30/10
22:24

A opção do Conselho de Política Monetária

Ricardo Lacerda*
Professor do Departamento de Economia da UFS

A ata da reunião do Conselho de Política Monetária (COPOM) do Banco Central dos dias 18 e 19 de outubro minimizou o significado dos resultados setoriais de nível de atividade muito ruins nos últimos meses, dentre os quais a queda de 3,8% na produção industrial e de 2% no varejo ampliado em agosto. 

A opção manifestada pelo COPOM foi de continuar perseguindo a desaceleração da inflação a fim de consolidar a percepção do mercado sobre o seu compromisso com o atingimento da meta estipulada para 2017, mesmo à custa da continuidade do agravamento do desemprego e da prostração dos negócios.  Não teria chegado o momento, na perspectiva do comitê, de promover reduções mais expressivas na taxa básica de juros porque a trajetória da inflação ainda não aponta para uma convergência para a meta de 4,5% no próximo ano.

Para o Banco Central, apesar do forte declínio do IPCA em agosto, os preços dos serviços ainda resistem a cair, exigindo “persistência” na política monetária. Em bom português significa que o COPOM deverá manter nos próximos meses os juros reais em patamar muito elevado com o propósito de acentuar o desemprego e deprimir a demanda a fim de forçar a queda dos preços no setor. Para o BC "há sinais de uma pausa recente no processo de desinflação dos componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, o que pode sinalizar convergência mais lenta da inflação à meta".

Na reunião de outubro, o COPOM decidiu pela redução de apenas 0,25 p.p. na taxa básica de juros, o que significa manter os juros reais muito elevados e possivelmente, a depender da velocidade da queda do IPCA, em elevação, apesar de a atividade econômica continuar declinando mês a mês.

O recado foi dado e é claro. Os juros permanecerão em patamar muito elevado enquanto os preços não convergirem para a meta de inflação. E o país pagará o custo necessário para que isso seja alcançado.

Riscos de reversão

Textualmente, os membros do COPOM afirmaram que não consideram haver maiores riscos de a economia interromper a trajetória de estabilização e a retomada do nível de atividade, apesar dos resultados muito ruins dos últimos meses. 

Mesmo reconhecendo que “a economia segue operando com alto nível de ociosidade dos fatores de produção, refletido nos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa de desemprego... oscilações no atual estágio do ciclo econômico são comuns e provavelmente explicam os resultados recentes.

Para o COPOM, os resultados setoriais ruins seriam normais e não poriam em risco o cenário de estabilização e retomada: “No seu conjunto, a evidência disponível é compatível com estabilização recente da economia brasileira. Índices de confiança, expectativas de crescimento do PIB2 para 2017 apuradas pela pesquisa Focus e o comportamento de prêmios de risco e preços de ativos apontam para uma possível retomada gradual da atividade econômica”.

Para não deixar margem à dúvida, manifestaram a posição de que “os membros do Comitê concordaram que a evidência disponível é compatível com estabilização recente da economia brasileira e possível retomada gradual da atividade econômica”. Não haveria, pois, risco da recessão se agravar a ponto de inviabilizar a estabilização e a retomada, mesmo que essa se dê em ritmo muito lento.

Choque de confiança
A aposta do COPOM é de que o compromisso demonstrado em alcançar a meta de inflação e a aprovação pelo congresso nacional ainda em 2016 do Projeto de Emenda à Constituição que impõe um teto real aos gastos públicos por 20 anos (a PEC-241) vão se traduzir em novos ganhos de confiança e com isso o consumo e o investimento privados retomarão em um segundo momento. Quando as novas edições das pesquisas de preço sinalizarem de forma consistente a convergência da inflação para a meta, o ritmo de redução dos juros poderá ser acentuado.

A ata deixou claro portanto que a política monetária vai continuar priorizando os ganhos provenientes da melhoria da confiança do mercado associados ao comprometimento das autoridades monetárias com a redução da inflação. E que a equipe econômica acredita que, mesmo que o mercado de trabalho e o nível e atividade mantenham-se prostrados por mais alguns trimestres, esse seria o preço a pagar para demonstrar o compromisso das autoridades monetárias com a perseguição da meta de inflação.

No Gráfico são apresentadas as evoluções da SELIC, do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) acumulado nos doze meses anteriores e da diferença entre eles, que representa o que chamamos de juros reais anualizados, não necessariamente auferidos. Ainda que a SELIC tenha se mantido em 14,25% entre janeiro e setembro de 2016, os juros reais anualizados saltaram mais de 2 pontos percentuais, diante da redução do IPCA em doze meses. Frente ao aprofundamento recente da recessão muitos analistas defenderam que o COPOM decidisse por acentuar o ritmo de queda dos juros a fim de aliviar o endividamento de empresas e famílias e atenuar a perda de dinamismo da economia. Mas o COPOM deixou muito claro quais são suas prioridades. Aguardemos as próximas reuniões do comitê.


*Assessor Econômico do Governo de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
30/10
22:22

Um estudante brasileiro na França

Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS

Viver na França como estudante foi uma das experiências mais ricas e importantes. Isso aconteceu na primeira metade dos anos 1980, portanto com a chegada dos socialistas à presidência da república, representada pela figura de François Mitterrand. Esse homem político francês tinha sido colaborador durante a ocupação nazista do país, coisa que até então não se sabia e que não tem importância para os objetivos deste pequeno texto.

