20/08
15:08

Zefinha de Tião e a vela do Padre Vergueiro

José Lima Santana
Professor da UFS

No sertão das Baraúnas os casos se sucediam. Dos mais simples aos mais complexos. Todo santo dia podia-se mesmo dizer, novos casos aconteciam. Com gente e gente, com gente e bichos, com bichos e bichos. Acontecia de tudo. Cobra gigante que sugava o leite de mulher parida de novo, enquanto colocava o rabo na boca do bebê para entretê-lo, lobisomens dando carreira em sujeitos mofinos, mulher quebrando pote com água no terreiro da casa, para espantar mal olhado, do tipo que nem pimenteira malagueta era capaz de dar cabo, e tantos outros casos que nem o melhor escritor do mundo daria conta de enumerar e relatar. Quanto mais eu, suburbano desajeitado no manejar da pena, ou melhor, das teclas do computador. 

Josefa de Pedro Cospe Fogo casou-se com Sebastião de Marcolino do finado Tito Sapateiro. Passou a ser chamada de Zefinha de Tião. Morena bem apanhada de ancas e tudo o mais. Tipo de mulher cobiçada no sertão e em todo lugar. Com certeza. Moça prendada no zelo da casa, na costura de tudo que era tipo de roupa e até no ler e escrever uma carta, coisa raríssima naquelas lonjuras castigadas pelo sol mais causticante que Deus permitiu que brilhasse sobre a face de todos os Brasis. 

Tião, do seu lado, era um sujeito trabalhador, enfiado na lida do campo, botando roçados de milho, feijão, mandioca e algodão, além de labutar com três vaquinhas mestiças, que davam um leitinho que ele o vendia de porta em porta, nas casas de freguesias mais do que certas. 

Qualquer um ou qualquer uma, a não ser um pequeno bando de invejosos/as que em todo lugar tinha e tem, reconhecia neles, Zefinha e Tião, um casal feliz. Porém, felizes, arrasadoramente felizes, eles o foram até o segundo ano após o casamento, assistido, como canonicamente convém dizer, pelo padre Martinho Felício de Souza Vergueiro, da família Vergueiro e Albuquerque, gente de fama desde os tempos do Império e em muitas partes do país. Quando o casal contraiu núpcias, o padre era um quase menino, ordenado há não mais de ano e pouco. Que padre simples, metido no meio do povo, um padre diferente de todos os padres das redondezas! Um verdadeiro pastor. Ajuizado e botando juízo nas cabeças cheias de minhocas. Em cabeças, inclusive, de clérigos de batinas mais surradas do que a dele. 

Zefinha não engravidou naqueles dois anos. As línguas ferinas, atiçadas, sobretudo, por Dona Maria de Chico Canela Torta, que era, sem nenhum favor ou desfavor, a matraca mais infeliz que o diabo alimentou no mundo, ele, o zambeta, que fazia e faz seguidores onde o vento espalhava e espalha, e ele, o tinhoso, o três mil vezes maldito, ajuntava e ajunta. A velha espalhou que Zefinha tinha o “oveiro destrambelhado”, que nunca haveria de segurar menino. Ora, o que aquela desdentada sabia a respeito do ovário da mulher de Tião? Língua bifurcada de cobra caninana. De cobra ainda pior. Língua que arrastava outras línguas iguais, enfileiradas. 

A mãe de Zefinha, Dona Carminha de Pedro Cospe Fogo, e a sogra, a mãe de Tião, Sá Isaura de Marcolino, sugeriram que a filha e nora buscasse amparo na casa de uma tal de Marocas do Brejão das Cobras, rezadeira afamada, que mantinha um terreiro de toré, embora as pessoas dissessem que era de xangô, para lhe dar um adjutório de valimento. Porém, Zefinha era igrejeira, devota de Santa Rita de Cássia, e recusou desviar-se dos caminhos de sua religião para aventurar-se nas veredas do que para ela não seria coisa bem-vinda. “Deus me dará um filho, quando for do seu agrado”, dizia.

Mais dois anos se passaram. Nada de filhos. Numa terra em que marido que não dá filho à esposa é chamado de galo de ovo goro, Tião começou a andar de cabeça baixa. Um filho era tudo o que ele desejava, e não mais do que Zefinha. Ele chegou mesmo a pensar e a confidenciar ao irmão mais novo com quem melhor se dava, dentre os oito irmãos e irmãs que ele tinha, que estava à beira de procurar mulher fora de casa para fazer um menino e provar que era galo que enchia ovo. Contudo, por respeito à mulher, ele não passou da intenção. Acomodou-se. 

Era uma quinta-feira pela manhã, quando Zefinha, indo à cidade, que longe muito não era do povoado onde o casal morava, acompanhada por uma irmã, esta mãe de dois meninos e uma menina, encontrou-se com o padre Vergueiro, que, após tirar o chapéu e cumprimentar as duas mulheres, fazendo estancar o animal que montava, indagou: “Dona Zefinha, nada ainda de menino?”. Encabulada, ela respondeu: “Ainda não, mas, um dia, Deus vai olhar pra mim, padre”. O padre retrucou: “Eu irei ao Juazeiro do Padim Ciço. Sempre tive vontade de ver como são as coisas por lá. Se você quiser, eu acenderei uma vela e rezarei para que você tenha um filhinho”. E ela: “Pode ser padre. Em nome de Jesus, pode ser”. 

Logo após a viagem ao Juazeiro, o padre Vergueiro foi mudado de Paróquia. Antes de arribar, ele garantiu que acendeu a vela aos pés da imagem do padre Cícero. Zefinha agradeceu e nunca mais o encontrou. Passaram-se os tempos. E eis que numa festa da padroeira, em que o padre, já maduro na idade, fora pregar, deu de cara com Zefinha, cuja fisionomia ele não esqueceu.  

O encontro deu-se bem em frente à casa paroquial, refeita pelo padre atual, que, não tendo a simplicidade do padre Vergueiro, derrubara a antiga, tão boazinha, e erguera uma casa de andar com vários quartos e muitos outros cômodos, numa cidade de poucos aquinhoados e de muitos pobres. Assim que a viu, o padre perguntou sorridente, como sempre: “A senhora já tem filhos?”. Zefinha respondeu: “Tenho, sim, padre. Eu tive três barrigas de dois e tive mais cinco avulsos. Ao todo já são onze, sete meninos e quatro meninas, padre”.

O padre Vergueiro alegrou-se: “Graças a Deus e à vela que, debaixo de orações, eu acendi aos pés do Padim Ciço. E onde está seu esposo, para eu cumprimentá-lo?”. Zefinha respondeu: “Ele foi ao Juazeiro, padre, para ver se apaga a bendita vela que o senhor acendeu”.  


