08/04
14:46

Um avô arrependido

José Lima Santana
Professor da UFS

Catolé de Cima. Cidade do mais alto sertão, mas, banhada por um mimoso riacho, que botava cheias homéricas nos bons invernos e nas melhores trovoadas. No estio, porém, as secas costumavam se prolongar, esfolando o povo, e o riacho tornava-se lama e, depois, areia a cobrir o leito morto.  

No Catolé de Cima, reinava o coronel Benildes Fonseca, apelidado pelo povo de Benildes Não Perdoa. Antigo chefe político, e, mais uma vez, prefeito, casado tardiamente com uma neta do Barão da Lagoinha. O casamento do coronel juntou fortunas. Dona Marieta, a neta do Barão, era herdeira de terras, gado e comércio. O casal tinha uma única filha. Dois partos de Dona Marieta não vingaram. Dois meninos morreriam antes de completar seis meses neste mundo. Restou ao casal Maria Clara. Formosa menina, que se tornou uma moça encantadora. Educada no colégio das freiras, na capital, era uma moça refinada. Tocava piano e escrevia versos. 

O coronel Benildes tinha a pretensão de casar a filha Maria Clara com um filho do também coronel Zeca Borborema, atilado chefe político da cidade vizinha, Catolé de Baixo. Benildes queria netos que substituíssem os filhos que não os pôde ver criados. Os dois coronéis, Benildes e Zeca, eram do mesmo agrupamento político, desde os tempos dos seus respectivos pais, nos idos do Império de Pedro II. Houve uma aproximação, ou tentativa, arranjada pelos pais, entre Maria Clara e Rodolfo Borborema, um tabacudo fanfarrão e grosseiro, sem estudos de valimento. O máximo que Maria Clara conseguiu fazer foi abrir um sorriso forçado, na hora dos cumprimentos. Aquele casamento arranjado não daria certo.

Uma estrada estava sendo aberta entre Catolé de Cima e Brejinhos dos Pretos. O engenheiro João Fortunato, recém-saído da Faculdade, era o encarregado da obra. Ao apresentar-se ao prefeito Benildes Não Perdoa, o jovem conheceu Maria Clara. Olhares cruzados. Corações descompassados. O namoro entre os dois não pôde começar. A filha de Não Perdoa estava comprometida com um grosseirão, mas, sem o seu bem-querer.

Às escondidas, trocou bilhetes com o engenheiro. Uma temeridade. Ao término da obra, que durou oito meses, o engenheiro Fortunato raptou Maria Clara. Tomaram o rumo da capital. Em carta, Maria Clara pediu perdão ao pai e pediu a sua bênção para o casamento. O coronel Benildes não respondeu. Alardeou na cidade que não tinha mais filha. Sentiu-se traído pela filha e desonrado pelo engenheiro que, na língua dele, não passava de um “engenheiro de bosta”, um pé rapado, um desonrador de família. O coronel passou noites sem dormir. Não aceitava a desfeita da filha, o desaforo do engenheiro. Decidiu, enfim, tomar uma providência dura. A mais dura de sua vida. No Catolé de Baixo, o prometido de Maria Clara era zombado pelos adversários do pai. Houve até um entrevero entre Rodolfo Borborema e outro rapaz da cidade, filho de um fazendeiro adversário de Zeca Borborema. Teve tiros de lado a lado. Os dois rapazes saíram feridos, um prometendo dar fim ao outro. As famílias fizeram-se nas armas. Só não aconteceu uma tragédia porque o major Bezerra, novo delegado de polícia, tomou as providências e meteu uns quinze na cadeia, até que os ânimos serenaram. Mas, garantia não havia de que tudo estava terminado. Não ali no sertão.

O casamento de Maria Clara com o engenheiro Fortunato foi realizado. A família do moço tinha alguma influência na sociedade da capital. Família de comerciantes e de altos funcionários públicos. O governador do estado foi padrinho do casamento por parte do noivo. 

Ao tomar conhecimento do casamento da filha, Benildes Não Perdoa enlouqueceu. Chamou Bernardinho Olho de Cobra Verde, homem de sua inteira confiança. Entregou-lhe o envelope da carta de Maria Clara. Ali estava o endereço. Olho de Cobra Verde tinha uma missão delicada. Lavar com sangue a honra ferida do coronel. E lavar do modo mais duro. Ele deveria dar cabo da filha do coronel e do engenheiro. Bernardinho, como se poderia dizer, viu Maria Clara nascer. Foi ele quem a ensinou a montar no pônei Pinrinlim. Matar a menina Maria Clara? O engenheiro fosse lá. Porém, a menina... A menina que ele carregava nos braços, que levava para a escola da professora Gilda Soares, que mais isso e mais aquilo. Não deveria fazer o serviço, mas, por outro lado, era fiel ao coronel. Um dilema. Um dilema desgraçado. 

Missão era missão. Bernardinho Olho de Cobra Verde jamais negou fogo ao coronel Benildes Não Perdoa. Assim, tomou o rumo da capital. Endereço assuntado na cabeça. Não foi difícil dar conta da Praça Alvarenga. Número 46. Era um sobrado. A casa dos pais do engenheiro ladrão de moça. Era um sábado à tarde. O casal saiu de casa de braços dados. Iriam ao cinema. Na esquina da loja “Sapataria Chic”, a morte estaria à espreita do jovem casal. O jagunço Olho de Cobra Verde puxou o gatilho, à queima-roupa. Disparou no engenheiro. A mão tremeu. Disparou em Maria Clara. Alvoroço. Havia pessoas na rua. Dentre elas, um soldado da polícia militar. Este, de supetão, reagiu e matou Bernardinho Olho de Cobra Verde. Maria Clara e o esposo foram socorridos. Ele foi atingido quase à altura do coração. Ela, no ombro esquerdo, de raspão. Resistiram. Salvaram-se. Na delegacia, Maria Clara preferiu dizer que ela e o marido foram vítimas de um assalto. O caso foi encerrado. Ela não queria envolver o pai. Afinal, apesar de tudo, era o seu pai. Um pai desatinado. Ferido. Bruto. 

Maria Clara, após estar plenamente restabelecida, enviou outra carta ao pai. “Meu pai, eu compreendo a sua raiva, o seu desespero. Mas, meu pai, por que tirar as nossas vidas? Por que tirar a vida de um inocente, que eu trago no meu ventre, e que é o seu neto? Se eu lhe envergonhei, meu pai, foi por amor que eu o fiz. O meu coração me entregou ao meu marido desde aquele dia, quando ele esteve em nossa casa. Eu não poderia me entregar ao rapaz que o senhor queria me dar como marido. Eu seria uma mulher infeliz. O senhor queria me ver infeliz? A sua única filha? Eu lhe perdoo, meu pai. O meu coração de filha continua a lhe respeitar. Diga a mamãe que eu a amo muito, como amo ao senhor também. Muito. Apesar de tudo, eu volto a pedir a sua bênção. Para mim, para João e para o seu neto. Maria Clara, sua filha”.

