O Segredo de Brokeback Mountain

30/04/2017 15:28:06 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Hasan é iraquiano. Está com 30 anos. É gay assumido e vive em Bagdá. Mora isolado em sua casa com medo de ser mais uma vítima do insano e criminoso comportamento das autoridades daquele país. Vários de seus amigos, inclusive aqueles ligados à cultura “emo”, cuja maior representação é a música americana “emotional hardcore” (onde os seus adeptos usam quase sempre cabelos compridos e calças jeans justas com as cuecas à mostra), têm sido perseguidos e assassinados pela polícia e grupos paramilitares. O terrorismo contra os homossexuais iraquianos chegou ao ponto de um pai, ao descobrir a relação do seu filho com outro homem, matá-lo com um tiro na cabeça. E tudo isso se deve à insensatez do governo iraquiano que, ao invés de combater o massacre dessas minorias, incita a violência. O Ministério do Interior do Iraque chegou ao cúmulo de veicular um comunicado, anos atrás, afirmando que os “emos” são “adoradores do demônio”, estimulando, desse modo, a polícia a “eliminar” esses jovens. O anúncio foi retirado do ar, no entanto o texto influenciou o aparecimento de vários corpos pelas cidades. 

O ódio homofóbico não é um sentimento somente do Iraque, mas do mundo inteiro. No ano de 2011, um relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia revelava que 140 gays, 110 travestis e 10 lésbicas foram assassinadas no Brasil no ano de 2010. Por faixa etária, 46% das vítimas tinha menos de 30 anos. A mais jovem tinha tão somente 14 anos; era um travesti, morto com 14 tiros em Maceió. A mais velha tinha 78 anos; era um aposentado, que foi morto com golpes de facão na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Desses homossexuais, 43% foram assassinados a tiros; 27% morreram com golpes de faca; 18% foram apedrejados ou espancados e 12% sufocados ou enforcados. Ainda no ano de 2011, a polícia civil do Estado de São Paulo identificou 200 integrantes de grupos extremistas, conhecidos como “skinheads”, entre 16 e 28 anos, que foram investigados por “crimes de ódio”, praticados contra gays e negros. Esses jovens estão sempre usando coturnos com biqueiras de aço ou tênis de cano alto, jeans e camisetas coladas ao peito. Cultuam o líder nazista austríaco Adolf Hitler e se cumprimentam com o grito “Heil Hitler”.

Consoante dados da ONU, em mais de 70 países leis criminalizam o homossexualismo, expondo milhões ao risco de detenção, prisão e, em alguns casos, execução. É lamentável! Essas normas anormais, a rigor, violam um dos princípios fundamentais que regem a nossa crença na dignidade e no valor de cada pessoa, sem distinções com base em raça, cor, sexo, idioma, religião, propriedade, nascimento ou outras quaisquer. Havendo o consentimento, toda forma de amor é válida. A história está cheia de exemplos de relacionamentos homoafetivos, como a de Gertrude Stein e Alice B. Toklas. Stein era formada em psicologia pela Radcliffe College. Viveu em Paris, onde chegou no início do século XX, e se tornou uma espécie de abelha rainha naquela época efervescente da capital francesa. Uma leva de artistas, ainda no início de carreira, fez da cidade o seu lar. Foi ela quem rotulou todos eles como a “geração perdida”. A sua obra mais importante é “A autobiografia de Alice B. Toklas”, sua amante, lançada em Paris em 1933, livro que a celebrizou na literatura norte-americana nos primeiros cinquenta anos do século XX.   

Ali, ela penetra nos ambientes parisienses na fase anterior à segunda Guerra Mundial, “onde reinavam a flexibilização dos costumes e a radicalização das ideias”. Influenciou toda essa geração de intelectuais, que passou por Paris a partir de 1903. Outra grande pioneira nessa época foi a poetisa e dramaturga Natalie Clifford Barney, uma ricaça de Ohio que foi a Paris para estudar. Depois de Eugene Stein, tornou-se a segunda mulher mais badalada daquele mundo cultural, recebendo em sua casa intelectuais da envergadura de Marcel Proust, Apollinaire, André Gide, James Joyce, Sherwood Anderson e T. S. Eliot. Suas orgias com mulheres foram cantadas e decantadas tal qual um mantra da época. Federico Garcia Lorca é um dos maiores poetas de língua espanhola. Na madrugada de 18 ou 19 de agosto de 1936, aos 38 anos, foi fuzilado a mando da ditadura franquista em plena guerra civil espanhola. Lorca era então odiado pelo seu entusiasmo na luta pela República. A sua condição de homossexual foi explorada pela direita espanhola como responsável pela sua morte, versão repelida pela história.

Como homem das letras, travou relações com as mais importantes figuras vanguardistas do seu tempo, como o pintor Salvador Dali, com quem mantivera um romance sempre negado por este, que chegou a afirmar que Lorca era pederasta, como se sabe, y estaba locamente enamorado de mi. Trató dos veces de ... lo que me perturbó muchisimo, porque yo no era pederasta y no estaba dispuesto a ceder. O sea que no passo nada. Todos os biógrafos de Lorca e do próprio Dali, contudo, colocam em dúvida a veracidade dessas afirmativas. Há uma extensa correspondência entre ambos, onde se verificam vários trechos insinuantes, os quais demonstrariam o amor existente entre eles. Há, a propósito, um poema esparso de Lorca, que é dedicado a Salvador Dali, com o título “Ode a Salvador Dali”. Ainda no mundo cultural, um grande romance, embora conturbado, foi vivido pelos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Os defensores do primeiro alegam que ele nunca fora homossexual; o segundo, sim! A realidade é que essa relação chegou ao ponto de, após uma briga que tiveram em Londres, Verlaine ir embora para Bruxelas. 