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
13/08
15:04

Um mundo de sombras

José Lima Santana
Professor da UFS

No insuperável livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, Fabiano e Sinhá Vitória viram um mundo de sombras cair sobre a pouca água restante. Eram as avoantes. Mau agouro. 

Diz o texto do penúltimo capítulo do livro, intitulado “Um mundo coberto de penas”: “O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado”.

  O sofrimento de Fabiano, de Sinhá Vitória e dos dois meninos parece persistir até hoje. Não apenas no sertão nordestino, mas em todo o país. Outros são os tempos e outros são os personagens. Agora é o povo brasileiro que se põe no lugar daquela família de sofredores destemidos, que se mudava daqui para ali. Uma saga que pareceria interminável. 

Interminável não pode ser a saga do povo brasileiro. Melhor será dizer, a saga dos maus políticos que nos governam, que tomam de assalto o poder que, na teoria constitucional, pertence ao povo: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É o que diz o parágrafo único do art. 1º da Carta de 1988. 

Que belo texto os nossos constituintes esculpiram no mosaico constitucional! E que bom seria se realmente assim o fosse, na prática!  

Não se pode nem deve comparar os maus políticos brasileiros com as avoantes nordestinas. Elas representam um pedaço muito bom do ambiente, da Natureza, que, diga-se de passagem, está em perigo. O seu habitat vem sendo destruído continuamente. E elas ainda são caçadas em profusão. Leis foram feitas para a proteção do meio ambiente, mas as leis “são coisas que o homem muda quando quer”, como bem o disse o personagem principal do livro “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, do escritor russo Alexandre Solzhenitsin, que foi publicado em novembro de 1962. O livro narra as agruras que o personagem passou na prisão, num gulag, na Sibéria, na época sombria de Josef Stalin. A publicação da obra foi autorizada por Nikita Kruschev, aparentemente para provar as suas acusações contra o dirigente soviético anterior a ele, ou seja, Stalin. Lembrando que o autor russo foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1970. 

Os maus políticos, detentores de mandatos eletivos, no Executivo e no Legislativo, não bebem a nossa água. Devoram os nossos recursos. Sangram os cofres públicos. Participam das mais nojentas negociatas. Enrolam-se em cuecas, malas e sacolas cheias de dinheiro. Zombam de nós. Escarnecem daqueles que os elegeram. São sórdidos. São sádicos. São monstros. Não deveriam estar no nosso meio. Fedem mais do que titica de gato. Os felinos domésticos cobrem suas titicas. Os maus políticos jogam-nas no ventilador. São sujos. Vivem no lodaçal de um pântano que parece não ter fim. Todavia, há de chegar o dia em que o pântano em que chafurdam tornar-se-á de areias movediças. E nelas eles haverão de submergir para nunca mais voltar à vida pública. 

Muitos desses gatunos de colarinho branco (branco, mas podre de sujeira!) ainda vão às tribunas, aos palanques, aos meios de comunicação social para falar, invocando o nome santo de Deus. Lavem suas bocas sujas e fétidas, bando de escroques! Entoquem-se em seus buracos, ratos de esgoto! 

Infelizmente, eles têm uma sobrevida, após cada descoberta de suas patifarias. Eles têm bons advogados, que se esmeram em apresentá-los como “injustiçados”. Eles têm os seus comparsas. Eles são farinha do mesmo saco. Farinha vencida, contaminada. Inservível. Apesar de tudo, eles estão aí. Mesmo no seio do povo, alguns deles encontram guarida. Quando será que haveremos de saber votar? Quando será que não mais nos deixaremos seduzir pelo canto velhaco dessas malditas aves de rapina? Quando haveremos de escolher entre homens e mulheres que nos governem com ética? E quando será que teremos também, de ponta a ponta, nem todos os escalões do Poder Judiciário, magistrados e magistradas comprometidos (as) com a JUSTIÇA, assegurando-nos o banimento de toda impunidade e de toda exploração do homem pelo homem? Utopia? Queira Deus que não! 

Um mundo coberto de sombras. Não merecemos isso. Nenhum povo merece. A história do Brasil é pródiga em maus momentos e em maus políticos. Ansiamos por viver numa democracia. Desde os primórdios da República nós ansiamos. Ainda não vimos o sol raiar no chão da Pátria de modo que nos assegure a normalidade democrática, de maneira que a coisa pública seja, sim, pública, isto é, verdadeiramente, do povo, e, assim mesmo, seja cuidada. Ansiamos por homens e mulheres dignos (as) do nosso voto para bem nos governar, para bem nos conduzir por um caminho novo, jamais, até agora, por nós trilhado. 

Que as nossas aves de arribação continuem migrando no seu interminável vai e vem, a cada estação que lhes é propícia para acasalar, procriar e seguir o ritmo de suas inocentes vidas. 

E que as nossas aves de rapina, os políticos que nos envergonham e que enxovalham a Nação, sejam para sempre banidos da vida pública. Que sejam encobertos num mundo de sombras, que é o seu lugar. Longe do povo. Longe do poder. 

Que a podridão de seus atos nefastos os arraste para o ostracismo (no calabouço, preferencialmente), onde, quem sabe, arrependidos, eles possam chorar e ranger os dentes. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
06/08
14:49

Políticos Fast-food

José Lima Santana
Professor da UFS

Todo mundo está careca de saber que fast-food é comida rápida, ou, como se diz em Portugal, comida pronta. É a denominação genérica dada ao consumo de refeições que podem ser preparadas e servidas em um intervalo pequeno de tempo. Podem ser sanduíches, pizzas, pastéis e tantas outras.
O interessante é que, no Brasil, há um tipo de fast-food, que, talvez, não se encontre em nenhum outro lugar do planeta, ao menos, com tanta profusão e com tanta falta de caráter. Trata-se de um tipo de político que, nos últimos tempos, tem crescido como erva daninha, como o joio que cresce em meio ao trigal. Uma corja! Um bando de descarados!

Os políticos fast-food são iguais a um vírus, desses que aparecem de repente e vão ficando, contaminando tudo e todos. Ou contaminando quase tudo e quase todos. São políticos que, aparentemente, até parecem ter estatura de dignos mandatários do povo, mas, que, na verdade, não passam de nanicos, de amebas, que vivem do lodo intestinal. Apenas parecem. Malditos sejam eles!

Esses políticos são do tipo fast-food porque ligeirinho, ligeirinho, eles estão prontos para tomar de assalto este ou aquele partido político, ou para fazer parte desta ou daquela coligação. Aproveitam-se o quanto podem, como cupins que devoram a madeira podre. Eles próprios são podres. Posam de bons moços, de cordeirinhos inofensivos. De defensores do povo. Nas entrevistas, eles logram dizer que o povo é a sua razão de estar na vida pública. Que bonito! Porém, nos bastidores, nos porões fétidos dos palácios e dos salões tapetados, eles se arrastam no lodaçal da patifaria mais sórdida que se pode conceber. Ora, eles são lacaios do poder; ora, são os sustentáculos do mesmo poder, desfigurado pelo fisiologismo, nalguns casos, ou, noutros casos, pela corrupção passiva desenfreada. 

