Maria de Zé Gomes

31/01/2016 12:08:56 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor do Departamento de Direito da UFS

Maria de Zé Gomes tinha treze anos quando o pai morreu. Ficaram a viúva e sete filhos. Maria era a mais velha. Dona Izaldina trabalhava lavando roupas das madames para dar de comer e vestir aos filhos. De seu, ela só tinha o casebre testa de bode onde apinhava os filhos. Era uma pobreza infeliz. Zé Gomes morreu picado por uma cobra. Foi achado caído na fazenda Campo Verde, no Grotão, ao lado da enxada. Ali ele tinha botado roça de milho e fava, feijão e mandioca. “Seu” Bertino cedia uns beiços de terra a poucos homens trabalhadores e direitos. Zé Gomes era um deles. Na perna dele foi encontrada a marca de duas presas. Por ali, eram comuns as jararacas e as jararacuçus. Tinha de montão. Cascavel, diziam, uma ou outra.

Além de lavar roupas no açude, do lado do trampolim, no caminho para a fateira, Dona Izaldina também passava as roupas de duas freguesas, aos sábados e domingos. De segunda a sexta-feira, batia roupa na pedra. Tinha madames que lhe davam tão pouco sabão, que mal chegava para tirar o grosso da sujeira. Ela tinha que estragar as unhas, esfregando, esfregando. Outras eram mais fartas e davam sabão suficiente para o necessário. Como tinha que ser. As lavadeiras cantavam suas canções: “Lava, lava lavadeira / Lava, lava sem parar / Em casa o seu menino / Tá chorando pra mamar”. Vida difícil. O dia todo sob o sol escaldante, ou sob a chuva fria do inverno. Às vezes, nem dava para lavar nos dias mais chuvosos. Aparava água nas biqueiras da casa. Enchia porrões e outros vasilhames. Quebrava-se um galho. E ainda tinha madames que reclamavam de tudo. Ah, mundo cruel! Dona Izaldina fazia ouvidos de mouco. Afinal, tinha sete bocas para alimentar, sete corpos para vestir. E tudo estava sempre pela hora da morte. Aliás, para os pobres era quase sempre assim: a carestia não conhecia breque. Só subida.

Maria de Zé Gomes era, por assim dizer, a dona da casa. A mãe na dureza da pedra de lavar ou do ferro de engomar, e a filha cuidando da casa, dos seis irmãos, os mais novos de cobrir com um cesto, como era corrente dizer-se. E ajudava na entrega das roupas lavadas, de casa em casa. Uma moça. E muito bonita. Se fosse filha de gente de posses mostraria uma belezura sem pareia. Era, porém, filha de uma pobre lavadeira, que mal ganhava para não ver os sete filhos morrendo de fome, nem andando nus. Maria estudava pela noite, pertinho de casa. Haveria de ser uma mulher caprichosa e bela. 

Uma tarde, quando Maria foi acudir a mãe, como sempre o fazia, ajudando-a a carregar as trouxas de roupas lavadas, deu de frente com Zacarias de Tertino, um malfazejo. O safado quis agarrar a menina a pulso, para com ela fazer sabia Deus o quê. Não consumou o nefasto intento porque a menina foi socorrida por Valdelice de Valdemar, que abriu a boca no mundo e deu de garra num pedaço de pau, fazendo o descarado aboletar-se. A menina desandou a chorar como uma desvalida. Salvou-se, todavia. Valdelice a conduziu até a mãe. Ciente do ocorrido, Dona Izaldina, à boquinha da noite, tomou o rumo do quartel, para dar queixa de Zacarias. O sargento Mota botou o malandro no xilindró. Ali, ele ficou por três dias. E levou uns “beijos” de cipó caboclo. Uma vez solto, andou dizendo que ainda faria uma arte na menina e fugiria para São Paulo, onde moravam dois irmãos. Passaram-se alguns meses.  

