionais. Dizia-se, então, que eles vieram da África para trabalhar, e não para estudar. A situação era tão crítica que, na Província do Rio Grande do Sul, uma lei de 1837 prescrevia taxativamente: “São proibidos de frequentar as escolas públicas: 1º - as pessoas que padecem de moléstias contagiosas; 2º - os escravos e pretos ainda que sejam livres ou libertos” (Apud Tobias, José Antônio. História da Educação Brasileira. São Paulo: Editora Jurisdicredi, 1972, p. 133). Pobres negros!

            Com a República, não se pode desconhecer, a educação ganhou novo impulso. Todavia, de 1889 até hoje, muito ainda se tem para fazer, apesar do que já foi feito. Aliás, com esta frase eu devo estar copiando os discursos de alguns políticos. Bem, ninguém é perfeito.

            Sempre houve dificuldades para resolver o problema da educação brasileira. E nem sempre se pôde contar com a boa vontade dos governantes. Certo estava Darcy Ribeiro quando disse: “As elites brasileiras são cruéis, elas asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância. As escolas não cumprem o seu papel de educar os meninos do Brasil. Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da Educação”. A educação não deve continuar sendo privilégio de alguns, mas deve ser direito de todos.

            Há muito, sim, para ser feito na educação brasileira e sergipana. Não será preciso, aqui, registrar problemas a carecer de soluções. Cid Gomes e Jorge Carvalho saberão quais são eles. Logo, logo. E que possam achar os caminhos que levem a impulsionar a educação no país e no nosso estado. Por enquanto, votos de confiança. Depois, a depender do desempenho, aplausos ou cobranças. A sociedade estará vigilante.

P.S. Cortar cerca de 7 bilhões do orçamento de custeio do Ministério da Educação foi bola fora para um governo que pretende fazer do Brasil uma Pátria Educadora.

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 11 e 12 de janeiro de 2015. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
04/01
18:43

Zé “Gaia” de Ouro

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS


Tarde de quarta-feira. Meio de semana. Dia ruim para ajuntar gente disposta a ir a um enterro. Enterro às quatro da tarde, sol tinindo na testa. Início de janeiro. Verão sapecando fogo no mundo. Mas o morto era gente da melhor espécie. Querido e respeitado. Homem simples. Marido exemplar. Pai amoroso e amado por doze filhos, cinco homens e sete mulheres. Todos casados. Netos? Um magote. Mais de trinta. Sem contar alguns bisnetos e um tataraneto. Fartura de meninos em dias de comemoração. Morreu às dez horas da noite anterior. Morreu sereno. Como um passarinho. Até parece que sabia que ia desta para melhor. Melhor? É o que dizem. Para os crentes, especialmente cristãos católicos, ortodoxos, protestantes, vai-se em busca da vida eterna pela misericórdia de Deus. A salvação vem pelo sangue derramado por Jesus no alto da cruz, que é garantia da ressurreição, tal como o Cristo de Deus ressuscitou, levando com Ele, naquela sexta-feira, o chamado “Bom Ladrão”, que lhe suplicara no alto de sua cruz. “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”, respondeu-lhe o Mestre (Lc 23,43).

Para os kardecistas, mudança de plano. Não se morre, desencarna-se. Para estes, a reencarnação é necessária à evolução dos espíritos. Além de muitas outras religiões ou filosofias religiosas, como o islamismo, o budismo, os cultos afro-brasileiros e outras mais, cada uma com a sua peculiar compreensão sobre a morte, e todas elas devendo respeitar cada uma, no que se chama tolerância, algo que muito nos falta. Mas, para os ateus, apenas o buraco frio de uma cova rasa ou o silêncio profundo de um mausoléu. Como se na cova rasa não seja o silêncio também profundo. Nada mais. Somente a decomposição do corpo, que vira esqueleto, que vira pó. “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará” (Gn 3,19). Alimento para os bichinhos comedores de matéria em putrefação. Os bichinhos de cemitério são chamados morotós. Gordinhos que são uma beleza. Passam bem, pois nunca faltam defuntos. Que horror! A vida encerra-se com a morte do corpo? A sepultura é o fim? Haja discussão.