Essa temporada francesa de nossa vida foi um período de muitos encontros. O primeiro deles foi com a democracia. Quando partimos do Brasil num avião da Varig, o país vivia o processo de abertura, mas nossos estudos universitários brasileiros tinham sido vividos sob a ditadura militar. De uma hora para outra desembarcar numa sociedade democrática nos causou muitas surpresas. Uma delas era poder ver na televisão o secretário-geral do Partido Comunista Francês (PCF), Georges Marchais, dando entrevistas. Àquela época o PCF era uma força política importante e detinha uma fatia de 15% do eleitorado francês. Diferentemente do que acontecera no Brasil, quando, no início da Guerra Fria, o PCB fora ilegalizado em 1947, os comunistas franceses que tinham lutado na resistência contra os nazistas alemães e contra os colaboradores franceses (o marechal Vichy e muitos outros) tornaram-se uma força política que participava do jogo democrático. Para um brasileiro que nunca vivera sob uma democracia. era estranho ver nas bancas de revistas o jornal dos comunistas (L'Humanité), agrupamento político que tinha uma fatia do governo de Mitterrand. Embora já soubéssemos, ficava claro que os comunistas não eram a encarnação do mal.

Continuando nessa linha, tivemos a chance de encontrar exilados brasileiros e muitos sul-americanos vivendo por lá. Antes de sair do Brasil, tínhamos conhecido vários exilados políticos brasileiros que estavam de volta por conta da lei da anistia de 1979, em Santa Catarina. Nesse tempo pude ouvir as histórias por eles contadas. Lembramo-nos de dois nomes catarinenses: um chamado Gerônimo e outro era Vilson Rosalino. Com este último tive a oportunidade de dividir uma casa por algum tempo no bairro da Agronômica em Florianópolis. Em Montpellier, no sul da França, não encontramos exilados brasileiros, mas outros sul-americanos, sobretudo chilenos. Nos dois anos que moramos em Paris, aí sim, conheci muitos exilados brasileiros, alguns se preparando para voltar e outros engajados profissionalmente na vida francesa. Um desses espaços de encontros foi a Associação de Estudantes Brasileiros na França.

Ainda no quadro de memórias políticas de um observador brasileiro, pude ver a ascensão da extrema-direita francesa, que teve muito a ver, claro, com a subida da esquerda ao poder. Ela também participativa do jogo político-partidário e tinha como principal líder o neo-nazistal Jean-Marie Le Pen, que vomitava seu ódio contra os trabalhadores estrangeiros que a França havia convidado para os anos de grande crescimento econômico depois da II Guerra Mundial."Les Français d'abord!" (Primeiro, os franceses") – esse era o seu lema. Também pude observar o funcionamento na legalidade da extrema-esquerda francesa (pequenos partidos como a Liga Comunista Revolucionária), com membros dos quais fiz amizades em Montpellier e em Paris. Esses grupos pareciam muito ligados ao movimento docente francês, lançavam candidatos nas eleições presidenciais, mas não possuíam apelo eleitoral. Da mesma que os comunistas, que realizavam a anual  "Fête de l'Huma" nos arredores de Paris, eles também promoviam semelhante evento em lugar e tempo diferentes. Essas festas eram bacanas e seus frequentadores incluíam pessoas que podiam nem serem simpatizantes desses partidos.

Nosso encontro com o sistema escolar francês possui dois aspectos: a burocracia francesa e o ensino propriamente falando. Não nos defrontamos com problemas, apesar da fama de ser uma administração pesadona e chata como a brasileira. Com efeito, tudo era feito através da Faculdade de Direito de Montpellier, a mais velha da Europa, fundada no século XIII: visto de permanência, matrícula etc. Quanto ao ensino, muitas foram as descobertas e muitas aquisições. Para começar, diga-se que o sistema universitário francês tinha (não sei se tem mais) um monte de diplomas universitários no nível da graduação que nós não quisemos compreender. Nós fizemos um diploma chamado DEA (Diplôme d' Études Approfondies) em Filosofia Política na mencionada faculdade de direito. Ele fazia parte de um doutorado que Michel Miaille, famosa liderança do Movimento de Crítica do Direito da França que teve muita importância na formação do Movimento Direito Alternativo de Santa Catarina, que ele ajudara a fundar com a difusão de seus dois livros principais ("Uma introdução crítica ao direito" e "O estado do direito") e com sua presença fazendo palestras.

Esse programa de pós-graduação de Michel Miaille fora conseguido justamente com a chegada da esquerda francesa ao poder político nacional. Na tradicional faculdade de direito, ele mantinha esse programa e um centro de pesquisas sobre o Estado chamado ("CERTES"). O curso incluía algumas disciplinas e diversos seminários temáticos. Os professores eram todos de esquerda, alguns mais, outros menos. Foram dados à leitura muitos textos de Marx e de marxistas. As avaliações dos seminários eram feitas sobre as apresentações dos estudantes nas respectivas salas, enquanto as avaliações das disciplinas eram provas escritas feitas no anfiteatro da escola de direito. Embora já tivéssemos alguma desenvoltura com a língua francesa por conta de estudos na UFS e sobretudo na Aliança Francesa de Aracaju, apresentar seminários e fazer provas escritas em francês era meio complicado. Mais tarde, morando em Paris, notamos que estudantes brasileiros praticamente eram dispensados das aulas e dos seminários, apenas ficando responsáveis pela redação de papers ao fim dos cursos e dos seminários.

