31/05
00:41

Jackson Barreto anuncia Plano de Cargos e Vencimentos dos servidores estaduais

Governo cumpre acordo com categorias e conclui implantação do PCCV. Quase 8 mil servidores serão beneficiados

Ao anunciar a conclusão da implantação do Plano de Cargos, Carreiras eVencimentos (PCCV) dos servidores públicos estaduais da Administração Direta,Saúde e Engenharia, na tarde desta segunda-feira, 30, o governador JacksonBarreto promove um fato histórico e resgata a dignidade da carreiraprofissional dos funcionários públicos sergipanos. Mais de 7.700 servidoresterão os ganhos liberados a partir de agora. Nesta terça, dia 31, JacksonBarreto reúne os outros sindicatos para comunicar a implantação do PCCV. Areunião ocorre no Palácio dos Despachos, às 10 horas.

“Hoje é uma data história para os servidores públicos estaduais. Estamosconcluindo o PCCV, cumprindo todos os prazos e acordos com as diversascategorias profissionais. Prometi anunciar a conclusão do PCCV no mês de maio eestamos agora coroando esse compromisso. O Plano de Cargos e Vencimentosresgata a vida profissional dos nossos funcionários, que agora terão umacarreira estruturada, uma tabela com os interníveis assegurados com direito atitulação, dando tranquilidade na aposentadoria”, afirmou o governador.

O governador Jackson Barreto ressaltou ainda que todos os 7.770 servidoresda Administração Geral, Saúde e Engenharia receberão seus ganhos. Os 6.018servidores que têm um ajuste até R$ 500,00 receberão o valor integralmente nafolha de maio. Os 1.800 que têm o Ajuste Provisório superior a R$ 500,00,receberão o valor de R$ 500,00 nos vencimentos de maio, e o restante de acordocom o cronograma que o Governo vai anunciar até 11 de junho.

“Poder anunciar a conclusão do PCCV me traz muita alegria. Desde 2014 queestamos debruçados sobre as demandas das diversas categorias profissionais doserviço público e, agora, estamos concluindo esse trabalho. É o coroamento deuma luta dos sindicatos e do esforço do Governo. É uma vitória dos servidores eda gestão”, enfatizou o governador, lembrando que mais importante é que oservidor tem a garantia de levar todos esses benefícios para a aposentadoria.

Da assessoria


Política
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Por Kleber Santos
31/05
00:40

Gilson Andrade repudia atos de violência contra a mulher

Na sessão plenária desta segunda-feira, 30, o deputado Gilson Andrade (PTC) repudiou o fato que teve grande repercussão nos veículos de comunicação nacional e também fora do Brasil neste último final de semana, sobre o estupro coletivo em que 30 homens abusaram sexualmente uma menor com 16 anos de idade no Rio de Janeiro e que imagens foram divulgadas em rede social..

O parlamentar considerou que diante desse ato bárbaro de covardia é necessário que façamos uma reflexão sobre o papel da família e sua degradação, venda de bebidas alcoólicas aos menores de idade, além do uso de drogas. "Não é necessário observarmos apenas as periferias do Rio de Janeiro onde aconteceu este caso,  pois, fato parecido envolvendo violência contra a mulher ocorreu ano passado em Estância, quando uma jovem doente mental e que estava gestante foi violentada por oito homens, inclusive, menores de idade e as imagens foram divulgadas nas redes sociais. O então delegado do município, André Davi fez o seu papel prendendo os acusados, mas lamentavelmente após três meses eles já estavam soltos. Infelizmente é um problema recorrente na sociedade e que é importante refletirmos sobre as causas que o leva acontecer", disse.

Da assessoria


Política
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Por Kleber Santos
31/05
00:37

Goretti Reis repudia estupro coletivo em adolescente no Rio de Janeiro

A presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Mulher, deputada estadual Goretti Reis (PMDB), mostrou sua indignação com a violência cometida contra a adolescente de 16 anos, vítima de estupro coletivo por mais de trinta homens, no Rio de Janeiro, semana passada e teve as imagens divulgadas na internet. "Um crime que chocou o mundo e causou uma grande revolta. Como admitir tamanha violência", frisou durante o discurso no grande expediente da sessão plenária na tarde dessa segunda-feira (30), na Assembleia Legislativa de Sergipe.

