17/06
09:29

O encontro

José Lima Santana - Padre, advogado e professor da UFS

 
Kleber Jordão, mais conhecido como Cara de Bunda e Bolo Fofo, presidente do Clube do Norte, era metido a ditador. Mandava e desmandava no Clube sem ouvir ninguém. E, ainda por cima, desafiava o outro clube da cidade, o Clube do Sul. Os dois presidentes não se davam. Muitos torcedores dos dois clubes almejavam a unificação, para, assim, poder fazer frente aos adversários de outras cidades. A união seria benéfica para a cidade, para as pessoas, mas Cara de Bunda era belicoso e não admitia que os seus sócios devidamente filiados sequer opinassem sobre a unificação, sob a pena de expulsão ou algo muito pior. Os torcedores não filiados arriscavam dar palpites nas redes sociais. Na presença de Kleber Jordão, silêncio. Manifestavam-se anonimamente. Temiam as reações de Cara de Bunda.

O presidente da federação de clubes, denominada União Sportiva Alvorada (USA), Daniel Trampo, chegou a ameaçar Kleber Jordão de varrê-lo do mapa dos esportes, caso ele não parasse com o estado de belicosidade contra o Clube do Sul e outros clubes das cidades circunvizinhas. Trampo era tão ou mais truculento do que Kleber Jordão. Eram, por assim dizer, farinha do mesmo saco. E que péssima farinha! O maluco do Cara de Bunda soltou umas bombas que assustaram os adversários. Bombas verborrágicas para fazer pirraça contra todos, mas, sobretudo, contra Daniel Trampo. E este, mais doido ainda, tuitou ameaças e maldições contra Kleber Jordão. Durante vários dias, os dois bateram boca, ao longe. Se os dois estivessem frente a frente, cada um com uma faca afiada na mão, certamente um cortaria a língua do outro, se pudesse. Eram, sim, dois sujeitos ruins de tanger, como jegues amuados.

O dono da empresa Ginga Pura, amigo de ambos, tomou a iniciativa de oferecer a sede da sua empresa para um encontro dos desafetos. As redondezas não acreditavam na realização do encontro. Demasiadas eram as divergências entre os dois malucos. Umencontro entre ambos poderia resultar em duas mortes, nem que fossem motivadas pela raiva. Era arriscado que os dois, depois de muito discutirem, caíssem tesos, batessem a caçoleta. Muita gente vibraria. O mundo se tornaria bem melhor.

Depois de marchas e contramarchas, tudo ficou acertado para a reunião mais importante e esperada do ano. Apostas eram feitas, de que o encontro não se realizaria. Ou de que se realizaria, mas acabaria no primeiro momento, com cada um dos desafetos soltando os cachorros no outro. O apocalipse poderia estar ali naquele encontro, pronto para soltar fogo pelas ventas como um dragão daqueles das histórias mirabolantes da Idade Média. Na verdade, ainda havia dragões no mundo. Ali estariam dois deles.

Toda a imprensa da região entrou de prontidão. Nada deveria escapar dacobertura. Todos esperavam saber de tudo que ocorreria no encontro entre os dois. E a imprensa da região eram o tabloide “O Fuxico” de Zé de Ferreirinha e o carro de som de Chico Pinote. Este alardeava nas ruas da cidade que o mundo esportivo esperava que a paz fosse selada entre Jordão e Trampo. Se os dois não se entendessem, o mundo esportivo poderia entrar em polvorosa de uma vez por todas, pois seria uma guerra declarada entre os dois esquizofrênicos.

 

Enfim, os dois chegaram à sede de Ginga Pura. Cara de Bunda chegou primeiro.  Com um dia de antecedência em relação ao outro, que, diga-se de passagem, era também conhecido nos meios esportivos como Galo de Briga. Vermelhão que o era, a cabeleira pintada parecia uma crista de galo de briga. Deu-se o encontro. Primeiro, as indefectíveis fotos de mãos dadas para a imprensa. “O Fuxico” estampou em sua edição vespertina uma foto com ambos tentando um sorriso forçado, que não saiu. Caras ainda muito amarradas. Mas, era o primeiro aperitivo. Certamente, outras fotos viriam mais amenas, com a paz selada. Ah, mas como tinha gente que não acreditava nessa paz! Que não acreditavam que os dois estivessem de fato querendo um entendimento. Arriar as armas? Quem? Cara de Bunda? Nem pensar, dizia-se pelo mundo afora. O ditadorzinho haveria de esconder as armas para soltá-las mais tarde. Afinal, as armas verborrágicas eram o trunfo do dirigente do Clube do Norte.

O encontro continuou sob a ansiedade de todos. E, contrariando as expectativas da maioria das pessoas, tudo parecia correr muito bem obrigado. Uma ponderação daqui, outra dacolá, uma testa franzida aqui, outra acolá. Assessores dos dois lados tentando amenizar certas palavras. Enfim, um acordo a ser assinado. A lavratura do acordo demoraria um pouco, pois os assessores divergiam sobre esta ou aquela expressão. Tudo acertado.

Na hora da assinatura, Cara de Bunda curvou-se um pouco sobre a mesa com a caneta na mão. Ao lado dele, Galo de Briga, de bico crescido, como era do seu estilo, aguardava a sua vez de assinar o tal documento, que, por certo, não haveria de valer muita coisa. De repente, Cara de Bunda fez uma cara feia. Parecia que ia estourar. Naquele instante, o outro apelido do tal sujeito pareceu ganhar força. O Bolo Fofo tinha, como por encanto, crescido. Fora fermentado. Ele espremeu-se um pouco. E eis que soltou uma bomba atômica. A sala com decoração folheada a ouro parecia que ia desabar. A fedentina espalhou-se como a mão do anjo da morte na noite que antecedeu a saída do povo hebreu do Egito. Galo de Briga deu um pulo, tapou as ventas com um lenço, afastou-se e gritou em sua língua enrolada: “Um desrespeito! Um despropósito! Vou responder à altura! É guerra? Pois vamos à guerra!”.

A flatulência de Cara de Bunda pôs fim ao encontro e ao acordo. O que viria depois era preciso aguardar. Boa coisa não poderia ser. O mundo dos esportes tremeria. A paz estaria por um fio. E tudo por causa de uma flatulência. A que ponto o mundo dos esportes tinha chegado!

Quanto vexame! O todo-poderoso Daniel Trampo acabou cedendo a uma bufa. Que coisa, hein?




Coluna José Lima
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Por Eugênio Nascimento
10/06
12:14

Francisquinha amargosa

José Lima Santana - Padre, professor e advogado

 

Proferida a oração após a comunhão, o padre Zequinha Limoeiro indagou se tinha algum aniversariante presente. Silêncio por uns vinte segundos. Depois, uma senhora levantou a mão direita e disse: “Eu!”. O padre a convidou para achegar-se à frente do presbitério. A senhora caminhou com extrema desenvoltura, toda serelepe. “Quantos anos?”, perguntou o padre. E ela, para espanto dos fiéis: “Noventa e um, padre!”. O padre Limoeiro arregalou os olhos: “O quê?”. Pois então. A “veinha” tinha noventa e um anos, embora a aparência não lhe desse mais de setenta e uns. Aí, o padre, que era brincalhão, soltou essa: “Estão vendo, vocês ‘veinhas’, que têm setenta, setenta e alguns anos? Mirem-se no exemplo desta aqui. Vejam se ela parece ter noventa e um anos! Mas, vocês, estão descachimbadas com sessenta e tantos, setenta e alguns etc.”. Muitas gargalhadas.

 

Muito bem. Aquela senhora de noventa e um anos, que, olhe lá, aparentava uns setenta e tantos anos, se muito, era Francisquinha Amargosa. Amargosa era o seu sobrenome de papel passado em cartório. Nome de família. Ela descendia de Pedro Fonseca do Pinho Amargosa, antigo mestre de reisado, que por muito tempo pisoteou o chão de Sergipe com seus folguedos.

 

Aquela “veinha” nonagenária era viúva. Viúva de Aristides Porto, seu primeiro marido. De Bernardo Peixoto, aparentado das antigas de um certo padre Peixoto, metido em cantorias de música igrejeira. De Marcolino Borborema. E de Juvêncio Antonelli, neto de italianos, que aportaram no estado na década de 1930.

 

Como se vê, a “veinha” era fogo na canjica. Quatro casamentos. Quatro defuntos. Quatro estados de viuvez. O primeiro marido, Aristides, comerciante de calçados, morreu dez anos e meio após o casamento, sem deixar filhos. Fora atropelado por uma lambreta numa boquinha de noite. Francisquinha Amargosa amargou a primeira viuvez. Não se passaram dois anos, e eis que ela foi desposada por Bernardo Peixoto, sitiante de Itabaiana, vendedor no atacado de cebolas e outros aparentados. Este, coitado, não durou um ano. Bateu a caçoleta uns dez meses depois de casado. Uma cobra venenosa lhe tirou a vida.

 

Àquela altura, Francisquinha já estava bem arranchada de bens. Os dois maridos lhe deixaram um bom pé de meia. Continuava viúva sem filhos. Francisquinha era devota de Santo Antônio. Apegadíssima ao santo casamenteiro, não colocou a sua imagem de cabeça para baixo numa bacia ou pote d’água. Não o fizera antes e não o faria depois da segunda viuvez. Parecia sossegada. Mas, um dia, doze anos se passavam da última viuvez, lhe apareceu Marcolino, paraibano das bandas da Serra da Borborema. Oficial da Marinha de Guerra. A duplamente viúva não resistiu aos encantos da farda branca, nem ao hino do marinheiro, o Cisne Branco. E qual cisne branco em noite de lua, Marcolino, digo, o tenente Marcolino levou, pela terceira vez, Francisquinha ao altar. Todo o agrupamento da Capitania dos Portos compareceu em traje de galã. Uma belezura de casamento. E que festa para os convidados! Foram três anos de amor infinito. E infinito foi enquanto durou. Uma tempestade numa noite assombrosa de trovões e relâmpagos, de mar encrespado, fez naufragar a corveta Almirante Barão do Bom Retiro e foi-se para as águas profundas o oficial Marcolino Borborema. Terceira  viuvez.

 

O tempo foi passando. Francisquinha não tinha filhos. Nenhum dos três maridos lhe dera um filho. Ela estava, então, quando da terceira viuvez, beirando os quarenta anos de idade. Ainda pronta para esquentar um leito. E foi então que lhe apareceu o “italiano” Juvêncio Antonelli. Um construtor. Um olho no olho numa recepção no Palácio do Governo. Francisquinha era amiga da primeira-dama, sua antiga vizinha nos tempos de moças. Triscou. Faísca, fumaça e fogo. O quarto casamento. O “italiano” Antonelli meteu-se a construir bangalôs na capital. Ganhou um dinheirão. Andava lá pela casa dos cinquenta anos. Num inverno friorento e chuvoso, ele apanhou uma gripe. Mal curada, virou uma broncopneumonia. E bateu as botas. Foi-se lá para a morada de pés juntos. Francisquinha viúva pela quarta vez. A partir dali, os homens afastaram-se dela. “Essa muié tem dentro dela uma maldição. Os maridos vêm e vão. Num aguentam o rojão dela”, dizia o sacristão Benvindo Mendonça. Igrejeira, devota de Santo Antônio, viúva cada vez mais aquinhoada. Cada marido deixou-lhe uma boa soma de dinheiro e de bens imóveis. Passou-se a dizer que ela era a viúva mais endinheirada da capital. E por que não dizer, do estado. Um partidão. Porém, ninguém mais se atreveu a arrastar asas para Francisquinha Amargosa. “Fique ela lá com toda a amargura do mundo!”, disse, um dia, Margarida, mãe do sacristão Benvindo. Aliás, uma faladeira da desgraça, que tecia e bordava na língua a vida alheia.

 

Naquela tarde de quinta-feira, o padre Zezinho Limoeiro, após a bênção final, brincou, ainda uma vez, com as “veinhas” da Matriz: “Veja lá se uma de vocês arranja um marido para Francisquinha. Ela não pode morrer sozinha”. Ana Pereira, ministra da Sagrada Comunhão, adiantou-se: “Só se for ‘seu’ Maneca Gordo. Ele tá viúvo de novo e doidinho pra casar”. Gargalhada geral.

 

Um belo dia, passadas umas três semanas desde aquela Missa, naquela quinta- feira, Francisquinha apareceu na igreja de braço dado com o tal Maneca Gordo. Pois não era que estavam de namoro? Os amigos dele lhe davam conselhos para cair fora das garras de Francisquinha Amargosa, viúva pela quarta vez: “Tu, home de Deus, num caia na desgraça de casar com essa muié. Ela já deu conta de quatro maridos. E tu vai ser o quinto. Ela é capaz de te mandar pros quintos dos infernos”. Maneca Gordo tinha oitenta e nove anos, dois a menos que Francisquinha. Estava firme, tanto quanto ela aparentava. Viúvo, pai de cinco filhos, avô de treze netos e bisavô de duas bisnetinhas. Aposentado do fisco estadual. Ganhava bem. E bem vivia. Casaram-se. A prolongada viuvez de Francisquinha foi-se pro beleléu.

 

Domingo. Tinham se passado dois anos desde que Maneca Gordo e Francsiquinha Amargosa tinham se dado em matrimônio. Ela acordou cedo, comosempre. Ainda estava senhora de si. A empregada Julieta, que morava com ela há mais de trinta anos, já tinha preparado o café. Francsiquinha voltou ao quarto para chamar Maneca. Iriam à Missa. Chamou-o. Nada. Tornou a chamar. Nada. Ela mexeu no braço dele, que estava todo coberto. Nada. Então, puxou o lençol do rosto. Ele estava de olhos esbugalhados e boca aberta. Morto. Ela deu um grito. Logo, acudiu-lhe Julieta. Foi quando Maneca Gordo soltou uma estrepitosa gargalhada e disse: “Tu pensou, minha nêga, que eu tinha embarcado? E eu sou lá frouxo como os teus maridos anteriores? Eu me chamo Manuel Ventura de Azevedo Pinto. Não vou com uma nem duas”. O desgraçado estava vivo e feliz como pinto no lixo.

 

O certo foi que eles viveram ainda muito tempo juntos, uns cinco ou seis anos. Todavia, Maneca Gordo foi primeiro do que ela. E Francisquinha Amargosa dobraria a casa dos cem anos.




Coluna José Lima
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Por Eugênio Nascimento
03/06
18:22

A Greve dos Carroceiros

José Lima Santana
Professor da UFS

Cidadezinha diminuta, de vidinha besta, sonolenta, devagar quase parando. Todavia, os seus habitantes eram orgulhosos do seu berço natal. Chapadão das Onças, eis o nome do pequeno burgo. Trinta anos de vida autônoma, separada do município de Barro Preto, cidade que tinha até cinema naquelas lonjuras do sertão brabo. Um progresso e tanto! Em Chapadão das Onças, onde não se via onças há mais de um século, talvez, o novo prefeito, Miguelzinho de João Pururuca, herdeiro, como vice-prefeito, do mandato da prefeita Doralice Ancas Duras, casada com o dono da padaria da cidade, mas, que deixou marido e filhos para fugir com um caixeiro-viajante, largando também, claro, a Prefeitura Municipal. Paixão tresloucada, nascida de uma troca de olhares no meio da rua. Diziam as más e soltas línguas que o então vice-prefeito, amigo do tal caixeiro-viajante, teria sido o alcoviteiro do namoro proibido e da fuga da prefeita, dado o seu olho gordo em cima do cargo de prefeito, que ele acabaria herdando. 

Miguelzinho de João Pururuca viúvo pela segunda vez, era casado de novo com Marsitela de Zé Gordinho, uma loiraça de parar o trânsito e de fazer o vento dar voltas e vira voltas. Vereador há seis mandatos, ele conseguiu a vaga de vice-prefeito na chapa de Doralice, após gestões do seu partido, comandadas pelos vereadores Zito Cunha, Madureira Franco e Zé de Chico Padilha. Um trio de velhacos da política local. Doralice nunca se deu bem com Miguelzinho, que sempre foi um sujeito ardiloso, ao passo que ela era ruim de tanger. E como diz o povo, dois bicudos não se beijam. A prefeita e o vice não se beijavam. 

Pouco tempo depois que assumiu o comando da Prefeitura, Miguelzinho viu-se cercado de denúncias junto ao Ministério Público da Comarca de Barro Preto. Compras superfaturadas de rapadura para a merenda escolar, abastecimento com óleo diesel no trator do sogro do novo prefeito por conta da pobre viúva, bem como o fato de um assessorde Miguelzinho, J. B. Lima, cabo reformado da briosa Polícia Militar, que andou com uma sacola de dinheiro, arrotando nos bares que era um presente do empreiteiro Marcelo Odevaldo, que tinha feito o calçamento de algumas ruas da cidade. E outras patifarias mais que foram denunciadas. O prefeito vivia na corda bamba.

Segunda-feira. O dia amanheceu afogueado. Desde cedo, o sol fazia estripulias. O padre Justino terminou mais cedo do que de costume o seu banho de sol matinal, para carregar de vitamina “d” a bateria do corpo já meio gasto pela ação do tempo. Anabela do finado Zuza de Martinho Chega Mais desde cedo esperava a carroça do lixo, para coletar umas palhas de bananeira, que ela tinha cortado na tarde anterior. Esperou em vão. Oito horas. Nove horas, Dez. Onze. O quengo de Anabela fervia. Por onde andaria Nando Carroceiro, contratado, com outros três, para recolher o lixo da cidade? Dia sim, dia não, ele nunca faltava, nem chegava com muito atraso. Alguma coisa teria acontecido. A mãe dele, Dona Catarina, não andava bem de saúde. Teria esticado a canela?

Na Rua do Carrapicho, Andrade de Figueirinha esperava a entrega de dois toneis de água. A cidade não tinha água encanada. A água era vendida pelos aguadeiros e era transportada por alimárias carregadas com ancoretas, ou transportada por carroceiros, que entregavam o precioso líquido, barrento no verão, em pequenos toneis de matéria plástica, contendo cem litros cada um. Nada da água esperada. 

Dona Julinha, mãe de André Buliçoso, fiscal da Prefeitura, tida e havida como a melhor doceira da cidade, cuja cocada-puxa e os manauês de milho, macaxeira e arroz eram iguarias de festejada finura, esperava a entrega de uma carrada de lenha. Ah, tornando aos doces, e o que dizer das saquaremas, que se desmanchavam na boca? E das queijadas? Manjares dos deuses. Deu meio-dia, mas, nem sinal da lenha, que seria transportada por Cidinho Carroceiro. A filha de Dona Julinha esperou em vão, enquanto a mãe estava na feira, vendendo preciosidades. 

Ora, por onde andavam os carroceiros de Chapadão das Onças? Estariam em greve? Greve de carroceiros? Onde já se viu? Pois estavam, sim. E o estopim da greve foi um ato do prefeito Miguelzinho. Com licença dos leitores, uma cagada contra as cagadas.

No Sertão dos Angicos, Chapadão das Onças era conhecida como a cidade das carroças. No calendário municipal tinha até o Dia dos Carroceiros, instituído através de um projeto de lei do vereador Humberto de Altamiro da Carroça. 

O prefeito Miguelzinho de João Pururuca baixou um decreto obrigando os carroceiros a colocarem uma espécie de fralda nos animais que puxavam as carroças. Os cavalos e muares sujavam em demasia a cidade. Era um montão de carroças transitando para lá e para cá. Tudo, ou quase tudo, era transportado pelas carroças. A loiraça primeira-dama, terceira mulher de Miguelzinho, de sapato novo, atolou-se numa ruma de cocô de cavalo. Ou de muar, sabia-se lá! A primeira-dama azucrinou a cabeça do marido. Daí veio o malfadado decreto. E pior, bem pior, foram as faixas colocadas na Praça da Matriz, na Praça do Camaleão e nas Ruas do Melão e das Porteiras: “Carroceiro Sujão Não Tem Vez no Chapadão”.Greve.

Segunda-feira. Dia da feira semanal. Água potável, lenha, material de construção, bois abatidos para a feira, frutas e hortaliças etc. Tudo era transportado pelas carroças. A feira estava quase vazia de produtos para a comercialização. Nem as bancas, em grande número, estavam armadas. Um fuzuê na cidade. Lá pelas tantas da manhã, por volta das onze horas, o prefeito decidiu ouvir os carroceiros. As pressões eram grandes por parte de todos os segmentos. A fala do prefeito foi desastrosa. Ameaçou confiscar as carroças paradas. Defendeu o direito da primeira-dama de percorrer a cidade sem ter que sujar os sapatos em cocô de animais. Acionaria a polícia para fazer as carroças voltarem aos fretes. Cosme Corcundinha quase pegou na abertura do prefeito. Foi um bafafá danado. 