Nos dois anos que passamos em Paris, pudemos conhecer os medalhões dos meios universitários franceses por ocasião de palestras e inscrito em cursos na condição do que eles chamam de "auditeur livre" (ouvinte livre). Frequentamos sobretudo dois espaços universitários, ou seja, a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e o Instituto de Estudos de Desenvolvimento Econômico e Social. Este último era voltado para estudantes do então dito Terceiro Mundo e nós acompanhamos cursos sobre a Teoria do Estado de Pierre Salama e de Gilberto Mathias. Na primeira escola frequentei aulas de Claude Lefort e de Pierre Rosanvallon. Na Universidade de Nanterre, tive aulas com Robert Boyer, um grande nome e teorizador da Escola da Regulação, naquilo que nos interessava sobre a sua Teoria do Estado.

Para além dos encontros mencionados, tivemos a chance de conhecer quase todas regiões da França, à exceção da Aquitaine. Foram muitas viagens de trem e de carro pelas bem cuidadas estradas francesas, com suas paradas para piqueniques, saboreando a grande diversidade cultural das regiões francesas, quase sempre muito bonitas e com a sua deliciosa culinária mesmo nas cidades e nos lugares pelos quais turistas não dariam a menor importância. Na capital francesa, Paris, poderia facilmente trabalhar como guia turístico. Paris se tornou para nosotros um pouco como o bairro Siqueira Campos de Aracaju, que nós conhecemos tão bem. Sem exageros, nem jactância.

Também fomos ao encontro da maioria dos países da Europa Ocidental e da Europa do Leste. No grupo dos primeiros países, alguns foram visitados muitas vezes como Suíça. Outros países que fomos visitar foram Portugal, Espanha, Itália, Luxemburgo, Lichtenstein, Béligica, Holanda, Inglaterra e Alemanha. Do lado da cortina de ferro, conhecemos a Hungria e as antigas Iugoslávia, Tchecoslováquia e  Alemanha Oriental. Os países do bloco totalitário foram uma decepção. Estamos pensando em fazer um novo passeio por todos eles juntos no ano que vem. Bons tempos, aqueles!

* Coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Estado e a Democracia


Coluna Afonso Nascimento
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Por Kleber Santos
30/10
22:21

O Vale das Cobras

José Lima Santana
Professor da UFS

    Morro de São Miguel. Povoadozinho mixuruca perdido no sopé dos confins do Vale das Cobras. Alfredão não sabia se havia cobras por lá que pudessem justificar o nome. Ora, quem sabia se o lugar não podia até ser um habitat de serpentes venenosas? E, na verdade, era sim. Porém, de serpentes com duas pernas. Lugarejo de homens sem lei, sem rei e sem fé. Recanto miserável, esquecido por Deus. Antro no qual o diabo fez morada, ao fugir do suplício do inferno. Ali o diabo corria solto aos quatro ventos. E arrebanhava muitos adeptos. Quantos pistoleiros de aluguel mantinham ali o seu canto? Uma ruma. Sem dúvida, em cada família podiam ser contados dois ou três. Era o maior percentual de pistoleiros que se podia encontrar em qualquer parte do Nordeste. Entre eles, todavia, não havia malquerença. Pudera! Se eles brigassem entre si por certo não sobraria viv’alma no Morro de São Miguel.

    Alfredo Neves Pitombeira era a graça do rapaz. Bicho taludo com bem dez palmos de altura, corpo fornido e rijo como um tronco de baraúna. Sertanejo morador de muito para lá do Vale das Cobras. Tropeiro bem apanhado na vida, filho e neto de tropeiros. Andava longe de casa, buscando um sinal qualquer que fosse do bandido que matara o seu irmão mais novo, um menino de quatorze anos. Briga? Nenhuma. Rixa antiga? Tampouco. Mera perversidade. O menino vinha pela estrada do Mocambo com um feixe de capim sempre verde na cabeça, comida para os animais mantidos nos fundos da casa, um cavalo e uma mula. O assassino deu de cara com o menino e, sem mais nem menos, exigiu o capim para o cavalo castanho que montava. O menino recusou-se em dar todo o feixe de capim, como queria o estranho. Ofereceu-lhe um molho. Sem mais nem menos, segundo um transeunte que presenciou o fato, o tal sujeito desferiu cinco tiros à queima roupa. E foi-se embora, esporando a montaria e deixando para trás o feixe de capim e o morto. A testemunha disse que o assassino gritara, ao atirar no menino: “Ninguém nega coisa alguma a Zé Pedro do Vale das Cobras”. A ser verdade o que disse a testemunha, ali estava uma pista mais do que segura, a não ser que o estranho estivesse disfarçando ao dizer aquilo, para não ser descoberto.

    Alfredão desceu do cavalo à beira do riacho, que era apenas um filete de água cristalina, que corria e cantava baixinho numa diminuta depressão. Era um cantozinho meio tísico aquele do filete de água. O cavalo baixou a cabeça e bebeu. O moço fez o mesmo, depois de abanar a água com as mãos, um pouco acima do lugar onde o cavalo bebia. Satisfeitos o cavalo e o cavaleiro, este olhou para os lados. Até onde a vista alcançava, só se via verdura. Era, sim, o Vale das Cobras assim chamado. Famoso pela bandidagem que ali se escondia, a bem dizer. Alfredão não quisera companhia. Resolvera vingar a morte do irmão por ele mesmo, sozinho. Meter-se-ia num covil, mas haveria de arrancar os bofes do assassino frio, que matara sem dó nem piedade o seu irmão caçulo, uma criança. Poderia até mesmo perder, ele também, a própria vida. Mas, não haveria de voltar para a casa sem a vingança que sua família carecia. Sangue exigia sangue. Aquela era a lei das terras sem lei.

