20/05
18:48

Pregos e Cacos de Vidro

José Lima Santana
Professor da UFS

Manoel Vaselina, mais escorregadio do que muçum, do que gosma de quiabo e sei mais lá o quê, não sabia em quem votar nas eleições que se aproximavam. Quando perguntava “Manoel, em quem você vai votar?”, ele coçava a cabeça, cuspia longe e respondia: “Home de Deus, sabe que eu num sei? Oio prum lado, vejo prego; oio pro outro, vejo caco de vidro. E assim, portanto, vou ficando em riba do muro”. Era um sábio. Nunca, jamais, desagradava ninguém. Era firme em não declarar o voto. Fosse qual fosse a eleição. 

Naquele ano, a eleição era geral, ou seja, para todos os cargos federais e estaduais. Isso foi lá nas quebradas de mil, novecentos e cinquenta e tantos. A UDN bufava para um lado e o PSD bufava para o outro. Tudo apontava para uma eleição demasiadamente esquentada. Como se alguma eleição em Brejão dos Ventos tivesse sido ao menos morna, porque fria nunca haveria de ser. Eleições quentes sempre foram as do Brejão desde que o município se separou de Pedra Azul, cidade que já tinha dado dois deputados federais, quatro estaduais, um senador e dois vice-governadores. “Qualquer dia desses, vamos ter daqui destas terras brabas um presidente da República”, vivia a gozar Pedro Palito, o carpinteiro mais hilário do hemisfério sul, dos trópicos tristes e pobres. 

Naquele ano, um sujeitinho de Brejão dos Ventos, que tinha virado um cheira-peidos de Jardelino Mão Seca, primeiro prefeito do lugar, e, com isso, fora agraciado com um cargo federal de fiscal não sei bem de quê, andava dando com a língua nos dentes e afirmando que seria candidato a deputado estadual pelo Partido do Dr. Getúlio, que, fazia poucos anos, tinha passado desta para melhor, dando ele mesmo um tiro lá no peito dele. Dizia-se que o sangue jorrou do seu peito como se um riacho fosse. O pai dos pobres se foi, mas, tinha deixado um magote muito grande de admiradores, dentre eles o tal sujeitinho, que atendia pelo nome de Jerônimo Rosas de Oliveira e pelo apelido de Jero Dente de Ouro.

Trabalhando na capital, não sei lá em qual repartição federal, Dente de Ouro passou a ir a Brejão dos Ventos todo fim de semana. De bodega em bodega, pagava cachaça para quem quisesse uma bicada. E bons de bico por ali não faltavam, sempre prontos para uns goles de água que passarinho não bebia. As pessoas começavam a falar em votar no sujeitinho. Pelo menos uma meia dúzia ou mais de votos ele haveria de obter por ali. 

Num dos fins de semana em que Dente de Ouro andejou pelo Brejão, eis que deu de cara com Manoel Vaselina, seu amigo de infância, nascidos e criados na mesma rua tortuosa, empoeirada ou lamacenta, a depender da estação do ano. Era a Rua do Cavaco, que, lá no seu final, abrigava uns casebres de atividades suspeitas, em cujas frentes as mulheres de bem não se atreviam a passar. Ah, foi uma festa, o encontro de Dente de Ouro e Vaselina! Festa para o primeiro. Já para o segundo, um aperto de mão morno e um sorriso cabreiro. “Tu já sabe, Manoel, meu irmão, que eu sou candidato a deputado?”, indagou Dente de Ouro, em cuja dentadura superior faiscava um belo dente de outo maciço do tempo em que ele andou pelo Rio de Janeiro, tocando zabumba no Trio Sabiá, nos baixios do mangue. 

Manoel Vaselina, barbeiro de maquininha enferrujada, de tesoura e pente, mas, sobretudo, de língua afiada, respondeu: “Não me diga! Pois não é que ninguém ainda não me tinha dito tão monstruosa notícia! Então, tu vai ser deputado?”. E Dente de Ouro retrucou: “Vou ser, não, meu amigo! Pelo que estou sentindo dos eleitores, já posso comprar o terno da posse. É eleição garantida. E mais garantida ainda porque eu sei que posso contar com o voto do amigo”. 

Manoel Vaselina, o que sempre estava em riba do muro, olhando para os lados, onde havia pregos e cacos de vidro, de um e de outro lado, apontou o dedo indicador para o amigo de infância e disse: “Você vai me sair um grande deputado. De tanto cheirar os peidos de Jardelino Mão Seca, há de precisar de um cheira-peidos seu próprio. E aqui estou eu para lhe servir. Cheirarei com gosto. Vá que eu me eleja, um dia, pelo menos vereador. Conte comigo”. 

Dente de Ouro soltou uma baita gargalhada, daquelas de acordar urubu com sono. “Você num tem jeito mesmo, Manoel. Continua o mesmo Vaselina”, disse o pretenso futuro deputado. 

Chegou a eleição. Dente de Ouro obteve trinta e dois votos em Brejão dos Ventos. Em todo o estado, foram sessenta e oito votos. Um fracasso. Ele passou um ano sem pisar os pés na terra natal. Ao cabo disso, compareceu ao enterro de um tio nonagenário. No cemitério sem muros da cidade, encontraram-se Dente de Ouro e Manoel Vaselina. “Olá, Jero! Que pena, que você não conseguiu a eleição. E eu que esperava ser o seu cheira-peidos e virar vereador com o seu apoio! Você naufragou e eu fiquei a ver navios”. Dente de Ouro respondeu meio desalentado: “Volte pro seu muro. E, de lá de cima, veja se tu mesmo é um prego ou um caco de vidro. Eleitor é bicho mais manhoso do que político, Manoel. Não é atoa que tu se chama Vaselina. E um cabra escorregadio como tu num serve nem pra cheirar peidos de políticos”. 

Na verdade, Manoel Vaselina não votou mesmo não em Jero Dente de Ouro. Não votou em ninguém. Eram muitos os pregos e os cacos de vidro. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
13/05
16:46

Um secretário osso duro de roer

José Lima Santana
Professor da UFS

De concreto não havia nada. Nem um aviso. Ninguém sabia de nada. Mas, as especulações dominavam a cidade. Todo mundo tinha o que dizer. Palpites não faltavam. Cada um sabia mais do que o outro, mas, de bom mesmo, de verdadeiro mesmo, ninguém sabia. Na balaustrada da varanda, Totico de Totoco de Maria da Penha arremessou um punhado de milho debulhado para as galinhas que se chegavam com o seu “ti-ti-ti-ti”. Galinhas gordas, boas poedeiras, de uma raça que não chocava. Nunca chocava. Para tirar pintos, deitavam-se os ovos delas noutras galinhas da raça caipira. Ovos grandes, avermelhados como as próprias galinhas. 

