Os Dez Mandamentos: O que a travessia do Mar Vermelho nos ensina?

11/11/2015 02:09:21 por Kleber Santos em Coluna Kleber Santos
(Crédito: Reprodução/Rede Record)

A cruz de Cristo é a travessia do mar vermelho existencial. É todo dia eu não me permitir viver escravo

Por Kleber Santos*

Nesta terça-feira (10), a Rede Record apresentou a primeira parte da cena que mostra a travessia do Mar Vermelho pelos hebreus na novela “Os Dez Mandamentos”. O cenário é impactante. Pirotécnico. O olhar perplexo dos personagens retrata exatamente como eu ficaria se estivesse presente na época. A extravagante soberania de Deus é demonstrada mais uma vez e não pararia por aí. Diga-se que antes já havia acontecido as 10 pragas numa demonstração de que Deus estava e está no controle de tudo. E depois, aquele mesmo povo ainda iria ver sair água da rocha, água salgada ser transformada em doce e cair pão (maná) do céu. Enfim. Muita representação do lado de fora. Contudo, os milagres não mudaram quase ninguém do lado de dentro.

A experiência vivida pelos hebreus foi tão marcante que o apóstolo Paulo a utilizou para aconselhar os fiéis da igreja grega de Corinto: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar”. (1 Coríntios 10:1). E continua: “...tendo sido todos BATIZADOS, assim como na nuvem como no mar”. Paulo mostra que a experiência da travessia era um batismo, um mergulho para dentro, que expressa a nova vida a partir daquele momento. Literalmente e espiritualmente um divisor de águas. De um lado, o novo homem, livre. Do outro lado, o velho homem, escravo. E no meio, o mar fazendo o limite.

A partir daquele ponto, a principal jornada seria interior. Logo, a travessia do Mar Vermelho é, paradoxalmente, um mergulho para dentro do ser. E o maior milagre não deveria ser vivenciado no exterior, mas no coração. É bem verdade, que o caminhar deles foi um andar sob milagre a cada segundo, visto que pela manhã havia uma coluna de nuvem para os guiar, e à noite, uma coluna de fogo para iluminar. Direção e proteção. Todos os dias. Eram esses significados no coração que deveriam ficar em cada um. A certeza do amor de Deus.

Na prática isso não aconteceu. Paulo, ainda na carta aos coríntios, afirmou: “Mas Deus não se agradou da maior parte deles; pelo que foram prostrados no deserto” (10:5). Vemos que não adiantou milagres diários, e nem ter passado por ritos de batismo (travessia do mar e a nuvem). Sim, digo e repito: nenhuma manifestação do lado de fora tem o poder de mudar do lado de dentro. Os rituais religiosos, os sacramentos e nem a religião mudam o coração do homem. Podem servir apenas como ritos de passagens e marcas psicológicas. E só. Mas não os garante que sobreviverão no deserto.

Sei que nado contra a correnteza. O fluxo dessa geração é cultuar a imagem, a estética, o show, a pirotecnia, e não se importa com o significado e valor de cada gesto. É a geração que vive a ilusão de querer provas diárias do poder de Deus. A ilusão acontece quando só cremos em Deus se Ele abrir o mar vermelho ou atender as nossas orações. Ora, fé é fé. É certeza do que não se vê. Esperança no que não chegou. Logo, a fé no amor de Deus quando se instala no coração não precisa de nada disso. De nenhuma performance do lado de fora. Apenas se sabe de quem é o “Eu sou” do qual Deus se referiu sobre Ele mesmo antes das dez pragas.

Estou convencido de que o verdadeiro batismo que produz significado para vida interior é a certeza do que Jesus fez na cruz do Calvário. Paulo escrevendo aos italianos de Roma revelou que: “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? (Romanos 6:3). A implicação disso Paulo explica: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em NOVIDADE DE VIDA”. (6:4). A cruz de Cristo é a travessia do mar vermelho existencial. É todo dia eu não me permitir viver escravo. É todo dia não me permitir olhar para trás. E mais: “Porque, se temos sido UNIDOS a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição” (6:5). Assim como Cristo ressuscitou, eu sou ressuscitado todo dia. Sei que todo dia Deus me dá uma nova chance. Ainda que erre um dia, tem sempre o outro para eu ser uma pessoa melhor, mais humana. E que o maior milagre é o que Ele faz em mim a cada manhã que nasce.

Apesar dos meus poucos 35 anos, vivi o suficiente para entender que a cena da travessia do Mar Vermelho me ensina mais sobre andar em novidade de vida do que sobre o poder de Deus. Porque poder por poder, Deus já tinha dado 10 motivos da sua onipotência com as 10 pragas. Mas, o caminho do coração, aquele da dependência diária de Deus, ah... só no chão da existência todos os dias para se aprender. E quando se sabe disso diante da crise, o mar não precisa nem se abrir como aconteceu com os hebreus, ou muito menos preciso andar sobre as águas como fez o apóstolo Pedro. Não importa. O barco pode até sofrer naufrágio, como aconteceu três vezes com o próprio Paulo, ou então, posso ser engolido pelo grande peixe, como em Jonas, mas a fé...ah, a FÉ... estará sempre naquele que morreu na Cruz por mim e me tirou do Egito. Hoje, sou livre. É isso!

*Jornalista e pós-graduado em jornalismo cultural

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