Desde que o mundo é mundo, o homem debate sobre a vida além-túmulo. Pois ali estava mais um de partida, para o buraco, apenas, ou para a tateante busca da eternidade e assim por diante.
Muito bem. O morto daquele janeiro abrasador tinha 88 anos de idade. Há dois, ficara viúvo. A morte da mulher lhe trouxe desconsolo, desalento. A vida foi minguando desde que o esquife de Dona Clarinda deixou a casa. Vidas entrelaçadas, a dele e a dela. Sessenta e um anos de convivência. Harmoniosa vida a dois, apesar de más línguas, em certo momento, terem dado motivo para a separação do casal. Isso, todavia, foi no começo do casamento. Tormenta vencida. A fofoca é algo tenebroso. Até o Papa Francisco referiu-se a ela, há poucos dias, considerando-a terrível na Cúria Romana. Cardeais e outros prelados de língua afiada, muita malícia escondida, e, talvez, de parca vivência do amor cristão, pois não são apenas os estudos teológicos aprofundados que dão norte seguro à caminhada cristã. Às vezes, questões mundanas sobrepõem-se às espirituais. O poder, no seu lado obscuro, em suas múltiplas facetas funestas, quando não é usado como se deve, corrói a alma: a ganância, o luxo, a perfídia... E um monte de outros vícios, que Francisco está lutando para coibir. Tudo isso, porém, fica lá com a Igreja.

O que me interessa, agora, é a morte daquele homem quase nonagenário.
José Luiz Pereira da Costa. Vulgo Zé Costinha. Comerciante. Dono que foi de sortida bodega, que virou armazém na Rua da Tapagem, depois Rua das Flores, depois Rua Marechal Floriano Peixoto, depois Rua Benjamin Constant, mas que, na boca do povo, não passa de Rua dos Correios. Dois dias antes de morrer, Zé Costinha chamou os filhos, no domingo. Fez algumas recomendações. Até o mais velho, morador no sertão da Bahia, veio e ficou a pedido do pai. O velho não tinha dívidas. Nunca as teve. Tinha, sim, um dinheirinho no Banco, na poupança. Conta encerrada na sexta-feira anterior. Plano funerário em dia. Tudo nos conformes. Desde o domingo, então, a parentela ficou atenta. Zé Costinha poderia bater as botas a qualquer momento. Do domingo para a terça-feira à noite, ele definhou e morreu. Não deu trabalho. Quarta-feira. Quatro da tarde. Sol a pino. Vento nenhum. Calor de rachar o chão. Enfim, depois de muitas excelências cantadas pelas senhoras carpideiras, o caixão com o corpo depauperado de Zé Costinha seguiu para a última viagem que ele empreenderia. Quarta-feira. Meio de semana. Dia ruim para ajuntar gente. Não no caso do enterro de Zé Costinha. Juntou gente. Muita gente. O velho era querido e respeitado. Vieram até parentes das Alagoas. Amigos e antigos fregueses eram incontáveis.

Nos velórios e enterros sempre rolavam muitas conversas. Lembranças, lorotas e fofocas. Tonho da Ribeira e Zeca de Maria Rita seguiam no fundão do cortejo, que se arrastava como cobra pelo chão, lembrando a música de Gilberto Gil. Um perguntou ao outro: “Por que, às escondidas, chamavam Zé Costinha de Zé “Gaia” de Ouro?”. O outro precisou conter o riso, mas desembuchou: “Dizem que, quando ele casou com Dona Clarinda, um sujeito da Varginha, cachaceiro e conversador, teria dito que se Clarinda botasse ponta em Zé Costinha, ele teria ‘gaia’ de ouro, tal era a formosura dela, quando nova. Pois ‘gaia’ vinda de mulher bonita só podia ser de ouro”. O outro riu. Na verdade, o tal sujeito, que, se não me falha a memória, que não anda lá muito boa, se chamava Tibúrcio, era vaqueiro de “seu” Pedro Malaquias. Esse tal não só falou o que acima está registrado, como andou dizendo que Dona Clarinda, casadinha de novo, estaria enfeitando o marido. Aleive infeliz. Dona Clarinda, dizem os de sua época de nova, era uma mulher encantadora. Rosa desabrochada em noite de luar. Corpo moldado pelo Criador para espantar os homens. Para deixá-los de queixos caídos. Rosto de fada benfazeja. Sorriso de anjo. Verdadeira escultura de carne humana, que Zé Costinha arranjara ali mesmo, no subúrbio da cidade. A família dela arranchara-se na cidade no começo dos anos 1900, fugindo de mais uma seca no sertão. Família de bonitas morenas. E Dona Clarinda seria a mais bela de todas as morenas daquela família. Uma deusa. Ou só tem mulher bonita no cinema e na televisão? Nas passarelas? Ora, elas estão por aí, em todo canto, como flores do campo, que brotam em todo lugar, quando as lágrimas do céu fecundam a terra sedenta. Explicado está, então, a origem do apelido de Zé Costinha, que era dito pelas costas: Zé “Gaia” de Ouro. Afinal, chifre botado por uma linda mulher só podia ser mesmo uma “gaia” de ouro, como explicou o cabra, no cortejo fúnebre. E olhe lá! Pode ser de ouro, de diamante... Porém, jamais botada por Dona Clarinda, mulher de respeito, mulher de um homem só.

