21/10
20:46

O Barão da Patioba e as químicas

José Lima Santana - Padre, advogado e professor da UFS

 

 

            Tinha gente grã-fina e tinha gente que queria ser grã-fina a pulso. O tataraneto do Barão da Patioba era grã-fino. Na sua cadeira de balanço, tirando baforadas do charuto cubano, que alguns amigos lhe davam de presente, pois comprar mesmo ele não comprava, o Barão tinha ares de gente das elites, da antiga nobreza da Missão. Nobreza comprada a tostões. O que tinha de ares de grã-fino, ele tinha de sovinice. Não gastava um conto para ninguém. E, até certo ponto, fazia bem. Naqueles tempos bicudos, não dava para sair por aí torrando dinheiro.

            O tataraneto do Barão era metido nas químicas. Inventava fórmulas mirabolantes. Misturava uma ruma de pó de todas as cores, fazia um fumacê desgraçado, de vez em quando papocando umas coisas, frascos retorcidos e o escambau. A vizinhança inculta o tinha na conta de um mago, um homem de sabedoria incalculável. E o seu palavreado difícil para explicar as químicas? “Vôte!”, como diria Chico Ferrugem, antigo amigo e companheiro de caçadas nem sempre bem sucedidas do tataraneto. Aquilo nos tempos idos, da adolescência e da juventude.

            João Torróio de Malaquias de Pedrinho do Brejo Seco, viúvo pela segunda vez, ali beirando os oitentão, estava de asa caída para o lado de Mariquinhas de Marta de Zé Pequeno, solteirona, igrejeira, donzela de fé intocável. E de intocáveis outras coisas também. Ela que o dizia. Pois João Torróio bandeou-se para o alpendre avarandado do Barão. Era uma tarde de sábado. O Barão dormitava na cadeira de balanço após ter almoçado uma baita moqueca de siri mole, seu prato preferido, antecedido de duas boas doses de whisky 18 anos, um do rótulo azul. Coisa de nobres. E de sobremesa, uma coisinha mais do que comum, porém, que o Barão adorava, como criança: mariola. Além de mangas. Comia aos montes. O Barão roncava. João Torróio não o quis incomodar. Abancou-se por ali à espera do último ronco do Barão naquela tarde de vento fresco, que não cessava de balançar as folhas da mangueira espada, no oitão do sobrado centenário, onde, outrora, festas e acordos políticos foram celebrados.

            A dona Baronesa mandou servir um ponche de limão a João Torróio. Afinal, além da delicadeza própria da esposa do Barão, comentada na Missão e até na capital, João Torróio era quase da família. Ele fora casado com uma prima distante do Barão, há cinco anos falecida.

            Além de dono de muitas terras na Patioba, o Barão era professor de química na capital, com teses publicadas. O quê? Era sim. E ele enchia as bochechas para dizer que tinha sido aluno do professor fulano, do professor beltrano e do professor sicrano, na Bahia. Ele tivera até mesmo um professor estrangeiro. O Barão não era brinquedo, não.

            O laboratório do Barão ficava nos fundos do sobrado. Ali, por vezes, ele passava manhãs e tardes, nos fins de semana, metido com fórmulas e mais fórmulas. Jocosamente, dizia-se, na Missão, que ele tentava transformar um banco de madeira num boi. Era pura gozação dos seus irmãos e dos amigos de carteado.

            Enfim, o Barão roncou o último ronco naquela tarde de sábado, depois da moqueca de siri mole e de algumas das afamadas mangas da Patioba. “As mais doces do mundo”, vivia a repetir o Barão. Ao despertar, tirou com a “costa” da mão esquerda a librina dos olhos. Vislumbrou o quase parente, João Torróio. E o cumprimentou: “Como vai, primo?”. E o visitante: “Na santa paz de Deus. Mas, primo Barão, eu estou carecendo de um dedo de prosa e de um adjutório”. “O que manda o primo?”, indagou o Barão, ajeitando-se na cadeira de balanço. João Torróio olhou para o Barão, coçou a cabeça descoberta, com o chapéu preto de baeta na mão direita. Chegou para mais perto do Barão a cadeira de vime com assento alcochoado. Olhou para os lados, desconfiado, e sussurrou: “Primo Barão, você que é homem de ciência, que sabe fazer coisas nas químicas, precisa dar um jeito cá n’eu. O primo Barão sabe que eu estou precisado de alguém para tocar meu resto de vida. E eu estou de olho na filha de Marta de Zé Pequeno, que é uma donzela de igreja, fornida e aparelhada”. O Barão com ares nobres rebateu o cochicho: “Mas, no que se deve dar a minha serventia, primo?”. João Torróio emendou: “É aqui que o primo entra: na minha idade, eu estou de pólvora molhada. Tiro certeiro não hei de dar. Por isso, preciso do seu adjutório. O primo me fará o favor de me dar uma fórmula que me esquente de volta a pólvora. Preciso de pólvora seca, para não passar vergonha, no novo casamento”.

            Naquele instante, o Barão quase levantou da cadeira de balanço. Apalpou o bolso da camisa, onde estavam um charuto e o isqueiro. Acendeu o cubano legítimo. Tirou, resfolegando o peito, as primeiras baforadas. A fumaça cheirosa rescendeu no ar. Não era um dos charutos mata-mosquitos que João Torróio fumara por muitos anos. Porém, há uns dez ou doze anos ele não mais fumava. Recomendação médica.

            “Primo João, as minhas químicas são de outro tipo. Não são farmacêuticas. Eu não tenho fórmulas mágicas que dê jeito em coisas mortas. O primo vai me desculpar, mas eu não lido com esse tipo de adjutório, de pólvora molhada etc.”.

            Decepção. João Torróio decepcionou-se com o primo Barão. Ou quase primo. Aliás, a partir dali, nem primo, nem quase primo. E, a bem dizer, nem Barão. Onde já se tinha visto um Barão de título comprado na Corte por uns tostões ensebados? Um título representado por um papel furta-cor? Aquilo era título de Barão? O tataravô do atual Barão talvez nem tivesse comprado o tal título. Devia ser invenção dele ou do povo. Título que ninguém nunca viu, a não ser Melquíades Félix Simões das Palmeiras, que dizia ser o papel do título do tipo furta-cor. Somente ele, e mais ninguém, sabia do título de baronato. Um papel furta-cor...!

            João Torróio saiu da casa do Barão sem se despedir. Decepção. Um Barão que não era Barão de verdade. Um primo ou quase primo que se negava a fazer uma de suas químicas para lhe poder secar a pólvora molhada. Decepção.

            A boquinha da noite chegou. E com ela, os pernilongos. O Barão recolheu-se. Foi saborear o mingau de puba da dona Baronesa. Supimpa! E enquanto ele saboreava o mingau quase colando os beiços, pensou, tristemente: “Não é somente João Torróio que está com a pólvora molhada!”.

