A Subida do Morro

29/01/2017 19:46:25 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor de Direito da UFS

Ratatatatatatatá... Ratatatatatatatá... Ratatatatatatatá... A neve caía sem parar. E, logo, a brancura era maculada por óleo, barro e sangue. Muito sangue. Mas, a nevasca cobria o óleo, o barro e o sangue. E tudo se repetia. As metralhadoras inimigas não paravam de cuspir fogo. Os alemães, apesar da derrocada iminente, ainda eram muito fortes. Talvez ali estivessem os soldados mais bem preparados daquela guerra. E muito bem armados. Eles formavam um exército dividido em partes por todos os lados, mas eram inimigos que impunham respeito. O que levava os homens à guerra, à mortandade? O soldado Anacleto gostaria de saber. O que ele sabia era que tinha que subir o morro. Porém, matar homens não era a mesma coisa que matar preás e rolinhas para afastar a fome, no sertão. 

Barulho de esteiras de um tanque de guerra rangendo, massacrando a neve, esmagando corpos há pouco caídos para jamais levantar. O frio. Na terra do soldado Anacleto não fazia frio, nem no inverno mais rigoroso. Quando muito, uma aragem de brejo nas noites de agosto, quando o vento soprava da costa para o interior. Carractri... Carractri... Carractri... O tanque avançava. A artilharia dos ianques, pau a pau, não era páreo para o formidável Tiger II, o mais importante tanque da artilharia alemã, que era maior que os outros, tinha blindagem e poder de fogo imbatíveis. Na batalha frente a frente com qualquer outra máquina, o Tiger II, em tese, não podia ser derrotado.

A patrulha da qual fazia parte o soldado Anacleto estava em campo desde a noite anterior. Àquela hora, deveria ser mais ou menos meio dia. Contudo, a nevasca fazia o tempo escurecer um bocado. Pouco se podia enxergar à média distância. O sargento que comandava a patrulha ficara para trás, morto. Dos dez soldados, apenas quatro continuavam vivos e agrupados. Dois deles portavam ferimentos leves, causados por estilhaços. Anacleto sabia que era impossível recuar, para encontrar as linhas amigas. Os alemães estavam por toda parte. Mais cedo ou mais tarde, eles cairiam. Mas, não naquele momento. Eles estavam bem entrincheirados em vários pontos do morro. Os ninhos de metralhadoras tornavam-se invisíveis. O único tanque Tiger II que ali combatia, fazia um serviço infeliz. Um massacre. Os pracinhas quase não tinham proteção da artilharia pesada dos aliados. Anacleto sentia-se uma espécie de boi de piranha, como se dizia na sua terra, não muito longe das margens do rio São Francisco. 

Ao seu lado, uma voz sussurrou: “Você acha que a gente escapa dessa, cara?”. Era um carioca, tocador de violão, meio doido. “Quem sabe é Deus!”, respondeu Anacleto, também sussurrando. Estavam na Itália há três meses e meio. Foram lutar na Europa sem armas de valimento e sem a devida proteção para o inverno rigoroso. Os gringos os socorreram. Os filhos de Tio Sam desdenhavam deles. Lutar na Europa. Lutar contra Hitler, um cara de bigodinho ridículo. Anacleto deveria estar ajudando o pai na labuta da roça, pelejando com o gadinho. Dezembro era mês de verão na sua terra. Seca braba. Faltava água para as pessoas e os animais. Faltava capim. Gado definhando e morrendo para a festa dos urubus. Ali, na nevasca, os urubus eram os nazistas. Cambada de demônios, que queriam dominar o mundo. Eles dominariam o Brasil? O que eles haveriam de querer com seca e miséria, ao menos no sertão sergipano, no sertão nordestino inteiro? Ano em riba de ano, o sertanejo sofria. 

Outra carga de metralhadora. Mais outra. A subida do morro era difícil. E debaixo do chumbo pesado do inimigo, ficava quase impossível avançar. Por onde andariam as outras patrulhas? Tiveram mais sorte do que a dele? Era improvável diante daquela reação dos alemães. Os morteiros também matraqueavam morro abaixo. O Tiger II de vez em quando disparava um tiro. O barulho era ensurdecedor. Só o barulho assustava. O tanque parecia estar bem perto. O barulho das esteiras era cada vez mais nítido. Carractri... Carractri... Carractri... 

O carioca doido disse que iria tentar explodir o tanque. Anacleto aconselhou que ele ficasse onde estava. Mas, o tocador de violão rastejou em direção ao barulho das esteiras do tanque. Anacleto o perdeu de vista. Logo, um tiro seco de fuzil soou no espaço. Um grito de dor. O tocador de violão foi tocar no céu. Restavam três pracinhas da patrulha de Anacleto. Eles estavam sem comando. Estavam por conta própria, ao Deus dará. Outra chuva de balas. Um obus explodiu a poucos metros deles. Os outros dois recuaram para uma fenda à direita. Anacleto entrincheirou-se noutra fenda. Esperança de vida? Só se ocorresse um milagre. Vozes em língua enrolada eram ouvidas. À distância. Perto, porém, era o barulho do Tiger II, que avançava sorrateiro como cobra caçando o almoço. Carractri... Carractri... Carractri...   

Anacleto ouviu o sussurro de um dos companheiros que estavam na outra fenda. “Vamos sair deste inferno, amigo!”. Os dois se foram. Tiros de fuzil. Gritos. Anacleto se encolheu na fenda. A infantaria que acompanhava o tanque deu cabo dos dois pracinhas. Da patrulha só restava Anacleto. O tanque continuava avançando. Vinha em sua direção. Anacleto segurou uma granada. Aquele artefato não faria nem uma cócega no Tiger II. Mas, enfim, ele tentaria alguma coisa. Não morreria entocado, tremendo como um rato assustado diante de um gato faminto. A fome do Tiger II era insaciável. A fome dos poderosos não tinha limites. Homens morriam sem saber direito a razão. 
De chofre, o tanque alemão surgiu imponente, abrindo caminho na nevasca. Estava quase todo coberto de neve. Era mesmo monstruoso, como diziam. Carractri... 

Carractri... Carractri... O barulho das esteiras rolando e empurrando o tanque não conseguia abafar algumas vozes, que soavam por detrás. Anacleto beijou a imagem de São Francisco, que sua avó lhe dera, antes de embarcar para a guerra. Abriu bem os olhos. Viu o tanque avançar, bem na sua direção. Faria dele uma pasta de carne ensanguentada. Decerto, seria esmagado. Preparou-se para arremessar a granada. Nunca mais veria a sua terra, a sua família. A mãe haveria de chorar muito. Ele era o filho mais novo, a ponta de rama. Dona Clotilde, a mãe, era muito apegada a ele. E o cachorro Veludo, bonzinho de caça, que era uma beleza? Nunca mais. A filha de Tonico Valadão do finado Pedro de Zacarias por quem ele tinha uma queda, arranjaria um namorado. Casaria e teria filhos, os filhos que poderiam ser os seus. Morrer numa terra estranha, lutando numa guerra ainda mais estranha. Não tinha sentido. Ele, porém, era filho de José Eleutério das Porteiras. Um sujeito destemido. Não poderia fazer vergonha ao pai. Não morreria como um borra-botas. Atiraria a granada. Morreria lutando. Rezou um Pai Nosso, pulando palavras. O rosto da filha de Tonico Valadão estava ali à sua frente. O rosto da morte, também. Rosto tétrico. Assombroso. A morte tinha a cara de um herege. 

Um forte estampido. Outro e mais outro. Fogo e estilhaços. Gritos. Corpos sendo arremessados. Tiros certeiros disparados de outro tanque tirou de combate o Tiger II. Anacleto segurou a metralhadora com firmeza. Fez mira. Por ora, estava salvo. 

Para movimentar um tanque de 56,9 toneladas, as esteiras do Tiger II eram frágeis. Produzidas para veículos menores e adaptadas às pressas, elas não eram reforçadas o suficiente para o tamanho do veículo e, às vezes, paravam de funcionar. Os tiros certeiros de um tanque M-4 Sherman americano acabaram com as esteiras do Tiger II e fez voar pelos ares os soldados que estavam na sua retaguarda. Os que estavam dentro do tanque foram abatidos por uma das patrulhas. Anacleto ouviu nitidamente alguém dizer: “A cobra tá fumando!”. Dois dias depois, agregado às demais patrulhas conjugadas de pracinhas e ianques, ele acabaria subindo o morro. E o morro seria tomado. 

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