P.S.: Eu não disse que a minha memória não anda bem? Já ia me esquecendo de prestar um esclarecimento: o aleive de Tibúrcio quase acabou com o casamento de Zé Costinha e Dona Clarinda. Aleive, quando bate pernas, vira fofoca. Naquele caso, virou. Foi preciso que o delegado Amâncio Pereira botasse Tibúrcio na chincha. E ele confessou que dissera o que dissera por maldade, conversa sem pé nem cabeça de cachaceiro. Por isso mesmo, caiu no cipó caboclo. Apanhou de fazer dó. O delegado era primo de Zé Costinha.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 04 e 05/01/2015.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
28/12
17:51

Mais um Ano Novo

José Lima Santana*

Entra ano, sai ano, e as esperanças, as mais diversas, continuam a mexer com as pessoas. Passado o Natal, que deveria ser uma festa eminentemente cristã, desde que a Cristandade decidiu absorver a data em que, antes, se celebrava uma festa pagã, a fim de elevar o nome do Salvador da humanidade, na compreensão dos seguidores de Jesus de Nazaré, voltamo-nos para 2015. Que ele venha! E que traga para cada homem e para cada mulher, o que todos esperam. É evidente que, ao chegar o fim do ano, nem tudo que estava no cesto das esperanças das pessoas se concretizou. Para as pessoas de fé, faltou fé? Deus não lhes favoreceu? O que aconteceu, então? As pessoas entram, assim, em desesperanças? E as pessoas que não têm fé, que não se apegam a nada, absolutamente nada, no plano espiritual, o que elas dizem diante da não realização dos seus sonhos, no ano que se finda? Acham que a sorte não lhes favoreceu? Creditam o insucesso ao destino? Acham que não lutaram o suficiente no ano que foi novo e que se acha velho? Complexa é a realidade da vida. Complexas são as pessoas, que se envolvem em tantas complexidades metafísicas ou não. Enfim, complexo se mostra este insosso escriba ao ver findar-se um ano extremamente complexo como foi 2014. Ano de Copa do Mundo. Ano do 7x1, do tétrico 7x1 que amargamos contra a Alemanha, que, aliás, jogou diante dos Canarinhos sem nenhuma complexidade. E quantos gastos complexos com a construção ou reforma de estádios (ou arenas), hein?  


Ano de eleições. Eleições complexas. Resultados complexos. Fatos complexos no decorrer do pleito eleitoral, a começar pela morte de um presidenciável. Ano em que a pérola da Administração Pública federal indireta, desde que foi criada, na década de 1950, a PETROBRAS, desceu a ladeira da forma mais absurda possível. O “mensalão” já está parecendo um “pinto”. Ano também em que os trens do metrô de São Paulo tiveram esqueletos expostos. E que esqueletos! De um lado ou do outro político-administrativo, o país sangrou. O povo brasileiro não merece nada disso. Merece?


Ano complexo este 2014. Na Igreja Católica, este foi o ano em que o Papa, pela primeira vez, ao menos nos últimos séculos, deu uma sacudida formidável na Cúria Romana, encharcada de mazelas. Bravo, Francisco! Que Deus o ilumine, o fortaleça e o defenda! E que a Igreja se toque, por sua hierarquia e por seu laicato, e ponha-se “em saída”. Do contrário, ela vai continuar minguando, fenecendo, fechada como um caramujo. E caramujo só traz doença. Espane, essa Cúria, Francisco! Renove-a! Ela é complexa? Torne-a simples, como simples foram os ensinamentos e a própria vida de Jesus. Simples, mas firmes. Com a mais translúcida autoridade. Eu sei muito bem como será difícil, ou melhor, como está sendo difícil a sua caminhada no comando da Igreja. Mas eis a sua missão: transformar a face da Igreja. O fardo é pesado, eu bem sei. Todavia, os cardeais o foram buscar “no fim do mundo”, em suas próprias palavras, para quê? Para ser mais um sucessor de Pedro? Apenas mais um? Se fosse assim, os purpurados, muitos dos quais devem estar arrependidos, teriam elegido um “de perto”. Aí, sim, tudo ficaria na mesmice de muito tempo. Repito: espane essa Cúria, Santo Padre! Espane a Igreja! 


Ano em que, na terra dos valentes caciques Serigy, Siriri, Aperipê e tantos outros bravos, que lutaram pela liberdade dos seus iguais, um candidato ao governo do Estado venceu a eleição, após tê-la perdido exatos 20 anos antes. A vida política é complexa e complexa foi a carreira do governador eleito, desde o início dos anos 1970. Enfim, ele chegou lá. E terá complexidades políticas e administrativas para vencer nos próximos 4 anos. Aliás, ele encerra 2014 com complexos projetos de lei aprovados pela Assembleia Legislativa. 


Ano igualmente complexo para a administração pública aracajuana. Finalizado com um presentinho (?) de Natal: o aumento de cerca de 14% sobre a tarifa de ônibus, que passou de R$ 2,35 para R$ 2,70. Ou seja, aumento de R$ 0,35. E o povo? Ora, nesse caso e em muitos outros pelo Brasil afora, o povo é apenas um detalhe, como dizia uma comediante na “Escolinha do Professor Raimundo”, liderada pelo inesquecível Chico Anísio. O humor (negro) rolou solto nos três níveis federados da administração pública brasileira, em 2014. É claro, que há sempre exceções. Em tudo ou em quase tudo. 


Amigos e amigas que continuam teimando em ler os meus escritozinhos: não me importam quais são os seus caminhos espirituais. Ou os seus não caminhos. O que me importa mesmo é que vocês possam viver como melhor lhes aprouver. Basta que o seu modo de vida não desfigure as suas preciosas vidas, que não cause danos ao próximo. Vivam as suas vidas em toda plenitude. Carpe diem (aproveite o dia). Aproveitem, pois, cada dia como se ele fosse não o último, mas o melhor dia de suas vidas. E que assim seja nos 365 dias de 2015. 


Teremos mais um ano complexo? Com certeza. Afinal, desde o princípio da vida humana, teria havido um ano não complexo? Em todo tempo e lugar, a vida sempre foi complexa. E continuará sendo. Per omnia saecula saeculorum. E é exatamente isso que nos desfia. Que nos leva à frente. Que nos faz lutar. Lutar para vencer as complexidades da vida. Uns lutam mais e outros lutam menos. Sejam vocês dos que lutam considerando que lutar nunca será em vão. Não se rendam. Não se deixem encurralar por ninguém, nem por nada. Lutem com a dignidade de quem anda com firmeza. Façam o possível para que 2015 possa suplantar 2014. 


Para vocês que me suportaram no Jornal da Cidade e no Blog Primeira Mão, no transcurso deste ano que envelheceu, eu desejo um Ano Novo extraordinário. E que a Luz do Divino Mestre seja a estrela guia de cada um e de cada uma. Isto é, se vocês creem. Se não creem, busquem o caminho que lhes pareça o melhor. Porém, busquem a iluminação, onde quer que vocês possam encontrá-la. 



(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 e 29 de dezembro de 2014. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
27/12
19:20

A nova iluminação na UFS

José Lima Santana
ADVOGADO, PROFESSOR DA UFS, MEMBRO DA ASL E DO IHGSE

 

 

Desde que, um dia, o homem acendeu uma tocha para iluminar a escuridão da caverna, onde ele habitava com a sua família, a iluminação noturna tem sido uma preocupação de todas as comunidades, dos administradores e dos administrados. A escuridão da noite primitiva trouxe dissabores ao homem, dentre eles, a reclusão, angústia, o medo. O homem primitivo era frágil. Precisava vencer as intempéries do tempo e as feras, algumas carnívoras, que o acossavam noite e dia. E à noite, ele se mostrava ainda mais frágil. Quando ele soube se aproveitar do fogo, quando ele aprendeu a acender uma fogueira à porta da caverna ou uma tocha com a qual iluminou o interior da caverna ou um caminho que ele teve que percorrer, a sua vida começou a ganhar uma minúscula partícula de qualidade. Lá atrás, cada passo dado em frente, cada avanço, cada conquista, era tudo muito incipiente. Partículas. Minúsculas partículas. Mas tudo teve o seu começo. E cada passo dado era como se fosse um toque de avançar.

Não era à toa que o homem primitivo adorava o Sol. O deus Sol. A luz, a claridade, que lhe dava segurança, que, do romper estonteante da aurora aos inenarráveis matizes crepusculares, lhe possibilitava uma visão nítida do que estava ao seu redor. A luz solar dava esperança. Na claridade estava o bem. Na escuridão estava o mal. Bem e mal: luz e treva. Era preciso, pois, vencer a escuridão. O homem que aprendeu a domar e a conter o fogo, aprendeu também a buscar meios mais eficazes para iluminar o breu da noite.

Se até hoje, porém, o homem não pode vencer por completo os véus da noite, ao menos pode mitigá-los. O processo da iluminação noturna passou por diversas etapas e vários foram os meios utilizados até chegar à iluminação por meio da energia elétrica, nos fins do século XIX. De lá para cá, o processo só faz evoluir, incluindo novas e alternativas fontes de energia. A iluminação de áreas públicas, ou que servem ao público, tornou-se não apenas uma questão de comodidade, de conforto, mas, também, e, sobretudo, de segurança. Em suma, uma questão de necessidade pública. De qualidade de vida. E tornou-se, enfim, um direito das pessoas. Nenhum gestor público pode descuidar disso.