O coronel não respondeu. Passaram-se dois anos. João Fortunado tornou-se engenheiro do Ministério da Viação. A família mudou-se para o Rio de Janeiro. O jovem começou a fazer uma brilhante carreira no serviço público federal. Passaram-se outros três anos. O filho de Maria Clara, Benildes Fonseca Fortunato, completaria seis anos. A família estava em visita aos parentes paternos, na capital do estado. Maria Clara tomou uma decisão que teve o apoio do marido. Foram ao Catolé de Cima. Um risco que precisavam correr. Encontraram o coronel sentado na cadeira de balanço, na grande sala de visitas. Benildes Não Perdoa se assustou. Não teve tempo de reagir. “Meu pai, a sua bênção. Este é Benildes, o seu neto”, disse Maria Clara, apresentando o menino. O velho coronel franziu a testa. Olhou para a filha. Olhou para o neto, que tinha o seu nome. Caiu em prantos. Ajoelhou-se diante da filha. Abraçou-a pela cintura. Depois, abraçou e beijou o neto, ainda em prantos. Abraçou o genro. Vida que seguiria.                     


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
01/04
21:22

Encontros à meia-noite

José Lima Santana
Professor da UFS

Noite de lua cheia. O céu pipocava de estrelas, como se fossem olhos de anjos espiando o mundo. Ronaldo de Zé Ramo lorotava no telheiro da bodega de Vicente Timbira de Valdemar do finado Peixotinho. Lorotava com Geminiano de Sá Dondinha, vulgo Gimio. 

Ali estavam os dois únicos fregueses da bodega, espantando muriçocas e vendo Vicente, o bodegueiro, pescar piabas, cochilo após cochilo. 

- Pois bem, “seu” Gimio, o senhor sabe que neste mundo de tudo há. E num adianta uns metidos a sabichões desdizerem o que o povo sabe e diz. Num adianta. Tem gente que quer saber mais do que Deus. E tem gente descrente em tudo. Eu num descreio. Creio em tudo ou quase tudo nesta vida miserável, que a gente vai levando nestes cafundós de judas. Até bicho barbo eu já vi com estes meus olhos que o chão frio há de comer. Ao bem ver, não o chão, mas os bichos miúdos que nele há. Então, “seu” Gimio, eu vinha, noite dessas, em plena Quaresma, e por volta da meia-noite, sem ter feito nada de que eu me lembrasse, assoviando pelo caminho, quando, de repente, avistei, a coisa de dez braças de distância, um vulto no meio da estrada do Caga Fogo, logo ali um bocadinho antes da sua casa. Era uma noite de lua como esta. Lua cheia vomitando claridade pelo chão, pelos pés de pau, por tudo que era canto deste mundo. Ah, seu mano, eu vi direitinho! Um horror! Não que eu seja corajoso, que, na verdade nunca fui, mas não cortei caminho nem refuguei. E tampouco fiquei parado, tremendo mais do que vara verde. Não sinhô! Meti os pés e avancei. O vulto estava lá, quieto. Chegando perto, pude ver um bicho que mais parecia um macaco, porém, por estas bandas, se algum dia já teve macaco, deve ter sido sagui gigante. Era um bicho de olhos de fogo, fumacento e enxofrento. O tipo de coisa que um sujeito vê e morre vendo. 

Geminiano interrompeu Ronaldo de Zé Ramo: “Ô Ronaldo, nessa tal noite você chupou um melzinho? Emborcou uns copos passado o pau de milone, como é do seu refinado gosto?” 

Ronaldo cuspiu longe uma cusparada grossa que bem podia servir como argamassa. Bateu a mão na porta da bodega. Vicente Timbira, que acabara de pescar mais uma bacia de piabas, acordou. “Bote mais um milone aí, Vicente, meu primo!”, pediu Ronaldo. Vicente levantou-se esfregando a mão esquerda nos olhos. Botou a pinga no copo sebento, meio esverdeado, como todo copo de bodega pé de chinelo, que dormitava num alguidar de barro, feito pelas meninas do finado Antônio Capa Nêgo. O bodegueiro trouxe a pinga. Ronaldo a engoliu de um trago. “Olhe aqui, ‘seu’ Gimio, deixe eu lhe contar o resto do ocorrido e o sinhô vai tirar suas conclusões. Pois bem. Meti o pé, dizia eu, pra cima do vulto e lá estava um macaco do tamanho da estrada, da mesma largura. Olhei pra ele e ele num tirava os oio de eu. Confesso que, no primeiro instante, como que num piscar d’oios eu tremi um pouco. Só um pouco, que o sinhô sabe, ‘seu’ Ronaldo de Zé Ramo, que gente da minha laia num sai por aí correndo com medo de macaco nenhum, nem grande, nem pequeno. Parente de sagui pra eu é tudo igual: só faz chiado. Quando segurei as carnes e os ossos, puxei o meu facão corta tudo e fiz marcha pra cima do macacão. E gritei: ‘Valei-me meu São Jorge Guerreiro!’. Nisso, uma estrela veio vindo do céu como que caindo em cima d’eu. O céu ficou muito claro. Se a lua clareava, a estrela clareava muito mais. Uma coisa linda de se ver. E foi aí que eu vim saber que macaco tem medo de claridade em demasia. O bicho deu um pinote, bufou e grunhiu, saltando pra dentro dos matos em desabalada carreira. Sumiu no mundo até esta data. Agora, me diga o sinhô, ‘seu’ Gimio: esse macaco apaideguado era coisa deste mundo? De certo que não, meu camarada!”. 

Geminiano de Sá Dondinha sorriu e disse: “Ora veja bem, Ronaldo, um bicho desse não pode ser deste mundo. Como você disse, por aqui não tem macaco. Só tem sagui”.

Passava muito das onze da noite. Vicente Timbira consultou o relógio de parede, enferrujado, mas com um “cuco” em boa atividade. Logo, o “cuco” cantou doze vezes. Hora de fechar a bodega. Ronaldo de Zé Ramo tomou a saideira. Geminiano comprou um pacote de bolachas pros meninos. Despediram-se.

Ronaldo saiu tombando de rego em rego, na estradinha que subia para a sua casa, no beco do Curtume de Floriano. Geminiano desceu para o lado do açude, onde ficava a sua casa, na estrada do Engenho Novo, antiga estrada do Caga Fogo. A lua cheia espalhava a sua toalha prateada. Um vento fresco passeava fagueiro nas estradas. “Conversa de bêbado”, ia pensando Geminiano. Passou da casa do finado Malaquias, preto velho de quem, em vida, os meninos tinham medo. O pobre morrera há menos de um ano, queimado num aceiro de roça, quando o fogo ficou fora de controle e ele, imprevidente, quis apagar sozinho. Com fogo ladeira acima não tinha quem pudesse. 

A poucas braças da sua casa, num capão de mato de Zeca Timbira, irmão do bodegueiro, eis que Geminiano avistou um vulto tomando toda a largura da estrada. Achegou-se. Puxou da cintura a faca luminosa de cortar carne na feira, que marchante ele era. O vulto era de um macaco descomunal. Um bicho de olhos de fogo. Fumacento e enxofrento. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
25/03
13:04

Indignação

José Lima Santana
Professor da UFS

Hoje não tem conto, não tem causo. Tem indignação. Aliás, este poderia muito bem ser o título de um bom causo, de um bom conto provinciano, como eu gosto de dizer. E por que não tem causo ou conto? Porque, na quarta-feira, 21, eu fiquei indignado com uma matéria que li na internet e que foi veiculada em jornais e televisões. 

Depois de espalhar nas redes sociais inverdades (Fake News) sobre a vida da vereadora carioca que foi barbaramente assassinada ao lado do motorista, uma semana antes, uma desembargadora (Pasmem os leitores! Uma desembargadora!) voltou a atacar de forma estúpida, preconceituosa e vil. Sobre o assassinato da vereadora, foi um crime bárbaro como tantos outros que vêm assolando o estado do Rio de Janeiro, que, diga-se de passagem, está pior do que um barco à deriva. Acabaram com o Rio de Janeiro, a cidade e o estado. Ou quase. Só não destruíram porque a altivez do povo, embora sofrido por demais, sobrepõe-se aos desmandos de muitos anos na vida pública. Aliás, a insegurança grassa em todo o país, mais ali, menos acolá. Aqui em Sergipe, a situação é muito séria.

Retornando à minha indignação, a tal desembargadora insurgiu-se, novamente nas redes sociais, contra a notícia dada na “Voz do Brasil” acerca de uma professora do Rio Grande do Norte, que é portadora da síndrome de Down. A tal desembargadora tripudiou da situação da professora, que, de forma digna, exerce a sua profissão há dez anos. Que Deus a abençoe! E que depois dessa conduta desditosa e desatinada da tal desembargadora, a professora potiguar, do alto da sua dignidade, jamais venha a ser alvo de uma conduta mesquinha e criminosa como a dessa tal desembargadora. 

Como é que uma pessoa formada em Direito, que chega ao mais alto posto da Justiça do seu estado, afronta descaradamente a Constituição Federal, que prima em combater todas as formas de discriminação, e, mais do que isso, leva a sua afronta “às vias de fato”, atacando uma honrada professora, que, dá para imaginar a sua luta para chegar à condição de professora, lutou e luta para se afirmar na sua dignidade de pessoa humana, na sua condição de mestra. A você, minha colega – sim, minha colega de magistério –, o meu desagravo, o meu carinho, a minha admiração. Eu sei que você deve ter sofrido ao saber do modo ridículo como a tal desembargadora lhe atingiu. Apesar do desaforo, do desequilíbrio, da estupidez dessa tal desembargadora, não ligue, não. Você é, seguramente, muito mais digna do que esse tipo de gente. Isso mesmo: “esse tipo”. Não há outra adjetivação, neste momento, para ela. Que Deus me perdoe! E que Deus a perdoe!

O desatino dessa tal desembargadora é uma afronta a todas as pessoas de bom senso. Imaginem a qualidade das decisões, dos votos proferidos por essa tal desembargadora. Ah, o noticiário da quarta-feira deu conta também de que a tal desembargadora será investigada pelo Conselho Nacional de Justiça. Tomara. E oxalá ela venha a ser punida de verdade, na forma do que dispõem as leis do país. Essa tal desembargadora não pode ficar por aí vomitando seu vômito sujo na cara das pessoas. Chega de baboseiras! Basta de molecagens! 

Uma magistrada – e poderia ser um magistrado – deve dar-se ao respeito de respeitar as pessoas, quaisquer que elas sejam. Ninguém tem o direito de sair por aí atirando com arma de grosso calibre contra a moral ou a honra dos outros. Quer fazer sujeira? Entre no seu banheiro e fique por lá o tempo que quiser. Ninguém vai dar conta disso. Ponha no esgoto a sua sujeira. Dê-se ao respeito! Assuma a posição de quem exerce o cargo público que você exerce. E não venha para cá me dizer que você fez concurso para estar onde está. Afinal, milhares fizeram concurso para estar no Poder Judiciário, para realizar a prestação jurisdicional que lhes compete. Você não é a bola vez. Você não é a última garrafa de refrigerante no deserto. Você não é a rainha da cocada preta. Você, simplesmente, não é. 

Débora Seabra é a professora com síndrome de Down, que foi atacada pela tal desembargadora. A professora, de 36 anos, atua há cerca de dez como auxiliar de desenvolvimento infantil em turmas de educação infantil e Fundamental I na Escola Doméstica, em Natal, no Rio Grande do Norte. Só por isso, esta santa mulher é merecedora de encômios. Menos, claro, da parte da tal desembargadora. É uma pena! E é uma pena o fato de uma magistrada assentada na Corte de Justiça de um dos nossos estados-membros atacar as pessoas como ela ataca. 

Parabéns, professora Débora! Continue com o seu trabalho nobilitante. Que Deus lhe abençoe. O resto é fumaça. Fumaça que se esvai, embora tenha lhe doído muito. Isso eu não posso sentir, mas, posso muito bem avaliar. Porém, não há dor que não passe. O que não vai passar facilmente é a minha indignação. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/03
16:08

O Suicídio de Zé de Pipio de Maria Fulô

José Lima Santana
Professor da UFS

Para início de conversa, vamos por partes, como o coleguinha Jack, o Estripador, aliás, sujeito de bons bofes, lá na velha Albion. Assim, Maria Fulô era Maria Flor dos Anjos, antiga rapariga do Brejão dos Sapos, cidadezinha fumacenta por estar assentada numa região de carvoarias. Maria Fulô deixou a vida livre por conta de amigação duradoura com Pedro Filgueiras, um português que também atendia pela alcunha de Pipio, sabia-se lá por quê. Zé de Pipio era filho de Pipio e de Maria Fulô. Tudo, então, eu presumo, entendido. Não é mesmo? Tomara que sim. Hoje eu não estou para muita lorota ou explicações.

José Neviton dos Anjos Filgueiras, isto é, Zé de Pipio, tornou-se dono de bodega lá mesmo no Brejão dos Sapos. Bodega bem sortida. Ainda aos dezessete anos de idade, amancebou-se com Julinha de Sá Catarina de João das Rolinhas. Tiveram, em pouco mais de um ano, o primeiro filho. Vieram, mais tarde, outros seis. Ao todo, então, sete filhos, dois rapazes e cinco moças. Ao cabo de tanto parimento, eis que aportou na cidade um frade alemão, que, segundo as más línguas, nunca tomava banho e, pois, cheirava mal como um bode velho pai de chiqueiro. As más línguas andavam soltas no Brejão. Não devia ser bem assim. Afinal, não havia alemão que aguentasse o calor nordestino sem uns bons banhos diários. O frade Melke chamou nos arreios Zé de Pipio e este teve que casar com Julinha, como mandava a Santa Igreja. Livres do pecado da fornicação continuada, Zé e Julinha passaram a ser disciplinados frequentadores da Igreja. E colaboradores, na coleta e nos afazeres em tempos de festas e solenidades.

Filhos criados, o mais velho já casado e com um neto dado a Zé e Julinha, o casal vivia folgadamente para as condições do lugar. A bodega prosperava e Zé de Pipio até se tornara um pequeno proprietário rural com solta de gado de leite e corte. Não era muita coisa, mas era, sim, um progresso. 

Zé de Pipio beirava os quarenta e cinco anos. Gordo como um porco baié, as camisas salpicadas de pequenos furos, feitos pelas brasas que caiam dos cigarros do tipo pé duro, feitos de fumo de rolo, e enrolados em papel apropriado da marca Itacolomy, levava a vida da bodega para a roça. Clientela fiel. Bons amigos. Mulher prendada, mãe virtuosa. O que mais poderia querer um homem naquela cidade fumacenta e encarvoada? Ele não haveria de enricar, mas, não morreria de fome com os seus. Uma vida feliz podia-se dizer. A única atrapalhação na vida de Zé de Pipio era a política da cidade. Ele era eleitor e cheira-peidos de Manico Alvarenga, chefe político da UDN, que estava de baixo desde que o mundo era mundo. O PR, partido forte do local, ganhava todas as eleições, fosse para o cargo que fosse, de vereador a presidente da República. Porém, Zé de Pipio não arredava pé do lado de Manico Alvarenga. 

Eleição municipal. Mais uma. Manico Alvarenga era candidato a prefeito pela quinta vez. O candidato do PR era João de Terto, um comerciante abastado, genro de Francisco do Belo Monte, o chefe político do partido situacionista. Favas contadas, mais uma eleição para o PR. O embate, contudo, foi muito duro. Os dois lados disputaram palmo a palmo os votos da cidade e dos povoados. Muitos eleitores andaram cabreiros, pouco falando, não anunciando em quem votariam. 

Enfim, o dia da eleição. Nas casas dos candidatos, a comida era farta, como de costume. Bois foram abatidos para servir ao eleitorado. Andou-se comentando que dois candidatos a vereador do PR teriam se bandeado para Manico Alvarenga. Comentários de ponta de rua a merecerem crédito. De fato, nos povoados de Robertinho de Ambrósio e de Maneca Olho Torto, ou seja, Cajazeiras e Maniçoba, sendo os dois candidatos do PR, Manico deu um surra no candidato da situação. Daí, claro, as conversas maldosas de que ambos se venderam a Manico, que ganhou a eleição por uma margem de apenas seis votos de diferença. 

A festa da UDN seria de uma semana. Uma semana inteira de festa. Um furdunço como a cidade nunca antes fora capaz de assistir e sediar. Coisa de louco. Dizia-se, porém, que alegria de pobre durava pouco. Pois durou muito pouco a alegria dos udenistas. Um advogado da capital ingressou com um recurso para tomar a eleição de Manico Alvarenga sob as alegações mais diversas. Um emaranhado de situações e leis favoreciam o candidato do PR, o comerciante João de Terto. 

Em Brejão dos Sapos, a gozação dos opositores de Manico Alvarenga era demais. “Ganhou, mas não leva!”. “O cagão vai cagar de novo!”. E assim por diante. Picharam várias casas de eleitores de Manico. A bodega de Zé de Pipio amanheceu pichada na frente e no oitão. “Zé de Pipio, vá pra puta que o pariu”. Pobre Zé. Entrou em depressão. 

Segunda-feira. Zé de Pipio acordou quando a madrugada ia alto. Zanzou pela casa. Foi à bodega. Armou-se do que precisava. Ao amanhecer, tomou de um tamborete e de uma corda de caroá. Fez um laço. Amarrou a corda no galho de uma jaqueira. No laço meteu o pescoço gordo. Uns poucos transeuntes que passavam em frente à bodega, soltaram o grito de alarme. Juntou gente. A mulher, os filhos e a vizinhança. Zé de Pipio não deu ouvido a ninguém e ninguém teve tempo de socorrê-lo. De repente, ele estava dependurado, as pernas se debatendo, estrebuchando-se todo. Julinha desmaiou, os filhos se desesperaram. Foi-se Zé de Pipio, desapontado com a possível tomada da eleição de Manico Alvarenga. Com a vergonha de ser chamado de filho da puta. A sua mãe, Maria Fulô fora da vida livre. Mas, aquilo era fato dos tempos de antanho. Tornara-se, a pobre mulher, senhora de amigação certa e por toda a vida. Senhora de respeito. 

A corda de Zé de Pipio, apesar de grossa, estava envelhecida, puída por dentro. O peso do suicida era muito grande. A corda rompeu-se. O corpo de Zé de Pipio foi ao chão, provocando um baque surdo. Estava vivo. Levado ao hospital da cidade próxima, salvou-se. 

O recurso do candidato do PR foi frustrado. Manico Alvarenga foi diplomado. E empossado. Veio o golpe militar, e Manico Alvarenga, a treze de agosto de 1964, foi posto para fora da Prefeitura. Motivo? Até hoje ninguém sabe. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
11/03
19:00

Berlinda

José Lima Santana
Professor da UFS

Berlinda. Berlinda de Zé Cotia do Matão de Dentro. E Berlinda é nome de gente? Estar na berlinda é estar em perigança, sob os olhares felinos e ferinos de todos, no meio da roda, chamando a atenção do povaréu. Berlinda é também um folguedo infantil e um coche antigo. Por qual tentação dos diabos botaram o nome daquela senhora de Berlinda? Foi num momento de paralisia mental do pai ou da mãe? Um desvario de segundos? Foi não. Foi nada disso não. “Ber” de Bernardo, o pai, e “linda” de Lindaura, a mãe. Tem gente assim, que adora envergonhar os filhos, especialmente quando eles chegam à adolescência, botando-lhes nomes por justaposição. Justaposição coisa nenhuma! Nem venha que não tem. Essa junção endiabrada de nomes próprios para dar noutro nome é uma barbárie, pois, gramaticalmente, isso não pode ser justaposição. E olhe que tem muita gente neste mundo de meu Deus que tem nome assim, juntando-se um pedaço daqui e outro dali. Resultado? Um monte de esquisitices. Pessoas com nomes engraçados ou horrorosos. Mas, tem até alguns desses nomes que calham bem. Ficam sonoros etc. e tal. Não tenho nada contra esses nomes arranjados. Mas contra Berlinda eu tenho.

Não é nada contra Dona Berlinda, que, por sinal, é uma pessoa distinta, embora esquentada. Tenho contra o nome. Já pensaram o seguinte: Dona Berlinda está na maior berlinda? Danou-se. 

Dona Berlinda (que Deus a tenha em sua santa consideração!) cismou de levar a filharada, sete ou oito, sei lá, com o marido Zé Cotia de Nilton da Gameleira para tomar banho de mar, em pleno carnaval. E a praia ficava perto? Mais ou menos. Eram somente trinta léguas, ou seja, cento e oitenta quilômetros. Como se diz no sertão, esticando o beiço inferior: “É logo ali!”. 

Zé Cotia era caminhoneiro. Tinha lá de seu um velho caminhão Dodge, mais fumacento do que a fornalha da olaria de “seu” Firmino do Pau Miúdo, um povoadozinho de bom massapê e bons capinzais de capim sempre verde, bons demais para engordar bois. Ah, um pedaço de mamilo (lá pras bandas do Sul se diz “cupim”) assado na brasa com um molho de pimenta malagueta, um bocado de farinha e uma cervejinha mais do que gelada, é uma gostosura de engordurar os beiços e as tripas! Mas, lá pro Sul mamilo é peito. E por aqui cupim é bichinho comedor de madeira. Coisas da língua portuguesa falada aqui ou ali. 

Família trepada no velho caminhão, na boleia o motorista, a mulher e Netinha, a filha caçula de dois anos. Na carroceria, além das outras filhas iam alguns vizinhos. Gente de toda idade. Até “seu” Caçulo Nêgo Véio, beirando os 90 anos meteu o pé na escadinha providencial e aboletou-se no caminhão fumacento. Papocaram no oco do mundo. Era madrugadinha. Não passava das três horas quando o motor do caminhão de Zé Cotia deu sinal de movimento. 

O mar lhes esperava. Praia do Pontal da Baleia. Naquele tempo, era quase deserta. Hoje, em pleno ano de 2018, já está tomada por casas de ricaços. Há até mesmo uma briga na Justiça para desmanchar tudo que foi construído. Briga de grandes, meu senhor. Meto-me nisso, não! Sou pequeno. Em briga de cachorro de raça, de pedigree, vira-lata não chega perto. Mas, não é isso o que interessa. O que tenho a relatar é a viagem à praia do povo de Zé Cotia.
 
Para começo de conversa (ainda estou no começo, claro), o caminhão de Zé Cotia estava com o retentor meio furado. Dava um trabalhão danado. Porém, Zé era cuidadoso. Ele mesmo se metia a consertar todo defeito que aparecia. Às vezes, não tinha jeito de consertar. E, então, ele recorria aos préstimos de Cidão Mecânico, que conhecia como a palma da mão todo tipo de motor de carro. Carro de qualquer marca, se engasgasse ele desengasgava. Nunca fora a uma escola de mecânica. Aprendeu ao Deus dará, na curiosidade, no fazer fazendo. 

Ao bem da verdade, e verdade deve ser dita, vinha gente até da capital para consertar todo tipo de carro, pequeno e grande. Cidão tinha nome nos quatro cantos do estado. Trabalhava sozinho, sem ajudantes, a não ser o sobrinho, Tucaninho de Zé Tucano, que era danadinho de esperto no alto de seus treze anos.  Dona Berlinda e Zé Cotia não tiveram filhos. Eram sete ou oito filhas. Zé era do tipo galo “femeiro”, como se dizia por aquelas bandas lá deles. “Seu” Abílio era quem tinha uma receita para fazer menino ou menina. Dizia ele que funcionava. Disso, contudo, eu não sei nem dou prova. 

Voltei a enrolar os leitores. Afinal, onde está o relato da viagem de Zé Cotia com a família e os vizinhos para a praia do Pontal da Baleia? E por que o título deste escrito besta é Berlinda, se até agora Dona Berlinda quase não apareceu? Não fez nada que merecesse dar título ao escrito. Ainda bem que os leitores não são do tipo esquentado como Dona Berlinda, que por qualquer coisinha de nada já saía soltando fumaça pelas fuças. Vou ao caso. Agora, eu vou.

Madrugada escura, estrada de chão batido. Poeirão perdido nos véus da madrugada. Aqui e acolá, um cachorro latia, um galo atrevia-se a cantar, seguido por outros galos. Um vulto a cavalo, trotando na direção contrária ao Dodge de Zé Cotia. Nada além daquilo. 

De repente, Zé Cotia cutucou a mulher, que cochilava com a criança no colo: “Ô Berlinda, acorde! Tenho uma coisa pra lhe contar: eu acho que o filho de Maria de Tonho Argolinha é meu”. Dona Berlinda quase salta do caminhão. “O quéquê tu tá me dizendo, Zé? Que tu andou de safadeza com aquela amarela enxofrada, que num tem peito nem anca? E como é que tu pode ser pai de um menino, se tu só presta pra fazer menina? Pois com o meu defunto primeiro marido, antes de tu, eu num tive Claudinho, que Deus o tenha no seu Reino, juntamente com o pai, Chicão de Ataíde? Então sou eu que num presto pra fazer filho homem? Tu é que num sabe esquentar direito pro lado certo como diz “seu” Abílio. Nem pra tomar umas lições com ele, tu nunca prestou. E vem agora com essa do fio de Maria de Tonho Argolinha! Matão de Dentro agora tem mais um corno e uma corna? Arreda, Zé Cotia! Eu nunca que botei gaia em Chicão de Ataíde nem em tu, que sou muié direita de tinir, como tu mesmo confia, o povo atesta e Deus sabe mais do que todos. E gaia eu num aceito, enfeitando a minha testa”. 

Dona Berlinda entrou nos azeites. Zé Cotia seguia guiando na mais pura serenidade. E Dona Berlinda continuou soltando os cachorros no marido. A criança acordou. Fez voz de choro. A mãe agoniada como estava, procurou a chupeta, que somente achou a muito custo. A menina calou-se. A mulher de Zé Cotia estava mais braba do que cobra salamanta. A garapa tinha azedado. Zé Cotia continuava sereno. “E tu acha de me contar essa sua cachorrada logo agora, quando a gente pensava em dar diversão às crianças, na praia, que é uma novidade para elas!?”, grunhiu Dona Berlinda. “Home, eu acho que o corno é tu. Se aquela lambisgoia disse que o fio é teu, ela tá é te tapeando, para pegar pensão. Tu haverá de pagar pelo que num é teu. Mas, é bem feito. Quem procura vadiação com uma vagabunda, um vagabundo se torna”.

Mais quente a boleia do caminhão não poderia estar. O fogaréu que queimava a titela de Dona Berlinda era mais alto do que o fogo que consumiu os capinzais de Mamede de Juliana, um mês antes, queimando inclusive o curral e casa de moradia do vaqueiro. Fogo brabo, que não teve como apagar antes de consumir tudo que Mamede possuía, menos o gado, que deu tempo de salvar. E ainda queimou partes das fazendas de Geraldo de Manezinho e Valdemar Guedes. O fogo de Dona Berlinda ardia muito mais. 

Logo ali, uma curva fechada. No balanço, Dona Berlinda derreou-se para o lado do marido. Este soltou uma gargalhada. E disse: “Tu tá querendo encosto, Berlinda?”. Ela respondeu com uma quente e duas fervendo. Naquele instante, Zé Cotia jogou um oceano de água na fervura de Dona Berlinda: “Tenha calma, muié! Eu tô de fuzuê consigo. Eu disse que o menino é meu fio porque ele puxa da perna como eu. Cada um por uma causa diferente”. E gargalhou de novo.

Tudo resolvido. Chegaram à praia. Uma lindeza! Dona Berlinda, que nunca tinha visto o mar disse a Zé Cotia: “Tu tá vendo essa grandeza de água, Zé? Se o negócio do menino fosse certo, se ele fosse mesmo teu fio, essa água toda num ia dar pra apagar o fogo que eu ia meter em tu”. Zé Cotia olhou para ela. Olhou para o mar e disparou: “Armaria, Berlinda. Eu preciso tomar cuidado com tu!”. Ela respondeu: “É bom que tome!”.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/03
19:25

Um Filho Perdido?

José Lima Santana
Professor da UFS

Silêncio. Depois que o garoto partiu, restaram lágrimas e silêncio interior. O pai sentou-se no meio-fio da calçada com os pés na sarjeta por onde escorria uma água lodosa, negra e fétida. Mas, aquilo não lhe incomodava. O seu pranto foi aumentando. As vozes da noite, que vinham de todos os lados, macularam o silêncio interior. Um homem se destroçava naquela noite que nascia e que encobria o mundo com seus negros véus. Emocionalmente, já não era um homem. Era apenas um farrapo humano, que lamentava naquela calçada, naquela sarjeta. E era como se as suas copiosas lágrimas aumentassem aquele lodo que escorria. 

Minutos antes, pai e filho estiveram abraçados por longos minutos. Pareceu-lhe uma eternidade. Nunca abraçara o filho como naquele momento. Nunca sentira o seu coração tão perto, a bater tão forte, embora descompassado. Nunca o pai se sentira tão pai. E pelo aperto do abraço do filho, certamente, aquele sentimento era recíproco. Pai e filho se encontravam pela primeira vez em muitos meses. Não estavam morando em cidades diferentes. Estavam onde sempre estiveram, na cidade grande, em que ventosas de tentáculos terríveis sugavam os filhos. O seu filho era um deles. 

Marcinho sumira de casa há oito meses. De início, andou estranho em casa, escondendo coisas, vivendo pelos cantos, trancado no quarto, metido na internet. Depois, deu para sair com amigos que a família não conhecia. “São meus amigos, mãe! O que é que tem?”. A mãe tirava por menos. O pai trabalhava dia e noite em dois empregos, para dar uma vida mais amena à mulher e ao filho único. Escola particular. Plano de saúde. Tudo pela hora da morte. A mulher também trabalhava. Somavam esforços para que o filho tivesse um futuro garantido por meio dos estudos. De repente, o filho adorado fez-se no mundo. As drogas levaram-no para o lado escuro da vida. 

Quando os pais se deram conta, Marcinho estava numa situação desesperadora. A casa foi ruindo. O garoto de 15 anos deu para emagrecer. Médico? “Precisa não, mãe. Eu tou bem. Só ando com fastio. Vai passar”, dizia ele. Não passou. E não tardou a virar um quase morto-vivo. Enfim, saiu de casa. Aparecera umas poucas vezes, enquanto o pai não estava em casa. Precisava de dinheiro. Acabou por surrupiar alguns bens de pequeno porte para fazer dinheiro. Por fim, sumiu de vez.  

O pai andou de rua em rua, de beco em beco à sua procura. Foi à polícia. Andou pelas bocas de fumo, pelos pontos de crack. Levou carreira de drogados e de marginais. Chegou a apanhar numa noite chuvosa em que procurava o filho numa conhecida boca de fumo controlada por um traficante de alcunha Grilo de Fogo. Nada. Ninguém lhe dava notícias do filho. Depois, soube que uma viciada muito conhecida no submundo da cracolândia do centro da cidade o teria seduzido. Mas, ela tinha sido morta num ajuste de contas. Ela e um comparsa. Os corpos? Ninguém sabia o paradeiro. O comparsa seria Marcinho? Desespero do pai e da mãe. Novas buscas. Na assistência social da Prefeitura, no IML. Nada. 

Uma vida perdida? Não para aquele pai. Nem para a mãe. O pai não se deu por vencido. Queria o seu filho de volta. Em qualquer estado em que ele se encontrasse. Era o seu filho. Único. Sentia-se responsável por aquela situação. O trabalho lhe absorvia dia e noite. Porém, era pelo bem da família, era pelo futuro do filho. Se ele tinha negligenciado nos cuidados de pai, não o fizera propositalmente. Todavia, aquela situação lhe pesava nos ombros, na consciência. Muitas vezes, não tivera tempo para levar um papo com o filho. Quando este queria ir ao futebol, o pai estava indisposto, cansado. O filho ia com os amigos. O dinheiro para o buzú, ingresso e lanches não faltava. Porém, aquilo só bastava? 

A mãe, embora desvelada como todas as mães, ou quase todas, sempre tirava as coisas por menos. Aliviava a barra do filho, quando este começou a faltar às aulas e o pai recebeu telefonemas da direção da escola. Ela sempre arranjava um jeito de arranjar uma desculpa, encobrindo o quão faltoso e disperso o filho andava. Na rua onde a família morava, Marcinho não era o único garoto de sua idade ou de idade aproximada que estava naquela vida. As drogas consumiam os filhos e as filhas de todas as camadas sociais. Bandos de mortos-vivos, completamente entregues às drogas e, especialmente, ao ckack vagavam pelas ruas, praticando pequenos delitos. 

A violência por si mesma já avolumada crescia ainda mais a par das drogas. Os governos, despreparados, davam desculpas, apresentavam estatísticas fictícias, enfim, não tinham o que dizer, porque não tinham planejamento de segurança pública que validasse ações efetivas na prevenção e na repressão. Uma cidade perdida. Um estado perdido. Um país perdido, um mundo perdido, diziam alguns, especialistas ou não. Afinal, todos tinham o que dizer ou como opinar. A oposição ao governo, então, lascava nas emissoras de rádio, nos jornais, nas redes sociais. A segurança estava um caos. E a grande metrópole ia engolindo os seus filhos e as suas filhas, para vomitá-los numa vala, num necrotério ou noutro lugar qualquer. 

Naquela noite, o trabalhador Antônio Marcos encontrou o filho a quem procurava há oito meses. Atravessando uma avenida central, eis que o avistou do outro lado. Aumentou os passos. Gritou o nome do filho, um morto-vivo. Marcinho, ao reconhecer o pai, quis correr. “Espere meu filho!”, gritou o pai. Ele esperou. Já não era o seu filho, forte, belo, bem criado, como o pai supunha. Era o que dele restava. O pai o abraçou, chorando. “Meu filho! Meu filho! Meu filho!”. De início, Marcinho ficou imóvel entre os braços do pai. Aos poucos, porém, ele também o foi abraçando. Caiu em prantos. Eram dois a chorar. 

Um pouco depois, o pai tentou conversar com o filho. Este, como que entre assustado e alheio, o olhar vidrado, não dizia nada. O pai lhe falou do sofrimento dele e da mãe pela ausência do filho único, do eterno bebê que ele era. Falou da clínica na qual pretendia interná-lo para a devida recuperação. Falou do futuro que ele ainda teria, estudioso que fora antes de cair no mundo lodoso das drogas. Falou, falou, falou.

Marcinho lançou-se nos braços do pai e balbuciou: “Pai, me perdoa. Me perdoa, pai. Diga à mãe que eu já morri. Eu amo vocês dois. Me perdoa, pai. Acabou, pai, acabou!”. E voltou a cair em pranto. O pai, desesperado, respondia que nada estava perdido. “O pai vai cuidar de você, meu filho. Eu e a mãe vamos lhe salvar desta vida”. De repente, Marcinho se desvencilhou dos braços do pai e saiu em disparada. Atravessou a avenida por entre os carros que paravam de chofre e buzinavam, sem que ele pudesse se dar conta que o sinal estava fechado. Sumiu na esquina próxima. 

E foi assim que aquele pai se achou, naquela calçada, naquela sarjeta que escorria lodosa, entre lágrimas e silêncio interior. Silêncio perturbado pelas vozes da noite. Pelas vozes da vida. Mas, para ele, nem tudo estava perdido. Ele era pai. Ele tinha um filho. Pelo filho, ele continuaria indo à luta. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
25/02
15:44

Gabriel de Zé de Reimundo

José Lima Santana
Professor da UFS

José Raimundo de Azevedo era o maior amansador de burros e cavalos brabos dos costados da Serra da Marcação aos brejos do Alagadiço dos Marmeleiros. E não era pouca extensão de terras por onde a fama de José Raimundo era cantada e decantada. Na boca do povo, Raimundo virava Reimundo. Era Zé Reimundo. Gabriel era o filho mais novo e herdeiro na arte de amansar burros e cavalos brabos. Um meninote. Não tinha completado quinze anos de idade e já era quase igual ao pai no pinotear sobre o lombo de burros e cavalos carentes de rédea curta e de passadas em apropriada marcha a depender do tipo de animal e de sua pretendida serventia. De corpo e tino, Gabriel era um homem. Moreno trigueiro, sisudo, começando a formar um pezinho de meia. Tinha até algum estudo. Fraco, mas tinha. Era capaz de ler e escrever uma carta.
Gabriel de Zé Reimundo foi adjutorar o pai lá pras bandas do Xique-xique, lugarejo acanhado de pouco mais de quinze casas que mal e mal se conservavam de pé. Uma chuva mais pesada daquelas de invernos copiosos haveria de botar tudo abaixo. Casebres do tipo testa de bode, de duas águas, frente e fundo triangulares, eram o que, na verdade, eram aquelas pobres casas. Meninos lombriguentos, sujos, pareciam guarnecer a entrada do pequeno e disforme arruado. Pernas finas como canelas de sabiá, mal sustentando as salientes barrigas cheias de vermes. Olhinhos remelentos, rodeados por mosquitos.

Zé Reimundo e Gabriel entraram no arruado miserável, cheios de espanto. Nunca tinham se botado para aquelas paragens. Um tal de Peixotão de Brotas, fora em busca dos prestimosos serviços do pai e do filho, para amansar um magote de cavalos xucros, segundo ele adquiridos nas Porteirinhas, cidade distante umas seis ou sete léguas. Peixotão deixou nas mãos de Zé Reimundo uma parte do dinheiro combinado, como garantia de sua presença no dia aprazado. E ali estavam pai e filho, prontos para o serviço.

No batente de um casebre estava um velho magro, descamisado, de barbas longas e brancas. “Deus lhe dê bons dias, meu amo”, saudou Zé Reimundo. “Nosso Sinhô lhe dê o mesmo, meu fio”. O velho atirou no terreiro uma cusparada, grossa, escura, sinal de que ele mascava fumo de rolo, e que uma galinha pedrês tratou logo de aproveitar como repasto. “O meu amo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão?”, indagou Zé Reimundo. “Aqui todo mundo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão de Felismino. Descendo aquela ladeira acolá, num tem errada. Vosmecê vai de trote por meia légua. Na bifurcação do riacho é só quebrar à direita e logo está lá. Fazendão, meu fio. Fazendão, que dá serviço e sustento a essa gente toda daqui”, explanou o velho.

O amansador de animais de montaria agradeceu ao velho e jogou em sua direção um bom pedaço de tabaco, que ele aparou com a mão direita em pleno ar. “Deus lhe pague e lhe favoreça!”, gritou o velho. Zé Reimundo e Gabriel tocaram os animais, dois bons cavalos de passada, um alazão e um castanho escuro, ao rumo indicado. Era tempo de terra engolindo poças d’água. Fim de inverno. Ao alcance da vista, em qualquer direção, tudo estava verde. Matos, roças e capinzais. Nos roçados, mulheres e meninos. Homens, nenhuns. O velho mascador de tabaco estaria certo: os homens provavelmente trabalhavam para o tal Peixotão de Felismino.

Pai e filho chegaram à bifurcação do riacho, logo depois de descerem a ladeira. O riacho estava com água à altura do vazio dos animais. Água cristalina, murmurante, descendo ligeira como se tivesse pressa para chegar ao destino final, um rio, que a levaria, misturada, ao mar. Adiante, via-se, num pequeno elevado, uma sede de fazenda de arromba. A casa grande ao centro, um curral há poucos metros, coberto, com dois troncos para os bois, quatro casas menores, que deveriam ser para a moradia de capatazes ou vaqueiros. Um pomar ao fundo da casa grande. Outro curral sem cobertura em forma circular, como se fosse uma arena. Ao lado das três casas menores, uma construção que parecia ser uma serraria ou algo do tipo. Pastos de capim viçoso. Muitos. Bois que pareciam centenas de manchas brancas contrastando com o verde viçoso do capim. Bois por todos os lados. Num pasto separado, alguns cavalos. Uns vinte, pouco mais ou menos. Deveriam ser os xucros. Trabalho não faltaria para Zé Reimundo e Gabriel.

Apeando do cavalo, Zé Reimundo dirigiu-se a um sujeitinho metido numa camisa encardida que cabia dois dele. “Bons dias, amigo. ‘Seu’ Peixotão se acha?”. O sujeitinho respondeu: “Quem procura pelo patrão?”. O amansador levantou um pouco o chapéu e disse: “É Zé Reimundo, o amansador de cavalos. Sou contratado dele”. O sujeitinho demandou em direção à casa grande. Mais do que logo, ali estava Peixotão de Felismino. Sujeito espaduado, alto, de barba cerrada, cara fechada, que, logo, se abriu num sorriso de cabra bonachão. “Salve, ‘seu’ Zé Reimundo. O dia aprazado por nós é hoje. Homem de trato é do que eu gosto. Seja bem-vindo ao meu pobre rancho!”. Pobre rancho...! Além de bonachão, era gozador. Deram-se as mãos. “Pelo visto, temos trabalho pela frente, ‘seu’ Peixotão. Mas, tamos prontos”, disse Zé Reimundo.

Gabriel também apeou. Cumprimentou Peixotão com um tímido “Bom dia”. Ao cumprimentá-lo, eis que assomou à porta da casa grande uma menina, mais ou menos de sua idade. Uma formosura. Na cabeça parecia carregar um pedaço da noite. Cabelos muito negros, lisos e compridos até a cintura. Mas, os olhos pareciam duas esmeraldas. Ela veio até o pai, que a apresentou aos dois amansadores. “Minha filha, Regina Celi. Minha única filha. É quem me dá ordens”, informou sorrindo. “Prazer. Brincadeira do pai. Vocês vieram amansar os cavalos, não foi? Tão vendo aquele preto, grandão, de crinas compridas? É o Furacão. É meu. Eu quero que ele seja o primeiro a ser domado”.

Gabriel, calado, olhou para o lado do curral onde estavam os cavalos. Olhou para a mocinha. “Deixe, dona, que eu mesmo vou amansar ele pra senhora. Vou amansar do jeito que uma moça como a senhora possa montar sem perigo”. Ela sorriu. Ele também. Dois sorrisos que falavam sem dizer palavra. Foi um dia de trabalho intenso para pai e filho. À noite, diferente do almoço, que foi servido numa casinhola asseada, à beira do curral, onde ficariam alojados, jantaram na casa grande. Grande mesmo. Olhares se cruzaram por sobre a mesa grande e farta. Cruzaram-se um sem-número de vezes. A esposa de Peixotão, Dona Clotildes, incitava os convidados a comerem mais. Comida abundante e gostosa.

Na noite enluarada e fresca, as estrelas pareciam se enturmar no céu. Enquanto Zé Reimundo e Peixotão fumavam e conversavam na varanda, Gabriel sentou-se nos degraus que davam acesso à casa. Ficou olhando o céu. Logo, Regina Celi, sorrateira, acercou-se dele. O coraçãozinho do moço, pequeno matuto amansador de cavalos e burros brabos, destemido desde cedo, deu um pinote, mais outro e muitos outros mais. Parecia Furação pulando e querendo derrubá-lo. O cavalo de Regina Celi, o Furacão grande e negro, ele estava conseguindo domar. Mas, o coraçãozinho de matuto parecia querer saltar da caixa dos peitos. Sem controle. A mocinha disse: “Por que você está tão só?”. Ao dizer aquilo, sentou-se ao lado dele. Se Gabriel não estivesse ficando louco, ele seria capaz de jurar que ouviu o coraçãozinho dela bater também, descompassado como o dele. Noite de estrelas no céu. Noite de estrelas na terra.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/02
19:00

Pedro Meia Garrafa

José Lima Santana
Professor da UFS

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai. Ao todo, foram sete ais. Era assim que Pedro de Fernandinho de Zuliva Parteira dos Cafundós do Negro Janjão, território sem lei nos tempos do carrancismo, reagia a algo que lhe desgostava. E naquela manhã de fevereiro, na quarta-feira de cinzas, só um bocadinho depois do carnaval, Pedro de Fernandinho sentiu os miolos ferverem no cocuruto da cabeça quase desprovida de cabelos. Não por idade avantajada, mas, sim, por traços de família, ele estava a caminho da calvície total, aos pouco mais de quarenta anos de idade.

Que manhã estava sendo aquela! E que manhã haveria de ser, quando ao seu fim chegasse! Quarta-feira de cinzas era um dia grande, dia de preceito na família de Pedro de Fernandinho, família originária da Tamarineira, no Recife. Terra do frevo. A família de Fernandinho de Zuliva, lá no Pernambuco, era toda ela, por assim dizer, metida no frevo e no maracatu. O avô de Pedro e pai de Fernandinho, o velho Timóteo de Zeca Cego, era chefe de grupo de maracatu rural. Do pai passou para os filhos. Destes, para os netos e daí por diante. Mesmo aqueles que se arrancharam naquele povoadozinho poeirento do sertão de Sergipe, não perdiam, quase todos, os festejos carnavalescos nas ladeiras de Olinda e no Recife velho. Todo ano era o mesmo batido. E as mesmas batidas do maracatu. E os mesmos passos do frevo. “É o que nos resta de alegria”, dizia e repetia Fernandinho, arrebanhando os seus de rota batida para a terra dos Guararapes, chovesse ou fizesse sol, a cada carnaval. 

Naquele carnaval, Pedro de Fernandinho, tocador de rabeca e sanfona de oito baixos, não acompanhou os seus ao Recife. Estava amorrinhado. Uma febre braba, que já durava quinze dias. Uma moleza no corpo, como um quebranto danado. Dor de cabeça não tinha. Nem gripe, nem nada a olho nu. Porém, alguma coisa por dentro dele dava maus sinais. Febre sempre fora uma coisa de meter arrepios. “Febre sem razão é buraco pra caixão”, lorotavam as pessoas dali. 

Mal e mal amanheceu o dia, um rapazote sardento gritou na porta de Pedro de Fernandinho: “Ô ‘seu’ Pedro Meia Garrafa! ‘Seu” Pedro Meia Garrafa!”. Ôxente! Quem diabo estava se esguelando na porta de sua casa? Era o que devia estar perguntando Pedro de Fernandinho ou Pedro Meia Garrafa, como gritava esbaforido o rapazote. Sim, este era o apelido de Pedro de Fernandinho. Destoando da maioria dos homens de sua numerosa família, Pedro não passava de um metro e sessenta, e olhe lá! Baixo, franzino, um bem-te-vi. Porém, nas cordas da rabeca ou no fole da sanfona, Pedro era um gigante. Se tivesse ido para o sul do pais, seria grande como Luiz Gonzaga. 
Que manhã, afinal, foi ou seria aquela? E qual a razão do esguelamento do rapazote, que, depois, Pedro Meia Garrafa (já não o chamo mais de Pedro de Fernandinho) viria lembrar ser um dos filhos de Maria Sacode a Saia, uma finória puxadora de samba de coco, nos tempos do São João? Coisas boas não eram. 

O filho de Maria Sacode a Saia, viúva de Clemente Guedes das Porteirinhas, tinha ido levar uma notícia desastrosa. Notícia de tirar um homem do sério, de fazê-lo cometer uma besteira ou um montão delas. Maria Sacode a Saia era comadre de Pedro Meia Garrafa. Assim que tomou conhecimento do desmantelo, cuidou logo de mandar avisar ao compadre. Afinal, gente de consideração não podia ser deixada na mão. 

Pedro Meia Garrafa ouvia o que o rapazote tinha a lhe dizer. Suspirou a muito custo. Mordiscou o beiço inferior. Cofiou o bigode de arame, grande demais para o seu tamanho, para a sua boca miúda, para o seu rosto de rego de passarinho. Despediu o rapazote e mandou agradecer à sua comadre sempre tão prestativa. Aquela manhã prometia. O dia prometia. E a noite, a noite prometia muito mais. Os dois filhos homens de Pedro Meia Garrafa tomaram o rumo do Recife com o avô, Fernandinho. Os irmãos dele e os sobrinhos também. Dos homens, só ele ficou com aquela febre de mais de quinze dias. Febre maldita! Em casa, além dele, só Pipito, o mais novo dos filhos, de apenas oito anos. Dona Caçulinha, a esposa, aconselhou que ele aguardasse os filhos chegarem com toda a parentela. O que tinha acontecido, tinha acontecido. Não havia o que fazer sobre o que era fato consumado. A partir dali, as providências poderiam ser tomadas durante toda a Quaresma. Tinha tempo.

Pedro Meia Garrafa matutou. Acendeu bem uns dez ou mais cigarros de palha, de fumo do bom, comprado na barraca de Cacetinho de Julião. A cada baforada, uma providência a ser tomada. Mais de uma vez, ele olhou para a espingarda calibre 12, dependurada no canto da sala, novinha de dar gosto. E balas especiais ele as tinha. Um homem de tutano nos ossos, de pelos nos buracos da venta, de sangue no olho, não podia deixar passar aquele episódio em brancas nuvens. Um pernambucano descendente dos guerreiros dos Guararapes, que expulsaram os batavos dos nossos rincões, não poderia deixar de agir. Faca cega causava feridas mais doloridas do que faca afiada. 
A comadre Maria Sacode a Saia só mandara lhe dar aviso porque sabia o compadre que tinha. E dele esperava uma providência de tinir, de homem que zelava pelo nome e pela condição de dono do que era seu. Desapontar a comadre? Deixar de mostrar com quantos paus se fazia uma cangalha? Jamais. 

Não dava para Pedro Meia Garrafa esperar a volta dos familiares lá do frevo pernambucano. Bem que ele gostaria de ter ido. A sua vestimenta pesada para sair no maracatu do tio Alípio Caxinguelê estivera à sua espera. Ele, como os outros, mandara o dinheiro no fim de outubro, para dar tempo de a fantasia ser preparada no capricho. Os matutos marcando passo, seguros no ritmo cadenciado do maracatu rural, enchendo os olhos dos turistas, recebendo o respeito e os aplausos de todos. E, mais do que tudo, sentindo a emoção por mais um carnaval, apesar da crise gerada pelos políticos e empresários corruptos que sangravam o país e o povo. Apesar do emaranhado bruto dos cipós da vida, ainda restava um pouco de alegria ao povo. Que ninguém roubasse o que lhe restava. Mas, também, que o povo se enchesse de brio. As urnas, mais uma vez, precisavam do povo, para encher. Porém, encher com o quê? Com votos dados a candidatos imprestáveis? O carnaval transmitia alegria, mas vida não estava mole não.

Pedro Meia Garrafa disse à mulher: “Hoje, ou vai ou racha”. 

Bem. Faço aqui uma pausa. Nunca mais eu enrolei os leitores. Estava com saudade. Todo mundo deve estar querendo saber que diabo aconteceu, a exigir  providência de cabra macho, por parte de Pedro Meia Garrafa. Vou terminar por aqui, deixando vocês com água na boca, ou, quem sabe, com a boca seca. Não aconteceu nada, porque não tinha nada para acontecer. Querem me xingar? Xinguem...!!! Quá, quá, quá, quá, quá...

Um abraço para os leitores. Um cheiro e um queijo para as leitoras. Bom fim de semana.
 
Post scriptum: Ah, não vale xingar a mãe! 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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