24/12
16:41

Natal?

José Lima Santana
Professor da UFS

Sim. Natal, sim. Natal do Filho de Deus e Salvador da humanidade. É nisso que nós cristãos acreditamos. Natal é tempo de festa, de alegria, de amor. Mas, todos estarão em festa? Obviamente, não. Há aqueles que jamais tiveram a oportunidade de celebrar o Natal. Destes, alguns nem sabem quais são os símbolos litúrgicos ou populares do Natal. “Alguém ai sabe quem é Papai Noel?”. Muita gente ainda não sabe. Não estou falando acerca do mito Papai Noel, mas do que, na prática, deveria ser feito sobre esse chamado “bom velhinho”. Ou seja, quantos jamais receberam a ternura do Papai Noel em termos de um presente, qualquer que seja? Aliás, tendo sido transformado num condutor do consumismo, tem gente que quer a morte do Papai Noel, que é visto como um engodo por certos grupos iconoclastas. Papai Noel precisa ser destruído porque é um mito branco, europeu, elitista, que, na verdade, nunca chega para milhões de pessoas. “Morte ao Papai Noel!”, pregam tais grupos. 

Quantas crianças, por exemplo, vêem na televisão, nas portas das lojas a figura do Papai Noel com suas vestes vermelhas, com sua barba branca como a neve, com um sorriso muitas vezes forçado, com aquele gritinho (Ho, ho, ho!) que quer traduzir satisfação, porém, jamais viu cumprido o desejo de receber algo vindo do seu suposto saco de presentes? “Morte ao Papai Noel!”. Todavia, quantas crianças ficam na ilusão de que Papai Noel lhes chega, porque há pessoas que conseguem lhes atender o desejo de um presente, por mais simplório que seja? “Morte ao Papai Noel?”. Cada um julgue e decida o que deve ser feito com o Papai Noel. Mas, seria bom ter pena do pobre “velhinho”. 

Na verdade, o que se deve compreender sobre o Natal não é o consumismo que o comércio nos impõe. Não são os almoços ou jantares de confraternização, não raro com troca de presentes, que os colegas de trabalho e tantos outros grupos de pessoas fazem todos os anos. Não são as ceias pomposas ou não, que as famílias realizam. Não são as taças de vinho consumidas. Tudo isso tem feito parte do Natal. Não há como dissociar. Tudo isso criou raízes profundas. É preciso, contudo, ir além. 

Por uma espécie de remorso, pela necessidade, talvez, de “reparar” erros na condução da vida pessoal, há quem deixe cair no colo dos pobres algumas migalhas no período natalino. Ou por motivos altruístas mesmo. Bem. Que assim seja. Não devemos julgar as pessoas pelo que elas fazem, nem o porquê elas o fazem. Que façam! Se apenas um sorriso de criança for aberto no Natal (ou noutro qualquer momento) pela ação de alguém, qualquer que seja o tipo de ação, já terá valido a pena. Morte ao Papai Noel? Ora, deixem o “bom velhinho” branco, europeu, elitista, mítico, em paz. 

Porém, o Natal não está circunscrito ao que acima foi descrito, ou a muito mais do que isso, na mesma visão. 

Tempo de festa, de alegria, de amor. Foi dito acima. Tempo de reverenciarmos o Deus que nos vem, que assumiu a nossa humanidade, que quis viver conosco, para nos ensinar a ser verdadeiramente humanos, solidários, fraternos. Tempo de festa porque o Verbo se fez carne. Tempo de alegria porque a Luz brilhou nas trevas. Tempo de amor porque nós fomos feitos filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, nós devemos amar uns aos outros. Aí, sim, repousa o espírito natalino. No mínimo, devemos nos esforçar para amar. Não com palavras, mas com gestos concretos. Com ações mínimas possíveis. Cada um ao seu modo. 

Jesus veio ao mundo para cumprimento da Palavra de Deus. A Palavra do Pai está no Filho, como também está no Espírito Santo. A Palavra é una. É santa. 

Neste Natal, quantos barracos estarão silenciosos na beira de córregos, nas encostas de inúmeros morros! Nas favelas, nos subúrbios. Quantos corações estarão vazios, embora diante da mesa farta da ceia, da troca mecânica de presentes? 

Jesus não veio a nós em vão. Que em vão não seja o Natal. Que saibamos compreender a liturgia do Advento. E, mais ainda, que saibamos viver essa liturgia. Que comecemos se for o caso a vivê-la. Não apenas neste período, mas por todo o ano, por toda a vida. 

Deixemos que o Natal explorado pelo consumismo continue como algumas pessoas gostam de vê-lo assim, de fazê-lo assim. Não atiremos pedras. Não queiramos a morte do Papai Noel. Queiramos, sim, a morte do descaso, da indiferença, do desamor.

Que o espírito do Natal, o verdadeiro espírito cristão do Natal de Jesus chegue a nós, cristãos ou não cristãos. Espírito de renovação. Espírito de repensar a vida, para fazê-la melhor. Para compartilhar. Para tomar consciência de que mudanças precisam ser feitas em nossas vidas, mas, também, na vida do nosso país assolado pela falta de ética, pela corrupção da parte de empresários e políticos que roubam descaradamente o que faz falta à educação, à saúde, à segurança e a tudo o mais que pertence ao povo. 

Natal? Sim. Que a paz de Jesus esteja conosco. FELIZ NATAL! 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
18/12
10:58

O jumento caprichoso

José Lima Santana - Advogado e professor da UFS

 

Cosme Cochilo de Véio zanzou por aí, batendo pernas por estradas, caminhos e veredas. O jumento Caprichoso fugiu. Jumento inteiro, que servia para cobrir jumentas e éguas. A procura era grande. E Cosme faturava com ele um bom dinheirinho, que lhe valia como estimável adjutório.

Em torno de umas dez léguas em quadra, ninguém dava notícia do Caprichoso. Algum malfazejo teria dado sumiço ao jumento mais afamado do Brejão da Coruja? Teria Caprichoso servido ao capricho nefasto de algum larápio? Afinal, muita gentegostaria de ter um animal daquele quilate. Era, a bem da verdade, ouro em forma de animal. Jumento de porte avantajado, pelo brilhoso, bicho de teimosia desmedida, que quando cismava de empacar, durava horas parado sem tomar conhecimento da vida e do mundo. Ora, ora, como se um animal irracional pudesse tomar conhecimento de alguma coisa. Instinto não gera conhecimento, hão de dizer os sábios, mesmo os de ocasião, que, sim, são muitos.

