08/10
21:26

A vingança do prefeito

José Lima Santana
Professor da UFS

Deu-se o fato nos tempos dos trabucos e das tocaias. Do coronelismo. Tempos em que a política era, nalguns cantos remotos, verdadeira arte do cão. O diabo juntava e espalhava, ao mesmo tempo, sempre auxiliado por mentirosos e malfazejos. Em todo lugar digladiavam-se os chefes políticos. Em Aracati, cidadezinha perdida nos confins dos grotões, o prefeito Tibúrcio Veiga, vulgo Tibúrcio Cospe Fogo, mandava na política local há mais de trinta anos, elegendo-se prefeito ou elegendo comparsas seus, homens de sua confiança, que, eleitos, lhe passavam o mando da Prefeitura. Ele tinha, pois, o mando e o comando. Ninguém lhe fazia frente. Todos os opositores eram derrotados nas urnas viciadas. Governasse quem governasse o estado, a UDN ou o PSD, que ali, em Aracati, reinava Cospe Fogo. Com ele, ninguém podia. Tinha corpo fechado nos embates políticos. Nas duas únicas vezes em que um candidato a prefeito ameaçou ganhar a eleição, a morte de espreita apareceu na curva de alguma estrada. 

O diretor da instrução pública, como, à época, era designado o secretário de estado da educação, aportou em Aracati com pequena comitiva. Iria escolher o terreno para a construção de um grupo escolar, que era uma novidade. Poucas cidades tinham uma obra de igual porte. A comitiva da autoridade estadual chegou ao fim da tarde. Ali pernoitaria, para, na manhã seguinte, visitar localidades urbanas, a fim de escolher o lugar adequado para tão importante empreendimento público. A secretária da Prefeitura, na momentânea ausência do prefeito, dirigiu-se com a comitiva à pensão de Valdivino de Sá Luzia de Maria Terta, uma das duas pensões da cidade, mas, de longe, a de melhores condições para receber tão ilustre comitiva. 

Na pensão, diante do proprietário, a secretária demonstrou grandeza: “Olhe aqui, ‘seu’ Valdivino, todas as despesas destes senhores correrão por conta da Prefeitura. Sirva do bom e do melhor”. Valdivino apertou ainda mais os apertados olhos e disparou: “Dona Celinha, por conta da Municipalidade, não. Faz dois anos e um pouco mais que eu não vejo a cor do dinheiro da Prefeitura. E a conta não é pequena”. Foi um vexame! Dona Celinha pasmou. Amarelou. Titubeou. Procurou terra no chão e não achou. Constrangimento geral. A autoridade estadual mitigou a situação. Os funcionários públicos estaduais recebiam diárias para pagar os dispêndios. Não havia, assim, necessidade de a Prefeitura fazer mais despesas.

Tudo serenado, a comitiva instalou-se em três dos quartos da “Flor do Aracati”. O jantar foi servido após o banho de cuia, pois água encanada era um luxo pelo qual a cidade aspirava. Cuscuz de milho ralado com recheio de dicuri e queijo de coalho. Macaxeira cacau do quintal da própria pensão. Feijão e arroz temperados. Carne de sol assada na brasa. Galinha de capoeira de cabidela. Um assado de porco tostadinho de dar gosto. Um ensopado de carneiro. Uma farofinha de ovos. Licores de jenipapo e de jabuticaba, para abrir o apetite. E mais, para a sobremesa: doce de leite, pudim navegando em grossa calda, doce de goiaba e de mamão. 

A comitiva fartou-se. O diretor da instrução pública, deseducadamente, arrotou à mesa. Um despropósito. Mas, era uma autoridade da capital. Ninguém reparou. No dia seguinte, o prefeito aguardou a comitiva, na Prefeitura. Sendo informado pela secretária da desfeita que Valdivino praticou, Cospe Fogo não foi à pensão. Localidades visitadas, o diretor da instrução escolheu o lugar onde o grupo escolar deveria ser construído. O governador prometeu, em campanha, que construiria a obra. A sua palavra era um tiro certo. A comitiva retornou à capital, no meio da tarde. 

Durante a madrugada, Pedro Carroceiro trabalhou sem parar com dois ajudantes. Funcionário municipal, ele recolhia o lixo das casas, na carroça puxada por um burro, que, se gente fosse, já estaria aposentado. Ao amanhecer, Valdivino deparou-se com a frente da pensão entupida de lixo. Era a vingança do prefeito, que deu ordem a Pedro Carroceiro para limpar a cidade e entulhar a pensão. Na fachada da pensão, de uns doze metros, a pilha de lixo subia a mais de metro. Cães vadios cuidavam de espalhar a sujeira. A fedentina já conspirava contra o ar puro da praça.

Valdivino era um homem pacato, mas de sangue no olho e de pelos nos buracos das ventas. Contratou quantas carroças disponíveis pôde encontrar. Limpou a frente da pensão. O lixo foi acumulado num terreno baldio a ele pertencente. À meia-noite, as carroças voltaram a trabalhar e despejaram o lixo na porta da Prefeitura. Os adversários do prefeito Tibúrcio Cospe Fogo riam às gargalhadas com o feito de Valdivino. Vingança contra vingança. Todavia, o prefeito virou a besta fera. Ao ser avisado sobre o monte de lixo na porta da Prefeitura, mandou convocar Zé Grande, afamado pistoleiro de Brejo das Cobras, seu melhor pau-mandado, a fim de dar uma lição no dono da pensão, matá-lo com se fazia com um cachorro sarnento. Zé Grande morava no povoado Baixa Limpa, que era o povoado mais distante da sede municipal, e, por isso, somente chegaria à cidade no fim da tarde. 

O dono da pensão foi avisado de que corria perigo. Na cidade havia um bocado de leva-e-traz. E Tibúrcio não escondia de ninguém o seu intento. Era até bom que a notícia se espalhasse para que Valdivino se borrasse o dia todo. O sol espalhava brasas pelo mundo. Não corria nem um soprinho de vento. Muita gente cochichava nos bares e nas ruas. Valdivino que se cuidasse. Dele já se dizia que era um homem morto. 

Eis que Zé Grande, o pistoleiro, chegou à cidade. Dirigiu-se à Prefeitura, onde se encontrava um ajuntamento de cupinchas do prefeito. Zé Grande recebeu as instruções. Delas não gostou. Então, tinha saído de casa para matar “seu” Valdivino? Enraiveceu-se. E disse, desaforadamente: “Prefeito, eu já lhe servi uma ruma de vezes. Já botei gente demais no cemitério para a sua serventia. Mas, ‘seu’ Valdivino é meu vizinho de terras, um bom vizinho, e é um homem honrado. Arranje outro para fazer o serviço, se puder, porque desta vez, eu estou contra o senhor. Mudei de lado. Com ‘seu’ Valdivino ninguém mexe. E é melhor não se meter comigo”. Recado dado. Por aquilo, Cospe Fogo não esperava.  De raiva, tremeu na cadeira. E foi assim que Valdivino escapou da morte. No ano seguinte, muita gente empurrou Valdivino para a política e ele venceu a eleição para prefeito contra o candidato de Cospe Fogo. 