Essa corja malsinada aproveita-se da situação de certos governos aos quais dão sustentação, especialmente quando estão nos cargos legislativos, na União, nos Estados, no DF e nos Municípios. Formam um bloco considerável de legisladores que não estão nem aí para o povo e suas necessidades. O que eles querem? O que eles defendem? O que eles fazem? Nada além daquilo que lhes serve. Como dizia uma personagem de determinado programa humorístico da televisão, “o povo é apenas um detalhe”. E que espoliado e sofrido detalhe tem sido o povo!

Os tais políticos fast-food esmeram-se em cuidar do próprio umbigo. Do próprio bolso, de um ou de outro jeito. Descaradamente, põem dinheiro na cueca, em malas etc. Arranjam cargos para os seus apaniguados, muitos deles sem as condições morais e técnicas para exercê-los. Conseguem propinas. Empanturram-se de safadezas. E riem como hienas nas inserções televisivas às quais os seus partidos políticos têm direito, através de uma legislação arcaica, que faz com que o povo pague indiretamente o custo de tais inserções. Os tais políticos que as pagassem de seus próprios bolsos, e não o povo! Afinal, eles ludibriam a fé do povo. Enganam os seus eleitores. Compram os seus votos a cada eleição, de uma maneira ou de outra. E, infelizmente, muitos eleitores se deixam seduzir pelas migalhas que caem de suas mesas faustosas, onde o festim maldito tem lugar. O festim da corrupção. Da pouca vergonha. Ou, melhor, da absoluta falta de vergonha. 

Todo mundo conhece a história de Diógenes, filósofo grego do século IV AC: em plena luz do dia, ele costumava caminhar por Atenas, com uma lanterna nas mãos, à procura de um homem honesto. Pois bem. Precisamos de holofotes, de canhões de luz, para acharmos um homem ou uma mulher que possa, em 2018, merecer o nosso voto (voto de cada eleitor ou eleitora consciente de que é chegada a hora de resgatar o nosso país das mãos lambuzadas dos que aí estão), e que, sem se mostrar como um (a) pérfido (a) salvador (a) da Pátria, possa ter o tirocínio e a hombridade necessários para limpar a sujeira que está tanto sob o tapete, quando sobre o mesmo. 

As camarilhas dos aproveitadores, dos dissimulados, dos cínicos, dos corruptos estão à solta. Estão no Partido A e no Partido B. No C, no D, no E... Em todos os cantos elas, as camarilhas, aí estão. Elas tomaram de assalto o poder, há anos e, especialmente, nos últimos dez, doze, quinze ou um pouco mais de anos, sabe-se lá. Cada uma age do modo que melhor lhe convém. E, o que também é muito grave, cada camarilha tem os seus defensores obstinados, cegos, que se espalham pelos meios de comunicação social, defendendo-as e atacando as camarilhas opostas. São “soldados” da carnificina moral. As redes sociais estão cheias deles: dos “coxinhas” e dos “mortadelas”. Destilam venenos. Vomitam verborreias. Erguem os seus supostos ídolos aos píncaros da “glória”. Transformam-nos em santos. E santos eles devem ser mesmo: santos de pau oco. Santos sem nichos ou sem charolas. Enlameados santos. 

Os políticos do tipo fast-food arvoram-se no direito de levar a vida como numa gangorra, balançando-se para cá e para lá, a depender do lado no qual possam se servir da forma que, momentaneamente, lhes convém. Dou-lhes, caríssimos leitores, um exemplo acabado: alguns parlamentares federais, nos últimos tempos, estiveram em todas as bibocas do poder. Apoiaram os tucanos de FHC. Mudaram de lado e ficaram com Lula e Dilma. Deixaram esta, quando ela já agonizava, e tocaram tambores e panelas em favor do impeachment. Com Temer “brilhando” na Operação Lava-Jato, dele já se afastaram, alegando questões éticas. Ora bolas! Falam de ética, pregam o “fora Temer” (que, diga-se de passagem, deveria mesmo sair do Jaburu e do Planalto), mas ajudaram a botar o Temer onde ele está, e, na última quarta-feira, deixaram-no na presidência. O Brasil inteiro está cheio de parlamentares desse tipo, federais, estaduais ou municipais. O pior tipo de parlamentares, de representantes do povo. Aproveitadores de ocasião. Ladrões que roubam do povo ao qual deveriam servir. 

Os políticos do tipo fast-food não são apenas parlamentares. Alguns estão ou estiveram no Executivo. E alguns destes, por vezes, são mais sujos do que pau de galinheiro, para usar uma expressão popularíssima, com todo o respeito aos leitores, e, também, aos galináceos. 

Estou cheio dos políticos do tipo fast-food. Eles não valem um casco de siri podre. Aliás, não valem nada. Felizmente, ainda há políticos que não se enquadram nesse tipo maldito. Podem não ser muitos, mas eles existem, sim. Quem sabe, nem tudo esteja perdido. Oxalá! Que Deus vele por nós e pelo Brasil. E que nós saibamos discernir no momento certo, ou seja, saibamos como votar e em quem votar em 2018. Que não nos enganem mais. E que não nos deixemos mais enganar. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
23/07
11:59

Rififi sertanejo

José Lima Santana
Professor da UFS

Na última terça-feira, dia 18, foi sepultado na cidade de Carmópolis (SE) o corpo da juíza de direito aposentada Carmem Maria Rosa Araújo. Conheci Carmem Rosa em 1981, mais precisamente, no mês de março, quando eu apresentei ao cartório da distribuição da Comarca de Nossa Senhora da Glória duas petições iniciais. Eram duas ações de execução fiscal. Minhas primeiras ações, como advogado, recém-formado, naquela comarca. O cartório da distribuição estava a cargo de Dona Nair Aragão, titular do 1º Ofício, mas o encarregado era “seu” Domício. Carmem era a juíza da Comarca e o promotor de justiça era o atual procurador da República, Dr. Gilson Gama Monteiro. 

Com o passar do tempo, mantive com Carmem Rosa uma respeitosa amizade. E mantivemos a amizade por toda a vida. O mesmo eu digo com relação ao Dr. Gilson. 

