Um estudante brasileiro na França

30/10/2016 22:22:44 por Kleber Santos em Coluna Afonso Nascimento
Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS

Viver na França como estudante foi uma das experiências mais ricas e importantes. Isso aconteceu na primeira metade dos anos 1980, portanto com a chegada dos socialistas à presidência da república, representada pela figura de François Mitterrand. Esse homem político francês tinha sido colaborador durante a ocupação nazista do país, coisa que até então não se sabia e que não tem importância para os objetivos deste pequeno texto.

Essa temporada francesa de nossa vida foi um período de muitos encontros. O primeiro deles foi com a democracia. Quando partimos do Brasil num avião da Varig, o país vivia o processo de abertura, mas nossos estudos universitários brasileiros tinham sido vividos sob a ditadura militar. De uma hora para outra desembarcar numa sociedade democrática nos causou muitas surpresas. Uma delas era poder ver na televisão o secretário-geral do Partido Comunista Francês (PCF), Georges Marchais, dando entrevistas. Àquela época o PCF era uma força política importante e detinha uma fatia de 15% do eleitorado francês. Diferentemente do que acontecera no Brasil, quando, no início da Guerra Fria, o PCB fora ilegalizado em 1947, os comunistas franceses que tinham lutado na resistência contra os nazistas alemães e contra os colaboradores franceses (o marechal Vichy e muitos outros) tornaram-se uma força política que participava do jogo democrático. Para um brasileiro que nunca vivera sob uma democracia. era estranho ver nas bancas de revistas o jornal dos comunistas (L'Humanité), agrupamento político que tinha uma fatia do governo de Mitterrand. Embora já soubéssemos, ficava claro que os comunistas não eram a encarnação do mal.

Continuando nessa linha, tivemos a chance de encontrar exilados brasileiros e muitos sul-americanos vivendo por lá. Antes de sair do Brasil, tínhamos conhecido vários exilados políticos brasileiros que estavam de volta por conta da lei da anistia de 1979, em Santa Catarina. Nesse tempo pude ouvir as histórias por eles contadas. Lembramo-nos de dois nomes catarinenses: um chamado Gerônimo e outro era Vilson Rosalino. Com este último tive a oportunidade de dividir uma casa por algum tempo no bairro da Agronômica em Florianópolis. Em Montpellier, no sul da França, não encontramos exilados brasileiros, mas outros sul-americanos, sobretudo chilenos. Nos dois anos que moramos em Paris, aí sim, conheci muitos exilados brasileiros, alguns se preparando para voltar e outros engajados profissionalmente na vida francesa. Um desses espaços de encontros foi a Associação de Estudantes Brasileiros na França.

Ainda no quadro de memórias políticas de um observador brasileiro, pude ver a ascensão da extrema-direita francesa, que teve muito a ver, claro, com a subida da esquerda ao poder. Ela também participativa do jogo político-partidário e tinha como principal líder o neo-nazistal Jean-Marie Le Pen, que vomitava seu ódio contra os trabalhadores estrangeiros que a França havia convidado para os anos de grande crescimento econômico depois da II Guerra Mundial."Les Français d'abord!" (Primeiro, os franceses") – esse era o seu lema. Também pude observar o funcionamento na legalidade da extrema-esquerda francesa (pequenos partidos como a Liga Comunista Revolucionária), com membros dos quais fiz amizades em Montpellier e em Paris. Esses grupos pareciam muito ligados ao movimento docente francês, lançavam candidatos nas eleições presidenciais, mas não possuíam apelo eleitoral. Da mesma que os comunistas, que realizavam a anual  "Fête de l'Huma" nos arredores de Paris, eles também promoviam semelhante evento em lugar e tempo diferentes. Essas festas eram bacanas e seus frequentadores incluíam pessoas que podiam nem serem simpatizantes desses partidos.

