12/08
20:18

Redemoinhos

José Lima Santana
Professor da UFS

As ruas da cidade foram varridas por um redemoinho, que se formou no Beco do Fedor e saiu rodopiando pelas ruas e pelas duas pracinhas da cidade, que mais parecia um povoado dos confins do sertão. Cidade pobre e de gente paupérrima. Nela, o prefeito, aliás, o primeiro prefeito, pois se tratava de uma cidade nova, recentemente constituído o município, desmembrado de Baixão dos Negros, por obra e graça (ou desgraça?) da política tupiniquim. À cidade, o prefeito comparecia quando as verbas federais chegavam ao Banco do Brasil da cidade vizinha, ou seja, Baixão dos Negros. 

O coronel Neneca Teles de Biaxão dos Negros mandara na política local por mais de trinta anos, elegendo-se e elegendo seus prepostos, intercalados entre dois dos seus mandatos por muitas vezes repetidos. Perdera, porém, a eleição de 1962. Para prestigiá-lo, o governador do estado, que era do mesmo partido de Neneca, aprovara na Assembleia Legislativa a constituição do município de Alvorada. Pobre município! A sede municipal de Alvorada era um povoado paupérrimo. Uma coisa à toa. Na verdade, não era nada mais do que um arruado que se perdia entre cinco becos e dois arremedos de praças. Somente num país sem jeito poderia ser criado um município como Alvorada. Um desastre!

Naquela manhã, o redemoinho que se formou do nada, como sói acontecer com todo e qualquer redemoinho. No Beco do Fedor, onde o bicho nasceu, Dona Cristina de Zequinha Martelo persignou-se. Para ela, e para muita gente, o diabo estava encravado nos redemoinhos, para fazer estripulias. Roupas que quaravam nas cercas de arame farpado ou nas cercas de pau-a-pique foram arremessadas no ar e tangidas para certa distância. Mulheres que estavam por onde o redemoinho passava, seguravam as saias e vestidos. O diabo gostava de deixá-las em situação vexatória. 

Na Rua Coronel Neneca Teles, que era, na verdade, o principal Beco da nova e precária cidade, Tililico de Maria Gorda praguejou com o redemoinho: “Ô diabo do inferno, se soverta nas profundas, satanás de chifre e rabo”! Ao dizer isso, Tililico foi sugado pelo redemoinho e elevado à altura de uns dez metros. Quem viu o pobre ser arrastado, assegurou que o viu espetado pelo diabo com um tridente de fogo. Dele, ninguém mais teria notícias. 

Dona Maria Gorda tinha em Tililico o seu único filho. Viúva, entrevada, dependia do filho para o seu sustento. Tililico era empregado da Fazenda São Francisco. Vaqueiro e tirador de leite. Ganhava uma mixaria, mas era como se sustentava e sustentava a mãe entrevada. 

O prefeito da cidadezinha perdida nos cafundós de Judas era Rodolfo Teles, filho do coronel Neneca. Ao tomar conhecimento do ocorrido com Tililico, o prefeito apresentou-se na casa de Dona Maria Gorda. Prometeu à pobre mulher que mandaria um grupo de pessoas procurar o sumido. Mandaria o padre Gregório Alencar de Baixão dos Negros celebrar dez missas, se preciso fosse. Mandaria buscar no Morro do Cotovelo o afamado xangozeiro Pai Paulinho do Bamburi, que era vezeiro em desmanchar artes do zambeta. O que fosse necessário para trazer Tililico de volta, o prefeito haveria de fazer. Políticos...! O que eles, ou muitos deles, não eram capazes de fazer, para enganar o povo! 

Rodolfo Teles deixou o dito pelo não dito, como era de se esperar. Afinal, promessas de muitos políticos não eram para ser levadas a sério. 
Coitado do Tililico. Passaram-se as horas. Passou-se um dia. Passaram-se alguns dias. Nada. Nenhuma notícia de Tililico. Boatos, porém, eram muitos. Houve quem dissesse que ele estava espetado no para-raios da igreja do Bonfim, na cidade de Rancho Alegre, quinze léguas distante de Alvorada. Outros diziam que ele fora arrebatado para os confins do inferno por ter matado um indefeso gatinho, quando era menino, para se vingar da dona do bichano, Dona Eulália do finado Zenóbio Pé de Pato, que fizera Dona Maria Gorda dar-lhe uma surra desgraçada por causa de umas mangas que ele surrupiara da mangueira espada do quintal da mulher de Pé de Pato. E muitos outros boatos rolaram. Nada de concreto, porém.

Um ano. Dois, três, quatro, cinco anos se passaram. Nada de Tililico. Dona Maria Gorda foi-se entrevando cada vez mais, desde que Tililico fora carregado pelo redemoinho. Dela cuidava a caridade dos vizinhos, especialmente Margarida de Tina Fuxico, benemérita senhorita que zelava pela igrejinha da jovem cidade. 

Manhã de março. Fim de verão. Os primeiros ventos do outono começavam a levantar poeira. Era o prenúncio do inverno que costumava se antecipar, invadindo o outono. Nos trópicos, as estações do ano seguiam o seu próprio curso. A cidade sonolenta parecia cada vez mais com sono. Uma leseira dominava a cidade naquela manhã. De chofre, um redemoinho veio vindo da estrada das Bananeiras, principal entrada da cidade. Era quase um pequeno tufão. Portas e janelas foram cerradas. Ninguém se atreveu a enfrentar o redemoinho. Todos se lembravam de Tililico. O diabo voltava a Alvorada. 

Em frente à igrejinha zelada pela senhorita Margarida de Tina Fuxico, o redemoinho despejou um fardo e seguiu viagem. As pessoas foram saindo de suas casas. A senhorita Margarida, benemérita e fina flor da cidadezinha, abriu a porta da igrejinha dedicada a Nossa Senhora do Desterro. Ela foi a primeira pessoa a ver e a reconhecer o fardo despejado pelo redemoinho. Era ninguém mais do que Tililico. Um milagre! E ele estava em perfeitas condições físicas. Todavia, parecia um tanto quanto envelhecido. Cabelos grisalhos, barba grande, quase batendo no peito. Sim, só podia mesmo ser um milagre. Deus tinha atendido as preces de Dona Maria Gorda, que durante todo aquele tempo não se cansou de desfiar o terço, dia e noite. 

