05/03
19:25

Um Filho Perdido?

José Lima Santana
Professor da UFS

Silêncio. Depois que o garoto partiu, restaram lágrimas e silêncio interior. O pai sentou-se no meio-fio da calçada com os pés na sarjeta por onde escorria uma água lodosa, negra e fétida. Mas, aquilo não lhe incomodava. O seu pranto foi aumentando. As vozes da noite, que vinham de todos os lados, macularam o silêncio interior. Um homem se destroçava naquela noite que nascia e que encobria o mundo com seus negros véus. Emocionalmente, já não era um homem. Era apenas um farrapo humano, que lamentava naquela calçada, naquela sarjeta. E era como se as suas copiosas lágrimas aumentassem aquele lodo que escorria. 

Minutos antes, pai e filho estiveram abraçados por longos minutos. Pareceu-lhe uma eternidade. Nunca abraçara o filho como naquele momento. Nunca sentira o seu coração tão perto, a bater tão forte, embora descompassado. Nunca o pai se sentira tão pai. E pelo aperto do abraço do filho, certamente, aquele sentimento era recíproco. Pai e filho se encontravam pela primeira vez em muitos meses. Não estavam morando em cidades diferentes. Estavam onde sempre estiveram, na cidade grande, em que ventosas de tentáculos terríveis sugavam os filhos. O seu filho era um deles. 

Marcinho sumira de casa há oito meses. De início, andou estranho em casa, escondendo coisas, vivendo pelos cantos, trancado no quarto, metido na internet. Depois, deu para sair com amigos que a família não conhecia. “São meus amigos, mãe! O que é que tem?”. A mãe tirava por menos. O pai trabalhava dia e noite em dois empregos, para dar uma vida mais amena à mulher e ao filho único. Escola particular. Plano de saúde. Tudo pela hora da morte. A mulher também trabalhava. Somavam esforços para que o filho tivesse um futuro garantido por meio dos estudos. De repente, o filho adorado fez-se no mundo. As drogas levaram-no para o lado escuro da vida. 

Quando os pais se deram conta, Marcinho estava numa situação desesperadora. A casa foi ruindo. O garoto de 15 anos deu para emagrecer. Médico? “Precisa não, mãe. Eu tou bem. Só ando com fastio. Vai passar”, dizia ele. Não passou. E não tardou a virar um quase morto-vivo. Enfim, saiu de casa. Aparecera umas poucas vezes, enquanto o pai não estava em casa. Precisava de dinheiro. Acabou por surrupiar alguns bens de pequeno porte para fazer dinheiro. Por fim, sumiu de vez.  

O pai andou de rua em rua, de beco em beco à sua procura. Foi à polícia. Andou pelas bocas de fumo, pelos pontos de crack. Levou carreira de drogados e de marginais. Chegou a apanhar numa noite chuvosa em que procurava o filho numa conhecida boca de fumo controlada por um traficante de alcunha Grilo de Fogo. Nada. Ninguém lhe dava notícias do filho. Depois, soube que uma viciada muito conhecida no submundo da cracolândia do centro da cidade o teria seduzido. Mas, ela tinha sido morta num ajuste de contas. Ela e um comparsa. Os corpos? Ninguém sabia o paradeiro. O comparsa seria Marcinho? Desespero do pai e da mãe. Novas buscas. Na assistência social da Prefeitura, no IML. Nada. 

Uma vida perdida? Não para aquele pai. Nem para a mãe. O pai não se deu por vencido. Queria o seu filho de volta. Em qualquer estado em que ele se encontrasse. Era o seu filho. Único. Sentia-se responsável por aquela situação. O trabalho lhe absorvia dia e noite. Porém, era pelo bem da família, era pelo futuro do filho. Se ele tinha negligenciado nos cuidados de pai, não o fizera propositalmente. Todavia, aquela situação lhe pesava nos ombros, na consciência. Muitas vezes, não tivera tempo para levar um papo com o filho. Quando este queria ir ao futebol, o pai estava indisposto, cansado. O filho ia com os amigos. O dinheiro para o buzú, ingresso e lanches não faltava. Porém, aquilo só bastava? 

A mãe, embora desvelada como todas as mães, ou quase todas, sempre tirava as coisas por menos. Aliviava a barra do filho, quando este começou a faltar às aulas e o pai recebeu telefonemas da direção da escola. Ela sempre arranjava um jeito de arranjar uma desculpa, encobrindo o quão faltoso e disperso o filho andava. Na rua onde a família morava, Marcinho não era o único garoto de sua idade ou de idade aproximada que estava naquela vida. As drogas consumiam os filhos e as filhas de todas as camadas sociais. Bandos de mortos-vivos, completamente entregues às drogas e, especialmente, ao ckack vagavam pelas ruas, praticando pequenos delitos. 

A violência por si mesma já avolumada crescia ainda mais a par das drogas. Os governos, despreparados, davam desculpas, apresentavam estatísticas fictícias, enfim, não tinham o que dizer, porque não tinham planejamento de segurança pública que validasse ações efetivas na prevenção e na repressão. Uma cidade perdida. Um estado perdido. Um país perdido, um mundo perdido, diziam alguns, especialistas ou não. Afinal, todos tinham o que dizer ou como opinar. A oposição ao governo, então, lascava nas emissoras de rádio, nos jornais, nas redes sociais. A segurança estava um caos. E a grande metrópole ia engolindo os seus filhos e as suas filhas, para vomitá-los numa vala, num necrotério ou noutro lugar qualquer. 

Naquela noite, o trabalhador Antônio Marcos encontrou o filho a quem procurava há oito meses. Atravessando uma avenida central, eis que o avistou do outro lado. Aumentou os passos. Gritou o nome do filho, um morto-vivo. Marcinho, ao reconhecer o pai, quis correr. “Espere meu filho!”, gritou o pai. Ele esperou. Já não era o seu filho, forte, belo, bem criado, como o pai supunha. Era o que dele restava. O pai o abraçou, chorando. “Meu filho! Meu filho! Meu filho!”. De início, Marcinho ficou imóvel entre os braços do pai. Aos poucos, porém, ele também o foi abraçando. Caiu em prantos. Eram dois a chorar. 

Um pouco depois, o pai tentou conversar com o filho. Este, como que entre assustado e alheio, o olhar vidrado, não dizia nada. O pai lhe falou do sofrimento dele e da mãe pela ausência do filho único, do eterno bebê que ele era. Falou da clínica na qual pretendia interná-lo para a devida recuperação. Falou do futuro que ele ainda teria, estudioso que fora antes de cair no mundo lodoso das drogas. Falou, falou, falou.

Marcinho lançou-se nos braços do pai e balbuciou: “Pai, me perdoa. Me perdoa, pai. Diga à mãe que eu já morri. Eu amo vocês dois. Me perdoa, pai. Acabou, pai, acabou!”. E voltou a cair em pranto. O pai, desesperado, respondia que nada estava perdido. “O pai vai cuidar de você, meu filho. Eu e a mãe vamos lhe salvar desta vida”. De repente, Marcinho se desvencilhou dos braços do pai e saiu em disparada. Atravessou a avenida por entre os carros que paravam de chofre e buzinavam, sem que ele pudesse se dar conta que o sinal estava fechado. Sumiu na esquina próxima. 