Aliás, muito mais do que se pode imaginar. O que não falta neste mundo de meu Deus são sujeitos e sujeitas metidos e metidas a donos e donas da mais vasta e profunda sabedoria. “Pobres coitados/as!”, haveria de relinchar o jumento Caprichoso.Era quase meio-dia de uma quinta-feira. O sumiço do Caprichoso deu-se na segunda-feira, dia da feira semanal da cidadezinha perdida nos confins de Judas, onde o vento fez a curva e quebrou cinco costelas, como dizia Ferreirinha de Chico Bosta de Boi, o pior barbeiro do mundo, mas, nem por isso, deixava de ser o mais procurado do lugar. Não pela destreza no ofício, mas pela boca solta que tinha e que falava de Deus e do mundo. Todos gostavam de suas lorotas. Língua comprida. Língua de fel. Cosme Cochilo de Véio procurava por Caprichoso desde a manhã da terça-feira. Rodou por aqui e por ali. Foi do Brejão da Coruja ao Monte das Argolas. Do Tabuleiro de Severo à Gruta de Maria Preá. Das Timbiras ao Campo Largo. Da Terra Vermelha ao Barro Alto. Nada. Nem sinal do jumento. Teria se encantado? Se avultado? Diziam os antigos que a jumenta de um tal Pedro Tanajura tinha se “envurtado”, numa noite desexta-feira, treze de agosto. Noite de lua cheia, de aflições e de encantamentos. Noite de doidos saírem portas afora, ganhando o mundo. Pois foi, então, que naquela noite, a jumenta Miroró do tal Tanajura envultou-se. De quando em quando, diziam, a envultada aparecia em forma de assombração, correndo trechos e assustando as pessoas. De muito conversar era o povo antigo.

Naquela quinta-feira, ao meio-dia, Cosme Cochilo de Véio, filho de Bertulino de Américo de Julião e de Sá Maria Coça-Coça, cansado, tomou assento debaixo de um péde maria-preta. Sol a pino. O suor descia em volta do pescoço como água de enxurrada. Tirou da cabeça, aliás, um monumento de cabeça, mais parecendo uma bola de couraça, daquelas que o time de pernas de pau do povoado costumava usar nas peladas de fim de semana, o velho chapéu de couro, encardido pelo tempo. Abriu o embornal e dele arrancou um naco de carne de sol assada na brasa, fria como um defunto passado das horas, que ele carregava numa pequena mochila com um punhado de farinha de mandioca e uma banana d’água. Comeu. Depois, sacou da cabaça, que carregava a tiracolo, e bebeu uns goles. Arrotou. Arrotozinho nanico. Estava sem ânimo para prosseguir a caminhada. Nenhuma notícia do jumento Caprichoso. Nada, nada, nada. Não lhe custava tirar um cochilo. A sombra da maria-preta era mais do que convidativa. Encostou as costas no tronco do pé de pau. Adormeceu.

Era a boquinha da noite quando Cosme Cochilo de Véio deu cor de si. Diga-se de passagem, que o apelido Cochilo de Véio não era porque ele era um dorminhoco. Nada disso. Era, sim, porque ele era meio lerdo de entendimento, como se vivesse cochilando como um idoso sofrido, abandonado e enfadado da vida. Idosos sofridos eabandonados há muitos por aí, infelizmente. Despertando, Cosme assustou-se. “Ih, perdia hora!”. Levantou-se para seguir viagem. Não muito longe dali ficava o Vale

Encantado. Lugar bonito, plano de dar gosto. Um riacho chorava dia e noite naquelelugar, as águas descendo devagarzinho como se não quisessem descer, para encontrar orio Maxixe e, engrossando-o, chegar ao mar. Adiante, ficava o sítio de um parente de sua mãe, Toninho Pereba. Ali, ele teria pouso certo e seguro. Tocou em frente. Cosme Cochilo de Véio não andou nem duzentas varas e eis que ouviu um relincho conhecido. Só podia mesmo ser Caprichoso. Até que enfim. “Louvado seja Deus!”, disse ele de si para si mesmo. Mas, onde estava o jumento? Outro relincho.

Mais perto. O animal estava por ali, pertinho, pertinho. Terceiro relincho. Este, porém, veio do alto de um umbuzeiro. Árvore frondosa e de boa serventia pelos seus frutos tão apreciados no sertão. Ah, uma umbuzada com leite grosso de vaca mestiça, como a vaca que ele possuía, Estrelinha, era uma gostosura! E um fortificante capaz de levantar defunto há anos enterrado. Um relincho vindo do alto da árvore? Cosme pensou que estava endoidecendo. Estava não.

O dono aflito do jumento Caprichoso ouviu um farfalhar de folhas. Até parecia coisa do outro mundo. De repente, na noite de lua cheia, o clarão prateado embelezando o mundo, Cosme Cochilo de Véio pôde ver dois jumentos voando e, aproximando-se dele, soltaram relinchos como que zombeteiros. Então, Cosme pensou no que diziam os antigos. Seria a jumenta envultada de Pedro Tanajura que tinha seduzido o seu Caprichoso? Era sim.

Nas quebradas do sertão, muitas coisas aconteciam. Eu juro aos leitores que o relato que acabaram de ler é mais verdadeiro do que dois e dois são cinco. Palavra de um homem de fé.



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
10/12
12:46

A Margarida, o Galo e os Pardais

José Lima Santana
Professor da UFS

O sujeito saiu de casa, no fim da tarde, para comprar margarina. Margarina. Puxa vida! Como foi que a mulher deixou faltar margarina em casa? Saiu na bronca. Além do mais, um amigo lhe disse que margarina era quase uma matéria plástica. Um horror! Mas, a sogra dele só comia margarina. Margarina! Era terrível deixar a caminhada em torno da quadra do prédio para ir comprar margarina. Enfrentar o trânsito no fim da tarde. Enfrentar a fila no caixa do mercadinho. Tudo isso para comprar um mísero pote de margarina. 

Não tinha jeito. Pegou o carro. Saiu. A caminho do mercadinho, voltou o pensamento para a família, no interior. Nunca mais tinha ido à cidade natal. Achou-se um filho ingrato. Se já não tinha mais pai e mãe vivos, tinha irmãos, sobrinhos, tios e tias. Não custava dar uma esticada, fazer uma visita. A vida na capital asfixiava. Naquele momento, por exemplo, ele precisava de ar. De ar interiorano. De um lugar bucólico onde pudesse passar ao menos uns bons momentos. Sentiu-se ainda mais um filho ingrato. A sua cidade poderia lhe dar aqueles bons momentos.

O carro passou da entrada para a rua do mercadinho. O pensamento estava voltado para o interior. Seguiu em frente. Logo mais, estava na BR-101. A pista estava muito remendada. Além disso, tinha a sinalização eletrônica. Puxa! Todo mundo só queira lascar com o povo. O governo federal multava. O estadual multava. O municipal multava. Haveria de chegar o dia em que ninguém aguentaria mais andar de carro. 