Poucos dias após a posse, Valdivino sofreu um atentado. Quase morreu. O autor dos tiros foi preso. Delatou. Cospe Fogo tinha sido o mandante. Também foi preso. O júri foi desaforado para a capital. Sete a zero contra o réu, por tentativa de homicídio. O coronelismo mixou em Aracati. 

******
NOTA: Sobre o artigo intitulado “Algumas Mentiras”, publicado aqui no Jornal da Cidade e reverberado no site “Clicksergipe” e no blog “Primeira Mão”, na semana passada, em minha página do Facebook foram registradas mais de 370 curtidas e mais de 70 comentários, em solidariedade a este subscritor. Nunca temi os embates da vida. Não os provoco, mas deles não fujo quando sou instigado, nem mesmo quando vêm da podridão de covas rasas. Nos meus 41 anos de militância na Igreja, eu absorvi o que disse o Mestre: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10,19). Que todos vivam em paz. Se puderem e se quiserem. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
01/10
17:40

Algumas mentiras

José Lima Santana
Professor da UFS

Em 1974, eu me tonei, em Nossa Senhora das Dores, correspondente do antigo “Diário de Aracaju”, que funcionava na parte térrea do antigo prédio da Rádio Jornal, e que, hoje, se encontra abandonado, na Av. Rio Branco. Na década de 1980, publiquei meus primeiros artigos, na Gazeta de Sergipe. Na década de 1990, comecei a publicar, de forma esparsa, artigos no Jornal da Cidade. A partir de 2010, Marcos Cardoso reservou-me, no JC, um espaço aos domingos, que tenho usado desde então. Publico o que me vem à telha. Ao longo desses sete anos, publiquei artigos sobre política local, questões nacionais e internacionais, artigos jurídicos, mas, aos poucos, fui dando preferência a publicar “contos provincianos”, ou, como, queiram os leitores, “causos”. 

Publiquei artigos em periódicos e revistas. Publiquei artigos exclusivos no site Clicksergipe. Os artigos publicados semanalmente no Jornal da Cidade são, há algum tempo, republicados no site Clicksergipe e no blog “Primeira Mão”, de Eugênio Nascimento. Tenho, pois, três veículos de comunicação para a publicação do que eu escrevo, semana após semana, além de minha página no Facebook. 

Eu sempre tive e tenho a convicção de publicar o que me ocorreu e o que me ocorre. Jamais tive amarras. E ninguém jamais me colocará amarras. Não sou jornalista. Sou cidadão. Sou servidor público (passando pelas três esferas federadas) há 44 anos. Sou advogado há 37 anos. Sou professor de Direito, na UFS, há mais de 20 anos. Sou padre desde 9 de dezembro do ano passado, após 41 anos de serviços prestados como leigo à Igreja.

Como técnico, servi a algumas administrações públicas, em momentos diferentes e diversos. Exerci cargos e funções nos três governos de João Alves, no governo de Valadares, no segundo governo de Albano Franco, e, na Prefeitura de Aracaju, na segunda gestão de Jackson Barreto e na de Almeida Lima. Eu sempre escrevi, livremente, a favor ou contra certas situações postas. Jamais contra ou a favor de ninguém deliberadamente. As pessoas fazem ou dizem coisas que merecem os meus comentários, quando os quero apresentar. Alguns não gostam. Que comam menos!

Há alguns dias, um jornalista referiu-se a um padre recentemente ordenado e que escreve artigos. O tal jornalista, que já tinha se insurgido contra o Arcebispo Metropolitano de Aracaju, na semana anterior, atacando-o de forma ostensiva e maledicente, voltou a insurgir-se contra ele, mas, atacando, primeiro, o padre recentemente ordenado e que escreve artigos. Dos quatro padres ordenados por último, na Arquidiocese de Aracaju, o único que publica artigos sou eu. Ah! Jamais me importei ou me importarei com o que possam dizer sobre mim, a não ser que atinjam minha honra. E a não ser que MINTAM deslavadamente. Foi o que aconteceu.

O tal jornalista em sua sanha miserável de atacar por atacar, acabou, por desinformação ou por pura maldade, MENTINDO MAIS DE UMA VEZ. Primeiro, mentiu ao dizer que o padre recentemente ordenado e que escreve artigos (se é que sou eu, como se pode deduzir) escreve artigos políticos. O último artigo político que eu escrevi foi publicado no Jornal da Cidade, edição de 1º de novembro de 2016. Quando de minha ordenação, a 9 de dezembro último, eu disse, em meu discurso, que não mais escreveria como vinha escrevendo. A Rádio Cultura transmitiu a solenidade da ordenação. Os ouvintes me ouviram. E, desde então, silenciei, em artigos, sobre a política tupiniquim. Tenho publicado os meus “causos”. MENTIU, pois, o tal jornalista.  

E MENTIU novamente ao dizer que eu sou parente de um político. Eu não sabia que tinha um político como parente. Mas, não tenho, nem mesmo um parente lá por trás das nuvens, como se diz em Dores, minha terra natal. Ou será que todas as pessoas que têm o mesmo patronímico são aparentadas entre si? Todas as pessoas que assinam o sobrenome LIMA ou SANTANA seriam de minha família? MENTIU pela segunda vez o tal jornalista. Pergunto: MENTIU por desinformação ou por maldade? 

Se alguém quer me instigar a escrever de novo artigos sobre a política sergipana, saiba que já estou sendo tentado. A minha condição de padre não me impede de fazer isso. O pároco de uma das Paróquias da capital escreveu-me, no Whatsapp, que teria um padre por trás da escrita do tal jornalista, ao atacar o Arcebispo duas vezes no espaço de poucos dias. Será? Duvidar, eu não duvido. Mas, acreditar, eu não gostaria. Contudo, se for o caso, é facilmente identificável. Já se disse que em Sergipe, todos se conhecem. No Clero aracajuano, também.   

Evidentemente, ao decidir não mais escrever artigos sobre a política de Sergipe, a partir de minha ordenação, eu o fiz por consciência. Todavia, continuarei fazendo os “vlogs” sobre quaisquer temas, para o Clicksergipe, como, aliás, já o fiz no passado. Goste quem gostar. E se decidir voltar a escrever sobre política, para o Jornal da Cidade, eu o farei. 