A roda de conversa nada rendeu. Ao contrário, acirrou mais ainda os ânimos. Na cidade inteira o povo zombava da autoridade municipal. “Onde já se viu botar um calçolãonos animais?”, indagavam as pessoas nas ruas. Só mesmo na cabeça de Miguelzinho de João Pururuca. Os grevistas não arredaram o pé da paralisação. Não queriam servir de chacota nas outras cidades. A tarde findou. A greve ganhou mais adeptos. Carroceiros dos povoados mais próximos chegaram para dar um adjutório aos companheiros. O padre Justino Freire apoiou o movimento paredista. Aos poucos, as pessoas, homens e mulheres, iam ficando ao lado dos grevistas. Colocar um calçolão nos animais deporia contra os seus direitos. Animais também os tinham. A Liga Fundamentalista em Defesa dos Animais foi acionada, na capital. Um telegrama chegou à mesa da presidente Maria Nazária A. Rocha, que, de pronto, berrou numa entrevista na Rádio Cocota: “Vamos botar um calçolão é na cabeça desse prefeitozinho desmiolado”. 

A greve, enfim, duraria quine dias. O decreto foi revogado e a primeira-dama procuraria ter mais cuidado, doravante, para não pisar onde não devia. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
20/05
18:48

Pregos e Cacos de Vidro

José Lima Santana
Professor da UFS

Manoel Vaselina, mais escorregadio do que muçum, do que gosma de quiabo e sei mais lá o quê, não sabia em quem votar nas eleições que se aproximavam. Quando perguntava “Manoel, em quem você vai votar?”, ele coçava a cabeça, cuspia longe e respondia: “Home de Deus, sabe que eu num sei? Oio prum lado, vejo prego; oio pro outro, vejo caco de vidro. E assim, portanto, vou ficando em riba do muro”. Era um sábio. Nunca, jamais, desagradava ninguém. Era firme em não declarar o voto. Fosse qual fosse a eleição. 

Naquele ano, a eleição era geral, ou seja, para todos os cargos federais e estaduais. Isso foi lá nas quebradas de mil, novecentos e cinquenta e tantos. A UDN bufava para um lado e o PSD bufava para o outro. Tudo apontava para uma eleição demasiadamente esquentada. Como se alguma eleição em Brejão dos Ventos tivesse sido ao menos morna, porque fria nunca haveria de ser. Eleições quentes sempre foram as do Brejão desde que o município se separou de Pedra Azul, cidade que já tinha dado dois deputados federais, quatro estaduais, um senador e dois vice-governadores. “Qualquer dia desses, vamos ter daqui destas terras brabas um presidente da República”, vivia a gozar Pedro Palito, o carpinteiro mais hilário do hemisfério sul, dos trópicos tristes e pobres. 

Naquele ano, um sujeitinho de Brejão dos Ventos, que tinha virado um cheira-peidos de Jardelino Mão Seca, primeiro prefeito do lugar, e, com isso, fora agraciado com um cargo federal de fiscal não sei bem de quê, andava dando com a língua nos dentes e afirmando que seria candidato a deputado estadual pelo Partido do Dr. Getúlio, que, fazia poucos anos, tinha passado desta para melhor, dando ele mesmo um tiro lá no peito dele. Dizia-se que o sangue jorrou do seu peito como se um riacho fosse. O pai dos pobres se foi, mas, tinha deixado um magote muito grande de admiradores, dentre eles o tal sujeitinho, que atendia pelo nome de Jerônimo Rosas de Oliveira e pelo apelido de Jero Dente de Ouro.

Trabalhando na capital, não sei lá em qual repartição federal, Dente de Ouro passou a ir a Brejão dos Ventos todo fim de semana. De bodega em bodega, pagava cachaça para quem quisesse uma bicada. E bons de bico por ali não faltavam, sempre prontos para uns goles de água que passarinho não bebia. As pessoas começavam a falar em votar no sujeitinho. Pelo menos uma meia dúzia ou mais de votos ele haveria de obter por ali. 

Num dos fins de semana em que Dente de Ouro andejou pelo Brejão, eis que deu de cara com Manoel Vaselina, seu amigo de infância, nascidos e criados na mesma rua tortuosa, empoeirada ou lamacenta, a depender da estação do ano. Era a Rua do Cavaco, que, lá no seu final, abrigava uns casebres de atividades suspeitas, em cujas frentes as mulheres de bem não se atreviam a passar. Ah, foi uma festa, o encontro de Dente de Ouro e Vaselina! Festa para o primeiro. Já para o segundo, um aperto de mão morno e um sorriso cabreiro. “Tu já sabe, Manoel, meu irmão, que eu sou candidato a deputado?”, indagou Dente de Ouro, em cuja dentadura superior faiscava um belo dente de outo maciço do tempo em que ele andou pelo Rio de Janeiro, tocando zabumba no Trio Sabiá, nos baixios do mangue. 

Manoel Vaselina, barbeiro de maquininha enferrujada, de tesoura e pente, mas, sobretudo, de língua afiada, respondeu: “Não me diga! Pois não é que ninguém ainda não me tinha dito tão monstruosa notícia! Então, tu vai ser deputado?”. E Dente de Ouro retrucou: “Vou ser, não, meu amigo! Pelo que estou sentindo dos eleitores, já posso comprar o terno da posse. É eleição garantida. E mais garantida ainda porque eu sei que posso contar com o voto do amigo”. 

Manoel Vaselina, o que sempre estava em riba do muro, olhando para os lados, onde havia pregos e cacos de vidro, de um e de outro lado, apontou o dedo indicador para o amigo de infância e disse: “Você vai me sair um grande deputado. De tanto cheirar os peidos de Jardelino Mão Seca, há de precisar de um cheira-peidos seu próprio. E aqui estou eu para lhe servir. Cheirarei com gosto. Vá que eu me eleja, um dia, pelo menos vereador. Conte comigo”. 

Dente de Ouro soltou uma baita gargalhada, daquelas de acordar urubu com sono. “Você num tem jeito mesmo, Manoel. Continua o mesmo Vaselina”, disse o pretenso futuro deputado. 

Chegou a eleição. Dente de Ouro obteve trinta e dois votos em Brejão dos Ventos. Em todo o estado, foram sessenta e oito votos. Um fracasso. Ele passou um ano sem pisar os pés na terra natal. Ao cabo disso, compareceu ao enterro de um tio nonagenário. No cemitério sem muros da cidade, encontraram-se Dente de Ouro e Manoel Vaselina. “Olá, Jero! Que pena, que você não conseguiu a eleição. E eu que esperava ser o seu cheira-peidos e virar vereador com o seu apoio! Você naufragou e eu fiquei a ver navios”. Dente de Ouro respondeu meio desalentado: “Volte pro seu muro. E, de lá de cima, veja se tu mesmo é um prego ou um caco de vidro. Eleitor é bicho mais manhoso do que político, Manoel. Não é atoa que tu se chama Vaselina. E um cabra escorregadio como tu num serve nem pra cheirar peidos de políticos”. 

Na verdade, Manoel Vaselina não votou mesmo não em Jero Dente de Ouro. Não votou em ninguém. Eram muitos os pregos e os cacos de vidro. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/05
16:46

Um secretário osso duro de roer

José Lima Santana
Professor da UFS

De concreto não havia nada. Nem um aviso. Ninguém sabia de nada. Mas, as especulações dominavam a cidade. Todo mundo tinha o que dizer. Palpites não faltavam. Cada um sabia mais do que o outro, mas, de bom mesmo, de verdadeiro mesmo, ninguém sabia. Na balaustrada da varanda, Totico de Totoco de Maria da Penha arremessou um punhado de milho debulhado para as galinhas que se chegavam com o seu “ti-ti-ti-ti”. Galinhas gordas, boas poedeiras, de uma raça que não chocava. Nunca chocava. Para tirar pintos, deitavam-se os ovos delas noutras galinhas da raça caipira. Ovos grandes, avermelhados como as próprias galinhas. 

A cidade andava aflita desde o mês anterior. O vice-prefeito Neneca do Grotão acabara de assumir o cargo em face do falecimento do titular, Belarmino Teixeira, vulgo Belarmino de Dantinhas Cara Larga. O pobre homem morreu de repente. Teve lá um troço, depois do almoço e se foi desta para melhor. Na verdade, morreu de nó nas tripas. A dor devia ter sido tão grande, que ele morreu se estrebuchando, mijado e cagado. Um quadro feio de se ver. 

Neneca do Grotão assumiu com vontade de fazer um bocado de coisas. Vereador em três mandatos, ele chegou a vice-prefeito com a força do dinheiro do pai de Belarmino, Romualdo Dantas, o Dantinhas Cara Larga, fazendeiro e agiota, no tempo em que na cidade não tinha nenhum Banco. Ele era o “Banco” da cidade e da região. Romualdo saiu pelo mundo comprando votos. Ninguém dava nada, no início da campanha, pela eleição da chapa Belarmino-Neneca. Pois não foi que a dupla ganhou de lavada? Mais de duzentos votos de dianteira. As eleições anteriores não passaram de trinta votos de frente. Doze, vinte e sete, dezoito, vinte e seis e sete votos a mais, para os cinco últimos prefeitos, antes de Belarmino. Neneca tinha caído nas graças de Romualdo, pois era seu afilhado de batismo. Muitos quiseram ser o vice na chapa de Belarmino, mas Romualdo Cara Larga impusera ao filho e a todos do partido o nome de Neneca. 

O novo prefeito enfrentou, porém, um problemão. E este se chamava João Bosco Cara Larga, irmão do finado prefeito, e de rosto rechonchudo como o pai. Ele era o secretário-geral da Prefeitura. Aliás, na “Viúva” só tinha um secretário. Cidade pequena, funcionalismo reduzido, um secretário resolvia tudo. E, a bem da verdade, era um sujeito tinhoso, do tipo que fazia tudo bem feito, mas centralizador como um condenado. O irmão prefeito, aquele que se fora, nele depositava inteira confiança. Diziam até que João Bosco era o prefeito de fato, tal o poder de mando e de desmando de que ele se arrodeava. 

Neneca queria botar no lugar de João Bosco, um primo de sua mulher, Geraldinho Boca de Sapo, um ginasiano. Naquele tempo, eram raras as pessoas, ali, na Borda do Campo, que tinham tirado o curso ginasial. Ter o ginásio era como ter-se doutorado. Porém, Neneca esbarrava em um valado de macambira, em uma moita de cansanção, de nome Dantinhas Cara Larga. Como substituir o secretário-geral, filho do todo-poderoso financiador da campanha? 

Na cidade, as apostas eram feitas aos montes. Povinho danado que adorava uma aposta. Apostava-se em tudo. Até em corridas de preás. Borda do Campo era, talvez, o único lugar do mundo no qual se criava preás, para disputar corridas. Uns diziam que Neneca era cabeçudo e haveria de virar a mesa. Apesar de dever atenções ao “banqueiro” da cidade, seu padrinho, ele precisava dar a sua cara à administração pública municipal. Ou faria isso, ou seria engolido pelo rolo compressor chamado João Bosco Cara Larga. Outros diziam que o jovem Cara Larga, o filho caçula dentre os dezoito que Romualdo Cara Larga ajudara a botar no mundo, não sairia da Secretaria Geral. Dos dezoito filhos de Dantinhas, apenas doze sobreviveram. A mortalidade infantil era muito grande, naquela época. 

Passaram-se duas semanas. Nada de Neneca ajeitar-se como queria na Prefeitura. Um mês, e nada. E aí se deu um caso estranho. Uma funcionária municipal, Dorinha Guedes, apareceu grávida de repente. Um bucho ligeiramente crescido. Um escândalo. Moça igrejeira, beata mesmo, embuchada daquele jeito, sem ter namorado ou capa de sela, era um despautério. Chamada na chincha pelo vigário, Padre Felippo Bianucci, um italianão com voz de trovoada, Dorinha confessou que o pai do menino era João Bosco Cara Larga, o todo-poderoso secretário-geral. Ah, foi um Deus nos acuda! O padre partiu para cima de João Bosco, sujeito casado e pai de três filhos. Casado, por sinal, com uma prima-irmã de Dorinha, Cecília de Ângelo do Coité. 

Neneca entrou nos azeites. Nunca que ele teve um caso com Dorinha, que era como uma irmã para ele. Ela só podia estar de conluio com alguém para assegurar que estava grávida dele. Uma armação! Se alguém deflorou Dorinha, não tinha sido ele. “Sou um homem de respeito. E essa moça, tão querida lá em casa, agora virou uma vagabunda”, disse João Bosco ao padre Felippo, com voz firme, sem titubear. 

Foi aí que as apostas aumentaram. Neneca não iria jamais consentir que o secretário-geral da Prefeitura fosse um desonrador de moça donzela. Não pegaria bem para a sua administração. Eram favas contadas. João Bosco seria apeado do poder. 

Neneca chamou para uma conversa o pai e o filho, ou seja, Romualdo Cara Larga e João Bosco. Da conversa ninguém jamais soube uma palavra. O certo foi que, depois da conversa, João Bosco foi exonerado. 

Dorinha Guedes nunca pariu. Mudou-se para a capital, forrada de dinheiro, como se dizia em Borda do Campo. Até casa comprou. Tudo não tinha passado de uma armação, para que Neneca pudesse dar um chute no traseiro de João Bosco Cara Larga, irmão do finado prefeito e filho do mangangão endinheirado da cidade. 