A Universidade Federal de Sergipe, no Campus de São Cristóvão, deixava muito a desejar no quesito iluminação de suas áreas: vias de circulação, estacionamentos etc., como também acontecia em outras áreas de sua infraestrutura, a exemplo do esgotamento sanitário com o respectivo tratamento, cuja obra está em franco andamento. Urgia uma tomada de posição, para recuperar o tempo perdido. Os reclamos vinham de todas as categorias formadoras da comunidade acadêmica: corpos docente, técnico-administrativo e discente. Era inegável que a situação não podia continuar como estava por anos a fio. Enfim, a decisão foi tomada no início do ano, após cuidadosos estudos técnicos a cargo da antiga Prefeitura do Campus, hoje Superintendência de Infraestrutura. Os arquitetos, engenheiros e técnicos do DOFIS (Departamento de Obras e Fiscalização) conceberam o projeto que redundou na licitação para o melhoramento da iluminação. A execução do contrato está em fase adiantada. E a nova face da iluminação da Cidade Universitária Professor José Aloísio de Campos já pode ser contemplada. A semiescuridão de antes já começa a ficar como uma sombra do passado.

De acordo com dados coletados junto ao DOFIS, o objeto do contrato ora em execução é a obra de reforma e ampliação do sistema de iluminação pública do Campus de São Cristóvão, com vistas a implantar 229 novos postes com 4 pétalas, 2 postes com 3 pétalas e 1 com 2 pétalas, todos com 16 metros de altura. A iluminação será à base de lâmpadas de vapor de sódio de 400w, totalizando 924 lâmpadas. A obra contará também com 176 postes com 4 metros de altura, para as localidades onde as copas das árvores atrapalhariam a incidência luminosa, refratando assim grande parte dos lúmens emitidos pelas lâmpadas. Nesses locais serão empregadas 704 lâmpadas de vapor de sódio de 250w. Para fazer a interligação dos postes serão utilizadas 375 caixas de passagem de variadas dimensões. Será também realizada a obra de reforma da iluminação da quadra próxima ao Colégio de Aplicação - CODAP, onde serão instalados 8 projetores com lâmpadas de vapor metálico de 400w, de modo que contemple uma iluminação bem distribuída por toda a área da quadra poliesportiva. Ainda farão parte da obra 4 subestações aéreas com um transformador de 225 KVA, um de 150 KVA e dois de 112,5 KVA. Quanto à parte de reforma, a obra tem por objetivo a reforma de 67 postes de 21 metros que já fazem parte da iluminação da Universidade. A execução da obra começou em 18/08/14 e está prevista para ser concluída em 13/02/15, ao custo de R$ 4.356.677,30.

Para o professor Angelo Roberto Antoniolli, reitor da UFS, “o compromisso da gestão atual é dotar a Universidade, em todos os seus campi, de uma infraestrutura que possibilite a comunidade acadêmica cumprir o seu papel, no processo ensino/aprendizagem, com a qualidade que se faz necessária. Professores, pessoal técnico-administrativo e alunos merecem trabalhar num ambiente de segurança e comodidade, que lhes possibilite rendimento e qualidade”. E arremata: “Aos poucos, os desafios vão sendo vencidos, como, um dia, o homem aprendeu a vencer os dissabores trazidos pela escuridão noturna”. É o que a comunidade universitária espera. Nos dois anos da gestão atual, completados no mês passado, o processo de melhoramentos na infraestrutura da UFS tem avançado, apesar de algumas dificuldades. Mas estas devem ser paulatinamente debeladas, e mais facilmente serão com a conjugação de esforços de todos os setores e agentes que têm uma fração de dever funcional. Afinal, numa gestão comprometida com o bem estar coletivo, ninguém trabalha sozinho ou para que o seu trabalho individual se destaque. O trabalho coletivo é destacado no conjunto. E é nisso que acredita o reitor da UFS.

Com a remodelação de sua iluminação, no Campus que lhe serve de sede, a Universidade Federal de Sergipe demonstra que continua a fazer o que lhe compete: iluminar vidas e caminhos. Em todos os sentidos.



Coluna José Lima
Com.: 1
Por Eugênio Nascimento
21/12
20:05

O canto de Araripe Coutinho

José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

O poeta Araripe Coutinho tomou o barco que o haveria de levar “ao frio silêncio”, como dissera o poeta alemão Friedrich Adolf Axel Detlev von Liliencron (1844-1909), no poema “Calefrio Aquerôntico”, em tradução de Manuel Bandeira. Eu soube do passamento do amigo quando, na manhã da terça-feira, dia 9, estava para embarcar no aeroporto de Recife, de volta a Aracaju, após o feriado de 8, isto é, do dia consagrado à Padroeira de Aracaju, Nossa Senhora da Conceição. Aliás, no sábado, dia 13, dia de Santa Luzia, o poeta, carioca de nascimento e sergipano de alma e coração, completaria 46 anos. Dias antes do seu passamento, através do Facebook eu lhe mandei duas mensagens, assim que soube do seu estado de saúde, internado que ele estava no Nestor Piva. Surpreendeu-me, pois, a notícia de sua morte.

