Feliz Ano Velho

30/12/2016 20:02:39 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Não! Nada disso! Não vou falar do best-seller do querido Marcelo Rubens Paiva que emocionou, e ainda emociona, a todos aqueles que têm contato com o seu romance. Aliás, recomendo como presente de Natal. Na década de 80, recordo-me que comprei 30 edições de Feliz Ano Velho e distribuí no período natalino com os amigos. Ainda hoje alguns desses companheiros recordam do fato bastante gratificados com o presente e com a oportunidade de conhecer uma história trágica, contada numa linguagem simples e coloquial. Eu tenho uma profunda admiração por Marcelo, filho de um grande companheiro, o deputado federal Rubens Paiva, torturado e assassinado pela ditadura militar no início da década de 1970. Confesso que gosto de receber livros e, também, de dá-los. Este ano já recebi três livros: A Democracia Traída, entrevistas com Raymundo Faoro, organização e notas de Maurício Dias e prefácio de Mino Carta; A Biblioteca Esquecida de Hitler, de Timothy W. Ryback, que trata das obras que moldaram a vida do Führer; e Trujillo, La Muerte del Dictador, de Bernard Diederich.

Para presentear alguns amigos vou oferecer o livro da jornalista Claudia Wallin, Um País sem Excelências e Mordomias, obra que me foi dada por um servidor do Tribunal de Contas há dois anos e que li recentemente. Pois bem! A verdade é que muitos que lêem, aprendem. Outros não. A bíblia, a história, os grandes mestres, a filosofia, as obras literárias, estão cheias de ensinamentos. O homem, entretanto, apesar de ser capaz de desenvolver descobertas fantásticas na área da tecnologia, involuiu no campo do aprendizado com a vida. Teima em repetir erros cotidianamente registrados nos anais da história. Tudo bem. Erra-se inconscientemente, não era essa a pretensão, justifica-se, após produzir o caos e a destruição antes do tempo. Nada disso, conversa fiada! Erra-se porque não é sábio, não assimilou os bons ensinamentos e optou pela mediocridade como exemplo. Incorporou maus sentimentos ao seu cotidiano. Vaidade, auto-suficiência, arrogância e, sobretudo, esqueceu-se de ouvir. Ou ouviu mal.

Nietzsche estava certo: "Deus acertou ao limitar a inteligência humana, mas errou em não limitar a burrice". O “conselho” - que, conforme se diz, se fosse bom, não se dava, vendia-se, o que não é verdade - é o maior exemplo de como a insensatez predomina na mente das pessoas incautas. Conselho sempre foi bom e faz muita diferença numa situação de conflito, principalmente quando é dado por pessoas, como diria Ingenieros (O Homem Medíocre, Ícone Editora), que extasiam-se diante de um crepúsculo, sonham frente à aurora ou se arrepiam na eminência de uma tempestade, que gostem de passear com Dante, rir com Moliere, tremer com as tragédias de Shakespeare ou assombrar com Wagner. Enfim, o conselho sempre é bom quando dado por quem sabe velejar nos mares da sensatez. Agora, só dá certo para quem precisa e para quem quer ser ajudado. Aqueles que se acham argutos, espertos, eruditos, não! Por serem auto-suficientes, e muitas vezes, por assim se acharem, preferem se unir aos vampiros de energia, ornados com as virtudes da mediocridade.

Tobias (4,18) sempre ensinou seu filho a dar ouvidos aos sábios e a não desprezar nenhum bom conselho. Fez desses ensinamentos o seu caminhar pela longa vida. E morreu cercado de honra, aos cento e dezessete anos de idade. A mulher de Ló (Gênesis 19,26) recebeu também boas instruções, mas sua índole era cheia de desdém, o que fez com que Deus a castigasse, transformando-a em estátua. Todos sabem como se deu a destruição de Sodoma. Justamente por terem amparado os dois anjos da fúria dos habitantes da cidade, foi Ló aconselhado a sair daquele lugar com a sua mulher e as duas filhas antes da destruição, sob a fixa determinação de não olhar para trás e não parar em lugar algum, seguindo para a montanha. Não era para olhar para trás, mas a mulher não quis ouvir o conselho. Resultado, virou uma estátua de sal; o rei Roboão (1 Reis 12,8) não aceitou ser guiado pelos ensinamentos dos anciãos, que tantos serviços prestaram a Salomão, seu pai, quando ainda estava vivo, preferindo outro caminho.

O que fez Roboão? Seguiu os inaptos, sem cultura, sem experiência. Resultado, perdeu dez tribos e continuou sendo um apoucado. Se Nabucodonosor (Daniel, 4,24-33) tivesse ouvido Daniel, que o aconselhou a pagar os seus pecados praticando a compaixão e reparando as suas faltas cuidando dos pobres, ele não teria sido transformado em animal, comendo capim como gado e a ficar ao esmo. “Seu cabelo ficou comprido como penas de águia e as unhas cresceram como unhas de passarinho”; e Judas Macabeu (1 Macabeus 9,1-18), o mais forte dos homens, cujos feitos lhe renderam a fama, o herói do povo de Israel, não teria perdido a vida caso houvesse seguido as palavras dos seus companheiros que, sensatamente, tentaram demovê-lo da ideia de enfrentar um exército bem mais numeroso, logo após a deserção desenfreada de seus homens. Portanto, quem ignora e descrê dos bons conselhos, seguindo a sua presunção, perde o bonde da história. Faz com que a inteligência seja ofuscada pela mediocridade ou, como diria Flaubert, torna-se “um homem que pensa de maneira baixa”.