E foi assim que aquele pai se achou, naquela calçada, naquela sarjeta que escorria lodosa, entre lágrimas e silêncio interior. Silêncio perturbado pelas vozes da noite. Pelas vozes da vida. Mas, para ele, nem tudo estava perdido. Ele era pai. Ele tinha um filho. Pelo filho, ele continuaria indo à luta. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
25/02
15:44

Gabriel de Zé de Reimundo

José Lima Santana
Professor da UFS

José Raimundo de Azevedo era o maior amansador de burros e cavalos brabos dos costados da Serra da Marcação aos brejos do Alagadiço dos Marmeleiros. E não era pouca extensão de terras por onde a fama de José Raimundo era cantada e decantada. Na boca do povo, Raimundo virava Reimundo. Era Zé Reimundo. Gabriel era o filho mais novo e herdeiro na arte de amansar burros e cavalos brabos. Um meninote. Não tinha completado quinze anos de idade e já era quase igual ao pai no pinotear sobre o lombo de burros e cavalos carentes de rédea curta e de passadas em apropriada marcha a depender do tipo de animal e de sua pretendida serventia. De corpo e tino, Gabriel era um homem. Moreno trigueiro, sisudo, começando a formar um pezinho de meia. Tinha até algum estudo. Fraco, mas tinha. Era capaz de ler e escrever uma carta.
Gabriel de Zé Reimundo foi adjutorar o pai lá pras bandas do Xique-xique, lugarejo acanhado de pouco mais de quinze casas que mal e mal se conservavam de pé. Uma chuva mais pesada daquelas de invernos copiosos haveria de botar tudo abaixo. Casebres do tipo testa de bode, de duas águas, frente e fundo triangulares, eram o que, na verdade, eram aquelas pobres casas. Meninos lombriguentos, sujos, pareciam guarnecer a entrada do pequeno e disforme arruado. Pernas finas como canelas de sabiá, mal sustentando as salientes barrigas cheias de vermes. Olhinhos remelentos, rodeados por mosquitos.

Zé Reimundo e Gabriel entraram no arruado miserável, cheios de espanto. Nunca tinham se botado para aquelas paragens. Um tal de Peixotão de Brotas, fora em busca dos prestimosos serviços do pai e do filho, para amansar um magote de cavalos xucros, segundo ele adquiridos nas Porteirinhas, cidade distante umas seis ou sete léguas. Peixotão deixou nas mãos de Zé Reimundo uma parte do dinheiro combinado, como garantia de sua presença no dia aprazado. E ali estavam pai e filho, prontos para o serviço.

No batente de um casebre estava um velho magro, descamisado, de barbas longas e brancas. “Deus lhe dê bons dias, meu amo”, saudou Zé Reimundo. “Nosso Sinhô lhe dê o mesmo, meu fio”. O velho atirou no terreiro uma cusparada, grossa, escura, sinal de que ele mascava fumo de rolo, e que uma galinha pedrês tratou logo de aproveitar como repasto. “O meu amo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão?”, indagou Zé Reimundo. “Aqui todo mundo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão de Felismino. Descendo aquela ladeira acolá, num tem errada. Vosmecê vai de trote por meia légua. Na bifurcação do riacho é só quebrar à direita e logo está lá. Fazendão, meu fio. Fazendão, que dá serviço e sustento a essa gente toda daqui”, explanou o velho.

O amansador de animais de montaria agradeceu ao velho e jogou em sua direção um bom pedaço de tabaco, que ele aparou com a mão direita em pleno ar. “Deus lhe pague e lhe favoreça!”, gritou o velho. Zé Reimundo e Gabriel tocaram os animais, dois bons cavalos de passada, um alazão e um castanho escuro, ao rumo indicado. Era tempo de terra engolindo poças d’água. Fim de inverno. Ao alcance da vista, em qualquer direção, tudo estava verde. Matos, roças e capinzais. Nos roçados, mulheres e meninos. Homens, nenhuns. O velho mascador de tabaco estaria certo: os homens provavelmente trabalhavam para o tal Peixotão de Felismino.

Pai e filho chegaram à bifurcação do riacho, logo depois de descerem a ladeira. O riacho estava com água à altura do vazio dos animais. Água cristalina, murmurante, descendo ligeira como se tivesse pressa para chegar ao destino final, um rio, que a levaria, misturada, ao mar. Adiante, via-se, num pequeno elevado, uma sede de fazenda de arromba. A casa grande ao centro, um curral há poucos metros, coberto, com dois troncos para os bois, quatro casas menores, que deveriam ser para a moradia de capatazes ou vaqueiros. Um pomar ao fundo da casa grande. Outro curral sem cobertura em forma circular, como se fosse uma arena. Ao lado das três casas menores, uma construção que parecia ser uma serraria ou algo do tipo. Pastos de capim viçoso. Muitos. Bois que pareciam centenas de manchas brancas contrastando com o verde viçoso do capim. Bois por todos os lados. Num pasto separado, alguns cavalos. Uns vinte, pouco mais ou menos. Deveriam ser os xucros. Trabalho não faltaria para Zé Reimundo e Gabriel.

Apeando do cavalo, Zé Reimundo dirigiu-se a um sujeitinho metido numa camisa encardida que cabia dois dele. “Bons dias, amigo. ‘Seu’ Peixotão se acha?”. O sujeitinho respondeu: “Quem procura pelo patrão?”. O amansador levantou um pouco o chapéu e disse: “É Zé Reimundo, o amansador de cavalos. Sou contratado dele”. O sujeitinho demandou em direção à casa grande. Mais do que logo, ali estava Peixotão de Felismino. Sujeito espaduado, alto, de barba cerrada, cara fechada, que, logo, se abriu num sorriso de cabra bonachão. “Salve, ‘seu’ Zé Reimundo. O dia aprazado por nós é hoje. Homem de trato é do que eu gosto. Seja bem-vindo ao meu pobre rancho!”. Pobre rancho...! Além de bonachão, era gozador. Deram-se as mãos. “Pelo visto, temos trabalho pela frente, ‘seu’ Peixotão. Mas, tamos prontos”, disse Zé Reimundo.

Gabriel também apeou. Cumprimentou Peixotão com um tímido “Bom dia”. Ao cumprimentá-lo, eis que assomou à porta da casa grande uma menina, mais ou menos de sua idade. Uma formosura. Na cabeça parecia carregar um pedaço da noite. Cabelos muito negros, lisos e compridos até a cintura. Mas, os olhos pareciam duas esmeraldas. Ela veio até o pai, que a apresentou aos dois amansadores. “Minha filha, Regina Celi. Minha única filha. É quem me dá ordens”, informou sorrindo. “Prazer. Brincadeira do pai. Vocês vieram amansar os cavalos, não foi? Tão vendo aquele preto, grandão, de crinas compridas? É o Furacão. É meu. Eu quero que ele seja o primeiro a ser domado”.

Gabriel, calado, olhou para o lado do curral onde estavam os cavalos. Olhou para a mocinha. “Deixe, dona, que eu mesmo vou amansar ele pra senhora. Vou amansar do jeito que uma moça como a senhora possa montar sem perigo”. Ela sorriu. Ele também. Dois sorrisos que falavam sem dizer palavra. Foi um dia de trabalho intenso para pai e filho. À noite, diferente do almoço, que foi servido numa casinhola asseada, à beira do curral, onde ficariam alojados, jantaram na casa grande. Grande mesmo. Olhares se cruzaram por sobre a mesa grande e farta. Cruzaram-se um sem-número de vezes. A esposa de Peixotão, Dona Clotildes, incitava os convidados a comerem mais. Comida abundante e gostosa.

