Recessão e mercado de trabalho no Nordeste

04/12/2016 11:33:50 por Kleber Santos em Coluna Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda*

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil recuou 0,8% no terceiro trimestre de 2016, em relação ao segundo trimestre, em uma nova aceleração no ritmo de queda da atividade econômica, depois de quatro trimestresem que a taxa de retração vinha encolhendo.

É a sétima redução consecutiva do PIB quando se compara com o trimestre imediatamente anterior e a décima seguida em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. As projeções mais recentes apontam para a estabilização do nível de atividade para algum trimestre ainda indefinido do próximo ano. Nessa semana, a OCDE reviu de 0,3% para zero o crescimento do PIB do Brasil para 2017 e o Bradesco, de 1% para 0,3%.

O desempenho da economia do Nordeste tem se apresentado ainda pior do que a média nacional. O Índice de Atividade do Banco Central da economia do Nordeste recuou quase dois pontos percentuais a mais do que a média do país, na comparação entre o terceiro trimestre de 2016 e o mesmo período de 2015.

Nessa série que compara com o mesmo trimestre do ano anterior, desde o trimestre fevereiro-abril de 2016 a economia do Nordeste apresenta desempenho pior do que a média do Brasil e desde o trimestre junho-agosto de 2015 que o desempenho da região é inferior ao do Sudeste, a região mais rica e industrializada do país.

Parte desempenho pior do Nordeste decorre dos efeitos da seca que assola a região, mas uma parte expressiva do ritmo mais acentuado de queda da economia regional está associada à crise da construção civil e da contaminação do setor serviços pela intensificação da deterioração do mercado de trabalho iniciada em outras atividades. Há, portanto, em andamento um ciclo intensamente vicioso no mercado de trabalho da região que vai se disseminando pelo vários setores de atividade.

Mercado de trabalho

Enquanto na média do país o contingente de pessoas ocupadas encolheu 2,4% na comparação do 3º trimestre de 2016 e o mesmo trimestre de 2015, no Nordeste a retração atingiu 6,4%, mais do que o dobro. Nessa comparação, das 2,26 milhões ocupações perdidas no país, simplesmente 1,46 milhão, equivalente a 65% do total se concentrou no Nordeste, uma distribuição inteiramente desproporcional ao peso regional no mercado de trabalho brasileiro.A queda do emprego com carteira assinada no Nordeste foi ainda mais acentuada do que a da ocupação total e também superior à média nacional, atingindo 7,9%, frente ao encolhimento em 3,7% da média do país(ver Gráfico 1).

Declínio acentuado em 2016
Ao longo de 2016, o mercado de trabalho no Nordeste foi se desmanchando em ritmo mais intenso do que no ano anterior. A queda na ocupação regional se iniciou na construção civil e na agropecuária ainda no 1º trimestre de 2015 e estendeu-se para a indústria geral (indústria de transformação e extração mineral) no segundo semestre de 2015. A contínua deterioração da economia regional se disseminou de forma crescente entre a miríade de ocupações das atividades de serviços e, já em 2016, atingiu o segmento de maior peso na ocupação regional, representado pelas atividades de comércio, transporte e armazenagem, responsável por cerca de 25% do total (ver Gráfico 2). Em meio à crise das finanças de estados e municípios, a ocupação na administração pública também começa a declinar.

Com a deterioração do mercado de trabalho, a taxa de desocupação do Nordeste saltou de 10,8%, em julho-setembro de 2015, para 14,1%, em julho-setembro de 2016. Nesse último trimestre, quase 1/3 da força de trabalho da região se encontrava subutilizada, entre pessoas desocupadas, desalentadas e pessoas que estavam disponíveis para trabalhar mais horas, cerca do dobro do peso desse contingente na região Centro-Oeste e mais do que duas vezes no caso da região Sul, ainda que o mercado de trabalho venha se deteriorando em ritmo intenso em todas as regiões.



*Professor da Universidade Federal de Sergipe e Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe

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