Percorreu a rodovia federal. Chegou ao cruzamento com a rodovia estadual. Esperou alguns minutos. Muito movimento nos dois sentidos da BR. Entrou na rodovia estadual. Por enquanto, buracos tapados. Mal tapados, mas tapados. Bem adiante, buracos precisando ser tapados. Não havia carro que aguentasse. Pedaços de rodovia que poderiam ser comparados a queijos suíços. Uma lástima!

Enfim, chegou à cidade natal. Foi à casa de uma tia. Bem recebido. Chegou na hora do jantar. A tia era uma exímia cozinheira. Comeu bem. Deveria seguir viagem, para a cidade mais acima, onde moravam os irmãos, onde ele próprio passou a maior parte da vida, da infância à juventude. Ali, o pai tivera casa comercial. Ali, o pai e a mãe estavam sepultados. 

Depois do jantar, foi instado a pernoitar ali, na casa da tia. Deveria seguir viagem na manhã seguinte. Era melhor e mais seguro. Aceitou a ponderação da tia. Não aceitou dormir numa cama. Queira dormir na varanda ou na garagem, numa rede. Queria sentir mais de perto o frescor da noite. Naquela cidade, os dias de novembro em diante e até a chegada do inverno eram muito quentes, mas, as noites eram frescas. E mais ou menos frias no inverno. 

Rede armada. Deitou-se e pôs-se a balançar. A tia lhe deu um vasilhame de repelente. Uma ou outra muriçoca. O repelente as afastaria e lhe permitiria um sono tranquilo. Pensou na vida. Pensou na maldita margarina. Deveria ligar para casa? A mulher ficaria preocupada. Os filhos também. Ligou. “Você endoidou?”, indagou a mulher. “Endoidei”, respondeu com desdém, desligando o telefone. 

Noite fresca. Noite boa para dormir. O sono veio logo. Deve ter roncado e bufado à vontade. 

No meio da madrugada, um galo abriu a garganta e deve ter acordado meio mundo. Há muito tempo, ele não ouvia o canto dos galos. Mas, àquela hora? Às três e quinze? Galo miserável. Não poderia cantar um pouco mais tarde? Às cinco horas, por exemplo? Outros galos responderam ao canto do primeiro. Os galos são assim. Cantam e reverberam. Quem tem o sono leve, incomoda-se. Sofre a cada madrugada. Todavia, ele acabou se sentindo bem. Os galos deviam mesmo cantar. Era assim a vida interiorana. Ele voltou a dormir.

Por volta das quatro horas, os pardais começaram a sua cantoria. Eram muitos. Orquestra afinadíssima. E cantavam ali, bem pertinho, no jardim cheio de arbustos. Ele se virou na rede. Os pardais da capital não lhe incomodavam. O seu apartamento ficava no décimo primeiro andar. Aqueles pardais também deveriam cantar um pouco mais tarde, depois que o sol desse bom dia ao mundo. 

Levantou-se às cinco e meia. Apesar do galo e dos pardais, o sono não foi de todo ruim. O sino da Matriz tocou suas precisas badaladas. Firmes badaladas que ressoaram por toda cidade. Pena que muita gente já não acorre ao chamado do sino. Ele tomou banho. Logo, o café foi servido. Café interiorano como ele se acostumou desde menino. A tia, assim como a sua mãe, era caprichosa no café da manhã. A bem dizer, em todas as refeições. 

Despediu-se da tia e do marido dela, flamenguista como ele. Dois sofredores. Não seguiu viagem para visitar os irmãos. Ficaria para outro dia.

Retornando à capital, ele foi ao mercadinho. Chegou ao apartamento por volta das nove horas. A mulher e os filhos já estariam no trabalho. Ele pôs sobre a mesa da cozinha o pote de margarina na pequena bolsa plástica do mercadinho. A sogra silenciosa o olhou com um olhar de azedume. Bem melhor era o canto do galo e o canto dos pardais.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/12
07:00

Noite de Lua Cheia

 José Lima Santana
Professor da UFS

Noite. Noite de breu. Agosto. Sexta-feira. Dia 13. Um vento lúgubre e frio soprava no Beco de Filismina, lado direito do cemitério da cidade. Beco sombrio mesmo nos dias de sol intenso. Nos tempos de antanho, por ali, diziam-se, almas penadas corriam o trecho, soltando gemidos dilacerantes. Teve gente que ouviu os gemidos dolorosos, que eram de cortar coração e de dar arrepios nos pelos mais escondidos. Teve gente que viu os vultos correndo como seres desesperados. 

Mal e mal o sol se escondia, muita gente se recusava atravessar o Beco de Filismina. Beco mal afamado. Beco mal assombrado. Seres medonhos, demoníacos, pareciam tanger as almas penadas que gritavam sem parar, correndo de um lado para outro, horas a fio, noites adentro. Era como se as espetassem com espetos de ferro em brasa. Ora, almas penadas tinham corpos para serem ferrados com ferros ardentes? Coisas do outro mundo, do submundo mais imundo do qual se podia falar. Forças negras do além dali faziam morada. 

Reginaldo de Maria Zabelê da finada Telma de Américo Boiadeiro trabalhava no sítio de Chico Bonfim, cinquenta braças bem medidas para além do Beco de Filismina. Rege de Maria, como era conhecido, não era do tipo de homem que dele se podia dizer ser um cabra destemido. Era, sem tirar nem pôr, a negação da fama de valentia que acompanhava os homens da sua família. Homens brabos de punhal e trabuco. Mas, Rege de Maria fugia desse estereótipo familiar. Não passava de um borra-botas. Um cagão, na linguagem chula dos vadios. 

Aquela era uma noite de lua cheia. Lua perigosa, que com ela arrastava toda espécie de coisa ruim. Rege de Maria atrasou-se no serviço.E ainda deu para ficar de trololó com uma filha de Messias Pão Duro, a mais nova de sete irmãs e por quem Rege arrastava asas. Passava das dez horas da noite quando Rege tomou a direção do Beco de Filismina. A animação da conversa com a pretendida fez o rapaz esquecer que teria que atravessar o Beco infestado por seres ou coisas desagradáveis. Ele apressou as pedaladas na velha bicicleta Monark, cuja corrente do pedal caia por brincadeira.

Ao entrar no Beco, Rege de Maria sentiu um calafrio tomar conta do corpo inteiro. Pensou em recuar, enquanto era tempo. Porém, ao avistar a silhueta de um homem que atravessava o Beco, no sentido contrário, sentiu-se bem, Não estava sozinho naquela travessia. 