Gracian (A Arte da Prudência, Editora Sextante) acentua que a vida humana é uma luta contra a malícia do próprio homem, adiantando, também, que conhecimento sem bom senso é uma dupla loucura. A insensatez, lamentavelmente, é um cancro que impregna o tecido humano, vicia a alma e destrói os sonhos. Está presente em todas as carreiras, sejam nas áreas das ciências exatas, nas humanas; entre as classes mais abastadas ou menos favorecidas. Entristece, contudo, quando a Inteligência sucumbe à insensatez. Não cabe, aqui, discutir as origens desse rebaixamento moral, mas é importante enfrentarmos o dragão verde que solta bolas de fogo pelas narinas existente em nós, como pensado por Nietzsche. Ele não pode continuar impedindo o nosso peregrinar em busca da perfeição. Mas, infelizmente, está muito difícil encontrar o caminho. Tenho visto de tudo nessa vida, mas é nos meandros do poder que a insensatez encontra o seu habitat, dando exemplos cotidianos de como a mediocridade prevalece nas relações.

O mundo está cheio desses semideuses que pululam nos galhos da insensatez, da vaidade, do descalabro ético, da hipocrisia, da indolência e preguiça. Todos irmãos gêmeos da arrogância, característica principal dessa estirpe de gente, que se vangloria da desonra de haver ludibriado alguém e de receber honrarias pelos malefícios praticados. Só e somente ele é honrado e acredita ser o melhor de todos. Diferentemente dos sábios, recebem como afronta uma crítica a um equívoco ou a uma estupidez cometida. Quase sempre são egocêntricos, desonestos e indignos de confiança. Essa turba que povoa o nosso espaço aumenta a cada dia. Quer ver o diabo faça um teste com alguém que assume o poder. Transforma-se, de imediato. Passa a ser um PhD naquela atividade. Não interessam as forças, as circunstâncias, os erros do adversário, a forma como ele chegou ao píncaro, nada! Ele chegou à glória por força da sua “inteligência”, da sua capacidade de aglutinar e por ser o melhor entre todos. Não ouse aconselhá-lo ou tentar estabelecer um diálogo num momento de crise.

A resposta é imediata: - Eu sou pós-doutor, não preciso de interferência de ninguém; eu sei como resolver, pois, se não soubesse, não era eu que estava no poder, mas você. É sempre assim. O poder, para esse psicopata, é eterno, nunca acaba. Não se mira nos exemplos da literatura, da história, da Bíblia e da universidade da rua. Sempre olha a plebe de cima para baixo, como ser inexistente. Pobre de espírito, não sabe o que perde quando deixa de lado a experiência que se encerra num homem do povo. Alexandre, o Grande, subjugou o mundo com as suas vitórias em diversas batalhas. Morreu feio, envenenado por um criado; Xerxes. Filho de Dario I, rei da Pérsia, conquistou o Egito e tentou fazer o mesmo com a Grécia, pois se achava o dono do mundo. Sofreu uma fragorosa derrota, fugindo para a Ásia, onde morreu assassinado por um seu cortesão. O mesmo aconteceu com o poderoso imperador romano Júlio César, que em pouco tempo morreu apunhalado. Veja o exemplo de Muammar Gadafi, objeto de uma crônica aqui neste espaço.

O seu fim mostra que nenhum poder foi tão grande que não tivesse sucumbido de forma terrível, como foi o seu caso, testemunhado por milhões de pessoas. Todos foram e são esmagados pelo próprio veneno: o veneno da arrogância. Em Tiago, 4,6, está dito que “Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes”, ou seja, o arrogante Deus humilha, mas o humilde Ele sempre exalta. Todos conhecem a história da escrava Agar. Está ali no Livro do Gênesis. Por não poder conceber, Sara, mulher de Abrão, propôs-lhe: “Já que o Senhor me fez estéril, une-te à minha escrava, para ver se, por meio dela, eu possa ter filhos”. Abrão acordou com a idéia, unindo-se a Agar que lhe deu um filho. Só que, durante a gravidez, Agar passou a esnobar a sua Senhora, pensando possuir um poder que na verdade não possuía, terminando por ser de forma obstativa expulsa da casa com o seu filho, tudo fruto de sua estupidez. Mas, na verdade, esse time de pessoas que se veste com a roupa da vaidade e da arrogância, não passa de seres medíocres.

Como bem diz José Ingenieros: barcos de amplas velas, mas desprovidos de timão, não sabem determinar seu próprio rumo: ignoram se irão varar uma praia arenosa ou arrebentar-se contra um penhasco. O problema é que eles se sentem felizes, repetindo, sempre, com toda pavonice, aquilo que o personagem vivido por Al Pacino, em O Advogado do Diabo, diz no final do filme: Vaidade: meu pecado favorito. Oxalá que não se acabem como no poema “Vaidade, Tudo Vaidade”, do poeta português Antônio Nobre: “... Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna e eu vi-me só no mar com minha escuna, e ninguém me valeu na tempestade”. Para eles, feliz ano velho!

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos