14/10
15:16

O Dia D: 28 de Outubro

José Lima Santana
Professor da UFS

Vem aí o segundo turno das eleições. Para a Presidência da República, os dois candidatos escolhidos pelos eleitores despontam nas pontas, nas extremidades políticas à direita e à esquerda.  E isso causa uma divisão acentuada entre os eleitores. Os extremos vão ao embate. Desde o início da campanha, no primeiro turno, as mídias sociais encheram-se de rivalidades e, até certo ponto, de ódio. Os seguidores dos dois lados que despontavam na dianteira e que acabaram se confirmando para a disputa no segundo turno trocaram farpas, enfrentaram-se, discutiram, debocharam uns dos outros, tendo por ponto central as figuras dos dois candidatos, o do PSL e do PT. 

Na eleição de 2014 também ocorreu uma divisão muito nítida entre os eleitores. Todavia, agora, o acirramento tornou-se muito maior. Há até mesmo laivos de ódio entre alguns seguidores dos dois candidatos, por vezes alimentados por atitudes dos próprios candidatos ou de seus apaniguados mais próximos. 

Nas ruas, a violência, embora em casos pontuais, começa a ser atiçada por conta do acirramento advindo das mídias sociais, dos palanques etc. Evidentemente, há moleques, bandidos, que se aproveitam da situação para dar vazão aos seus instintos animalescos. E bandidos devem ser tratados como tais, no rigor da lei. Não é admissível que a violência possa ganhar as ruas por conta da eleição. Os próprios candidatos devem posicionar-se firmemente contra todo e qualquer tipo de violência. Devem admoestar os seus eleitores. Devem, eles próprios, conforme o caso, conter-se em certas situações. Devem dar exemplos. Devem ser espelhos. Talvez, um mais do que o outro. 

O próprio mercado, no que tange às expectativas em torno da economia, está em sobressaltos. O mercado é conservador, impelido pelo neoliberalismo econômico, e precisa de segurança, de confiabilidade. Um candidato atende mais do que o outro às esperanças do mercado. Porém, este mesmo não tem propostas seguras para a área econômica. O mercado, então, fica “nervoso”. As operações na Bolsa de Valores e o câmbio não se estabilizam a contento. 

O que podem os brasileiros esperar em caso da vitória de um ou de outro candidato? De um lado, alguns temem o retorno do PT. Do outro, temem a instabilidade que poderá advir do PSL. Estaremos num beco sem saída? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come? Que situação terrível! Qual o menor dos males? Haverá um mal maior e outro menor? 

Vamos esperar o Dia D. O que sairá das urnas poderá ser um filhote de bacurau com pernas de girafa e cabeça de mosquito. Ou outro bicho não muito diferente disso, se for do outro lado. 

Há, ainda, os temores de uma retomada do autoritarismo por parte de um dos candidatos. Autoritarismo de direita e de cunho militar. Mas, do outro lado, há também o temor do mesmo autoritarismo, embora sob outro viés com o aparelhamento cada vez maior do estado por parte de um partido, que, segundo alguns, não tem planos de governo, mas, sim, de poder, como, aliás, um de seus membros condenados por atos de corrupção, apregoou recentemente, obrigando o candidato do seu partido a desmenti-lo. Meu Deus! Dois rumos incertos. Numa verdadeira encruzilhada é onde nós nos encontramos. 

Os dois candidatos tendem a dizer coisas que nunca cumprirão. Dirão apenas para “encantar” os eleitores. Para seduzi-los, cantando o canto da sereia. Que os eleitores possam se acautelar a exemplo de Ulisses, na Odisseia, que se amarrou ao mastro do navio para poder ouvir o canto da sereia sem correr riscos de atirar-se às profundezas do mar sem fim, para nunca mais voltar. Quanto a nós, brasileiros, não devemos cair nas águas dos mares da quimera, que nos querem afundar. 

O Brasil precisa de rumo. Precisa de quem possa nos tirar dessa situação caótica em que nos encontramos, a partir do equilíbrio das contas públicas, cujo déficit beira a 80% do PIB (produto interno bruto). 

O mundo está de olho no Brasil. E o Brasil deve estar de olho no mundo. Mas, nós eleitores devemos estar de olho em quem? 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
07/10
17:54

5 DE OUTUBRO

José Lima Santana
Professor da UFS

Ontem, dia 5, o Brasil comemorou, ou deveria ter comemorado (?) os 30 anos da Constituição Federal. 5 de outubro de 1988. Para o saudoso Ulisses Guimarães, a Carta trintona é a “Constituição Cidadã”. Por um lado, sim. Por outro, não. Afinal, em que pese os muitos avanços em termos de direitos individuais e sociais por ela assegurados, muitos também foram os privilégios que ela abarcou, sabe-se lá o porquê, graças às negociatas entre os senhores constituintes, muitos dos quais nada mais, nada menos, do que “velhas raposas”, da velha política, que parece não passar jamais. Não passa a velha política, nem morrem as “velhas raposas”. Ou algumas delas não morrem, não largam o poder. Ao contrário, tais e quais vermes que comem a madeira carcomida, devoram os carcomidos cofres públicos, que não conseguem guardar, para o uso devido, os nossos suados recursos financeiros, com os quais contribuímos para a efetivação de obras públicas e para a regular e boa prestação de serviços públicos. Ou assim deveria ser.

Constituição Cidadã ou Constituição Cortesã? Há quem sustente a primeira forma. E também há quem defenda a segunda forma. Uma cortesã das mais alcoviteiras. É o que dizem alguns, que enxergam na Constituição uma provedora de privilégios desenfreados.

Bem. Não quero desapontar uns ou outros. Cidadã ou Cortesã, pouco se me dá. A Carta de 1988 é a nossa sétima Constituição (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988). Há quem insista em dizer que seria a nossa oitava Constituição, pois estes levam em conta a Emenda nº 1/1969, à Carta de 1967, que alterou a maior parte dessa Constituição. Eu prefiro ficar com a sétima. Não reconheço uma Constituição em 1969.