A bicicleta de cor azul foi comprada de segunda mão a Izidoro Funileiro e paga em cinco prestações mensais. Cada uma no valor de 20 cruzeiros novos. Corria o ano de 1968. Quando Rege de Maria estava para emparelhar com o homem que vinha em sentido contrário, eis que este sumiu. No momento, uma rajada de vento, um bafo estranhamente quente como que mordiscou as orelhas do quase namorado de Lucinha de Messias Pão Duro. 

Um cheiro muito ruim de coisa podre, muito podre, rescendeu no ar. Ao ombrear-se com Rege, o homem escancarou uma bocarra de fogo vivo. Labaredas soltavam daquela bocarra infeliz, como línguas de serpentes gigantes. E foi então que, tendo parado e ficado sem ação, Rege foi abraçado pelo homem de fogo. Suas roupas incendiaram-se. Seu corpo assava-se sem se consumir. Vultos negros e horripilantes achegavam-se, vindos do cemitério. Rege não tinha forças para correr. Nem para gritar. Estava paralisado. Morto nas calças. O inferno abria-se diante dele. Lobos furiosos uivavam por todos os lados.  Era o fim.

– Rege! Ô Rege! Acorda meu filho. Tá na hora de tirar o leite do seu patrão. Você quer desapontar ‘seu’ João Vieira. Ande. Se avexe!

Dona Maria Zabelê da finada Telma de Américo Boiadeiro viu a cara do filho Reginaldo como a de quem tinha visto assombração. 
– Que cara é essa, meu filho? Você tá bem, Rege?

Pulando da rede, Rege disse: – Foi um sonho doido que eu tive minha mãe. Um sonho dos infernos. Ainda tô todo arrepiado. 
Dona Maria Zabelê persignou-se. – Cruz credo, Rege! 

Naquela manhã, Rege fez voltas, mas não passou no Beco de Filismina. Horas depois, ele soube que encontraram um corpo carbonizado no referido Beco. Era incrível como o corpo estava queimado, mas não consumido. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
19/11
16:20

A prisão do cavalo

José Lima Santana
Professor da UFS

O fato não se deu nos dias de hoje. Nem de ontem. Foi no tempo pratrasmente de trasantontem. Início da década de 1950. Naquele tempo, o delegado de polícia era um oficial reformado da briosa Polícia Militar. Era outro tempo. Diverso do tempo de hoje, bem mais civilizado. Aconteceu, nas Varas Verdes do Chapadão, cidadezinha mixuruca espremida entre a Serra do Castelo e a Serra do Corisco. Um cavalo foi preso. Alguns, para aliviar a barra do vexame, que se tornaria nacional e internacional, disseram (in) justificadamente, que tudo não passou de uma detenção, e não prisão. Outros, ciosos para com a Briosa, disseram que o que houve mesmo foi apenas a apreensão do representante da espécie equina. 

O fato inusitado correria trechos e ruas. Cidades e estados. Países até. Uma muvuca da desgraça. A oposição feita pela UDN ao governo do PSD, tanto no município, quanto no estado, lavou a égua de tanto explorar entre gargalhadas e comentários desvairados a prisão do cavalo.
Tudo se deu quando, numa cavalgada, o dito cavalo espantou-se, à aproximação de um carro, pinoteou duas vezes e meteu um coice no carro de Tibério Orelhudo, sogro do prefeito. Foi um Deus nos acuda. Carro novinho em folha. Um Simca Rabo de Peixe. Um luxo! Único veículo de passeio daquele tipo na cidade. Talvez, na região. O Orelhudo era dono de fábricas de descaroçar algodão. Três delas: a Nossa Senhora Aparecida, a São Francisco de Assis e a Santo Antônio. Dona Sinhazinha, a mulher do empresário, era devota de todos eles. 

A autoridade policial entendeu que houve dano ao carro. E houve mesmo, um amassãozinho de leve, uma bituca de quase nada. Todavia, contudo e, porém, o velho oficial reformado da Briosa vociferou que houve “crime de dano”. Danou-se. O “crime” estava mais do que provado. A autoria também. E lugar de “criminoso” era a cadeia. O dono do animal ainda alegou que o cavalo Precioso não deveria ser preso. Ofereceu-se, pois, para tomar o lugar do animal. O velho oficial disse: “Não!”. O ofensor foi o cavalo. Ele pagaria pelo “crime de dano” praticado. Conduziu-o ao quartel e o colocou numa cela. Que ironia! O animal de sela acabou numa cela. Era o fim de tarde de um domingo. É de lembrar que, enquanto o cavalo era conduzido ao xadrez, uma pequena multidão acompanhou o grande feito do velho oficial, entre risos e galhofas. No meio da caminhada, o exemplar guardião da ordem gritou, perante tamanha algazarra: “Se continuarem com esse furdunço, eu boto todos vocês juntamente com o colega de quatro patas”. Mais uma vez, danou-se. 

Domingo. Fim de tarde. O que poderia exigir aquela populaça de um velho oficial reformado, que, longe de casa, ainda haveria de queimar panela no quartel se quisesse uma jantazinha na noite que se avizinhava? Pensava aquela cambada que a sua vida era fácil? Que tinha sido fácil em trinta anos de caserna, enfrentando bandidos e malfeitores em todas as zonas do estado, inclusive na própria “zona”? Qual nada! Ele sofreu muito. Assentou praça no fim da década de 1910. Reformou-se em 1948. Há quatro anos, era delegado de polícia comissionado, como assim o era naqueles tempos bicudos. E ainda tinha que aguentar aquele povinho cheio de ditos e churumelas. Se ele metesse dois ou três daqueles atrevidos no xilindró, tudo se acalmaria. Enfim, a autoridade policial ali era ele. E prendia quem quisesse: cavalo ou gente. Pronto.

Cavalo preso, pessoas dispersas. Regalias ao preso? Uma baciazinha com água para beber e um pequeno feixe de capim sempre verde. Cela pequena, entulhada de bregeços. Pobre cavalo, que nem se mexer podia. Deitar-se, espojar-se? Nem pensar. 