Naquela época, eu advoguei muito na Comarca de Nossa Senhora da Glória, da qual Monte Alegre de Sergipe era Termo. Muitos fatos pitorescos eu presenciei ou de alguns deles participei. Recordo-me, dentre muitos outros, de um que ocorreu em Monte Alegre. Às quartas-feiras, Carmem Rosa ali realizava audiências. Num daqueles dias, ao chegarmos à Prefeitura, onde se realizavam as audiências, o oficial de justiça, “seu” Elói, deu-me uma péssima informação. Uma das audiências era de um réu preso, na penitenciária da capital, acusado de assassinato. Ocorre que, segundo a informação, os familiares do preso viriam em peso do povoado de onde eram originários, para “arrancá-lo das garras da Justiça”, à força. 

A informação preocupou-me. A minha audiência seria a última daquela manhã. A do dito preso seria a segunda. Eu pedi a “seu” Elói que não dissesse nada à juíza, nem ao promotor, que, àquela altura, era o Dr. Ernesto Anísio Azevedo Melo, que substituíra o Dr. Gilson, que já tinha assumido o cargo de procurador da República. Ora, mas o que eu poderia fazer em auxílio à juíza, mas sem nada à mesma poder dizer? Bem, ligar para o delegado regional de polícia de Nossa Senhora da Glória. Não tinha outra coisa a fazer.

O posto telefônico ficava bem pertinho da Prefeitura. Para lá, eu me dirigi. Pedi uma ligação para o número que declinei. Ou seja, o da delegacia. Dirigi-me à cabine. Logo, alguém atendeu na delegacia. Eu tinha que falar com o delegado, que era o capitão Wellington Costa da Silva, sujeito destemido e que tinha sido cunhado do atual chefe de gabinete do reitor da Universidade Federal de Sergipe, professor Marcionilo. Há algum tempo, o capitão Costa é falecido. 

Eu não podia chamar a atenção de ninguém. A quem estava do outro lado da linha, que era um soldado, eu pedi para falar com “o chefe”. Ele passou para o delegado. Eu precisava falar em código. Comecei a dizer-lhe que estava em Monte Alegre com a juíza e o promotor. E disse: “Temos audiências brabas”. Ele indagou: “Brabas, como?”. O posto telefônico estava cheio de gente. Eu não devia abrir o verbo. Sabia-se lá se alguém ali não era da parentela do preso? Então, desconversei, para não chamar a atenção de ninguém: “O jogo pode ficar feio. É preciso uma ‘menininha’ por aqui”. “Menininha” era como o capitão Costa denominava a metralhadora que usava, quando se fazia necessário. Logo, ele compreendeu que eu queria pedir reforço policial para Monte Alegre. E respondeu, perguntando: “Eu tenho que ir aí, né?”. E eu: “Sim. Logo!”. Ele disse que estaria a caminho. Fiquei aliviado, em parte. Torcia para que o delegado e o devido reforço chegassem antes dos parentes do preso. 

Eu retornei à Prefeitura. O preso já lá estava com apenas um soldado vindo em guarnição desde a penitenciária da capital. Tomei assento na entrada do local que servia de sala de audiências. A primeira audiência era sobre um caso simples, que não lembro bem o que era. Lembro que era simples porque não demorou muito, não passando de mais ou menos meia hora. Viria, então, a audiência do tal preso, que os parentes pretendiam levá-lo para casa à revelia da Justiça. Levantei-me. Fui até a calçada. Cochichei com “seu” Elói, o oficial de justiça. Nada do delegado, nem da parentela do preso. Menos mal. Lá de dentro eu ouvi o pregão da segunda audiência. De chofre, um caminhão aportou na quina da avenida. Cheio de gente. De homens. “São eles”, pensei. “Seu” Elói confirmou. O que haveria de acontecer? Sem a presença do delegado Costa, eles ousariam mesmo invadir a sala de audiências e resgatar o preso? O oficial de justiça achava que sim. Afinal, em tempos passados, eles ousaram tirar outro preso da cadeia local. 

Ali estava o prenúncio de um rififi sertanejo. Confesso que fiquei um pouco aflito. A minha preocupação era sobre se eles fariam algum mal à juíza e ao promotor. Levar o preso seria o de menos. Depois, a polícia o prenderia novamente, mais cedo ou mais tarde. Enquanto eu pensava e o caminhão parava quase em frente à Prefeitura, eis que o veículo Gol da delegacia de Glória irrompeu na avenida. Parando ao lado do caminhão, de pronto desceram o delegado e dois soldados. A “menininha” estava nas mãos do capitão Wellington Costa da Silva, com quem eu mantive fraterna amizade até a sua morte. Costa deu ordem para ninguém descer do caminhão, apontando a “menininha” para o grupo. Os dois soldados também estavam com armas em punho e apontadas para os parentes do preso. Um dos ocupantes do caminhão quis parlamentar. O capitão não lhe deu ouvidos. Ficar na frente da boca de uma metralhadora não fazia bem a ninguém. 

Resumindo: o caminhão foi obrigado a dar marcha à ré. Os parentes do preso regressaram ao povoado. A audiência foi realizada sem contratempos. Depois de tudo, o delegado achegou-se e contou à juíza e ao promotor o sucedido, isto é, como eu o tinha “requisitado”. Coisas do sertão. Aliás, apenas um fato interessante dentre tantos que este subscritor vivenciou nas plagas sertanejas, quando ali exerceu a advocacia nos anos 1980. 

Que a minha querida amiga Carmem Rosa descanse em paz!


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
16/07
13:53

Chico Miséria

José Lima Santana
Professor da UFS

Era no tempo em que os delegados de polícia eram cidadãos comuns, remunerados pelas municipalidades. Comunidade pequena, feita cidade sabe Deus como. Coisas da política. Um deputado estadual, sobrinho do chefe político local, conseguiu elevar a vila à categoria de cidade. Um disparate. Uma afronta. Ninguém ali foi contrário à elevação. Afinal, todos queriam ver a vilazinha com cara de dorminhoca virar cidade. O progresso viria. O simples fato de ser cidade já deixava a povoação com outra roupagem. O moral da população subiria à estratosfera. A Intendência daria um jeito de melhorar as ruas, as estradas e os serviços. Aliás, parcos serviços públicos: duas ou três escolas de meninos e meninas magricelas com professorinhas que mal sabiam soletrar as palavras. Um cemitério quase abandonado. Um posto de saúde que só recebia a visita do médico de dois em dois meses. Por lá dava plantão diário, quando não surgia a oportunidade de uma boa pescaria, o guarda sanitário Omar Pereira, vulgo Omar Zarolho. O olho direito do guarda sanitário tinha um defeito que o fazia olhar para o lado que a besta correu, como dizia o populacho. 