Araripe era irrequieto. Surpreendente. Irreverente. Como pessoa, como poeta e como comunicador. Viveu ao seu modo. Ao seu modo, enfrentou a vida. Mostrou a cara. Fez estripulias. Incomodou alguns, com o seu jeito de ser e com o seu canto sem amarras. Querido por muitos, não bem visto por alguns. Isso lhe incomodava? Não sei ao certo, mas é possível que não. O que sei é que eu tive por ele grande apreço. Um poeta que alguns não compreenderam, mas que muitos apreciaram. E que eu, desde cedo, reverenciei. A tal ponto que, ainda no corpo do seu terceiro livro, “Sede no Escuro”, publicado em 1994, pela Editora João Scortecci (São Paulo), que reuniu os poemas do primeiro livro e outros inéditos, escrevi o seguinte texto, intitulado “Um porto sob as estrelas”, nas páginas 88/89:


Araripe Coutinho é um jovem irrequieto, um poeta irrequieto. Está sempre buscando... E o caminho do qual ele se serve para as buscas constantes é o caminho da poesia. A poesia de Araripe, que, em livro, estreou com “Amor sem Rosto” (1990), passando por “Asas da Agonia” (1991), e tendo sequência, agora, com “Sede no Escuro”, reflete, no conjunto, a mensagem de quem não teme desnudar-se nem desnudar. É poesia que freme, que queima, que contagia.


São marcas presentes no seu poetar: o erotismo, a angústia, as dores do mundo, mas também o aconchego, a ternura... O seu canto é atual. Como bem disse Núbia Marques, Araripe “é poeta dos nossos dias”. Poeta sem compromissos formais. O seu verdadeiro compromisso é pôr a poesia nas mãos do leitor. Nas mãos? No coração e na mente. Os seus poemas são chamas que ele acende para vê-las queimando pudores e queixumes, isto é, para vê-las devorando a hipocrisia do mundo. A obra poética de Araripe chega a escandalizar? Oxalá assim seja! Os lúcidos estão sempre escandalizando: “As galheta sobre o altar / O círio aceso / Eu de joelhos / Comungando da cólera de Deus e do diabo”, ele verseja. Tais versos, por certo, escandalizam alguns.


O poeta tem sede no escuro. Sede de amor e de amar, de percorrer caminhos novos, iluminados, pois a poesia é luz que irrompe no escuro, que clareia as trevas das consciências humanas. Mas o poeta também busca respostas para as suas indagações mais íntimas, nos momentos de angústia e incerteza. Diz ele, por exemplo: “Por que haveremos de continuar / nós que estamos / tão cansados de rever / os barcos e as náuseas?”. Todavia, ele continua. Continua porque o poeta vive para buscar, para dar do seu canto e para doar-se. Barcos e náuseas são partes do mar e do ato de navegar. E o poeta Araripe Coutinho navega por mares revoltos ou de calmaria, na incessante procura de um porto sob as estrelas. As estrelas são as guias mestras dos poetas. Dos poetas que, como Araripe, ousam exclamar: “Deixo para amanhã o despertar / Do outro. E enquanto dormes / Eu canto”.


Eis, assim, o texto que eu escrevi 20 anos atrás, saudando um poeta que viveu em constante busca. Os caminhos que ele percorreu, na vida pessoal, profissional ou literária, foram vários. Dissolutos ou não. Infindáveis caminhos. A sua poesia foi profana, iconoclasta, com laivos de sacralidade, sim(bólica), dia(bólica)? Foi, simplesmente, poesia.


Certa vez, perguntaram ao poeta Mário Quintana o que se deveria fazer para ser poeta. Ele respondeu: “Ler, ler, ler. Escrever, escrever, escrever”. Araripe foi um leitor voraz. Ele leu muitos e bons poetas. Nacionais e estrangeiros. Leu muito e muito escreveu. Ele produziu versos e poemas de cunho literário menor, como sói acontecer com qualquer um. E escreveu versos e poemas de espantar pelo estilo, pela linguagem empregada, pela ousadia. Em “Lírica” (“Sede no Escuro”) o poeta escreveu algo que, na minha compreensão, ele mesmo jamais pôde superar: “Quem se lembraria / de trazer-me um pêssego / numa tarde de angústias?”. Forte. Contundente. Melancólico. Dilacerante.


Não foi numa tarde de angústias, mas, sim, numa noite, numa madrugada, quem sabe, de desalento, de dor, de agonia, que ele se foi sem que alguém lhe trouxesse um pêssego. Vida breve...? No livro “Como Alguém Que Nunca Esteve Aqui”, de 2005, ele escreveu: “Viver não acaba nunca”. Eis a ideia do eterno. No livro “Passarador”, de 1997, ele disse: “Meu verso morreu de fome / morreu de amor / morreu de sede”. De que morreu o poeta Araripe Coutinho? De fome de amor? De sede de poesia? Como é o amor? No mesmo “Passarador” ele responde: “O amor é violáceo como a morte”.


