Um marco da arte moderna em Sergipe: mural de azulejos do Edifício Walter Franco

25/10/2016 12:59:16 por Eugênio Nascimento em Variedades


Amâncio Cardoso e Francisco José Alves


O mural em azulejos de cerâmica, pintado em 1957, exposto na parede da fachada do edifício Walter Franco, esquina do calçadão da rua João Pessoa com a praça Fausto Cardoso, em frente ao Palácio-Museu Olímpio Campos, no centro histórico de Aracaju, é ainda pouco conhecido pelos sergipanos. Embora esteja neste local há mais de meio século, muitos citadinos ou visitantes que passam rente ao painel não percebem sua beleza em forma, conteúdo e cores; ou simplesmente ignoram qualquer informação sobre autoria, tema, estilo, suporte, contexto em que foi produzido; e quase nada sabem sobre seu valor artístico.
Mural é uma pintura realizada sobre muro ou parede, quase sempre de grandes proporções. O ?mural do Walter Franco?, como alguns o denominam, foi tombado. Ou seja, colocado sob a guarda do Governo Estadual para ser conservado e protegido, pois foi considerado um bem de interesse público devido ao seu valor artístico. O tombamento ocorreu através do Decreto nº 9.990, de 26 de outubro de 1988, inscrito no Livro de Tombo nº 01 ? Geral ? folhas 12 e 13.3  Portanto, a obra pertence ao acervo oficial do patrimônio cultural sergipano.
O mural, medindo cerca de 3m de altura por 4m de largura, é composto pela pintura do artista plástico Jenner Augusto (1924-2003) sobre ?biscoitos? de cerâmica em azulejos, fabricados pelo ceramista Udo Knoff (1912-1994).
Jenner Augusto da Silveira foi um importante pintor aracajuano e viveu em várias cidades sergipanas, as quais inspiraram sua arte, retratando feiras, paisagens, fatos históricos e tipos populares. Em 1949, Jenner introduziu a arte muralista em Sergipe com seus painéis nas paredes do antigo bar e restaurante Cacique Chá. Ainda no mesmo ano, ele passa a residir em Salvador para aperfeiçoar sua pintura. Na Bahia, participa da polêmica mostra Novos Artistas Baianos, realizada no Instituto Histórico e Geográfico.4 Nesse período, Jenner conhece, entre outros artistas, o ceramista Udo Knoff.
Horst Udo Enrich Knoff, nasceu na Alemanha, em Halle. Em 1950, chegou ao Rio de Janeiro, onde trabalhou na Cerâmica Duvivier. Em 1952, foi a Salvador e mudou-se definitivamente para lá. Abriu um ateliê de cerâmica na Avenida D. João VI, no bairro de Brotas. Em 1968, interessou-se pela azulejaria antiga e passou a coletar azulejos de construções em demolição, formando rico acervo. Em 1975, ele foi a Lisboa, Portugal, para coletar material e finalizar a pesquisa de azulejos da Bahia, no conhecido Museu Madre de Deus, hoje Museu do Azulejo. Como resultado, publicou o livro ?Azulejos da Bahia? em 1986. ?Udo, o dos azulejos?, como disse Jorge Amado, ?não só implantou arte moderna do azulejo na Bahia, cozinhando formas nascidas de desenhos seus, de Carybé, de vários outros artistas, como se dedicou apaixonadamente ao estudo dos velhos azulejos ...?.5
O autor da pintura do ?mural do Walter Franco?, Jenner Augusto, estava entre os pioneiros da arte muralista em Salvador na década de 1950, ao lado de Carlos Bastos, Mário Cravo Jr., Genaro de Carvalho e Carybé. Mesmo sobressaindo as características de cada artista, havia nesse grupo ?uma certa herança cubista da geometrização, abrangendo as figuras ou a própria composição do espaço?.6  A partir de então, Jenner trouxe esta expressão para o mural do edifício Walter Franco, em Aracaju, no ano de 1957.
O tema geral do ?mural do Walter Franco? é a produção agrícola de Sergipe na primeira metade do século XX. São naturezas mortas de pescados, coco, caju, cana, milho; além de mulas com caçuás. Assim, a obra retrata parcela da economia sergipana da época. Nesse período, Aracaju era um dos maiores produtores de coco do Estado e a cana-de-açúcar era uma das mais expressivas culturas desde o século XIX, marcando o traço patriarcal rural da nossa sociedade. Sergipe tinha sua história vincada pela produção agrícola, tema exclusivo do mural. Contudo, os autores não lhe deram título.
Quanto ao suporte em azulejos, eles foram confeccionados na cerâmica de Udo Knoff, em Salvador-BA. Daí a sua longevidade e preservação, pois o azulejo sendo uma plaqueta de cerâmica vidrada suporta melhor que outras bases o desgaste do tempo.