O tal jornalista MENTIU pela terceira vez, ao dizer que eu escrevo (se é que sou eu mesmo) puxando para um lado, no caso, o do governador Jackson Barreto. É óbvio que ele jamais leu os meus artigos, nos quais eu disse sempre o que bem entendi sobre qualquer político sergipano, ora mostrando suas falhas, ora mostrando seus acertos. Exemplos? Na edição do JC, de 1º de novembro de 2015, eu falei sobre os problemas da segurança pública, no país e em Sergipe. Na edição de 22 de fevereiro de 2015, eu disse que um “puxa saco” de Jackson Barreto exigia que o governador me desse um “corretivo” porque eu teria mostrado falhas na administração estadual. Na edição de 1º de fevereiro de 2015, eu disse que Jackson Barreto precisava “botar o carro para andar”. A roda estava presa na administração dele. Sem falar nos artigos e nas notas políticas exclusivas para o site Clicksergipe, nos quais eu falei o que tinha que ser falado a respeito das administrações de Jackson e João Alves. E sobre o comportamento de alguns políticos com atuação no Parlamento federal. 

Com relação aos dois ataques frontais ao senhor Arcebispo, Dom João José Costa, dele não tenho procuração para fazer a sua defesa. Mas, por uma questão de princípio, defendo-o. O tal jornalista, a soldo não sei de quem, ou, seja lá por qual motivo for, desconhece um fato à época amplamente divulgado, que foi convocado pelo Arcebispo, inclusive, com a colaboração de alguns pastores evangélicos, e que se refere à Caminhada pela Paz e pela Vida, levada a efeito em 3 de junho deste ano,                após uma conversa franca e direta dos três Bispos da Província Eclesiástica de Sergipe, Dom João, Dom Giovanni (Estância) e Dom Mário (Propriá) com o governador do estado, quando os três mostraram preocupação com a segurança pública. Naquela ocasião, os três Bispos também demonstraram ao governador descontentamento com a possibilidade de privatização da DESO. Disso, o tal jornalista não sabe. Ou, simplesmente, ignora. Tem gente assim: que não sabe das coisas ou as ignora, sabe-se lá por quais motivos ou interesses. 

MENTIRA? Ora, quem MENTE, MENTE por algum motivo. Geralmente, escuso. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
24/09
09:15

O burburinho

José Lima Santana
Professor da UFS

Dia calmo. Era o que prometia aquela sexta-feira. A manhã veio tocada por uma aurora de cores e sons que somente a vida interiorana era capaz de oferecer. No sitio de Tião Ceboleiro, lá para os confins do Tamanco Velho, subúrbio distante de Missão do Araticum, cidadezinha sonolenta e de gente pacata, o bode Chambinho espreguiçou-se. O galo Zé Porreta cantou três vezes. Logo, um alvoroço no terreiro da frente da casa, tão carente de consertos. Dona Esmeralda, mulher de Tião, atendeu à porta o chamado de Maria de Terto de Doca do Marmeleiro. Vizinha e comadre. Maria carecia de uma xícara de açúcar. Era costume da vizinhança se socorrer de adjutórios ocasionais. Ora um pouco disto, ora um pouco daquilo. E todos se ajudavam mutuamente. Ninguém passava certas necessidades. A vida comunitária fazia dos vizinhos verdadeiros amigos e irmãos. 

Tião Ceboleiro tinha madrugado naquele dia. Teve precisão de ir ao Riacho do Meio, povoado distante meia légua da Missão do Araticum. Era a terra de seus pais, João Vicente de Robertão de Sinézio e Maria das Dores do finado Vavá Pimenta. Vivos. O pai passava dos noventa e a mãe andava perto. Firmes e gozando boa saúde. Longe, certamente, ainda iriam. Tião vendera um cavalo de montaria a um primo, Valdivino de Totonho Bucho Grande, e fora entregar o animal, como prometido. Entrega feita, dinheiro no bolso, Tião Ceboleiro tomou o rumo da casa dos pais. Tomou-lhes a bênção. O café estava posto. O filho assentou-se diante de um cuscuz fumegante e de uma vasilha com leite gorduroso, a nata amarelada por cima. Ovos estrelados e carne de sol assada na brasa. Um capeado. Gordura vistosa. Os três comeram em silêncio como convinha. Conversas à mesa, somente se o chefe de família tomasse a iniciativa. Desde sempre, era assim. 

Acabado o café da manhã, Tião indagou ao pai se ele pretendia vender as quatro cabras que viviam soltas no pequeno sítio. Cabras de boa raça. Boas de leite. A resposta foi “não”. No meio da conversa, pai e filho ouviram um burburinho vindo da estrada, que passava em frente à casa. O burburinho aumentou. Tião achegou-se da porta. Era um pequeno grupo de pessoas que conduziam um sujeito desconhecido para Tião, amarrado nos braços por um pedaço de corda de caroá. “O que é isso, moçada?”, perguntou Tião. Adiantou-se na resposta Marcelino Boca de Sapo, primo distante de Tião: “Este sujeito tentou fazer coisa feia com a filha de Manuquinha de Zé de Vito. Eu mesmo impedi o intento maligno deste satanás. Vamos levá-lo pro delegado tomar conta dele. Mas, antes, demos umas cipoadas nele e deitamos sal grosso pra curar os talhos”. Tião tirou o chapéu, coçou a cabeça e disse: “Cuidado, gente. Não vão fazer mais besteira, não. Quem deve dar cobro dele é o sargento Miguelão. É ele a autoridade”. 

O grupo seguiu viagem. Tião despediu-se dos pais. Tomou-lhes a bênção e partiu a poucas braças do grupo que conduzia o malfazejo. Tendo negócios na cidade, acompanhou o grupo. Na cidade, a passagem do grupo pelas ruas causou ainda maior burburinho. As pessoas se agitavam nas portas e nas calçadas. “O que foi?”, Quem é este?”, perguntavam as pessoas curiosas e ávidas por novidades. A vidinha pacata da cidade era agitada por qualquer acontecimento fora da rotina cotidiana. Pessoas desocupadas, que nunca faltavam, engrossaram o grupo. Uma mulher reconheceu o malfeitor: “Este desinfeliz tentou fazer coisa que num se pode dizer com a neta de Sá Margarida de Pedrinho das Flechas, num faz cinco dias”. Alguém conseguiu achegar-se ao sujeito e deu-lhe um soco na cabeça. Marcelino Boca de Sapo impediu outras agressões. 

No velho quartel da polícia, o malfazejo foi entregue aos cuidados do sargento Miguelão, que ali estava destacando há uns dez anos ou mais. Conhecido por todos, era bonachão, mas firme no riscado de suas funções como chefe do destacamento policial e delegado comissionado. Sentou-se o sargento para tomar anotações. Pergunta daqui, pergunta dali, tudo sendo anotado à mão, no livro de capa preta e sebenta. Pronto. O preso seria conduzido à cidade vizinha, sede da comarca, para, na delegacia regional, ficar à disposição das autoridades do fórum. O grupo se desfez e cada qual retomou a sua vida, retornou ao seu canto. 