A deputada ressaltou a importância da Frente Parlamentar em Defesa da Mulher e enfatizou que é preciso fazer cada vez mais políticas públicas e legislações necessárias para corrigir as distorções de condutas por parte de alguns homens que deixam marcas de violência na mulher. "Isso é uma fragilidade, não é machismo, e é preciso ser tratado e corrigido. Muitas dessas correções devem ser feitas nas salas de aula a partir dos 6 anos. Nós mulheres que somos mães devemos dar exemplos aos filhos homens", observou.

Para a parlamentar, que exibiu vídeo da reportagem veiculada no Bom Dia Brasil, telejornal da Rede Globo, que mostrou a adolescente contando que continuou sendo agredida na delegacia ao prestar depoimento ao delegado, responsável por apurar o crime, é necessário que haja uma delegacia exclusiva para atender as denúncias feitas pelas mulheres. "Não podemos admitir que depois da agressão física as mulheres continuem sendo constrangidas. Muitas não procuram as delegacias porque sabem que outro crime pode ocorrer", afirmou.

Da assessoria


Política
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Por Kleber Santos
29/05
20:17

Cordel de Saia

Amâncio Cardoso (1)

Sabe-se que a literatura de cordel foi escrita e editada eminentemente por homens. No entanto, conforme o incontornável folclorista Sílvio Romero (1851-1914), coube às mulheres o papel de “principal arquivo das tradições orais”. Elas eram também “as autoras de muitas destas tradições” (2). Portanto, as representantes do gênero feminino estão na raiz da transmissão da poética popular. Mas, por outro lado, quando as histórias passaram para o registro escrito, no final do século XIX, a autoria dos folhetos era assinada apenas por homens.

Diante do predomínio masculino, desde a produção até a distribuição dos primeiros livros de cordel, escritoras passaram a utilizar pseudônimo do gênero oposto como estratégia para penetrar nesse universo masculinizado. Em 1938, por exemplo, Maria das Neves Batista Pimentel, filha do conhecido poeta e editor Francisco das Chagas Batista (1882-1930), publicou um cordel sob o pseudônimo de Altino Alagoano. Alcunha emprestada de seu marido, Altino Pimentel, nascido em Alagoas. Maria das Neves é considerada a primeira mulher a escrever e publicar um folheto.

Tempos depois, outras produções femininas surgiram nas décadas de 1970 e 1980; agora com o nome da autora na capa. A exemplo de Vicência Macedo Maia que publicou o folheto “ABC da Umbanda”, 1972; e Josefa Maria dos Anjos que escreveu “Briga di ponta di rua”, 1980. Ambas publicaram em Salvador e Aracaju respectivamente, entre outras. Assim, houve na segunda metade do século XX uma explosão de mulheres escrevendo e publicando livretos de poesia popular. (3) 

Mais recentemente, entre junho de 2004 e novembro de 2005, foram identificadas 70 autoras que publicaram 170 folhetos, sobretudo nos estados do Ceará, Paraíba, Rio de Janeiro e São Paulo; estes últimos possuem grande concentração de nordestinas.

Além de folhetos, palestras, aulas, visitas guiadas a museus e novas formas de divulgação são utilizadas pelas cordelistas. Neste sentido, blogs, sites e redes sociais estão alcançando outros públicos. Um exemplo é o blog “Cordel de Saia” (http://cordeldesaia.blogspot.com.br), administrado pelas escritoras Dalinha Catunda e Rosário Pinto, onde publicam, divulgam e escrevem cordéis tanto delas quanto de outros artistas; sejam mulheres ou homens. Desse modo, ampliam e propagam a presença feminina na literatura de cordel.

Recentemente foi editado on-line e em papel, pelo blog “Cordel de Saia”, uma coletânea de mulheres cordelistas de vários estados do Brasil, cujo título e mote (sentença que indica o tema) é “Mulheres Cantando Quadrão à Beira Mar”. Quadrão é uma estrofe com oito versos. Este folheto foi publicado em 10 de maio de 2016 no Rio de Janeiro e será lançado no início de junho no Ceará. Dele participam 17 poetisas, cada uma compondo uma estrofe. Sergipe está representado pela cordelista Izabel Nascimento com os seguintes versos:

“Uma bela poesia
Quando Deus concede o dia
Faz o astro da energia
No firmamento brilhar
Este ser tão puro e terno
Não precisa de caderno
E escreve no Livro Eterno
No quadrão à beira mar.”