Quatro dias depois, Rimbaud chegou a Bruxelas e, após nova briga, Verlaine deu um tiro no seu amante, que foi hospitalizado para extração do projétil. No julgamento de Verlaine, sob juramento, ambos negaram qualquer ligação homossexual, o que, segundo Verlaine, seria uma invenção de sua mulher para lhe prejudicar. Logo após a morte de Rimbaud, aos 45 anos de idade, em 1895, Paul Verlaine escreveu um texto, que denominou “Novas notas sobre Arthur Rimbaud”, onde elogiou o seu talento e festejou a amizade vivenciada entre ambos. Culminou com um poema, dedicado ao seu amante: A Arthur Rimbaud -  Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud, teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio; tu, que um bobo escritor um dia esculhambou, te achando um debochado imberbe, um verme, boêmio. As espirais de incenso e os acordes do alaúde saúdam tua chegada ao templo da memória, onde teu nome esplêndido soará em glória, pois me amava, se preciso, até a plenitude. Serás para as mulheres, sempre, belo e forte, de uma beleza assim, agreste e sedutora, tão cobiçada quanto desvanecedora. 

Concluindo, Verlaine arrematou: E a história te erguerá triunfante da morte, para que, apesar de toda a lama, o mundo veja teus pés intactos sobre a cabeça da inveja. É... Furtando as palavras de Verlaine, o problema está aí, na lama que jogam no amor homossexual para torná-lo sujo quando, com efeito, todo amor se faz limpo, exatamente porque é amor. Essa lama tem matado no Iraque. Tem matado no Brasil. Tem tornado limpos skinheads, manchados com o sangue de quem apenas queria amar. Penso, por conseguinte, que, se a sociedade respeitasse a diversidade do amor, vendo nele uma forma de contemplação sublime, superaríamos o vilipêndio dos assassinatos covardes e construiríamos um mundo único, homogêneo, leve e igual, pelo respeito divino às diferenças.


Post Scriptum
Madonna
A rainha das ruas de Ará

Ele perambulava pelas ruas de Aracaju, vivendo de pequenos biscates e da boa vontade das pessoas. Homossexual assumido, defendia, com unhas e dentes, a sua opção sexual. Bom de briga e no uso da faca, esteve várias vezes preso pela prática do crime de lesão corporal, pois não admitia atos homofóbicos contra ele. Por duas vezes o tirei da prisão. Ninguém o conhecia pelo seu nome de batismo, Amós Lima Chagas, mas pelo seu apelido: Madonna, um dos tipos mais populares e conhecidos de Aracaju. Era uma pessoa prestativa e muito solidária com quem ela gostava. Eu, particularmente, adorava o seu senso de humor. Lembro-me que certa vez estava conversando com um amigo comerciante da Rua 24 horas, num estacionamento da Rua Laranjeiras, esquina da Rua Capela. Repentinamente chega Madonna e fala para este meu amigo: - Gordinho gostoso! Vim buscar a minha mesada! Irritado com a petulância, ele retrucou: - Não tem mesada porra nenhuma, me respeite viado safado! Madonna botou as mãos nos quartos e foi logo replicando: - Ah, é?!  Agora sou viado safado?! Quando você me comia eu não era! Pois vou espalhar na Rua 24 horas que você me botava pra lhe chupar dentro da loja! Foi um Deus nos acuda para o meu amigo, que espavorido disse: - Não! Não! Por favor, tome aqui 20 reais. Mas houve um momento histórico na vida de Madonna. O casal Marivaldo e Jandira, proprietários de uma gráfica no centro da cidade, gostava muito dele e resolveu mudar a sua vida. Depois de muitos conselhos e ponderações, conseguiu persuadi-lo a dar uma reviravolta no seu dia-a-dia. Aquilo, para o casal, não era vida de gente. E não é que o quadro mudou completamente para Madonna? Com carteira assinada, calça comprida e camisa social, todos os dias ele chegava e saía religiosamente no horário comercial da gráfica. Ajudava na oficina, limpava as máquinas, fazia pagamentos bancários. Era um autêntico “faz-tudo” no seu emprego. Abandonou os trejeitos femininos, deixou a droga e até estava mais tolerante com os moleques que mexiam com ele, engolindo vários tipos de sapos. Estavam todos admirados. Seus vizinhos do Bairro Industrial estavam atônitos com a mudança radical operada em sua vida. Estava até almoçando em restaurantes. O Bar da Finha, na Rua Laranjeiras, era o preferido nas sextas-feiras por causa da feijoada. Mas três meses depois, talvez pelos maus tratos e preconceitos dos transeuntes, Madonna causou o maior furor na Rua Laranjeiras. Tirou a gravata, rasgou a camisa, despiu-se da calça, meia e sapato e saiu de cuecas aos gritos lancinantes: - Chega! Não quero mais ser homem! Nasci para ser mulher! E correu em direção ao calçadão da Rua João Pessoa. Bem disse Araripe Coutinho numa crônica para Madonna: Não mais corre atrás de ninguém, não mais grita, não mais rouba, nem se arruma de salto alto, nem pede roupa velha aos travestis, nem mais dorme sobre o colchão de pregos, nem mais ilumina o bairro Industrial, nem mais chora, nem mais eu, nem mais nada. Na madrugada de uma sexta-feira, ano de 2012, ele foi encontrado totalmente ensanguentado atingido por golpes de paralelepípedos no centro de Aracaju. Quatro dias depois morreria de traumatismo craniano.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 

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