Meia-noite. No quartel de Missão do Araticum só tinha um preso. O dito cujo malfeitor. Cuidando da segurança do quartel, apenas um soldado, Maninho de Zé Tibúrcio, que tinha parentela na cidade, embora fosse natural de Timbaúba de Cima, dali distante umas vinte e tantas léguas. De sono leve, o soldado Maninho, tendo há pouco tempo sentado praça, foi despertado por um burburinho que vinha da cela onde estava o molestador de meninas. Levantou-se. Riscou o fósforo. Acendeu um candeeiro, pois energia elétrica ainda não era uma serventia da cidade. Dirigiu-se à cela. O preso estava rolando no chão, estrebuchando-se, como se estivesse possuído por uma coisa braba. E começou a falar coisas estranhas. E a gritar como um condenado. De um pulo, o preso jogou-se na grade da cela, como se quisesse derrubá-la. Foi contido pela ferragem. A cara do preso mais parecia a figura do diabo. 

O soldado Maninho não era homem de amedrontar-se com pouca coisa. Sacou a arma, cujo coldre estava pendurado no ombro esquerdo e gritou a plenos pulmões: “Fio da gota serena, se tu escapar daí, seu tinhoso das seiscentas, eu lhe como na bala”. O malfazejo endiabrado parou. Estatelou-se no cimento frio do piso da cela. 

Enroscou-se em si mesmo. Enrodilhou-se como uma cobra. Soltou um gemido infernal. O soldado Maninho, com a arma na mão direita e o candeeiro na mão esquerda, manejou a luz para mais perto da cela. O malfazejo encantou-se. Virou uma cobra grande de língua de fogo. Maninho arregalou os olhos, soltou o candeeiro no chão e disse: “Vade retro, satanás das profundas!”. O candeeiro, no chão, continuava aceso. O soldado mirou a cobra grande e fez menção de disparar. Naquilo, abriu-se a porta do quartel. Era o sargento Miguelão, que morava na casa em frente ao quartel. Acordara com o labafero. Vinha com uma lanterna na mão. Mirou o facho de luz para dentro da cela. Assombrou-se. “O que é isto, soldado Maninho?”. O subalterno respondeu: “Deve ser o diabo em pessoa, que veio acabar com a gente, sargento!”. A cobra passou pela grade, sacudiu o rabo e derrubou o soldado e o sargento. Ganhou a porta e o mundo, para nunca mais aparecer.

Foi isso mesmo que o sargento e o soldado contaram ao povo. Porém, Tião Ceboleiro descobriu na Mata Grande, cidade para além do rio das Mercês, que o malfazejo se chamava Antônio Silva, primo da mulher do sargento Miguelão. O sargento e o soldado deram fuga ao malfazejo? É provável. Afinal, ninguém andava virando cobra por aí. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/09
13:44

A Santa Sé

José Lima Santana
Professor da UFS

Minervina de João de Zé de Tintilo andava agoniada. Não sabia como sair-se da situação vexatória na qual acabou se metendo. Sufoco! Como resolver aquela situação? Teria que apelar ao padre Afonso? Não lhe passaria ele uma descompostura? Não a faria cumprir a promessa assim mesmo como ela a fizera? Se fosse o padre anterior, João Bosco, a situação poderia ser contornada a contento. Ele a conhecia havia muito tempo, antes mesmo de ter ido oficiar ali, quando era pároco de Barro Alto e lá ela morava, casada de novo. Depois, a família se arranchou nas Cajazeiras de São Raimundo Nonato e uns três anos depois eis que o padre João Bosco para ali foi transferido. Durou um lote de anos. Coitado! Morreu do coração. Não tinha ainda sessenta anos de idade. Gordo que fazia gosto. Doentinho que fazia dó. Morreu dormindo. 

O padre Afonso, um galegão danado, tinha fama de brabo. Era um bom padre. Sabia pregar o Evangelho como poucos. Mas, era dado a dar broncas nas pessoas que não se comportavam direito na igreja e na vida. Não media palavras. Nem para tanto mudava de batina. Com ele, era pau, casca! Não tinha lero-lero. Como, então, Minervina iria pedir uma solução para o problema que a afligia, há uma semana? Porém, não tinha jeito. Teria que apelar para o bom senso do pároco. Iria a ele, sim. E fosse o que Deus quisesse. 

Domingo, dez da manhã. O padre já tinha celebrado a missa matinal. Estaria em casa, refestelado na cadeira de balanço com um livro nas mãos. Era o que ele mais fazia em casa. Ler. Lia como um desvalido. Devorava mais livros do que todas as traças do mundo, juntas. Dona Izabel, a irmã, estaria nos afazeres da cozinha, ajudada pela preta Maria Fulô, octogenária, ama de leite do padre, a quem ele chamava de mãe. A mãe do padre, Dona Virgínia Mendes de Souza Fontes, viúva do coronel Augusto César de Souza Fontes, que tinha patente comprada da Guarda Nacional, morreu quando o padre completou doze anos. O pai lhe faltou quando ainda estava nos cueiros. O chifre de um boi assassino lhe varou o coração. O coronel, antigo dono de um festejado banguê, que acabou de fogo morto, tornou-se próspero criador de bom gado de corte e era dado à brincadeira das vaquejadas. Morreu numa delas. 

A negra Maria Fulô nasceu na senzala do pai do coronel Augusto, mas de ventre livre. Jamais saiu do serviço do pai e, depois, do filho. Era uma serva, para não dizer escrava. Nunca recebeu um tostão furado de salário. Era bem tratada. Mas não passava de uma serva. Ama de leite. Se o padre a tinha em grande condição, ela o tinha mais ainda. O padre era o seu bebê. O filho que nunca teve. E desde a morte de Dona Virgínia, ela, Maria Fulô, dele cuidou como um filho verdadeiro. Melhor mãe, com todo o respeito a Dona Virgínia, o padre não poderia ter. 

Minervina de João de Zé de Tintilo tomou o rumo da casa do padre. Levou debaixo do sovaco um capão de bom peso. Um mimo para Dona Izabel, que era uma santa. Uma joia rara, tão diferente de gênio em relação ao irmão padre. Um doce de pessoa. Um anjo de candura. Dona Izabel era madrinha de batismo de um neto de Minervina. Não eram, pois, pessoas estranhas. 

Naquela manhã de domingo, chovia. Era o mês de setembro. O inverno se prolongava, esticava os braços e fazia cair boas pancadas de água. Bateu na porta. Toc-toc-toc. Acudiu-lhe Maria Fulô, arrastando os chinelos. “Dona Maria Fulô, eu preciso ter um dedo de prosa com o padre Afonso. Ele está não está? Eu o vi entrando agorinha mesmo”. Ele estava. Resmungando, como era próprio de certas pessoas com idade avançada, a negra velha desapareceu no corredor da casa, por trás da cortina, que separava a varanda do resto da casa, seguida por Minervina.