Em nosso Estado, além de Izabel, algumas mulheres vêm escrevendo e publicando literatura de cordel. Temos então Ana Santana, Alda Cruz, Salete Nascimento, Mariana Félix e Nilza Cordel.

Entretanto, não são muitas as cordelistas sergipanas, mas o movimento só tende a crescer. O uso das redes sociais parece um bom expediente para manifestar e divulgar essa expressão. Assim, o folheto de cordel que nasceu no Nordeste, cresceu pelo Brasil e viceja pelo espaço virtual, se reproduz e se adapta com maestria na rede global, reforçando e atualizando um modo de saber/fazer local. (4)

Por fim, vimos que o futuro dessa arte popular aponta para uma nova fase, ambientada no suporte das novas tecnologias e, sobretudo, na contribuição de novas personagens: daquelas que vestem saia. 

(1) - Professor de História e Patrimônio Cultural nos Cursos de Turismo do IFS-Campus Aracaju. (acneto@infonet.com.br)
(2) - ROMERO, Silvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil (1879-1880). Rio de Janeiro: Typ. Laemmert & C., 1888.
(3) - QUEIROZ, Doralice Alves de. Mulheres Cordelistas: percepções do universo feminino na Literatura de Cordel. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG. (Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira). p. 57-80.
(4)- Sobre a origem nordestina dos folhetos, e não lusitana, ver: ABREU, Márcia. Histórias de cordéis e folhetos. Campinas/SP: Mercado de Letras, 1999.
 


Colunas
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Por Kleber Santos
29/05
19:04

Bartolomeu e a cigana

José Lima Santana 
Professor do Departamento de Direito da UFS

Bartolomeu. “Seu” Bartô. Da família dos Peixoto. Gente esparramada por várias áreas da vida social e econômica. Era um homem de pouca ou, talvez, nenhuma instrução escolar, porém, de dilatado discernimento. Entendia de um magote de coisas. Cioso. Sestreiro. Seguro. Não dizia um “sim” ou um “não” sem, antes, estar ciente das consequências. Por isso mesmo, ele pouco dizia “sim”. Mas, também, quando o dizia, era como um tiro certeiro. Não tinha volta. O difícil mesmo era o “sim” ter saída.

“Seu” Bartô era homem da roça, da coivara, do eito. Plantador de milho e feijão. E de mais alguma valia no ramo dos legumes e das verduras. Criava também um gadinho manso. Família grande. Filhos trabalhando desde pequenos. “O trabalho é o melhor chamego que o homem pode ter na vida, igual a uma mulher direita”, dizia ele. Filho de “seu” Bartô Peixoto fazia-se homem ainda menino. Na força para o trabalho e no caráter bem forjado. Na sua casa, ninguém era besta fazer xixi fora do caco.

Numa sexta-feira, “seu” Bartô foi à cidade. Precisava de sementes. O inverno estava quase às portas. Era necessário prevenir-se. Passando pela Praça da Matriz de Santo Antônio, eis que ele deu de cara com a cara de uma cigana. Roupa vistosa, muitos adereços, a voz inconfundível desse tipo de gente, desprezada por muitos, mas merecedora de respeito. Afinal, todo ser humano é digno de acolhimento. Ao deparar-se com o patriarca da Peixotada, a cigana para ele se dirigiu: “Ganjão, o senhor não quer que eu leia a sua mão? Tenho coisas boas para lhe revelar”. Ao que o velho Bartolomeu respondeu de prontidão: “Ora, num tem nada escrito na minha mão. Nem um papelzinho de bilhete. A senhora vai ler o quê?”. A cigana insistiu, já tentando pegar na mão dele: “Ler a sua boa dita, o seu futuro. Mas, se quiser, eu posso ler o passado também. A minha avó era uma cigana do Egito. Aprendi com ela. Posso revelar tudo para o senhor”.