    Adiante, após andar mais ou menos uma hora, Alfredão deu com uma mulher que lavava roupa num poço, formado no leito do riachozinho de canto tísico, à jusante. “Boas tardes, dona!”. A mulher respondeu meio assustada: “Boas tardes...!”. Àquela hora, o sol começava a descambar para, dali a pouco, cobrir-se com os véus da noite. O poente já começava a tingir-se de vermelho e dourado. “Vosmicê conhece por estas bandas um moço de nome Zé Pedro?”. A mulher não respondeu imediatamente. Passaram-se alguns segundos. “Conheço não senhor”, respondeu a mulher. Naquele instante, alguém falou por trás de Alfredão: “Eu sou Zé Pedro. E vosmicê quem é, forasteiro?”. Alfredão manobrou o cavalo, virando-se para o sujeito. “Eu sou irmão do garoto que vosmicê matou faz uma semana, lá na estrada do Mocambo. E vim aqui buscar a minha vingança”. De rifle em punho, o assassino, que mascava uma capa de fumo, atirou fora uma cusparada escura. Mirava a cabeça do cavaleiro, cujos miolos logo, logo seriam esparramados. “Então, eu vou matar dois cachorros sarnentos da mesma laia, é?”. A mulher que lavava roupa mais do que depressa se escondeu atrás de uma árvore. E gritou: “Tenha cuidado, Zé Pedro!”.

    Alfredão manteve-se calmo, mirando a mão do celerado, posta no gatilho. No seu coldre, o revólver calibre trinta e oito e ao lado direito da sela, o rifle papo amarelo. Ele era muito ligeiro no gatilho, embora nunca tivesse atirado em ninguém. Apenas gostava de praticar e só matava caça, miúda ou graúda. Não era um pistoleiro como aquele que estava ali, todavia, por certo, não faria feio num duelo do velho Oeste, como nos filmes de “coboio” que ele assistia na cidade, quando para lá se dirigia a cada dois meses, para ver a namorada, sua prima em segundo grau. Moça bonita, prendada, que muitos marmanjos da cidade desejavam, mas que não chegaria para o bico de nenhum deles. Seria sua esposa, a mãe dos seus muitos filhos, como ele os desejava ter. Naquele instante, e por um átimo, Alfredão pensou em Maria Clara. Ele não haveria de morrer ali pelas mãos sujas do pistoleiro Zé Pedro. Não! Maria Clara não derramaria lágrimas por um namorado defunto. A Virgem não haveria de permitir.

    O assassino do irmão de Alfredão sorria um rizinho cínico. Atirou outra cusparada escura, maculando a grama verde. Os comparsas o chamavam de Zé Pedro Tiro Certo. Ele manobrou o gatilho do rifle e disparou na certeza de uma borrifada de miolos melaria a grama verde. Bang! O tiro, contudo, saiu a esmo, no instante mesmo em que Alfredão derreou o corpo para o lado esquerdo do animal, que se espantara com o estampido, e já com o revólver em punho. Não precisou atirar. Zé Pedro deu um pinote e largou o rifle. Uma cobra coral acabara de picar a sua perna direita. Ele caiu. Soltou um urro medonho. Gemidos... As suas pernas começaram a tremer. Os gemidos diminuíram. Os olhos foram se fechando. Um filete de sangue começou a escorrer pelo canto esquerdo da boca. A mulher que dissera não conhecer Zé Pedro e que se escondera atrás da árvore, aproximou-se dele, soluçando: “Ai, meu filho! Ai, meu filho!”. A mãe amparou no colo o filho pistoleiro, que morria. Alfredão teve pena da pobre mulher. Afinal, uma mãe era sempre uma mãe. Ele, então, fez o sinal da cruz e manobrou o animal que cavalgava.
   
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    Peço vênia aos leitores para dizer que recebi uma mensagem do eminente jurista capixaba João Baptista Herkenhoff, cujos livros, ou alguns deles, são meus velhos conhecidos, e, ao menos o livro “Fundamentos do Direito”, é conhecido pelos meus alunos da disciplina Introdução ao Estudo do Direito, pois dele eu faço uso em minhas aulas, há muitos anos. O mestre, que eu não conheço pessoalmente, elogiou o meu artigo “O fuzil e o bico do urubu”, publicado no JORNAL DA CIDADE e no blog PRIMEIRA MÃO, em setembro de 2015. Disse assim o jurista: “Li hoje seu artigo, através da internet: O fuzil e o bico do urubu. Seu estilo é muito agradável. Além disso, tem a arte de colher as coisas interessantes do cotidiano. Parabéns”. Ora, é uma grata surpresa, uma alegria e uma honra para mim, poder ser lido e apreciado por alguém de tão longe da nossa terrinha, como o Dr. Herkenhoff, jurista de escol, professor e magistrado aposentado, que está com a idade de 80 anos. Obrigado ao Mestre, por figurar no rol dos leitores dos meus escritos tão simples. E obrigado a todos que conseguem ler o que eu escrevo.


*Diácono, advogado, membro da ASL, da ASLJ e IHGSE  




Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
30/10
20:29

Edvaldo Nogueira é o prefeito eleito de Aracaju

Com exatos  146.271 votos (52,11%), Edvaldo Nogueira (PC do B) foi eleito no início da noite deste domingo, 30, prefeito de Aracaju. Ele disputou o cargo no segundo turno contra o deputado federal Valadares Filho (PSB), que obteve 134.435 (47,89%).

