Os Chorinhos e os chorões de Aracaju

Eugênio Nascimento



Dos anos de 1970 a 1986 , o Bar do Tio Carlito, inicialmente localizado na esquina da rua Bahia com Florianópolis, no bairro Siqueira Campos, costumava reunir nas noites de sexta-feira e tardes e parte das noites de sábado e domingo (a animação ia até umas 21h) boa parte da elite pensante de Aracaju, entre os quais, profissionais do direito, jornalistas, profissionais liberais, médicos, economistas, empresários, militantes políticos, estudantes e professores, principalmente da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Por ser uma casa especializada em chorinho, logo passou a ser chamada de “Bar do Chorinho”. Mas tinha aqueles que davam um tom mais próximo do dono chamando a casa de “Bar do Carlito”. Mas o fato é que o bar vivia sempre lotado. E pulsava muita música. Vendia cerveja bem gelada, essas aguardentes de marcas tradicionais do Nordeste (Pitú, Serra Grande, Caranguejo, Baiúca...) e mais a Praianinha e Tatuzinho, conhaque (São João da Barra, Dreher e Presidente dominavam a área), Vermouth (Cinzano, Martini), bala de hortelã, drops mariola, chicletes Adams e Ploc, Campari, Menta, torresmo, Uísque Cavalo Branco e JB , bolachinha de tapioca, Mirinda, Guranás Brahma e Artactica. Crush, Coca, Pepsi e pipoca (tipo Lírio do Vale). Era uma casa popular.


Nos anos de 1980, mais ou menos em 1984 ou 85, um homem invadiu o estabelecimento, que já estava funcionando na rua Sergipe, esquina com Guaporé, trocou tiros e matou o tenente PM Gilberto, também jogador de futebol, irmão do jogador do Clube Sportivo Sergipe e então também capitão da PM Gecélio. O militar morreu no local e o bar caiu em desgraça. Cada dia menos curtidores de chorinho e da boa cerveja apareciam. Carlito morreu em 1986 e com ele foi o seu bar. Mas o chorinho, enquanto estilo musical, sobreviveu em Aracaju com a chegada do Recanto do Chorinho fundado em 13 de dezembro de 1987 por Egnaldo do Bandolim, na rua Bahia com Rio Branco, também no Siqueira Campos.


O bar de Carlito, que servia bons lombos e carnes fritas (guisados e ensopados) - de vez em quando um bom pedaço de Jacaré, tinha como tops as moquecas de arraia e cação, além da vermelha frita. Entre os clientes que eu lembro ter visto por lá estão os hoje advogados Francisco Dantas, Afonso Nascimento, Lúcio Aquiles, Carlos Alberto Menezes, Chico Ramos, Wellington Mangueira com Laurinha, Clovis Barbosa, Luiz Eduardo Oliva, Goisinho, Hortência e Jackson Sá Figueiredo, Edilson Nascimento (professor da UFS), os hoje médicos Adelson Chagas e Carlos Alberto Moura com seu irmão Zezinho, além de dezenas de outros personagens hoje muito conhecidos profissionalmente pelos aracajuanos, a exemplo das professoras Aída, Vera Lúcia, Lúcia Cardoso, Eliane Alves, Lurdinha Santana, Hortência e Sônia Duarte. E ainda: Zé Nivaldo (Amizade); Bosco Mendonça; Luciano Oliveira;  e Átalo Crispim. A casa chegou a receber duas visitas de Paulo Vanzolini (autor de Ronda) e uma de Adoniran Barbosa (Iracema e Trem das 11)

As músicas mais tocadas no Bar de Carlito eram, sem sombra de dúvida, Brasileirinho, Pedacinho do Céu, Odeon, Escadaria, André de Sapato Novo, Tico Tico no Fubá, Antonico, Ave Maria no Morro, e de vez em quando partia-se para o bom samba e até os velhos bolerões. Cantor e tocador apareciam aos montes. Eram os amigos de Carlito e pessoas que se aventuravam a expor-se tocando ou cantando. Os músicos que tocavam em Carlito, além do dono do bar, eram Egnaldo, Tonho do Cavaco, Zé Vieira, Saul e Tabaiana, Feijó, João Rodrigues, Miguel, Dércio, Bigode e Nezinho, entre vários outros que chegavam no ambiente com o instrumento debaixo do braço ou pedia emprestado para dar uma “tocadinha”..


No Recanto do Chorinho, que é referência, inclusive citado no Almanaque do Choro, de André Diniz (editora Zahar), e funciona no Parque da Cidade, em Aracaju, o chorinho faz a festa nos sábados a tarde e domingos, das 17h às 0h, embora o estabelecimento abra as suas portas , às 10h nos finais de semana. No bar e restaurante tem em ação o regional “Recanto do Chorinho”, que é formado por músicos talentosos como Saul, Difan (que ficou no lugar de Egnaldo do Bandolim, morto há três meses, e deixou a esposa, dona Nenem, tomando conta da casa), Souza, Cláudio, Júlio e Vieira. Entre uma carne do sol com macaxeira, moqueca de arraia, feijoada, sarapatel, rabada e galinha de postura, ouve-se boa música sempre e aprecia-se uma cerveja gelada. A vida corre alegre por lá.


O Recanto é hoje o ponto mais tradicional.


Mas não dá para esquecer também a animação do Bar do Inácio, que tem como músicos ele próprio, Pisca, Rivaldo e Zé Paulo, além de visitantes. O Bar do Inácio funciona na rua Canadá, no Bairro América, Nos sábados e domingos tem chorinho das 17h às 21h.

 


Nos dias de hoje, o chorinho continua vivo em Sergipe também graças a músicos como Valtinho do Acordeon, Dão, Jessé, Claúdio Miguel e alguns outros artistas que zelam pela sua preservação.

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