“Seu” Bartô era um sujeito despachado, mas educado. Balançou a cabeça, esboçou um sorriso que quase não saiu do canto direito dos lábios. Naquele instante, passou por eles o velho Bambá, como era apelidado o seu tio Fulgêncio Peixoto, carregando na cacunda quase 90 anos de idade. “Abença, tio Fulgêncio!”. O tio respondeu com o vozeirão ainda firme: “Deus te abençoe, Bartô. Cuidado! Se tu viuvar, a cigana te carrega!”. E tio Fulgêncio saiu rindo, lascando uma gostosa gaitada como era de seu feitio. A cigana insistiu para ler a mão de “seu” Bartô. “Não me diga que o ganjão está com medo de saber o futuro, ou está com medo da revelação do passado”. E ele: “Dona cigana, não há nada neste mundo que me meta medo, a não ser os castigos de Deus, se um dia eu cometer um pecado cabeludo, dos bem cabeludões, e Ele quiser me chamar na chincha”.

Ali por perto, outras três ciganas liam mãos de três jovens mulheres. Uma delas ria a cada revelação da cigana. A cigana de “seu” Bartô deveria ter uns trinta e tantos anos. Era uma mulher bonita, olhos verdes, muito verdes, cabelos castanhos escuros, roupa limpa, vistosa, como são as roupas das ciganas, via de regras. Insiste daqui, insiste dali, eis que a cigana conseguiu tomar em sua mão a mão direita de “seu” Bartô. “Vejo muitas coisas boas em sua mão, ganjão. Vejo que tem uma mulher e muitos filhos. Tem casa e posses. É um homem precavido. Gosta de tudo muito certo. Não é dado a vadiagens. Trabalha muito. Vai ter vida muito longa. Veja a linha do meio do “M” como sobe e desce muito. Sinal de vida prolongada”. Por ali, naquela horinha mesma, estava passando um dos filhos de “seu” Bartô, que tinha a pretensão de ser padre. “Pai, o senhor, agora, acredita em palavra de cigana?”. O filho sabia muito bem que o pai não dava fiança a coisas como ler a sorte, pragas e toda a coisarada do gênero. Porém, “seu” Bartô grunhiu: “Siga seu caminho, moleque!”. E o rapazola seguiu em frente, para, lá adiante, soltar uma boa risada. Não teria coragem para rir, naquele caso, diante do pai. Seria um deboche. “Seu” Bartô não criava filhos para debochar dele, nem mesmo numa coisinha inocente como a leitura da mão por uma cigana bonita de olhos verdes, muito verdes.

A cigana disse, ainda, um monte de coisas. “Seu” Bartô, logo, logo, haveria de ganhar um bom dinheiro. Seria uma bolada e tanto. Era coisa de botija. Coisa grande. A vida dele mudaria da água para o vinho. Os filhos lhe dariam muito gosto. E muitos netos. A vida dele seria um mar de rosas.

As outras ciganas acercaram-se da companheira. Contavam o que haviam apurado em pouco mais de uma hora, desde que chegaram à Praça da Matriz de Santo Antônio, e um pouco antes de “seu” Bartô ali chegar. A féria não teria sido ruim. O dia parecia prometer.

Depois de muito dizer, a cigana, olhando como se tentasse enxergar algo muito miúdo, do tipo microscópico, no centro da palma da mão de “seu” Bartô, disse: “Estou vendo que o senhor vai me dar uma boa nota de dinheiro. Está escrito bem aqui. Uma nota graúda”. Ela o disse, tocando o seu dedo indicador onde as duas linhas se cruzavam para formar o “M” de mãe na mão de “seu” Bartô. E foi, então, que puxando a mão devagarzinho, “seu” Bartô disse: “Dona cigana, eu num sei se a senhora disse coisas certas ou não a meu respeito, mas, de uma coisa eu tenho certeza: essa história de eu lhe dar dinheiro num tá escrita em minha mão, não. Disso eu tenho certeza”.

“Seu” Bartô se foi e a cigana ficou praguejando contra ele.

(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 29 de maio de 2016.


Coluna José Lima
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Por Eugênio Nascimento
29/05
18:23

Os dedos-duros políticos

Afonso Nascimento 
Professor de Direito da UFS

Quem foi dedo-duro durante o regime militar em Sergipe? Dedo-duro é o nome dado a alguém que, no quadro da ditadura militar brasileira, pelo fato de pertencer a um ou mais grupos civis ou militares, tinha acesso a informações consideradas relevantes pelos agentes de segurança, informação e repressão, as quais eram a estes passadas e que serviam para combater opositores reais e imaginários (também chamados de “subversivos”, “comunistas”, etc.) do regime autoritário.