 

Nogueira, que já esteve no comando da Prefeitura de Aracaju por seis anos, de março de 2006 a dezembro de 2012, tendo sido  eleito vice-prefeito de Aracaju em 2000, na chapa encabeçada por Marcelo Déda, volta ao cargo em 1º de janeiro de 2017.

 

O prefeito eleito terá como vice a ex-primeira-dama de Sergipe,  Eliane Aquino (PT), viúva do ex-governador Marcelo Déda, morto em dezembro de 2013. O militante do  contou com o apoio do governador Jackson Barreto (PMDB).

 

Edvaldo Nogueira fez sua campanha mostrando as obras realizadas no período em que foi prefeito da cidade. Contou  com uma coligação de oito partidos (PC do B / PT / PSD / PRP / PMDB / PT do B / PTN / PRB).

 

Agora Nogueira e seus aliados vão tratar da transição com a equipe a ser designada pelo prefeito João Alves Filho (DEM).



Coluna Afonso Nascimento
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Por Eugênio Nascimento
30/10
18:12

2º turno em Aracaju – A Campanha dos renegados

A campanha eleitoral do segundo turno da disputa da Prefeitura de Aracaju, envolvendo os candidatos Edvaldo Nogueira (PC do B) e Valadares Filho (PSB), não foi de baixo nível no rádio e na tv. Nesses dois espaços, os candidatos trocaram acusações, se provocaram, propagaram boatos e, para relaxar, mentiram muito, coisa que políticos sempre fazem.

A baixaria, isso está bem claro, aconteceu nas redes sociais. No twitter, facebook e, principalmente, no zap, os cabos eleitorais eletrônicos trataram de ampliar os discursos vazios de seus chefes, passando a dar o tom de boato, fofoca  de mau gosto e bate boca de desocupados.

Agora, na reta final, passaram a divulgar pesquisas falsas, declarações nunca feitas e boatos que fizeram os eleitores mais idosos  lembrar campanhas eleitorais das décadas de 1940, 1950, 1960, 1970... Só faltaram ameaças de morte, trocas de tiros e outras formas de coação comuns em tempos não tão distantes.

Não há nada demais em afirmações do tipo  “o prefeito João Alves e seus aliados estão com Valadares Filho” e “Edvaldo tem o apoio do governador Jackson Barreto e Rogério Carvalho”, até por que são verdadeiras. Os candidatos e seus grupos buscavam esconder esses cenários revelados. Mas são reais.

Tornar públicos apoios em  eleições sempre foi algo que os candidatos gostavam de fazer, até mesmo para mostrar força, conquistas de votos. Mas no segundo turno de Aracaju em 2016, Valadares Filho rejeitava ser exposto com os aliados que arranjou, a exemplo do líder do governo Temer na Câmara Federal, deputado André Moura.

Esse tipo de atitude diminui a campanha. Valadares Filho negou João por 100 ou 200 vezes. Ele tinha até  razões para não querer o apoio de um prefeito com  rejeição popular superando os 70%. Mas não deveria negá- lo, escondê-lo. Apontou o governador, que era também seu aliado, como apenas apoiador de Edvaldo. Esqueceu do passado recente.

Na verdade, a campanha do segundo turno foi marcada por acusações contra os renegados JA (João Alves) e JB (Jackson Barreto). Mas não faltaram acusações e provocações também contra os senadores Eduardo Amorim (PSC), Antônio Carlos Valadares (PSB) e Maria do Carmo (DEM). Vale lembrar também as acusações contra o ex-presidente Lula e outros petistas envolvidos, segundo a Justiça, na Operação Lava Jato.

Quanto às propostas, isso parece que não teve muita importância para os candidatos. Mas os eleitores demonstraram irritação com a falta delas.

Política
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Por Eugênio Nascimento
29/10
21:12

Coluna Primeira Mão

Sintese pede bloqueios


O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe (Sintese) pediu à Justiça o bloqueio das contas de 47 (quarenta e sete) municípios que, reiteradamente, atrasaram, parcelaram ou retiveram os salários dos Profissionais do Magistério Público, afrontando uma série de princípios constitucionais e, nos casos mais graves, gerando fome no seio de inúmeras famílias de trabalhadores, cujo único provento advém das suas remunerações enquanto docentes. Em nota divulgada ontem, a entidade sindical diz que ?diante de violação tão grave e da iminência de um calote generalizado nos salários dos professores, o Sintese solicitou o imediato bloqueio das contas do FUNDEB, da MDE e do Salário?Educação desses 47 municípios, com o objetivo de assegurar o pagamento dos salários dos meses de outubro, novembro e dezembro e 13º do ano em curso. Entre os municípios estão Canhoba, Canindé do São Francisco, Graccho Cardoso, Ilha das Flores, Monte Alegre de Sergipe, Muribeca, Neópolis, Nossa Senhora da Glória, Pacatuba, Pedra Mole , Pedrinhas, Pinhão, Porto da Folha, Propriá, Riachão do Dantas, Rosário do Catete, Salgado e Santa Rosa de Lima.


O interior na capital


Tanto Valadares Filho (PSB) como Edvaldo Nogueira mobilizaram lideranças políticas do interior para a caça ao voto na capital. De Nossa Senhora do Socorro, Fábio Henrique e Padre Inaldo e de Itabaiana Maria Mendonça e Luciano Bispo andaram procurando o eleitor de sua cidade que hoje vota em Aracaju Fábio e Inaldo atacaram os moradores dos conjuntos de Socorro. Por sua vez, Maria e Luciano saíram em busca dos bodegueiros e donos de armazéns de Aracaju, que, em sua maioria, são itabaianenses.


Recuperação de votos


A rápida recuperação que teve o prefeiturável do PC do B, Edvaldo Nogueira, teria sido motivada pela iniciativa do governador Jackson Barreto (PMDB) de recuperar votos dele que o deputado estadual Robson Viana estaria direcionando para Valadares Filho, o candidato à Prefeitura de Aracaju pelo PSB.


Só promessas


Durante a campanha política, Edvaldo e Valadares Filho prometem mundos e fundos aos eleitores. São investimentos na saúde, em educação em tempo integral, em educação profissional, investimentos em mobilidade urbana, segurança etc. Na verdade, esqueceram de dizer que quem assumir a prefeitura vai ter que cortar na própria carne, reduzir número de comissionados e implementar um grande programa de racionalização no uso dos recursos.


Tempo ruim em Aracaju


O mar não está pra peixe. O Fundo de Participação dos Municípios vai continuar encolhendo por muito meses. A pergunta é, Valadares Filho e Edvaldo Nogueira estão preparados para enfrentar essa situação. Estarão à altura dos desafios que vão se impor. Do novo prefeito de Aracaju vai se exigir fibra e muita disposição para contrariar interesses estabelecidos. Você eleitor, consegue identificar essas caracteristicas nos candidatos?

Prefeitos dominados


Tradicionalmente, os prefeitos da capital são reféns da empresa contratada para a coleta de lixo e das empresas de transporte coletivo. Sem falar das construtoras que têm grande influência na Câmara Municipal e dificultam a aprovação de normas de zoneamento e ordenamento do espaço urbano que contrariem seus próprios interesses. O ministério público e o TCE bem que poderiam dar suporte para que o futuro prefeito enfrente esses interesses estabelecidos e governe de fato para a população. João Alves foi um prefeito que fracassou nas três áreas e por isso não conquistou a reeleição. Teve gestão desastrosa na coleta de lixo, no transporte coletivo e não conseguiu gerenciar minimamente a ocupação do espaço urbano.


Cabo eleitoral armado


Nos velhos tempos de rivalidades entre PSD e UDN, os deputados iam para o plenário da Assembléia Legislativa de Sergipe armados e andavam armados pelas ruas de Aracaju e do interior, além de terem a proteção de capangas ou seguranças. Na noite de quarta-feira circulou na internet uma foto em que o ex-capitão da PM e atual deputado estadual Samuel estava fazendo campanha com uma pistola na cintura. No início, sem que fosse reconhecido, comentou-se que se tratava de um pistoleiros atuando como segurança.; Momentos depois, alguém anunciou: é o Capitão Samuel. Felizmente, o capitão Samuel disse que vai para a Alese armado, mas deixa sua arma no carro antes de entrar no plenário. Resta saber se o porte do policial é mantido mesmo depois de sua aposentadoria ou se ele tira novo porte agora como aposentado. Outra coisa: admitindo que pode, é preciso saber se a arma é de uso exclusivo de policiais militares ou é arma que pode ser comprada por qualquer pessoa.


De olho na compra de votos


É comentário frequente entre os políticos que a compra de votos acontece na véspera do pleito. Portanto, nada noite do sábado para o domingo deste final de semana que a ?malandragem? corre solta. Os candidatos desaparecem das ruas, ficam em casa com a família, e os assessores e aliados entram em campo na compra de lideranças, os responsáveis diretos pelo contato com eleitor vendedor de voto. Mesmo isso acontecendo em todas as eleições, os serviços de inteligência da Polícia Civil e da Polícia Federal não possuem até hoje uma listão desses cabos eleitorais que intermediam esse comércio de votos. A compra de votos poderá ser fator decisivo na escolha do futuro prefeito de Aracaju.

O voto da juventude


Os dois candidatos têm buscado ganhar os votos de adolescentes e de jovens de diversas maneiras. O PC do B tem uma longa história de proximidade com o movimento estudantil secundário e universitário, sendo o próprio Edvaldo um produto dessa ligação. Já Valadares Filho tem se aproximado dos eleitores jovens através do financiamento de festas e de esportes. Mesmo Valadares, o pai, já destinou dinheiro do orçamento para financiar essas festas. Os candidatos colocaram em seus programas eleitorais jingles para tentar alcançar a juventude da periferia.

Julgamentos adiados em Aracaju

“Em nossa área, júris e audiências de réus presos não têm sido realizadas. Há quase 60 dias, praticamente não temos júri em Aracaju. O sistema prisional está emperrado. Os réus presos não são conduzidos para as audiências e para os júris”. O comentário é do promotor Deijaniro Jones. O que será que está havendo?

Pesquisas - Se as pesquisas realizadas e divulgadas no decorrer desta semana que agora se encerra e que apontam empate técnico entre Edvaldo Nogueira e Valadares Filho estiverem corretas, o melhor que se faz é ir votar e esperar o resultado oficial, a ser divulgado na noite deste domingo pelo Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe (TRE-SE).


A disputa - Se Edvaldo Nogueira perder essa eleição, essa será a sua primeira derrota como candidato a prefeito de Aracaju. Se Valadares Filho perder, contabilizaraá a segunda derrota. Os dois estão nas mãos dos 397 mil eleitores com direito e que poderão ir às urnas neste domingo, 30 de outubro.


Desativação - O fórum de Nossa Senhora Aparecida, Moita Bonita e mais outros 8 municípios de Sergipe serão desativados.