            Feche o pano. 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
15/10
15:38

Arte, sim. Mas, com respeito

José Lima Santana
Professor da UFS

Embora não sendo versado no tema “arte”, eu publiquei no final dos anos 1980, um artigo sobre a exposição do pintor argentino Alberto Carbi, realizada no Rio de Janeiro, onde ele residia. Aliás, à época, eu ensinava, no segundo grau, a disciplina História da Arte. Por necessidade de alguém que a lecionasse. Somente por isso. Todavia, do artigo publicado no jornal Gazeta de Sergipe, foi extraído um texto de algumas linhas que adornou o folder, em francês e espanhol, do referido pintor, indicado pelo Senado da Argentina, para representar o país na grande exposição de 1989, comemorativa do bicentenário da Revolução Francesa, em Paris. Alberto Carbi foi um amigo que eu conheci através do meu compadre Beto, pai do meu afilhado Victor Vilar Gomes, carioca da gema. 

Por outro lado, lecionei a disciplina Estética Filosófica, no curso de Filosofia, no Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição da nossa Arquidiocese. Igualmente, por não ter quem a lecionasse. Posso não entender de arte. Posso não entender de estética sobre a qual tive que estudar. Porém, uma coisa é certa: entendo de bom senso. 

Nas últimas semanas, parte do Brasil entrou em polvorosa, por conta de uma exposição, a “Queermuseu”, em Porto Alegre, e das performances do artista plástico Antônio Obá, do Distrito Federal. Sobre a exposição, que acabou sendo suspensa pelo Banco Santander, e frustrada no Rio de Janeiro, pelo prefeito Crivela, o mundo dos articulistas de jornais e revistas e de comentaristas televisivos quase desabou. Sentaram a porrada nos grupos que se revoltaram contra a exposição, que apresentava algumas “bizarrices”, como figuras que remetiam à pedofilia, à zoofilia e à pederastia, neste caso, a figura de um negro fazendo felação em um branco e sendo sodomizado por outro branco. Sinceramente, alguém compraria uma “obra de arte” dessa para ornamentar a sala de estar de sua casa? E mais: onde estavam os movimentos que defendem os direitos dos negros, que silenciaram quanto a essa figura “ridícula”? Faço apenas estas duas perguntas. Todavia, vai a uma exposição quem quer ver o que lá está exposto. Acho, apenas, que se deveria ter estabelecido uma idade limite. Quanto a ver bizarrices, que ficasse por conta dos bizarros. Cada um é livre para fazer suas escolhas. 

Eu jamais vou querer que a liberdade de expressão venha a ser fraturada, quebrada, atirada ao lixo. Ela é uma conquista da democracia. Uma conquista dos princípios que têm levado o mundo ocidental a melhorar o seu rumo. E parte desse melhoramento se deve, quer queiram ou não, ao cristianismo, que, dentre outros feitos, moldou o princípio da isonomia, desde o Evangelho de Jesus Cristo e como tão bem está estampado, inclusive, nos Atos dos Apóstolos. Critiquem o quanto quiserem o cristianismo e, mais de perto, o catolicismo, mas a chamada moral cristã, mesmo com alguns exageros, abriu mais portas do que as fechou. Somente os tresloucados não reconhecem isso. 

Com relação ao caso do artista Antônio Obá, como o nome já o diz, deve ter uma matriz nos cultos afro-brasileiros. Pelo que procurei ler sobre ele, pode até ser um artista promissor, naquilo que, em parte, apresenta, pois consta entre os finalistas do Prêmio Pipa de 2017, instituído em 2010, pelo Instituto Pipa e pelo MAM do Rio de Janeiro.

Todavia, esse Antônio Obá, depois de uma performance tida como profana, ao usar hóstias, numa simulação de “missa negra” (ou preta, com o ele chamou), apresentou-se noutra performance que, sinceramente, também merece o repúdio dos católicos e de quem mais prezar pela dignidade, sendo de qualquer religião, ou não professando religião alguma, mas tendo, ao menos, um mínimo de bom senso. Ele se apresentou nu, cobrindo suas partes pudendas com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que, para nós católicos, é a Padroeira do Brasil. 

Muito antes, a imagem de Aparecida foi chutada num programa de TV apresentado por um bispo de uma denominação religiosa protestante. Os protestos foram tantos, que o bispo foi afastado daquela TV. Mais recentemente, um líder de outra denominação protestante comparou a imagem de Aparecida a uma garrafa pet de coca cola. Mais protestos. E o vídeo foi retirado do ar, porém, depois de ter corrido o mundo. São acintes de protestantes contra a fé católica. Todavia, reconheço que ainda há muita animosidade de lado a lado, ou seja, entre católicos e protestantes e vice-versa. O que é, deveras, lamentável. Todos adoram ao mesmo e único Deus. Cada qual ao seu modo. O modo de caminhar de cada um é próprio de cada um, mas o caminho a ser percorrido é o mesmo, a verdade a ser proclamada é a mesma, a vida a ser vivida é a mesma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus Cristo. 

Voltando ao Antônio Obá, a performance dele com a imagem de Aparecida foi verdadeiramente acintosa. Vergonhosa. Ridícula. Uma aberração. Ele poderia ter usado a figura em gesso de um orixá. Ele não o fez. Poderia ter usado a imagem de Buda. Não o fez. Poderia ter usado qualquer outra imagem ou referência a qualquer religião. Não o fez. Nem deveria jamais. Por respeito aos que professam esta ou aquela religião ou filosofia religiosa, não deveria ter feito uso de nenhuma imagem, figura ou representação de valor religioso. Como não deveria jamais ter usado a imagem de Aparecida, que representa um valor da fé católica. Claro que não é a imagem em si que é um valor da fé católica, mas, sim, a pessoa que a imagem representa, isto é, Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, o Unigênito de Deus. 

O Antônio Obá, como já foi dito, cobriu sua genitália com a imagem de Aparecida. Uma baixaria. Uma canalhice. Depois, ralou a imagem de gesso num ralo, dela fazendo pó, colocando-o numa gamela do tipo usado em ritos do candomblé. Que performance é essa? Que arte é essa? Ele tentou explicar-se. A explicação é chula. Tenho o dever de respeitar a pessoa dele, a sua arte, mas jamais poderei compactuar com a infeliz performance. E sabem por quê? Porque é simplesmente uma agressão ao bom senso e aos católicos. É uma agressão a “princípios coletivos de vida”, para usar uma expressão do filósofo Mário Sérgio Cortella. Para ele, a liberdade de expressão não deve ser cerceada, mas quem se expressa livremente deve arcar com as consequências, quando fere suscetibilidades, quando gera controvérsias, quando, repito, fere “princípios coletivos de vida”.

Que a liberdade de expressão, pela qual tanto lutamos, prevaleça. Porém, que prevaleça igualmente o bom senso. O respeito. Que todos possam se respeitar. E que nós, católicos, possamos nos dar ao respeito de exigir respeito à nossa fé e a tudo que a ela também diz respeito. 

O uso da imagem de Nossa Senhora Aparecida ou de quaisquer outras imagens não significa que nós somos idólatras, como alguns dizem. Não. Idolatria seria abandonar o culto e o temor de Deus por quaisquer ídolos. Nós católicos não fazemos isso. Imagens, para nós, são lembranças de pessoas que deram, em vida, exemplos de amor à Boa Nova de Cristo, à Palavra de Deus. Nisto, Maria de Nazaré é inigualável. 

O mundo precisa, sim, de tolerância. Mas, isso tem uma mão dupla. Tolerância de todos para com todos. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
08/10
21:26

A vingança do prefeito

José Lima Santana
Professor da UFS

Deu-se o fato nos tempos dos trabucos e das tocaias. Do coronelismo. Tempos em que a política era, nalguns cantos remotos, verdadeira arte do cão. O diabo juntava e espalhava, ao mesmo tempo, sempre auxiliado por mentirosos e malfazejos. Em todo lugar digladiavam-se os chefes políticos. Em Aracati, cidadezinha perdida nos confins dos grotões, o prefeito Tibúrcio Veiga, vulgo Tibúrcio Cospe Fogo, mandava na política local há mais de trinta anos, elegendo-se prefeito ou elegendo comparsas seus, homens de sua confiança, que, eleitos, lhe passavam o mando da Prefeitura. Ele tinha, pois, o mando e o comando. Ninguém lhe fazia frente. Todos os opositores eram derrotados nas urnas viciadas. Governasse quem governasse o estado, a UDN ou o PSD, que ali, em Aracati, reinava Cospe Fogo. Com ele, ninguém podia. Tinha corpo fechado nos embates políticos. Nas duas únicas vezes em que um candidato a prefeito ameaçou ganhar a eleição, a morte de espreita apareceu na curva de alguma estrada. 

O diretor da instrução pública, como, à época, era designado o secretário de estado da educação, aportou em Aracati com pequena comitiva. Iria escolher o terreno para a construção de um grupo escolar, que era uma novidade. Poucas cidades tinham uma obra de igual porte. A comitiva da autoridade estadual chegou ao fim da tarde. Ali pernoitaria, para, na manhã seguinte, visitar localidades urbanas, a fim de escolher o lugar adequado para tão importante empreendimento público. A secretária da Prefeitura, na momentânea ausência do prefeito, dirigiu-se com a comitiva à pensão de Valdivino de Sá Luzia de Maria Terta, uma das duas pensões da cidade, mas, de longe, a de melhores condições para receber tão ilustre comitiva. 

Na pensão, diante do proprietário, a secretária demonstrou grandeza: “Olhe aqui, ‘seu’ Valdivino, todas as despesas destes senhores correrão por conta da Prefeitura. Sirva do bom e do melhor”. Valdivino apertou ainda mais os apertados olhos e disparou: “Dona Celinha, por conta da Municipalidade, não. Faz dois anos e um pouco mais que eu não vejo a cor do dinheiro da Prefeitura. E a conta não é pequena”. Foi um vexame! Dona Celinha pasmou. Amarelou. Titubeou. Procurou terra no chão e não achou. Constrangimento geral. A autoridade estadual mitigou a situação. Os funcionários públicos estaduais recebiam diárias para pagar os dispêndios. Não havia, assim, necessidade de a Prefeitura fazer mais despesas.

Tudo serenado, a comitiva instalou-se em três dos quartos da “Flor do Aracati”. O jantar foi servido após o banho de cuia, pois água encanada era um luxo pelo qual a cidade aspirava. Cuscuz de milho ralado com recheio de dicuri e queijo de coalho. Macaxeira cacau do quintal da própria pensão. Feijão e arroz temperados. Carne de sol assada na brasa. Galinha de capoeira de cabidela. Um assado de porco tostadinho de dar gosto. Um ensopado de carneiro. Uma farofinha de ovos. Licores de jenipapo e de jabuticaba, para abrir o apetite. E mais, para a sobremesa: doce de leite, pudim navegando em grossa calda, doce de goiaba e de mamão. 

A comitiva fartou-se. O diretor da instrução pública, deseducadamente, arrotou à mesa. Um despropósito. Mas, era uma autoridade da capital. Ninguém reparou. No dia seguinte, o prefeito aguardou a comitiva, na Prefeitura. Sendo informado pela secretária da desfeita que Valdivino praticou, Cospe Fogo não foi à pensão. Localidades visitadas, o diretor da instrução escolheu o lugar onde o grupo escolar deveria ser construído. O governador prometeu, em campanha, que construiria a obra. A sua palavra era um tiro certo. A comitiva retornou à capital, no meio da tarde. 

Durante a madrugada, Pedro Carroceiro trabalhou sem parar com dois ajudantes. Funcionário municipal, ele recolhia o lixo das casas, na carroça puxada por um burro, que, se gente fosse, já estaria aposentado. Ao amanhecer, Valdivino deparou-se com a frente da pensão entupida de lixo. Era a vingança do prefeito, que deu ordem a Pedro Carroceiro para limpar a cidade e entulhar a pensão. Na fachada da pensão, de uns doze metros, a pilha de lixo subia a mais de metro. Cães vadios cuidavam de espalhar a sujeira. A fedentina já conspirava contra o ar puro da praça.

Valdivino era um homem pacato, mas de sangue no olho e de pelos nos buracos das ventas. Contratou quantas carroças disponíveis pôde encontrar. Limpou a frente da pensão. O lixo foi acumulado num terreno baldio a ele pertencente. À meia-noite, as carroças voltaram a trabalhar e despejaram o lixo na porta da Prefeitura. Os adversários do prefeito Tibúrcio Cospe Fogo riam às gargalhadas com o feito de Valdivino. Vingança contra vingança. Todavia, o prefeito virou a besta fera. Ao ser avisado sobre o monte de lixo na porta da Prefeitura, mandou convocar Zé Grande, afamado pistoleiro de Brejo das Cobras, seu melhor pau-mandado, a fim de dar uma lição no dono da pensão, matá-lo com se fazia com um cachorro sarnento. Zé Grande morava no povoado Baixa Limpa, que era o povoado mais distante da sede municipal, e, por isso, somente chegaria à cidade no fim da tarde. 

O dono da pensão foi avisado de que corria perigo. Na cidade havia um bocado de leva-e-traz. E Tibúrcio não escondia de ninguém o seu intento. Era até bom que a notícia se espalhasse para que Valdivino se borrasse o dia todo. O sol espalhava brasas pelo mundo. Não corria nem um soprinho de vento. Muita gente cochichava nos bares e nas ruas. Valdivino que se cuidasse. Dele já se dizia que era um homem morto. 

Eis que Zé Grande, o pistoleiro, chegou à cidade. Dirigiu-se à Prefeitura, onde se encontrava um ajuntamento de cupinchas do prefeito. Zé Grande recebeu as instruções. Delas não gostou. Então, tinha saído de casa para matar “seu” Valdivino? Enraiveceu-se. E disse, desaforadamente: “Prefeito, eu já lhe servi uma ruma de vezes. Já botei gente demais no cemitério para a sua serventia. Mas, ‘seu’ Valdivino é meu vizinho de terras, um bom vizinho, e é um homem honrado. Arranje outro para fazer o serviço, se puder, porque desta vez, eu estou contra o senhor. Mudei de lado. Com ‘seu’ Valdivino ninguém mexe. E é melhor não se meter comigo”. Recado dado. Por aquilo, Cospe Fogo não esperava.  De raiva, tremeu na cadeira. E foi assim que Valdivino escapou da morte. No ano seguinte, muita gente empurrou Valdivino para a política e ele venceu a eleição para prefeito contra o candidato de Cospe Fogo. 

Poucos dias após a posse, Valdivino sofreu um atentado. Quase morreu. O autor dos tiros foi preso. Delatou. Cospe Fogo tinha sido o mandante. Também foi preso. O júri foi desaforado para a capital. Sete a zero contra o réu, por tentativa de homicídio. O coronelismo mixou em Aracati. 