Na vila transformada em cidade havia uma igrejinha do tipo cai não cai. O padre da cidade vizinha rezava missa um domingo por mês. Era preciso, então, um padre fixo. O intendente deveria socorrer-se do sobrinho deputado para arrancar do senhor bispo um padre para lá. Não seria problema. O deputado acabara de conseguir uma boa verba para as obras da diocese. 

Na nova cidade, dois grupos políticos se engalfinhavam pelo controle do poder municipal. De um lado, o grupo do intendente, tio do deputado, chefe político há mais de vinte anos, que elegia gatos e ratos. Ele, claro, no meio. Do outro lado, Chico Miséria, sucessor do sogro, o finado Tertino Fonseca, cujo poder de mando ele o perdera para o intendente João de Maria, sem sucesso na recuperação. João de Maria mandava e desmandava desde 1912. Mas, Chico Miséria vinha fazendo cócegas em João de Maria nas duas últimas eleições municipais. Diferenças pequenas de votos. Uma de vinte e seis votos e a outra de apenas oito votos. Claro que o grupo de Chico Miséria arrotava que fora roubado na contagem dos votos. O juiz era sobrinho de João de Maria. E estava estacionado na comarca, cuja sede ficava na cidade vizinha, há quase quinze anos. 

Na eleição daquele ano, 1930, eleição, inclusive, presidencial, Chico Miséria estava do lado fraco. Votaria num gaúcho de nome Getúlio Vargas da Aliança Liberal. No estado, as forças governistas estavam do lado oposto, com o paulista Júlio Prestes. E com as forças estaduais estava João de Maria, que prometia esmagar Chico Miséria nas urnas. Aliás, diga-se de passagem, que o apelido de Chico Miséria derivava de um jargão usado por Francisco Dória Macedo. Para ele, tudo era uma “miséria”. Daí o Chico Miséria. 

Eleições quentes. Ao bem da verdade, por ali não havia eleições frias. Era um verdadeiro pega para capar das seiscentas. Por aquelas bandas, político frouxo não vingava. Se não tivesse sangue no olho e tutano nos ossos, não aguentava a primeira boca de urna. Então, quem não se lembrava do velho Tonho Pinote de Vavazinho das Caraíbas? Meteu-se contra João de Maria, em 1920, foi encurralado por uns capangas, no beco da malhada de Zefride, e borrou-se todo. Serviu de mangação por um lote de tempo. Saiu da política e debandou da vila. 

As forças policiais foram aumentadas para garantir a eleição. Ora, na verdade, era para facilitar a fraude praticada pela gente de João de Maria. Os eleitores de Chico Miséria foram perseguidos. Muitos não conseguiram chegar a tempo para votar. Alguns apanharam da polícia. Outros foram detidos. Um verdadeiro escarcéu. Desde o meio-dia, João de Maria contava vantagem, abancado na frente da casa, os eleitores entrando e saindo pelo portão do lado, para comer. Era no tempo em que os políticos podiam oferecer comida à vontade aos eleitores. E somente ia à casa do chefe político quem nele votava. As pessoas tinham lado certo, tinham caráter. Nem os políticos trocavam de lado, nem os eleitores trocavam de chefe. 

Na nova cidade e no estado, a eleição do candidato situacionista foi de lavada. Em Brejo das Almas, a nova cidade, a turma de João de Maria soltou foguetes, fez baderna nas portas dos eleitores contrários, pintou o sete. O delegado de polícia e abastado fazendeiro, Firmino da Lagoinha, ele próprio, comandava uma trupe de baderneiros. Passando em frente à casa de Chico Miséria, na Praça da Bandeira, os baderneiros do delegado soltaram alguns rojões. Um deles feriu a perna de D. Francisquinha, esposa de Chico. Foi aí que a garapa ferveu. 

Chico Miséria estava no bar de Valfrido Boca de Caçapa quando Zominho de Sinhá Terta levou-lhe o ocorrido com D. Francisquinha. Sem pestanejar, Chico Miséria, sacou do revólver, manejou o tambor, deixou uma bala na agulha e tomou o rumo dos baderneiros de Firmino da Lagoinha, conforme descrição de Zominho. Atrás de Chico foram uns seis ou sete amigos. Todos armados. O ar da boca da noite cheirava a morte. 

Na Rua da Tramela, Chico Miséria e seu bando toparam com o bando do delegado. Chico adiantou-se. “Seu Firmino, você sabe que eu nunca fui com a sua fuça, nem você com a minha. Nisso nós estamos empatados. A diferença é que eu sou um homem de verdade e você não passa de um cabra safado, pau mandado de João de Maria, outro cabra safado. Alguém do seu bando feriu a perna da minha mulher com um rojão. Mas, quem me paga é você”. Todos sacaram as armas. Dos dois lados. O tiroteio seria dos brabos. O sangue de muitos lavaria a rua sem calçamento. Sangue empapando o chão. A beata Maria de Sá Fulô, que estava à janela, recolheu-se. Nos poucos postes da iluminação pública, a luz dos lampiões bruxuleava como se estivesse com medo.  

O delegado Firmino da Lagoinha, bêbado, cego de um olho, mas muito bem enxergando pelo outro, vociferou: “Cabra safado é você e sua laia, verme nojento, lombriga de bucho de pobre. Vou arrancar sua cabeça a bala e vou beber o seu sangue imundo, só pelo prazer de cuspir fora o restinho com gosto de vinagre azedo”. 
Ninguém teve tempo para disparar uma bala sequer. Naquele instante, irrompeu na rua a mulher de Chico Miséria, capengando, um filete de sangue escorrendo da perna direita. Vinha com outras senhoras. E eram muitas. Colocaram-se entre os dois bandos. Dona Francisquinha dirigiu-se, primeiro, ao marido: “Chico, pelo amor de Nossa Senhora, me ouça. Eu estou bem, foi só um arranhão. Quem disparou o rojão que me feriu foi aquele cabrinha ali”, disse, apontando para um sujeito sardento, que estava ao lado de Firmino da Lagoinha. Era um neto de Maneca Queixada, vaqueiro do delegado. E, voltando-se para Firmino, ela disse: “Procure o seu caminho, ‘seu’ Firmino. Hoje não vai ter matança em Brejo das Almas. O tempo de vocês acabou. O Dr. Getúlio vai ser o presidente do Brasil. João de Maria e vocês todos vão baixar a crista. Arredem daqui!”. As mulheres aplaudiram. Fez-se um silêncio danado. Um bando foi para lá, o outro para cá. Não teve mais entreveros, nem mortes, nem nada. 