Foram duas as fases em que ocorreram a ação dos dedos-duros. A primeira é a deduragem (ou dedurismo) no atacado que ocorre logo após a passagem do regime democrático para o regime autoritário. É o momento de “caça às bruxas” e aí os dedos-duros entram em ação. É a deduragem em massa. Espontaneamente, eles se dispõem a informar sobre atividades suspeitas ou verdadeiras de pessoas de seu relacionamento ou conhecimento. São os colaboradores de primeira hora. A segunda fase é aquela da deduragem no varejo que cobre o restante da ditadura militar.

A deduragem podia ser espontânea ou provocada. A iniciativa de alguém dedurar outrem podia ser espontaneamente tomada pelo dedo-duro. Muita gente se prontificou a subir a colina do 28 BC para dar informações aos militares. Mas a deduragem também podia ser provocada por agentes públicos do autoritarismo servindo-se de laços de amizade, parentesco etc. Isso não é nada de causar surpresa, pois, afinal, os militares são pessoas com enraizamentos sociais diversos.

O dedo-duro podia ser militar e civil. O dedo-duro militar é menos conhecido do que o civil, mas existiu. A despeito de todo o proselitismo que recebem, os militares constituem corporações que são atravessadas pelos conflitos que perpassam, em maior ou menor intensidade, a sociedade como uma totalidade. Militares também podiam “entregar” e “entregam” militares, quando uns suspeitavam ou tinham provas de comportamentos de colegas de tropa com posições políticas heterodoxas ou com amizades e companhias de indivíduos considerados “subversivos” ou “comunistas”. O militar reformado podia se transformar em um dedo-duro. Não temos notícias se casos que tais ocorreram em solo sergipano.

O dedo-duro civil é o mais popular e existe uma maior variedade desse tipo. Ele é um informante que denunciava colegas ou conhecidos igualmente civis de quererem subverter a ordem militar estabelecida. Podia ser estudante, pessoa com atividade profissional na iniciativa privada ou funcionário público da mais alta à mais baixa administração pública.

Na cultura política de esquerda, as pessoas não costumam distinguir os tipos de dedos-duros. Em nossa opinião, a deduragem como profissão, ou seja, aquela feita por agentes secretos, os espiões, olheiros, agentes infiltrados nas universidades, escolas, sindicatos e associações em geral e pertencentes aos órgãos de vigilância, segurança, informação e de repressão, não pode ser considerada deduragem. Esse é o trabalho dessas pessoas. Querem um exemplo: policiais federais matriculados como estudantes universitários nos diversos cursos da UFS. Não sabemos dizer se no tempo das faculdades e das escolas superiores os seus diretores permitiam esse tipo de matrícula.

A deduragem como opção diz respeito àqueles que entregavam livremente pessoas aos órgãos de repressão. Eles são indivíduos, mais homens do que mulheres, que podiam ter motivações ideológicas (anticomunistas, por exemplo), que se identificavam com o regime militar, que entregavam pessoas por vingança, que possuíam a crença de que, delatando, estavam prestando um serviço ao seu país (patriotismo), que faziam denúncias esperando uma recompensa como uma promoção no emprego público e assim por diante. Em nossa opinião atual, esses são os verdadeiros dedos-duros e os seus nomes estão na memória das pessoas que viveram aquele período histórico.

A deduragem como obrigação foi protagonizada por indivíduos que detiveram postos de direção em instituições públicas e, em razão disso, concordando ou não com o regime, se sentiam na obrigação de entregar pessoas. Que pessoas podiam ser essas? Diretores de escolas públicas, de faculdades e de escolas e de universidades, de igrejas, de repartições públicas, etc.

Ligados ou não a organizações legais ou ilegais, militantes políticos que, sob tortura ou sob a sua ameaça, denunciaram outras pessoas não podem nunca ser consideradas como dedos-duros. Integrantes dessas organizações podem não pensar assim e jogar a pecha sobre essas pessoas porque abriram o bico. Em certos casos, em estados que, diferentemente de Sergipe, conheceram a luta armada, chegaram até a fazer justiçamento, ou seja, um processo sumário, sem direito de defesa, que levava quase sempre à morte do acusado. É o caso aqui de se falar em crime comum?