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NOTA: Sobre o artigo intitulado “Algumas Mentiras”, publicado aqui no Jornal da Cidade e reverberado no site “Clicksergipe” e no blog “Primeira Mão”, na semana passada, em minha página do Facebook foram registradas mais de 370 curtidas e mais de 70 comentários, em solidariedade a este subscritor. Nunca temi os embates da vida. Não os provoco, mas deles não fujo quando sou instigado, nem mesmo quando vêm da podridão de covas rasas. Nos meus 41 anos de militância na Igreja, eu absorvi o que disse o Mestre: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10,19). Que todos vivam em paz. Se puderem e se quiserem. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
01/10
17:40

Algumas mentiras

José Lima Santana
Professor da UFS

Em 1974, eu me tonei, em Nossa Senhora das Dores, correspondente do antigo “Diário de Aracaju”, que funcionava na parte térrea do antigo prédio da Rádio Jornal, e que, hoje, se encontra abandonado, na Av. Rio Branco. Na década de 1980, publiquei meus primeiros artigos, na Gazeta de Sergipe. Na década de 1990, comecei a publicar, de forma esparsa, artigos no Jornal da Cidade. A partir de 2010, Marcos Cardoso reservou-me, no JC, um espaço aos domingos, que tenho usado desde então. Publico o que me vem à telha. Ao longo desses sete anos, publiquei artigos sobre política local, questões nacionais e internacionais, artigos jurídicos, mas, aos poucos, fui dando preferência a publicar “contos provincianos”, ou, como, queiram os leitores, “causos”. 

Publiquei artigos em periódicos e revistas. Publiquei artigos exclusivos no site Clicksergipe. Os artigos publicados semanalmente no Jornal da Cidade são, há algum tempo, republicados no site Clicksergipe e no blog “Primeira Mão”, de Eugênio Nascimento. Tenho, pois, três veículos de comunicação para a publicação do que eu escrevo, semana após semana, além de minha página no Facebook. 

Eu sempre tive e tenho a convicção de publicar o que me ocorreu e o que me ocorre. Jamais tive amarras. E ninguém jamais me colocará amarras. Não sou jornalista. Sou cidadão. Sou servidor público (passando pelas três esferas federadas) há 44 anos. Sou advogado há 37 anos. Sou professor de Direito, na UFS, há mais de 20 anos. Sou padre desde 9 de dezembro do ano passado, após 41 anos de serviços prestados como leigo à Igreja.

Como técnico, servi a algumas administrações públicas, em momentos diferentes e diversos. Exerci cargos e funções nos três governos de João Alves, no governo de Valadares, no segundo governo de Albano Franco, e, na Prefeitura de Aracaju, na segunda gestão de Jackson Barreto e na de Almeida Lima. Eu sempre escrevi, livremente, a favor ou contra certas situações postas. Jamais contra ou a favor de ninguém deliberadamente. As pessoas fazem ou dizem coisas que merecem os meus comentários, quando os quero apresentar. Alguns não gostam. Que comam menos!

Há alguns dias, um jornalista referiu-se a um padre recentemente ordenado e que escreve artigos. O tal jornalista, que já tinha se insurgido contra o Arcebispo Metropolitano de Aracaju, na semana anterior, atacando-o de forma ostensiva e maledicente, voltou a insurgir-se contra ele, mas, atacando, primeiro, o padre recentemente ordenado e que escreve artigos. Dos quatro padres ordenados por último, na Arquidiocese de Aracaju, o único que publica artigos sou eu. Ah! Jamais me importei ou me importarei com o que possam dizer sobre mim, a não ser que atinjam minha honra. E a não ser que MINTAM deslavadamente. Foi o que aconteceu.

O tal jornalista em sua sanha miserável de atacar por atacar, acabou, por desinformação ou por pura maldade, MENTINDO MAIS DE UMA VEZ. Primeiro, mentiu ao dizer que o padre recentemente ordenado e que escreve artigos (se é que sou eu, como se pode deduzir) escreve artigos políticos. O último artigo político que eu escrevi foi publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º de novembro de 2016. Quando de minha ordenação, a 9 de dezembro último, eu disse, em meu discurso, que não mais escreveria como vinha escrevendo. A Rádio Cultura transmitiu a solenidade da ordenação. Os ouvintes me ouviram. E, desde então, silenciei, em artigos, sobre a política tupiniquim. Tenho publicado os meus “causos”. MENTIU, pois, o tal jornalista.  

E MENTIU novamente ao dizer que eu sou parente de um político. Eu não sabia que tinha um político como parente. Mas, não tenho, nem mesmo um parente lá por trás das nuvens, como se diz em Dores, minha terra natal. Ou será que todas as pessoas que têm o mesmo patronímico são aparentadas entre si? Todas as pessoas que assinam o sobrenome LIMA ou SANTANA seriam de minha família? MENTIU pela segunda vez o tal jornalista. Pergunto: MENTIU por desinformação ou por maldade? 

Se alguém quer me instigar a escrever de novo artigos sobre a política sergipana, saiba que já estou sendo tentado. A minha condição de padre não me impede de fazer isso. O pároco de uma das Paróquias da capital escreveu-me, no Whatsapp, que teria um padre por trás da escrita do tal jornalista, ao atacar o Arcebispo duas vezes no espaço de poucos dias. Será? Duvidar, eu não duvido. Mas, acreditar, eu não gostaria. Contudo, se for o caso, é facilmente identificável. Já se disse que em Sergipe, todos se conhecem. No Clero aracajuano, também.   

Evidentemente, ao decidir não mais escrever artigos sobre a política de Sergipe, a partir de minha ordenação, eu o fiz por consciência. Todavia, continuarei fazendo os “vlogs” sobre quaisquer temas, para o Clicksergipe, como, aliás, já o fiz no passado. Goste quem gostar. E se decidir voltar a escrever sobre política, para o Jornal da Cidade, eu o farei. 

O tal jornalista MENTIU pela terceira vez, ao dizer que eu escrevo (se é que sou eu mesmo) puxando para um lado, no caso, o do governador Jackson Barreto. É óbvio que ele jamais leu os meus artigos, nos quais eu disse sempre o que bem entendi sobre qualquer político sergipano, ora mostrando suas falhas, ora mostrando seus acertos. Exemplos? Na edição do JC, de 1º de novembro de 2015, eu falei sobre os problemas da segurança pública, no país e em Sergipe. Na edição de 22 de fevereiro de 2015, eu disse que um “puxa saco” de Jackson Barreto exigia que o governador me desse um “corretivo” porque eu teria mostrado falhas na administração estadual. Na edição de 1º de fevereiro de 2015, eu disse que Jackson Barreto precisava “botar o carro para andar”. A roda estava presa na administração dele. Sem falar nos artigos e nas notas políticas exclusivas para o site Clicksergipe, nos quais eu falei o que tinha que ser falado a respeito das administrações de Jackson e João Alves. E sobre o comportamento de alguns políticos com atuação no Parlamento federal. 