Aos poucos, as pessoas foram se chegando para junto de Tililico. Logo, um cortejo se formou até a casa de Dona Maria Gorda. A pobre senhora entrevada abraçou o filho, aos prantos. “Nossa Senhora ouviu as minhas preces, meu filho. Ela ouviu”, disse a mãe de Tililico, entre lágrimas. A cidade inteira entrou em rebuliço. Todo mundo, que não era tanta gente assim, acorreu à casa de Dona Maria Gorda. Afinal, tratava-se de um milagre. O redemoinho soverteu no mundo, levando Tililico e o devolveu cinco anos depois. Só podia ser um milagre. 

Nem tudo, porém, estava consumado. Seguindo o seu caminho, com ou sem o diabo no seu meio, o redemoinho topou, na estrada do Boqueirão, com o prefeito Rodolfo Guedes, cujo Jeep estava com um pneu furado. O olho do redemoinho, quase tufão, pegou o prefeito de cheio e o carregou. Até hoje aguarda-se a volta do prefeito fazedor, mas não pagador de promessas. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/08
14:52

Arrumações políticas e futurologia

José Lima Santana
Professor da UFS

As candidaturas estão postas. Arrumações tão comuns entre os partidos políticos foram costuradas. Algumas costuras são péssimas para os eleitores e para o país. Forjam-se a partir de interesses individuais deste ou daquele político, ou partidários, mas, jamais se levando em conta os interesses da nação. Coligações nem sempre são coligações na essência da palavra. Afinal, etimologicamente, o que vem a ser coligação? Vejamos. Coligação significa o “ato ou efeito de coligar; união, ligação; associação, liga ou aliança de várias entidades ou pessoas para um fim comum”.

Muito bem. Aliança para um fim comum. Porém, nem sempre para o bem comum. Na vida político-partidária as coligações têm em vista facilitar o alcance do poder. Todos os políticos e todas as agremiações políticas objetivam alcançar o poder. Alcançado o poder, todos têm em mente lutar pelo bem comum? Ora, o que é o bem comum? Ensinou-nos o mestre Miguel Reale, o pai, e não o filho, que o bem comum é a composição harmônica do bem de cada um com o bem de todos. Será que é isto mesmo que os políticos e os seus partidos levam em consideração? Seria muito bom que assim fosse. 

É inegável que no meio do turbilhão da política, alguns políticos trabalhem para o bem do povo, para o engrandecimento do seu município, do seu estado e da nação. Repito o que disse no artigo da semana passada: estes são poucos, mas eles existem. E se não existissem, seria o caos definitivo na vida pública. 

Entretanto, há políticos em todos os escalões que esbravejam, que arrotam laivos de honestidade, de trabalho em prol do povo, mas, tão somente, da boca para fora. Quantas vezes eu vi e ouvi isso. Quantos eu conheci ao longo dos meus 45 anos de vida profissional! Na minha cidade, no meu estado e no país. Acredito que todos os leitores e todas as leitoras conhecem políticos desse tipo. São os piores. Os travestidos de “santos”. São horríveis. Conseguem posar de bons moços e de boas moças. Derrapam feio. Fazem dos eleitores, ou de muitos deles, massa de manobra. Descaradamente, compram votos, e, às vezes, sob o argumento de que os outros também compram. Quando não o fazem diretamente junto aos eleitores, fazem-no junto aos chamados cabos eleitorais. Se eles compram os votos, cometendo crime eleitoral, fazendo uso do abuso do poder econômico, não se sentem no dever de assumir compromissos em favor do bem estar da coletividade. Compraram, pagaram, tchau e bênção, como se diz no vulgo. Uma vergonha. 

O país necessita ser reerguido. Não dá mais para suportar os desacertos morais, econômicos, sociais e políticos, sendo que estes últimos têm, em grande parte, causado os demais. Já passou da hora de pegarmos a vassoura para fazer uma exaustiva faxina na política. No mínimo, para reduzir o quadro dos maus políticos, dos maus administradores públicos, eleitos ou nomeados, dos devastadores dos recursos públicos, encastelados no Legislativo e no Executivo. 

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, que se dizia que havia um bloco político essencialmente ético no país, que se erguia contra o bloco antiético. Hoje, sabe-se que não há, se é que realmente houve, esse bloco político ético. Todos os blocos caíram na vala comum. Ainda é possível que se salvem algumas pessoas nos diversos blocos, ou partidos políticos. Pessoas individualmente consideradas. Todavia, blocos ou partidos, na sua inteireza, não. 

As pessoas e entidades da sociedade civil organizada precisam estar atentas ao desenrolar do processo eleitoral. As enganações estarão à vista. Será preciso considerá-las, analisá-las, para, enfim, combatê-las.

O que acontecerá com O Brasil e com os brasileiros a partir de janeiro de 2019? Algum leitor ou alguma leitora arrisca-se a fazer um exercício de futurologia? Eu não me arrisco. Especialmente, diante da “bagaceira” que virá por aí, na campanha eleitoral. Federal e estadual. 

Uma coisa, porém, é certa: precisamos melhorar como pessoas, como sociedade civil organizada, como povo, como nação. Melhorar eticamente. Melhorar no processo de alta estima. Melhorar nas cobranças, ou seja, no controle social da administração pública. Sem tréguas. 

Como padre, eu tenho o dever de alertar os fiéis para a necessidade de votar em candidatos que defendem os valores cristãos, que se põem contra práticas e ideias que contradizem o Evangelho de Jesus Cristo.

Como advogado e professor de Direito, eu tenho o dever de não me calar diante das sem-vergonhices e das mentiras de muitos candidatos. Não induzo ninguém a votar nestes ou naqueles candidatos. Todavia, toco o sino, faço soar o alarme, alerto. Afinal, como diz minha mãe, eu não queimei a língua com papa quente (mistura de leite com farinha, ou seja, mingau de criança pobre). Fui alimentado tão somente com o leite materno até os seis meses de vida. Depois disso, com o mesmo leite e outros alimentos próprios para a idade. Se a língua não foi queimada, está firme. Não posso me calar. Não devo. Nem quero. 

O futuro do nosso estado e do nosso país está em nossas mãos, nas mãos de todos nós eleitores. Se não podemos fazer exercícios de futurologia, podemos ao menos fazer com que o nosso voto não sirva para ser causa de arrependimento. Escolher o que pensamos ser o melhor. Ou, no mínimo, o que provavelmente parece ser o menos ruim. É duro ter que dizer isso, mas é preciso dizer. O voto é um risco. Por isso, devemos ser ariscos na hora de votar. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
29/07
18:25

Eleições de 2018: O que será de nós?

José Lima Santana
Professor da UFS

Quem nos poderá defender dos bandidos travestidos de políticos? Esta pergunta foi-me feita por um aluno, na semana passada. E eu lhe respondi: Nós mesmos! 

Sim, não temos alternativa. O problema é que nós não temos sabido (ou querido) nos defender desses vermes que se apoderam dos mandatos eletivos, e, como representantes indignos do povo, ferindo a Constituição, as leis e a confiança dos eleitores, cometem os crimes mais absurdos, no que diz respeito a se locupletarem dos suados recursos públicos, que sem suor algum eles embolsam, dando bananas ao povo. Para eles, dar bananas já é muita coisa. Puxa!

Eu quero, desde logo, ressalvar os políticos que agem com dignidade no exercício de seus mandatos populares, nos dois Poderes, cujos cargos são ocupados por agentes públicos eleitos. Estes ainda existem. Podem não ser muitos, mas existem, sim. No meio do joio, há também algum trigo. Nem tudo é escuridão na vida política. Há alguns lampejos. Há luzes tremulando. Porém, precisamos de tochas, de muitas tochas acesas, que não se deixem apagar. 

A situação política do país é muito séria. Muito grave. Para onde possamos olhar, há sinais de perigo. Eles estão aí. São um magote, os bandidos que se dizem políticos. Uma boiada imensa. Ou melhor, uma matilha. Lobos vorazes. E eles se abrigam em quase todos os partidos, sobretudo nos partidos ditos maiores, de mais fôlego, de maior capilaridade. Estes partidos acabaram sendo espécies de tocas gigantes, que dão guarida aos lobos. Na direita e na esquerda. Eles contaminaram tudo, ou quase tudo. 

Malas cheias de dinheiro em mãos ou em apartamentos. Dólares nas cuecas são míseras moedas diante de contas multimilionárias descobertas nos paraísos fiscais. Joias adquiridas nas melhores joalherias pagas por empresas de bandidos que servem aos outros bandidos encastelados no poder. Dizem até que apartamentos e sítios foram sub-repticiamente recebidos como propina. Uns afirmam que disso há provas cabais. Outros contestam veementemente tais provas. Na verdade, o que não deve haver mesmo são muitos inocentes no meio de tantas estripulias. Mas, haveremos de ver, ao se tirar a prova dos nove, nos últimos escalões do Judiciário.

E por falar em Judiciário, nem sempre poderemos esperar muita coisa deste Poder. Não do jeito que as coisas têm andado nas bandas de lá, especialmente de lá de cima, bem de cima. 

Eleições presidenciais. Em quem votaremos? Que opções confiáveis nós temos para escolher? Lembro-me de um amigo de Nossa Senhora das Dores, já falecido, que numa das eleições municipais, alguém lhe perguntou: “Em quem você vai votar, barbeirinho”? E ele respondeu sem pestanejar: “Homem, eu estou em cima do muro. Olho para um lado e vejo pregos. Olho para o outro e vejo cacos de vidro. Nessa situação, eu sou doido para sair do muro”? Pois é. Quais as opções que nós temos, à direita, ao centro e à esquerda? Opções confiáveis ou, no mínimo, que não nos assustem tanto assim? 

Vamos aguardar o horário eleitoral? As mídias sociais? Os candidatos haverão de se “desnudarem” diante dos eleitores, ou seja, de nós pobres cordeiros que seremos cortejados pelos lobos? Ora, ora, nós não somos um bando de “chapeuzinhos vermelhos”. Não somos mesmo. Temos o dever cívico de não sermos. Porém, conseguiremos não o ser? Ou, mais uma vez, cairemos nas armadilhas que não queremos ver? 

Quem nos salvará? Um exército medieval não nos salvará. Uma corte angelical não nos salvará. E quanto a nós, queremos de verdade nos salvar?
Direita. Volver! Que desastre...! Esquerda. Vou ver! Que dilema...! Não estamos num beco sem saída? Oxalá não estejamos. Há que nos restar uma luzinha no fim do túnel. Ou este túnel não tem fim, ao menos tão cedo? O que poderemos esperar?

Ah, e ainda teremos que pagar a conta! Financiamento público para os lobos nos engolirem. Nós pagaremos para ser enganados. Para ser pisados. Para ser zombados. Para nos fazer de trouxas. Para... para... para... 

Chega! Basta! Precisamos acertar o passo. Tem que haver uma saída. Ou estamos encurralados? Matilhas adoram encurralar suas presas. Contudo, nós não deveremos nos deixar encurralar. Precisamos ter pernas ágeis como as de cabritos, para pular sobre as armadilhas e para escapar dos cercos. 

Uma coisa é certa: não deveremos deixar de votar. Deveremos fazer escolhas. Com o coração na mão, mas deveremos votar. Não em branco. Não nulo. Nem nos abster. 

Sobre os espertalhões da política, esta frase do Padre Antônio Vieira: “Aquele a quem convém mais do que é lícito, sempre quer mais do que convém”. Eles mergulham na ilicitude e, então, não conhecem a medida de encher. Enchem cada vez mais os bolsos que parecem não ter fundos. Roubam. Descaradamente, roubam. 

Está na hora de dar ouvidos a Eça de Queirós: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

Eleições de 2018. O que será de nós? 

Post Scriptum: A nós líderes religiosos cristãos, cabe-nos anunciar os ensinamentos de Jesus Cristo. Quem anuncia, denuncia. E como disse o célebre reitor da Universidade de Salamanca, Miguel de Unamuno, “Há momentos em que calar é mentir”.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/07
12:00

Minha decepção com um certo Juiz de Direito

José Lima Santana
Professor da UFS

Houve um tempo em que tudo era assim. Como? Vejamos. O Dr. JonalterVieira Andrade era Juiz de Direito da Comarca de Nossa Senhora das Dores. O Promotor de Justiça erao Dr. José Arquibaldo Mendonça de Araújo, que faleceu, aos 42 anos de idade, enquanto exercia o múnus público naquela Comarca, tendo, por conseguinte, virado nome de uma das artérias da cidade, nos meados da década de 1970. No começo, o Juiz e o Promotor chegavam de ônibus, o famoso “buzú”. Aliás, isso era comum. Que o diga o Desembargador aposentado Cláudio DinartDéda Chagas, quando jurisdicionava em Gararu, no começo da década de 1980, onde eu, advogado iniciante na profissão, o conheci.Ele mesmo datilografava numa máquina de escrever mais velha do que a gente. Em Dores, o Juiz e o Promotor hospedavam-se na Pensão Comercial, de Carmelita de Delson, na Praça Mal. Deodoro da Fonseca. Enturmavam-se com as pessoasda cidade. Não me consta que favoreceram ninguém. Não sei de alguém que os desrespeitou como autoridades que eram.

Aliás, eu devo um pouco da decisão que tomei em querer ser advogado, à sugestão de Jonalter e Arquibaldo. Em 1970, quando eu cursava o 4º ano do curso ginasial, o 9º ano do ensino fundamental II de hoje, realizou-se um júri simulado no Colégio Cenecista Regional Francisco Porto, para julgar um personagem da História Geral: Napoleão Bonaparte. Eu funcionei como representante do Ministério Público. Fiz uma acusação “arrojada”, como eles me disseram. O Juiz e o Promotor foram convidados pelo diretor do Colégio, Pe. José Araújo Santos. Compareceram e assistiram a todo o embate. Venci o júri. Os dois, então, chamaram-me e disseram que eu era um advogado nato. Orientaram-me que fizesse Direito. Eu já tinha uma inclinação para o Direito, em face de um debate que tinha ouvido da rua, em frente à Prefeitura Municipal, onde funcionava o Fórum, no andar de cima (prédio que, infelizmente, foi demolido na década de 1980, e que era uma construção do fim do século XIX). Era um júri no qual funcionou como advogado de defesa José GiltonPinto Garcia. Mas, eu tinha outra paixão: História. Direito e História dividiam-me. Até aquele momento do júri simulado e da conversa que Jonalter e Arquibaldo tiveram comigo. Aos 15 anos, então, firmei-me no Direito.

Tudo era muito simples. Todavia, ao mesmo tempo, tudo era muito cordato. Juízes e Promotores, embora próximos de muitas pessoas nas sedes das Comarcas, mantinham uma autoridade inabalável. Prova disso foi o anúncio à boca graúda quando o Dr. José Nolasco de Carvalho estava para ser transferido da Comarca de Nossa Senhora da Glória para a de Nossa Senhora das Dores. Os comentários davam conta de que ele não tolerava furnas de jogatina, não permitia que menores de idade dirigissem nem frequentassem bares etc. Era duro em suas sentenças. Ele, dizia-se, teria feito uma limpeza em Glória. Lembro-me muito bem que as mulheres, dentre elas a minha mãe, ansiavam para que ele chegasse logo à Comarca. A fama o precedia. Era que o meu pai gostava de jogar baralho. Perdia e ganhava dinheiro. E mamãe queria ver se ele parava com o vício da jogatina. Embora ainda menino, eu também gostava de um carteado, de um bom pif-paf, que, em Dores, se chamava “cunca”. E nas festas de fim de ano, na bodega de Ednaldo, rolavam soltas as rifas, no carteado 31. Ainda tinha o 21 e o 9, corrido ou bancado. Muitas eram as furnas de jogatina existentes na cidade.

O novo Juiz de Direito era aguardado com ansiedade e com certo temor por algumas pessoas. O sujeito era brabo mesmo. Era o que se alardeava. Eu imaginava a figura do magistrado. Na minha inocente projeção, ele seria um homenzarrão, de voz de trovão, portando um bigodão parecido com um bocado de lagartas de fogo sobre o lábio superior e abaixo do nariz. Só a sua figura pura e simples deveria meter medo. Era o tipo do sujeito que a gente deveria guardar distância, passar ao largo, caso o visse na rua. Era exatamente assim que eu imaginava ser o Dr. Nolasco, tal a fama que dele fora espalhada. Jocosamente, algumas pessoas diziam que ele era tão brabo que até o seu nome começava com um “Nó” de Nolasco.

Entretanto, aí veio a decepção quando eu o vi. Eu e outros colegas do Colégio fomos à sua posse, todos com farda de gala. O Juiz que eu imaginava grandão era, porém, pequeno na estatura física, mas um gigante na estatura moral e judicante. Um dia, ele já desembargador, eu lhe disse da minha decepção. Ele riu à vontade. E sempre que me encontrava, ele dizia, sorrindo: “Eis o juiz que lhe decepcionou, Dr. Zé Lima”.

Nos últimos tempos, há juízes fazendo porcaria em todas as instâncias. É evidente que a maioria dos magistrados estaduais ou federais ainda mantêm “o passo certo”. Porém, há os que destoam. Que proferem decisões monocráticas ou votos de arrepiar, nos colegiados. Quebram princípios jurídicos consagrados. Pisam nas leis. Criam inseguranças jurídicas. Deixam atônitos os que lidam com o Direito. Arvoram-se em ser “juristas”, mas nem chegam a ser magistrados de verdade. Até na Corte Suprema há exemplos escabrosos. A Corte é Máxima, mas há ministros cuja qualidade jurídica das decisões é mínima.

Que saudade dos tempos em que os juízes e promotores pagavam de seus próprios bolsos as diárias dos quartos de pensões e viajavam de “buzú”!E, diga-se de passagem, não ganhavam tão bem assim.


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/07
11:59

A vida como ela é

(Os setenta e sete anos do ex-governador João Alves Filho)

 

José Lima Santana - É padre, advogado e professor da UFS

 

Nem sempre sabemos por onde haveremos de ir ou o que poderemos encontrar ao longo da caminhada. Não temos à nossa disposição uma eficiente bola de cristal. Ainda bem. No último dia 3, uma filha postou no Facebook uma foto do pai e uma mensagem sobre o seu aniversário. Segundo a filha, o pai nem sabia que estava completando 77 anos de vida. Mas, neste momento, há de se perguntar: que modo de vida? Uma vida carcomida por uma grave enfermidade. A expressão de alheamento do fotografado com o olhar perdido é constrangedora. Especialmente para quem o conheceu de perto, para quem com ele conviveu por longo tempo, na vida privada ou pública.

As pessoas dizem que “a vida não é nada”. Ou seja, estamos sujeitos a qualquer situação, inclusive, claro, à morte. A qualquer tempo. A vida é, sim, um sopro. Pode se extinguir em um décimo de segundo. Pode se deteriorar lentamente, por curto ou longo= tempo. É por isso que a vida deve ser vivida intensamente enquanto dela pode-se dispor em toda a sua plenitude. Porém, nesse viver intensamente, a vida não deve ser desperdiçada. Deve ser palmilhada palmo a palmo, partilhada, momento a momento. Um dia, a pessoa pode estar nos píncaros da atividade laboral, nos solavancos da vida política, no estrelato da vida social, enfim, no auge da glória momentânea de que muita gente gosta. Tudo, todavia, se torna efêmero. A vida passa como as águas de um regato que se hão de perder na imensidão do mar. Sem que uma só gota das águas daquele regato possa ser distinguida depois que elas se entregam ao oceano. Águas absorvidas, diluídas, sem guardar a identidade de outrora. Assim mesmo é a vida.

Para quem não tem fé, a vida é uma marcha autônoma, que se há de findar quando o corpo deixar de ter movimento, por completo. Exauriu-se o corpo, adeus vida! Contudo, para quem tem fé, para quem almeja cruzar a linha do não vir a ser, para deveras continuar a ser, numa vida essencialmente espiritual, a vida ganha nova dimensão. Para os cristãos diretamente apegados aos ensinamentos dos quatro Evangelhos (católicos, protestantes, ortodoxos etc.) essa outra dimensão traduz-se na ressurreição. Para os espíritas e alguns diferentes segmentos religiosos orientais, é a reencarnação.

Mas, eu não me proponho, aqui, a dissertar sobre questões de fé. Eu tenho a minha, muito bem sedimentada no Evangelho de Jesus Cristo, e, por isso mesmo, inabalável, graças a Deus. O que quero levar à discussão é a constatação que fiz e que muitas pessoas fizeram com relação à foto do pai, que a filha expôs e ao seu comentário.

O gesto da filha não deixa de ter sido nobre ao falar do pai com o carinho demonstrado. Disse a filha, no seu texto postado no Facebook: “Confesso, para mim é muito difícil ver meu pai com os olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”. E mais: “Não é fácil para mim (sic) ver MEU PAI o maior homem da vida pública Aracajuana / Sergipana, com Alzheimer, sem se lembrar de coisas e fatos, como seu aniversário de casamento, de idade, pessoas e fatos históricos da sua biografia”.

De fato. Que doença terrível é essa do tal “doutor alemão”, como se costuma dizer no vulgo, o Alzheimer! Entretanto, toda doença incurável ou de difícil cura é horrenda. Aliás, basta ser doença para ser uma coisa imprestável. O mal de Alzheimer aprisiona a pessoa num mundo de alheamento, de esquecimentos. A mente aprisionada de alguém dilacera muito mais as pessoas que convivem com o portador da doença do que o próprio doente. Este está ao desabrigo da normalidade da memória, mas os seus circundantes estão ao desabrido da impotência, pois não podem fazer muito pelo ente querido que, em parte, “deixou de viver” na sua plenitude.


Ainda são palavras da filha desalentada: “Lembro do marido e pai, que largou a família por um POVO que ele tanto amou, mas tanto, tanto, causando raiva na família, pois estava sempre ausente nos momentos mais importantes para todos nós”. Não é fácil fazer tal afirmação. Mas, ela não deixa de ser verdadeira. Quem se dedica a uma atividade ou a uma causa, quem se deixa absorver por uma ou por outra, acaba, sim, caindo no desgaste da falta de convivência familiar mais estreita.


Quem viu de perto o dinamismo de João Alves Filho, nos seus três mandatoscomo governador (e eu trabalhei com ele, nesses três mandatos), sem falar do administrador público municipal que desabrochou à frente da Prefeitura de Aracaju, na segunda metade da década de 1970, levado pelas mãos do governador José Rolemberg Leite, não poderá jamais conceber o homem de “olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”, como disse a filha Aninha. Não falo de sua última participação na vida administrativa, como prefeito de Aracaju. Tanto não falo que não aceitei o seu convite para ajudá-lo. José Carlos Machado, por exemplo, então vice-prefeito, sabe disso, ele que tanto insistiu para que eu colaborasse com o prefeito. Eu tinha outros propósitos: a vida eclesial me chamava e eu não me sentiria bem na gestão municipal por alguns motivos de ordem pessoal, que nada tinham a ver com a pessoa do prefeito.


A vida é como ela é. Ninguém escapa de seus tentáculos. Uns são mais enlaçados do que outros. Uns mais cedo; outros mais tarde. Há laços frouxos; há laços muito apertados. Há laços terrivelmente apertados.




Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
24/06
18:00

Dois fatos desconexos e absurdos

José Lima Santana - é padre, professor da UFS e advogado

Nos últimos dias, dentre tantos fatos acontecidos, ocorreram dois bem díspares, totalmente sem conexão um com o outro, mas, ambos estupidamente absurdos. Um deu- se na Rússia, que sedia a Copa do Mundo. O outro se deu aqui mesmo, nas terras de Serigy.

O primeiro, o da Rússia, tratou-se de um fato indigno de homens de bem, quando alguns marmanjos brasileiros fazendo uso de uma “musiquinha” sacana, machista, do tipo porcaria para os bons ouvidos masculinos ou femininos, levaram mulheres estrangeiras a repetirem palavras na língua portuguesa, que elas não sabiam nem compreendiam, indigestas para as mães, irmãs, avós, tias, primas, esposas, noivas, namoradas, filhas ou amigas dos tais marmanjos. Mas, eles não se deram conta disso. Um deles é oficial da Polícia Militar de um dos nossos estados; outro era (já foi afastado) empregado de uma grande Companhia aérea do país; outro é advogado, e a OAB Seccional do seu estado já se manifestou, repudiando o comportamento vil do que se diz causídico, enquanto outro é engenheiro. Disseram setores da imprensa que outros vídeos, além do que envolve esses tais, foram virilizados. Uma pena! Tudo isso é lamentável. O advogado de um deles adiantou-se em dizer que o sujeito é um bom homem e que teria agido num momento de extravasamento. Extravasou o quê? O que têm em mente sujeitos como esses? Um famoso apresentador televisivo saiu-se com essa: “Eles podem ser bons homens, mas a atitude deles foi de machos”. Ora, homens são machos, em tese. Mas, nem todo macho é homem. Alguns não passam de moleques.

Que coisa chata! Antipática. Aberrante. E, ainda por cima, ajuda a macular o nome já tão maculado do país. Já não chegam os tipos encastelados na vida política que envergonham o Brasil e os brasileiros de bem? Já não bastam as safadezas dos malversadores do dinheiro público, que se acham em quase todos os partidos políticos com representação nos Poderes Legislativo e Executivo, e nos três âmbitos da Federação? Já não chegam as dezenas de milhares de mortes anuais, como se vivêssemos numa guerra civil? Já não chegam...? Já não chegam...? Já não chegam...?

Algum leitor ou alguma leitora poderá dizer: “Ah, mas esse fato é tão desimportante diante dos casos graves que assolam o país!”. Ledo engano! Há gravidades no fato. Porém, seguramente, a maior delas é exatamente a exposição banal de mulheres inocentes, que, provavelmente, diante de tantos turistas que acorreram ao país da Copa, estariam se divertindo, como é tão comum em grandes eventos, estariam tentando ser gentis e acabaram sendo vilipendiadas de forma ridícula. Isso é, sim, muito grave. Não vale jogar lixo sob o tapete. Nem tentar tapar o sol com uma peneira.

Que a Seleção brasileira não tenha, nesta Copa do Mundo, uma atuação ridícula como a desses sujeitos, como a desses imbecis.

O outro fato ao qual me reportei lá em cima, o que transcorreu por aqui mesmo, /no nosso Sergipe tão carente de ajustes, refere-se a uma falsa notícia de que um famoso espírita kardecista da Bahia teria psicografado uma carta do governador Marcelo Déda. Fato desmentido. Ora, quem teve a baixeza de divulgar tal fato inverídico? Qual o propósito de quem o fez? Por que agir dessa maneira? Esperava algum ganho político com isso? Com a inverdade? Com a invocação do nome de uma pessoa falecida, que deve ser deixada em paz, assim como também em paz devem ser deixados os seus familiares. Essa foi uma atitude tresloucada. O mundo da política já está tão sujo! Precisa de mais sujeira? Decerto que não.

Lamentável sob todos os aspectos. Há políticos de vários segmentos partidários que estão sempre invocando o nome do governador Marcelo Déda. É como se cada um quisesse puxar para si um pedaço do seu espólio político. Com qual direito? Quem tem esse direito? Talvez o seu partido, o partido ao qual ele era filiado, o tenha. Talvez. Eu digo talvez porque os partidos não pertencem às pessoas, e, muito menos, as pessoas pertencem aos partidos. Todavia, com certeza, o espólio político do governador, que muito cedo nos deixou, pertence à sua família, e, mais de perto, a quem, dentre os seus familiares, tenha a bravura de avocar a si esse espólio, para com dignidade levá-lo avante. Aliás, parece que isso já está sendo feito pela viúva de Déda, e atual vice- prefeita de Aracaju, Eliane Aquino. É óbvio que outros familiares poderão fazê-lo também. Nada obsta. Deixemos, pois, que a família cuide disso como melhor lhe aprouver.

Quanto a quem fez divulgar o fato mentiroso da tal carta psicografada, que tenha juízo. Que tenha vergonha na cara. Que procure trilhar o seu caminho, se é que tem um a trilhar.

Peço desculpas aos leitores se mudei completamente o rumo dos meus escritos neste fim de semana. Não lhes trouxe nenhum “causo” ou conto provinciano, como eu gosto de chamar os meus simplórios escritos, publicados no JORNAL DA CIDADE e republicados no site Click Sergipe, no blog Primeira Mão e na minha página do Facebook. É que, calado, eu não suportei a divulgação dos dois fatos mencionados. Não deu para suportar.




Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
17/06
09:29

O encontro

José Lima Santana - Padre, advogado e professor da UFS

 
Kleber Jordão, mais conhecido como Cara de Bunda e Bolo Fofo, presidente do Clube do Norte, era metido a ditador. Mandava e desmandava no Clube sem ouvir ninguém. E, ainda por cima, desafiava o outro clube da cidade, o Clube do Sul. Os dois presidentes não se davam. Muitos torcedores dos dois clubes almejavam a unificação, para, assim, poder fazer frente aos adversários de outras cidades. A união seria benéfica para a cidade, para as pessoas, mas Cara de Bunda era belicoso e não admitia que os seus sócios devidamente filiados sequer opinassem sobre a unificação, sob a pena de expulsão ou algo muito pior. Os torcedores não filiados arriscavam dar palpites nas redes sociais. Na presença de Kleber Jordão, silêncio. Manifestavam-se anonimamente. Temiam as reações de Cara de Bunda.

O presidente da federação de clubes, denominada União Sportiva Alvorada (USA), Daniel Trampo, chegou a ameaçar Kleber Jordão de varrê-lo do mapa dos esportes, caso ele não parasse com o estado de belicosidade contra o Clube do Sul e outros clubes das cidades circunvizinhas. Trampo era tão ou mais truculento do que Kleber Jordão. Eram, por assim dizer, farinha do mesmo saco. E que péssima farinha! O maluco do Cara de Bunda soltou umas bombas que assustaram os adversários. Bombas verborrágicas para fazer pirraça contra todos, mas, sobretudo, contra Daniel Trampo. E este, mais doido ainda, tuitou ameaças e maldições contra Kleber Jordão. Durante vários dias, os dois bateram boca, ao longe. Se os dois estivessem frente a frente, cada um com uma faca afiada na mão, certamente um cortaria a língua do outro, se pudesse. Eram, sim, dois sujeitos ruins de tanger, como jegues amuados.

O dono da empresa Ginga Pura, amigo de ambos, tomou a iniciativa de oferecer a sede da sua empresa para um encontro dos desafetos. As redondezas não acreditavam na realização do encontro. Demasiadas eram as divergências entre os dois malucos. Umencontro entre ambos poderia resultar em duas mortes, nem que fossem motivadas pela raiva. Era arriscado que os dois, depois de muito discutirem, caíssem tesos, batessem a caçoleta. Muita gente vibraria. O mundo se tornaria bem melhor.

Depois de marchas e contramarchas, tudo ficou acertado para a reunião mais importante e esperada do ano. Apostas eram feitas, de que o encontro não se realizaria. Ou de que se realizaria, mas acabaria no primeiro momento, com cada um dos desafetos soltando os cachorros no outro. O apocalipse poderia estar ali naquele encontro, pronto para soltar fogo pelas ventas como um dragão daqueles das histórias mirabolantes da Idade Média. Na verdade, ainda havia dragões no mundo. Ali estariam dois deles.

Toda a imprensa da região entrou de prontidão. Nada deveria escapar dacobertura. Todos esperavam saber de tudo que ocorreria no encontro entre os dois. E a imprensa da região eram o tabloide “O Fuxico” de Zé de Ferreirinha e o carro de som de Chico Pinote. Este alardeava nas ruas da cidade que o mundo esportivo esperava que a paz fosse selada entre Jordão e Trampo. Se os dois não se entendessem, o mundo esportivo poderia entrar em polvorosa de uma vez por todas, pois seria uma guerra declarada entre os dois esquizofrênicos.

 

Enfim, os dois chegaram à sede de Ginga Pura. Cara de Bunda chegou primeiro.  Com um dia de antecedência em relação ao outro, que, diga-se de passagem, era também conhecido nos meios esportivos como Galo de Briga. Vermelhão que o era, a cabeleira pintada parecia uma crista de galo de briga. Deu-se o encontro. Primeiro, as indefectíveis fotos de mãos dadas para a imprensa. “O Fuxico” estampou em sua edição vespertina uma foto com ambos tentando um sorriso forçado, que não saiu. Caras ainda muito amarradas. Mas, era o primeiro aperitivo. Certamente, outras fotos viriam mais amenas, com a paz selada. Ah, mas como tinha gente que não acreditava nessa paz! Que não acreditavam que os dois estivessem de fato querendo um entendimento. Arriar as armas? Quem? Cara de Bunda? Nem pensar, dizia-se pelo mundo afora. O ditadorzinho haveria de esconder as armas para soltá-las mais tarde. Afinal, as armas verborrágicas eram o trunfo do dirigente do Clube do Norte.

O encontro continuou sob a ansiedade de todos. E, contrariando as expectativas da maioria das pessoas, tudo parecia correr muito bem obrigado. Uma ponderação daqui, outra dacolá, uma testa franzida aqui, outra acolá. Assessores dos dois lados tentando amenizar certas palavras. Enfim, um acordo a ser assinado. A lavratura do acordo demoraria um pouco, pois os assessores divergiam sobre esta ou aquela expressão. Tudo acertado.

Na hora da assinatura, Cara de Bunda curvou-se um pouco sobre a mesa com a caneta na mão. Ao lado dele, Galo de Briga, de bico crescido, como era do seu estilo, aguardava a sua vez de assinar o tal documento, que, por certo, não haveria de valer muita coisa. De repente, Cara de Bunda fez uma cara feia. Parecia que ia estourar. Naquele instante, o outro apelido do tal sujeito pareceu ganhar força. O Bolo Fofo tinha, como por encanto, crescido. Fora fermentado. Ele espremeu-se um pouco. E eis que soltou uma bomba atômica. A sala com decoração folheada a ouro parecia que ia desabar. A fedentina espalhou-se como a mão do anjo da morte na noite que antecedeu a saída do povo hebreu do Egito. Galo de Briga deu um pulo, tapou as ventas com um lenço, afastou-se e gritou em sua língua enrolada: “Um desrespeito! Um despropósito! Vou responder à altura! É guerra? Pois vamos à guerra!”.

A flatulência de Cara de Bunda pôs fim ao encontro e ao acordo. O que viria depois era preciso aguardar. Boa coisa não poderia ser. O mundo dos esportes tremeria. A paz estaria por um fio. E tudo por causa de uma flatulência. A que ponto o mundo dos esportes tinha chegado!

Quanto vexame! O todo-poderoso Daniel Trampo acabou cedendo a uma bufa. Que coisa, hein?




Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
10/06
12:14

Francisquinha amargosa

José Lima Santana - Padre, professor e advogado

 

Proferida a oração após a comunhão, o padre Zequinha Limoeiro indagou se tinha algum aniversariante presente. Silêncio por uns vinte segundos. Depois, uma senhora levantou a mão direita e disse: “Eu!”. O padre a convidou para achegar-se à frente do presbitério. A senhora caminhou com extrema desenvoltura, toda serelepe. “Quantos anos?”, perguntou o padre. E ela, para espanto dos fiéis: “Noventa e um, padre!”. O padre Limoeiro arregalou os olhos: “O quê?”. Pois então. A “veinha” tinha noventa e um anos, embora a aparência não lhe desse mais de setenta e uns. Aí, o padre, que era brincalhão, soltou essa: “Estão vendo, vocês ‘veinhas’, que têm setenta, setenta e alguns anos? Mirem-se no exemplo desta aqui. Vejam se ela parece ter noventa e um anos! Mas, vocês, estão descachimbadas com sessenta e tantos, setenta e alguns etc.”. Muitas gargalhadas.

 

Muito bem. Aquela senhora de noventa e um anos, que, olhe lá, aparentava uns setenta e tantos anos, se muito, era Francisquinha Amargosa. Amargosa era o seu sobrenome de papel passado em cartório. Nome de família. Ela descendia de Pedro Fonseca do Pinho Amargosa, antigo mestre de reisado, que por muito tempo pisoteou o chão de Sergipe com seus folguedos.

 

Aquela “veinha” nonagenária era viúva. Viúva de Aristides Porto, seu primeiro marido. De Bernardo Peixoto, aparentado das antigas de um certo padre Peixoto, metido em cantorias de música igrejeira. De Marcolino Borborema. E de Juvêncio Antonelli, neto de italianos, que aportaram no estado na década de 1930.

 

Como se vê, a “veinha” era fogo na canjica. Quatro casamentos. Quatro defuntos. Quatro estados de viuvez. O primeiro marido, Aristides, comerciante de calçados, morreu dez anos e meio após o casamento, sem deixar filhos. Fora atropelado por uma lambreta numa boquinha de noite. Francisquinha Amargosa amargou a primeira viuvez. Não se passaram dois anos, e eis que ela foi desposada por Bernardo Peixoto, sitiante de Itabaiana, vendedor no atacado de cebolas e outros aparentados. Este, coitado, não durou um ano. Bateu a caçoleta uns dez meses depois de casado. Uma cobra venenosa lhe tirou a vida.

 

Àquela altura, Francisquinha já estava bem arranchada de bens. Os dois maridos lhe deixaram um bom pé de meia. Continuava viúva sem filhos. Francisquinha era devota de Santo Antônio. Apegadíssima ao santo casamenteiro, não colocou a sua imagem de cabeça para baixo numa bacia ou pote d’água. Não o fizera antes e não o faria depois da segunda viuvez. Parecia sossegada. Mas, um dia, doze anos se passavam da última viuvez, lhe apareceu Marcolino, paraibano das bandas da Serra da Borborema. Oficial da Marinha de Guerra. A duplamente viúva não resistiu aos encantos da farda branca, nem ao hino do marinheiro, o Cisne Branco. E qual cisne branco em noite de lua, Marcolino, digo, o tenente Marcolino levou, pela terceira vez, Francisquinha ao altar. Todo o agrupamento da Capitania dos Portos compareceu em traje de galã. Uma belezura de casamento. E que festa para os convidados! Foram três anos de amor infinito. E infinito foi enquanto durou. Uma tempestade numa noite assombrosa de trovões e relâmpagos, de mar encrespado, fez naufragar a corveta Almirante Barão do Bom Retiro e foi-se para as águas profundas o oficial Marcolino Borborema. Terceira  viuvez.

 

O tempo foi passando. Francisquinha não tinha filhos. Nenhum dos três maridos lhe dera um filho. Ela estava, então, quando da terceira viuvez, beirando os quarenta anos de idade. Ainda pronta para esquentar um leito. E foi então que lhe apareceu o “italiano” Juvêncio Antonelli. Um construtor. Um olho no olho numa recepção no Palácio do Governo. Francisquinha era amiga da primeira-dama, sua antiga vizinha nos tempos de moças. Triscou. Faísca, fumaça e fogo. O quarto casamento. O “italiano” Antonelli meteu-se a construir bangalôs na capital. Ganhou um dinheirão. Andava lá pela casa dos cinquenta anos. Num inverno friorento e chuvoso, ele apanhou uma gripe. Mal curada, virou uma broncopneumonia. E bateu as botas. Foi-se lá para a morada de pés juntos. Francisquinha viúva pela quarta vez. A partir dali, os homens afastaram-se dela. “Essa muié tem dentro dela uma maldição. Os maridos vêm e vão. Num aguentam o rojão dela”, dizia o sacristão Benvindo Mendonça. Igrejeira, devota de Santo Antônio, viúva cada vez mais aquinhoada. Cada marido deixou-lhe uma boa soma de dinheiro e de bens imóveis. Passou-se a dizer que ela era a viúva mais endinheirada da capital. E por que não dizer, do estado. Um partidão. Porém, ninguém mais se atreveu a arrastar asas para Francisquinha Amargosa. “Fique ela lá com toda a amargura do mundo!”, disse, um dia, Margarida, mãe do sacristão Benvindo. Aliás, uma faladeira da desgraça, que tecia e bordava na língua a vida alheia.

 

Naquela tarde de quinta-feira, o padre Zezinho Limoeiro, após a bênção final, brincou, ainda uma vez, com as “veinhas” da Matriz: “Veja lá se uma de vocês arranja um marido para Francisquinha. Ela não pode morrer sozinha”. Ana Pereira, ministra da Sagrada Comunhão, adiantou-se: “Só se for ‘seu’ Maneca Gordo. Ele tá viúvo de novo e doidinho pra casar”. Gargalhada geral.

 

Um belo dia, passadas umas três semanas desde aquela Missa, naquela quinta- feira, Francisquinha apareceu na igreja de braço dado com o tal Maneca Gordo. Pois não era que estavam de namoro? Os amigos dele lhe davam conselhos para cair fora das garras de Francisquinha Amargosa, viúva pela quarta vez: “Tu, home de Deus, num caia na desgraça de casar com essa muié. Ela já deu conta de quatro maridos. E tu vai ser o quinto. Ela é capaz de te mandar pros quintos dos infernos”. Maneca Gordo tinha oitenta e nove anos, dois a menos que Francisquinha. Estava firme, tanto quanto ela aparentava. Viúvo, pai de cinco filhos, avô de treze netos e bisavô de duas bisnetinhas. Aposentado do fisco estadual. Ganhava bem. E bem vivia. Casaram-se. A prolongada viuvez de Francisquinha foi-se pro beleléu.

 

Domingo. Tinham se passado dois anos desde que Maneca Gordo e Francsiquinha Amargosa tinham se dado em matrimônio. Ela acordou cedo, comosempre. Ainda estava senhora de si. A empregada Julieta, que morava com ela há mais de trinta anos, já tinha preparado o café. Francsiquinha voltou ao quarto para chamar Maneca. Iriam à Missa. Chamou-o. Nada. Tornou a chamar. Nada. Ela mexeu no braço dele, que estava todo coberto. Nada. Então, puxou o lençol do rosto. Ele estava de olhos esbugalhados e boca aberta. Morto. Ela deu um grito. Logo, acudiu-lhe Julieta. Foi quando Maneca Gordo soltou uma estrepitosa gargalhada e disse: “Tu pensou, minha nêga, que eu tinha embarcado? E eu sou lá frouxo como os teus maridos anteriores? Eu me chamo Manuel Ventura de Azevedo Pinto. Não vou com uma nem duas”. O desgraçado estava vivo e feliz como pinto no lixo.

 

O certo foi que eles viveram ainda muito tempo juntos, uns cinco ou seis anos. Todavia, Maneca Gordo foi primeiro do que ela. E Francisquinha Amargosa dobraria a casa dos cem anos.




Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
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