Sobre as cores, predominam tonalidades de azul; típicas dos azulejos portugueses.
Uma peculiaridade do ?mural do Walter Franco? é que os azulejos foram assentados de modo que acompanha a curvatura da esquina do prédio, oferecendo ao público uma perspectiva curvilínea, cujo efeito é de maleabilidade da tela de cerâmica vidrada.
Outro ponto a destacar é a disposição dos elementos pictóricos. Nota-se uma arrumação falsamente aleatória das figuras, pois ela obedece tanto à verticalidade dos cajus e peixes quanto ao alinhamento diagonal dos pés de cana, em espaços separados por formas retas e geométricas. Dessa maneira, há rigor e retidão na disposição das figuras, disfarçado de displicência natural, pois os espaços dedicados a cada elemento são assimétricos e de tonalidades diferenciadas de azul até o branco. Isto causa no público uma falsa ilusão de desordem, própria do estilo cubista.
Jenner, o coautor da obra, se expressou com técnicas do cubismo ao pintar o mural, pois ele já vinha utilizando a ?fórmula de geometrização quase abstrata do espaço de fundo do pintor de Brodósqui [Cândido Portinari (1903-1962)], a fundir influências do expressionismo e do cubismo".  Dessa forma, não é despropósito afirmar que o estilo empregado por Jenner, na pintura do ?mural do Walter Franco?, se aproxima do cubismo.
O cubismo é considerado um dos movimentos artísticos mais influentes do início do século XX. Caracterizava-se por tratar de maneira geométrica as formas da natureza. No entanto, os pintores não chegavam à abstração, pois as imagens representadas permaneciam figurativas, ou seja, ainda eram reconhecíveis; a exemplo das figuras pintadas por Jenner sobre azulejos de Udo na parede do edifício Walter Franco.
Embora os temas das pinturas cubistas tenham sido convencionais, como as naturezas mortas do painel aqui aludido, o modo como os artistas desse movimento representavam sua visão dos objetos era considerado muito ousado, pois rompia com a perspectiva tradicional e a linha de contorno. Assim, pode-se afirmar que a pintura de Jenner, na obra aqui aludida, se apropriou do uso das formas geométricas e das linhas retas do cubismo, trazendo esse estilo modernista para as ruas de Aracaju. O mural do Walter Franco é, portanto, um marco na história da arte moderna em Sergipe.
Em 2010, o nosso mural passou por uma limpeza. Ele permanece em bom estado de conservação, apesar da exposição às intempéries. É uma obra de acesso público e gratuito, mas que deve ser mais conhecida e melhor divulgada pelos sergipanos.
Neste sentido, é fundamental que a Secretaria Estadual de Cultura e/ou de Turismo instale, com urgência, uma placa com informações sobre o painel e seus autores para que a população e os turistas conheçam o valor artístico e cultural da obra de Jenner e Udo. Aliás, a falta de placas com informações turísticas ou históricas nos atrativos de Sergipe é quase universal.
Explicitando as informações sobre o mural ao público, ele será mais apreciado e contribuirá com o apuro estético dos transeuntes, exercitando o olhar e aprofundando o saber. Dessa forma, nosso patrimônio cultural cumprirá sua função social. Mas, por enquanto, a pintura de Jenner Augusto sobre azulejos de Udo Knoff é apenas, para a maioria, uma parede com garatujas azuladas.
1Professor de História e Patrimônio Cultural dos cursos de Turismo do IFS. 
acneto@infonet.com.br
2Professor do Departamento de História da UFS 
fjalves@infonet.com.br
3CARVALHO, Ana Conceição Sobral de; ROCHA, Rosina Fonseca (Orgs.). Monumentos sergipanos. Aracaju: Sercore, 2007. p.129.
4BRITTO, Mário; FERNANDES, Zeca (Org). Jenner Augusto: vida e obra. Aracaju: Sociedade Semear, 2012.
3MADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 30º ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 274.
 4MACIEL, Neila. Projeto de Mapeamento de Painéis e Murais Artísticos de Salvador - Relatório Final. Salvador: FUNDEB.
5PONTUAL, Roberto. Jenner: a arte moderna na Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
5AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 30º ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 274.
6MACIEL, Neila. Projeto de Mapeamento de Painéis e Murais Artísticos de Salvador - Relatório Final. Salvador: FUNDEB.
5PONTUAL, Roberto. Jenner: a arte moderna na Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

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