Minervina fez uma promessa a uma santa que ela desconhecia, a não ser pelo nome. O nome mais curto de uma santa que ela já tinha ouvido falar. Prometeu soltar duas dúzias de foguetes em frente à igreja onde a santa tivesse a sua imagem, caso a sua gata angorá de estimação ficasse boa de uma doença que lhe fizera cair o pelo, deixando-a igual a um bruguelo de passarinho. Poucas semanas depois a gata voltou a ter pelos. Um milagre! Ocorria que ela acabou descobrindo por uma neta estudiosa que a santa em questão somente podia ser encontrada na cidade do Papa, em Roma. Minervina não tinha dinheiro suficiente para ir à Cidade Eterna, a fim de pagar a promessa feita. Eis o que ela precisava arrancar do padre Afonso: que a dispensasse de cumprir a promessa feita, ou permitisse fazer a troca da promessa por outra em melhor condição de cumprimento. Que angústia! Que tormento! 

O padre a recebeu na sala de leitura. Sem rodeios, Minervina lhe contou acerca da promessa e falou da enorme dificuldade para cumpri-la. O padre ouviu toda a conversa no mais absoluto silêncio. “Acabou, minha senhora?”. Tinha acabado sim. Uma promessa feita a uma santa distante. Ela não tinha meios que lhe possibilitassem sair dali para a cidade do Papa. Bem que ela gostaria de vê-lo! 

O padre Afonso indagou que santa era aquela, pois Minervina ainda não tinha declinado o seu nome. “É Santa Sé”, respondeu ela. O padre, de cara sempre fechada, explodiu numa gargalhada, que deixou Minervina em pedaços. Refeito, o padre desculpou-se e disse: “Minha santa mulher, de onde a senhora tirou esta ideia? Quem lhe disse que a Santa Sé é uma santa a quem se possa fazer promessa? A Santa Sé não é a representação de uma mulher piedosa que foi canonizada, como Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Rita de Cássia e tantas outras que nos servem de modelo em face de suas vidas dedicadas ao amor de Deus, ao Evangelho de Jesus Cristo, servindo aos irmãos e às irmãs das mais diversas maneiras. Não, não, não! A Santa Sé assim chamada é a representação do governo central da Igreja Católica, que fica na Cidade do Vaticano, governada pelo Papa. A senhora não sabia disto?”. 

Pobre Minervina! Sabia nada. Ela ouvia, no rádio, que muita gente estava acorrendo à Santa Sé, para pagar promessas. Só isso. E fez a sua promessa, para a cura da gata angorá, que ficou curada. 

“Quem curou a sua gata, minha senhora, foi a sua fé. Deus volta o seu divino olhar para os seus filhos e filhas que Nele depositam a sua confiança, a sua fé. A senhora pode queimar os seus foguetes em frente à Matriz, sem problema. A promessa estará cumprida. Que Deus lhe abençoe!”.
Minervina voltou para casa aliviada. E dobrou a queima dos fogos. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/09
18:14

José Lima Santana - O prefeito Popó Tomate

 

José Lima Santana - É padre, advogado e professor universitário

 

            O prefeito Porfírio Canuto de Medeiros e Silva, vulgo Popó Tomate, cabra avermelhado tal e qual um tomate maduro, conseguira, com um deputado federal, uma “máquina de abrir estrada”, como ele dizia. Ora, não era pouca coisa, na década de 1960. E para um município de não mais do que cinco mil habitantes, era um estrondo. Municípios muito maiores, ao redor de léguas, não tinham uma bichona daquela. Uma geringonça danada de grande e barulhenta. O deputado Chico Queixada era compadre de Popó Tomate. E, antes, o prefeito fora seu capataz na fazenda “Flor de Alecrim”, um mundaréu de terras de perder de vista, lá pras bandas do sertão das Aguilhadas.

            Popó Tomate tinha também seus bons beiços de terra. Vereador em cinco legislaturas, vice-prefeito e prefeito. Em breve, sairia para deputado estadual com o apoio do compadre e ex-patrão. Contava aí uns sessenta e poucos anos de estrada. Tortuosa estrada para uma vida não menos tortuosa. Tempo houve em que Popó Tomate foi homem de pistola e punhal, como seu pai, Terêncio de Medeiros e Silva, Terencinho de Tibúrcio, e seu avô, Tibúrcio de Medeiros e Silva, que atendia pela alcunha de Tibúrcio Morte Certa. Tempo passado. Tempo das tocaias, dos ajustes de contas, da mão forte e endiabrada, ditando leis à base do pau de cuspir fogo. Tempo em que os trabucos incendiaram o sertão. Tempo distante. Para alguns, tempo esquecido.

            Popó Tomate, a muito custo, tornou-se um homem civilizado. Até missa ele assistia todos os domingos. Regenerado. E era com fervor que ele dobrava os joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Com fervor e arrependimento. Os padres podiam contar com ele, nas precisões da Matriz. Era um sujeito dado a servir ao povo, aos mais pequeninos, aos judiados pela vida. Naquilo, naquela serventia popular, ninguém poderia lhe pôr um olhar de soslaio em desaprovação. E não servia apenas com o dinheiro dos cofres públicos, não. Quando era preciso, metia a mão no bolso, onde não se escondia nenhuma cascavel, como era o caso do seu opositor, Fabrício Guedes, que era mão de figa. Dona Senhorinha, a primeira-dama, reclamava que o marido haveria de morrer sem eira nem beira. Exagero. Ele tinha bens de sobra, como remediado, para deixar em inventário e confusão.

            O prefeito de Cipó de Miroró não cabia em si de tão contente. Uma máquina! O compadre deputado federal, antigo patrão, dera-lhe um adjutório de fazer inveja aos prefeitos de Lagoa Seca e Pastos Novos, Valdemar Nanico e Melquíades do Boqueirão. Cidades grandes. Ainda assim, ele, Popó Tomate, botou-os no chinelo. A patrol chegaria dentro de uma semana. Bichona taluda. Parecia um esqueleto de alguma coisa braba, fornida no ferro. O deputado mandara um folheto com a cara da bichona estampada. O folheto correu os bares e as ruas. Passou de mão em mão entre os feirantes. Um sucesso. Haveria de ser um papouco danado. Festa. Festança. A banda de pífanos de Maneca Zureinha já estava contratada. Melhor não havia nas redondezas. Foguetório. Haveria muitos foguetes espoucando nos ares. Foguetes de três tiros e uma resposta, que era o tiro mais forte, o derradeiro. Um ribombar de estremecer o céu.

            O equipamento a ser recebido merecia festa. O compadre deputado merecia festa. A cidade merecia festa. No sertão inteiro não havia uma bichona daquela. Somente em Cipó de Miroró. Haveria um acompanhamento com os poucos carros, jipes e rurais, existentes na cidade, menos o de Fabrício Guedes, opositor do prefeito, e três outros de seus lambe-botas. Cavaleiros à vontade. Bicicletas, muitas. Um furdunço, um furdunço! As ruas estavam enfeitadas com bandeirolas como se fosse São João.