O poeta que se foi, mas que não se foi completamente, vez que a obra há de ficar e perdurar, tinha a correta compreensão da dimensão da poesia: “As dores dos homens não cabem no poema” (Poema “Entre o Voo e o Pouso”, do livro “Asas da Agonia”). A poesia não contém o mundo. Não contém os homens. Não pode conter as suas dores imensas. O poeta também pareceu ter sempre a exata dimensão da própria vida. Vida que passa. No poema “Tempo de Silêncio” (“Asas da Agonia”) está dito: “Quando veio o tempo de silêncio / Eu já estava preparado para o sacrifício”. E no poema “Meia Luz” (“Asas da Agonia”) ele vaticina: “Na meia luz meus olhos fecham sós”. Os olhos do poeta se fecharam. Sós. No poema “Para um poeta é difícil” (“Sede no Escuro”) ele se antecipou ao tempo: “Para um poeta é difícil morrer em meio a todos / Melhor no silêncio, numa ponte deserta”. Até parece que ele sabia. Salve poeta! 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 21 e 22 de dezembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
14/12
09:40

Testa de arrombar navio

José Lima Santana - Professor do Departamento de Direito da UFS

 

            A testa de Zé Pingo era proeminente. Parecia antecipar-se ao resto da cabeça. Era, sim, uma “testona” danada. Ou, no melhor vernáculo, uma testaça. Ele era mais velho do que eu uns cinco anos. Quando se jogava peladas no improvisado campo da Praça João Ventura todo mundo tinha medo de subir para cabecear a bola, se ele subisse junto. Uma testada dele seria como uma cabeçada de carneiro. Fatal. Mas ele era um bom companheiro, líder das brincadeiras de “mãos ao alto”, em que os meninos imitavam cenas dos filmes de faroeste, das disputadas linhas de futebol com bola de borracha, das alegres fintas de piões, que a gente os comprava a Vangelino do Barreiro, que ficara maluco após ser espancado na cabeça, nunca se soube por quem. Ele bebia e quando estava ébrio, sentava numa calçada qualquer e ria quase sem parar. Quando via alguém se aproximando, dizia: “Ô arrepiado!”. E ria. Vangelino era, porém, um exímio artesão. E fazia mil e uma utilidades com a madeira.  

Líder era também Zé Pingo nos folguedos de dar cambalhotas nas águas do tanque, vizinho ao açude. Neste, as mulheres lavavam roupas. Naquele, os homens tomavam banho e lavavam os animais de montaria. Mas, eu falei em cambalhotas? Ora, bolas! Cangalapés. Era assim que as pessoas diziam. E líder igualmente ele era na “arte” de surrupiar frutas nos sítios e quintais alheios. Na adolescência, beirando a juventude, ele também liderava as idas às casas de ponta de rua, que eram casas de pobres mulheres que vendiam o que lhes restava do próprio corpo consumido por anos de sofrido mercadejar. Pobres coitadas, que ensinavam aos meninos a fazerem “coisa feia”, como se costumava dizer. Mulheres excluídas da sociedade e da religião.

Dona Filó, mãe de Zé Pingo, recebia um volume acentuado de reclamações. “Zé Pingo fez isso, Zé Pingo fez aquilo”. Todavia, eram só umas traquinagens próprias da idade. Nada demais. Naquele tempo, não havia drogas, a não ser um ou outro cigarro que se fumava escondido e em conjunto, cada um dando uma tragada. Não havia furtos da parte da meninada, salvo os “assaltos” às fruteiras. Não havia falta de respeito aos mais velhos. A autoridade dos pais não era contestada. E ainda por cima, havia as aulas de catecismo na escola, onde se ensinava à meninada o amor a Deus sobre todas as coisas, o conhecimento dos dez mandamentos, dos pecados capitais e das rezas básicas, como o padre-nosso, a ave-maria, o credo e a salve-rainha, além de belas e comoventes histórias bíblicas, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Instrução para o que era bom não faltava. Quanto a tirar frutas dos sítios e quintais alheios não se constituía em pecado, crime ou falta grave. Era algo corriqueiro, embora alguns proprietários encrencassem para valer e botassem a meninada para correr. E quanto às primeiras estripulias carnais, bem, isso era da natureza das pessoas, como dizia o mestre Tertú, ferreiro e avó de Zé Pingo. Pecado, porém, na visão do Cônego Miguel Monteiro Barbosa, que bradava em alguns sermões: “Ai dos fornicadores!”. Menino de calças curtas, eu lá sabia o que era fornicador?