Na noite enluarada e fresca, as estrelas pareciam se enturmar no céu. Enquanto Zé Reimundo e Peixotão fumavam e conversavam na varanda, Gabriel sentou-se nos degraus que davam acesso à casa. Ficou olhando o céu. Logo, Regina Celi, sorrateira, acercou-se dele. O coraçãozinho do moço, pequeno matuto amansador de cavalos e burros brabos, destemido desde cedo, deu um pinote, mais outro e muitos outros mais. Parecia Furação pulando e querendo derrubá-lo. O cavalo de Regina Celi, o Furacão grande e negro, ele estava conseguindo domar. Mas, o coraçãozinho de matuto parecia querer saltar da caixa dos peitos. Sem controle. A mocinha disse: “Por que você está tão só?”. Ao dizer aquilo, sentou-se ao lado dele. Se Gabriel não estivesse ficando louco, ele seria capaz de jurar que ouviu o coraçãozinho dela bater também, descompassado como o dele. Noite de estrelas no céu. Noite de estrelas na terra.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/02
19:00

Pedro Meia Garrafa

José Lima Santana
Professor da UFS

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai. Ao todo, foram sete ais. Era assim que Pedro de Fernandinho de Zuliva Parteira dos Cafundós do Negro Janjão, território sem lei nos tempos do carrancismo, reagia a algo que lhe desgostava. E naquela manhã de fevereiro, na quarta-feira de cinzas, só um bocadinho depois do carnaval, Pedro de Fernandinho sentiu os miolos ferverem no cocuruto da cabeça quase desprovida de cabelos. Não por idade avantajada, mas, sim, por traços de família, ele estava a caminho da calvície total, aos pouco mais de quarenta anos de idade.

Que manhã estava sendo aquela! E que manhã haveria de ser, quando ao seu fim chegasse! Quarta-feira de cinzas era um dia grande, dia de preceito na família de Pedro de Fernandinho, família originária da Tamarineira, no Recife. Terra do frevo. A família de Fernandinho de Zuliva, lá no Pernambuco, era toda ela, por assim dizer, metida no frevo e no maracatu. O avô de Pedro e pai de Fernandinho, o velho Timóteo de Zeca Cego, era chefe de grupo de maracatu rural. Do pai passou para os filhos. Destes, para os netos e daí por diante. Mesmo aqueles que se arrancharam naquele povoadozinho poeirento do sertão de Sergipe, não perdiam, quase todos, os festejos carnavalescos nas ladeiras de Olinda e no Recife velho. Todo ano era o mesmo batido. E as mesmas batidas do maracatu. E os mesmos passos do frevo. “É o que nos resta de alegria”, dizia e repetia Fernandinho, arrebanhando os seus de rota batida para a terra dos Guararapes, chovesse ou fizesse sol, a cada carnaval. 

Naquele carnaval, Pedro de Fernandinho, tocador de rabeca e sanfona de oito baixos, não acompanhou os seus ao Recife. Estava amorrinhado. Uma febre braba, que já durava quinze dias. Uma moleza no corpo, como um quebranto danado. Dor de cabeça não tinha. Nem gripe, nem nada a olho nu. Porém, alguma coisa por dentro dele dava maus sinais. Febre sempre fora uma coisa de meter arrepios. “Febre sem razão é buraco pra caixão”, lorotavam as pessoas dali. 

Mal e mal amanheceu o dia, um rapazote sardento gritou na porta de Pedro de Fernandinho: “Ô ‘seu’ Pedro Meia Garrafa! ‘Seu” Pedro Meia Garrafa!”. Ôxente! Quem diabo estava se esguelando na porta de sua casa? Era o que devia estar perguntando Pedro de Fernandinho ou Pedro Meia Garrafa, como gritava esbaforido o rapazote. Sim, este era o apelido de Pedro de Fernandinho. Destoando da maioria dos homens de sua numerosa família, Pedro não passava de um metro e sessenta, e olhe lá! Baixo, franzino, um bem-te-vi. Porém, nas cordas da rabeca ou no fole da sanfona, Pedro era um gigante. Se tivesse ido para o sul do pais, seria grande como Luiz Gonzaga. 
Que manhã, afinal, foi ou seria aquela? E qual a razão do esguelamento do rapazote, que, depois, Pedro Meia Garrafa (já não o chamo mais de Pedro de Fernandinho) viria lembrar ser um dos filhos de Maria Sacode a Saia, uma finória puxadora de samba de coco, nos tempos do São João? Coisas boas não eram. 

O filho de Maria Sacode a Saia, viúva de Clemente Guedes das Porteirinhas, tinha ido levar uma notícia desastrosa. Notícia de tirar um homem do sério, de fazê-lo cometer uma besteira ou um montão delas. Maria Sacode a Saia era comadre de Pedro Meia Garrafa. Assim que tomou conhecimento do desmantelo, cuidou logo de mandar avisar ao compadre. Afinal, gente de consideração não podia ser deixada na mão. 

Pedro Meia Garrafa ouvia o que o rapazote tinha a lhe dizer. Suspirou a muito custo. Mordiscou o beiço inferior. Cofiou o bigode de arame, grande demais para o seu tamanho, para a sua boca miúda, para o seu rosto de rego de passarinho. Despediu o rapazote e mandou agradecer à sua comadre sempre tão prestativa. Aquela manhã prometia. O dia prometia. E a noite, a noite prometia muito mais. Os dois filhos homens de Pedro Meia Garrafa tomaram o rumo do Recife com o avô, Fernandinho. Os irmãos dele e os sobrinhos também. Dos homens, só ele ficou com aquela febre de mais de quinze dias. Febre maldita! Em casa, além dele, só Pipito, o mais novo dos filhos, de apenas oito anos. Dona Caçulinha, a esposa, aconselhou que ele aguardasse os filhos chegarem com toda a parentela. O que tinha acontecido, tinha acontecido. Não havia o que fazer sobre o que era fato consumado. A partir dali, as providências poderiam ser tomadas durante toda a Quaresma. Tinha tempo.

Pedro Meia Garrafa matutou. Acendeu bem uns dez ou mais cigarros de palha, de fumo do bom, comprado na barraca de Cacetinho de Julião. A cada baforada, uma providência a ser tomada. Mais de uma vez, ele olhou para a espingarda calibre 12, dependurada no canto da sala, novinha de dar gosto. E balas especiais ele as tinha. Um homem de tutano nos ossos, de pelos nos buracos da venta, de sangue no olho, não podia deixar passar aquele episódio em brancas nuvens. Um pernambucano descendente dos guerreiros dos Guararapes, que expulsaram os batavos dos nossos rincões, não poderia deixar de agir. Faca cega causava feridas mais doloridas do que faca afiada. 
A comadre Maria Sacode a Saia só mandara lhe dar aviso porque sabia o compadre que tinha. E dele esperava uma providência de tinir, de homem que zelava pelo nome e pela condição de dono do que era seu. Desapontar a comadre? Deixar de mostrar com quantos paus se fazia uma cangalha? Jamais. 

Não dava para Pedro Meia Garrafa esperar a volta dos familiares lá do frevo pernambucano. Bem que ele gostaria de ter ido. A sua vestimenta pesada para sair no maracatu do tio Alípio Caxinguelê estivera à sua espera. Ele, como os outros, mandara o dinheiro no fim de outubro, para dar tempo de a fantasia ser preparada no capricho. Os matutos marcando passo, seguros no ritmo cadenciado do maracatu rural, enchendo os olhos dos turistas, recebendo o respeito e os aplausos de todos. E, mais do que tudo, sentindo a emoção por mais um carnaval, apesar da crise gerada pelos políticos e empresários corruptos que sangravam o país e o povo. Apesar do emaranhado bruto dos cipós da vida, ainda restava um pouco de alegria ao povo. Que ninguém roubasse o que lhe restava. Mas, também, que o povo se enchesse de brio. As urnas, mais uma vez, precisavam do povo, para encher. Porém, encher com o quê? Com votos dados a candidatos imprestáveis? O carnaval transmitia alegria, mas vida não estava mole não.

Pedro Meia Garrafa disse à mulher: “Hoje, ou vai ou racha”. 