 

2º turno - Nas redes sociais, há anarquia numérica

 

 

Como não dá para confiar em números que andam sendo  divulgados como reais e referentes a pesquisas eleitorais realizadas nos últimos dias em Aracaju, a coluna prefere seguir os dados que apontam a existência de um empate técnico e que o desempate está nas mãos dos eleitores. Nas redes sociais, há uma anarquia numérica. Os grupos dos candidatos forjam pesquisas,  lançam à todo instante números novos e propagam muitos boatos atingindo uns aos outros.  O eleitor não deve levar isso à sério. Desempate!



Coluna Eugênio Nascimento
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
25/10
12:59

Um marco da arte moderna em Sergipe: mural de azulejos do Edifício Walter Franco


Amâncio Cardoso e Francisco José Alves


O mural em azulejos de cerâmica, pintado em 1957, exposto na parede da fachada do edifício Walter Franco, esquina do calçadão da rua João Pessoa com a praça Fausto Cardoso, em frente ao Palácio-Museu Olímpio Campos, no centro histórico de Aracaju, é ainda pouco conhecido pelos sergipanos. Embora esteja neste local há mais de meio século, muitos citadinos ou visitantes que passam rente ao painel não percebem sua beleza em forma, conteúdo e cores; ou simplesmente ignoram qualquer informação sobre autoria, tema, estilo, suporte, contexto em que foi produzido; e quase nada sabem sobre seu valor artístico.
Mural é uma pintura realizada sobre muro ou parede, quase sempre de grandes proporções. O ?mural do Walter Franco?, como alguns o denominam, foi tombado. Ou seja, colocado sob a guarda do Governo Estadual para ser conservado e protegido, pois foi considerado um bem de interesse público devido ao seu valor artístico. O tombamento ocorreu através do Decreto nº 9.990, de 26 de outubro de 1988, inscrito no Livro de Tombo nº 01 ? Geral ? folhas 12 e 13.3  Portanto, a obra pertence ao acervo oficial do patrimônio cultural sergipano.
O mural, medindo cerca de 3m de altura por 4m de largura, é composto pela pintura do artista plástico Jenner Augusto (1924-2003) sobre ?biscoitos? de cerâmica em azulejos, fabricados pelo ceramista Udo Knoff (1912-1994).
Jenner Augusto da Silveira foi um importante pintor aracajuano e viveu em várias cidades sergipanas, as quais inspiraram sua arte, retratando feiras, paisagens, fatos históricos e tipos populares. Em 1949, Jenner introduziu a arte muralista em Sergipe com seus painéis nas paredes do antigo bar e restaurante Cacique Chá. Ainda no mesmo ano, ele passa a residir em Salvador para aperfeiçoar sua pintura. Na Bahia, participa da polêmica mostra Novos Artistas Baianos, realizada no Instituto Histórico e Geográfico.4 Nesse período, Jenner conhece, entre outros artistas, o ceramista Udo Knoff.
Horst Udo Enrich Knoff, nasceu na Alemanha, em Halle. Em 1950, chegou ao Rio de Janeiro, onde trabalhou na Cerâmica Duvivier. Em 1952, foi a Salvador e mudou-se definitivamente para lá. Abriu um ateliê de cerâmica na Avenida D. João VI, no bairro de Brotas. Em 1968, interessou-se pela azulejaria antiga e passou a coletar azulejos de construções em demolição, formando rico acervo. Em 1975, ele foi a Lisboa, Portugal, para coletar material e finalizar a pesquisa de azulejos da Bahia, no conhecido Museu Madre de Deus, hoje Museu do Azulejo. Como resultado, publicou o livro ?Azulejos da Bahia? em 1986. ?Udo, o dos azulejos?, como disse Jorge Amado, ?não só implantou arte moderna do azulejo na Bahia, cozinhando formas nascidas de desenhos seus, de Carybé, de vários outros artistas, como se dedicou apaixonadamente ao estudo dos velhos azulejos ...?.5
O autor da pintura do ?mural do Walter Franco?, Jenner Augusto, estava entre os pioneiros da arte muralista em Salvador na década de 1950, ao lado de Carlos Bastos, Mário Cravo Jr., Genaro de Carvalho e Carybé. Mesmo sobressaindo as características de cada artista, havia nesse grupo ?uma certa herança cubista da geometrização, abrangendo as figuras ou a própria composição do espaço?.6  A partir de então, Jenner trouxe esta expressão para o mural do edifício Walter Franco, em Aracaju, no ano de 1957.
O tema geral do ?mural do Walter Franco? é a produção agrícola de Sergipe na primeira metade do século XX. São naturezas mortas de pescados, coco, caju, cana, milho; além de mulas com caçuás. Assim, a obra retrata parcela da economia sergipana da época. Nesse período, Aracaju era um dos maiores produtores de coco do Estado e a cana-de-açúcar era uma das mais expressivas culturas desde o século XIX, marcando o traço patriarcal rural da nossa sociedade. Sergipe tinha sua história vincada pela produção agrícola, tema exclusivo do mural. Contudo, os autores não lhe deram título.
Quanto ao suporte em azulejos, eles foram confeccionados na cerâmica de Udo Knoff, em Salvador-BA. Daí a sua longevidade e preservação, pois o azulejo sendo uma plaqueta de cerâmica vidrada suporta melhor que outras bases o desgaste do tempo.
Sobre as cores, predominam tonalidades de azul; típicas dos azulejos portugueses.
Uma peculiaridade do ?mural do Walter Franco? é que os azulejos foram assentados de modo que acompanha a curvatura da esquina do prédio, oferecendo ao público uma perspectiva curvilínea, cujo efeito é de maleabilidade da tela de cerâmica vidrada.
Outro ponto a destacar é a disposição dos elementos pictóricos. Nota-se uma arrumação falsamente aleatória das figuras, pois ela obedece tanto à verticalidade dos cajus e peixes quanto ao alinhamento diagonal dos pés de cana, em espaços separados por formas retas e geométricas. Dessa maneira, há rigor e retidão na disposição das figuras, disfarçado de displicência natural, pois os espaços dedicados a cada elemento são assimétricos e de tonalidades diferenciadas de azul até o branco. Isto causa no público uma falsa ilusão de desordem, própria do estilo cubista.
Jenner, o coautor da obra, se expressou com técnicas do cubismo ao pintar o mural, pois ele já vinha utilizando a ?fórmula de geometrização quase abstrata do espaço de fundo do pintor de Brodósqui [Cândido Portinari (1903-1962)], a fundir influências do expressionismo e do cubismo".  Dessa forma, não é despropósito afirmar que o estilo empregado por Jenner, na pintura do ?mural do Walter Franco?, se aproxima do cubismo.
O cubismo é considerado um dos movimentos artísticos mais influentes do início do século XX. Caracterizava-se por tratar de maneira geométrica as formas da natureza. No entanto, os pintores não chegavam à abstração, pois as imagens representadas permaneciam figurativas, ou seja, ainda eram reconhecíveis; a exemplo das figuras pintadas por Jenner sobre azulejos de Udo na parede do edifício Walter Franco.
Embora os temas das pinturas cubistas tenham sido convencionais, como as naturezas mortas do painel aqui aludido, o modo como os artistas desse movimento representavam sua visão dos objetos era considerado muito ousado, pois rompia com a perspectiva tradicional e a linha de contorno. Assim, pode-se afirmar que a pintura de Jenner, na obra aqui aludida, se apropriou do uso das formas geométricas e das linhas retas do cubismo, trazendo esse estilo modernista para as ruas de Aracaju. O mural do Walter Franco é, portanto, um marco na história da arte moderna em Sergipe.
Em 2010, o nosso mural passou por uma limpeza. Ele permanece em bom estado de conservação, apesar da exposição às intempéries. É uma obra de acesso público e gratuito, mas que deve ser mais conhecida e melhor divulgada pelos sergipanos.
Neste sentido, é fundamental que a Secretaria Estadual de Cultura e/ou de Turismo instale, com urgência, uma placa com informações sobre o painel e seus autores para que a população e os turistas conheçam o valor artístico e cultural da obra de Jenner e Udo. Aliás, a falta de placas com informações turísticas ou históricas nos atrativos de Sergipe é quase universal.
Explicitando as informações sobre o mural ao público, ele será mais apreciado e contribuirá com o apuro estético dos transeuntes, exercitando o olhar e aprofundando o saber. Dessa forma, nosso patrimônio cultural cumprirá sua função social. Mas, por enquanto, a pintura de Jenner Augusto sobre azulejos de Udo Knoff é apenas, para a maioria, uma parede com garatujas azuladas.
1Professor de História e Patrimônio Cultural dos cursos de Turismo do IFS. 
acneto@infonet.com.br
2Professor do Departamento de História da UFS 
fjalves@infonet.com.br
3CARVALHO, Ana Conceição Sobral de; ROCHA, Rosina Fonseca (Orgs.). Monumentos sergipanos. Aracaju: Sercore, 2007. p.129.
4BRITTO, Mário; FERNANDES, Zeca (Org). Jenner Augusto: vida e obra. Aracaju: Sociedade Semear, 2012.
3MADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 30º ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 274.
 4MACIEL, Neila. Projeto de Mapeamento de Painéis e Murais Artísticos de Salvador - Relatório Final. Salvador: FUNDEB.
5PONTUAL, Roberto. Jenner: a arte moderna na Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
5AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 30º ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 274.
6MACIEL, Neila. Projeto de Mapeamento de Painéis e Murais Artísticos de Salvador - Relatório Final. Salvador: FUNDEB.
5PONTUAL, Roberto. Jenner: a arte moderna na Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.