            E eis que, no dia aprazado, a “máquina de abrir estrada” chegou. Amarelona. Grandona. Bufando mais do que a serra da serraria de Marcelo Palito. Muito, muito mais. Ao volante, o próprio Popó Tomate, que tomara lições na capital, na revendedora da Caterpillar. Lâmina levantada, lá vinha a patrol de Popó Tomate. Ele vivia o dia mais feliz de sua vida como prefeito. O deputado Francisco Rodrigues de Melo Prado, o Chico Queixada, não pudera comparecer à festa. Brasília pegava fogo e ele precisava estar por lá. O presidente da República tinha sido botado para correr do país. Uma lástima! Os militares tomaram o poder de assalto. A panela fervia. O mundo da política estaria incerto, mas Popó Tomate estava alheio a tudo aquilo. A sua imensa alegria contagiava a cidade. O vereador Robertinho Beiço Mole torceu a cara, assim que Popó Tomate e seu séquito passaram em frente ao seu bar. Robertinho era o líder da oposição na Câmara Municipal, embora fosse concunhado do prefeito. Um familiar desviado.

            Passando em frente à casa de Maria Benta do finado Brício Matoso, a velha gritou a plenos pulmões: “Ô Popó, meu fio, tu tá mais alegre do pinto no lixo!”. A fala da velha, fiel eleitora do prefeito, soou como um tiro de escopeta que nunca fora disparado. Naquele instante, Popó Tomate tombou sobre o volante da bichona. A patrol desgovernou-se, fez um zigue-zague, andou uns poucos metros, deu uns “tuncos” e parou. Popó Tomate estava morto. O coração não aguentou o rojão de tamanha alegria.

 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
27/08
17:06

A viúva de Zé de Tibertino

José Lima Santana

Morreu. Zé de Tibertino do finado Vavazão das Caraibeiras acabara de bater as botas. Morreu sem quê nem pra quê. De repente. E nem doente estava. Ou era o que se pensava. A morte que vinha ligeira, num piscar de olhos, tinha por trás si alguma coisa. Ninguém morria por acaso. Não sem mais nem menos. Tudo na vida tinha um quê e um por quê. E não adiantava ficar de trololó, de conversê por ali ou acolá. “A morte quer uma desculpa”, vivia a dizer e repetir Dona Mocinha Zanôia, viúva de Totoinho do Farelo. Não, ela não estava certa. A morte nunca quis uma desculpa. Ela simplesmente fazia a sua faxina. Era duro ter que falar assim, mas era exatamente assim que falava Pedro Corcunda, poeta repentista e maior filósofo popular do agreste da Malhada da Ribeira, um sapecão de terra esparramado por bem umas cinquenta léguas em quadra, pegando do Baixio das Borboletas ao Tôpo da Serra, das Embiribeiras ao Remanso de Zé Charuto. Eitha mundão de terra boa pra danar!

O certo mesmo foi que Zé de Tibertino bateu a caçoleta. Bem batida. Tibertino, na verdade, era tio Bertino. Bertino de “seu” Valdemar, filho, neto e bisneto de afamados fazendeiros. Vavazão das Caraibeiras. Quanto ao nome Tibertino, era a junção de tio e Bertino, zerando o “o” de tio. Pronto. Era mais fácil, na língua curta dos matutos, pronunciar Tibertino. E Zé, filho de Tibertino, morreu de madrugadinha. O orvalho ainda derramava pérolas de lágrimas sobre o gramado de sua casa avarandada. Graminha nativa, que na mais braba seca, não podia sentir um chuvisco ou umas gotas de orvalho, que enverdecia, para logo mais secar com a brabeza do sol. Era uma verdadeira fênix, a nascer, morrer, renascer e tornar a morrer, num ciclo interminável. Mas, quando a chuva vinha de verdade, quando as torneiras de São Pedro eram abertas, aí a graminha virava gramão de dar gosto.

Pois Zé de Tibertino deixou as alegrias e as tristezas deste mundo sem estar doente. O coração lá dele pifou. Coraçãozinho fraco como um palito de fósforo. Bastou um apertozinho para o coitado mudar-se de gente para corpo sem vida e sem alma em despedida. Acabou-se. Zé era um sujeito chegando ao maduro. Tinha lá os seus quarenta e tantos anos quando se meteu de namoro com uma neta de Valter Valença do Pau Ferro de Cima. Neta que os avós criaram, pois os pais tinham morrido numa enchente do riacho Boa Morte, que quando botava água subia nos olhos dos pés de pau de suas ribanceiras. Riachinho tísico nos meses de estiagem, porém, um bitelão de rio nos dias de enchentes das brabas. 

No que poderia dar o casamento de um homem beirando os cinquenta anos com uma meninota de seus dezessete anos? Casamento arranjado, tudo se tendo feito por interesse. Era que Zé de Tibertino não era homem desapracatado na vida. Era, sim, bem aquinhoado. Possuía boas terras, bom gadinho de leite e de corte, fartura de roçados de algodão e outros bens mais. Era muito bem arranchado. Cobiçado por moças solteiras e viúvas ainda em ponto de bala. Naquele tempo, muitos homens morriam cedo demais, vários deles surpreendidos em tocaias. Brigas de famílias, brigas em cachaçadas, questões de terras e desavenças por causa de mulheres. Eram estes os principais motivos para as mortes matadas no agreste. No sertão era ainda muito pior. Sangue quente, tempo quente, quentura de bala ou frieza de faca peixeira. Um horror! Muitas mulheres ainda no viço da juventude ficavam viúvas, disputando casório com as solteiras. 

O morto foi pranteado durante todo o dia. O enterro seria no fim da tarde. A jovem viúva, agora na flor dos seus dezenove anos, pois casada há dois anos, cobriu-se com um véu negro. Vestiu-se de preto da cabeça aos pés. Vestido vistoso. Choro perene. Dava pena de ver a pobrezinha naquele pranto desmedido. Todo mundo comentou. Nunca se tinha visto por aquelas bandas uma viúva tão novinha abrir um berreiro daquele. Choro sentido. As famílias do morto e da viúva compareceram em peso. Famílias numerosas com gente em vários povoados e em duas ou três cidades circunvizinhas. Magotão de gente. 

Um primo da viúva de nome Marcão de Alfredo parecia superintender tudo. Dava determinações às mulheres, recebia quem chegava, discutia detalhes com o agente funerário, socorria a viúva. Moço distinto, prestativo. Muito bem apessoado. Dois dias antes, Sá Matilde de Porfírio Dente de Caititu dera com aquele moço saindo da casa do falecido, despedindo-se da que seria e já agora era uma viuvinha bem arranchada. O moço era professor numa escola municipal, no povoado fronteiriço às Caraibeiras. E era uma espécie de alquimista, manipulador de fórmulas químicas, que chamava a atenção de todos que o conheciam. Até servia à Prefeitura Municipal, preparando venenos para matar cães vadios atacados pela raiva ou pelo calazar. Um rapaz de futuro se ganhasse os caminhos da cidade grande. 