A revolução de 30 se fez. Getúlio tornou-se presidente. E Chico Miséria, uma vez de cima, reinou na política da nova cidade até a morte, em 1952. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
09/07
12:00

A Orelha do Cachorro

José Lima Santana
Professor da UFS

“Gostar de conversa mole, eu não gosto. Sou daqueles cabras do tipo pé de boi, marrento, cosquento, amuado e lá se vai. Não sou de bulir com ninguém, mas espero que ninguém bula comigo. Do contrário, o carvão pega fogo sem querosene e sem sopro de bochechas. Sou assim. Nasci assim. E assim hei de morrer. Sou do bem. Só gosto de gente do bem. Não molesto ninguém, nem um bichinho de Nosso Senhor. Cachorro, então, é bicho de grande valia para mim. Naçãozinha de bicho amigueiro está ali. Cachorro é bicho que quase parece com gente na afeição, no agrado. Balançar o rabo, latir e se enroscar por entre as pernas da pessoa afeiçoada são modos dessa naçãozinha de bicho caseiro”. Esta fala foi de Zé de Fausto, na barbearia de Chico Nanico do finado Edgar do Taquaral, que, coitado, morreu botando sangue por tudo que era orifício lá dele, após ser picado por uma cobra coral das verdadeiras. Sim, porque tem também a cobra coral falsa, cuja picada não ofende. É o que diziam. 

Deveras e provado restava que Zé de Fausto era um sujeito brioso, dono de sua casa e de seu nariz. Trabalhador. Bom filho, bom marido e bom pai. Meter-se com a vida alheia? Jamais. Botar os pés numa bodega, só na mais alta precisão. Demorar-se ao pé de um balcão lavado com cuspe gosmento de cachaceiro? Nunca, nunca, nunca. 
Zé de Fausto morava no subúrbio da cidade, distante da Praça da Matriz, que era o ponto mais central da cidade, coisa de um terço de légua. Casa avarandada, sítio esparramado por boas cinco tarefas de terra. Dali tirava o sustento da família, que tinha muito bem do que passar, do que comer e vestir. 

Na Praça da Matriz morava Aristides, dono de loja de tecidos e padaria. E dono, também, de boa solta de gado mestiço. Era quase vizinho de terra de Zé de Fausto. Aristides, porém, era um novato na cidade. Ali chegara há menos de cinco anos, já botando loja e padaria. A solta de gado era herança de sua mulher, que ali nascera e se criara, filha do afamado fazendeiro Benildes de Totonho Tapioca, mão de figa infeliz, que passava fome para juntar dinheiro. 

Aristides Vilela da Fonseca Pimenteira. Esse o nome de cabo a rabo do comerciante e criador de gado mestiço. Era aparentado com gente graúda da política e da justiça. Sujeito pançudo. A pança mais parecia duas barricas encangadas. Gostava de vestir ternos de linho branco, daquele linho de primeira, cuja queda da calça já mostrava a qualidade e o preço. 

O vaqueiro de Aristides, Maneco de Bastião de Margarida de Sá Dorinha, era também um bom caçador de espingarda, tocaia e arapuca. Caçava tudo que era tipo de caça, graúda e miúda. Caçava bicho de pena e de pele. E de casco também, como tatus-pebas, vezeiros em cavar defuntos, para se empanturrarem, como muita gente acreditava. Maneco tinha, então, bons cães de caça. Cachorros perdigueiros de muita valia. Um deles, que atendia pelo nome de Veludo, era achegado a Aristides. Não podia vê-lo, que logo lhe fazia graças na espera de mimos. Aristides gostava de alisar o pelo negro e aveludado do cachorro de Maneco. Aristides gostava de estumar o cão, batendo palmas: “Êcô... êcô...”. Explicando para quem não é da roça, estumar é açular, incitar, e é palavra encontrada nos bons dicionários. Não é, pois, palavra criada pelos tabaréus. 

Tarde invernosa. Há dias, chovia à vontade. Inverno tardio, mas promissor. Os pastos, em todos os lugares, estiveram no casco, na areia pura. Isso há coisa de dois meses. De lá para cá, as chuvas começaram a cair. De início, uns pés d’água ligeiros, mal e mal molhando o beiço seco da terra. Depois de três semanas naquele chove-não-molha, eis que o inverno pegou de vez. Uma grandeza de Deus! Homens, mulheres e meninos jogaram-se no plantio de milho, feijão, fava e mandioca, nos quintais, sítios e malhadas. Os pastos enverdeceram novamente. Os riachos fizeram-se rios. Estradas enlameadas dificultavam a passagem dos transeuntes. 

Naquela tarde, Zé de Fausto estava na casa de Maneco, seu vizinho. Conversavam sobre o inverno que prometia boas colheitas. Num dado momento, eis que Aristides riscou no terreiro de Maneco no Jeep azul com tração nas quatro rodas, bom danado para rodar naquelas estradas encharcadas. Ao descer do veículo, Aristides foi saudado por Veludo, que encostou as patas sujas na calça de linho branco do visitante. Quanto mais Maneco chamava Veludo e quanto mais Aristides tentava se desvencilhar do animal, mais este lhe lambuzava a calça de linho branco. “Saia daqui, seu peste!”, vociferava Aristides. Sem sucesso. A calça de linho branco de Aristides ficou com listas escuras.

Sem nada dizer, mas, fulo da vida, Aristides agarrou Veludo pela coleira e, dando cabo de uma faca, que estava no banco do passageiro, meteu-a na garganta do cachorro. O sangue espirrou na calça de linho branco, espirrou na grama verde. Maneco amarelou, agoniado. Não disse nada diante da cena grotesca. Sobre a grama verde, o corpo de Veludo, que se esvaia. Com pouco tempo, o cão bom de caça esticou a canela. 

Aristides esbravejava. O filho mais novo de Maneco, um galeguinho magricela, apegado ao cachorro, chorava agarrado na saia da mãe. 

Até então, Zé de Fausto estava quieto. Enquanto Aristides tentava limpar-se com um lenço, Zé de Fausto sacou da cintura uma faquinha de cortar sola, pois ele mesmo fazia suas alpercatas e as dos meninos, e cortou uma orelha do cachorro Veludo. Nisso, aproximou-se de Aristides, encostou a faquinha em sua goela e disse: “Um cabra que mata um cachorro desse jeito, cachorro também é. Cachorro gué do rabo fino. Você vai comer esta orelha. Engula sem fazer careta!”. Aristides gaguejou. A faquinha já riscando a pele do seu gogó. Um filete de sangue saindo. “Engula, seu gordo fio duma porca parideira!”. Zé de Fausto apertou mais ainda a faquinha na goela de Aristides. 