O problema principal em relação aos dedos-duros é como provar a sua deduragem. No clima de suspeição e de desconfiança predominante entre os grupos que faziam resistência à ditadura militar, muitas pessoas foram acusadas por outras de serem dedos-duros. É possível que tenham atuado como dedos-duros, mas evidências contra elas nunca foram apresentadas. No sentido em que estamos falando aqui, quem pode dizer que fulano, sicrano e beltrano foram dedos-duros em Sergipe?

Como provar que alguém é um dedo-duro? As provas testemunhais devem vir daqueles que recebiam as informações. Seriam provas confiáveis? Que motivações teriam para denunciar os dedos-duros que os ajudaram? E porque fariam isso? As provas documentais são as que importam, em nossa opinião. Agentes públicos de segurança e repressão podem ter registrado os nomes de seus informantes. Na internet, pode ser encontrado relatório do Exército em que são citados nomes de artistas como Wilson Simonal, entre outros.

Durante o regime militar em Sergipe, Professores denunciaram professores, políticos denunciaram políticos, juízes denunciaram juízes, diretores de escolas denunciaram professores e estudantes, patrões denunciaram empregados, membros do clero denunciaram colegas, membros de sindicatos denunciaram outros membros, advogados denunciaram advogados, chefes de repartições públicas denunciaram subordinados, jornalistas denunciaram jornalistas, etc.? Tudo isso é possível, mas onde estão as provas? Querendo ou não, a denúncia do dedo-duro sempre foi usada como arma política contra os delatados. Em muitos casos, denúncias foram consideradas infundadas, depois de ouvidas as pessoas delatadas.

Não foi bem assim o que ocorreu com o sergipano José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo. Ainda vivo, ele é um exemplo interessante de um dedo-duro publicamente reconhecido. Nascido em Itaporanga d´Ajuda, ele foi uma das principais lideranças que comandaram rebelião de marinheiros no Rio de Janeiro que está na origem dos pretextos (quebra da hierarquia militar) reunidos para o golpe militar de 1964. Fez treinamento em Cuba. Infiltrou-se em organizações de esquerda que faziam luta armada e entregou vários militantes que, por isso, foram torturados e mortos. Esse dedo-duro não teve, porém, atuação em Sergipe.

As novas gerações de sergipanos poderão jamais saber os nomes das pessoas que funcionaram como dedos-dedos, colaborando com a ditadura militar em Sergipe. Não é essa, contudo, a nossa expectativa. Circulam informações em Aracaju de que, em certos arquivos, documentos sobre dedos-duros podem ser encontrados. O presidente da Assembleia Legislativa de Sergipe, o deputado Luciano Bispo, bem que poderia contribuir para esse processo, fazendo aprovar o projeto da Lei do Acesso à Informação que está parado na instituição desde o seu envio pelo ex-governador Marcelo Déda.


Coluna Afonso Nascimento
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Por Eugênio Nascimento
29/05
12:11

HUNALD

Albano Franco (*)
Ex-governador  e Conselheiro da CNI e da FIESP

Há consenso entre os estudiosos da literatura sergipana que, ao lado de Wagner Ribeiro e Amaral Cavalcanti, Hunald de Alencar se destaca como um dos três maiores poetas de sua geração. Modernista de densos versos, sua trajetória de artífice da palavra em busca de uma lírica telúrica e ao mesmo tempo onírica, foi marcada por voos metafóricos transcendentes, quer cantando a sua terra ou a mitologia dos deuses, não os do Olimpo, mas aqueles heróis imortalizados nas estórias em quadrinhos que fizeram a minha alegria de adolescente e a de milhões em todo o mundo que se deliciavam com a leitura das aventuras do Superman, o homem de aço, oriundo do Planeta Kripton. Poemas do Kandor, publicados por Hunald, em 1971, é uma refinada ode sobre a mítica cidade de Kandor, a capital de Kripton, e de seu heroico filho que foi mandado à Terra, e que, neste planeta, combateu os fora da lei.

Assim como cantou a onírica Kandor, de Superman, o poeta Hunald de Alencar, magistralmente, também cantou a sua telúrica Estância natal, de Nossa Senhora de Guadalupe, a padroeira da cidade: “Senhora de Guadalupe/Era a lágrima da tarde:/Da janela se avistavam/Duas torres de saudades/...E quando a noite moldava/Os azulejos sombrios/Senhora de Guadalupe/Recolhia as torres tristes/Na orfandade do rio.” São versos de seu poema Estancianas do livro Alvenaria da Água.

