A crise e as expectativas: até quando dura a crise na economia brasileira?

31/01/2016 15:41:33 por Kleber Santos em Colunas
José Roberto de Lima Andrade *

Um dos grandes economistas que já existiram, o inglês John Maynard Keynes, certa vez afirmou que os políticos são em grande parte influenciados pelas ideias de algum economista morto. Ironia do destino, mesmo quase 90 anos depois de ter dito esta frase, Keynes passou a ser referência, no bom e no mal sentido, de grande parte dos governantes em todo o mundo.

Desde 2015 que a economia brasileira vem apresentando sinais de uma crise econômica que em outras partes do mundo existe desde 2009.Para aqueles que não estão habituados ao linguajar muitas vezes indecifrável dos economistas, a crise é algo que não necessita de grandes sofisticações teóricas: as pessoas perdem seus empregos, é cada vez mais difícil arranjar um novo emprego, as vendas diminuem, as empresas reduzem seus investimentos, e o governo, que muita gente acredita ser imune as crises, reduz sua arrecadação e com isso aumenta as dificuldades em honrar seus compromissos, sejam com os servidores ou com os fornecedores de bens e serviços. Enfim, da crise ninguém escapa.

Duas grandes questões envolvem uma crise econômica: 1.o que originou, 2.quanto tempo durará. Para a primeira questão, as respostas podem ser as mais variadas possíveis. Mais é certo que normalmente uma crise econômica nunca vem de um só motivo, como por exemplo a crise da economia americana e que contaminou grande parte da europa, originada pelo descontrole no crédito ao mercado imobiliário americano. Um grande filme que ainda passa nos cinemas de Aracaju chamado “A Grande Aposta”, retrata brilhantemente como esse processo ocorreu. 

Para  economia brasileira a crise pode ser atribuída a dois fatores: um fator interno, de esgotamento de um modelo de crescimento baseado no consumo, principalmente daquelas famílias com menor poder aquisitivo. O Brasil conseguiu nos últimos anos trazer para as classes C e B um número expressivo de parcela da população que até então estava a margem do consumo. Mas após a compra do primeiro carro, da primeira tv de led, da primeira casa própria,etc, fica o desafio de como manter este “ciclo virtuoso”sem esbarrar na capacidade de endividamento das pessoas. Um outro fator que muitas pessoas desconsideram é a importância do consumo “do resto do mundo” para os produtos brasileiros. E como resto do mundo traduzimos fundamentalmente a China e sua enorme capacidade de consumo de produtos que somos competitivos (tecnicamente chamadas de commodities), como soja, minério de ferro, carne e outros produtos agrícolas.E a China também enfrenta um momento de crise econômica. Mercados interno e externo em queda, redução de investimentos pelas empresas (e consequentemente criação de novos empregos e mais geração de impostos) e temos o cenário adequado para a instalação de uma crise econômica.

A segunda questão importante que envolve uma crise econômica é de quanto tempo será sua duração? Parte desta resposta está na capacidade que os governos possuem em encontrar as medidas corretas para seu enfrentamento. Uma outra resposta pode ser dada nas expectativas que os agentes econômicos (empresas, bancos, economistas) criam sobre o desempenho da economia. A tabela 1 abaixo mostra as expectativas(ou o humor) dos agentes econômicos descritos no Relatório Focus do Banco Central, publicado periodicamente e disponível no site www.bacen.gov.br. O Relatório Focus mais recente(22.01.2016) permite afirmar que as apostas do mercado são:

a) Haverá uma redução significativa da inflação(IPCA) para 2017;
b) Há uma aposta na manutenção da taxa de câmbio no patamar dos R$ 4,00
c) Haverá uma redução significativa das taxas de juros em 2017
d) Após um ano de recessão(2016) a economia voltará a crescer em 2017 e;
e) Os investimentos estrangeiros no Brasil terão um aumento discreto em 2017(de US$ 5 bilhões)

 

Um resumo da tabela 1: ao contrário de muitas análises pessimistas, muitas vezes exageradamente contaminadas por interesses políticos, explícitos ou não, as perspectivas são do “início do fim” da crise em 2016, e retomada de um processo de “normalidade” em 2017. Devemos acreditar neste cenário? Em primeiro lugar é importante entender que se as crises não são geradas por expectativas, sua duração depende em grande parte de como estas expectativas são mantidas. Em segundo lugar, lidar com crise requer a capacidade de implantar políticas econômicas que necessitam , na imensa maioria das vezes de apoio político, principalmente daquelas medidas que as vezes impopulares são necessárias. Infelizmente, atualmente as expectativas econômicas vem sendo fortemente influenciadas por um componente político que todos nós conhecemos.

Para finalizar, uma questão importante sobre a atual crise econômica brasileira, são as lições que devemos tirar. Se há algum aspecto positivo de uma crise econômica é de trazer a tona ‘velhas contas” que teimamos em esconder: maior competitividade nas empresas brasileiras, maior eficiência nos governos, legislação mais eficiente principalmente nos aspectos ligados ao ambiente de negócios, eliminação de privilégios injustificáveis de certos setores da sociedade, enfim, várias irracionalidades que teimamos em manter e cujo custo a sociedade brasileira não suporta mais. Felizmente, há  muitas ideias na sociedade brasileira(não só de economistas mortos e vivos), para contribuir para que outras crises não ocorram.

*Professor do Departamento de Economia da UFS
**Diretor Geral da Escola de Administração Pública e Gestão Governamental  do Estado de Sergipe.

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