No fim da tarde, como anunciado, deu-se o sepultamento de Zé de Tibertino, após o padre ter celebrado a missa de corpo presente. A mãe do defunto e a viúva estavam inconsoláveis. Na hora de baixar o corpo à sepultura, as duas se atracaram com o esquife. Foi duro para arrancá-las do caixão. A viuvinha desmaiou. Foi um chega-chega danado. “Acode aqui, acode aqui”, gritou alguém, assim que a jovem viúva estatelou-se no chão. O primo Marcão de Alfredo e mais duas mulheres acudiram-na. Em pouco tempo, ela estava restabelecida. O primo professor conduziu a viúva até a entrada do cemiteriozinho carente de limpeza. 

Foi-se, então, Zé de Tibertino, deixando uma viúva muito jovem e bem situada em teres e haveres. O luto fechado, como naquele tempo convinha a uma viúva, durou até a missa de sétimo dia, celebrada na capela do povoado. A partir dali, uns vestidos de cores sóbrias. Algumas línguas ferinas descascaram em cima da viúva. Ao cabo de três meses, o primo Marcão de Alfredo aportara de mala e cuia na casa da prima viúva. Dois meses depois, casaram-se. 

Sá Matilde passou a dizer, à boca miúda, que a morte de Zé de Tibertino fora preparada pelo novo marido da viuvinha. Então, ela não viu o tal sujeito saindo da casa do falecido dois dias antes do mesmo bater as botas? Só podia ser morte arranjada. Mas, no agreste da Malhada da Ribeira, conversas à boca miúda transmudavam-se para bocas graúdas. Marcão de Alfredo tomou conhecimento do falatório de Sá Matilde. Fez-lhe uma visita sorrateira. Dois dias depois, por coincidência, Sá Matilde morreu. De repente. O coração dela pifou como o coração de Zé de Tibertino. Nada de anormal, a não ser a cor azulada da água posta no copo onde Sá Matilde guardava, à noite, a dentadura postiça. Uma estranha água azulada.

Não chegou ao meu conhecimento se alguém fora à polícia para averiguar as duas mortes. Provavelmente, não. Coincidências? Elas sempre existiram. Ou não? 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/08
15:08

Zefinha de Tião e a vela do Padre Vergueiro

José Lima Santana
Professor da UFS

No sertão das Baraúnas os casos se sucediam. Dos mais simples aos mais complexos. Todo santo dia podia-se mesmo dizer, novos casos aconteciam. Com gente e gente, com gente e bichos, com bichos e bichos. Acontecia de tudo. Cobra gigante que sugava o leite de mulher parida de novo, enquanto colocava o rabo na boca do bebê para entretê-lo, lobisomens dando carreira em sujeitos mofinos, mulher quebrando pote com água no terreiro da casa, para espantar mal olhado, do tipo que nem pimenteira malagueta era capaz de dar cabo, e tantos outros casos que nem o melhor escritor do mundo daria conta de enumerar e relatar. Quanto mais eu, suburbano desajeitado no manejar da pena, ou melhor, das teclas do computador. 

Josefa de Pedro Cospe Fogo casou-se com Sebastião de Marcolino do finado Tito Sapateiro. Passou a ser chamada de Zefinha de Tião. Morena bem apanhada de ancas e tudo o mais. Tipo de mulher cobiçada no sertão e em todo lugar. Com certeza. Moça prendada no zelo da casa, na costura de tudo que era tipo de roupa e até no ler e escrever uma carta, coisa raríssima naquelas lonjuras castigadas pelo sol mais causticante que Deus permitiu que brilhasse sobre a face de todos os Brasis. 

Tião, do seu lado, era um sujeito trabalhador, enfiado na lida do campo, botando roçados de milho, feijão, mandioca e algodão, além de labutar com três vaquinhas mestiças, que davam um leitinho que ele o vendia de porta em porta, nas casas de freguesias mais do que certas. 

Qualquer um ou qualquer uma, a não ser um pequeno bando de invejosos/as que em todo lugar tinha e tem, reconhecia neles, Zefinha e Tião, um casal feliz. Porém, felizes, arrasadoramente felizes, eles o foram até o segundo ano após o casamento, assistido, como canonicamente convém dizer, pelo padre Martinho Felício de Souza Vergueiro, da família Vergueiro e Albuquerque, gente de fama desde os tempos do Império e em muitas partes do país. Quando o casal contraiu núpcias, o padre era um quase menino, ordenado há não mais de ano e pouco. Que padre simples, metido no meio do povo, um padre diferente de todos os padres das redondezas! Um verdadeiro pastor. Ajuizado e botando juízo nas cabeças cheias de minhocas. Em cabeças, inclusive, de clérigos de batinas mais surradas do que a dele. 

Zefinha não engravidou naqueles dois anos. As línguas ferinas, atiçadas, sobretudo, por Dona Maria de Chico Canela Torta, que era, sem nenhum favor ou desfavor, a matraca mais infeliz que o diabo alimentou no mundo, ele, o zambeta, que fazia e faz seguidores onde o vento espalhava e espalha, e ele, o tinhoso, o três mil vezes maldito, ajuntava e ajunta. A velha espalhou que Zefinha tinha o “oveiro destrambelhado”, que nunca haveria de segurar menino. Ora, o que aquela desdentada sabia a respeito do ovário da mulher de Tião? Língua bifurcada de cobra caninana. De cobra ainda pior. Língua que arrastava outras línguas iguais, enfileiradas. 

A mãe de Zefinha, Dona Carminha de Pedro Cospe Fogo, e a sogra, a mãe de Tião, Sá Isaura de Marcolino, sugeriram que a filha e nora buscasse amparo na casa de uma tal de Marocas do Brejão das Cobras, rezadeira afamada, que mantinha um terreiro de toré, embora as pessoas dissessem que era de xangô, para lhe dar um adjutório de valimento. Porém, Zefinha era igrejeira, devota de Santa Rita de Cássia, e recusou desviar-se dos caminhos de sua religião para aventurar-se nas veredas do que para ela não seria coisa bem-vinda. “Deus me dará um filho, quando for do seu agrado”, dizia.

Mais dois anos se passaram. Nada de filhos. Numa terra em que marido que não dá filho à esposa é chamado de galo de ovo goro, Tião começou a andar de cabeça baixa. Um filho era tudo o que ele desejava, e não mais do que Zefinha. Ele chegou mesmo a pensar e a confidenciar ao irmão mais novo com quem melhor se dava, dentre os oito irmãos e irmãs que ele tinha, que estava à beira de procurar mulher fora de casa para fazer um menino e provar que era galo que enchia ovo. Contudo, por respeito à mulher, ele não passou da intenção. Acomodou-se. 

Era uma quinta-feira pela manhã, quando Zefinha, indo à cidade, que longe muito não era do povoado onde o casal morava, acompanhada por uma irmã, esta mãe de dois meninos e uma menina, encontrou-se com o padre Vergueiro, que, após tirar o chapéu e cumprimentar as duas mulheres, fazendo estancar o animal que montava, indagou: “Dona Zefinha, nada ainda de menino?”. Encabulada, ela respondeu: “Ainda não, mas, um dia, Deus vai olhar pra mim, padre”. O padre retrucou: “Eu irei ao Juazeiro do Padim Ciço. Sempre tive vontade de ver como são as coisas por lá. Se você quiser, eu acenderei uma vela e rezarei para que você tenha um filhinho”. E ela: “Pode ser padre. Em nome de Jesus, pode ser”. 