Hunald também foi um inspirado letrista de música popular. Fez belíssimas letras para composições de Sérgio Botto, Alcides Melo, Roberto Melo e outros músicos sergipanos. “A lua nos ombros do mar/Faz a estrada pra terra de Iemanjá/Ai se eu pudesse andar/ Em seu cavalo branco, feito de espuma do mar.” Esta expressiva e bonita estrofe é parte da letra de Canto a Iemanjá que o poeta fez para a composição musical de Roberto Melo e que logrou a quarta colocação no Primeiro Concurso Sergipano de Música, patrocinado pelo Diário de Aracaju, órgão dos Diários Associados. Canto a Iemanjá foi magistralmente defendida pelo saudoso e consagrado vocalista Antonio Teles.

Artista de múltiplos talentos, ultimamente peça de sua autoria sobre os derradeiros dias da grande cantora americana de jazz, Billie Holiday, estava sendo encenada com muito sucesso no Teatro Ateneu. 
    
Tive o privilégio de privar da amizade de Hunald de Alencar e de membros de sua família. Fomos colegas na Faculdade de Direito. Somos da turma de 1966. Tive, também, a honra de ter como coordenador geral, durante quatorze anos, seu irmão e meu amigo, o competente advogado Jessé Cláudio Fontes de Alencar, que prestou decisiva colaboração enquanto estive na presidência da Confederação Nacional da Indústria. Da mesma forma, quando governador do Estado, seu outro irmão, o renomado professor e ex-reitor da UFS, Clodoaldo de Alencar Filho, foi meu primeiro Secretário de Educação.

No último dia 20, sexta-feira, o coração do poeta silenciou, silenciando para sempre uma das vozes mais originais da lírica sergipana. Fica a densa obra poética. Essa jamais morrerá.
 
(*)É membro da Academia Sergipana de Letras
 


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Por Kleber Santos
29/05
12:08

A UFS é de todos

Angelo Roberto Antonielli
Reitor da UFS

Neste mês de maio, a Universidade Federal de Sergipe completa 48 anos. Parece que foi ontem. O sonho de muitos se concretizou. Ganhou o estado de Sergipe. Ganhou a sociedade sergipana. Ganhou a educação superior.

Muitos deram o melhor de si para que a UFS fosse criada com a junção das Faculdades públicas e particulares então existentes, estas de orientação católica. Houve, no começo da montagem, opiniões divergentes quanto, por exemplo, ao tipo de entidade a ser adotado. Uns queriam que fosse autarquia, ao passo que outros preferiam que fosse fundação. Venceram estes. Entretanto, todos se somaram em prol da única Universidade pública sergipana. Divergências foram superadas. A Universidade por todos acalentada era muito maior do que possíveis divergências conceituais.

Hoje, muitos estão dando o melhor de si. E muitos, ainda, haverão de dar o que de melhor tiverem, para que a Universidade Federal de Sergipe possa continuar sua trajetória vitoriosa. Para que possa continuar pública e, cada vez mais, de todos. Que ela avance. Que sirva sempre aos propósitos de uma educação superior sem donos e sem amarras. Que a UFS nunca regateie naquilo que diz respeito à sua missão acadêmica e administrativa. Jamais. Ela há de ser sempre impelida para avançar.
Quarenta e oito anos nos quais cada pedra erguida, cada gesto feito, cada palavra dita, cada pesquisa realizada, cada projeto de extensão levado a efeito, cada aula ministrada, tudo isso simboliza o amadurecimento de uma Universidade que nasceu pequenina, mas que cismou em não se contentar em ser minúscula. Afinal, Sergipe é uma terra de gigantes do pensamento. Gigantes do fazer nas mais diversas áreas do labor teórico e prático.

