Lágrima de cobra e áudio demolidor

21/05/2017 16:52:44 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Não, não é lágrima de crocodilo. É, sim, lágrima de cobra. Alguém já viu? Não. Nem vai ver. Lágrima de cobra é o que se diz quando alguém não é capaz de derramar lágrima nenhuma. Afinal, cobra não chora. Nem teria porque chorar. Cobra chorando? Meu Deus! Seria o fim dos tempos. Pois não era que o fim dos tempos estava próximo, no entender de Cida de Tonho Rufino, presidente do diretório municipal do Partido Socialista dos Trabalhadores Brasileiros Autônomos. Este Partido era, deveras, uma agremiação partida ao meio. Aliás, partida em muitos pedaços. Partido de aluguel. A cada eleição, aliava-se a quem pagasse mais. Uma lástima. Não era o único partido político que se vendia. Uma vergonha!

Cida era a irmã caçula de Tonho Rufino, presidente do partido e vereador. Sujeitinho mais enrolado do que Bombril. Mais enrolado do que sabão em jornal velho, no balcão de bodega de ponta de rua. Ah, por falar em bodega, no meu tempo de menino, minha mãe comprava sabão Aurora, na bodega de “seu” Américo, nas Dores. Um dia, apareceu um representante querendo vender um sabão barato de nome Caçote. Tinha, gravada, a figura de uma rã, que também era chamada de caçote. Caçote de beira de fonte, verde, almoço ou jantar de cobra. Sabão ruim, que se desmanchava no primeiro esfregão. A freguesia não gostou do sabão. “O barato sai caro”, dizia minha mãe, que experimentou, mas não gostou do sabão molenga. “Seu” Américo, na visita seguinte do representante do sabão com nome de rã, despediu o sujeito e preferiu ficar com o bom gosto das freguesas. 

Voltando ao presidente do partido de aluguel, Tonho Rufino, também conhecido, nas rodas da malandragem da cidade como Toinho do Pó, fora denunciado por conta de uma delação premiada. O dono de um açougue de periferia fizera revelações bombásticas contra Tonho Rufino e meio mundo de políticos locais. A republiqueta de bananas de terceira, como um jornalista da capital denominara a cidade sertaneja, na qual, nas últimas três décadas, nenhum político sério tinha surgido, andava de mal a pior. Ali se encontrava uma laia só. De todos os partidos. De todos os lados. Se um era rato velho, e roubava, o rato novo acabaria roubando mais. Havia uma sucessão de ladrões, que roubavam os parcos recursos da municipalidade, oriundos dos tributos que o povo suava para pagar. Porém, eleição após eleição, o povo votava no mesmo grupo de ladrões, que dominavam os partidos políticos locais. O mundo estava perdido. Tudo estava perdido. 

Cida fora presa porque uma delatora dissera que pagava propinas para Tonho Rufino e, mais ainda, pagava as despesas de Cida com o cabeleireiro. Até o cabeleireiro era pago com o dinheiro da corrupção, dos contratos superfaturados, da lavagem de dinheiro e do escambau todo. Lama. Toneladas de lama enchiam a cidade, como se o lamaçal de uma barragem arrombada escorresse ladeira abaixo, atingindo, em cheio, praças, ruas e avenidas. O cabeleireiro subiu nas tamancas, rodou a baiana. Ou melhor, rodou o quimono. O sujeito era da raça dos japoneses. Na cidade havia dois tipos daquela gente lá do Oriente: um policial, que andou na moda, sumiu por uns tempos e tinha voltado à cena, e o cabeleireiro. 

Cida, coitada, gostava de mudar de penteado a cada semana. Tentava ajeitar-se, mas não tinha jeito. Dizia-se na cidade que ela não precisava de um cabeleireiro, mas, sim, de um arquiteto, que lhe repaginasse. Línguas ferinas...! 

A Justiça afastara do cargo o vereador Tonho de Rufino. Usava de dois pesos e de duas medidas. Antes, em idêntica situação, outro vereador fora preso. Era de outro partido, tão corrupto quando o de Tonho de Rufino. Eram, todos, gatos do mesmo saco, ratos da mesma toca. Ladrões. Sanguessugas do povo. 

Na cidade, muita gente estava enredada com uma operação policial denominada “Avião a Jato”. Um ex-presidente estava atolado. Ex-presidente da Câmara Municipal. Outros antes dele, também. Assessores, empresários, gente daqui e dali. Uma cambada da desgraça. Até o presidente da Câmara de plantão, que ali chegara de forma mais ou menos espúria, na visão dos seus opositores, estava na berlinda. Algumas prisões já tinham sido efetuadas. As delações se sucediam. Conflitos judiciais. Bate-bocas. O mundo jurídico estava entrando num processo de destrambelhamento. Nem todos falavam a mesma língua. Alguns nem falavam: balbuciavam, grunhiam. 

Uma nova operação policial estava em marcha: era a Operação Lágrima de Cobra. Uma “jararaca” ainda estava solta. Forças ocultas, mas nem tanto, aglutinavam-se para agarrá-la. Seria questão de tempo. Apostas eram feitas na cidade. Muita gente poderosa, que não tolerava a tal “jararaca”, grunhia para acertar-lhe a cabeça e, assim, matá-la de uma vez por todas, ou, no mínimo, bater-lhe na espinha, para aleijá-la. O que importava era não permitir que a tal “jararaca” voltasse à toca, que tanto almejava. Até ali, contudo, só tinham acertado o rabo da “jararaca”. Por isso, as forças ocultas, mas não tanto, roíam as unhas, morriam de raiva e de desespero. O cerco se fechava contra a “jararaca”, mas novas provas alcançavam outras cobras. Se a Justiça agisse de maneira isonômica, haveria de faltar veneno no mercado. 
Nenhuma obra restaria solta. 

Cida de Tonho Rufino, enfim, foi levada para depor junto ao juiz Mororó. Este começou perguntando: “A senhora confirma que teve despesas do cabeleireiro pagas pela dona da agência de publicidade Mourisco Santanense?”. A interrogada arregalou os olhos e disparou: “Doutor, com todo o respeito, o senhor não me está confundindo com outra pessoa, não?”. O juiz fez de conta que não entendeu. 

A Operação Lágrima de Cobra haveria de prosseguir. Neguinho tremia pela cidade afora. Cortava prego com o dito cujo. E ainda tinha um áudio demolidor rolando e causando rebuliço. Pobre cidade! Estava tudo prestes a se desmontar. Quanto ao povo, tadinho dele. 

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