No fim daquela tarde, muita chuva caiu. Invernão. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
02/07
17:03

Dom João José Costa e o Pálio

José Lima Santana
Professor da UFS

É tradição antiga na Igreja Católica que os Arcebispos recebam do Papa o pálio. Mas, o que é o pálio, e qual o seu significado? O pálio é uma espécie de colarinho de lã branca, com cerca de 5 cm de largura e dois apêndices, sendo um na frente e outro nas costas. Possui seis cruzes bordadas em lã preta: quatro no colarinho e uma em cada um dos apêndices. É confeccionado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. Para fazer os pálios, elas utilizam a lã de dois cordeiros que são ofertados ao Papa anualmente, no dia 21 de janeiro, pois neste dia, celebra-se a Solenidade de Santa Inês, jovem mártir cristã do século IV (ela nasceu em 304).

“Uma vez confeccionados, os pálios são abençoados pelo Santo Padre, guardados numa arca junto ao túmulo do Apóstolo São Pedro, o primeiro Pontífice, e entregues pelo próprio Papa, no dia 29 de junho de cada ano, na Solenidade de São Pedro e São Paulo, aos Arcebispos nomeados após a celebração do ano anterior. O uso do pálio, que nos primeiros séculos do Cristianismo era exclusivo dos Papas, passou a ser usado pelos Metropolitas a partir do século VI, tradição que vigora até os nossos dias. Qual o significado do pálio usado pelo Arcebispo? Para entendê-lo, é importante ter presente que a Igreja Católica está organizada pelo mundo afora em províncias eclesiásticas. Cada uma é formada por algumas dioceses (não há número determinado) e uma arquidiocese. À frente dela esta o Metropolita, que é o Arcebispo da diocese-sede. As palavras “arqui” e “arce”, colocadas junto às palavras diocese e bispo, vêm da língua grega, e significam “a primeira”, “o primeiro”. Assim, a Arquidiocese e o Arcebispo são “a primeira” e “o primeiro”, não em linha de importância, mas para serem aquela e aquele que devem estar a serviço e promoção da comunhão.” (Dom Jacinto).

Após a sua nomeação de Arcebispo, deve o Metropolita pedir ao Bispo de Roma, o Papa, o pálio, símbolo de seu “poder” (o serviço e promoção da comunhão) na própria Província Eclesiástica e de sua comunhão com a Sé Apostólica. Uma vez recebido o pálio, o Arcebispo usa-o unicamente dentro das funções litúrgicas, sobre os paramentos pontificais, dentro da Província a que preside, e unicamente nela, como diz Dom Jacinto. Como todos o sabem, a Província Eclesiástica de Sergipe é composta pela Arquidiocese de Aracaju e pelas Dioceses de Propriá e Estância.

Vejamos o que disse o Papa Bento XVI sobre o pálio na homilia que ele fez, no dia 29 de junho de 2005, ao entregá-los aos Arcebispos daquele ano: “Estais para receber o palio das mãos do Sucessor de Pedro. Fizemo-lo abençoar, como pelo próprio Pedro, pondo-o ao lado do seu túmulo. Agora ele é expressão de nossa responsabilidade comum diante do ‘supremo pastor’, Jesus Cristo, da qual fala Pedro na sua Primeira Carta. O pálio é a expressão da nossa missão apostólica. É expressão da nossa comunhão, que no ministério petrino tem a sua garantia visível”. Citação feita em artigo publicado na internet por Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas, no Rio Grande do Sul. (https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/palio-a-expressao-da-missao-apostolica/ Acesso em 25 de junho de 2017).

Que todos nós católicos na Arquidiocese de Aracaju possamos, ao nosso modo e como pudermos, ajudar Dom João a ser sempre digno do pálio que ele está recebendo das mãos do Papa Francisco, nesta quinta-feira, 29 de junho de 2017, dia da Solenidade de São Pedro e São Paulo – e a usá-lo com toda a consciência do seu significado. Certamente, ele o fará com prudência, firmeza e determinação. Em Roma, Dom João optou por receber o pálio sem comitiva. Possivelmente, por dois motivos: primeiro, a impossibilidade de convidar membros do clero que pudessem viajar às expensas da Cúria Metropolitana, por absoluta impossibilidade financeira momentânea para tal; e, segundo, dada a sua simplicidade, que não se coaduna com as pompas. Para Dom João, receber o pálio não se trata de uma festa, mas da confirmação de sua missão, que é o amor, a caridade pastoral em relação ao rebanho que lhe foi confiado. E, obviamente, a sua ligação fraterna com os bispos da Província Eclesiástica da qual ele é o Metropolita. Mas, acima de tudo, a sua estreita relação com o Papa, o sucessor de São Pedro.

Que o clero aracajuano possa se unir em torno do seu pastor. Precisamos de unidade. Que o laicato também se integre cada vez mais ao seu pastor. Com cinco meses e dez dias, à frente da Arquidiocese de Aracaju, Dom João procura dar sequência ao profícuo trabalho desenvolvido por Dom Lessa, em duas décadas à frente da mesma Arquidiocese. Cada pessoa, em qualquer atividade, tem o seu ritmo e o seu estilo de trabalho. E não seria diferente entre Bispos e Arcebispos que vão se sucedendo. Ademais, assim é a vida. Embora nem todos o queiram compreender. Infelizmente.

No dia15 de setembro vindouro, o Núncio Apostólico virá a Aracaju para fazer a entrega definitiva do pálio a Dom João José Costa, como manda a tradição. Aguardemos.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
25/06
15:13

Guloseimas de São João

Professor da UFS
José Lima Santana


    Zuleica de Timóteo Meia Garrafa era uma doceira afamada em toda a região do Brejão de Cima ao Catolé de Dentro, uma extensão de doze léguas ou mais. Ela dava feira em três cidades, no sábado, no domingo e na segunda-feira. Além disso, vendia guloseimas no dia a dia, em casa. Na janela de largo batente cimentado, vários frascos: cocada branca e preta, pés de moleque, bolinhos de ovos, saquarema (bolachinha de goma), manauê de milho, de arroz e de macaxeira. Os pedaços destes últimos, todos cortados na mesma régua. Iguaiszinhos. Que talho perfeito tinha Zuleica!

    O marido, Timóteo Meia Garrafa, era, por assim dizer, o gerente da doceria. Sujeito miúdo, que se esqueceu de crescer, daí o apelido de Meia Garrafa. Porém, meio azougado. Meio? Azougado todo, ele era. Nunca se registrava que Meia Garrafa tivesse puxado um bate-boca, uma briga, um furdunço. Não! Sujeito de paz, que, todavia, virava uma cascavel choca se lhe pisassem nos calos. Então, quem não se lembrava do labafero no qual ele se meteu contra uns cabras do Capim do Boi, na feira do Sapé? Era por volta do meio dia, quando chegaram à banca da doceira Zuleica três rapazes, querendo comprar manauê de milho. As duas formas rasas e largas de alumínio já tinham ido embora. Assim mesmo eram os doces de Zuleica. Não demoravam na banca. Freguesias certas, encomendas entregues logo cedo.

