Carta aos Iluminados

11/12/2016 19:00:28 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE
 
A luz subverte os olhos. Daí, muitos optarem pela noite. É que o ato de enxergar envolve interpretação. Disso, decorre a necessidade de saber ver, conseguir entender e ser capaz de traduzir. A primeira etapa (essencialmente sensorial) contempla a acomodação do objeto na retina. Só isso, porém, não significa nada. Intrincados itinerários até a mente, que o decifrará, precisarão ser percorridos, pois, nela, se aperfeiçoará a compreensão. Com efeito, é o cérebro, pulsando engrenagens lubrificadas à base de serotonina, que nos permitirá distinguir, por exemplo, uma cadeira de um livro. Vencido esse momento intermediário, advém o epílogo: verbalizar a percepção. Aqui reside o instante de maior angústia para idiotas (os mais primitivos e selvagens, dentre os oligofrênicos). O requinte na arte de ofender não consiste em designar o desafeto como demente ou imbecil. O ápice do ultraje está no termo “idiota”.

Há duas espécies de idiota, infiltradas nos mais diversificados nichos sociais, a causar danos às vezes irreparáveis. A primeira é aquela composta pelos idiotas que enxergam menos do que se lhes mostra (os míopes). Já na segunda se encontram arregimentados aqueles que enxergam mais do que se põe à sua frente (os hipermétropes). A cinematografia hollywoodiana, em 1991 (numa das mais refinadas películas sobre a genialidade), estampou, com singular êxito, o protótipo do idiota míope. Trata-se do filme “Mentes que Brilham”, dirigido e estrelado por Jodie Foster. No original, o título da obra é “Little man Tate”, clara alusão ao nome da personagem protagonista, Fred Tate, um garotinho superdotado de sete anos. A cena que consagra a idiotia (que fica entre as mais burlescas do longa-metragem) se dá quando a professora de Fred rabisca uma série de números no quadro-negro. Uns são pares, outros ímpares.

O pequeno Fred nem bulhufas dava à sua pífia aula. Assim, a inconsequente “tia” do maternal acha por bem desafiar o guri: “Quais desses números podem ser divididos por dois?” O moleque, com indiferença, nem se dá ao trabalho de levantar a cabeça. Mas, a contragosto, entre um quê de obrigatória submissão e ironia, com voz modorrenta e arrastada por quilos de desprezo, responde: “Todos”. A toupeira da professora, achincalhada pelo episódio, volta-se para a lousa, esbugalha os globos oculares e, silenciosamente, grita para dentro de si: realmente, qualquer número (e não só os pares, como supôs) pode ser dividido por dois. A questão é se o quociente será número inteiro ou decimal. Não fosse a iluminação do pimpolho, a idiota da professora morreria intelectualmente cega. Os números até que eram cravados na retina e sua massa encefálica os hospedava como tais. Onde, então, morava o problema?

Estava ali, onde a docente teve que compor ideias com eles [os números]. Seu cérebro entrou em curto-circuito. Excesso de luz para uma idiota míope. Como, todavia, conceber o mecanismo “irracional” de um idiota hipermétrope? Saiamos do terreno da cinematografia e encaminhemo-nos ao campo da literatura. Malba Tahan. No fim da década de 1930, Tahan publicou seu festejado livro “O homem que calculava”, no qual narra as façanhas matemáticas de Beremiz Samir. Numa das histórias vivenciadas por Samir, Tahan conta que ele, acompanhado do amigo, ia pelo deserto, montado num camelo. De súbito, depararam-se com o que parecia ser uma caravana recém-saqueada. Entre homens e animais mortos, contudo, emerge uma voz. Era um príncipe, o chefe da caravana, que, ao perceber que os meliantes que se lançavam sobre ela matariam a todos, jogou-se entre os que tinham sido abatidos, passando-se por morto.

Vendo que, nos forasteiros, estava a tábua de salvação, implorou que eles o levassem até seu principado e, rogou água e pão. Samir trazia consigo cinco pães; seu amigo, três. O príncipe pediu que os dividissem com ele, prometendo que, assim que alcançassem seu palácio, daria uma moeda de ouro por cada um dos pães, o que totalizaria oito moedas de ouro. Chegando à casa do nobre, em Bagdá, este cumpriu imediatamente o pactuado. Deu cinco moedas de ouro a Samir e três ao amigo deste. No entanto, Samir redarguiu a divisão, afirmando que o correto seria ele receber sete moedas de ouro, enquanto o amigo receberia tão-somente uma. Espantado com a declaração, o príncipe exigiu uma justificativa do matemático. Samir, desse modo, explicou que toda vez que iam comer, pegavam um dos pães e o partiam em três pedaços: um para o príncipe, um para ele [Samir] e outro para o seu amigo.