Bem. Faço aqui uma pausa. Nunca mais eu enrolei os leitores. Estava com saudade. Todo mundo deve estar querendo saber que diabo aconteceu, a exigir  providência de cabra macho, por parte de Pedro Meia Garrafa. Vou terminar por aqui, deixando vocês com água na boca, ou, quem sabe, com a boca seca. Não aconteceu nada, porque não tinha nada para acontecer. Querem me xingar? Xinguem...!!! Quá, quá, quá, quá, quá...

Um abraço para os leitores. Um cheiro e um queijo para as leitoras. Bom fim de semana.
 
Post scriptum: Ah, não vale xingar a mãe! 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
10/02
22:34

A Beata Maria Benta e o Bode Rasga Saia

José Lima Santana
Professor da UFS

Foi-se o tempo em que as pessoas criavam aninais domésticos soltos nas ruas de Timbira do Alto, cidadezinha pachorrenta, plantada quase na beira do riacho Moleque Saci, que, quando batiam bons invernos, botava cheia desmedida, cobrindo os pés de paus ao redor e em largura de vinte braças de cada lado de suas margens minguadas nos tempos de estio. Criavam de um tudo: porcos, galinhas, patos, galinhas de angola também chamadas de guinés e, na boca dos meninos, chamadas de “tô fraco”. Além disso, carneiros e bodes com suas respectivas fêmeas. Jegues, cavalos e até vacas de leite passeavam morosamente pelas ruas sem calçamento, na poeira ou no lamaçal.

Não era raro uma vaca parida de novo investir contra as pessoas. Nesses casos, normalmente, o delegado era acionado. E a multa era aplicada contra o dono do animal, além de o dito cujo ser retirado da via pública e levado para a coima, que era chamado de “queima”. Era uma cidade de todos e de tudo, a sonolenta Timbira.

Em Timbira do Alto, o padre Américo Vaz de Timbaúba talvez fosse o mais sonolento dos seus habitantes. O velho pároco já passava dos oitenta anos, com quase sessenta de vida sacerdotal e, destes, mais de trinta ali em Timbira. Muitas vezes, enquanto eram lidas as leituras, na missa dominical, o coroinha Toninho Beiço Caído via-se na obrigação de acordar o celebrante, que chegava a roncar em altos brados. Parecia que tinham instalado uma motosserra em seus bofes, que resfolegavam para danar. E o padre era um gozador de mão cheia. Gostava de tirar lérias com as pessoas, fossem quais fossem. Era do tipo que perdia o amigo, mas, não perdia a piada.

Da casa paroquial, uma casa pobre de quatro águas que, quando chovia, brotavam goteiras aos montes, e, por mais que as consertassem, mais os gatos em seus namoros noturnos deslocavam as telhas, gerando novas goteiras, quem cuidava era a beata Maria Benta, donzela casadoira, que há mais de trinta anos esperava um príncipe encantado. Ora, ora... Naquelas brenhas da boca do sertão não haveria de aparecer nem um barão de título comprado, quanto mais um príncipe encantado ou desencantado. Pobre Maria Benta, que suspirava todas as tardes na janela da varanda, pintada de verde, o verde da esperança que ela não se cansava de esperar! Orações, ladainhas e promessas a Santo Antônio não faltavam. Até a imagem do santo casamenteiro ela já tinha mergulhado de cabeça para baixo no pote d’água, uma ruma de vezes. Sem efeito. Não havia jeito para Maria Benta desencalhar. As irmãs já eram avós. E eram seis. As primas, também. De toda a família Guedes Rocha só Maria Benta ficara para titia. Ao menos até aquela data em que o padre Américo quase bateu a caçoleta.

Foi numa tarde de quarta-feira. Após o almoço, o padre, como de costume, estendera-se na rede do alpendre, no fundo da casa. A fresca do prenúncio do inverno logo o fizera botar para funcionar a motosserra dos bofes resfolegantes. No telhado da casa, o carpinteiro Rosalvo Mochila fazia consertos, prevenindo a casa paroquial em face do inverno que não tardaria. Era o mês de maio. Comecinho de maio. E o inverno já tinha perdido o primeiro bonde. De repente, o carpinteiro foi alertado pelo ajudante de que o padre estava com algum problema. E estava mesmo. Parecia engasgado. Pálido como uma folha de papel. Suava mais do que pano de cuscuz. Rosalvo e o ajudante Bibi Canela Seca acudiram o velho padre. Gritaram por socorro. Geraldinho Cabeça de Cabaça, o farmacêutico, que tinha a farmácia ao lado da casa paroquial, logo chegou para prestar o devido socorro. Ajeitaram o padre Américo na rede. Foram feitas massagens no coração. Geraldinho colocou sob a língua do padre um comprimido miudinho. Aos poucos, o padre foi dando cor de si. Melhorou.

O farmacêutico aconselhou o padre a procurar o Dr. Milton, a dez léguas dali. Um médico das antigas, cujos diagnósticos eram infalíveis. Sem exames, a não ser o toque do dedão no corpo do paciente, além do aparelho de auscultar. Aparelho nos ouvidos e nas várias partes do corpo do paciente. Era pau, casca. Pois bem. Onde ficou a beata Maria Benta, nesse chamego da quase subida aos céus do padre Américo Vaz?

Ah, Maria Benta entraria também nesse chamego do padre! Carmita de Chico Fuxico, assim que soube do “morre-não-morre” do padre Américo, botou-se para a casa de Maria Benta. E alarmou: “Corre, Maria Benta, que o padre está morrendo!”. A beata saiu de casa como estava, vestida numa saia surrada, anágua caseira e blusa de malha rasgada no sovaco direito. Correu no sentido literal. A sandália de salto baixo ajudou-a no desembesto. No Beco do Cocô, estava pastando o bode Rasga Saia, caprino inteiro, verdadeiro pai de chiqueiro, useiro e vezeiro em botar as pessoas em espevitada carreira. O bode levantou o focinho, cheirando o ar, como se estivesse farejando a beata.

Após levantar as orelhas, Rasga Saia disparou ao encontro de Maria Benta. A beata, pernas para que as quero. Voltou por onde estava vindo. E o bode atrás, pega-não-pega. Encostado na cerca de Paulo Sujeirinha, havia um pé de pau. Os chifres do bode quase roçavam a saia de Maria Benta. Esta, de um salto, agarrou-se num galho da árvore e ficou pendurada, mas, a pouca altura. Com os chifres, o bode conseguiu alcançar a saia de Maria Benta. Arrancou-lhe um tampo da saia e da anágua. Uma figura hilária se formou: Maria Beata pendurada no galho do pé de pau com um tampo da saia e da anágua nos chifres do bode Rasga Saia. A pobre mulher gritava a plenos pulmões por socorro, e dizia: “Tirem este belzebu daqui!”. Ao longo do Beco do Cocô, uma meninada e também alguns marmanjos gritavam: “O bode quer casar com Maria Benta!”. Ela praguejou. A molecada aproximou-se em grande alarido. O bode espantou-se. Correu atrás de uns meninos. Estes, com garranchos nas mãos, espantavam Rasga Saia. Criou-se um furdunço danado. Naquele instante, o galho quebrou e Maria Benta foi ao chão. A cambada urrava numa algazarra de acordar defunto de mais de século.

Passava da hora da Ave Maria quando Maria Benta, enfim, chegou à casa do padre Américo, que estava bem restabelecido. A beata desculpou-se por não ter chegado a tempo de emprestar os seus préstimos ao sacerdote e contou-lhe o ocorrido com o bode Rasga Saia. Ao ouvir o relato, o padre soltou esta pérola: “Minha querida filha Maria Benta, finalmente você encontrou o seu príncipe encantado. Beijar um bode pode ser melhor do que beijar um sapo”. As poucas pessoas em visita ao padre riram muito. Maria Beata embocou casa adentro.