Terça-feira. O dia da semana em que Dona Izaldina tinha mais roupas para lavar. Saía de casa bem cedinho e só retornava quando o sol tomava o rumo do outro lado do mundo. Aquele era também o dia que mais lavadeiras acorriam ao açude. Muitas roupas espalhadas nos quaradores. As brancas cuidadosamente separadas das coloridas. O anil usado à vontade. Os quaradores pareciam enfeitados por bandeiras multiformes, que balançavam ao vento. “A sujeira dessa roupa / Tiro com água e sabão / Mas eu quero é tirar você / Do meu pobre coração”. As lavadeiras cantavam como cotovias. Desafinadas, mas alegres. Algumas. Dona Izaldina não cantava. Não vivia choramingando. Mas, não tinha motivos para cantar. Apreciava, entretanto, a cantoria de Margarida de Sá Bilia. “O meu penar é grande / Sofro e choro sem amor / Mais sofreu na sua cruz / Jesus, Nosso Salvador”. 

Maria de Zé Gomes, botãozinho de rosa desabrochando, ainda meio mirrada, pelo passadio fraco de cada dia, mas de uma formosura que deleitava os olhos de quem a via, depois daquela tarde em que o tarado lhe atacou nunca mais desceu sozinha para o açude. Com ela, ia o seu irmão Guilherme, de dez anos. Maria e o irmão estavam perto da ladeira, que, à esquerda da estrada, descia para o Brejo das Pedreiras, quase em frente à casa de João Cangalheiro. Tirando a casa do fazedor de cangalhas, aquele pedaço da estrada era um pouco ermo. De repente, do valado do velho Sil, à direita, saiu o filho do diabo. Zacarias abrofelou-se na menina. Rasgou-lhe a blusa surrada. Ela esforçava-se para se desvencilhar. Não podia. Guilherme, o irmão de dez anos, tirou da cintura uma faquinha daquelas de cortar sola, que muitos meninos usavam, e enterrou nas costas do malfazejo. Fez pouco estrago, dada a pouca força do menino. O suficiente, porém, para o tarado largar Maria. Então, ele sacou uma faca peixeira de doze polegadas e partiu para o menino, que já estava à frente da irmã, como se a quisesse proteger. Zacarias agarrou-o pela gola da camisa e manejou a faca em direção ao pescoço. – Vou te sangrar como se sangra um porco, seu fio duma égua! –. Maria gritou: – Não!!! –. Mas, era tarde. Tarde demais.

Montado a cavalo e a galope, Marquinhos de Pedro Ramos, adolescente de dezesseis anos, laçou Zacarias pelo pescoço com o relho trançado, tipo de chicote usado pelos tangedores de tropa de burros ou de boiadas. O grito de Maria de Zé Gomes, na verdade, foi tardio para o tarado. Este, jogado ao chão, foi retalhado a relho de couro cru, ensebado. O cobiçado filho único de Pedro Ramos, dono de muitas terras e muito gado nas proximidades do açude, e de cuja casa dona Izaldina lavava as roupas, que Maria mais das vezes entregava, lavadas, só parou de golpear quando sentiu o braço direito cansado. A camisa rasgada de Zacarias deixava à mostra os vincos da surra, o sangue mourejando, ensopando os farrapos. – Se, um dia, você se meter a besta de novo com a minha namorada, eu dou cabo de você. Eu vou até o inferno, se for preciso, mas arranco a sua cabeça fora –, disse-lhe o rapaz, esbelto, forte, e bem apanhado como um príncipe caboclo. 

E foi assim que a menina Maria de Zé Gomes ficou sabendo que tinha um pretendente. Ou como ele mesmo disse: um namorado. Zacarias sumiu. Diziam alguns parentes seus que ele tinha se abalado para São Paulo. Quatro anos depois, a filha de Dona Izaldina, linda como uma rosa orvalhada seria desposada por aquele namorado, que ela, até aquela já distante tarde de terça-feira, não sabia que tinha. Mas tinha. Era o amor platônico de Marquinhos, que se concretizaria. A menina pobre com fisionomia de princesa enfeitiçou o príncipe. Ainda era tempo de contos de fadas. 
(*) Publicado no Jornal da Cidade, edição de 31 de janeiro de 2016.

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