A cidade andava aflita desde o mês anterior. O vice-prefeito Neneca do Grotão acabara de assumir o cargo em face do falecimento do titular, Belarmino Teixeira, vulgo Belarmino de Dantinhas Cara Larga. O pobre homem morreu de repente. Teve lá um troço, depois do almoço e se foi desta para melhor. Na verdade, morreu de nó nas tripas. A dor devia ter sido tão grande, que ele morreu se estrebuchando, mijado e cagado. Um quadro feio de se ver. 

Neneca do Grotão assumiu com vontade de fazer um bocado de coisas. Vereador em três mandatos, ele chegou a vice-prefeito com a força do dinheiro do pai de Belarmino, Romualdo Dantas, o Dantinhas Cara Larga, fazendeiro e agiota, no tempo em que na cidade não tinha nenhum Banco. Ele era o “Banco” da cidade e da região. Romualdo saiu pelo mundo comprando votos. Ninguém dava nada, no início da campanha, pela eleição da chapa Belarmino-Neneca. Pois não foi que a dupla ganhou de lavada? Mais de duzentos votos de dianteira. As eleições anteriores não passaram de trinta votos de frente. Doze, vinte e sete, dezoito, vinte e seis e sete votos a mais, para os cinco últimos prefeitos, antes de Belarmino. Neneca tinha caído nas graças de Romualdo, pois era seu afilhado de batismo. Muitos quiseram ser o vice na chapa de Belarmino, mas Romualdo Cara Larga impusera ao filho e a todos do partido o nome de Neneca. 

O novo prefeito enfrentou, porém, um problemão. E este se chamava João Bosco Cara Larga, irmão do finado prefeito, e de rosto rechonchudo como o pai. Ele era o secretário-geral da Prefeitura. Aliás, na “Viúva” só tinha um secretário. Cidade pequena, funcionalismo reduzido, um secretário resolvia tudo. E, a bem da verdade, era um sujeito tinhoso, do tipo que fazia tudo bem feito, mas centralizador como um condenado. O irmão prefeito, aquele que se fora, nele depositava inteira confiança. Diziam até que João Bosco era o prefeito de fato, tal o poder de mando e de desmando de que ele se arrodeava. 

Neneca queria botar no lugar de João Bosco, um primo de sua mulher, Geraldinho Boca de Sapo, um ginasiano. Naquele tempo, eram raras as pessoas, ali, na Borda do Campo, que tinham tirado o curso ginasial. Ter o ginásio era como ter-se doutorado. Porém, Neneca esbarrava em um valado de macambira, em uma moita de cansanção, de nome Dantinhas Cara Larga. Como substituir o secretário-geral, filho do todo-poderoso financiador da campanha? 

Na cidade, as apostas eram feitas aos montes. Povinho danado que adorava uma aposta. Apostava-se em tudo. Até em corridas de preás. Borda do Campo era, talvez, o único lugar do mundo no qual se criava preás, para disputar corridas. Uns diziam que Neneca era cabeçudo e haveria de virar a mesa. Apesar de dever atenções ao “banqueiro” da cidade, seu padrinho, ele precisava dar a sua cara à administração pública municipal. Ou faria isso, ou seria engolido pelo rolo compressor chamado João Bosco Cara Larga. Outros diziam que o jovem Cara Larga, o filho caçula dentre os dezoito que Romualdo Cara Larga ajudara a botar no mundo, não sairia da Secretaria Geral. Dos dezoito filhos de Dantinhas, apenas doze sobreviveram. A mortalidade infantil era muito grande, naquela época. 

Passaram-se duas semanas. Nada de Neneca ajeitar-se como queria na Prefeitura. Um mês, e nada. E aí se deu um caso estranho. Uma funcionária municipal, Dorinha Guedes, apareceu grávida de repente. Um bucho ligeiramente crescido. Um escândalo. Moça igrejeira, beata mesmo, embuchada daquele jeito, sem ter namorado ou capa de sela, era um despautério. Chamada na chincha pelo vigário, Padre Felippo Bianucci, um italianão com voz de trovoada, Dorinha confessou que o pai do menino era João Bosco Cara Larga, o todo-poderoso secretário-geral. Ah, foi um Deus nos acuda! O padre partiu para cima de João Bosco, sujeito casado e pai de três filhos. Casado, por sinal, com uma prima-irmã de Dorinha, Cecília de Ângelo do Coité. 

Neneca entrou nos azeites. Nunca que ele teve um caso com Dorinha, que era como uma irmã para ele. Ela só podia estar de conluio com alguém para assegurar que estava grávida dele. Uma armação! Se alguém deflorou Dorinha, não tinha sido ele. “Sou um homem de respeito. E essa moça, tão querida lá em casa, agora virou uma vagabunda”, disse João Bosco ao padre Felippo, com voz firme, sem titubear. 

Foi aí que as apostas aumentaram. Neneca não iria jamais consentir que o secretário-geral da Prefeitura fosse um desonrador de moça donzela. Não pegaria bem para a sua administração. Eram favas contadas. João Bosco seria apeado do poder. 

Neneca chamou para uma conversa o pai e o filho, ou seja, Romualdo Cara Larga e João Bosco. Da conversa ninguém jamais soube uma palavra. O certo foi que, depois da conversa, João Bosco foi exonerado. 

Dorinha Guedes nunca pariu. Mudou-se para a capital, forrada de dinheiro, como se dizia em Borda do Campo. Até casa comprou. Tudo não tinha passado de uma armação, para que Neneca pudesse dar um chute no traseiro de João Bosco Cara Larga, irmão do finado prefeito e filho do mangangão endinheirado da cidade. 

Neneca tocou a administração, ajudado pelo ginasiano Geraldinho Boca de Sapo. Seis meses depois, o novo prefeito sofreu um estranho acidente. O jeep da Prefeitura caiu numa ribanceira, numa reta onde jamais aconteceu nenhum acidente. O motorista, Totico de Totoco de Maria da Penha, o criador de galinhas de raça, teve apenas uma escoriação no braço esquerdo. Ele disse que saltou do carro antes que o mesmo desse com a ribanceira. Para muita gente, história mal contada. Coube a Marquinhos Dantas, irmão do finado prefeito Belarmino, e presidente da Câmara Municipal, assumir o comando da Prefeitura. João Bosco estava vingado. Voltou ao cargo de secretário-geral. Naquele tempo, não se falava em nepotismo. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
05/05
11:37

Políticos safados

José Lima Santana
Professor da UFS

Conversa de pé de balcão. Um trago agora, outro mais tarde. A manhã ia-se findando, para ceder lugar à tarde. O relógio de cuco estava para anunciar meio-dia. Faltava um tiquinho. Um minuto? Na vagareza do ponteiro maior, talvez. Mas, na rapidez do ponteiro menorzinho, o dos segundos, um nada. Pronto. O cuco, preguiçosamente, saiu do seu ninho e abriu o bico doze vezes. Meio-dia. Tão certa era a hora marcada, que o jegue Miúdo relinchou, confirmando o meio-dia. Jegue pra lá de bom ao escancarar os beiços no bater da hora certeira. Um jegue-relógio daquele haveria de valer um dinheirão. Todavia, entretanto, e, contudo, “seu” Zezé barbeiro não o venderia por nada do mundo. Um jegue daquele era uma joia rara. Um diamante bruto. Precioso. Além de tudo, um enxertador de primeiríssima. 

Na bodega de Ednaldo, a conversa de pé de balcão continuava miudinha. Flávio de Tonho Zanôio e João Perneta de Chico Mão de Vaca tagarelavam sobre política. Cada qual tinha uma preferência. Flávio era partidário do prefeito. João era da banda de Cordulino Figueiredo, vulgo Bem Te Vi com Sono. As eleições eram as primeiras para governador do estado, desde que os militares deram o golpe de 1964. Ambos, porém, estavam desapontados. Não viam um sujeito de sangue no olho e cabelo nos buracos das ventas que merecesse o voto deles. Naquilo, eles estavam emparelhados. 

Flávio de Tonho Zanôio pediu outra talagada de conhaque de alcatrão. Virou o copo. Cuspiu. O copo de cerveja de João Perneta de Chico Mão de Vaca ainda estava a meio, esquentando. Coisa mais horrorosa era cerveja quente. Quente só café, sopa e mulher, como dizia Zé Brinquinho de Sá Maria Rosa, fina doceira de mil e tantas guloseimas vendidas na feira semanal da cidade. Não havia segunda-feira que as guloseimas açucaradas não voassem até o meio da manhã. 

“Flávio, o que tem de político safado neste país, num tá no gibi. E o que vem por aí de cabra ainda mais safado, até o diabo duvida”, disse João Perneta. “Tu acha mesmo que tem cabra ainda pior do que essa laia que já tá aí amoitada, nesses anos todos que os milicos mandam e desmandam, ou desde muito antes?”, respondeu Flávio, indagando. “Tem demais. Neguinho ficou aí pelos cantos, tudo murcho, aguardando a hora de melar os dedos no pote de mel. Tu há de ver a carnificina. Vai ter dinheiro no bolso da negrada, que vai ser de fazer inveja a bicheiro”. 

O dono da bodega entrou na conversa: “Quando eu morei em São Paulo, um amigo meu lá do interiorzão dizia que o pai dele votava num político que abria o bico para dizer que roubava, mas fazia. Então, um compadre do pai dele perguntou se ele não tinha vergonha de votar num ladrão confesso, ao passo que ele respondeu que era melhor votar num rato velho, que todos sabiam o quanto roubava, do que votar num rato novo, que ninguém sabia quanto iria roubar”. 

Flávio de Tonho Zanôio e João Perneta caíram na gargalhada. “Esse povo lá do sul tem cada uma!”, disse Flávio. E emendou: “Ora, tanto faz um rato velho como um rato novo: todos são gabirús. Roubar mais ou roubar menos, pouco importa. Ladrão é ladrão. De casaca ou de camisa de cotim, tanto faz. O lugar deles é atrás das grades. O que tu acha, João?”. E João: “Eu acho melhor é a gente tomar mais uma. Abra outra cerveja e bote outro conhaque pro Flávio”. O bodegueiro atendeu. 

Naquele instante, entrou na bodega Alaíde de Afonso Pimentel, mãe do vereador Vaguinho Pimentel. “Boa tarde a todos”, disse a mulher. “Boa tarde”, responderam os três homens. “Um quilo de açúcar e uma libra de café em grãos”, ela pediu. Enquanto o bodegueiro pesava o açúcar, João Perneta, aparentado de Alaíde pelo lado materno, perguntou: “Prima Alaíde, tu que é mãe de político, o que tá achando dessa eleição pra governador?”. Ela fez um bico, botou as mãos nos quartos e disparou: “Eu sou mãe de político por um descuido da natureza. Já disse a Vaguinho pra ele sair desse negócio. Política num é meio bom, pra gente decente. É cada um engolindo o outro. É todo mundo querendo se dar bem. Eu mesma num vou votar em fio da gota nenhum. Vou ficar atrepada no muro, olhando pros lados. Num lado tem prego; noutro, tem caco de vidro. Em cima do muro, eu não faço mal a ninguém. Nem ninguém, me faz mal nenhum”.

Ednaldo acabara de pesar também o café em grãos. Eram grãos bonitos, bem limpos e cheirosos. Ah, um café pisado no pilão, café de coador, tinha lá o seu lugar! Um bule fumegando pelo bico, uns bolachões de coco na mesa, um caco de manteiga da marca turmalina de Minas Gerais, era tudo que um pai d’égua merecia de manhã bem cedo ou na boquinha da noite para entreter o bucho e alimentar as lombrigas, como era voz corrente por ali. 

Alaíde despediu-se e ganhou a rua de chão batido. O vento soprava e agitava os galhos dos eucaliptos da pracinha onde as mulheres, no quebrar da tarde, teciam rendas na almofada de bilros. E onde os meninos brincavam de bola de gude ou pião. O vento entrou portas adentro, na bodega, quase arrancando da cabeça de Flávio o chapéu preto novo de baeta. Ele o segurou com a mão esquerda. “Esse vento tá parecendo político quando entra na casa da gente em tempo de eleição. Entra animado igual a pinto no lixo, pra num dizer outra coisa. Depois, vai-se embora, pra voltar quatro anos pra frente. Por onde andará o vento, quando passa e vai embora? Ninguém sabe. Assim também é com os políticos. Ao bem da verdade, toda regra tem exceção. Eu sei. Mas, no geral, é uma cambada da moléstia. Os poucos que se salvam, a gente conta nos dedos”, afirmou Flávio. 

João Perneta sorveu mais um gole de cerveja, quase quente. O dono da bodega atendia outra freguesa. Mais uma lufada de vento entrou sem pedir licença. Ainda mais forte. O inverno estava indo embora. O vento soprava para enxugar a terra. Quem enxugaria a água suja da política? Quem haveria de prender os ladrões, todos eles, de todos os lados? Só quem poderia fazer isso eram Flávio de Tonho Zanôio, João Perneta de Chico Mão de Vaca, Alaíde, Ednaldo bodegueiro, “seu” Zezé barbeiro e quem mais não tolerasse os ratos velhos ou novos da política. 
 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
22/04
14:55

Joaquim Guedes e a Rapariga

José Lima Santana
Professor da UFS

A cidade de Monte Azul amanheceu em rebuliço. De rua em rua, de casa em casa a conversa era a mesma. Até na sacristia da Igreja Matriz, onde as beatas esperavam o velho cônego para tomar-lhe a bênção, a conversa não variava. São Benedito, o padroeiro da cidade, já devia estar ensimesmado com aquela lorota toda. O sacristão Toinho Beiço Mole entrou na conversa para dizer que uma surra muito grande tinha sido aplicada ao preso. O delegado, capitão Maurílio Quebra Osso, não alisava ninguém. Nem mesmo um sujeito de mais de sessenta anos de idade, como era o caso do preso.

O dia foi alteando, o sol pinicando a pele das pessoas, muitos afazeres negligenciados e a conversa era a mesma. Conversa amuada. Na delegacia, o preso gemia. Duas ou três costelas quebradas. Filete de sangue escorrendo de um canto da boca. A camisa ensopada na frente. Aliás, rasgada de tanta pancada. Uma situação lastimável. Outro preso, um bêbado franzino, tentava consolar o ensanguentado, que estava encolhido num canto da cela.

Até aquele momento, ninguém intercedera pelo preso. Também, não adiantaria. Maurílio Quebra Osso estava por conta. A desfeita que o preso fizera à casa de “seu” Manequinha Gomes não merecia perdão. Um desaforo desmedido. Uma desonra. Quem fazia o que o preso fez, outra coisa não merecia senão umas boas pancadas, uma surra de cipó caboclo e xilindró. Na cidade não tinha advogado de morada. O juiz e o promotor só apareciam de quinze em quinze, pois a cidade não era cabeça de comarca. Logo, a autoridade plena era o delegado Quebra Osso.

Para assuntos da Polícia, o prefeito não contava. Este era da UDN, ao passo que o delegado era do partido do governador, que era o PSD. O prefeito, pois, estava de baixo. Não piava. Restava o velho cônego Afrânio Vilanova, cambaleando com o peso dos seus oitenta e alguns anos, ansiando pela nunca vinda substituição. O bispo já lhe prometera uma centena de vezes que lhe arranjaria um substituto, e nada. Porém, naqueles dias, o velho cônego encontrava-se de cama. Uma gripe com cara de herege o consumia. Algumas beatas falavam em pneumonia. “Seu” Aristides da Farmácia Brasil, contudo, afiançava que era, sim, uma gripe desalmada. Uma cepa nova, que estaria causando mortes por aí.

Ninguém tinha forças para interceder pelo preso. A prisão dera-se na tarde anterior. O delegado fora acionado por um filho de “seu” Manequinha Gomes, que, aflito, exigia uma providência contra um sujeito que destratara a sua irmã Maria de Fátima, moça de procedimento irretocável, de todo mundo conhecida e por todo mundo amada. Era a cantora número um do coro da Matriz. Voz de veludo a encantar os fiéis nas missas e, especialmente, na Sexta-feira Santa, ao entoar o canto da Verônica, abrindo a toalha que continha a estampa do rosto ensanguentado de Jesus, fazendo as pessoas chorarem de compaixão. Um canto dolorido.

O sujeito que estava preso e ensanguentado com duas ou três costelas quebradas, fora à casa de “seu” Manequinha Gomes, querendo falar com o pai da “rapariga que atende pela graça de Maria de Fátima”, como ele dissera em alto e bom som. O desgraçado chamara a flor da casa de “rapariga”. A casa dos Gomes não era um cabaré, um rendez-vous, para nela abrigar uma rapariga. E, ainda por cima, detratar Maria de Fátima, chamando-a de “rapariga” soava como se fora um sacrilégio. O pai da moça deu com o sujeito no chão. Sapecou-lhe uns tabefes. Só não lhe abriu o quengo porque uns vizinhos não deixaram. “É melhor chamar o delegado Quebra Osso”, disse alguém. O menino correu à delegacia. E, logo, estava o sujeito preso e comendo cipó caboclo no lombo. Cipó caboclo e retranca de janela. Daí as costelas quebradas.

Bem. Vamos aos finalmente. O tal sujeito era o português Joaquim Guedes, dono de abastado empório na cidade de Jaqueira Alta, dali distante coisa de quinze léguas mais ou menos. O filho do portuga, Quinzinho Guedes, conhecera Maria de Fátima, que tinha dezessete anos, e por ela se encantara. Trocaram cartas com nomes fictícios para não chamar a atenção. Encontraram-se duas vezes, furtivamente, quando ela fora à casa de uma tia em Jaqueira Alta. Outras cartas com bilaterais juras de amor. Rapaz de respeito e por demais arreado dos quatro pneus pela morena de olhos orvalhados de desejo, pedira ao seu pai que fosse ter com o pai da moça para lhe pedir permissão a fim de namorar tão sublime criatura.

E foi assim que Joaquim Guedes, o preso ensanguentado com duas ou três costelas quebradas, foi ter à casa de “seu” Manequinha Gomes, para falar com o pai da “rapariga que atende pela graça de Maria de Fátima”.

Naquelas paragens, e disso o portuga, há tantos anos no Brasil, deveria saber, rapariga era mulher da vida livre, rampeira, mulher perdida. Era como entendia o pai de Maria de Fátima. Por isso, todo o fuzuê, a prisão, a surra, o filete de sangue na boca, as duas ou três costelas quebradas.

Tudo, depois, muito bem esclarecido, sobraria para o delegado Quebra Osso, pois o português era tio de cortesia do deputado líder do governo na Assembleia e de um desembargador. Foi transferido e rebaixado para tenente, após a abertura do devido procedimento militar, feito sabe Deus como.

O namoro acabaria não vingando. Quinzinho, filho único, herdaria o cabedal do pai, que morreria uns dez anos depois do fuzuê. Mas, ele não conseguiu esquecer Maria de Fátima, que, aconselhada pelo padre João Nogueira, substituto do velho cônego, metera-se num convento, um ano depois que Joaquim Guedes acabou preso com duas ou três costelas quebradas. Virou freira.

Um dia, de chofre, Quinzinho encontrou-se com Maria de Fátima, serena e bela, no seu hábito branco. Tinham-se passado vinte anos desde que ele pedira ao seu pai que fosse ter com o pai da sua pretendida. Ele continuava solteiro. E ela continuava com os mesmos olhos orvalhados de desejo.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
15/04
17:11

Um Brasil sem golpes e sem ladrões

José Lima Santana
Professor da UFS

O Brasil vive uma situação inusitada, talvez nunca vista antes em sua conturbada história política. Há, manifestamente, uma nítida divisão entre as pessoas, especialmente no que diz respeito aos defensores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de um lado, e aos seus detratores, do outro lado. Aliás, esta situação se arrasta desde que ele chegou à presidência da República, em 2002. Acirrou-se com a reeleição de Dilma, em 2014 e, mais ainda, com o processo de impeachment contra ela. Golpe para os petistas e outros segmentos, ou seja, para os chamados “mortadelas”. Um processo mais do normal para os ditos “coxinhas”. 

Em vários sentidos, a situação do país é muito grave. No fim do ano passado, um general que estava prestes a ir para a reserva disse o que um militar não poderia dizer, dando palpite, por sinal infeliz, em termos políticos, pregando uma intervenção militar. Um absurdo. Uma insanidade. Os regulamentos das Forças Armadas não permitem que os militares se pronunciem politicamente. Mas, como o general estava para vestir o pijama, ficou por isso mesmo até ele ir para casa. Nenhuma punição. Isto não foi bom para a democracia nem para o país. 

Depois, o próprio comandante do Exército, à véspera da decisão do Supremo Tribunal Federal acerca do habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente, a fim de evitar a sua prisão, abriu a boca no mundo, como que a intimidar os ministros do STF. Uma lástima. Uma falta de respeito à democracia. Poucas foram as vozes erguidas contra o discurso ameaçador do general comandante. O ministro interino da Defesa colocou panos quentes, proferindo um discurso chinfrim, do tipo discurso de botequim. O presidente da República, desgastado politica e eticamente, titubeou. Ou melhor, silenciou. É o que ocorre quando não se tem um presidente com legitimação popular e com lisura pessoal. Parlamentares da situação tentaram minimizar a fala do comandante. Já alguns da oposição, criticaram-no. O ex-procurador-geral da República, também. Igualmente, a Anistia Internacional. 

Em sua inoportuna fala, o comandante do Exército disse: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. Para alguns, a fala cheirou a ameaça. Ameaça de emparedar o STF. Ameaça de uma possível reação golpista, caso o STF deferisse a pretensão da defesa de Lula. Ora, na verdade, o Exército e as outras duas Forças Armadas devem, sim, estar atentos à sua missão constitucional. Devem estar debaixo do manto constitucional e legal. As suas missões institucionais decorrem da Constituição Federal. E esta deve ser preservada e cumprida à risca por todos, inclusive pelos militares. Aliás, já se disse alhures que “o militar não é a cabeça da Pátria, mas, sim, o seu braço”. Braço que tem um limite.

Na democracia, todos estão adstritos ao ordenamento jurídico do país. Todos. Na democracia não há lugar para falastrões, fardados ou não. O povo brasileiro deve considerar e respeitar as suas Forças Armadas, que, em certos períodos da sua vida como Nação independente, souberam unir o país, propugnando pela integração do seu território. O Exército, por exemplo, tem as suas origens nas batalhas memoráveis dos Guararapes, na luta contra o invasor holandês. Ali não estavam apenas as bases do futuro Exército, mas, também, as bases do nosso nacionalismo. Uma ressalva: todo brasileiro enquanto cidadão tem o direito de livre manifestação do pensamento. No caso em tela, o comandante do Exército, que, tecnicamente, é tido como um bom comandante, não falou como cidadão, mas, sim, falou politicamente como comandante do Exército, o que lhe é vedado. Ele sabe disso. Nós também o sabemos.

O que não devem ser acatadas são ações ou falas que tenham em vista emparedar autoridades ou instituições democráticas. Jamais. Não precisamos de mais um golpe militar. Nem sequer de ameaças. De quaisquer tipos. Não! Na democracia cada instituição tem as suas funções. Que cada uma as possa cumprir como determina a Constituição. Nem mais, nem menos. 

Por outro lado, com a prisão de Lula, injusta para os seus aliados, mas, justa na visão dos que lhe são contrários, o que importa mesmo é que as provas constantes do processo que o condenou sejam robustas, que possam ter força de validade para a sua condenação. Do contrário, seria uma farsa. E, mais do que isto, espera-se que todos os outros políticos que estão sendo investigados também venham a ser condenados, caso as provas igualmente sejam robustas. Precisamos limpar o país dos seus ladrões de colarinho branco. Chega de políticos desonestos, de corruptos e de corruptores (estes do empresariado), que passaram a vida se locupletando dos recursos do povo, tirando deste o direito a obras e serviços que lhe são necessários para a afirmação, do ponto de vista material, da dignidade da pessoa humana. 

O momento que o Brasil vive é muito ruim. “Nunca antes na história deste país” os cofres públicos foram tão arrombados. Ou, ao menos, nunca antes tantas roubalheiras foram descobertas. Há bandidos demais no país. Nos morros, no asfalto, nas planícies e nos planaltos. Vivemos cercados por ladrões. Que cada um pague, e pague mesmo, pelos seus atos desonestos. Todos sem exceção. Não basta prender um, caso haja mesmo motivo para tanto. Tem que prender todos que achincalharam o povo brasileiro. 

Não conheço de perto o processo que levou Lula à cadeia. Nada sei da extensão e profundidade das provas contra ele. Não conheço os processos e os inquéritos em tramitação contra muitos outros “peixes graúdos” de vários partidos políticos. O que sei é o que tenho ouvido, visto e lido através da imprensa. Não posso, pois, fazer um juízo de valor. Apenas espero que não se faça corpo mole ao fazer valer a lei para todos indistintamente. Para TODOS. 
Não podemos mais conviver com bandidos travestidos de homens públicos ou de empresários, nas três esferas federadas. Na democracia não deve haver lugar para assaltantes do poder, nem para assaltantes dos cofres públicos. 

Queremos um Brasil sem golpes e sem ladrões. Um Brasil sem injustiça e sem impunidade. Sem corruptos e sem corruptores. Um Brasil que, como disse o presidente da Província de Sergipe, José Martina Fontes, em 1º de março de 1878, dirigindo-se à Assembleia Legislativa Provincial, tenha “a Lei por guia, o Direito como princípio e a Justiça por fim”. 

Para tanto, é preciso que possamos dar vazão às palavras do jurista alemão Rudolph von Ihering (1818-1892): “O fim do Direito é a paz, o meio de atingi-lo é a luta. Enquanto o Direito tiver de contar com as agressões partidas dos arraiais da injustiça – e isso acontecerá enquanto o mundo for mundo – não poderá prescindir da luta dos povos, dos governos, das classes sociais, dos indivíduos”. 

A luta é de todos nós. Lutemos, pois. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
08/04
14:46

Um avô arrependido

José Lima Santana
Professor da UFS

Catolé de Cima. Cidade do mais alto sertão, mas, banhada por um mimoso riacho, que botava cheias homéricas nos bons invernos e nas melhores trovoadas. No estio, porém, as secas costumavam se prolongar, esfolando o povo, e o riacho tornava-se lama e, depois, areia a cobrir o leito morto.  

No Catolé de Cima, reinava o coronel Benildes Fonseca, apelidado pelo povo de Benildes Não Perdoa. Antigo chefe político, e, mais uma vez, prefeito, casado tardiamente com uma neta do Barão da Lagoinha. O casamento do coronel juntou fortunas. Dona Marieta, a neta do Barão, era herdeira de terras, gado e comércio. O casal tinha uma única filha. Dois partos de Dona Marieta não vingaram. Dois meninos morreriam antes de completar seis meses neste mundo. Restou ao casal Maria Clara. Formosa menina, que se tornou uma moça encantadora. Educada no colégio das freiras, na capital, era uma moça refinada. Tocava piano e escrevia versos. 

O coronel Benildes tinha a pretensão de casar a filha Maria Clara com um filho do também coronel Zeca Borborema, atilado chefe político da cidade vizinha, Catolé de Baixo. Benildes queria netos que substituíssem os filhos que não os pôde ver criados. Os dois coronéis, Benildes e Zeca, eram do mesmo agrupamento político, desde os tempos dos seus respectivos pais, nos idos do Império de Pedro II. Houve uma aproximação, ou tentativa, arranjada pelos pais, entre Maria Clara e Rodolfo Borborema, um tabacudo fanfarrão e grosseiro, sem estudos de valimento. O máximo que Maria Clara conseguiu fazer foi abrir um sorriso forçado, na hora dos cumprimentos. Aquele casamento arranjado não daria certo.

Uma estrada estava sendo aberta entre Catolé de Cima e Brejinhos dos Pretos. O engenheiro João Fortunato, recém-saído da Faculdade, era o encarregado da obra. Ao apresentar-se ao prefeito Benildes Não Perdoa, o jovem conheceu Maria Clara. Olhares cruzados. Corações descompassados. O namoro entre os dois não pôde começar. A filha de Não Perdoa estava comprometida com um grosseirão, mas, sem o seu bem-querer.

Às escondidas, trocou bilhetes com o engenheiro. Uma temeridade. Ao término da obra, que durou oito meses, o engenheiro Fortunato raptou Maria Clara. Tomaram o rumo da capital. Em carta, Maria Clara pediu perdão ao pai e pediu a sua bênção para o casamento. O coronel Benildes não respondeu. Alardeou na cidade que não tinha mais filha. Sentiu-se traído pela filha e desonrado pelo engenheiro que, na língua dele, não passava de um “engenheiro de bosta”, um pé rapado, um desonrador de família. O coronel passou noites sem dormir. Não aceitava a desfeita da filha, o desaforo do engenheiro. Decidiu, enfim, tomar uma providência dura. A mais dura de sua vida. No Catolé de Baixo, o prometido de Maria Clara era zombado pelos adversários do pai. Houve até um entrevero entre Rodolfo Borborema e outro rapaz da cidade, filho de um fazendeiro adversário de Zeca Borborema. Teve tiros de lado a lado. Os dois rapazes saíram feridos, um prometendo dar fim ao outro. As famílias fizeram-se nas armas. Só não aconteceu uma tragédia porque o major Bezerra, novo delegado de polícia, tomou as providências e meteu uns quinze na cadeia, até que os ânimos serenaram. Mas, garantia não havia de que tudo estava terminado. Não ali no sertão.

O casamento de Maria Clara com o engenheiro Fortunato foi realizado. A família do moço tinha alguma influência na sociedade da capital. Família de comerciantes e de altos funcionários públicos. O governador do estado foi padrinho do casamento por parte do noivo. 

Ao tomar conhecimento do casamento da filha, Benildes Não Perdoa enlouqueceu. Chamou Bernardinho Olho de Cobra Verde, homem de sua inteira confiança. Entregou-lhe o envelope da carta de Maria Clara. Ali estava o endereço. Olho de Cobra Verde tinha uma missão delicada. Lavar com sangue a honra ferida do coronel. E lavar do modo mais duro. Ele deveria dar cabo da filha do coronel e do engenheiro. Bernardinho, como se poderia dizer, viu Maria Clara nascer. Foi ele quem a ensinou a montar no pônei Pinrinlim. Matar a menina Maria Clara? O engenheiro fosse lá. Porém, a menina... A menina que ele carregava nos braços, que levava para a escola da professora Gilda Soares, que mais isso e mais aquilo. Não deveria fazer o serviço, mas, por outro lado, era fiel ao coronel. Um dilema. Um dilema desgraçado. 

Missão era missão. Bernardinho Olho de Cobra Verde jamais negou fogo ao coronel Benildes Não Perdoa. Assim, tomou o rumo da capital. Endereço assuntado na cabeça. Não foi difícil dar conta da Praça Alvarenga. Número 46. Era um sobrado. A casa dos pais do engenheiro ladrão de moça. Era um sábado à tarde. O casal saiu de casa de braços dados. Iriam ao cinema. Na esquina da loja “Sapataria Chic”, a morte estaria à espreita do jovem casal. O jagunço Olho de Cobra Verde puxou o gatilho, à queima-roupa. Disparou no engenheiro. A mão tremeu. Disparou em Maria Clara. Alvoroço. Havia pessoas na rua. Dentre elas, um soldado da polícia militar. Este, de supetão, reagiu e matou Bernardinho Olho de Cobra Verde. Maria Clara e o esposo foram socorridos. Ele foi atingido quase à altura do coração. Ela, no ombro esquerdo, de raspão. Resistiram. Salvaram-se. Na delegacia, Maria Clara preferiu dizer que ela e o marido foram vítimas de um assalto. O caso foi encerrado. Ela não queria envolver o pai. Afinal, apesar de tudo, era o seu pai. Um pai desatinado. Ferido. Bruto. 

Maria Clara, após estar plenamente restabelecida, enviou outra carta ao pai. “Meu pai, eu compreendo a sua raiva, o seu desespero. Mas, meu pai, por que tirar as nossas vidas? Por que tirar a vida de um inocente, que eu trago no meu ventre, e que é o seu neto? Se eu lhe envergonhei, meu pai, foi por amor que eu o fiz. O meu coração me entregou ao meu marido desde aquele dia, quando ele esteve em nossa casa. Eu não poderia me entregar ao rapaz que o senhor queria me dar como marido. Eu seria uma mulher infeliz. O senhor queria me ver infeliz? A sua única filha? Eu lhe perdoo, meu pai. O meu coração de filha continua a lhe respeitar. Diga a mamãe que eu a amo muito, como amo ao senhor também. Muito. Apesar de tudo, eu volto a pedir a sua bênção. Para mim, para João e para o seu neto. Maria Clara, sua filha”.

O coronel não respondeu. Passaram-se dois anos. João Fortunado tornou-se engenheiro do Ministério da Viação. A família mudou-se para o Rio de Janeiro. O jovem começou a fazer uma brilhante carreira no serviço público federal. Passaram-se outros três anos. O filho de Maria Clara, Benildes Fonseca Fortunato, completaria seis anos. A família estava em visita aos parentes paternos, na capital do estado. Maria Clara tomou uma decisão que teve o apoio do marido. Foram ao Catolé de Cima. Um risco que precisavam correr. Encontraram o coronel sentado na cadeira de balanço, na grande sala de visitas. Benildes Não Perdoa se assustou. Não teve tempo de reagir. “Meu pai, a sua bênção. Este é Benildes, o seu neto”, disse Maria Clara, apresentando o menino. O velho coronel franziu a testa. Olhou para a filha. Olhou para o neto, que tinha o seu nome. Caiu em prantos. Ajoelhou-se diante da filha. Abraçou-a pela cintura. Depois, abraçou e beijou o neto, ainda em prantos. Abraçou o genro. Vida que seguiria.                     


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
01/04
21:22

Encontros à meia-noite

José Lima Santana
Professor da UFS

Noite de lua cheia. O céu pipocava de estrelas, como se fossem olhos de anjos espiando o mundo. Ronaldo de Zé Ramo lorotava no telheiro da bodega de Vicente Timbira de Valdemar do finado Peixotinho. Lorotava com Geminiano de Sá Dondinha, vulgo Gimio. 

Ali estavam os dois únicos fregueses da bodega, espantando muriçocas e vendo Vicente, o bodegueiro, pescar piabas, cochilo após cochilo. 

- Pois bem, “seu” Gimio, o senhor sabe que neste mundo de tudo há. E num adianta uns metidos a sabichões desdizerem o que o povo sabe e diz. Num adianta. Tem gente que quer saber mais do que Deus. E tem gente descrente em tudo. Eu num descreio. Creio em tudo ou quase tudo nesta vida miserável, que a gente vai levando nestes cafundós de judas. Até bicho barbo eu já vi com estes meus olhos que o chão frio há de comer. Ao bem ver, não o chão, mas os bichos miúdos que nele há. Então, “seu” Gimio, eu vinha, noite dessas, em plena Quaresma, e por volta da meia-noite, sem ter feito nada de que eu me lembrasse, assoviando pelo caminho, quando, de repente, avistei, a coisa de dez braças de distância, um vulto no meio da estrada do Caga Fogo, logo ali um bocadinho antes da sua casa. Era uma noite de lua como esta. Lua cheia vomitando claridade pelo chão, pelos pés de pau, por tudo que era canto deste mundo. Ah, seu mano, eu vi direitinho! Um horror! Não que eu seja corajoso, que, na verdade nunca fui, mas não cortei caminho nem refuguei. E tampouco fiquei parado, tremendo mais do que vara verde. Não sinhô! Meti os pés e avancei. O vulto estava lá, quieto. Chegando perto, pude ver um bicho que mais parecia um macaco, porém, por estas bandas, se algum dia já teve macaco, deve ter sido sagui gigante. Era um bicho de olhos de fogo, fumacento e enxofrento. O tipo de coisa que um sujeito vê e morre vendo. 

Geminiano interrompeu Ronaldo de Zé Ramo: “Ô Ronaldo, nessa tal noite você chupou um melzinho? Emborcou uns copos passado o pau de milone, como é do seu refinado gosto?” 

Ronaldo cuspiu longe uma cusparada grossa que bem podia servir como argamassa. Bateu a mão na porta da bodega. Vicente Timbira, que acabara de pescar mais uma bacia de piabas, acordou. “Bote mais um milone aí, Vicente, meu primo!”, pediu Ronaldo. Vicente levantou-se esfregando a mão esquerda nos olhos. Botou a pinga no copo sebento, meio esverdeado, como todo copo de bodega pé de chinelo, que dormitava num alguidar de barro, feito pelas meninas do finado Antônio Capa Nêgo. O bodegueiro trouxe a pinga. Ronaldo a engoliu de um trago. “Olhe aqui, ‘seu’ Gimio, deixe eu lhe contar o resto do ocorrido e o sinhô vai tirar suas conclusões. Pois bem. Meti o pé, dizia eu, pra cima do vulto e lá estava um macaco do tamanho da estrada, da mesma largura. Olhei pra ele e ele num tirava os oio de eu. Confesso que, no primeiro instante, como que num piscar d’oios eu tremi um pouco. Só um pouco, que o sinhô sabe, ‘seu’ Ronaldo de Zé Ramo, que gente da minha laia num sai por aí correndo com medo de macaco nenhum, nem grande, nem pequeno. Parente de sagui pra eu é tudo igual: só faz chiado. Quando segurei as carnes e os ossos, puxei o meu facão corta tudo e fiz marcha pra cima do macacão. E gritei: ‘Valei-me meu São Jorge Guerreiro!’. Nisso, uma estrela veio vindo do céu como que caindo em cima d’eu. O céu ficou muito claro. Se a lua clareava, a estrela clareava muito mais. Uma coisa linda de se ver. E foi aí que eu vim saber que macaco tem medo de claridade em demasia. O bicho deu um pinote, bufou e grunhiu, saltando pra dentro dos matos em desabalada carreira. Sumiu no mundo até esta data. Agora, me diga o sinhô, ‘seu’ Gimio: esse macaco apaideguado era coisa deste mundo? De certo que não, meu camarada!”. 

Geminiano de Sá Dondinha sorriu e disse: “Ora veja bem, Ronaldo, um bicho desse não pode ser deste mundo. Como você disse, por aqui não tem macaco. Só tem sagui”.

Passava muito das onze da noite. Vicente Timbira consultou o relógio de parede, enferrujado, mas com um “cuco” em boa atividade. Logo, o “cuco” cantou doze vezes. Hora de fechar a bodega. Ronaldo de Zé Ramo tomou a saideira. Geminiano comprou um pacote de bolachas pros meninos. Despediram-se.

Ronaldo saiu tombando de rego em rego, na estradinha que subia para a sua casa, no beco do Curtume de Floriano. Geminiano desceu para o lado do açude, onde ficava a sua casa, na estrada do Engenho Novo, antiga estrada do Caga Fogo. A lua cheia espalhava a sua toalha prateada. Um vento fresco passeava fagueiro nas estradas. “Conversa de bêbado”, ia pensando Geminiano. Passou da casa do finado Malaquias, preto velho de quem, em vida, os meninos tinham medo. O pobre morrera há menos de um ano, queimado num aceiro de roça, quando o fogo ficou fora de controle e ele, imprevidente, quis apagar sozinho. Com fogo ladeira acima não tinha quem pudesse. 

A poucas braças da sua casa, num capão de mato de Zeca Timbira, irmão do bodegueiro, eis que Geminiano avistou um vulto tomando toda a largura da estrada. Achegou-se. Puxou da cintura a faca luminosa de cortar carne na feira, que marchante ele era. O vulto era de um macaco descomunal. Um bicho de olhos de fogo. Fumacento e enxofrento. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
25/03
13:04

Indignação

José Lima Santana
Professor da UFS

Hoje não tem conto, não tem causo. Tem indignação. Aliás, este poderia muito bem ser o título de um bom causo, de um bom conto provinciano, como eu gosto de dizer. E por que não tem causo ou conto? Porque, na quarta-feira, 21, eu fiquei indignado com uma matéria que li na internet e que foi veiculada em jornais e televisões. 

Depois de espalhar nas redes sociais inverdades (Fake News) sobre a vida da vereadora carioca que foi barbaramente assassinada ao lado do motorista, uma semana antes, uma desembargadora (Pasmem os leitores! Uma desembargadora!) voltou a atacar de forma estúpida, preconceituosa e vil. Sobre o assassinato da vereadora, foi um crime bárbaro como tantos outros que vêm assolando o estado do Rio de Janeiro, que, diga-se de passagem, está pior do que um barco à deriva. Acabaram com o Rio de Janeiro, a cidade e o estado. Ou quase. Só não destruíram porque a altivez do povo, embora sofrido por demais, sobrepõe-se aos desmandos de muitos anos na vida pública. Aliás, a insegurança grassa em todo o país, mais ali, menos acolá. Aqui em Sergipe, a situação é muito séria.

Retornando à minha indignação, a tal desembargadora insurgiu-se, novamente nas redes sociais, contra a notícia dada na “Voz do Brasil” acerca de uma professora do Rio Grande do Norte, que é portadora da síndrome de Down. A tal desembargadora tripudiou da situação da professora, que, de forma digna, exerce a sua profissão há dez anos. Que Deus a abençoe! E que depois dessa conduta desditosa e desatinada da tal desembargadora, a professora potiguar, do alto da sua dignidade, jamais venha a ser alvo de uma conduta mesquinha e criminosa como a dessa tal desembargadora. 

Como é que uma pessoa formada em Direito, que chega ao mais alto posto da Justiça do seu estado, afronta descaradamente a Constituição Federal, que prima em combater todas as formas de discriminação, e, mais do que isso, leva a sua afronta “às vias de fato”, atacando uma honrada professora, que, dá para imaginar a sua luta para chegar à condição de professora, lutou e luta para se afirmar na sua dignidade de pessoa humana, na sua condição de mestra. A você, minha colega – sim, minha colega de magistério –, o meu desagravo, o meu carinho, a minha admiração. Eu sei que você deve ter sofrido ao saber do modo ridículo como a tal desembargadora lhe atingiu. Apesar do desaforo, do desequilíbrio, da estupidez dessa tal desembargadora, não ligue, não. Você é, seguramente, muito mais digna do que esse tipo de gente. Isso mesmo: “esse tipo”. Não há outra adjetivação, neste momento, para ela. Que Deus me perdoe! E que Deus a perdoe!

O desatino dessa tal desembargadora é uma afronta a todas as pessoas de bom senso. Imaginem a qualidade das decisões, dos votos proferidos por essa tal desembargadora. Ah, o noticiário da quarta-feira deu conta também de que a tal desembargadora será investigada pelo Conselho Nacional de Justiça. Tomara. E oxalá ela venha a ser punida de verdade, na forma do que dispõem as leis do país. Essa tal desembargadora não pode ficar por aí vomitando seu vômito sujo na cara das pessoas. Chega de baboseiras! Basta de molecagens! 

Uma magistrada – e poderia ser um magistrado – deve dar-se ao respeito de respeitar as pessoas, quaisquer que elas sejam. Ninguém tem o direito de sair por aí atirando com arma de grosso calibre contra a moral ou a honra dos outros. Quer fazer sujeira? Entre no seu banheiro e fique por lá o tempo que quiser. Ninguém vai dar conta disso. Ponha no esgoto a sua sujeira. Dê-se ao respeito! Assuma a posição de quem exerce o cargo público que você exerce. E não venha para cá me dizer que você fez concurso para estar onde está. Afinal, milhares fizeram concurso para estar no Poder Judiciário, para realizar a prestação jurisdicional que lhes compete. Você não é a bola vez. Você não é a última garrafa de refrigerante no deserto. Você não é a rainha da cocada preta. Você, simplesmente, não é. 

Débora Seabra é a professora com síndrome de Down, que foi atacada pela tal desembargadora. A professora, de 36 anos, atua há cerca de dez como auxiliar de desenvolvimento infantil em turmas de educação infantil e Fundamental I na Escola Doméstica, em Natal, no Rio Grande do Norte. Só por isso, esta santa mulher é merecedora de encômios. Menos, claro, da parte da tal desembargadora. É uma pena! E é uma pena o fato de uma magistrada assentada na Corte de Justiça de um dos nossos estados-membros atacar as pessoas como ela ataca. 

Parabéns, professora Débora! Continue com o seu trabalho nobilitante. Que Deus lhe abençoe. O resto é fumaça. Fumaça que se esvai, embora tenha lhe doído muito. Isso eu não posso sentir, mas, posso muito bem avaliar. Porém, não há dor que não passe. O que não vai passar facilmente é a minha indignação. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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