Com relação aos dois ataques frontais ao senhor Arcebispo, Dom João José Costa, dele não tenho procuração para fazer a sua defesa. Mas, por uma questão de princípio, defendo-o. O tal jornalista, a soldo não sei de quem, ou, seja lá por qual motivo for, desconhece um fato à época amplamente divulgado, que foi convocado pelo Arcebispo, inclusive, com a colaboração de alguns pastores evangélicos, e que se refere à Caminhada pela Paz e pela Vida, levada a efeito em 3 de junho deste ano,                após uma conversa franca e direta dos três Bispos da Província Eclesiástica de Sergipe, Dom João, Dom Giovanni (Estância) e Dom Mário (Propriá) com o governador do estado, quando os três mostraram preocupação com a segurança pública. Naquela ocasião, os três Bispos também demonstraram ao governador descontentamento com a possibilidade de privatização da DESO. Disso, o tal jornalista não sabe. Ou, simplesmente, ignora. Tem gente assim: que não sabe das coisas ou as ignora, sabe-se lá por quais motivos ou interesses. 

MENTIRA? Ora, quem MENTE, MENTE por algum motivo. Geralmente, escuso. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/09
09:15

O burburinho

José Lima Santana
Professor da UFS

Dia calmo. Era o que prometia aquela sexta-feira. A manhã veio tocada por uma aurora de cores e sons que somente a vida interiorana era capaz de oferecer. No sitio de Tião Ceboleiro, lá para os confins do Tamanco Velho, subúrbio distante de Missão do Araticum, cidadezinha sonolenta e de gente pacata, o bode Chambinho espreguiçou-se. O galo Zé Porreta cantou três vezes. Logo, um alvoroço no terreiro da frente da casa, tão carente de consertos. Dona Esmeralda, mulher de Tião, atendeu à porta o chamado de Maria de Terto de Doca do Marmeleiro. Vizinha e comadre. Maria carecia de uma xícara de açúcar. Era costume da vizinhança se socorrer de adjutórios ocasionais. Ora um pouco disto, ora um pouco daquilo. E todos se ajudavam mutuamente. Ninguém passava certas necessidades. A vida comunitária fazia dos vizinhos verdadeiros amigos e irmãos. 

Tião Ceboleiro tinha madrugado naquele dia. Teve precisão de ir ao Riacho do Meio, povoado distante meia légua da Missão do Araticum. Era a terra de seus pais, João Vicente de Robertão de Sinézio e Maria das Dores do finado Vavá Pimenta. Vivos. O pai passava dos noventa e a mãe andava perto. Firmes e gozando boa saúde. Longe, certamente, ainda iriam. Tião vendera um cavalo de montaria a um primo, Valdivino de Totonho Bucho Grande, e fora entregar o animal, como prometido. Entrega feita, dinheiro no bolso, Tião Ceboleiro tomou o rumo da casa dos pais. Tomou-lhes a bênção. O café estava posto. O filho assentou-se diante de um cuscuz fumegante e de uma vasilha com leite gorduroso, a nata amarelada por cima. Ovos estrelados e carne de sol assada na brasa. Um capeado. Gordura vistosa. Os três comeram em silêncio como convinha. Conversas à mesa, somente se o chefe de família tomasse a iniciativa. Desde sempre, era assim. 

Acabado o café da manhã, Tião indagou ao pai se ele pretendia vender as quatro cabras que viviam soltas no pequeno sítio. Cabras de boa raça. Boas de leite. A resposta foi “não”. No meio da conversa, pai e filho ouviram um burburinho vindo da estrada, que passava em frente à casa. O burburinho aumentou. Tião achegou-se da porta. Era um pequeno grupo de pessoas que conduziam um sujeito desconhecido para Tião, amarrado nos braços por um pedaço de corda de caroá. “O que é isso, moçada?”, perguntou Tião. Adiantou-se na resposta Marcelino Boca de Sapo, primo distante de Tião: “Este sujeito tentou fazer coisa feia com a filha de Manuquinha de Zé de Vito. Eu mesmo impedi o intento maligno deste satanás. Vamos levá-lo pro delegado tomar conta dele. Mas, antes, demos umas cipoadas nele e deitamos sal grosso pra curar os talhos”. Tião tirou o chapéu, coçou a cabeça e disse: “Cuidado, gente. Não vão fazer mais besteira, não. Quem deve dar cobro dele é o sargento Miguelão. É ele a autoridade”. 

O grupo seguiu viagem. Tião despediu-se dos pais. Tomou-lhes a bênção e partiu a poucas braças do grupo que conduzia o malfazejo. Tendo negócios na cidade, acompanhou o grupo. Na cidade, a passagem do grupo pelas ruas causou ainda maior burburinho. As pessoas se agitavam nas portas e nas calçadas. “O que foi?”, Quem é este?”, perguntavam as pessoas curiosas e ávidas por novidades. A vidinha pacata da cidade era agitada por qualquer acontecimento fora da rotina cotidiana. Pessoas desocupadas, que nunca faltavam, engrossaram o grupo. Uma mulher reconheceu o malfeitor: “Este desinfeliz tentou fazer coisa que num se pode dizer com a neta de Sá Margarida de Pedrinho das Flechas, num faz cinco dias”. Alguém conseguiu achegar-se ao sujeito e deu-lhe um soco na cabeça. Marcelino Boca de Sapo impediu outras agressões. 

No velho quartel da polícia, o malfazejo foi entregue aos cuidados do sargento Miguelão, que ali estava destacando há uns dez anos ou mais. Conhecido por todos, era bonachão, mas firme no riscado de suas funções como chefe do destacamento policial e delegado comissionado. Sentou-se o sargento para tomar anotações. Pergunta daqui, pergunta dali, tudo sendo anotado à mão, no livro de capa preta e sebenta. Pronto. O preso seria conduzido à cidade vizinha, sede da comarca, para, na delegacia regional, ficar à disposição das autoridades do fórum. O grupo se desfez e cada qual retomou a sua vida, retornou ao seu canto. 

Meia-noite. No quartel de Missão do Araticum só tinha um preso. O dito cujo malfeitor. Cuidando da segurança do quartel, apenas um soldado, Maninho de Zé Tibúrcio, que tinha parentela na cidade, embora fosse natural de Timbaúba de Cima, dali distante umas vinte e tantas léguas. De sono leve, o soldado Maninho, tendo há pouco tempo sentado praça, foi despertado por um burburinho que vinha da cela onde estava o molestador de meninas. Levantou-se. Riscou o fósforo. Acendeu um candeeiro, pois energia elétrica ainda não era uma serventia da cidade. Dirigiu-se à cela. O preso estava rolando no chão, estrebuchando-se, como se estivesse possuído por uma coisa braba. E começou a falar coisas estranhas. E a gritar como um condenado. De um pulo, o preso jogou-se na grade da cela, como se quisesse derrubá-la. Foi contido pela ferragem. A cara do preso mais parecia a figura do diabo. 

O soldado Maninho não era homem de amedrontar-se com pouca coisa. Sacou a arma, cujo coldre estava pendurado no ombro esquerdo e gritou a plenos pulmões: “Fio da gota serena, se tu escapar daí, seu tinhoso das seiscentas, eu lhe como na bala”. O malfazejo endiabrado parou. Estatelou-se no cimento frio do piso da cela. 

Enroscou-se em si mesmo. Enrodilhou-se como uma cobra. Soltou um gemido infernal. O soldado Maninho, com a arma na mão direita e o candeeiro na mão esquerda, manejou a luz para mais perto da cela. O malfazejo encantou-se. Virou uma cobra grande de língua de fogo. Maninho arregalou os olhos, soltou o candeeiro no chão e disse: “Vade retro, satanás das profundas!”. O candeeiro, no chão, continuava aceso. O soldado mirou a cobra grande e fez menção de disparar. Naquilo, abriu-se a porta do quartel. Era o sargento Miguelão, que morava na casa em frente ao quartel. Acordara com o labafero. Vinha com uma lanterna na mão. Mirou o facho de luz para dentro da cela. Assombrou-se. “O que é isto, soldado Maninho?”. O subalterno respondeu: “Deve ser o diabo em pessoa, que veio acabar com a gente, sargento!”. A cobra passou pela grade, sacudiu o rabo e derrubou o soldado e o sargento. Ganhou a porta e o mundo, para nunca mais aparecer.

Foi isso mesmo que o sargento e o soldado contaram ao povo. Porém, Tião Ceboleiro descobriu na Mata Grande, cidade para além do rio das Mercês, que o malfazejo se chamava Antônio Silva, primo da mulher do sargento Miguelão. O sargento e o soldado deram fuga ao malfazejo? É provável. Afinal, ninguém andava virando cobra por aí. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
17/09
13:44

A Santa Sé

José Lima Santana
Professor da UFS

Minervina de João de Zé de Tintilo andava agoniada. Não sabia como sair-se da situação vexatória na qual acabou se metendo. Sufoco! Como resolver aquela situação? Teria que apelar ao padre Afonso? Não lhe passaria ele uma descompostura? Não a faria cumprir a promessa assim mesmo como ela a fizera? Se fosse o padre anterior, João Bosco, a situação poderia ser contornada a contento. Ele a conhecia havia muito tempo, antes mesmo de ter ido oficiar ali, quando era pároco de Barro Alto e lá ela morava, casada de novo. Depois, a família se arranchou nas Cajazeiras de São Raimundo Nonato e uns três anos depois eis que o padre João Bosco para ali foi transferido. Durou um lote de anos. Coitado! Morreu do coração. Não tinha ainda sessenta anos de idade. Gordo que fazia gosto. Doentinho que fazia dó. Morreu dormindo. 

O padre Afonso, um galegão danado, tinha fama de brabo. Era um bom padre. Sabia pregar o Evangelho como poucos. Mas, era dado a dar broncas nas pessoas que não se comportavam direito na igreja e na vida. Não media palavras. Nem para tanto mudava de batina. Com ele, era pau, casca! Não tinha lero-lero. Como, então, Minervina iria pedir uma solução para o problema que a afligia, há uma semana? Porém, não tinha jeito. Teria que apelar para o bom senso do pároco. Iria a ele, sim. E fosse o que Deus quisesse. 

Domingo, dez da manhã. O padre já tinha celebrado a missa matinal. Estaria em casa, refestelado na cadeira de balanço com um livro nas mãos. Era o que ele mais fazia em casa. Ler. Lia como um desvalido. Devorava mais livros do que todas as traças do mundo, juntas. Dona Izabel, a irmã, estaria nos afazeres da cozinha, ajudada pela preta Maria Fulô, octogenária, ama de leite do padre, a quem ele chamava de mãe. A mãe do padre, Dona Virgínia Mendes de Souza Fontes, viúva do coronel Augusto César de Souza Fontes, que tinha patente comprada da Guarda Nacional, morreu quando o padre completou doze anos. O pai lhe faltou quando ainda estava nos cueiros. O chifre de um boi assassino lhe varou o coração. O coronel, antigo dono de um festejado banguê, que acabou de fogo morto, tornou-se próspero criador de bom gado de corte e era dado à brincadeira das vaquejadas. Morreu numa delas. 

A negra Maria Fulô nasceu na senzala do pai do coronel Augusto, mas de ventre livre. Jamais saiu do serviço do pai e, depois, do filho. Era uma serva, para não dizer escrava. Nunca recebeu um tostão furado de salário. Era bem tratada. Mas não passava de uma serva. Ama de leite. Se o padre a tinha em grande condição, ela o tinha mais ainda. O padre era o seu bebê. O filho que nunca teve. E desde a morte de Dona Virgínia, ela, Maria Fulô, dele cuidou como um filho verdadeiro. Melhor mãe, com todo o respeito a Dona Virgínia, o padre não poderia ter. 

Minervina de João de Zé de Tintilo tomou o rumo da casa do padre. Levou debaixo do sovaco um capão de bom peso. Um mimo para Dona Izabel, que era uma santa. Uma joia rara, tão diferente de gênio em relação ao irmão padre. Um doce de pessoa. Um anjo de candura. Dona Izabel era madrinha de batismo de um neto de Minervina. Não eram, pois, pessoas estranhas. 

Naquela manhã de domingo, chovia. Era o mês de setembro. O inverno se prolongava, esticava os braços e fazia cair boas pancadas de água. Bateu na porta. Toc-toc-toc. Acudiu-lhe Maria Fulô, arrastando os chinelos. “Dona Maria Fulô, eu preciso ter um dedo de prosa com o padre Afonso. Ele está não está? Eu o vi entrando agorinha mesmo”. Ele estava. Resmungando, como era próprio de certas pessoas com idade avançada, a negra velha desapareceu no corredor da casa, por trás da cortina, que separava a varanda do resto da casa, seguida por Minervina.

Minervina fez uma promessa a uma santa que ela desconhecia, a não ser pelo nome. O nome mais curto de uma santa que ela já tinha ouvido falar. Prometeu soltar duas dúzias de foguetes em frente à igreja onde a santa tivesse a sua imagem, caso a sua gata angorá de estimação ficasse boa de uma doença que lhe fizera cair o pelo, deixando-a igual a um bruguelo de passarinho. Poucas semanas depois a gata voltou a ter pelos. Um milagre! Ocorria que ela acabou descobrindo por uma neta estudiosa que a santa em questão somente podia ser encontrada na cidade do Papa, em Roma. Minervina não tinha dinheiro suficiente para ir à Cidade Eterna, a fim de pagar a promessa feita. Eis o que ela precisava arrancar do padre Afonso: que a dispensasse de cumprir a promessa feita, ou permitisse fazer a troca da promessa por outra em melhor condição de cumprimento. Que angústia! Que tormento! 

O padre a recebeu na sala de leitura. Sem rodeios, Minervina lhe contou acerca da promessa e falou da enorme dificuldade para cumpri-la. O padre ouviu toda a conversa no mais absoluto silêncio. “Acabou, minha senhora?”. Tinha acabado sim. Uma promessa feita a uma santa distante. Ela não tinha meios que lhe possibilitassem sair dali para a cidade do Papa. Bem que ela gostaria de vê-lo! 

O padre Afonso indagou que santa era aquela, pois Minervina ainda não tinha declinado o seu nome. “É Santa Sé”, respondeu ela. O padre, de cara sempre fechada, explodiu numa gargalhada, que deixou Minervina em pedaços. Refeito, o padre desculpou-se e disse: “Minha santa mulher, de onde a senhora tirou esta ideia? Quem lhe disse que a Santa Sé é uma santa a quem se possa fazer promessa? A Santa Sé não é a representação de uma mulher piedosa que foi canonizada, como Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Rita de Cássia e tantas outras que nos servem de modelo em face de suas vidas dedicadas ao amor de Deus, ao Evangelho de Jesus Cristo, servindo aos irmãos e às irmãs das mais diversas maneiras. Não, não, não! A Santa Sé assim chamada é a representação do governo central da Igreja Católica, que fica na Cidade do Vaticano, governada pelo Papa. A senhora não sabia disto?”. 

Pobre Minervina! Sabia nada. Ela ouvia, no rádio, que muita gente estava acorrendo à Santa Sé, para pagar promessas. Só isso. E fez a sua promessa, para a cura da gata angorá, que ficou curada. 

“Quem curou a sua gata, minha senhora, foi a sua fé. Deus volta o seu divino olhar para os seus filhos e filhas que Nele depositam a sua confiança, a sua fé. A senhora pode queimar os seus foguetes em frente à Matriz, sem problema. A promessa estará cumprida. Que Deus lhe abençoe!”.
Minervina voltou para casa aliviada. E dobrou a queima dos fogos. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/09
18:14

José Lima Santana - O prefeito Popó Tomate

 

José Lima Santana - É padre, advogado e professor universitário

 

            O prefeito Porfírio Canuto de Medeiros e Silva, vulgo Popó Tomate, cabra avermelhado tal e qual um tomate maduro, conseguira, com um deputado federal, uma “máquina de abrir estrada”, como ele dizia. Ora, não era pouca coisa, na década de 1960. E para um município de não mais do que cinco mil habitantes, era um estrondo. Municípios muito maiores, ao redor de léguas, não tinham uma bichona daquela. Uma geringonça danada de grande e barulhenta. O deputado Chico Queixada era compadre de Popó Tomate. E, antes, o prefeito fora seu capataz na fazenda “Flor de Alecrim”, um mundaréu de terras de perder de vista, lá pras bandas do sertão das Aguilhadas.

            Popó Tomate tinha também seus bons beiços de terra. Vereador em cinco legislaturas, vice-prefeito e prefeito. Em breve, sairia para deputado estadual com o apoio do compadre e ex-patrão. Contava aí uns sessenta e poucos anos de estrada. Tortuosa estrada para uma vida não menos tortuosa. Tempo houve em que Popó Tomate foi homem de pistola e punhal, como seu pai, Terêncio de Medeiros e Silva, Terencinho de Tibúrcio, e seu avô, Tibúrcio de Medeiros e Silva, que atendia pela alcunha de Tibúrcio Morte Certa. Tempo passado. Tempo das tocaias, dos ajustes de contas, da mão forte e endiabrada, ditando leis à base do pau de cuspir fogo. Tempo em que os trabucos incendiaram o sertão. Tempo distante. Para alguns, tempo esquecido.

            Popó Tomate, a muito custo, tornou-se um homem civilizado. Até missa ele assistia todos os domingos. Regenerado. E era com fervor que ele dobrava os joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Com fervor e arrependimento. Os padres podiam contar com ele, nas precisões da Matriz. Era um sujeito dado a servir ao povo, aos mais pequeninos, aos judiados pela vida. Naquilo, naquela serventia popular, ninguém poderia lhe pôr um olhar de soslaio em desaprovação. E não servia apenas com o dinheiro dos cofres públicos, não. Quando era preciso, metia a mão no bolso, onde não se escondia nenhuma cascavel, como era o caso do seu opositor, Fabrício Guedes, que era mão de figa. Dona Senhorinha, a primeira-dama, reclamava que o marido haveria de morrer sem eira nem beira. Exagero. Ele tinha bens de sobra, como remediado, para deixar em inventário e confusão.

            O prefeito de Cipó de Miroró não cabia em si de tão contente. Uma máquina! O compadre deputado federal, antigo patrão, dera-lhe um adjutório de fazer inveja aos prefeitos de Lagoa Seca e Pastos Novos, Valdemar Nanico e Melquíades do Boqueirão. Cidades grandes. Ainda assim, ele, Popó Tomate, botou-os no chinelo. A patrol chegaria dentro de uma semana. Bichona taluda. Parecia um esqueleto de alguma coisa braba, fornida no ferro. O deputado mandara um folheto com a cara da bichona estampada. O folheto correu os bares e as ruas. Passou de mão em mão entre os feirantes. Um sucesso. Haveria de ser um papouco danado. Festa. Festança. A banda de pífanos de Maneca Zureinha já estava contratada. Melhor não havia nas redondezas. Foguetório. Haveria muitos foguetes espoucando nos ares. Foguetes de três tiros e uma resposta, que era o tiro mais forte, o derradeiro. Um ribombar de estremecer o céu.

            O equipamento a ser recebido merecia festa. O compadre deputado merecia festa. A cidade merecia festa. No sertão inteiro não havia uma bichona daquela. Somente em Cipó de Miroró. Haveria um acompanhamento com os poucos carros, jipes e rurais, existentes na cidade, menos o de Fabrício Guedes, opositor do prefeito, e três outros de seus lambe-botas. Cavaleiros à vontade. Bicicletas, muitas. Um furdunço, um furdunço! As ruas estavam enfeitadas com bandeirolas como se fosse São João.

            E eis que, no dia aprazado, a “máquina de abrir estrada” chegou. Amarelona. Grandona. Bufando mais do que a serra da serraria de Marcelo Palito. Muito, muito mais. Ao volante, o próprio Popó Tomate, que tomara lições na capital, na revendedora da Caterpillar. Lâmina levantada, lá vinha a patrol de Popó Tomate. Ele vivia o dia mais feliz de sua vida como prefeito. O deputado Francisco Rodrigues de Melo Prado, o Chico Queixada, não pudera comparecer à festa. Brasília pegava fogo e ele precisava estar por lá. O presidente da República tinha sido botado para correr do país. Uma lástima! Os militares tomaram o poder de assalto. A panela fervia. O mundo da política estaria incerto, mas Popó Tomate estava alheio a tudo aquilo. A sua imensa alegria contagiava a cidade. O vereador Robertinho Beiço Mole torceu a cara, assim que Popó Tomate e seu séquito passaram em frente ao seu bar. Robertinho era o líder da oposição na Câmara Municipal, embora fosse concunhado do prefeito. Um familiar desviado.

            Passando em frente à casa de Maria Benta do finado Brício Matoso, a velha gritou a plenos pulmões: “Ô Popó, meu fio, tu tá mais alegre do pinto no lixo!”. A fala da velha, fiel eleitora do prefeito, soou como um tiro de escopeta que nunca fora disparado. Naquele instante, Popó Tomate tombou sobre o volante da bichona. A patrol desgovernou-se, fez um zigue-zague, andou uns poucos metros, deu uns “tuncos” e parou. Popó Tomate estava morto. O coração não aguentou o rojão de tamanha alegria.