Day after. Uma segunda-feira de sol. Primavera que mais parecia verão. O fotógrafo lambe-lambe Tito Retratista tinha subornado o soldado de plantão, na noite anterior, após o oficial reformado ter-se recolhido, e retratou o cavalo preso, que saiu em pose de primeira página no jornaleco “Fiu-Fiu”, de Beto Felizola, adversário do prefeito Getúlio Bocão. A pequena tiragem do jornal vespertino não deu para quem quis. Lá estava o cavalo Precioso tristinho, atrás das grades. Antes, porém, da saída do jornal de oposição, que, além da foto com a matéria zombeteira, exibiu uma foto antiga do oficial reformado em farda de gala, dos tempos em que ele desfilava garboso no Dia da Pátria, e localizada nos arquivos do jornal, o Serviço de Amplificação G.C., de propriedade do vereador Genildo Carvalho, parlamentar combativo, que se dizia independente, ora atacando, ora elogiando a situação ou a oposição, e que tinha o seu serviço de som esparramado por quase toda a cidade, meteu a ripa. Botou a jiripoca para piar. Ele tinha uma verdadeira “rádia” nos céus da cidade em ondas médias, curtas e longas, como costumava dizer Elízio Souza, o seu produtor, operador e, por vezes, locutor de ocasião. 

O Serviço de Amplificação G. C., ao bem do povo e da veiculação da verdade, entrevistou pessoas, transmitiu lorotas, fez um carnaval. Teve até quem imitasse um famoso locutor da capital, fazendo uma gozação das seiscentas. Até um “fio do canço” apareceu relinchando e pedindo um habeas corpus. Sátiras danadas. Os ouvintes caíram na maior gozação. Um cavalo preso e os bandidos soltos, diziam. Na capital, as autoridades ficaram indóceis. Umas, defenderam o velho oficial reformado, que sempre foi um policial valoroso em todas as missões que lhe foram acometidas. Outras queriam a sua cabeça. Na Assembleia Legislativa, o deputado Chico Frederico, que se dizia “esquerdista, mas nem tanto”, oportunista que só ele, fez um discurso cheio de verborreias e disse mais empolgado do que pinto no lixo: “Senhores deputados, minha gente da galeria, esse cavalo que foi preso, não é gente, mas é um ser humano, que merece respeito”. Um gaiato da galeria retrucou, para delírio da galera: “Muito bem deputado: o cavalo é um ser humano igual ao senhor!”. O orador fez que não entendeu,  ou não entendeu mesmo. 

O cavalo foi solto ainda na segunda-feira. Saiu mancando, coitado. Passaria por uma averiguação feita por uma junta de veterinários da capital. A Liga das Senhoras Aflitas fez correr uma subscrição para pedir ao governador do estado a apuração do caso. Afinal, nos dias que se seguiriam jornais e emissoras de rádio do eixo sul/sudeste do país estraçalhariam o estado por causa daquele episódio. Um cavalo preso pela autoridade policial. Deu até no Pravda, jornal soviético. Na Rádio de Moscou. Na BBC de Londres. Na Voz da América. Na Rádio de Havana. Na Rádio de Berlin Oriental. Até na “Voz do Brasil”. Em tudo que foi canto, para o desencanto do povo do pequenino estado. Coisas do longínquo ano de 1952. Coisas passadas, que jamais poderiam acontecer nos dias de hoje. Com certeza. Tá doido! Prender um cavalo hoje em dia? Nos dias de agora, em pleno século XXI, ninguém chegaria ao desplante de prender um cavalo. Isso não. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/11
11:59

Tragédia

José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Maria Zilda de Maneco Pé Ligeiro estava no roçado, fazendo a terceira limpa do pequeno mandiocal, após as últimas chuvas. O inverno veio danado de bom. A fartura na lavoura foi grande. Milho, feijão e fava à vontade. A mandioca prometia. Uma trovoada no fim do ano, outra em fevereiro, garantiriam boas raízes tuberosas que os nossos índios delas contavam preciosa lenda, e que dava a farinha nossa de cada dia, sustento para gerações de nordestinos. 

Mais da metade do roçado já estava limpa. Terra frouxa, fácil para o manejo da enxada. Maria Zilda parou um instante para limpar o suor da testa com o lado externo da mão esquerda. O tempo já começava a levantar com força. O sol abrasava cada pedaço de chão. Primavera? Que nada! Verão antecipado. Era sempre assim. O marido de Mariz Zilda, Maneco Pé Ligeiro, tocador de sanfona, vivia de canto em canto, por aí, puxando o fole e namorando quem aparecesse. E mulher pronta para um xodó não faltava em lugar nenhum. 

Ultimamente, coisa de dois meses mais ou menos, o pé tornou-se ainda mais ligeiro para o lado de uma zinha do Tabocal dos Pretos Forros, depois da Timbira de Jorjão. Aboletara-se de casa sem dar notícias até aquela tarde. A Maria Zilda restava a filhinha, Doralina, de nove anos, a casa em regular estado e o roçado. Para a filha, ela almejava um futuro bem diferente do seu. Por isso, a menina estava no estudo pela manhã e pela tarde, na escolinha do povoado. Porém, Maria Zilda não sabia o porquê, mas o seu coração tinha um pressentimento que ela não conseguia entender. Alguma coisa estava para acontecer. Pensou logo no marido farrista e de asa arrastada por aquela zinha do Tabocal. Ocorreu-lhe também a filha, Doralina. Não. A filha estava bem, na escola, estudando para ser gente. 

A tarde andava a meio. Maria Zilda ouviu um grito. Um chamado. Era para ela. Agora, sim, ela ouvia bem: “Maria Zilda! Maria Zilda!”. Era voz de homem. Desembestado, montando um cavalo cai, mas não cai, bamboleando sobre o animal como se fosse o último dos espantalhos, João Balaio aproximou-se, berrando: “Maria Zilda, minha filha, pelo amor de Deus, corre para casa. Uma desgraça acaba de acontecer”. Ela viu, então, o rostinho de sua filha estampado na lâmina d’água da última poça que o sol sorvia gota a gota, devagarzinho. “E o que foi, João? É Doralina?, perguntou a mãe aflita. O cavaleiro respondeu: “Corre, filha de Deus! Corre!”. Alvoroço. Pranto incontido.

Uma caixa d’água postada nas cercanias da escola onde Doralina estudava, aliás, a única do povoado, acabara de desabar sobre a escola, partindo-a ao meio, ferindo muitas crianças e deixando sem vida duas delas. Uma das duas era, sim, Doralina. Nove anos. A outra criança era só um pouco mais velha. Ou melhor, mais velho. Era um menino. Quanta tristeza! Quantas lágrimas derramadas por todos que ali se aglomeravam. Era um povoado pequeno, unido na dor de duas perdas que tinham sido feitas sementes esmagadas. Sementes que deveriam germinar e florir, abrindo-se para a vida. Porém, a morte prematura as colhera, esmagando as corolas de suas inocências. 

Uma mãe e um pai em prantos. Um corpo esmagado. Ferragens retorcidas. Ferrugem à mostra. Muita ferrugem. Concreto rachado. Olhos lacrimejantes. Solidários. Um povoado atônito. Uma tragédia anunciada. Há muito tempo, havia rebuliço dos moradores por causa da caixa d’água, que parecia entortar. Ninguém dava ouvidos ao povo. Moucos eram os ouvidos dos governantes, dos dirigentes, de quaisquer pessoas que detinham um naco de poder e de responsabilidade. 