Neneca tocou a administração, ajudado pelo ginasiano Geraldinho Boca de Sapo. Seis meses depois, o novo prefeito sofreu um estranho acidente. O jeep da Prefeitura caiu numa ribanceira, numa reta onde jamais aconteceu nenhum acidente. O motorista, Totico de Totoco de Maria da Penha, o criador de galinhas de raça, teve apenas uma escoriação no braço esquerdo. Ele disse que saltou do carro antes que o mesmo desse com a ribanceira. Para muita gente, história mal contada. Coube a Marquinhos Dantas, irmão do finado prefeito Belarmino, e presidente da Câmara Municipal, assumir o comando da Prefeitura. João Bosco estava vingado. Voltou ao cargo de secretário-geral. Naquele tempo, não se falava em nepotismo. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/05
11:37

Políticos safados

José Lima Santana
Professor da UFS

Conversa de pé de balcão. Um trago agora, outro mais tarde. A manhã ia-se findando, para ceder lugar à tarde. O relógio de cuco estava para anunciar meio-dia. Faltava um tiquinho. Um minuto? Na vagareza do ponteiro maior, talvez. Mas, na rapidez do ponteiro menorzinho, o dos segundos, um nada. Pronto. O cuco, preguiçosamente, saiu do seu ninho e abriu o bico doze vezes. Meio-dia. Tão certa era a hora marcada, que o jegue Miúdo relinchou, confirmando o meio-dia. Jegue pra lá de bom ao escancarar os beiços no bater da hora certeira. Um jegue-relógio daquele haveria de valer um dinheirão. Todavia, entretanto, e, contudo, “seu” Zezé barbeiro não o venderia por nada do mundo. Um jegue daquele era uma joia rara. Um diamante bruto. Precioso. Além de tudo, um enxertador de primeiríssima. 

Na bodega de Ednaldo, a conversa de pé de balcão continuava miudinha. Flávio de Tonho Zanôio e João Perneta de Chico Mão de Vaca tagarelavam sobre política. Cada qual tinha uma preferência. Flávio era partidário do prefeito. João era da banda de Cordulino Figueiredo, vulgo Bem Te Vi com Sono. As eleições eram as primeiras para governador do estado, desde que os militares deram o golpe de 1964. Ambos, porém, estavam desapontados. Não viam um sujeito de sangue no olho e cabelo nos buracos das ventas que merecesse o voto deles. Naquilo, eles estavam emparelhados. 

Flávio de Tonho Zanôio pediu outra talagada de conhaque de alcatrão. Virou o copo. Cuspiu. O copo de cerveja de João Perneta de Chico Mão de Vaca ainda estava a meio, esquentando. Coisa mais horrorosa era cerveja quente. Quente só café, sopa e mulher, como dizia Zé Brinquinho de Sá Maria Rosa, fina doceira de mil e tantas guloseimas vendidas na feira semanal da cidade. Não havia segunda-feira que as guloseimas açucaradas não voassem até o meio da manhã. 

“Flávio, o que tem de político safado neste país, num tá no gibi. E o que vem por aí de cabra ainda mais safado, até o diabo duvida”, disse João Perneta. “Tu acha mesmo que tem cabra ainda pior do que essa laia que já tá aí amoitada, nesses anos todos que os milicos mandam e desmandam, ou desde muito antes?”, respondeu Flávio, indagando. “Tem demais. Neguinho ficou aí pelos cantos, tudo murcho, aguardando a hora de melar os dedos no pote de mel. Tu há de ver a carnificina. Vai ter dinheiro no bolso da negrada, que vai ser de fazer inveja a bicheiro”. 

O dono da bodega entrou na conversa: “Quando eu morei em São Paulo, um amigo meu lá do interiorzão dizia que o pai dele votava num político que abria o bico para dizer que roubava, mas fazia. Então, um compadre do pai dele perguntou se ele não tinha vergonha de votar num ladrão confesso, ao passo que ele respondeu que era melhor votar num rato velho, que todos sabiam o quanto roubava, do que votar num rato novo, que ninguém sabia quanto iria roubar”. 

Flávio de Tonho Zanôio e João Perneta caíram na gargalhada. “Esse povo lá do sul tem cada uma!”, disse Flávio. E emendou: “Ora, tanto faz um rato velho como um rato novo: todos são gabirús. Roubar mais ou roubar menos, pouco importa. Ladrão é ladrão. De casaca ou de camisa de cotim, tanto faz. O lugar deles é atrás das grades. O que tu acha, João?”. E João: “Eu acho melhor é a gente tomar mais uma. Abra outra cerveja e bote outro conhaque pro Flávio”. O bodegueiro atendeu. 

Naquele instante, entrou na bodega Alaíde de Afonso Pimentel, mãe do vereador Vaguinho Pimentel. “Boa tarde a todos”, disse a mulher. “Boa tarde”, responderam os três homens. “Um quilo de açúcar e uma libra de café em grãos”, ela pediu. Enquanto o bodegueiro pesava o açúcar, João Perneta, aparentado de Alaíde pelo lado materno, perguntou: “Prima Alaíde, tu que é mãe de político, o que tá achando dessa eleição pra governador?”. Ela fez um bico, botou as mãos nos quartos e disparou: “Eu sou mãe de político por um descuido da natureza. Já disse a Vaguinho pra ele sair desse negócio. Política num é meio bom, pra gente decente. É cada um engolindo o outro. É todo mundo querendo se dar bem. Eu mesma num vou votar em fio da gota nenhum. Vou ficar atrepada no muro, olhando pros lados. Num lado tem prego; noutro, tem caco de vidro. Em cima do muro, eu não faço mal a ninguém. Nem ninguém, me faz mal nenhum”.

Ednaldo acabara de pesar também o café em grãos. Eram grãos bonitos, bem limpos e cheirosos. Ah, um café pisado no pilão, café de coador, tinha lá o seu lugar! Um bule fumegando pelo bico, uns bolachões de coco na mesa, um caco de manteiga da marca turmalina de Minas Gerais, era tudo que um pai d’égua merecia de manhã bem cedo ou na boquinha da noite para entreter o bucho e alimentar as lombrigas, como era voz corrente por ali. 

Alaíde despediu-se e ganhou a rua de chão batido. O vento soprava e agitava os galhos dos eucaliptos da pracinha onde as mulheres, no quebrar da tarde, teciam rendas na almofada de bilros. E onde os meninos brincavam de bola de gude ou pião. O vento entrou portas adentro, na bodega, quase arrancando da cabeça de Flávio o chapéu preto novo de baeta. Ele o segurou com a mão esquerda. “Esse vento tá parecendo político quando entra na casa da gente em tempo de eleição. Entra animado igual a pinto no lixo, pra num dizer outra coisa. Depois, vai-se embora, pra voltar quatro anos pra frente. Por onde andará o vento, quando passa e vai embora? Ninguém sabe. Assim também é com os políticos. Ao bem da verdade, toda regra tem exceção. Eu sei. Mas, no geral, é uma cambada da moléstia. Os poucos que se salvam, a gente conta nos dedos”, afirmou Flávio. 