O que o padre Américo não sabia era que Tião de Onofre Pingo D’Água tinha visto a saia e a anágua de Maria Benta, rasgadas. E pôde ver por debaixo dos panos farto material. Novato na cidade, onde os pais moravam há um lote de anos, e recém- chegado de São Paulo, Tião fez proposta de namoro a Maria Benta, uns cinco dias depois do alvoroço do bode. Proposta aceita. Casamento marcado três meses depois. Foi o último casamento que o padre Américo assistiu. Morreu logo depois. O coração do velho padre pifou de vez. E na boca do populacho impiedoso o marido de Maria Benta passou a ser Tião Remenda Saia.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
06/02
11:11

O defunto que se mexia

José Lima Santana 
Advogado e Professor da UFS

João Molambo perambulou pela cidade por um lote de dias. De onde ele surgiu ninguém sabia dizer. Era um velho andarilho. Muito idoso. Com ele, um filhote de gato, cinzento. Era um pobre coitado, meio amalucado, sujo, tocador de uma rebeca rústica, que dela, a muito custo, ele tirava algum som. Não era um som qualquer. Era um som de boas notas musicais, embora desencontradas, às vezes. Outras vezes, o som saía cadenciado. Podia-se, nessas vezes, ouvir alguns acordes de velhas canções populares, que, na época de ouro do Rádio, foram muito tocadas. O nome dele era João. Ao menos, era o que ele dizia. O Molambo ficou por conta de algum gaiato. Pegou. Esses apelidos sempre pegavam. As pessoas não tinham piedade.

Naquele tempo, o hospital da cidade encontrava-se, há anos, construído, mas fechado, ou melhor, abandonado. Na verdade, estava com as paredes levantadas e com o telhado completo. Pintado de branco. Fora abandonado sem portas e janelas. Um benfeitor, filho da terra, residente em São Paulo, onde conseguira enriquecer, mandou o dinheiro para a construção. Parte do dinheiro, porém, teria sido desviada. Ali, João Molambo encontrou um lugar de pouso. Passava os dias perambulando pelas ruas, carregando o gatinho e um saco de estopa cheio sabia-se lá de quê. À tardezinha, recolhia-se ao hospital abandonado. A caridade do povo lhe dava o que comer.

Numa tarde de sexta-feira, um grupo de meninos, que costumavam brincar no hospital abandonado, encontrou o corpo de João Molambo. Estava morto o pobre homem. O gatinho cinzento miava sem parar. Correram os meninos para avisar que o pobre velho tinha batido as botas. Logo, um alvoroço de mulheres se fez ouvir. Muitas acudiram ao local. Lá estava o velho João, que não tinha eira nem beira, nenhum parente ou aderente na cidade. O corpo rígido. Os olhos esbugalhados, a boca entreaberta. Um quadro desolador. 

Dona Lindaura de mestre Belo sugeriu que alguém do lado do prefeito fosse pedir-lhe o esquife. A Prefeitura costumava acudir os mais pobres nessas ocasiões. João de Pucina faria o caixão barato, coberto por um pano roxo e com alças que eram retiradas antes de o esquife baixar aos sete palmos de terra. Os coveiros baixavam o caixão por meio de duas cordas, que eram colocadas por baixo.

Pedro de Zé Morceguinho encarregou-se de ir à procura do prefeito. Foi encontrá-lo lorotando com um grupo de lambe-botas no bar de Aprígio de Marcolino do finado Tonho de Iaiá. Contou-lhe o sucedido. Num pedaço de papel fornecido pelo dono do bar, o prefeito deu a ordem para João de Pucina fazer o caixão. 

À noite, enquanto se aguardava que alguém trouxesse o caixão ordinário, algumas piedosas mulheres foram prestar ao morto as últimas homenagens, rezando ladainhas e “incelenças”. A cantoria das mulheres seguiu em boa voz. Um ou outro homem chegava à porta do compartimento onde estava o corpo do velho João e também as mulheres em rezas e cantorias. Uma ou outra criança acompanhava a mãe. Duas mocinhas também, filhas de Dona Caçula de Zé Oião. Como luz, dois candeeiros em torno da cabeça do defunto. 

Não passava das oito da noite quando uma das crianças cochichou no ouvido da mãe. Era Mariinha de Clotildes de Américo de Sá Joaninha. Esta franziu a testa, mirou o corpo do defunto, na altura das mãos entrecruzadas. O corpo estava coberto por um lençol já bem gasto, que uma das mulheres tinha levado. As mãos de João Molambo estavam se mexendo. Clotildes apurou ainda mais o olhar. As mãos mexiam-se sim. E morto se mexia? Ela alardeou: “Minha gente, o morto tá mexendo as mãos!”. Constatação feita por todas. Uma das mulheres gritou: “Gente, isso é armada do diabo!”. Não ficou viva alma. Seguiu-se uma debandada das seiscentas. Aos gritos, uma das mulheres dizia: “O diabo está no corpo do morto!”.

Quase em frente ao hospital abandonado ficava a bodega de “seu” Oscar. Ali alguns homens ainda lorotavam ou tomavam uma bicada para limpar os bofes. Alguns se acovardaram. Defunto que mexia as mãos? Ele que ficasse para lá. Mas, Zé de Joana do finado Júlio Coceirinha, Alípio de Sá Maria de Adolfo Perneta e  ngelo de Dodô tomaram o rumo do velho hospital. Eles estavam mais ou menos bêbados. Estavam tungados.

Ao chegarem ao compartimento onde jazia o corpo do velho andarilho, eis que eles constataram que, sim, o morto mexia as mãos entrecruzadas sobre o peito. Por baixo do lençol havia, deveras, um pequeno movimento.  ngelo de Dodô, frouxo que só ele, mas que acorreu ao local com os outros, levado pelo fogo da cachaça com erva cidreira, mijou-se todo. Alípio benzeu-se. Zé de Joana, porém, aproximou-se do morto e puxou o lençol. Na mão direita, a faca luminosa de cortar carne de sol na feira da cidade e com a qual, se fosse preciso, cortaria o diabo que tinha entrado no corpo de João Molambo.

O lençol foi puxado de chofre. E eis que sobre as mãos entrecruzadas do defunto estava o gatinho cinzento, lambendo as patinhas.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/01
17:27

Um jornalista mentiroso

José Lima Santana
Professor da UFS

Buraco da Capivara amanheceu em festa. Foguetório subindo aos céus desde as cinco horas. Foguetes de resposta, daqueles de três tiros mais amenos e um, o de resposta, de tinir, de estourar tímpanos. Foguetes do mestre Euclides Fogueteiro, como era conhecido e respeitado o fabricante de fogos de artifício da cidade. Por duas vezes, a tenda dele fora aos ares. Nos dois casos, em plena madrugada. Ninguém na tenda. Ninguém por perto. Danos materiais. Totais. Nas duas vezes, o povo se juntou para dar o seu adjutório ao mestre fogueteiro. Bem feito.

Muita gente foi apanhada de surpresa com tantos foguetes, acordando grande parte da cidade envolta numa névoa fina, prenunciadora de muito calor no correr do dia. A grama da Praça do Bode estava molhada. Abundante orvalho durante a madrugada. Tercino Boca Mole morava ali na praça. Espreguiçou-se na cama. Praguejou. Um filho de Deus já não podia mais dormir em paz? Mundo cruel. O que estaria acontecendo? Não era dia de Nossa Senhora das Candeias, nem do aniversário da cidade. Teria nascido menino de gente rica? Só podia ser. Tercino passou a mão no canto da boca, onde a papa dos anjos se alojava. Tornou a praguejar: “Inferno!”. Levantou-se, antes, porém, persignando-se. Vestiu a calça de mescla azul. Abriu a janela. Os passarinhos já se alvoroçavam nos pés de pau, nas fruteiras. Um assanhaço bicava, bem do seu, um mamão de cheiro, madurinho, madurinho. Dia que prometia ser bonito. 

Enfim, o foguetório estancou. Lá para as tantas, depois do café da manhã, Tercino Boca Mole foi informado por Janjão Coceirinha que “seu” Melquíades do Armazém estava comemorando a abertura do jornal “Semanário Capivarense”. Aquilo não era coisa que pudesse ir longe, avaliou Boca Mole. Onde já se viu um jornal numa cidade que nem Correios tinha? Que só dispunha de marinete para a capital duas vezes por semana? Que o padre só celebrava missa uma vez por mês, vindo de outra Freguesia? Um jornal! “Seu” Melquíades era metido a ser doutor. Lia os jornais da capital e umas revistas que Milton da Marinete lhe trazia regularmente. E livros. Lia muitos livros. Um desperdício de dinheiro e de tempo. Para que tanta sabença? Nem professor ele era. Vivia de vender os produtos do seu armazém pela hora da morte. Lia para ficar mais esperto na hora de arrochar nos preços. Só podia ser. 

O “Semanário Capivarense” seria impresso na capital. Um jornalista amigo do filho mais velho de “seu” Melquíades, que estudava para ser médico, seria o encarregado da impressão e de tudo o mais que um jornal carecia para correr de mão em mão. As assinaturas começaram a ser feitas, naquele dia. Ao final da tarde, dizia-se que estavam certos mais de cem exemplares por assinatura. Os demais seriam vendidos avulsos no armazém “Flor do Agreste”, que o povo apelidou de “Fulô da Carestia”. Tudo ali era vendido pelos olhos da cara. 

Na semana seguinte, saiu a primeira edição do jornal “Semanário Capivarense”. Na capa, uma foto de “seu” Melquíades, vestindo um terno de risca de giz. Sorriso ancho de um sujeito vitorioso. A manchete: “EMPRESÁRIO CAPIVARENSE PENSA NO SEU POVO”. Dia agoniado na cidade. Todo mundo queria ler ou ver o tal jornal. Mesmo quem não sabia ler, mas tinha posses, comprou um exemplar. Jornal magrinho, de apenas quatro páginas. Porém, era um jornal. Novidade para uma cidade como Buraco da Capivara. “E um avanço!”, como berrou Totoinho Cachorrada, cunhado de “seu” Melquíades.

No começo, parecia que não, mas, o jornal de “seu” Melquíades tomou corpo e passou a circular nas cidades circunvizinhas. A tiragem já passava de trezentos exemplares. Até o deputado Dr. Francisco Chagas deu para botar sua cara no jornal com estes dizeres: “Deputado Dr. Francisco Chagas – O Amigo Que Não Lhe Deixa na Mão”. Deputado do PR. Lucas de Mirandinha, um puxa saco do povo da UDN, escreveu no seu exemplar, abaixo da propaganda do deputado: “Este Lhe Deixa a Pé”. 

Vários pequenos empreendimentos das redondezas passaram a anunciar no “Semanário Capivarense”. O jornalista Carlos Nogueira, editor, redator e revisor do jornal, conseguiu à custa de boa comissão, alguns anúncios de lojas importantes da capital. Três ou quatro. O jornal ia se mantendo. “Seu” Melquíades não cabia em si de tão contente com o seu novo empreendimento. 

Eleições estaduais à vista. O jornalista Carlos Nogueira alinhou o “Semanário Capivarense” ao bloco formado pelo PSD/PR. Aliás, era o bloco no qual “seu” Melquíades votava. Tudo certo. Naquela época, os jornais tinham lados definidos. E os candidatos podiam veicular seus nomes à vontade. Não havia proibições legais.
 
As eleições para governador do estado foram vencidas pelo candidato da UDN. Era a primeira vez que os “caras pretas” ganhavam dos “rabos brancos”. Buraco da Capivara entrou em rebuliço. O prefeito Antônio de Zeca Marques era do PR, portanto, um “rabo branco”. Os “caras pretas” soltaram traques-bombas na rua onde o prefeito morava. Antônio de Zeca Marques não estava em casa naquele momento. Dona Sinhazinha, sua esposa, ainda pegou em arma para espantar a turba. Saiu porta afora de rifle na mão. O sargento Bico Fino, que por ali passava, e era da UDN, ao contrário do tenente Marcelo Bezourão, que era, por raiz de família, da PSD, impediu que a velha senhora se metesse em confusão. 

O resultado das eleições saiu na quinta-feira. O “Semanário Capivarense” circulava na terça-feira. Logo, na semana seguinte, o jornal de “seu” Melquíades anunciou em primeira página: “COLIGAÇÃO RUMO CERTO VAI ANULAR ELEIÇÃO”. Festa dos “rabos brancos” de Buraco da Capivara. Foguetório. Cachaçada. 
Confusão. Bate boca. Briga. Faca e tiros. Nenhum morto, felizmente. 

Toda semana o jornal trazia uma manchete sobre a anulação da eleição. “UDENISTAS APREENSIVOS. ELEIÇÃO SERÁ ANULADA”. “COMPROVADA FRAUDE NA ELEIÇÃO. UDENISTAS FICARÃO A VER NAVIOS”. “TRIBUNAL VAI ANULAR ELEIÇÃO. SÃO FAVAS CONTADAS”. E coisas desse tipo. Mas, chegou o dia da posse dos eleitos. Posse realizada com uma festança talvez nunca antes vista na história política da capital. 

No dia seguinte à posse do governador e dos deputados, transmitida pelas emissoras de rádio, menos, claro, a do grupo derrotado, Dona Eufrásia de Chico Ferreirinha, professora aposentada, dirigiu-se ao armazém de “seu” Melquíades e perguntou ao proprietário do “Seminário Capivarense”: “Ô ‘seu’ Melquíades, o seu jornal é mentiroso. Disse uma porção de vezes que a eleição ia ser anulada. E os homens não tomaram posse? Mentira pura. Enganação. Isto é feio, homem de Deus. Vou mandar cancelar a minha assinatura. Um jornal mentiroso não serve, não merece respeito”. 

“Seu” Melquíades gaguejou. E respondeu: “Dona Eufrásia, o jornal não mente. Quem mente é o jornalista, cuja mulher tem um cargo muito bom que o senador Alcides Valença lhe deu, já que não fica bem botar o cargo no nome do próprio jornalista. E, politicamente, ele escreve o que o senador manda”. A professora Eufrásia, impassível: “Ah, é assim? O jornal é seu ou do senador? Pois o senhor faça-me o favor de cancelar a minha assinatura. E se me quiser de volta, trate de conseguir outro jornalista. Um que não seja mentiroso”. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
16/01
09:19

Mais um prefeito corrupto

José Lima Santana
Professor da UFS

Compra de votos na eleição? Abuso do poder econômico? Licitações viciadas? Coleta de lixo sem controle e, portanto, pagamentos superfaturados? Conchavos com empresas do transporte coletivo urbano? Empreiteiras molhando a mão – e bem molhada – do prefeito? Propinoduto chegando aos vereadores que davam sustentação ao prefeito, num lamaçal maior e mais fétido do que o pântano do Baixio das Serpentes, nas cercanias do Caldeirão de Satanás? Bem que poderia ter sido tudo isso. E muito mais.