Como Samir possuía cinco, seus pães foram partidos em quinze pedaços. Como seu amigo tinha três pães, os seus foram partidos em nove pedaços. Totalizavam-se, por conseguinte, vinte e quatro pedaços (15+9=24). Como eram três a comer dos pães, a cada um foram destinados oito pedaços (24÷3=8). Sendo assim, como o amigo de Samir comeu oito pedaços, dos nove resultantes da divisão de seus três pães, ele acabou por contribuir com apenas um pedaço para o príncipe. Como Samir também comeu oito pedaços, mas dos quinze resultantes da divisão de seus cinco pães, ele acabou por contribuir com sete pedaços para o príncipe. Somando os sete pedaços de Samir com o único pedaço de seu amigo, atingimos os oito pedaços de pão, degustados pelo príncipe. Portanto, Samir, de fato, tinha de receber sete moedas (referentes aos sete pedaços); já seu amigo, uma moeda (referente a um pedaço de pão).

A visão iluminada de Beremiz Samir lhe rendeu honrarias e um alto cargo naquele principado, exatamente porque não foi um idiota hipermétrope, que atropela a sofisticação do raciocínio e esburaca a manta asfáltica por onde trafega a lucidez do pensamento. Idiotas, a rigor, não esgrimam com números. Ora não veem números onde eles existem, ora veem números onde eles não existem. O Brasil, por exemplo, está padecendo de esclerose matemática, em ambas as modalidades (míope e hipermétrope). 

Basta interpretar a crise criada por segmentos políticos que não se conformaram com a derrota nas urnas. Instituíram uma crise política que destruiu a economia. Agora, depois de afastar uma presidente eleita pela escolha popular, estão com dificuldades de reconstruir o país destruído por eles mesmos. Mas, como dizia o cronista Nelson Rodrigues, “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. 

  
Post Scriptum
O Azar

Alfredo era advogado em um grande banco de Salvador, onde chefiava um grupo de oito colegas. Bom sujeito, senso de humor extraordinário, sempre estava alegre e disposto. Aliás, a sua vida se resumia ao trabalho e aos encontros de fim de semana com as famílias de seus colegas de banco. Tinha por eles uma grande afeição e a recíproca era verdadeira. Casado, vivia bem com Emília, uma perfeita dona de casa. Mas ele tinha uma predileção maior pela Dra. Irene, responsável pela área trabalhista. Era um pedaço de mulher! Os homens viviam embevecidos por ela, mas a amizade que os unia fazia com que ninguém avançasse qualquer sinal, em termos de assédio, na sua direção. Qualquer um não! Alfredo avançava o sinal, às vezes discretamente, outras abertamente para dar a impressão que era somente brincadeirinha perante todos. Irene era casada com Fernandez, corretor de imóveis, filho de espanhóis, muito simpático e que fazia parte do grupo. As “brincadeirinhas” de Alfredo eram sempre de elogios -  ora ao corpo de Irene, ora às pernas, ora aos olhos verdejantes, ora à boca gulosa – e sucessivamente terminavam com a frase “Ai se você fosse minha só uma vez...” Irene, apenas ria e dizia “Alfredo, Alfredo, deixe Emília saber...” A verdade é que ela também levava na brincadeira. O tempo foi passando e, certo dia, Lourdinha, mulher de outro causídico do banco, resolveu olhar um terreno acima de Lauro de Freitas, cidade vizinha de Salvador, num condomínio hoje chamado de “Busca Vida”, um lugar que na época só ia quem tinha negócio. A chegada ao local era uma viagem, pois ainda não tinha sido inaugurada a “Estrada do Côco”. Para tanto, Lourdinha chamou para a viagem a mulher de Alfredo, Emília, e foram ver o terreno na companhia de Fernandez. Neste mesmo dia, ao chegar ao trabalho, Alfredo foi logo elogiando a beleza de Irene e, antes que ele dissesse “ai se você fosse minha...”, ela respondeu: “Vai ser hoje, quero ser sua...” Alfredo empalideceu! – Meu Deus, será verdade o que estou ouvindo? Logo marcaram para sair à tarde. Após o almoço, o casal saiu no carro de Alfredo. Ele já tinha pensado onde levá-la, um lugar bem longe, mas discreto e perto do mar. E qual o lugar escolhido? Exatamente... o hoje condomínio “Busca Vida”. De repente, a mulher de Alfredo, que estava com Lourdinha e Fernandez, balbucia: - Oxente, vejam ali. Aquele é o carro de Alfredo? O que ele está fazendo aqui? Os dois olharam e ratificaram o balbucio de Emília. Aproximaram-se do carro e o que viram?! Os dois nus, atracados sexualmente. – Alfreeedo???!!! – Ireeeeene???!!! O que é isto???!!! Gritaram ao mesmo tempo, Fernandez e Emília. Espavorido, Alfredo respondeu na hora: - Azar, simplesmente azar!            

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.

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