João Perneta sorveu mais um gole de cerveja, quase quente. O dono da bodega atendia outra freguesa. Mais uma lufada de vento entrou sem pedir licença. Ainda mais forte. O inverno estava indo embora. O vento soprava para enxugar a terra. Quem enxugaria a água suja da política? Quem haveria de prender os ladrões, todos eles, de todos os lados? Só quem poderia fazer isso eram Flávio de Tonho Zanôio, João Perneta de Chico Mão de Vaca, Alaíde, Ednaldo bodegueiro, “seu” Zezé barbeiro e quem mais não tolerasse os ratos velhos ou novos da política. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/04
14:55

Joaquim Guedes e a Rapariga

José Lima Santana
Professor da UFS

A cidade de Monte Azul amanheceu em rebuliço. De rua em rua, de casa em casa a conversa era a mesma. Até na sacristia da Igreja Matriz, onde as beatas esperavam o velho cônego para tomar-lhe a bênção, a conversa não variava. São Benedito, o padroeiro da cidade, já devia estar ensimesmado com aquela lorota toda. O sacristão Toinho Beiço Mole entrou na conversa para dizer que uma surra muito grande tinha sido aplicada ao preso. O delegado, capitão Maurílio Quebra Osso, não alisava ninguém. Nem mesmo um sujeito de mais de sessenta anos de idade, como era o caso do preso.

O dia foi alteando, o sol pinicando a pele das pessoas, muitos afazeres negligenciados e a conversa era a mesma. Conversa amuada. Na delegacia, o preso gemia. Duas ou três costelas quebradas. Filete de sangue escorrendo de um canto da boca. A camisa ensopada na frente. Aliás, rasgada de tanta pancada. Uma situação lastimável. Outro preso, um bêbado franzino, tentava consolar o ensanguentado, que estava encolhido num canto da cela.

Até aquele momento, ninguém intercedera pelo preso. Também, não adiantaria. Maurílio Quebra Osso estava por conta. A desfeita que o preso fizera à casa de “seu” Manequinha Gomes não merecia perdão. Um desaforo desmedido. Uma desonra. Quem fazia o que o preso fez, outra coisa não merecia senão umas boas pancadas, uma surra de cipó caboclo e xilindró. Na cidade não tinha advogado de morada. O juiz e o promotor só apareciam de quinze em quinze, pois a cidade não era cabeça de comarca. Logo, a autoridade plena era o delegado Quebra Osso.

Para assuntos da Polícia, o prefeito não contava. Este era da UDN, ao passo que o delegado era do partido do governador, que era o PSD. O prefeito, pois, estava de baixo. Não piava. Restava o velho cônego Afrânio Vilanova, cambaleando com o peso dos seus oitenta e alguns anos, ansiando pela nunca vinda substituição. O bispo já lhe prometera uma centena de vezes que lhe arranjaria um substituto, e nada. Porém, naqueles dias, o velho cônego encontrava-se de cama. Uma gripe com cara de herege o consumia. Algumas beatas falavam em pneumonia. “Seu” Aristides da Farmácia Brasil, contudo, afiançava que era, sim, uma gripe desalmada. Uma cepa nova, que estaria causando mortes por aí.

Ninguém tinha forças para interceder pelo preso. A prisão dera-se na tarde anterior. O delegado fora acionado por um filho de “seu” Manequinha Gomes, que, aflito, exigia uma providência contra um sujeito que destratara a sua irmã Maria de Fátima, moça de procedimento irretocável, de todo mundo conhecida e por todo mundo amada. Era a cantora número um do coro da Matriz. Voz de veludo a encantar os fiéis nas missas e, especialmente, na Sexta-feira Santa, ao entoar o canto da Verônica, abrindo a toalha que continha a estampa do rosto ensanguentado de Jesus, fazendo as pessoas chorarem de compaixão. Um canto dolorido.

O sujeito que estava preso e ensanguentado com duas ou três costelas quebradas, fora à casa de “seu” Manequinha Gomes, querendo falar com o pai da “rapariga que atende pela graça de Maria de Fátima”, como ele dissera em alto e bom som. O desgraçado chamara a flor da casa de “rapariga”. A casa dos Gomes não era um cabaré, um rendez-vous, para nela abrigar uma rapariga. E, ainda por cima, detratar Maria de Fátima, chamando-a de “rapariga” soava como se fora um sacrilégio. O pai da moça deu com o sujeito no chão. Sapecou-lhe uns tabefes. Só não lhe abriu o quengo porque uns vizinhos não deixaram. “É melhor chamar o delegado Quebra Osso”, disse alguém. O menino correu à delegacia. E, logo, estava o sujeito preso e comendo cipó caboclo no lombo. Cipó caboclo e retranca de janela. Daí as costelas quebradas.

Bem. Vamos aos finalmente. O tal sujeito era o português Joaquim Guedes, dono de abastado empório na cidade de Jaqueira Alta, dali distante coisa de quinze léguas mais ou menos. O filho do portuga, Quinzinho Guedes, conhecera Maria de Fátima, que tinha dezessete anos, e por ela se encantara. Trocaram cartas com nomes fictícios para não chamar a atenção. Encontraram-se duas vezes, furtivamente, quando ela fora à casa de uma tia em Jaqueira Alta. Outras cartas com bilaterais juras de amor. Rapaz de respeito e por demais arreado dos quatro pneus pela morena de olhos orvalhados de desejo, pedira ao seu pai que fosse ter com o pai da moça para lhe pedir permissão a fim de namorar tão sublime criatura.

E foi assim que Joaquim Guedes, o preso ensanguentado com duas ou três costelas quebradas, foi ter à casa de “seu” Manequinha Gomes, para falar com o pai da “rapariga que atende pela graça de Maria de Fátima”.

Naquelas paragens, e disso o portuga, há tantos anos no Brasil, deveria saber, rapariga era mulher da vida livre, rampeira, mulher perdida. Era como entendia o pai de Maria de Fátima. Por isso, todo o fuzuê, a prisão, a surra, o filete de sangue na boca, as duas ou três costelas quebradas.

Tudo, depois, muito bem esclarecido, sobraria para o delegado Quebra Osso, pois o português era tio de cortesia do deputado líder do governo na Assembleia e de um desembargador. Foi transferido e rebaixado para tenente, após a abertura do devido procedimento militar, feito sabe Deus como.

O namoro acabaria não vingando. Quinzinho, filho único, herdaria o cabedal do pai, que morreria uns dez anos depois do fuzuê. Mas, ele não conseguiu esquecer Maria de Fátima, que, aconselhada pelo padre João Nogueira, substituto do velho cônego, metera-se num convento, um ano depois que Joaquim Guedes acabou preso com duas ou três costelas quebradas. Virou freira.