Quando eu comecei o curso de Direito, em 1977, a Carta de 1967 tinha recebido a sua sétima emenda constitucional. Sete emendas em 10 anos. Um absurdo. Nós a tínhamos como uma colcha de retalhos. Era como dizíamos na Faculdade de Direito da UFS. Ocorre que em 10 anos, até outubro de 1998, a Carta atual recebeu nada mais do que 19 emendas, quase três vezes mais. E, passados 30 anos, aproximam-se as 100 emendas. Um absurdo! Uma vergonha! Constituição Cidadã? Se, deveras, o fora, já não o é mais.

No momento, há quem defende a manutenção da atual “colcha de retalhos”, mas, há quem defende a convocação de nova Assembleia Nacional Constituinte. Sinceramente, não sei dizer, de repente, qual deve ser o caminho a ser trilhado. Continuar com a que aí se arrasta, ou promulgar nova Constituição? O que perderíamos? Ou o que poderíamos ganhar? Uma coisa é certa: do jeito que a situação vai, haveremos de ter a Constituição mais emendada do mundo. Talvez.

Estamos no ocaso da campanha eleitoral deste ano. Amanhã, iremos às urnas. Os diversos candidatos à Presidência da República falam em reformas: política, tributária, previdenciária etc. Reformar o estado, eis o que deve ser feito. Reformar as estruturas do poder. Reformar o serviço público, acabando ou minorando o aparelhamento do estado pelos partidos políticos que chegam ao topo do poder ou ajudam a chegar, a fim de fazer-se a pilhagem do butim.

Pobres cofres públicos nos quais as impressões digitais de muitos se sobrepõem ou se misturam nervosamente. Maliciosamente. Indignamente. Dos cofres, raspam o tacho. E muitos apaniguados dos poderosos corruptos os defendem de todos os lados. Como queremos mudar este país? Quando o haveremos de mudar?

Teremos de levar a sério este país do qual se disse que não era um país sério. Continuaremos a não ser um país sério?

Ao festejarmos (se é que temos motivos para tanto) os 30 anos da nossa Constituição, deparamo-nos com a mais atípica das eleições. Eleições com opções de extremos. Para onde poderemos ir? Para onde iremos de verdade?

5 de outubro já se foi. Agora, é esperar amanhã, ou seja, 7 de outubro. O que sairá das urnas? As pesquisas têm razão? Esperemos. Que Deus nos acuda!


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
29/09
12:51

O tão esperado Sermão do Padre Nabuco

José Lima Santana
Professor da UFS

Alecrim do Agreste respirava ares de expectativa há cerca de seis semanas. Estava para acontecer aquele que seria o maior evento religioso da cidadezinha poeirenta e empoeirada. Emancipada de Cruz da Serra não faziam dois anos, o primeiro prefeito era o farmacêutico João das Timbiras, aplicador de injeções que acabaria dono do arremedo de farmácia da novel cidade. Não havia ainda uma rua sequer com pavimentação. No melhor dos casos, a pracinha onde mal e mal se sustentava a igrejinha local, dedicada a São Raimundo Nonato e onde celebrava missa uma vez por mês o padre Afonso Xavier, da paróquia de Nossa Senhora do Desterro, em Cruz da Serra, era piçarrada. São Raimundo Nonato era curato daquela paróquia. 

O padre Afonso era diligente, zeloso com as coisas sagradas, querido por toda a comunidade da qual ele era o guia espiritual: Cruz da Serra, Alecrim do Agreste, Cipó de Miroró, outra cidadezinha emancipada por força de junções políticas, e nada mais, além de um sem número de povoações miúdas, médias e grandes, algumas destas esperando também o dia da sonhada emancipação. Em número de almas, o padre Afonso era o guia espiritual de umas 30 mil ou mais. 

No Seminário do Recife, o padre Afonso fora colega de um jovem cearense de nome Francisco Viegas Nabuco, um galego de cabeça chata, que mais parecia uma abóbora de leite suspensa sobre um pescoço atarracado e que mais parecia um cepo de baraúna. Desde cedo, o seminarista Nabuco revelou-se um profundo estudioso do livro santo e dos compêndios filosóficos e teológicos. Era de uma inteligência fulgurante. Tinha uma oratória vibrante, voz de trombeta bem postada, que ressoava pelo mundo afora, varando portas, janelas e frestas de telhado. Uma vez ordenado, o padre Nabuco, como ficaria conhecido, era convidado para pregar em várias paróquias da Diocese de Matão de Dentro e de várias outras dioceses, inclusive de fora do estado. Um orador que arrebatava as multidões. 

Pregação do padre Nabuco era sinônimo de ensinamento bíblico do maior quilate, trazido para a realidade da vida, para o cotidiano das pessoas, que se deixavam tocar por tão auspiciosas lições. Através da Rádio Vale do Sol, o padre Nabuco esbanjava conhecimentos aprofundados da Bíblia, amarrando cada um deles na vivência das pessoas. Nas festas dos padroeiros e das padroeiras a presença do padre Nabuco superlotava as igrejas e seus arredores, pois, não havia igreja por maior que fosse que pudesse absorver tamanhas multidões. E os sermões nas missas solenes arrancavam lágrimas dos fiéis mais contritos. Até autoridades dos governos não se continham, algumas delas recebendo na carapuça as palavras de fogo do padre. 

Conta-se que um determinado governador caiu em prantos quando o padre com aquele vozeirão que Deus lhe deu, olhando diretamente no rosto afogueado da autoridade estadual, disse: “Como pode um homem público, que se diz cristão, que conhece a palavra de Deus, diante de uma seca inclemente como a que estamos sofrendo neste momento, ter a coragem de festejar seu aniversário na capital do país, levando com ele um séquito fenomenal, ao invés de estar de calças empoeiradas, de mangas arregaçadas, ao lado do sofrido povo, cujos destinos Deus lhe confiou? O que tem uma autoridade dessas a dizer a Deus, quando para junto Dele for, a fim de ajustar as suas contas? O que haverá de dizer no juízo final? Que socorreu o povo martirizado pela sede e pela fome? Ou que deu as costas ao povo, para brindar com cálices de fino cristal, bebendo, ao invés de vinho, o suor e o sangue do seu povo?  Teria o governador chorado de remorso ou de raiva? 

Assim era o padre Nabuco. Despachado. E, apesar de toda a erudição de que era dotado, na paróquia a sua caminhada era ao lado do povo inteiro, mas, com predileção por trabalhar junto às comunidades mais carentes. Aliás, alguns desafetos lhe acusavam injusta e descabidamente de “padre melancia”, ou seja, verde por fora e vermelho por dentro. Isto é, diziam que ele era comunista. Um homem de Deus, cuja vida era para servir à Boa Nova do Senhor Jesus Cristo. Como bem o disse São Tiago, o padre Nabuco era vítima da inveja e das rivalidades. Até dentro do próprio clero. Porém, assim mesmo é a vida. Até Jesus fora escorraçado de algumas comunidades daquele tempo e acabaria pregado numa cruz pelo conluio entre os judeus e os romanos. O seu sacrifício, contudo, era para salvar a humanidade, embora os seus algozes não o soubessem. E muitos ainda hoje não sabem ou refutam. 

Era domingo. Dia da festa do padroeiro, São Raimundo Nonato. Alecrim do Agreste amanheceu engalanada. As ruazinhas tortuosas foram enfeitadas com bandeirolas. Um pequeno, mas muito bem caprichado tapete de flores do campo decorava a frente da igrejinha que mal e mal se sustentava de pé, tão carente que era de reforma e ampliação. A missa solene seria às 10 horas, o horário de praxe. A celebração seria na própria pracinha, tal era a multidão que, desde cedo, acorreu à missa. Em frente ao improvisado altar, muito bem arrumadinho, como as velhinhas do apostolado da oração primavam em fazer, cadeiras foram reservadas para as autoridades. Prefeitos das redondezas eram esperados. Dois ou três deputados também. Um secretário de estado representaria o governador. O juiz e o promotor da comarca de Cruz da Serra ali estariam. 

O padre Nabuco estava na cidadezinha desde a noite anterior. Um Jeep empoeirado o trouxera. Beatos e beatas portando objetos sacros esperavam pela bênção do padre Nabuco. Às dez em ponto, deu-se início à celebração. Na pracinha, um silêncio abismal. Ali estava o orador sacro mais afamado. De estatura mediana, agalegado, quase roliço, olhinhos vivazes. Um dia para ser lembrado por todo o tempo. Uma bênção dos céus para a cidade e para aquele povão todo, que ali se comprimia. Batizados e casamentos seriam celebrados após a missa. Um momento inesquecível na vida religiosa daquela gente. A expectativa era muito grande. Todos estavam atentos, esperando a hora do sermão, que, pelo que se ouvia dizer, haveria de ser o mais belo sermão proferido naquela terra ressequida. 

O padre Nabuco iniciou a celebração em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A missa transcorreu sem sobressaltos. Cantos de penitência e glória. Oração do dia. Liturgia da palavra. Primeira leitura, salmo responsorial, segunda leitura. O alto-falante da Prefeitura com quatro bocas, devidamente consertadas, transmitia a missa. O som estava uma beleza. Como o evento sagrado merecia. Após o canto de saudação ao Evangelho, o padre Nabuco dirigiu-se ao ambão. Fez a proclamação. Silêncio. Expectativa. Ansiedade. Enfim, chegara o momento tão esperado: o mais belo sermão que, seguramente, aquele povo de Deus haveria de ouvir. O pregador disse: “Meus irmãos e minhas irmãs. Meu eminentíssimo irmão no sacerdócio e velho companheiro de Seminário, padre Afonso...”.

O padre Nabuco vacilou. Segurou o ambão com a mão direita, o microfone caiu da mão esquerda, e ele próprio tombou. Estava morto. Ninguém sabia, nem ele mesmo, que o seu coração andava por uma peinha de nada.  


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
24/09
11:28

Fedentina Política

José Lima Santana
Professor da UFS

A política como expressão cívica não fede. Ao contrário, ela é importante para o aprimoramento da sociedade. A política não apenas com “P” maiúsculo, mas, sim, com todas as letras maiúsculas. A política é o meio de interação das pessoas no convívio social. É a maneira de as pessoas envidarem esforços para o alcance do bem comum, que, em boa teoria, é a conjugação harmônica do bem de cada um com o bem de todos, como nos ensina o renomado e eminente jurista brasileiro Miguel Reale (o pai), de saudosa memória. 

Mas, a política chinfrim, a maldita politicagem, fede. E fede muito. Fede a politicagem de quem faz uso das mais diversas formas de esperteza para ludibriar o povo e, por conseguinte, para se fazer na vida através da confiança do povo ou da compra da consciência política de parte do povo sob as mais diversas formas de comprar votos ou de enganar os eleitores a cada eleição.

Neste ano, estamos numa campanha eleitoral absolutamente atípica, notadamente no plano federal, ou seja, para a presidência da República. República que, a depender de alguns larápios e figurinhas carimbadas associadas aos larápios, será, se já não o é, uma “Reprivada”. A “res” (coisa, em latim) deixa de ser do povo, para ser de alguns, que se locupletam dos recursos públicos a fim de enriquecer e de se manter no poder. A safadeza vem de todos os lados. Da direita, quase vitalícia no poder, e viciada, e da esquerda aloprada, que, uma vez alcançado o poder, também se viciou. Direita e esquerda corrompidas, ao menos no que diz respeito aos partidos, que já se encastelaram no poder central. Sem falar, claro, no poderregional (estadual e municipal)
Fede também, a meu ver, a participação de muita gente nas redes sociais. Ora, é justo e amplamente democrático que as pessoas possam exprimir suas vontades e preferências políticas, à direita ou à esquerda. Todavia, fazer uso de “FakeNews” e pregar o ódio são atitudes reprováveis. Beiram ao nazi-fascismo. E todos os lados têm feito uso disso. Lamentavelmente. 

No Facebook, por exemplo, embora haja manifestações lúcidas de cada lado político, respeitando-se os gostos de cada um, há também uma desenfreada tentativa de manipulação das massas e, o que é pior, uma desembestada forma aviltante de ataques e contra-ataques, ou seja, um fogo cruzado que depõe contra a democracia e contra o bom senso. Os “ratos de rádio” agora são “ratos de mídias sociais”. Hackers e tantos outros bichos. 

Muitas pessoas criaram e alimentam uma guerra suja, uma fedentina política insuportável. Os ânimos acirram-se sobretudo entre os defensores de um candidato da direita e de um candidato da esquerda. Os dois estão na crista da onda. Para os dois, há defensores e detratores em profusão. O jogo é bruto entre os apoiadores dos dois candidatos. Chega a dar nojo! 

O país dividiu-se como nunca, especialmente, a partir das eleições presidenciais de 2014. Quem perdeu não soube perder e quem ganhou não soube fazer com que a vitória resultasse em ganhos para a sociedade em geral. Daí veio o impeachment. E em sequência, um atoleiro moral gigantesco de alguns mandatários, que se seguia aos atoleiros anteriores. O mergulho no lamaçal foi quase geral em termos partidários. Uma vergonha inominável. Mas, todos os lados querem posar de bons moços. Ridículos!

Os eleitores midiáticos, com raras exceções, estraçalham-se. Batem boca. Inventam. Mentem. Exasperam-se. Usam as mídias sociais a serviço de seus ídolos. Ou de seus mitos. Mitos? Bem. Este é um problemão. 

Já se disse: “O mito há de ser sempre um desafio, uma abertura, um enigma. De sentido múltiplo e difuso, é através dele que as sociedades exprimem suas contradições, dúvidas e inquietações. Quase indefinível, pode designar desde o mito de Édipo até o de Michael Jackson, passando pelo mito da mulher amada ou da eterna juventude. Que ‘verdade’ podemos encontrar nele? Quais suas possíveis origens e interpretações”?

Pois nas eleições presidenciais de 2018 estamos convivendo com os mitos. Para alguns, porém, há um mito apenas. Aliás, mitos o povo os fabrica. É fácil. 

De qualquer forma, não será custoso recomendar a leitura das seguintes obras, que poderão ajudar a compreender o que seja o mito: “O Mito”, de K. K. Ruthven; “O que é Mito”, de Everardo Rocha; “O Poder do Mito” e “Mitologia Criativa”, de Joseph Campbell; “O Mito do Governo Grátis”, de Paulo Rabello de Castro. E por aí vai. 

Há pessoas que estão mitificando este ou aquele candidato porque se sentem desprotegidas pelos governos. E não se trata apenas de questões da segurança pública, não. Em vários setores da vida pública, a falta de proteção, isto é, de boas políticas, que se traduzam na melhor prestação de serviços públicos e na realização de obras estruturantes, deixa os eleitores em polvorosa. 

Recentemente, o furacão Florence fez com que pacotes de maconha batessem em praias da Flórida, nos Estados Unidos. É a droga do furacão. Um ex-deputado federal me disse que, aqui, há dois furacões: um à direita e outro à esquerda. Resta saber qual deles será eleito. Será o que vai nos trazer pacotes de drogas em termos de mazelas que possam atormentar a já atormentada vida dos brasileiros? Há, nestas eleições, lobos balindo como ovelhas. Mas, cuidado: não passam de lobos travestidos. São os piores dos lobos. 

Faltam duas semanas para as eleições. Há um quadro indefinido. Há um quadro pavoroso no ar. E a fedentina política tem tudo para aumentar. Pobre Brasil!


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
17/09
07:27

Advocacia algemada e dois outros casos

José Lima Santana
Professor da UFS

Segunda-feira, dia 10 deste mês. Fórum de Duque de Caxias (RJ), cidade que eu conheci em 1989, e onde, por sinal, ainda reside o meu afilhado Victor Vilar Gomes, filho do meu compadre Beto (in memoriam) e de minha comadre Lídia. 

Uma advogada inconformada com uma situação sobre a qual a juíza leiga do 3º JEC tinha entendimento diverso e, provavelmente, equivocado. No mínimo. Logo depois, a advogada seria algemada por policiais militares acionados pela juíza. Qual o crime cometido pela advogada, para ser algemada? Ora, ela cometeu o “crime” de ser altiva, de lutar pelo direito da sua constituinte, de não se sujeitar a uma decisão errônea da juíza, no que era direito seu. A juíza leiga (e, claro, nada contra os juízes leigos, que atuam nos Juizados Especiais e, que, via de regra, prestam bons serviços, na forma da lei) foi intolerante. Não agiu com razoabilidade, com prudência. Acabou, assim, causando um problema sério, um desatino, que ganhou as redes sociais, a imprensa, e deixou indignada, como não poderia deixar de ser, a classe advocatícia de todo o Brasil. 

A advogada, após não se ter obtido êxito na proposta de conciliação, pediu para acessar e impugnar pontos da contestação da ré, mas foi informada de que a audiência já havia sido encerrada.A juíza leiga teria solicitado que a advogada aguardasse fora da sala, mas, como ela insistiu em permanecer até a chegada de um representante da OAB, como é de praxe, a polícia foi então chamada para forçá-la a se retirar. Ela insistiu na presença do representante da OAB, para aquele procedimento. Ela tinha um mandato procuratório e por ele deveria zelar. Um (a) advogado (a) que se preza age assim mesmo. A ação era de danos morais contra uma empresa de telefonia. A advogada defendia uma cliente da tal empresa. 

Valéria Lúcia dos Santos é o nome da advogada ultrajada. Em entrevista prestada depois, ela disse que é mulher, negra, e que precisa trabalhar. Bravo! Bravo!

O estatuto da advocacia – Lei nº 8.906/1994, determina, no art. 2º, § 3º, que, “no exercício da profissão, o advogado é inviolável por seus atos e manifestações”. 

Diversas entidades que congregam advogados e, particularmente, advogadas, emitiram notas de repúdio. Uma enxurrada delas. Oportuníssimas. 

Depois de o porta-voz do TJ do Rio de Janeiro ter tentado “botar panos quentes”, em torno do episódio reprovável e vergonhoso, enfim, o Juiz Titular do 3º JEC houve por bem de emitir o seguinte despacho no processo: “Tendo em vista o ocorrido na audiência do dia 10 de setembro e resguardar o direito da parte autora, torno sem efeito a assentada, redesignoaij[audiência de instrução e julgamento] para o dia 18/09/2018 às 11:00 a ser presidida pelo juiz togado. Intimem-se as partes. Duque de Caxias, 11/09/2018. Luiz Alfredo Carvalho Junior - Juiz Titular”. Bravo!!

O feito foi chamado à ordem. Que a advocacia nunca mais seja algemada. Sim, porque não somente a advogada foi algemada. Foi a própria advocacia, em tese. Um absurdo! Afinal, a advocacia é a defesa do exercício livre de todos os direitos das pessoas, consubstanciados no ordenamento jurídico. 

Diante do ocorrido, a OAB/RJ realizará, na próxima segunda-feira, 17, às 15h, um ato de desagravo à advogada. Eis a convocação:“A Diretoria da OAB/RJ convoca toda a advocacia fluminense para ato de desagravo, que acontecerá na porta do juizado de Duque de Caxias e contará com a presença do presidente do Conselho Federal da OAB, Claudio Lamachia”. O presidente da Seccional fluminense, Felipe Santa Cruz, afirmou: “Sabemos que toda advocacia foi aviltada e algemada juntamente com a nossa colega. Sofremos juntos e juntos diremos NÃO”. Bravo!!!

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Em Redmond, no Oregon, EUA, uma cadela da raça labrador salvou Joshua Horner de cumprir a pena de 50 anos de prisão, acusado de abusar sexualmente de uma menor de idade. Ele foi condenado em abril do ano passado. Durante o julgamento, a suposta vítima alegou que ele havia ameaçado atirar em seus animais se ela contasse o caso à polícia, e afirmou que viu o homem atirar em sua cadela e matá-la como forma de intimidação.Seis meses depois da condenação, o americano pediu ajuda ao Oregon Innocence Project, que contou com a ajuda do promotor do condado de Deschutes, John Hummel. Horner insistiu que nunca atirou no cão e que encontrar o animal provaria que a acusadora havia mentido sob juramento.As buscas foram feitas e as informações eram de que a labradora teria sido entregue à doação. O grupo tentou encontrar o novo dono do animal, mas não teve sucesso. Até que Lucy, a cadela, foi localizada na cidade de Gearhart, em Portland.

A descoberta da labradora indicou que a acusadora de fato havia mentido ao testemunhar, segundo o procurador distrital. O juiz do condado de Deschutes, Michael Adler, decidiu então anular o caso.Depois que Lucy foi encontrada, a acusadora faltou a um encontro em agosto para discutir seu testemunho. Na última quarta-feira, um dos investigadores soube que ela estava em uma casa perto de Redmond. Quando ele encostou o carro na entrada da garagem, para a contatar, ela saiu correndo. O caso foi encerrado e Joshua Horner declarado livre. Bravo!!!!

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Uma mulher foi estupidamente esmagada por um carro na avenida São João, no centro da capital paulista. Morte instantânea. O seu nome era Iracema. O chofer não teve culpa. O amado de Iracema fez uma música em sua homenagem, cuja letra diz assim:“Iracema, eu nunca mais que te vi / Iracema meu grande amor foi embora / Chorei, eu chorei de dor porque / Iracema, meu grande amor foi você // Iracema, eu sempre dizia / Cuidado ao travessar essas ruas // Eu falava, mas você não me escutava não / Iracema você travessou contramão // E hoje ela vive lá no céu / E ela vive bem juntinho de nosso Senhor / De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos / Iracema, eu perdi o seu retrato”.

Ora, isso é a simplicidade da belíssima música “Iracema”, composição de Adoniran Barbosa, gravada pelo conjunto “Demônios da Garoa”, em 1956, e pelo próprio compositor, sendo a última gravação por Adoniran datada de 1974, pela Odeon. Adoniran, o maior sambista da terra da garoa, tinha um modo peculiar de compor. Suas composições são crônicas que retratam a alma da “inocente” marginália paulistana. 

Adoniran era filho de Francesco Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos da localidade de Cavárzere, província de Veneza. Nasceu a 6 de agosto de 1910, em Valinhos (SP) e faleceu a 23 de novembro de 1982, na capital paulista, aos 72 anos. Quem poderá esquecer de “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” etc.? Bravíssimo!!!!!
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
09/09
19:06

"O Papa Francisco não é digno da cadeira de Pedro"

José Lima Santana
Professor da UFS

“O Papa Francisco não é digno da cadeira de Pedro”. Eu ouvi esta frase idiota de uma pessoa, um dia após um arcebispo italiano, que atuou no corpo diplomático do Vaticano, ter divulgado uma carta à imprensa na qual acusa o Papa Francisco de ter acobertado um cardeal norte-americano, acusado de pedofilia. Na carta, inclusive, o prelado italiano pede a renúncia do Papa à cadeira de Pedro. O caso do cardeal é notório, mas, a acusação contra Francisco carece de provas. O italiano não apresentou nenhuma. Aliás, recuso-me, neste artigo, a citar o nome deste infeliz denunciante. 

As tormentas que Jesus Cristo enfrentou, enquanto esteve neste mundo, Francisco as enfrenta agora, guardadas as devidas proporções. Porém, Francisco não é o único Papa a ser contestado dentro da própria Igreja. Outros também o foram, mais ou menos. Com Francisco a situação de contrariedade por uma parte do “alto clero”, mas, também, no “baixo clero”, é gritante. Por que será? Por ele ser jesuíta (o primeiro Papa inaciano), por ser cá do fim do mundo, como ele mesmo o disse, quando de sua primeira fala ao povo, como Sumo Pontífice, por ser, então, latino-americano, isto é, do terceiro mundo desprezado pelos purpurados do hemisfério norte, especialmente da Europa, branca, rica, dita civilizada, mas, que, arrastou o mundo para duas grandes guerras, além de, como continente predador, colonizou o resto do mundo, explorando-o o quanto pôde e matando milhões de nativos, na América, na África, na Ásia e na Oceania? 

Francisco não agrada pela sua simplicidade, vista pelo clero conservador e ultraconservador como liberal demais para estar onde o colocaram? Por que, então, o elegeram, dentre dezenas de cardeais? Estes que o acusam disso ou daquilo não crêem na assistência do Santo Espírito, quando da eleição papal? Estariam contestando um ensinamento da Igreja? Foi no que deu eleger um cardeal que cozinhava a própria comida, que não viajava na primeira classe dos aviões de carreira, que andava com uma pasta surrada, que dispensou os sapatos vermelhos, o palácio pontifício, o carrão de luxo, que tem se preocupado com os pobres de Roma e do mundo. Um Papa desse não serve aos “bem nascidos”, que esqueceram que o Filho de Deus nasceu numa manjedoura e não fazem de seus corações novas manjedouras para acolher, no dia a dia, o mesmo Menino, que veio a nós como Luz para vencer as trevas, e que se encarna nos irmãos e nas irmãs que mais sofrem. Estes clérigos (ou leigos, quando é o caso) malfadados vivem nas trevas das suas mesquinharias, do seu desamor, do seu espírito de porco. Que Deus na sua infinita misericórdia tenha pena de suas almas, quando chegar a hora de cada um deles. 

O arcebispo italiano deveria ter apresentado provas de que Francisco acobertou o celerado cardeal pedófilo. Ele não as deve ter. Não as tem, com certeza. E por que, então, fez o que fez? Estará agindo a soldo de alguém, de algum grupo dentre os contestadores de Francisco? Sendo um serviçal de última categoria daqueles que o usaram, porque ainda mantêm-se em cargos eclesiásticos no Vaticano ou fora dele? Dá nojo só de pensar nessa gentalha, que se acoberta no manto da Igreja para engendrar as suas maléficas elocubrações. Estejam onde estiverem. 

É evidente que uma pessoa não agrade a todas as outras. E não se poderia querer que fosse diferente. Há quem não goste de Francisco, como há quem não gostava de Bento XVI, de João Paulo II, de Paulo VI, de João XXIII, de Pio II etc.  Até de João Paulo I, que viveu tão pouco como Papa. Ora pode-se não gostar do estilo do Papa, ora da sua doutrina etc. Isso é mais do que natural. Agora, chegar-se ao ponto de dizer besteiras e maldades contra o sucessor de Pedro, é um desatino. Mentes medíocres, maléficas, ancoradas no passadismo, tradicionalistas ao extremo, que, sendo consideradas as devidas distâncias, formariam, se fosse o caso, no grupo de apóstolos que, centrados em Israel, após a ressurreição do Cristo, entendiam que Ele veio apenas para salvar os judeus, daí o atrito com Paulo, que entendeu corretamente que Jesus veio para todos. Francisco é um homem de todos, embora, também corretamente, volta-se para os que estão à margem das benesses da vida, que sejam de ordem espiritual, que sejam de ordem material. A Igreja é porta de entrada para todos. E por ser porta de entrada, não pode nem deve fechar-se em suas quatro paredes. Ela precisa seguir o caminho do Salvador, que saiu pelo mundo, anunciando o Reino e a sua Boa Nova. 

Dizem alguns que Francisco é, teologicamente, frágil. Meu Deus! Francisco é um jesuíta. Os inacianos não são frágeis em teologia. Não são. E Francisco não o é. Ele pode até, na ânsia de ver a Igreja em saída, querer antecipar ou mudar situações incômodas para alguns. É um Papa com os pés no chão, que deve muito bem ter assimilado esta frase de Jesus Cristo: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20; Lc 9,58). Muitos, contudo, não assimilaram. Com certeza. Por isso, dizem e fazem muitas besteiras e maldades. 

Francisco é o homem certo, neste momento tão crucial da nossa querida Igreja. Ele é mais do que digno, sim, de ocupar a cadeira de Pedro. Que Deus o abençoe e o livre das serpentes e dos escorpiões. 
 


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
02/09
08:27

A Corrida Eleitoral e os Cantos das Sereias

José Lima Santana
Professor da UFS

Começou a corrida. Lembro-me da acadêmica Maria Thetis Nunes, que, quando havia uma vaga na Academia Sergipana de Letras, muitas vezes os postulantes empreendiam uma espécie de corrida, antes mesmo que o corpo do acadêmico falecido baixasse à terra mãe, no que ela chamava de “corrida de cavalos”. Deveras, para ser suave no uso da palavra, tal situação era, e ainda é, uma tristeza! Todavia, a corrida, agora, é pela presidência da República e pelas governadorias, além dos cargos para os Parlamentos federal, distrital e estaduais. Um rolo! Um rolo, que se desenrola a cada quatro anos e, ao que parece, fica cada vez mais difícil para o povo desenrolar. 

O que será de nós, eleitores, nas eleições que estão às portas, especialmente no plano federal? Ou, quem sabe, o que é que nós queremos e o que é que nós haveremos de fazer nas urnas? As opções que temos são as melhores? Em quaisquer eleições, pode haver bons e maus candidatos. É normal que assim o seja. Ou deveria ser. Não vou citar nomes, até para não comprometer o Jornal da Cidade, que me serve o espaço nos fins de semana. Os nomes de maior relevância nas pesquisas eleitorais atendem realmente aos interesses da Nação? Não falo em interesses de grupos, sejam dos “coxinhas”, dos “mortadelas”, ou, seja lá de quem for. E, nessas eleições, há grupos ou defensores de certos candidatos que são de arrepiar. E botem-se arrepios nisso! 

O país está fragilizado politicamente. E moralmente. Cenário perfeito para os chamados “salvadores da pátria”. Nesse caso, pátria com “p” minúsculo mesmo. Esfacelaram o país. E o povo, ou parte dele, vai a reboque de quem quer que seja, e que se apresente com uma mensagem que satisfaça a necessidade de ouvir-se o “canto da sereia”. E as sereias, desde os tempos de Homero, sempre cantam canções tenebrosas, mas que cativam os “marujos” que se entregam de corpo e alma a tais cantos, até afundarem nos seus abismos. Coisa medonha!

A “direita” e a “esquerda” (se é que elas ainda existem, ao menos com a formação do passado) apresentam as suas sereias. Sereias velhas e novas. Sereias que já causaram malefícios. Sereias que tendem a também causar. Estaremos num beco sem saída? É difícil dizer. Ou, talvez, nem o seja, olhando bem o que temos diante dos olhos. Parece que há uma escuridão a caminho. E ela tanto pode vir da “direita”, quanto da “esquerda”. Luz no fim do túnel? Impossível! Nós não estamos nem no meio do túnel, quanto mais no fim. 

As margens já não mais plácidas do Ipiranga precisam ouvir o som de um novo brado. Um brado ritmado, pois nos fizeram perder o ritmo. O povo continua heróico, mas, cada vez mais sofrido, enganado, ludibriado por todos os lados. 

Os fúlgidos (até nisso nos colocam dificuldades, pois melhor teria sido dizer “brilhantes”) raios de sol da liberdade não brilham, pois não brilham a cidadania e a dignidade da pessoa humana, ambas sempre desrespeitadas por quem as deveria respeitar. 

O penhor da igualdade... Num país em que cresce a pobreza, a igualdade está restrita aos que se igualam pelos atos de corrupção ativa ou passiva. Uma nojeira! 
Sim, a morte nos desafia. Que o digam os pacientes do sistema público de saúde, que o digam as famílias dos mais de 50.000 que anualmente padecem de morte violenta. 

Pátria (esta, sim, com “P” maiúsculo) amada, idolatrada (muitos já não a amam nem a idolatram), o que será de ti, diante de tantas sacanagens que contra os teus filhos são praticadas? 

Não, não devemos perder o sonho intenso. Nem devemos deixar fugir de nós o raio vívido. Que o amor e a esperança, um dia, possam vir por nossas mãos, por nossas vontades, por nossas inteligências. 

Que o nosso céu não seja de tormentas. Que ele nos possa sorrir de verdade com a limpidez com que miramos a imagem resplandecente do Cruzeiro do Sul, nas noites estreladas. 

O gigante não deve ter a aparência de um nanico diante das outras nações. Precisa tornar-se, de fato, belo e forte, como um Colosso impávido. Que a grandeza há tanto esperada possa desdobrar-se agora. Não podemos mais esperar o futuro. Chega de espera! 

Que a mãe gentil seja mesmo adorada entre todos os milhares de mães e por todos os seus filhos que não comungam com as vilanias de alguns dos “filhos” de mau caráter. 

Não mais deitado eternamente em berço esplêndido. Que busque inspiração no som do mar e na luz do céu profundo, para, deveras, fulgurar em toda a América, como o mais belo dos florões iluminado pelo sol das terras que, desde Colombo, ficaram conhecidas como terras do Novo Mundo. 

Que a nossa terra seja, sim, mais garrida. Adornada pela ética, em todos os seus espaços. Que floresçam nos campos e nas cidades as flores da inclusão e do respeito, banindo-se os preconceitos e as discriminações. Que sejam preservadas nos bosques e em quaisquer lugares todas as formas de vida, desde as entranhas. Que o amor fraterno e a solidariedade nos encham a vida. 

Que o seu rastro inapagável deixe em nós o amor eterno e o amor pelo Eterno. Que tremule, cobrindo-nos a todos, o lábaro estrelado, essa Bandeira tão bela, nas cores verde, amarela, azul e branca. O passado, o presente e o futuro entrelacem-se para que possamos resgatar as nossas glórias e firmar a paz que todos almejamos.
 
Que a clava forte da Justiça caía sobre aqueles que nos devem, porque de nós eles muito roubaram. É claro que não fugiremos à luta de dar ao Brasil o destino que, desde 1822, o nosso povo almeja. Um dia, haveremos de chegar lá. Afinal, nós adoramos o nosso país e, por ele, e por nós mesmos, não tememos a morte, como não deveremos temer “matar” nas urnas os funestos cantos das sereias. Das novas e das velhas. 

O que nos restará sem os cantos das sereias? Qualquer canto, que não sirva para nos ludibriar. Esse existe? Bem. O mundo gira. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
12/08
20:18

Redemoinhos

José Lima Santana
Professor da UFS

As ruas da cidade foram varridas por um redemoinho, que se formou no Beco do Fedor e saiu rodopiando pelas ruas e pelas duas pracinhas da cidade, que mais parecia um povoado dos confins do sertão. Cidade pobre e de gente paupérrima. Nela, o prefeito, aliás, o primeiro prefeito, pois se tratava de uma cidade nova, recentemente constituído o município, desmembrado de Baixão dos Negros, por obra e graça (ou desgraça?) da política tupiniquim. À cidade, o prefeito comparecia quando as verbas federais chegavam ao Banco do Brasil da cidade vizinha, ou seja, Baixão dos Negros. 

O coronel Neneca Teles de Biaxão dos Negros mandara na política local por mais de trinta anos, elegendo-se e elegendo seus prepostos, intercalados entre dois dos seus mandatos por muitas vezes repetidos. Perdera, porém, a eleição de 1962. Para prestigiá-lo, o governador do estado, que era do mesmo partido de Neneca, aprovara na Assembleia Legislativa a constituição do município de Alvorada. Pobre município! A sede municipal de Alvorada era um povoado paupérrimo. Uma coisa à toa. Na verdade, não era nada mais do que um arruado que se perdia entre cinco becos e dois arremedos de praças. Somente num país sem jeito poderia ser criado um município como Alvorada. Um desastre!

Naquela manhã, o redemoinho que se formou do nada, como sói acontecer com todo e qualquer redemoinho. No Beco do Fedor, onde o bicho nasceu, Dona Cristina de Zequinha Martelo persignou-se. Para ela, e para muita gente, o diabo estava encravado nos redemoinhos, para fazer estripulias. Roupas que quaravam nas cercas de arame farpado ou nas cercas de pau-a-pique foram arremessadas no ar e tangidas para certa distância. Mulheres que estavam por onde o redemoinho passava, seguravam as saias e vestidos. O diabo gostava de deixá-las em situação vexatória. 

Na Rua Coronel Neneca Teles, que era, na verdade, o principal Beco da nova e precária cidade, Tililico de Maria Gorda praguejou com o redemoinho: “Ô diabo do inferno, se soverta nas profundas, satanás de chifre e rabo”! Ao dizer isso, Tililico foi sugado pelo redemoinho e elevado à altura de uns dez metros. Quem viu o pobre ser arrastado, assegurou que o viu espetado pelo diabo com um tridente de fogo. Dele, ninguém mais teria notícias. 

Dona Maria Gorda tinha em Tililico o seu único filho. Viúva, entrevada, dependia do filho para o seu sustento. Tililico era empregado da Fazenda São Francisco. Vaqueiro e tirador de leite. Ganhava uma mixaria, mas era como se sustentava e sustentava a mãe entrevada. 

O prefeito da cidadezinha perdida nos cafundós de Judas era Rodolfo Teles, filho do coronel Neneca. Ao tomar conhecimento do ocorrido com Tililico, o prefeito apresentou-se na casa de Dona Maria Gorda. Prometeu à pobre mulher que mandaria um grupo de pessoas procurar o sumido. Mandaria o padre Gregório Alencar de Baixão dos Negros celebrar dez missas, se preciso fosse. Mandaria buscar no Morro do Cotovelo o afamado xangozeiro Pai Paulinho do Bamburi, que era vezeiro em desmanchar artes do zambeta. O que fosse necessário para trazer Tililico de volta, o prefeito haveria de fazer. Políticos...! O que eles, ou muitos deles, não eram capazes de fazer, para enganar o povo! 

Rodolfo Teles deixou o dito pelo não dito, como era de se esperar. Afinal, promessas de muitos políticos não eram para ser levadas a sério. 
Coitado do Tililico. Passaram-se as horas. Passou-se um dia. Passaram-se alguns dias. Nada. Nenhuma notícia de Tililico. Boatos, porém, eram muitos. Houve quem dissesse que ele estava espetado no para-raios da igreja do Bonfim, na cidade de Rancho Alegre, quinze léguas distante de Alvorada. Outros diziam que ele fora arrebatado para os confins do inferno por ter matado um indefeso gatinho, quando era menino, para se vingar da dona do bichano, Dona Eulália do finado Zenóbio Pé de Pato, que fizera Dona Maria Gorda dar-lhe uma surra desgraçada por causa de umas mangas que ele surrupiara da mangueira espada do quintal da mulher de Pé de Pato. E muitos outros boatos rolaram. Nada de concreto, porém.

Um ano. Dois, três, quatro, cinco anos se passaram. Nada de Tililico. Dona Maria Gorda foi-se entrevando cada vez mais, desde que Tililico fora carregado pelo redemoinho. Dela cuidava a caridade dos vizinhos, especialmente Margarida de Tina Fuxico, benemérita senhorita que zelava pela igrejinha da jovem cidade. 

Manhã de março. Fim de verão. Os primeiros ventos do outono começavam a levantar poeira. Era o prenúncio do inverno que costumava se antecipar, invadindo o outono. Nos trópicos, as estações do ano seguiam o seu próprio curso. A cidade sonolenta parecia cada vez mais com sono. Uma leseira dominava a cidade naquela manhã. De chofre, um redemoinho veio vindo da estrada das Bananeiras, principal entrada da cidade. Era quase um pequeno tufão. Portas e janelas foram cerradas. Ninguém se atreveu a enfrentar o redemoinho. Todos se lembravam de Tililico. O diabo voltava a Alvorada. 

Em frente à igrejinha zelada pela senhorita Margarida de Tina Fuxico, o redemoinho despejou um fardo e seguiu viagem. As pessoas foram saindo de suas casas. A senhorita Margarida, benemérita e fina flor da cidadezinha, abriu a porta da igrejinha dedicada a Nossa Senhora do Desterro. Ela foi a primeira pessoa a ver e a reconhecer o fardo despejado pelo redemoinho. Era ninguém mais do que Tililico. Um milagre! E ele estava em perfeitas condições físicas. Todavia, parecia um tanto quanto envelhecido. Cabelos grisalhos, barba grande, quase batendo no peito. Sim, só podia mesmo ser um milagre. Deus tinha atendido as preces de Dona Maria Gorda, que durante todo aquele tempo não se cansou de desfiar o terço, dia e noite. 

Aos poucos, as pessoas foram se chegando para junto de Tililico. Logo, um cortejo se formou até a casa de Dona Maria Gorda. A pobre senhora entrevada abraçou o filho, aos prantos. “Nossa Senhora ouviu as minhas preces, meu filho. Ela ouviu”, disse a mãe de Tililico, entre lágrimas. A cidade inteira entrou em rebuliço. Todo mundo, que não era tanta gente assim, acorreu à casa de Dona Maria Gorda. Afinal, tratava-se de um milagre. O redemoinho soverteu no mundo, levando Tililico e o devolveu cinco anos depois. Só podia ser um milagre. 

Nem tudo, porém, estava consumado. Seguindo o seu caminho, com ou sem o diabo no seu meio, o redemoinho topou, na estrada do Boqueirão, com o prefeito Rodolfo Guedes, cujo Jeep estava com um pneu furado. O olho do redemoinho, quase tufão, pegou o prefeito de cheio e o carregou. Até hoje aguarda-se a volta do prefeito fazedor, mas não pagador de promessas. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
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