Porém, contudo e todavia, não foi nada disso, não. O pau quebrou lá pras bandas da Feira do Malvado, lugarejo pachorrento que, por obra e graça de um deputado assim, assim, com o governo do estado, foi transformado em município. Uma vergonha! Aliás, dos mais de cinco mil, quinhentos e tantos municípios que existem no Brasil, uma boa parte nunca deveria ter deixado de ser povoado ou distrito de outros municípios, dos quais foram desgarrados, para aumentar o número de agents públicos, dentre os quais prefeitos e vereadores, muitos deles da mesma curriola, mamadores nas tetas da vaca leiteira, embolsadores dos parcos dinheiros das respectivas viúvas, ou seja, das prefeituras. Vale dizer, do povo, tão sofrido, tão avacalhado por um bando de larápios descarados, que deveriam ser atirados no Baixio das Serpentes, sendo estas rastejantes suas inocentes primas.

O prefeito corrupto, antes que algum leitor ou leitora se descabele de curiosidade, era Leandrinho de Zé Fumaça, prefeito de Pau D’Arco, antigo povoado Feira do Malvado, denominação que lhe tinha sido dada em tempos mais do que idos, por conta da feirinha que ali se formou, por volta dos anos 1910, e por causa de um amansador de cavalos e burros, que gostava de judiar dos animais. Um malvado da costela oca. Um barrabás! Feira do Malvado. Na entrada do povoado miserável vicejava um frondoso pau d’arco amarelo, na beira da cerca de Tibúrcio Calça Frouxa, o sujeito mais mofino, mais covarde que o mundo viu nascer do Japão ao Catolé de Baixo, de onde o tal era originário. E para quem não sabe ou não lembra, o Catolé de Baixo continua de baixo, sem nunca ter subido a município, simplesmente porque nunca teve e não tem um deputado que lhe valesse, como ocorreu com a Feira do Malvado. O Pau D’Arco amarelo, ou ipê amarelo, da beira da cerca de Tibúrcio Calça Frouxa deu nome à nova cidade. Afinal, Feira do Malvado servia como denominaçao de um povoado, mas, não daria certo para uma cidade, venhamos e convenhamos. 

Leandrinho de Zé Fumaça elegeu-se vereador por três vezes. Loroteiro, metido em farras de bar em bar, de bodega em bodega, amigueiro, marchante de porco, cujas carnes eram vendidas na feira local e noutras duas feiras de cidades vizinhas. Tinha lá seu bom pé de meia, uma mulher zelosa e duas filhinhas desabrochando para a vida. Gente fina, como se poderia dele dizer. Pelo fato de que queria ser prefeito, foi expulso do partido, o PPBRD (Partido Progressista Brasileiro Revolucionário Democrático). O prefeito de então, Afonso Bucho Largo, queria a reeleição. Era do mesmo partido. Ao saber que Leandrinho assanhava-se para tomar o seu lugar, ele deu pinotes, arrotou brasas, pulou num pé só, como se fosse um saci-pererê. Botou a tropa de choque nas ruas, para desmoralizar Leandrinho. Coisas da política tupiniquim, rasteira, que, quanto mais sobe, mais rasteira fica. De Pau D’Arco a Brasília, o caminho é tortuoso, temerário, com cães latindo aqui e ali. Cães da política. Sarnentos, rabujentos e raivosos. Com exceções muito raras, um bando de sariguês mal cheirosos. 

O vereador, pré-candidato a prefeito, ingressou no PRPBF (Partido Renovador do Povo Brasileiro Faminto). Arrastou com ele, outros três vereadores da situação. Os dois da oposição ao prefeito Afonso Bucho Largo, somaram-se a Leandrinho. De nove vereadores, Leandrinho contava com seis, ele incluído. Bucho Largo era rico. Fazendeirão. Mas, como prefeito, era uma lástima. Vivia fora da cidade, cuidando de suas fazendas espalhadas por três municípios. A cidade vivia às moscas. Dos povoados, nem se fala. Campo aberto para Leandrinho de Zé Fumaça, que tinha esse nome, isto é, o pai de Leandrinho, porque era proprietário de uma fubica, um Ford Bigode 1928, que esfumaçava mais do que uma capineira pegando fogo. 

Leandrinho fez-se em campanha. Juntou gente. Os pobres de Pau D’Arco ficaram com ele. Vitória fácil, apesar dos esperneios de Afonso Bucho Largo. Se o dinheiro dele valia, o povo valia mais. Uma vez na vida, ao menos, o povo valeu mais. Sóbrio, Leandrinho começou botando ordem na casa. Fez pequenas melhorias na cidade e nos povoados. Choramingou verbas. Zelou pelo dinheirinho do povo. Atravessou bem o primeiro ano. Servidores e fornecedores em dia. O governo do estado garantiu alguns adjutórios. Nem todos foram cumpridos. Porém, o novo prefeito não se deixava levar pelo desânimo. Fazia mutirões, consertava estradas há muito esburacadas, consertava casas de pessoas pobres, tudo no mutirão. O remedinho para os pobres não faltou. Escolas limpas, criançada com merenda garantida. 

Perto do fim do ano, eis que sobreveio um problemão. Corrupção. Descobriu-se que Leandrinho era corrupto. Mais um prefeito corrupto nos anais da história da administração pública brasileira. Das prefeituras ao planalto, a corrupção escorria em tubos de grossa circunferência. Mundo perdido. Esperanças levadas pelo vento. Pelo vento medonho, qual furacão da ladroagem. Uma bagaçada! 

O prefeito de Pau D’Arco não deixou de vender carne de porco salgada na feira da cidade. Não vendeu mais nas outras duas cidades, mas, na sua cidade, ele não quis perder a freguesia. “Prefeito é só quatro anos”, dizia ele. No meio da feira, Leandrinho foi acusado de corrupto por Jeremias Beato, um pobre amalucado que se dizia devoto de São Miguel Arcanjo, padroeiro da cidade. 
Jeremias Beato berrou na feira: “Leandrinho de Zé Fumaça, você é o prefeito mais corrupto do mundo. Você corrompeu até o meu santinho São Miguel. O dia dele é 29 de setembro, que cai na quinta-feira, mas, você corrompeu o padre Milton Capitulino para mudar a procissão do meu santinho para o domingo. E o meu santinho não disse nada. Foi corrompido também. Quanto foi que você deu a ele? Diga quantas notas você deu ao meu santinho para ele aceitar a mudança da procissão, calado, sem dar um pio, seu corrupto descarado?”. Jeremias Beato era, sim, amalucado. 

A verdade foi que, apesar do dia do padroeiro ser feriado na cidade, o prefeito Leandrinho convenceu o padre Milton, novato na Paróquia, a fazer a mudança da data da procissão para o domingo seguinte, a fim de acolher mais fiéis que vinham de fora. Era fato. E, enfim, todos ganhariam. Porém, foi exatamente por isso que o povo de Pau D’Arco ficou sabendo que o prefeito Leandrinho era corrupto. Tinha corrompido o padre e o santo, como protestou aos berros Jeremias Beato. “Se toda corrupção fosse assim, o Brasil seria o melhor dos paraísos”, diria Marcionilo da Patioba, vulgo Barão. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/01
20:07