Um dia, de chofre, Quinzinho encontrou-se com Maria de Fátima, serena e bela, no seu hábito branco. Tinham-se passado vinte anos desde que ele pedira ao seu pai que fosse ter com o pai da sua pretendida. Ele continuava solteiro. E ela continuava com os mesmos olhos orvalhados de desejo.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/04
17:11

Um Brasil sem golpes e sem ladrões

José Lima Santana
Professor da UFS

O Brasil vive uma situação inusitada, talvez nunca vista antes em sua conturbada história política. Há, manifestamente, uma nítida divisão entre as pessoas, especialmente no que diz respeito aos defensores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de um lado, e aos seus detratores, do outro lado. Aliás, esta situação se arrasta desde que ele chegou à presidência da República, em 2002. Acirrou-se com a reeleição de Dilma, em 2014 e, mais ainda, com o processo de impeachment contra ela. Golpe para os petistas e outros segmentos, ou seja, para os chamados “mortadelas”. Um processo mais do normal para os ditos “coxinhas”. 

Em vários sentidos, a situação do país é muito grave. No fim do ano passado, um general que estava prestes a ir para a reserva disse o que um militar não poderia dizer, dando palpite, por sinal infeliz, em termos políticos, pregando uma intervenção militar. Um absurdo. Uma insanidade. Os regulamentos das Forças Armadas não permitem que os militares se pronunciem politicamente. Mas, como o general estava para vestir o pijama, ficou por isso mesmo até ele ir para casa. Nenhuma punição. Isto não foi bom para a democracia nem para o país. 

Depois, o próprio comandante do Exército, à véspera da decisão do Supremo Tribunal Federal acerca do habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente, a fim de evitar a sua prisão, abriu a boca no mundo, como que a intimidar os ministros do STF. Uma lástima. Uma falta de respeito à democracia. Poucas foram as vozes erguidas contra o discurso ameaçador do general comandante. O ministro interino da Defesa colocou panos quentes, proferindo um discurso chinfrim, do tipo discurso de botequim. O presidente da República, desgastado politica e eticamente, titubeou. Ou melhor, silenciou. É o que ocorre quando não se tem um presidente com legitimação popular e com lisura pessoal. Parlamentares da situação tentaram minimizar a fala do comandante. Já alguns da oposição, criticaram-no. O ex-procurador-geral da República, também. Igualmente, a Anistia Internacional. 

Em sua inoportuna fala, o comandante do Exército disse: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. Para alguns, a fala cheirou a ameaça. Ameaça de emparedar o STF. Ameaça de uma possível reação golpista, caso o STF deferisse a pretensão da defesa de Lula. Ora, na verdade, o Exército e as outras duas Forças Armadas devem, sim, estar atentos à sua missão constitucional. Devem estar debaixo do manto constitucional e legal. As suas missões institucionais decorrem da Constituição Federal. E esta deve ser preservada e cumprida à risca por todos, inclusive pelos militares. Aliás, já se disse alhures que “o militar não é a cabeça da Pátria, mas, sim, o seu braço”. Braço que tem um limite.

Na democracia, todos estão adstritos ao ordenamento jurídico do país. Todos. Na democracia não há lugar para falastrões, fardados ou não. O povo brasileiro deve considerar e respeitar as suas Forças Armadas, que, em certos períodos da sua vida como Nação independente, souberam unir o país, propugnando pela integração do seu território. O Exército, por exemplo, tem as suas origens nas batalhas memoráveis dos Guararapes, na luta contra o invasor holandês. Ali não estavam apenas as bases do futuro Exército, mas, também, as bases do nosso nacionalismo. Uma ressalva: todo brasileiro enquanto cidadão tem o direito de livre manifestação do pensamento. No caso em tela, o comandante do Exército, que, tecnicamente, é tido como um bom comandante, não falou como cidadão, mas, sim, falou politicamente como comandante do Exército, o que lhe é vedado. Ele sabe disso. Nós também o sabemos.

O que não devem ser acatadas são ações ou falas que tenham em vista emparedar autoridades ou instituições democráticas. Jamais. Não precisamos de mais um golpe militar. Nem sequer de ameaças. De quaisquer tipos. Não! Na democracia cada instituição tem as suas funções. Que cada uma as possa cumprir como determina a Constituição. Nem mais, nem menos. 

Por outro lado, com a prisão de Lula, injusta para os seus aliados, mas, justa na visão dos que lhe são contrários, o que importa mesmo é que as provas constantes do processo que o condenou sejam robustas, que possam ter força de validade para a sua condenação. Do contrário, seria uma farsa. E, mais do que isto, espera-se que todos os outros políticos que estão sendo investigados também venham a ser condenados, caso as provas igualmente sejam robustas. Precisamos limpar o país dos seus ladrões de colarinho branco. Chega de políticos desonestos, de corruptos e de corruptores (estes do empresariado), que passaram a vida se locupletando dos recursos do povo, tirando deste o direito a obras e serviços que lhe são necessários para a afirmação, do ponto de vista material, da dignidade da pessoa humana. 

O momento que o Brasil vive é muito ruim. “Nunca antes na história deste país” os cofres públicos foram tão arrombados. Ou, ao menos, nunca antes tantas roubalheiras foram descobertas. Há bandidos demais no país. Nos morros, no asfalto, nas planícies e nos planaltos. Vivemos cercados por ladrões. Que cada um pague, e pague mesmo, pelos seus atos desonestos. Todos sem exceção. Não basta prender um, caso haja mesmo motivo para tanto. Tem que prender todos que achincalharam o povo brasileiro. 

Não conheço de perto o processo que levou Lula à cadeia. Nada sei da extensão e profundidade das provas contra ele. Não conheço os processos e os inquéritos em tramitação contra muitos outros “peixes graúdos” de vários partidos políticos. O que sei é o que tenho ouvido, visto e lido através da imprensa. Não posso, pois, fazer um juízo de valor. Apenas espero que não se faça corpo mole ao fazer valer a lei para todos indistintamente. Para TODOS. 
Não podemos mais conviver com bandidos travestidos de homens públicos ou de empresários, nas três esferas federadas. Na democracia não deve haver lugar para assaltantes do poder, nem para assaltantes dos cofres públicos. 

Queremos um Brasil sem golpes e sem ladrões. Um Brasil sem injustiça e sem impunidade. Sem corruptos e sem corruptores. Um Brasil que, como disse o presidente da Província de Sergipe, José Martina Fontes, em 1º de março de 1878, dirigindo-se à Assembleia Legislativa Provincial, tenha “a Lei por guia, o Direito como princípio e a Justiça por fim”. 

Para tanto, é preciso que possamos dar vazão às palavras do jurista alemão Rudolph von Ihering (1818-1892): “O fim do Direito é a paz, o meio de atingi-lo é a luta. Enquanto o Direito tiver de contar com as agressões partidas dos arraiais da injustiça – e isso acontecerá enquanto o mundo for mundo – não poderá prescindir da luta dos povos, dos governos, das classes sociais, dos indivíduos”. 

A luta é de todos nós. Lutemos, pois. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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