Sonho de placa

10/12/2016 20:12:11 por Kleber Santos em Colunas
Geraldo Duarte*
Casinha de três vãos, no dizer. Porta de entrada e janela ao lado. Frente de tijolos e fundos de taipa. Pequena coberta fronteiriça, que chamavam latada, servia ao ofício do morador.
Ali, Pereirinha ganhava o pão dele, da mulher, Lica, dos dois “barrigudinhos" e pagava a esperança diária trazida, no meio do dia, pelo velho Arnóbio.
Enquanto aguardava o palpiteiro com a sempre esperada e, ainda, não chegada sorte, no tamborete cujo tampo as nádegas polira, laborava à luz do Sol.
Com vime de tipos vários cobria estruturas de cadeiras, fixas e de balanço, cestos para usos diversos, molduras - em especial de espelhos - e tudo o que se lhe encomendassem.
Trabalho, ao contrário de dinheiro, não lhe faltava. De suas mãos calosas, porém sensíveis, produziam-se cuidadas peças de artes para adornos nos mais finos ambientes dos anos cinquenta.
“Se gostar de bichos é vício, viciado sou!”, dizia. E, culpa, atribuía ao barão João Batista Viana Drummond, inventor do Jogo do Bicho em 1892, aos sonhos de todas as noites e, ao Arnóbio, por ser cambista e não saber interpretar corretamente os palpites oníricos. Não o perdoou nunca por continuar pobre.
Fez a misteriosa Oração da Cabra Preta e sonhou com o automóvel do doutor Quirino.
“Não tem dúvida! Vai dar a placa! Jogue ‘puro e seco’ no milhar 1267!”. À época, a identificação dos veículos dava-se por quatro algarismos.
Sexta-feira. 16 horas. Extração da Loteria Estadual do Ceará. Primeiro prêmio: 1948.
Sonho de Pereirinha certo. Interpretação de Arnóbio errada. O milhar não era o da placa, mas, o do modelo do luxuoso Chrysler - Town & Country 1948.
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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