Um bando de Cabruncos

José Lima Santana
Professor da UFS

Quem andou, por extrema precisão, pelas brenhas do Pau Seco, Toca da Onça, Riacho dos Ovos, Olhos D’Água do Catimbó e circunvizinhanças, deve muito bem ter conhecido Moitinha de Cima, cidadezinha dorminhoca, com uma igrejinha cai não cai, um quartel de polícia pedindo socorro e uma Prefeitura, que funcionava na casa do prefeito, como se ele fosse o dono daquele pequeno burgo de pessoas muito pacatas. Tão pacatas, que um crime de morte fazia quinze anos que não se registrava. Um furto, um roubo, perdia-se a conta dos anos que tais tipos de crimes se deram. Lugar de paz. Nem na vida política se davam conta de ocorrências que fossem além de um desentendimento deste ou daquele eleitor, lá entre eles, um bate-boca normal de tempos de eleição, mas, sem maior gravame. De anormal mesmo, nos últimos cinco anos, somente o rapto da menina Maria Clara por um filho do capitão Batista, dono do alambique Ferreirinha, onde se produzia uma cachaça louvada por todos. Afora isso, nada de anormal. A cidade era um brinco de sossego. Parada no tempo. E o povinho dali no tempo parado, salvo um ou outro movimento besta de nem chamar a atenção. 
Ah, mas o rapto de Maria Clara, em 1965, chamou a atenção da cidadezinha sonolenta! Um vespeiro em voos de desespero fez-se sentir na manhã em que Dona Floduarda, mãe de Maria Clara e esposa de Américo Mineiro, deu por falta da filha e esta não apareceu para o café da manhã. Um dia antes, Dona Floduarda ouviu um zun-zun-zun das bocas de duas vizinhas loroteiras. Mas, ela nem chite. A filha não tinha namorado. Não tinha, pois, porque ela se preocupar. O que não faltava na cidadezinha pacata eram línguas compridas demais. “Cabeça desocupada é oficina do diabo”, dizia ela, juntando a sua voz às vozes correntes. 

Maria Clara era a filha caçula de Dona Floduarda e de Américo Mineiro, que de mineiro só tinha o apelido. Menina cobiçada por qualquer rapaz de juízo. Flor desabrochando, orvalhada, em manhã de sol. Vestisse a menina com as cores da veste de Nossa Senhora, e dir-se-ia que era a própria representação da Santa Menina de Nazaré. Linda, meiga, solicita com quem de um obséquio dela precisasse. Quinze anos a serem completados no mês de São João. O rapto deu-se em fevereiro.

Somente no fim da tarde, Dona Floduarda recebeu um bilhete mal escrito, da parte de Zuleica de Bastião, prima do raptor, Terêncio do capitão Batista. Maria Clara foi deixada aos cuidados de Zuleica e de seu esposo Bastião, como convinha naqueles tempos e naquelas brenhas. Um rapaz de boa família ao raptar uma moça não a levava consigo de primeira, nem para a casa de seus pais. Embora, se levasse para a casa dos pais, ele, o raptor, teria que deixar a casa até o dia do casamento. Afinal, raptar não significava desonrar a moça, como se dizia por ali. E desonrar a moça significava desonrar a sua família. Era aí que, às vezes, o bacamarte fazia fogo. 

À boquinha da noite, Américo Mineiro e dois filhos arrumaram-se para tocar à casa do capitão Batista, para um dedo de prosa de pai para pai. Ele e a mulher nunca souberam que Maria Clara estava de namorico com Terêncio. Este, já tinha lá seus dezenove, vinte anos, e estudava na capital para ser doutor. Como eles se conheceram, não se sabia. Talvez no Natal, que ela passou na casa de uma tia, em Salto Alto, a maior cidade das redondezas, que dava cinco ou seis de Moitinha de Cima. Quando estava para montar no cavalo castanho, afogueado, eis que no terreiro de Américo Mineiro riscou o cavalo negro como carvão do capitão Batista. Veio sozinho. E veio em paz. “Boa tarde ou boa noite, conforme seja, ‘seu’ Américo Mineiro. Minha esposa Quitéria manda um abraço para Dona Floduarda. Estou desapeando, ‘seu’ Américo”. Desceu da montaria, segurando a rédea com a mão esquerda e estendendo a mão direita para Américo Mineiro. Este, após dar-lhe a mão, convidou: “Vamos entrar, capitão Batista. Julinho, você cuide do animal do capitão!”. 

Dona Floduarda, chorosa, recebeu os cumprimentos do capitão. “Eu soube, no meio da tarde, pelo meu filho Terêncio, que ele carregou sua filha Maria Clara. Peço desculpas pelo atrevimento do rapaz, que, como vocês sabem, está nos estudos para ser médico, na capital. Porém, o meu menino caiu nas graças da sua menina, no Natal, num piscar de olhos. Ele me confessou. E me pediu a bênção para casar com ela, como convém a gente direita como a gente, ‘seu’ Américo e dona Floduarda. Aqui está um pai, em nome do filho, para pedir a bênção de vocês”. 

O choro de Dona Floduarda ficou preso na garganta. Ela bem que quis dizer algo, mas, não poderia causar uma desfeita ao marido. O chefe da família era quem tinha a voz ativa. Primeiro ele. Américo Mineiro ajeitou-se na cadeira. Pigarreou. “Capitão Batista, a gente também nunca soube desse namoro de um piscar de olhos entre os nossos filhos. Afinal, pelo que a gente sabe, eles nunca se encontraram antes do Natal, antes desse piscar de olhos, como o senhor disse. Uma surpresa! Ainda mais por causa da idade dela, que nem quinze anos completou. Ela é a nossa caçula, como o senhor bem sabe. A nossa ponta de rama. Sem desmerecer os nossos outros cinco filhos, Maria Clara é o nosso xodó, meu e de Floduarda. E dos irmãos e irmãs dela também”.

O calor daquela boca da noite de fevereiro abrandou um pouco com um ventinho adentrando pela porta e janelas da varanda da casa. Disse o capitão Batista: “O meu filho Terêncio teve a quem puxar. É um menino respeitador, embora, tomado pelo coração, levou com ele a mulher que ama, na calada da noite, e sorrateiro como um ladrão. Mas, como vocês já sabem, ele deixou a menina na casa da minha sobrinha Zuleica e do seu marido Bastião, pessoas honestas e do meu maior agrado. Com a bênção de vocês, de lá ela só sai para a igreja, no dia marcado. E, por enquanto, lá ele não bota os pés. Respeito é respeito”.

Tudo acertado. O menino Terêncio deixou-se arriar dos quatro pneus pela formosura, pela graça e pela iluminação da menina Maria Clara. Por sua vez, ela também se deixou tocar pela altivez dele, pelo olhar embriagador, que lhe pareceu tão sincero, apesar dos seus poucos anos e da sua nenhuma experiência com um rapaz. Para aquilo, o povo chamava de amor à primeira vista. Havia quem acreditasse. Sem tirar nem pôr isso ou aquilo, Maria Clara e Terêncio formavam um belo casal. O casamento foi marcado junto ao padre Genário Peixoto da Conceição, o padre Peixotão, bom de garfo e copo como ele só. No cartório, o casamento seria feito quando Maria Clara completasse dezesseis anos, idade necessária, segundo disse o escrivão. 

Festa de arromba no casarão do capitão Batista. Américo Mineiro fez questão de dividir as despesas. Em princípio, o capitão não quis concordar com a divisão. A festa era do pai do noivo. Porém, Américo afirmou que o pai da noiva não ficaria satisfeito se não partilhasse as despesas. Ele também era pai. Enfim, tudo se acertou. No meio da festa, com o jovem casal deslumbrado um com o outro, o padre Peixotão propôs um brinde: “Vamos brindar ao mais belo casal de Moitinha de Cima e às duas famílias mais burguesas destas bandas!”. Foi um alvoroço de “Vivas!”. Para bem dizer, o capitão Batista e Américo Mineiro eram os homens de melhores posses dali. Burgueses? Isso era com o padre.

Tefinha de João Beiço Mole perguntou a Sá Mirandinha do finado Juca Prego Solto: “O que quer dizer burguesas?”. A resposta: “Deve ser um bando de cabruncos”. As duas soltaram uma estrepitosa gargalhada. Ia-se lá saber o que eram! Ora, bolas. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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