Logo após a viagem ao Juazeiro, o padre Vergueiro foi mudado de Paróquia. Antes de arribar, ele garantiu que acendeu a vela aos pés da imagem do padre Cícero. Zefinha agradeceu e nunca mais o encontrou. Passaram-se os tempos. E eis que numa festa da padroeira, em que o padre, já maduro na idade, fora pregar, deu de cara com Zefinha, cuja fisionomia ele não esqueceu.  

O encontro deu-se bem em frente à casa paroquial, refeita pelo padre atual, que, não tendo a simplicidade do padre Vergueiro, derrubara a antiga, tão boazinha, e erguera uma casa de andar com vários quartos e muitos outros cômodos, numa cidade de poucos aquinhoados e de muitos pobres. Assim que a viu, o padre perguntou sorridente, como sempre: “A senhora já tem filhos?”. Zefinha respondeu: “Tenho, sim, padre. Eu tive três barrigas de dois e tive mais cinco avulsos. Ao todo já são onze, sete meninos e quatro meninas, padre”.

O padre Vergueiro alegrou-se: “Graças a Deus e à vela que, debaixo de orações, eu acendi aos pés do Padim Ciço. E onde está seu esposo, para eu cumprimentá-lo?”. Zefinha respondeu: “Ele foi ao Juazeiro, padre, para ver se apaga a bendita vela que o senhor acendeu”.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/08
15:04

Um mundo de sombras

José Lima Santana
Professor da UFS

No insuperável livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, Fabiano e Sinhá Vitória viram um mundo de sombras cair sobre a pouca água restante. Eram as avoantes. Mau agouro. 

Diz o texto do penúltimo capítulo do livro, intitulado “Um mundo coberto de penas”: “O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado”.

  O sofrimento de Fabiano, de Sinhá Vitória e dos dois meninos parece persistir até hoje. Não apenas no sertão nordestino, mas em todo o país. Outros são os tempos e outros são os personagens. Agora é o povo brasileiro que se põe no lugar daquela família de sofredores destemidos, que se mudava daqui para ali. Uma saga que pareceria interminável. 

Interminável não pode ser a saga do povo brasileiro. Melhor será dizer, a saga dos maus políticos que nos governam, que tomam de assalto o poder que, na teoria constitucional, pertence ao povo: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É o que diz o parágrafo único do art. 1º da Carta de 1988. 

Que belo texto os nossos constituintes esculpiram no mosaico constitucional! E que bom seria se realmente assim o fosse, na prática!  

Não se pode nem deve comparar os maus políticos brasileiros com as avoantes nordestinas. Elas representam um pedaço muito bom do ambiente, da Natureza, que, diga-se de passagem, está em perigo. O seu habitat vem sendo destruído continuamente. E elas ainda são caçadas em profusão. Leis foram feitas para a proteção do meio ambiente, mas as leis “são coisas que o homem muda quando quer”, como bem o disse o personagem principal do livro “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, do escritor russo Alexandre Solzhenitsin, que foi publicado em novembro de 1962. O livro narra as agruras que o personagem passou na prisão, num gulag, na Sibéria, na época sombria de Josef Stalin. A publicação da obra foi autorizada por Nikita Kruschev, aparentemente para provar as suas acusações contra o dirigente soviético anterior a ele, ou seja, Stalin. Lembrando que o autor russo foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1970. 

Os maus políticos, detentores de mandatos eletivos, no Executivo e no Legislativo, não bebem a nossa água. Devoram os nossos recursos. Sangram os cofres públicos. Participam das mais nojentas negociatas. Enrolam-se em cuecas, malas e sacolas cheias de dinheiro. Zombam de nós. Escarnecem daqueles que os elegeram. São sórdidos. São sádicos. São monstros. Não deveriam estar no nosso meio. Fedem mais do que titica de gato. Os felinos domésticos cobrem suas titicas. Os maus políticos jogam-nas no ventilador. São sujos. Vivem no lodaçal de um pântano que parece não ter fim. Todavia, há de chegar o dia em que o pântano em que chafurdam tornar-se-á de areias movediças. E nelas eles haverão de submergir para nunca mais voltar à vida pública. 

Muitos desses gatunos de colarinho branco (branco, mas podre de sujeira!) ainda vão às tribunas, aos palanques, aos meios de comunicação social para falar, invocando o nome santo de Deus. Lavem suas bocas sujas e fétidas, bando de escroques! Entoquem-se em seus buracos, ratos de esgoto! 

Infelizmente, eles têm uma sobrevida, após cada descoberta de suas patifarias. Eles têm bons advogados, que se esmeram em apresentá-los como “injustiçados”. Eles têm os seus comparsas. Eles são farinha do mesmo saco. Farinha vencida, contaminada. Inservível. Apesar de tudo, eles estão aí. Mesmo no seio do povo, alguns deles encontram guarida. Quando será que haveremos de saber votar? Quando será que não mais nos deixaremos seduzir pelo canto velhaco dessas malditas aves de rapina? Quando haveremos de escolher entre homens e mulheres que nos governem com ética? E quando será que teremos também, de ponta a ponta, nem todos os escalões do Poder Judiciário, magistrados e magistradas comprometidos (as) com a JUSTIÇA, assegurando-nos o banimento de toda impunidade e de toda exploração do homem pelo homem? Utopia? Queira Deus que não! 

Um mundo coberto de sombras. Não merecemos isso. Nenhum povo merece. A história do Brasil é pródiga em maus momentos e em maus políticos. Ansiamos por viver numa democracia. Desde os primórdios da República nós ansiamos. Ainda não vimos o sol raiar no chão da Pátria de modo que nos assegure a normalidade democrática, de maneira que a coisa pública seja, sim, pública, isto é, verdadeiramente, do povo, e, assim mesmo, seja cuidada. Ansiamos por homens e mulheres dignos (as) do nosso voto para bem nos governar, para bem nos conduzir por um caminho novo, jamais, até agora, por nós trilhado. 

Que as nossas aves de arribação continuem migrando no seu interminável vai e vem, a cada estação que lhes é propícia para acasalar, procriar e seguir o ritmo de suas inocentes vidas. 

E que as nossas aves de rapina, os políticos que nos envergonham e que enxovalham a Nação, sejam para sempre banidos da vida pública. Que sejam encobertos num mundo de sombras, que é o seu lugar. Longe do povo. Longe do poder. 

Que a podridão de seus atos nefastos os arraste para o ostracismo (no calabouço, preferencialmente), onde, quem sabe, arrependidos, eles possam chorar e ranger os dentes. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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