    Aqueles três rapazes eram primos, filhos de Zeca Braço Forte e Tonico Bafo de Onça, dois sujeitos encrenqueiros, que criaram os filhos no mesmo ritmo. Homem da raça dos Oliveira Bastos não levava desaforo para casa. Desde pequenos, os meninos eram orientados a nunca apanhar na rua e a jamais chorar. Se apanhassem na rua, apanhariam em casa. Se chorassem, cairiam no cipó caboclo. Pois bem. Os três rapazes não costumavam se contentar com um “não”. Ao ouvirem Zuleica dizer que já tinha acabado o manauê de milho, que eles procuravam, um deles começou a bater a mão com certa violência na tábua da mesa de cedro fornido. Outro deles, aos berros, ameaçou derrubar a cobertura da banca, feita de matéria plástica, como se dizia. O terceiro apenas gargalhava diante da cara de susto de Zuleica.

    Os transeuntes passavam, tirando o corpo de banda. Quem queria se meter, sequer se deter para olhar e ouvir o furdunço ali criado? Passado o susto momentâneo, Zuleica deu garra de uma faca luminosa com boas polegadas de lâmina e gritou: “Bando de moleques, vocês pensam que eu sou dessas que a sua laia bota pra correr? Eu vou cortar os seus possuídos!”. Naquele instante, Timóteo Meia Garrafa, que tinha ido desbeber no fétido banheiro do mercado, acabava de chegar à banca. “O que é isso, Zuleica?”. Nem tempo houve para a resposta da doceira. Um dos rapazes, Pedro Beiço Caído, que tinha lábio leporino, tentou dizer um gracejo. Não teve tempo. Zuleica, que já tinha saído de detrás da banca, agarrou os compadres lá do Beiço Caído e disse: “Seu fio da gota serena, vou cortar seus documentos e dar pro gato comer”.

A faca luminosa fez réstia no rosto do sujeito, que conseguiu se desvencilhar. Assustado. E não era para menos. Foi quando Meia Garrafa, subindo no tamborete no qual Zuleica tomava assento, acertou uma caçarola nas fuças de um dos três. O sangue desceu. Tingiu a camisa branca. Meia Garrafa tinha-lhe partido as ventas. O atingido era primo dos outros dois, que eram irmãos. Um dos irmãos disse ao outro: “Vá chamar papai!”. Não foi, não. Ao tentar sair, foi alcançado por Timóteo Meia Garrafa, que lhe deu uma caçarolada no baixo ventre. E, dando um pinote, alcançou o terceiro na boca do estômago. Em suma, Meia Garrafa deu nos três. Aí, sim, juntou gente. Meia Garrafa foi aplaudido. E ainda ouviu o seu apelido gritado por várias bocas. 

Alguém chamou a polícia. O quartel era bem próximo. Chegaram o sargento Lauro Cicatriz e dois soldados. O primeiro atingido por Meia Garrafa estava sentado no chão, com a tinta vermelha descendo das ventas. Os outros dois contorciam-se. Meia Garrafa não tinha 1,60 m de altura, mas tinha braços fortes, mais parecendo com duas mãos de pilão de pé, daqueles que naquele tempo se usava para pilar café, torrado em casa. O melhor café! Concomitante com a polícia chegou o pai dos dois irmãos e tio do outro, do ensanguentado. A polícia já o conhecia. Conhecia a laia toda. Zuleica adiantou-se e explicou tudo ao sargento. Os três rapazes foram levados para o quartel. Meia Garrafa e Zuleica, também. O pai dos irmãos e tio do outro, esbravejando, seguiu o cortejo. Falou em vingança. O sargento ouviu. E o colocou junto com os filhos e o sobrinho. Estava comprovado o crime de ameaça da parte deste. O que se sabia mesmo era que foi um rebuliço das seiscentas naquele sábado, dia de feira no Sapé. Meia Garrafa e Zuleica saíram do quartel cerca de meia hora depois. Os quatro sujeitos do Capim do Boi ficaram detidos.

Véspera de São João. No último dia da novena na casa de “seu” Vangelo, a fogueira com quatro metros de altura ardia, desde o início da noite. A novena acabou por volta das oito horas. Iria começar o arrasta-pé, que nunca faltava. Um meninote do Currupio, povoadozinho de pouca gente, tinha os dedos afiados. Em suas mãos, o fole velho gemia como se fora em mãos do Gonzagão. O menino tocava demais. E cantava de menos. Mas, valia o chiado ligeiro do fole.

Zuleica e Meia Garrafa estavam a poucos metros da fogueira. A banca com guloseimas juninas atraía muita gente. Dois caldeirões gigantes de mungunzá. Duas travessas com pamonha. Vários pratos de canjica com canela. Pés de moleque de puba. Manauês de todo tipo que se podia fazer. Broas. Milho assado e cozido. Com Zuleica e Meia Garrafa, estavam as duas filhas, no adjutório. Outras duas bancas de guloseimas estavam postadas por ali. Nestas, pouca freguesia. Doceira mesmo era Zuleica. Afamada com razão.

Quatro anos tinham se passado desde aquele entrevero na feira do Sapé, com os rapazes do Capim do Boi. Vingança não houve como apregoada pelo pai dos dois irmãos, dentre os três que apanharam de Meia Garrafa. Dizia-se que ao tomar ciência do ocorrido, como tudo se dera, o pai dos dois e tio do outro, desceu o cinturão nos três, quando o sargento os liberou, ali mesmo na frente do quartel. Bem feito.

Enquanto Zuleica, Meia Garrafa e as duas filhas se desdobravam para atender os fregueses, um sujeito, bêbado, afirmou com voz empastelada: “Esse mungunzá tem baba de velha. Essa velha deixa a baba cair quando está cozinhando o mungunzá. Diz ela que é pra engrossar o caldo”. Apesar de embriagado, falou em alto e bom som. “Baba no mungunzá? Seu fio duma égua manca!”. O bêbado media uns dois metros e pouco. Era um homenzarrão. Corpulento. Na mão direita, um rebenque de couro cru. Na cintura, por cima da camisa, um revólver. Aquela faca luminosa, usada por Zuleica, na feira do Sapé, ou outra igual, facheou na mão de Meia Garrafa. O bêbado fez menção de sacar a arma. Não sacou. Eronildes de Jucundino do finado Vavá de Maria Zélia meteu um tição, tirado da fogueira, na mão do sujeito. Revólver no chão. Uns dez homens caíram em cima do cabra. Deram nele até deixá-lo moído. Botaram-no para correr. Sem a arma, que seria entregue ao delegado de polícia, ainda naquela noite.

Onde já se viu alguém dizer que a baba de Zuleica engrossava o caldo do mungunzá? Um despropósito. Nem babar, Zuleica babava. Oxente!


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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