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Por Eugênio Nascimento
25/10
08:11

Palhaço violento é lenda urbana ou não? Lembra da loura do Augusto Franco?

Lenda urbana? O fato é que andam postando nos grupos de zap e no facebook fotos de um palhaço e atribuindo a ele atos de violência em Estância e, agora também, em Itaporanga D'Ajuda. Mas essa lenda urbana (será só isso, mesmo?) me fez lembrar doscaso da loura do Augusto Franco, uma mulher que parava táxis tarde da noite e, segundo os taxistas, lhes roubava o faturamento do dia e lhes raptava por uma ou duas horas. Os motoristas diziam não lembrar para onde ela os levava. Mas aí surgiu a versão de que os taxistas, na verdade, desapareciam para curtir com namoradas. Numa outra versão, eles iam passar momentos de relaxamento nos cabarés. Inventavam histórias envolvendo a loura para contar em casa, para suas esposas. Nenhuma das versões foram confirmadas até hoje. Alguns dos motoristas garantiam que a loura era, na verdade, uma louraça, uma mulher com características físicas de chamar a atenção de qualquer pessoa – descrita como alta (mais ou menos 1,75 metro, olhos esverdeados, lábios carnudos e seios volumosos e firmes. Tinha ainda uma voz suave e encantadora. Mas todas as supostas vítimas disseram à polícia que saíram do carro correndo e pedindo socorro. Ainda assim, ela conseguiu levar o dinheiro deles.



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Por Eugênio Nascimento
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