O outro corpo ensanguentado, destroçado era, sim, o de Doralina, a filhinha de Maria Zilda e Maneco Pé Ligeiro. A mãe desesperada jogou-se sobre o corpo da filha. Nove anos. Uma flor esmagada pela fúria do descaso, da omissão. Fúria mais devastadora do que um furacão. Choro, grito dilacerante. Lamentação. Dor que cortava o coração de todos. Dor somada à outra dor. Duas mães que, por certo, experimentavam a dor de Maria diante do seu Filho vergado na cruz. Dor excruciante. Que rasgava os véus do coração como a dor de Maria pareceu rasgar s véus dos céus, naquela sexta-feira que o mundo jamais esquecerá. Porém, a dor daquelas duas famílias seria em pouco tempo esquecida, em especial pelos omissos. Omissos. Omissos. Omissos. 

Maria Zilda não tinha mais lágrimas para juntar a tantas lágrimas, para juntar à água derramada. Duas mães unidas pela dor, pela perda, pelo desespero de ter nos braços o filho e a filha que guardaram nos respectivos ventres por nove meses, e por quem elas choraram a cada choro daqueles filhos quando ainda eram bebês, no tempo do sarampo, da coqueluche, da caxumba, das gripes constantes, das diarreias. Ás vezes, por causa do pão minguado ou pela falta de médico ou de medicamentos, tudo quase sempre faltante pelo descaso dos poderes públicos. Vidas pobres. Era tão difícil viver, mas, a esperança era um raio de sol a se libertar todo dia das nuvens carrancudas e passageiras. 

Ali estavam dois ventres de mães rasgados no seio da terra. A caixa d’água fez chorar duas famílias. Fez chorar um povoado inteiro. Uma cidade. Lágrimas e indignação. Notícia nos telejornais nacionais. Responsabilidades a apurar. Dois corpos. Duas vidas ceifadas no meio da tarde. Duas vidas que ainda engatinhavam no alvorecer da existência. Alvorecer sangrento. 

Maria Zilda beijou a face sangrenta da filha. Da filha única. Da filha que lhe fora arrancada. Da filha que nunca mais lhe tomaria a bênção. E que ela nunca mais abençoaria. 

De repente, o corpo de Doralina escorregou dos braços de Maria Zilda, que desmaiou. Socorreram-na. Duas estrelas cadentes riscaram o céu e pairaram sobre o aglomerado das pessoas daquele povoado em pranto. Dois anjos pareceram descer do céu. Depois, pareceram subir. Já não eram apenas dois. Eram quatro. E as estrelas cadentes fizeram a viagem de volta. Estavam mais brilhantes. Era evidente que quatro anjos brilhavam mais que dois. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/11
13:17

A salvação de Ticinha

José Lima Santana
Professor da UFS

Marcinho de Zeca Tabuleiro voltava do roçado de milho, que começava a embonecar. Partidão de milho. O verde escuro perdia-se no horizonte. O inverno tinha demorado, mas quando veio, veio de tinir. Safra da melhor possível a caminho. As chuvas regulares impediam o surgimento das lagartas, que, nos dois anos anteriores, devoraram quase tudo. Pestes! As borboletas vieram azedas. Botaram os ovos, que se transformaram em lagartas esfomeadas. 

Não. Naquele ano, não. O sol quando aparecia era para dar bom dia ou boa tarde e, logo, se recolhia. O tempo não esquentava muito. Não faltavam borboletas, mas, as chuvas matavam as lagartas mal e mal saídas do casulo. Os plantadores de milho e feijão não teriam, naquele ano, as sócias miseráveis e comilonas. Marcinho de Zeca Tabuleiro tinha, sim, que dar graças a Deus. Uma safrona estava para chegar. Casado de novo, a mulher, Ticinha, esperava o primeiro filho. Eram bênçãos sobre bênçãos. 

O milho tinha aumentado de preço nos últimos anos. Muita gente estava deixando de lado outras lavouras para se dedicar ao plantio do milho. Sementes selecionadas e novas formas de plantio garantiam uma produtividade nunca antes vista por aquelas bandas. Marcinho era possuidor de boas terras, propícias para a lavoura. Jovem bem aquinhoado quer pelos esforços próprios, quer pelo legado de uma tia solteirona, que o tivera como filho e para quem deixara seus pertences, inclusive boa parte das terras que ele possuía. 

Ticinha, sua jovem esposa, era, na verdade, Ticiana. Filha de Alfredo Pires Peixoto, gente de Pernambuco, e conhecido como Alfredão Cospe Fogo, porque quando ele falava era como um vulcão em erupção. Soltava fogo e fumaça. E se estivesse brabo, eram labaredas da altura dos céus. Tinha, porém, um coração molim, molim, molim, como caldo de doce de banana em rodinhas. 

A esposa de Marcinho era uma beldade. Linda moça. Prendada e estudada. Tinha tirado o ginásio. E estudava para ser professora. Marcinho fora seu colega ginasiano. Largara os estudos para dedicar-se à vida no campo. Gado e roçados para cuidar. 

Naquele fim de tarde, Marcinho regressava para casa. Desde a madrugada, um pé d’água intermitente enchia o mundo. Parecia um dilúvio. Talvez apenas um pouco menor do que aquele de que fala a Bíblia, o dilúvio da arca de Noé. O riacho do Zabelê botava água sobre os galhos dos pés de paus. Um verdadeiro mar. Ainda bem que ventava pouco. Do contrário, os pés de milho seriam virados pela ventania. Um prejuízo danado! Mas, graças a Deus, isso não acontecia. Ruim mesmo era para o feijão que estivesse em floração. As chuvas fortes derrubavam as flores e a plantação se perderia. Marcinho não plantava feijão, a não ser uma mão cheia de sementes no fundo do quintal, que era grande, quase uma chácara. 

No fundo da casa de Marcinho e Ticinha passava um córrego. Coisa de pequena monta. Corregozinho tísico, que vinha da fonte de “seu” Alcides Boca Mole, cortando malhadas e quintais e desembocando lá adiante, coisa de meia légua abaixo da morada de Marcinho, no riacho do Zabelê. 

