2016, o ano terrível

11/12/2016 13:32:10 por Eugênio Nascimento em Coluna Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda* 

Aproximando-se do fim, o ano 2016 não vai deixar saudades. Na política, o ano se iniciou com o cerco final ao governo eleito e está findando com uma crise entre os poderes da república reveladora do grau de esgarçamento institucional do país. Nessa dimensão, 2016 talvez possa ser sumariamente caracterizado como o ano do golpe parlamentar que afastou a presidente da república e como o ano em que a Operação Lava Jato acuou o mundo político e sua interface empresarial. É no mínimo difícil antecipar quais serão os desdobramentos da crise política e institucional em que estamos enredados, da mesma forma como o roteiro da crise tem fugido ao controle dos principais atores intervenientes.

Na dimensão econômica, o ano de 2016 ficou marcado pelo aprofundamento da recessão e pela nova tentativa de aprovar no congresso nacional as duras medidas de ajuste fiscal, em meio a quedas contínuas nas receitas públicas. Frente ao quadro de recessão profunda, restou a opção de adotar uma estratégia de ajuste gradualista em que os resultados fiscais somente começarão a ser produzidos ao custo de duradoura recessão. 

A síntese do ano em termos sociais é o ingresso de 2,96 milhões de pessoas no contingente de trabalhadores desocupados. Em termos empresariais, a retração no faturamento e o crescimento do endividamento consolidaram perspectivas difíceis. 

Recessão longa e abrangente
Não bastassem os efeitos da compressão da demanda e da crise de confiança sobre o nível de atividade, a estiagem que assola o país fez com que a safra de grãos recuasse mais de 10% em comparação ao ano anterior e, no caso da região Nordeste, que a queda na produção do setor alcançasse cerca de 40%. Ao fim de 2016, indústria, agricultura e serviços, solidariamente, terão despencados na comparação com o ano anterior, em uma queda simultânea inédita na série estatística iniciada em 1996. No acumulado de quatro trimestres completados no 3º trimestre, em relação ao mesmo período anterior, o PIB agropecuário declinou 5,6%, a atividade industrial, 5,4%, e o setor de serviços, 3,2%. 
Do ponto de vista do dispêndio, nessa série de quatro trimestres acumulados, até o mês de setembro o consumo das famílias encolheu 5,2%, o investimento em capital fixo, 13,5%, e o consumo do governo, 0,9%. 
O setor exportador, ainda que não tenha concorrido para deprimir o PIB, não foi capaz de gerar um impulso de maior significado sobre o conjunto da economia. Nessa série, o PIB total manteve quedas de mais de 4% ao longo de todo o ano de 2016 (ver Gráfico).
  

Chances de reversão
É sempre custoso interromper o ciclo vicioso de declínio do nível de atividade a fim de retomar o crescimento e dar início a um novo ciclo virtuoso. Algumas abordagens mais pessimistas apontam que o caminho do crescimento é como “o fio da navalha”, ao longo do qual pequenos desvios para baixo poderiam dar origem a mecanismos de autorreforço que empurrariam a economia mais e mais para a recessão. Somente fatores exógenos ao sistema, como a melhoria do cenário internacional ou a ação de estímulo promovida pelo setor público, seriam capazes de sustar o declínio. Ou que, pelo menos, a duração e o custo da recessão seriam muito maiores na ausência desses estímulos. 

Outras abordagens, menos pessimistas, argumentam que o ciclo de negócios conta com mecanismos próprios de amortecimento da crise que, com o tempo, seriam capazes de reverter a trajetória de descendente para ascendente. A crise seria uma oportunidade para sanear finanças públicas e privadas para que o peso do passado não restringisse a retomada da economia e para que ela voltasse a crescer em bases mais saudáveis, no novo ciclo que se avizinhasse. O período de ajuste é, também, o momento em que se definem os ganhadores e perdedores no ciclo seguinte, em termos de setores, segmento de classes sociais e regiões. Em outras palavras, quem paga o pato do ajuste e quem se beneficiará mais no período seguinte.

Ao findar 2016, estaremos ainda na metade do percurso entre a interrupção do ciclo vicioso e as bases de uma retomada. São muitos, incertos e potencialmente desestabilizadores os percalços nesse caminho, tanto os de origem externa quanto os oriundos do cenário doméstico, dentre os quais, certamente, o mais grave é o esgarçamento do ambiente político e institucional. Meus votos para que, ao final de 2017, tenhamos um balanço mais promissor de nossas perspectivas.

*Professor da Universidade Federal de Sergipe e Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe

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