            Zé Pingo. Por que o nome? Porque ele nascera franzino, um pingo de gente, e assim crescera. Acabou virando um varapau de testa saliente. Um verdadeiro “canela seca”. Porém, quando era preciso, ele se mostrava valente como nenhum outro menino daquele tempo. Lembro-me de quando um valentão das bandas do sertão, segundo se apurou, apareceu no tanque para dar de beber a uma tropa de burros de carga. O tal sujeito, fazendo uso de um relho com ponta revestida de chumbo, cismou de botar uns oito meninos para correr, que estavam nadando nas águas do tanque. Tinha mesmo acertado dois dos meninos com a ponteira cortante do relho de estalar. Aquele, contudo, não era o dia de sorte do valentão tangedor de burros. A razão? Ora, Zé Pingo era um dos oito que ali estavam. Sendo o rei do cangalapé, e ao ver os dois irmãos açoitados, ele deu uma voadora na caixa dos peitos do valentão, que caiu na beira d’água, ciscando como uma galinha velha e choca. Tomou-lhe o relho e lhe cobriu de lapadas. Incontáveis. A camisa do sujeito ficou em petição de miséria. Juntos, os meninos espantaram os burros e botaram o valentão para correr, açoitando-lhe com galhos de ingazeira, que era árvore por ali abundante, mas já não é mais. O relho de ponteira de chumbo? Ficaria nas mãos de Zé Pingo, como um troféu. Naquele tempo, os meninos aprendiam muito cedo a ser homens. Como se dizia no vulgo, a precisão fazia a ocasião.

            Dona Filó, mãe de Zé Pingo, tinha uma vizinha chamada Domitila, que era mãe de três filhas: Florisa, Florinete e Florina. Todas elas eram sardentas. Mas não eram feias. Eram, ao contrário, graciosas. Uma delas enfeitiçou Zé Pingo. Feitiço brabo, desses de desancar qualquer cabra. O problema era que a feiticeira parecia não dar bolas para ele. Melhor dizendo, ela não o enfeitiçara: ele se deixara enfeitiçar. Sem mais nem menos. Caprichos de um músculo incompreensível, que se chama coração. E peço vênia a quem ousa ler este escritozinho para rememorar os seguintes versos de Menotti Del Picchia, no poema “Juca Mulato”, uma das pérolas da poesia brasileira, no meu pobre entendimento: “Ter a um sonho de amor / o coração sujeito / é o mesmo que cravar / uma faca no peito. // Esta vida é um punhal / com dois gumes fatais: / não amar, é sofrer; / amar, é sofrer mais”.

            Pobre Zé Pingo. Adolescente. Ainda cheirando a mijo, como diziam algumas mulheres de ponta de rua. Apaixonado. E o pior, sem ser correspondido. A menina sardenta jamais teve olhos para ele, que passou a viver pelos cantos da casa, amolengado. O coração sendo ferido devagarzinho. A cada dia, uma punhalada. Uma agonia. Um sofrimento. De tudo isso, eis o pior: ele jamais tivera coragem para confessar o que sentia por Florina, a mais nova das três irmãs. Amor platônico. O mais temível dos amores. Amor que é, e não é ao mesmo tempo. Amor unilateral, por isso mesmo o pior dos amores. Amor que nem Eros dava jeito. Um dia, porém, ele criou coragem e mandou um bilhete para Florina, no qual estava escrito com sua letra garranchenta e errática: “Eu ‘qero’ ser ‘fêliz’ ‘comtigo’. Mim responda”. Ah, Zé Pingo, que, hoje, eu não sei por onde anda: melhor teria sido não mandar bilhete nenhum! Bem melhor teria sido passar sem aquela resposta, que acabaria por despedaçar o que restava do seu coração afoito e sofrido.

            A resposta veio na forma oral. Florina, cruel, disse à irmãzinha de Zé Pingo: “E eu quero namorar um sujeitinho da testa de arrombar navio?”. Como Val, a irmã menor, lhe dera a resposta na presença de outros meninos, que foram, naquela tarde, tentar arrancar o amigo de casa, a resposta correu pelo bairro. E foi, então, que, na boca dos descarados, e pelas costas dele, o apelido mudou de Zé Pingo para Testa de Arrombar Navio.

            Tempos depois, eu lembrei que assistira a um filme sobre guerras romanas em que as naus dos filhos de Rômulo e Remo tinham uma espécie de aríete (cabeça de carneiro), que destroçava as naus inimigas. Provavelmente, Florina também o assistira. Afinal, as sessões das segundas-feiras, no Cine São José, eram cheias da meninada do meu bairro. E as três irmãs eram frequentadoras assíduas, acompanhadas do irmão mais velho, Filadelfo, que desposaria uma irmã de Zé Pingo.

 

 

 

 

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 14 e 15 de dezembro de 2014. Publicação neste site autorizada pelo autor.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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