 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
27/08
17:06

A viúva de Zé de Tibertino

José Lima Santana

Morreu. Zé de Tibertino do finado Vavazão das Caraibeiras acabara de bater as botas. Morreu sem quê nem pra quê. De repente. E nem doente estava. Ou era o que se pensava. A morte que vinha ligeira, num piscar de olhos, tinha por trás si alguma coisa. Ninguém morria por acaso. Não sem mais nem menos. Tudo na vida tinha um quê e um por quê. E não adiantava ficar de trololó, de conversê por ali ou acolá. “A morte quer uma desculpa”, vivia a dizer e repetir Dona Mocinha Zanôia, viúva de Totoinho do Farelo. Não, ela não estava certa. A morte nunca quis uma desculpa. Ela simplesmente fazia a sua faxina. Era duro ter que falar assim, mas era exatamente assim que falava Pedro Corcunda, poeta repentista e maior filósofo popular do agreste da Malhada da Ribeira, um sapecão de terra esparramado por bem umas cinquenta léguas em quadra, pegando do Baixio das Borboletas ao Tôpo da Serra, das Embiribeiras ao Remanso de Zé Charuto. Eitha mundão de terra boa pra danar!

O certo mesmo foi que Zé de Tibertino bateu a caçoleta. Bem batida. Tibertino, na verdade, era tio Bertino. Bertino de “seu” Valdemar, filho, neto e bisneto de afamados fazendeiros. Vavazão das Caraibeiras. Quanto ao nome Tibertino, era a junção de tio e Bertino, zerando o “o” de tio. Pronto. Era mais fácil, na língua curta dos matutos, pronunciar Tibertino. E Zé, filho de Tibertino, morreu de madrugadinha. O orvalho ainda derramava pérolas de lágrimas sobre o gramado de sua casa avarandada. Graminha nativa, que na mais braba seca, não podia sentir um chuvisco ou umas gotas de orvalho, que enverdecia, para logo mais secar com a brabeza do sol. Era uma verdadeira fênix, a nascer, morrer, renascer e tornar a morrer, num ciclo interminável. Mas, quando a chuva vinha de verdade, quando as torneiras de São Pedro eram abertas, aí a graminha virava gramão de dar gosto.

Pois Zé de Tibertino deixou as alegrias e as tristezas deste mundo sem estar doente. O coração lá dele pifou. Coraçãozinho fraco como um palito de fósforo. Bastou um apertozinho para o coitado mudar-se de gente para corpo sem vida e sem alma em despedida. Acabou-se. Zé era um sujeito chegando ao maduro. Tinha lá os seus quarenta e tantos anos quando se meteu de namoro com uma neta de Valter Valença do Pau Ferro de Cima. Neta que os avós criaram, pois os pais tinham morrido numa enchente do riacho Boa Morte, que quando botava água subia nos olhos dos pés de pau de suas ribanceiras. Riachinho tísico nos meses de estiagem, porém, um bitelão de rio nos dias de enchentes das brabas. 

No que poderia dar o casamento de um homem beirando os cinquenta anos com uma meninota de seus dezessete anos? Casamento arranjado, tudo se tendo feito por interesse. Era que Zé de Tibertino não era homem desapracatado na vida. Era, sim, bem aquinhoado. Possuía boas terras, bom gadinho de leite e de corte, fartura de roçados de algodão e outros bens mais. Era muito bem arranchado. Cobiçado por moças solteiras e viúvas ainda em ponto de bala. Naquele tempo, muitos homens morriam cedo demais, vários deles surpreendidos em tocaias. Brigas de famílias, brigas em cachaçadas, questões de terras e desavenças por causa de mulheres. Eram estes os principais motivos para as mortes matadas no agreste. No sertão era ainda muito pior. Sangue quente, tempo quente, quentura de bala ou frieza de faca peixeira. Um horror! Muitas mulheres ainda no viço da juventude ficavam viúvas, disputando casório com as solteiras. 

O morto foi pranteado durante todo o dia. O enterro seria no fim da tarde. A jovem viúva, agora na flor dos seus dezenove anos, pois casada há dois anos, cobriu-se com um véu negro. Vestiu-se de preto da cabeça aos pés. Vestido vistoso. Choro perene. Dava pena de ver a pobrezinha naquele pranto desmedido. Todo mundo comentou. Nunca se tinha visto por aquelas bandas uma viúva tão novinha abrir um berreiro daquele. Choro sentido. As famílias do morto e da viúva compareceram em peso. Famílias numerosas com gente em vários povoados e em duas ou três cidades circunvizinhas. Magotão de gente. 

Um primo da viúva de nome Marcão de Alfredo parecia superintender tudo. Dava determinações às mulheres, recebia quem chegava, discutia detalhes com o agente funerário, socorria a viúva. Moço distinto, prestativo. Muito bem apessoado. Dois dias antes, Sá Matilde de Porfírio Dente de Caititu dera com aquele moço saindo da casa do falecido, despedindo-se da que seria e já agora era uma viuvinha bem arranchada. O moço era professor numa escola municipal, no povoado fronteiriço às Caraibeiras. E era uma espécie de alquimista, manipulador de fórmulas químicas, que chamava a atenção de todos que o conheciam. Até servia à Prefeitura Municipal, preparando venenos para matar cães vadios atacados pela raiva ou pelo calazar. Um rapaz de futuro se ganhasse os caminhos da cidade grande. 

No fim da tarde, como anunciado, deu-se o sepultamento de Zé de Tibertino, após o padre ter celebrado a missa de corpo presente. A mãe do defunto e a viúva estavam inconsoláveis. Na hora de baixar o corpo à sepultura, as duas se atracaram com o esquife. Foi duro para arrancá-las do caixão. A viuvinha desmaiou. Foi um chega-chega danado. “Acode aqui, acode aqui”, gritou alguém, assim que a jovem viúva estatelou-se no chão. O primo Marcão de Alfredo e mais duas mulheres acudiram-na. Em pouco tempo, ela estava restabelecida. O primo professor conduziu a viúva até a entrada do cemiteriozinho carente de limpeza. 

Foi-se, então, Zé de Tibertino, deixando uma viúva muito jovem e bem situada em teres e haveres. O luto fechado, como naquele tempo convinha a uma viúva, durou até a missa de sétimo dia, celebrada na capela do povoado. A partir dali, uns vestidos de cores sóbrias. Algumas línguas ferinas descascaram em cima da viúva. Ao cabo de três meses, o primo Marcão de Alfredo aportara de mala e cuia na casa da prima viúva. Dois meses depois, casaram-se. 

Sá Matilde passou a dizer, à boca miúda, que a morte de Zé de Tibertino fora preparada pelo novo marido da viuvinha. Então, ela não viu o tal sujeito saindo da casa do falecido dois dias antes do mesmo bater as botas? Só podia ser morte arranjada. Mas, no agreste da Malhada da Ribeira, conversas à boca miúda transmudavam-se para bocas graúdas. Marcão de Alfredo tomou conhecimento do falatório de Sá Matilde. Fez-lhe uma visita sorrateira. Dois dias depois, por coincidência, Sá Matilde morreu. De repente. O coração dela pifou como o coração de Zé de Tibertino. Nada de anormal, a não ser a cor azulada da água posta no copo onde Sá Matilde guardava, à noite, a dentadura postiça. Uma estranha água azulada.

Não chegou ao meu conhecimento se alguém fora à polícia para averiguar as duas mortes. Provavelmente, não. Coincidências? Elas sempre existiram. Ou não? 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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