Havia algo estranho na casa de Marcinho quando ele apeou do cavalo castanho. Montaria mimosa. Quarto de milha. Comprado por um dinheirão. Aliás, daquele ele tinha alguns. Gostava do que era bom e bonito. E tinha posses para tanto. Um jovem promissor com uma família em formação e, igualmente, promissora. Ao encontro dele correu uma irmã, Margarida. Eram, ao todo, seis irmãos, sendo ele o único varão. Cinco irmãs que lhe paparicavam e das quais ele gostava com o amor próprio de irmão mais velho e zeloso. Antes que a irmã lhe dirigisse a palavra, ele ouviu vozes agoniadas e prantos. “O que foi, Margozinha?”, indagou Marcinho. E ela: “Uma desgraça!”. E, aos atropelos, relatou-lhe o ocorrido. 

Ticinha fora socorrer o cãozinho que Marcinho tinha lhe dado duas semanas antes. Era, por enquanto, a companhia dela, nas necessárias ausências. Apolo tinha caído no córrego, cujas águas tinham engrossado em demasia. A esposa de Marcinho buscou resgatar o cãozinho tentando fazer com que ele subisse numa tábua que ela estendeu ao seu encontro. Todavia, as águas estavam muito ligeiras. Ela acompanhou a descida de Apolo por uns trinta metros ou mais. De repente, escorregou e também desceu nas águas escuras. Tentou segurar-se nas ramagens, mas não conseguiu. Ela não sabia nadar e, ainda que soubesse, talvez não encontrasse valimento. O córrego estava brabo. Ela submergiu e emergiu algumas vezes. Mariano de Soarino do Cerro Azul e Chiquinho de Maria Bole-Bole, que por acaso passavam por ali, a socorreram. Lançaram-se ao córrego e conseguiram resgatá-la. Mais morta do que viva. Engolira um pote de água. 

Os dois salvadores chamaram os pais e as irmãs de Marcinho, cuja casa era logo ali. Fizeram com que ela expelisse boa parte da água engolida. Porém, ela não deu cor de si. E foi naquele estado que Marcinho encontrou a sua jovem esposa. 

Namoro nascido na escola. Primeiro encantamento dele e dela. Casal formoso. Marcinho encontrou a esposa prostrada. O pulso quase a zero. Desfalecida. Se não fosse o minguado pulso, dir-se-ia que estava morta. Talvez não durasse muito. A morte poderia ocorrer a qualquer segundo. Um cunhado de Marcinho, João Tripa, magro como um caniço, acabara de chegar com o carro do sogro. “Vamos para a cidade. Lá o Dr. Milton poderá salvar a vida dela!”. Dr. Milton era um médico de fama. Um médico como poucos. A cidade era bem pertinho. Légua e meia de distância. 

Com jeito, Marcinho tomou a mulher nos braços. Duas lágrimas escorreram-lhe face abaixo. Com ele e o cunhado foi a sua mãe, Dona Cristina. No carro de Marcinho foram o pai e as irmãs. Alguém da família foi avisar aos pais de Ticinha, no povoado vizinho, logo abaixo da residência do jovem casal.

Ao chegarem à cidade, o Dr. Milton não se encontrava. Estava em viagem. No pequeno hospital, encontrava-se apenas uma auxiliar de enfermagem, por sinal, prima de Ticinha. Uma vez posta no leito, a prima, muito nervosa, tomou-lhe o pulso. Uma, duas, três vezes. Estava cada vez mais nervosa. “Não bate mais, gente! Não bate mais!”, disse ela, que desandou a chorar. Choro geral. Marcinho ajoelhou-se diante da esposa. Segurou a mão direita dela. Com a outra mão, alisou o ventre onde o primeiro filhinho estava abrigado. Não chorava. Lembrou-se do que dizia a tia que lhe deixara a herança em terras e gado. “Não houve no mundo dor maior do que a de Maria Santíssima diante do seu Filho na cruz”. Ele apertou com firmeza a mão de Ticinha. Era um jovem crente e temente a Deus. Fazia suas orações diárias, como lhe ensinara sua mãe e sua tia, com quem ele morou nos tempos de ginásio, na cidade. Rezou. Duas orações corridas. Pai Nosso e Ave Maria. Era, contudo, o que saía do mais íntimo do coração, expressão de uma fé ainda rude, porém, a fé de alguém que, confiante, esperava por um milagre. 

A mãe de Marcinho compreendeu aquele momento de intimidade do seu filho com o Criador. Fez com que todos se retirassem dali. Ela, porém, ficou encostada no portal. Depois, também, ajoelhou-se. Orou. Lágrimas escorreram dos seus olhos. A dor do filho era a dor da mãe. Como Maria. De repente, Marcinho gritou: “Ela está viva! Ela está viva!” Estava sim. O pulso batia levemente. Mas, batia. Ticinha salvou-se. O cãozinho também, pois alguém lhe retirara da água do córrego, ofegante, mas vivo. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
30/10
10:09

"Hoje, eu tô azedo"

José Lima Santana
Professor da UFS

Veludo ladrou uma, duas, três vezes. E outras tantas. Era, sem dúvida, um cão de atenta vigilância a despeito de ser um reles vira-lata, um cachorro gué do rabo fino. Fora apanhado na rua, num dia de muita chuva. Naquela quarta-feira, um dilúvio caiu sobre a cidade. Valetas transformadas em riachos. Leonardo Pançudo do finado João de Maria Gaguinha apanhara-o. Era um filhote desnutrido, magrinho de dar dó. Comido por vermes. Uma bactéria devorava-lhe os pelos. Um cãozinho em verdadeira petição de miséria. Medicado, alimentado, curado, Veludo recebeu este nome por causa da cor negra sem mancha. Tornar-se-ia o xodó da casa de Leonardo Pançudo. Até a velha Domitila Coceirinha, avó de Leonardo que morava com a família do neto, e que era muito mais rabugenta do que Veludo, passou a gostar muito do cão que conquistara a família dos Pançudos. Aliás, ser Pançudo era a marca da família do finado João Guedes de Menezes, o João de Maria Gaguinha, sua generosa mãe. 
Pois Veludo ainda ladrou algumas vezes. No interior da casa, todos ficaram de prontidão. Alguém ou alguma coisa Veludo teria visto ou farejado. Era Paulinho Marreco, dos Marrecos do Costado Alto, pra lá das Bananeiras do finado Felismino. Bananeiras era uma fazenda de muitas terras, de muitas pedras e de muitas cobras cascavéis. 

Paulinho Marreco, de batismo Paulo José, e, de certidão civil, Paulo José Loureiro Matoso Guedes, era filho de Matias Marreco e neto de Aristides Marreco. Marreco era, claro, apelido bicentenário da família Loureiro Matoso Guedes, gente dos tempos do Império, aparentada com o Barão da Patioba. 