Quantas lutas foram travadas. Quantos momentos de dificuldades foram enfrentados. Quantos dissabores foram, enfim, vencidos. Quantas incompreensões. Quantos motivos para recuar. Mas, também, quantos motivos para avançar sem temor. Cada reitor, cada administrador, nas mais diversas áreas, cada professor e cada professora, cada técnico-administrativo e cada estudante tem deixado, na UFS, a marca de seus pés, de suas mãos, de sua cabeça e de seu coração. Quanto entusiasmo, apesar de noites negras que, ao longo dos tempos, se abateram sobre a UFS. Quão grande foi a vontade e quão grande foi a coragem de tantos que se uniram para dizer que os véus negros da noite seriam vencidos pelo brilho de cada manhã. Pela luta que não cessa. Pelo trabalho que dá frutos. Frutos colhidos pela sociedade sergipana. Que, verdadeiramente, são seus.

A teoria e a prática. O pó do giz e o traço do pincel atômico, misturados às experimentações laboratoriais. A sala de aula e a atividade de campo. O grito preso na garganta já podendo ser ouvido dentro e fora de seus muros. O grito de quem quer apenas crescer e servir à sociedade. O grito que faz crescer. Que se faz ouvir. Que se faz respeitar. Isso, e muito mais, é o que se tem feito na Universidade Federal de Sergipe, ao longo desses quase cinquenta anos.

Quarenta e oito anos que se passaram como um triz. Para a UFS, acorreram professores, técnico-administrativos e alunos de várias partes do país. O estado de Sergipe abraçou a todos. Terra hospitaleira. Pequenina, mas brava! Terra de muitos talentos nas mais diversas áreas do conhecimento, como já foi dito. Talentos de ontem e de hoje. Muitos dos quais saídos da própria UFS, ou nela presentemente laborando.

Ainda que os horizontes possam parecer, em tese, cinzentos, todos nós que fazemos a UFS devemos ter consciência de que os horizontes existem para que sejam alcançados e ultrapassados. Adiante, surgirão novos horizontes. E muitos outros mais. A nossa caminhada não deve ser interrompida. Quem se dispõe a andar com firmeza não teme o rigor da caminhada nem os desníveis do caminho.

A Universidade Federal de Sergipe deve ser motivo de extremo contentamento para sua comunidade acadêmica e para a sociedade sergipana, em face de como ela hoje se apresenta. Somos uma Universidade que não para de crescer. Somos uma Universidade aberta a todas as classes sociais. Uma Universidade pronta para dar as mãos aos governos e à sociedade, quando estiverem em jogo as necessidades públicas e coletivas.

Estamos presentes em seis campi (São Cristóvão, Aracaju, que é o da Saúde, Laranjeiras, Itabaiana, Lagarto e o do Sertão, o mais novo da família).

Que todos nós da UFS possamos nos sentir imbuídos do espírito de luta em prol de sua defesa, como uma Universidade pública, inclusiva e gratuita. E, ainda mais, uma Universidade que se afirme na busca incessante pela qualidade do ensino, da extensão e da pesquisa.

Que, na UFS, tenhamos sempre o sentimento de pertencimento. Que não nos faltem sabedoria e discernimento, cada um cumprindo seu papel, em sua atividade, para levarmos adiante o que nos foi legado por tantos que nos precederam.

Como professor da Universidade Federal de Sergipe, e como seu reitor, recentemente reeleito, em consulta, pela comunidade acadêmica, com 75% (setenta e cinco por cento) dos votos válidos, eu quero, servindo-me do JORNAL DA CIDADE, cumprimentar e parabenizar a todos que constituem a nossa comunidade acadêmica. E quero dizer-lhes que, como reitor, e, mais ainda, como professor, eu me sinto muito feliz por estar entre todos, cultivando o trabalho, o bom coleguismo e a amizade. Respeitando a todos e reconhecendo o direito de cada um em apresentar seus pontos de vista, convergentes ou divergentes. Sem liberdade de pensamento, não há Universidade digna dessa nomenclatura.

Temos convicção de que precisamos lutar muito. Lutaremos do melhor modo possível. Lutaremos sem descanso. Lutaremos sempre. O que outros fizeram, compete-nos fazer. O que nós fazemos agora, outros, amanhã, também haverão de fazer. E muito mais. Tudo pela UFS. Tudo pelo ensino superior de qualidade. Tudo pela sociedade sergipana. Tudo pela elevação da cidadania. Tudo pela dignidade da pessoa humana.

São apenas quarenta e oito anos. Uma vida inteira nos espera. Avançaremos.


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Por Kleber Santos
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