Nosso encontro com o sistema escolar francês possui dois aspectos: a burocracia francesa e o ensino propriamente falando. Não nos defrontamos com problemas, apesar da fama de ser uma administração pesadona e chata como a brasileira. Com efeito, tudo era feito através da Faculdade de Direito de Montpellier, a mais velha da Europa, fundada no século XIII: visto de permanência, matrícula etc. Quanto ao ensino, muitas foram as descobertas e muitas aquisições. Para começar, diga-se que o sistema universitário francês tinha (não sei se tem mais) um monte de diplomas universitários no nível da graduação que nós não quisemos compreender. Nós fizemos um diploma chamado DEA (Diplôme d' Études Approfondies) em Filosofia Política na mencionada faculdade de direito. Ele fazia parte de um doutorado que Michel Miaille, famosa liderança do Movimento de Crítica do Direito da França que teve muita importância na formação do Movimento Direito Alternativo de Santa Catarina, que ele ajudara a fundar com a difusão de seus dois livros principais ("Uma introdução crítica ao direito" e "O estado do direito") e com sua presença fazendo palestras.

Esse programa de pós-graduação de Michel Miaille fora conseguido justamente com a chegada da esquerda francesa ao poder político nacional. Na tradicional faculdade de direito, ele mantinha esse programa e um centro de pesquisas sobre o Estado chamado ("CERTES"). O curso incluía algumas disciplinas e diversos seminários temáticos. Os professores eram todos de esquerda, alguns mais, outros menos. Foram dados à leitura muitos textos de Marx e de marxistas. As avaliações dos seminários eram feitas sobre as apresentações dos estudantes nas respectivas salas, enquanto as avaliações das disciplinas eram provas escritas feitas no anfiteatro da escola de direito. Embora já tivéssemos alguma desenvoltura com a língua francesa por conta de estudos na UFS e sobretudo na Aliança Francesa de Aracaju, apresentar seminários e fazer provas escritas em francês era meio complicado. Mais tarde, morando em Paris, notamos que estudantes brasileiros praticamente eram dispensados das aulas e dos seminários, apenas ficando responsáveis pela redação de papers ao fim dos cursos e dos seminários.

Nos dois anos que passamos em Paris, pudemos conhecer os medalhões dos meios universitários franceses por ocasião de palestras e inscrito em cursos na condição do que eles chamam de "auditeur livre" (ouvinte livre). Frequentamos sobretudo dois espaços universitários, ou seja, a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e o Instituto de Estudos de Desenvolvimento Econômico e Social. Este último era voltado para estudantes do então dito Terceiro Mundo e nós acompanhamos cursos sobre a Teoria do Estado de Pierre Salama e de Gilberto Mathias. Na primeira escola frequentei aulas de Claude Lefort e de Pierre Rosanvallon. Na Universidade de Nanterre, tive aulas com Robert Boyer, um grande nome e teorizador da Escola da Regulação, naquilo que nos interessava sobre a sua Teoria do Estado.

Para além dos encontros mencionados, tivemos a chance de conhecer quase todas regiões da França, à exceção da Aquitaine. Foram muitas viagens de trem e de carro pelas bem cuidadas estradas francesas, com suas paradas para piqueniques, saboreando a grande diversidade cultural das regiões francesas, quase sempre muito bonitas e com a sua deliciosa culinária mesmo nas cidades e nos lugares pelos quais turistas não dariam a menor importância. Na capital francesa, Paris, poderia facilmente trabalhar como guia turístico. Paris se tornou para nosotros um pouco como o bairro Siqueira Campos de Aracaju, que nós conhecemos tão bem. Sem exageros, nem jactância.

Também fomos ao encontro da maioria dos países da Europa Ocidental e da Europa do Leste. No grupo dos primeiros países, alguns foram visitados muitas vezes como Suíça. Outros países que fomos visitar foram Portugal, Espanha, Itália, Luxemburgo, Lichtenstein, Béligica, Holanda, Inglaterra e Alemanha. Do lado da cortina de ferro, conhecemos a Hungria e as antigas Iugoslávia, Tchecoslováquia e  Alemanha Oriental. Os países do bloco totalitário foram uma decepção. Estamos pensando em fazer um novo passeio por todos eles juntos no ano que vem. Bons tempos, aqueles!

* Coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Estado e a Democracia

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