Ibarê Dantas: A fonte que não seca

Afonso Nascimento - Professor de Direito da UFS


 

 

 

A emergência da classe operária parece guardar, postas de lado diferenças geográficas, históricas, culturais e sociais, processos semelhantes que lembram um marco zero em termos de direitos trabalhistas. Mais precisamente, estamos a falar de ausência de regulamentação das relações entre empregados e empregadores e, por conseguinte, longas jornadas de trabalho para homens, mulheres e crianças, demissões arbitrárias, truculências patronais e policiais e indiferença e descaso da Justiça estadual em relação a essas primeiras lutas por direitos dos trabalhadores.

 

 

 

 

 

 

 

Certa vez, morando no continente europeu, fizemos questão de fazer uma viagem de turismo e de estudos ao berço da revolução industrial, em Iron Bridge, na Inglaterra, para ter uma ideia mais concreta do que tínhamos lido em livros de História da Europa e em romances de autores ingleses e franceses sobre os horrores das condições de trabalho e de existência da classe operária. Essa foi a primeira associação que nos veio à mente com a leitura do novo livro do historiador Ibarê Dantas sobre a imprensa operária em Sergipe que cobre, justamente, o período da formação da classe operária sergipana (DANTAS, Ibarê. Imprensa Operária em Sergipe (1891-1930). Aracaju: Editora Criação, 2016).

 

 

 

 

 

 

 

A segunda associação, que deveria ter sido a primeira, é que nós somos filho e produto da classe operária brasileira (avô e pai ferroviários sergipanos) e que fomos durante uma vintena de anos também parte desse grupo social e do qual, de certa forma, nunca deixamos de pertencer. Seria o caso de dizer: você tira o homem da classe operária, mas essa classe não sai de dentro do homem? Achamos que sim. Temos bem clara a lembrança de que nosso pai fazia muito bem a distinção entre as condições de trabalho e os salários da classe operária antes e partir da Justiça e do Código do Trabalho (também conhecido impropriamente como CLT) impostos pelo ditador Getúlio Vargas. Depois disso é que, sem essa racionalidade obviamente, pudemos organizar as ideias trazidas pelo livro desse importante historiador brasileiro nascido em Sergipe.

 

 

 

 

 

 

 

Como o título do livro acima está a indicar, trata-se de uma obra sobre jornalismo social referente ao surgimento da classe operária sergipana que começa em 1891, treze anos depois da abolição legal do trabalho forçado e não assalariado, indo até 1930. Para evitar confusões em termos de interpretação, devemos destacar que a classe trabalhadora sergipana já existia por cerca de três séculos e que, então, estava-se diante de uma fração nova da classe trabalhadora que era composta de operários urbanos e assalariados – com o reordenamento do trabalho desde o fim da escravidão em Sergipe, como destacou o historiado econômico Josué Modesto dos Passos. Voltando ao nosso fio da meada, esse livro mais recente de Ibarê Dantas tem como fontes principais jornais dirigidos a um público específico de trabalhadores urbanos. Além dessa matéria-prima (da qual ela fez reproduzir exemplares no anexo anexo do seu livro), o historiador de Riachão do Dantas se serviu de duas fontes orais, as quais foram entrevistadas em 1974 e 1975.

 

 

 

 

 

 

 

Na introdução do seu livro, o autor informa ao leitor que já tinha se debruçado sobre a classe operária sergipana em três livros anteriores sobre a política estadual (DANTAS, Ibarê. O Tenentismo em Sergipe (da revolta de 1924 à revolução de 1930). Petrópolis: Vozes, 1974; DANTAS, Ibarê. A Revolução de 1930 em Sergipe: dos tenentes aos coronéis. São Paulo: Cortez, 1983; e DANTAS, Ibarê.  Os Partidos políticos em Sergipe (1889-1964). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989) e em um artigo (DANTAS, Ibarê. Notícias de greves em Sergipe (1915-1930). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, no.31, 1992). Embora ele não o diga, tivemos a impressão de que essa passagem equivaleu a afirmar que o autor também reivindica créditos, justos aliás, no domínio da história social sergipana, cobrindo assim praticamente todas as áreas da historiografia, ou seja, a política, mas também a administração, a economia e a cultura – como pode ser observado no seu livro-síntese “A república em Sergipe”.

 

 

 

 

Esse é um livro da fase do “jovem Ibarê”, elaborado incompletamente em 1974, nos tempos da ditadura militar, que se antecipava à onda vindoura de trabalhos sobre a classe operária puxada por intelectuais ligados à Universidade Estadual de Campinas (Michael Hall, Paulo Sérgio Pinheiro, etc.), instituição na qual ele fará seus estudos de pós-graduação. Retomando a antiga pesquisa, Ibarê Dantas encontrou uma bibliografia relevante sobre a classe operária sergipana (MOURA, Maria das Graças. 1984. Levantamento da imprensa operária em Sergipe. Aracaju: PDPH, 1984; OLIVEIRA, Jorge Marcos de. O ideal anarquista em “O Operário” (1896). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, no.29,1987; SOUSA, Antônio Lindivaldo de. Disciplina e resistência. Cotidiano dos Operários Têxteis em Aracaju (1910-1930). São Cristóvão: TCC em História pela UFS, 1991 e SOUSA, Antônio Lindivaldo de. Em nome do progresso e da liberdade: “ordem” e “rebeldia” no emergente processo urbano-industrial de Aracaju (1910-1930). São Cristóvão: Monografia de Especialização em Ciências Sociais/UFS, 1993; GUEDES, Cristiana Montalvão. A exploração patronal sobre o operariado têxtil em Sergipe (1889-1930). São Cristóvão: TCC em História pela UFS, 1997; e ROMÃO, Frederico Lisboa. Na trama da história: o movimento operário de Sergipe (1871-1935). Aracaju: J. Andrade, 2000) de que fez uso para atualizar o trabalho parado desde 1974.

 

 

 

 

O “Ibarê maduro” estruturou o seu livro quarenta e dois anos depois do seu esboço em 1974 e fez isso apresentando-o em seis capítulos. No primeiro deles (“Estrutura social de Sergipe-1889-1930”) introduz o leitor ao contexto social dentro do qual fará a sua análise da imprensa operária sergipana. Os demais capítulos estão organizados em torno dos jornais operários por ele encontrados, isto é, “O Operário”-1891, “O Operário” – 1896, “O Operário” – 1910-1911, “O Operário”-1915-1916 e “Voz do Operário”-1920-1930. Prestando atenção às datas dos jornais, pode-se imaginar como deve ter sido arriscado e difícil publicar jornais desse tipo numa sociedade recém-saída da escravidão, predominantemente agrária e rural e controlada por mandões políticos, herdeiros de costumes escravocratas.

 

 

 

 

Não entraremos nos detalhes da narrativa de Ibarê Dantas sobre cada capítulo e respectivos jornais. É mais interessante que o leitor leia e reflita sobre as questões tratadas em cada período. Diremos, entretanto, que o historiador tarimbado montou um esquema bem operacional para a coleta de informações nos jornais pesquisados que consistiu em levantar, nas suas palavras, “a posição de cada folha diante da política, do patronato e da Igreja Católica”. Além disso, destacou a contribuição dos periódicos na “defesa e conquista dos direitos, (no) fortalecimento da classe”, bem como explicitando “suas tendências ideológicas”. Dito com nossas palavras, o autor mostra os usos feitos pelos jornais operários na doutrinação dos operários e na denúncia das condições de trabalho, das arbitrariedades patronais, dos momentos de rebeldia e de radicalismo retórico, das formas paternalistas de relação entre o patronato e os operários, dos atos de cooptação das autoridades constituídas estaduais e assim por diante. No que se refere às “tendências ideológicas”, Ibarê Dantas sustenta que os jornais operários pesquisados evoluíram (sem valoração de nossa parte) de posturas anarquistas para posicionamentos comunistas. Essa é a tese principal desse novo livro de Ibarê Dantas.

 

 

 

 

E por falar em comunistas, Ibarê Dantas também discute o problema da origem do Partido Comunista Brasileiro em Sergipe. Afinal, quando foi fundado? Ele afirma não ter encontrado nos jornais operários examinados qualquer informação sobre datas e nomes indicando a constituição dessa organização em solo sergipano. Se a direção nacional do PCB foi criada em 1922 no Rio de Janeiro, isso não significa que o mesmo também tenha acontecido em Sergipe. Essa é uma questão que continuará sem resposta até que, quem sabe, algum outro pesquisador tenha mais sorte do que ele.

 

 

 

 

Voltando ao ponto das “tendências ideológicas”, chamou-nos a atenção o fato de doutrinas anarquistas serem consumidas em Sergipe, uma sociedade que não conheceu imigração europeia (italianos, espanhóis, etc.), como estados do Sudeste como São Paulo, por exemplo. Isso mesmo. A nossa classe operária era formada por descendentes de homens livres e escravos nascidos e criados por aqui mesmo e, pelo visto, tiveram acesso à circulação internacional de ideias e de doutrinas políticas europeias por essas bandas agrárias e rurais. Isso nos leva ao problema de saber quem eram os jornalistas ou, o que dá no mesmo, os intelectuais que escreviam esses jornais. Esses jornais tinham um ou mais intelectuais encarregados de fazer sua publicação, geralmente destinada a público composto de operários da construção civil, estivadores, pedreiros, carpinteiros, alfaiates, operários de fábricas têxteis, entre outros – os quais constituíam uma fração muito pequena quando comparada à população de trabalhadores rurais. Ibarê Dantas cita alguns dos nomes desses intelectuais, tais como João Ferro, Lourival Fontes, Luiz José da Costa Filho, Antônio Xavier de Assis, Arion Guimarães Pinto, Rodrigues Viana, Adeodato Maia, Olímpio Mendonça, etc. Infelizmente, em relação a esses intelectuais e outros, faltaram informações biográficas de que o historiador tanto necessitaria para tornar o seu livro mais completo. Ainda assim, construiu alguns bons perfis biográficos desses intelectuais mediadores.

 

 

 

 

 

 

 

A quem pode interessar a leitura desse livro? A muita gente. Estamos pensando em estudantes e profissionais do Direito do Trabalho, sindicalistas, estudantes de História e historiadores. Afora os grupos mencionados, Também teriam interesse todas as pessoas interessadas em saber como viviam os operários sergipanos nos anos de sua formação, especialmente agora quando se fala em uma reforma do Código do Trabalho programada pelo Poder Executivo para o próximo ano, que supostamente retiraria do seu bojo conquistas realizadas na década de 1930.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o que será escrito o próximo livro de Ibarê Dantas? Não é possível saber. Pelas nossas contas, “Imprensa Operária em Sergipe” é o seu décimo primeiro livro. Quando alguém pergunta ao autor a respeito de que está escrevendo no momento, o incansável historiador desconversa e sempre diz que “a fonte secou”, que não tem mais nada para dizer. Se o leitor ouvir algo semelhante dele, pode acreditar que ele está preparando algum livro ou artigo novo. Isso faz sentido.

 

 

 

 

Sendo um dos mais importantes historiadores brasileiros, ele tem passado a sua vida lendo e escrevendo. Nesse processo tem feito muitas descobertas e aquisições aqui e acolá que não tem podido dar seguimento por estar focado em algum projeto, sendo obrigado, assim, a pô-las em banho-maria para adiante retomá-las e transformá-las em novos trabalhos. Da última visita que fez aos seus arquivos saiu esse livro sobre jornais operários. Vale a pena esperar a chegada de 2017 para saber o que ele pode estar preparando para os admiradores de sua obra.

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