O que haveria de querer Paulinho Marreco, àquela hora, na boquinha da noite, hora do café noturno, que nas casas dos grã-finos se dizia jantar? Logo se saberia. Veludo fora acalmado por um dos meninos de Leonardo Pançudo, Tibôco Pançudinho, que era o seu apelido. O menino abriu o portão fechado a cadeado. Paulinho Marreco perguntou: “Seu pai taí, meu fio?”. Estava sim. O visitante entrou e dirigiu-se à casa. Ao entrar, sem meias palavras, foi logo dizendo: “Leonardo Pançudo, hoje, eu tô azedo!”. Sem muito entender, indagou Leonardo: “E que bicho lhe mordeu, home de Deus?”. Marreco respondeu: “Pior que não é bicho. É um cabra safado, um fio de uma ronca e fuça, um fio do demo”. 

E foi então que Leonardo Pançudo ficou a par da aflição de Paulinho Marreco. Uma senhora das Bananeiras andou de fuxico com a vizinhança, dizendo que ele, Marreco, andava de cabeça pensa para um lado com o peso dos chifres. Nem casar ele tinha casado e já era corno. Assanhou-se. Azedou-se. E a senhora, uma velhota desdentada, viúva que não tinha o que fazer a não ser lorotar e levantar aleive para desassossegar um cristão, que vivia da sua casa para o seu trabalho. Ora, mas, o que tinha Leonardo Pançudo ou a sua família com os chifres de Paulinho Marreco? É o que os leitores, que, eu bem sei, não estão, nem um tiquinho, curiosos, vão saber. Querendo ou não, vão saber. 

Antes, porém, de revelar esse negócio dos chifres do Marreco, eis que é preciso esclarecer o seguinte: Paulinho Marreco estava de namoro com uma filha de Aloísio Mão de Pilão, do Catolé de Baixo, sujeito afamado pelo murro certo e demolidor, no tempo em que morou em São Paulo e lutou boxe amador. Só não fez carreira porque o pai morreu e ele teve que voltar ao sertão, para cuidar da mãe e dos irmãos menores, que eram apenas doze, todos de cobrir com um cesto. Era uma fileira de buchudinhos. Ocorre que ele, Paulinho Marreco, era um cabra de seus quase trinta anos, e a menina com quem ele namorava, com o consentimento de Mão de Pilão não passava dos treze anos. Casamento, na versão dura do pai da menina, somente quando ela tivesse idade para casar no civil, que filha dele, Aloísio do finado Martônio Pereira Lemos, outro aparentado do Barão, não sairia de casa sem documento passado na Igreja e no cartório. 

Retornando ao assunto dos chifres de Paulinho Marreco, a velha Deolinda do falecido Cassiano Ferreira, funileiro dos melhores que o sertão já vira, e não somente o sertão, mas, quem o sabia, o mundo inteiro, andara de bocarra aberta, e ainda mais aberta porque não tinha lá de seu um só dente, alardeando que a menina Creuzinha, na inocência dos seus treze anos, enfeitava a testa do Marreco. Santo Deus! O aleive chegara ao umbral da janela do oitão da casa da família dos Marrecos. Dona Crisolina, a mãe dos Marrecos, sabedora por um vento que lhe tinha soprado aos ouvidos, chamou o filho às falas: “Andam dizendo por aí, meu fio, que a sua pretendida tem lhe enfeitado a testa”. Paulinho deu um pinote: “O que é isso, minha santa mãezinha?”. A mãe respondeu: “Cheias estão as estradas dessa conversa desaforada. Dizem que a menina tá de xodó com um boneco qualquer”. 

Paulinho Marreco danou-se. Tiraria aquela conversa a limpo. Seria capaz de fazer uma besteira. Levar chifres de uma meninota? E, ainda por cima, com um boneco? Boneco, no sertão daqueles tempos, era como se chamava um sujeito grã-fino, fatiotado, sujeito dengoso e criado com mimos de avó. A velha Deolinda dissera que a mulher de Leonardo Pançudo era a alcoviteira da menina Creuzinha naquela história com o boneco. Daí foi que Paulinho Marreco bateu à porta dos Pançudos. Queria tirar aquela história a limpo. 

Dona Risoleta, a mulher de Leonardo, ao ouvir a lenga-lenga do Marreco, adiantou-se: “É bem verdade que Creuzinha está doidinha pelo boneco. E também é bem verdade que fui eu quem lhe apresentei ao tal”. Paulinho Marreco amarelou. Depois, afogueou-se. Ficou abrasado. Um fogaréu ardeu dentro de si. Procurou chão e não encontrou. Pensou besteiras. Ali mesmo, ele seria capaz de um desatino. Pensou logo em João Pedro de Robertão do Baixio Largo, primo de Dona Risoleta, menino mimado, cheio da grana, metido a conquistador de mocinhas, cuja avó materna, Dona Elvirinha Mecenas, antiga proprietária do engenho Porteiras, o cobria de mimos e dinheiro, coisa que não lhe faltava. Paulinho Marreco quis dizer alguma coisa, mas não teve voz. Um nó na garganta o sufocava. Uma morte, duas mortes... Sabia-se lá! 

Diante do quadro vexatório pelo qual passava Paulinho Marreco, Dona Risoleta perguntou: “Ô, meu filho, você já viu o boneco que eu dei a Creuzinha? Você sabe qual foi o nome que ela lhe deu? Você vive pelo mundo, tangendo tropas de burros, para cima e para baixo. Quantas vezes por semana você vê sua namorada? Tome tento, homem de Deus! Ao boneco de pano do tamanho de um menino recém-nascido, que eu fiz para Creuzinha, ela botou o seu nome. É Paulinho. Como você vive pelo mundo e se esquece de ver a menina com quem você, um dia, pretende casar, as pessoas vivem dizendo de brincadeira que ela arranjou outro Paulinho. É só isso. Se Dona Deolinda, que tem a boca maior do que a boca da noite, vive por aí dizendo lorotas, o problema é dela”. 

Paulinho Marreco viu-se constrangido ao ter que limpar duas lágrimas, que lhe caíam dos olhos. Melhor prosa ele não poderia ouvir naquela boquinha de noite. Então, era aquilo? Ele não era um chifrudo? Creuzinha sentia a sua falta a ponto de buscar um substituto, um boneco de pano? E ainda por cima, dando o seu próprio nome? Aquilo de Creuzinha só podia ser bem-querer. Amizade sem fim. Ou, como diziam por lá, amor. 

Ele beijou a mão de Dona Risoleta. Pediu desculpas à família dos Pançudos. E foi direto à casa de Aloísio Mão de Pilão, pai de Creuzinha, sua namorada. Naquela mesma noite, Paulinho Marreco e Creuzinha noivaram. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
Primeira « Anterior « 1 2 3 4 5 6 7 8 9 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos